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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Paulo, buscas judiciais 10 anos depois dos factos suspeitos não é já demais?

É até difícil de conceber que dados novos surgiram agora, 10 anos depois. Estamos a falar da TAP, claramente.

Parece uma música do Paulo de Carvalho.

10 anos é muito tempo, não é? De facto, as buscas de ontem à TAP, 10 anos depois da privatização. À TAP e a uma série de entidades relacionadas com a privatização. A privatização foi em 2015, as buscas estenderam-se agora, de facto, ao Grupo Barraqueiro, que foi um dos compradores, à Parpública, a entidade do Estado que vendeu, a empresas de consultoria, escritórios de advogados, sobre factos, repete-se, que ocorreram há 10 anos. Há a suspeita de crimes cometidos na privatização da empresa, na forma como foi financiada a compra pelos investidores, liderados então por David Neeleman. Mas uma década depois, o que as autoridades esperam encontrar? Haverá muitos documentos, certamente, e-mails por aí fora. E se estão a recolher dados agora, quantos mais anos vão demorar depois a analisá-los? Os gigabytes de informação seguem ali. E depois quando é que vão chegar a uma conclusão sobre os dados que agora recolheram?

Só lá para 3022.

Será que vai ainda ser este século ou já no século XXII que isto vai acabar? Tudo isto é muito bizarro. Obviamente que a justiça tem que atuar, mas visto de fora, 10 anos depois, não se percebe muito bem porquê.

E percebe por que no SNS a discussão vai sempre parar às urgências, Bruno?

É o que dizem os números. Em dois anos e meio, de 2022 até ao primeiro semestre de 2024, registaram-se quase 16 milhões de admissões nos serviços de urgências do SNS, isto segundo dados ontem divulgados pela Entidade Reguladora da Saúde. O rácio de episódios de urgência foi de 64 por 100 habitantes, quando a média dos países da OCDE está nos 26,6, portanto, mais do dobro do que a média da OCDE. Ainda assim, a porcentagem de admissões por iniciativa do próprio utente tem vindo a diminuir, o que pode significar que as pessoas estão a ligar para a linha SNS antes de se dirigirem às urgências. Este é um dado importante, porque metade destes doentes autorreferenciados é atribuída a prioridade pouco urgente ou não urgente. O que demonstra também que as urgências continuam a ser uma porta de entrada preferencial no SNS, não porque as situações sejam em si urgentes, mas porque não há resposta nos cuidados de saúde primários. E enquanto isto não se resolver, a discussão sobre o SNS vai sempre parar às urgências. Continuamos a ter aquilo que o médico dizia há uns tempos ser um sistema urgentocêntrico.

Pois é. Entretanto, grão a grão, passo a passo, pouco a pouco, o governo vai tentando garantir a aprovação da reforma laboral?

Lentamente é isso. Dia a dia vai havendo novidades. O governo tem retirado propostas mais polêmicas ou tem amaciado propostas mais polêmicas em relação ao seu documento inicial, e sobretudo temas onde se sentiu mais isolado. E ontem o governo retirou a medida que dificultava a recusa de trabalho noturno ou ao fim de semana por parte de trabalhadores que tenham filhos com menos de 12 anos. Era um dos temas mais polêmicos também. A nova versão já chegou ao GT. Conseguir o acordo com as centrais sindicais, mesmo com o GT, já parece impossível, dada as posições extremadas que já se colocaram. E mesmo antes do documento estar fechado e com o GT já também a garantir ou a formalizar a sua adesão à greve geral do próximo mês. Mas o governo tem de garantir duas coisas. É o acordo com os parceiros sociais, eventualmente, mas também a aprovação no Parlamento.

E a do Parlamento conta um bocadinho mais, não é? No sentido de que-

Conta mesmo mais, porque é assim que conta. Isto é, o Parlamento pode aprovar uma reforma laboral que não tenha sido assinada por mais ninguém na concertação social. Politicamente, não é muito favorável ao governo, mas formalmente pode acontecer. E aqui estas mexidas no documento vão garantindo a aproximação, sobretudo às posições do Chega. O governo precisa ou do Chega ou do PS para aprovar. Portanto, este é um jogo em dois tabuleiros e o governo tem que trabalhar em ambos.

Bruno, então e Luís Filipe Menezes vai separar as águas?

Se fosse Luís Filipe Moisés ia separar as águas, vai limpar as águas de Gaia. Perdão, a empresa Águas de Gaia. É isso que vai limpar. E assim que chegou o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, começou a limpar a casa e parece que este anexo em particular, a Águas de Gaia, estava assim um pouco desarrumado. Segundo o autarca, eram mais chefes que índios. Isto é uma afirmação de Luís Filipe Menezes. Mas agora, entretanto, já devem ser mais índios do que chefes, porque em 48 horas o presidente da Câmara passou de 40 chefes para quatro ou cinco, segundo o próprio.

De 40 para quatro ou cinco. Isso é uma grande--

Uma limpeza.

É mesmo uma verdadeira limpeza. Isto em nome da contenção de custos e da eficiência da gestão e também anulou um contrato que existia para a recolha de resíduos. Parece que as coisas estavam um bocadinho confusas em Gaia. Luís Filipe Menezes disse que encontrou a empresa Águas de Gaia numa situação financeira calamitosa, com um passivo bancário de quase 30 milhões de euros. Tivemos aqui convidados que confirmam que ser presidente de câmara é mais importante do que ser ministro. Olhamos para os orçamentos de algumas câmaras e calculamos que deva ser assim. Convinha é que a gestão não fosse amadora, fosse um bocadinho mais profissional.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.