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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Então Bruno, andamos a falhar na mentalidade Ronaldo.

É verdade, e logo na mentalidade do Ronaldo das finanças, como chegou a ser conhecido Mário Centeno. Ele era um dos candidatos à vice-presidência do Banco Central Europeu, foi ultrapassado por um croata, Boris Vio Sic. O ministro das Finanças, o atual, Miranda Sarmento, justificou a retirada do nome de Centeno para uma segunda votação, com o argumento de que à partida já era uma eleição bastante difícil, porque os últimos vice-presidentes do BCE eram oriundos de países da Europa do Sul e, portanto, por uma questão de equilíbrio, tornava-se mais difícil a escolha de Mário Centeno. Mas garante Miranda Sarmento que o governo estava empenhado no apoio à candidatura, porque é o que acontece sempre que um português está na calha para uma posição em organismos internacionais, juntamo-nos todos, fazemos muita força para estarmos representados ao mais alto nível lá fora. É triste quando um português perde e nos põe a pensar que afinal nem sempre somos os melhores do mundo. Não somos todos Cristianos Ronaldos, precisamos de melhorar muito a nossa mentalidade Ronaldo.

Paulo, então e se a eleição fosse feita pelo número de notáveis que apoia cada candidatura?

Ora bem, se o critério fosse esse, António José Seguro ganhava para já com mais de 90% dos votos. Isto para não dizer 100% dos notáveis. Porque desde a noite de domingo que uma série de pessoas que integraram as candidaturas derrotadas, que vão manifestando, vão declarando o seu apoio ao candidato socialista. São dezenas, certamente, se as formos contabilizando, aquelas que são notícia. E André Ventura? André Ventura não se identifica a nenhuma. Eu, pelo menos, ainda não reparei ninguém dessas candidaturas mais à direita ou menos à direita, que tivesse declarado o apoio a Ventura. Mas sabemos que a eleição é feita pelo povo, pelos eleitores, e André Ventura lembrou isso muito bem ontem. E esta eleição também já mostrou na primeira volta que ninguém é dono dos votos que os partidos ou coligações tiveram nas legislativas, porque se os notáveis contassem, por exemplo, Marques Mendes ou Gouveia e Melo não tinham ficado pelo caminho. Porque era olhar para aquelas primeiras filas nos eventos de campanha e estava lá muita gente. Por isso, apesar deste desfile de nomes, é melhor não criar em ninguém falsas ilusões com os famosos e esperar o que é que dia 8 de fevereiro o povo anônimo tem a dizer.

Então Bruno, os extremistas andam à solta?

Desde ontem, Maria João, há menos alguns à solta no âmbito da operação a que deu o nome de Irmandade. A Polícia Judiciária deteve 37 suspeitos e constituiu 15 arguidos, estão indiciados de pertencerem a uma associação criminosa neonazi, também suspeita de prática de atos de discriminação e de incitamento ao ódio, nomeadamente contra minorias étnicas e imigrantes. Esta organização é o grupo 1143, que é liderado por Mário Machado, que atualmente cumpre pena de prisão e também que viu a cela onde está ser alvo de buscas. Entre os suspeitos, há elementos pertencentes a claques de futebol, neste caso os Super Dragões e a Juventude Leonina, mais uma prova de ligações perigosas entre claques e radicalismo político. E o que vemos é que a retórica incendiária e a normalização do discurso de ódio são apenas a ponta de um iceberg. E lá no fundo, muitas vezes escondido, há muito radicalismo, e muito radicalismo bastante perigoso.

Já em política, Paulo, os rituais também são muito importantes?

São fundamentais, até para nós olharmos e vermos que as coisas estão como nós as conhecemos, de alguma maneira. Ainda que se saiba que esses rituais não passam disso mesmo e que nunca vão dar resultados práticos nenhuns. Aqui falamos do pacote laboral, a proposta que o governo tem em cima da mesa para alterar algumas regras das leis do trabalho. A CGTP e o primeiro-ministro reuniram-se ontem para ver se era possível o entendimento. Mas alguém acreditava nalgum sucesso mínimo desta cimeira, desta reunião? A CGTP entrou e saiu a dizer que não quer menos do que a retirada da proposta do governo. O governo diz que não retira a proposta e pronto, foi assim. "Queremos que retirem a proposta." "Não retiramos." "Obrigado, boa tarde." Terá sido mais ou menos assim. Portanto, não há nada a fazer.

Ficou em ata.

Claro, ficou em ata, já se sabia. Cá está este ritual de toda a gente tem que dizer que negociou e que conversaram com as partes todas. O governo tem que dizer isso, a CGTP também tem que dizer que tentou ao máximo. E a CGTP saiu, obviamente, a dizer que vai preparar novas formas de luta. Provavelmente, vem aí mais uma greve.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.