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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Calma, paz é o que reina entre Belém e São Bento?

Paz na Terra aos homens de boa vontade. Parece que estamos a caminho de uma reedição da famosa dupla Marcelo e Costa, mas sabemos como é que aquilo acabou.

E ainda não começou a chover, para perceber se há chapéu.

Se há guarda-chuva para os dois. A outra não acabou assim muito bem e a certa altura era só juras de amor. Para já, a dupla Seguro e Montenegro tem trabalhado em conjunto para que a relação seja o mais profícua possível, sem grandes solavancos. Seguro informa Montenegro com antecedência, Montenegro pede aos que o rodeiam que não façam nada para hostilizar o presidente, o que parece simplesmente sensato. O primeiro-ministro já tem tantas frentes de batalha que abrir mais uma, ainda por cima contra o presidente, não seria muito avisado. Quanto ao presidente, também não teria muito a ganhar em forçar conflitos com São Bento, quando a estrada que tem pela frente é ainda tão longa e sendo o caminho longo, já sabemos, é bom não irritar o companheiro de viagem.

E Bruno, estamos num novo impasse?

Muitos impasses na política portuguesa, depois do impasse da reforma laboral, que ainda se mantém. Agora temos o impasse da prestação social única. André Ventura já vai fazer as suas exigências, anunciar quais as contrapartidas fundamentais para deixar passar o diploma no Parlamento, tempo mínimo de contribuição para quem vem de fora, os imigrantes, corte nos rendimentos mínimos e atribuição dessas prestações às famílias que têm crianças com necessidades. Impasses destes são normais quando temos um governo minoritário, sem parceiros preferenciais. A propósito de cada medida, vemos um leilão de propostas em que cada um licita o peixe ao preço que mais lhe convém, com muito ruído e às vezes pouco tino. Digamos que é o mercado da política a funcionar, mas aqui o mercado naquele sentido mais de um mercado do peixe.

Vamos ao país real, Bruno. Quem lidera o ranking dos maus pagadores?

Pois é, às vezes nós esquecemos de que há vida para lá dos impasses parlamentares, embora algumas autarquias também deixem em suspenso a vida dos fornecedores. É o caso das câmaras que lideram o ranking dos atrasos de pagamento a fornecedores. Setúbal, Melgaço e Santa Comba Dão são recordistas. Os dados são da Direção-Geral das Autarquias Locais e mostram que as referidas câmaras, que pagam a 163, 124 e 119 dias, são as que apresentam um pior desempenho. Mas no final do ano passado eram 24 as autarquias que pagavam as faturas a mais de 60 dias, dados que até podem não refletir toda a realidade, porque há informação que as câmaras têm de enviar para a Direção-Geral e que ainda não foi enviada. Ora, esta demora nos pagamentos tem penalizações para as autarquias, uma medida que vem dos tempos do governo de José Sócrates. As autarquias que acabam por sofrer um corte nas transferências de valores do Estado central. Mas parece que nem isso é suficiente para que algumas paguem a tempo e horas. É assim que se chama esse programa, pagar a tempo e horas.

E Bruno, a transparência ou a falta dela é um dos nossos pecados capitais?

É um dos mais persistentes, pelo menos. Desta vez o tema são os concursos para a contratação de médicos para o SNS. Seis meses depois de ter sido aberta a segunda fase, em dezembro de 2025, os resultados continuam por conhecer e os sindicados queixam-se da falta de informação sobre as vagas, as colocações e os prazos. A direção executiva do SNS não divulga a informação e remete para as 39 unidades locais de saúde, que puseram a concurso na altura 447 vagas para médicos hospitalares. Ou seja, o que aqui temos é a direção executiva a chutar a bola para o lado. Em Portugal, há certos procedimentos administrativos que parecem entrar numa espécie de Triângulo das Bermudas burocrático, ou ficam então cobertos por um véu opaco que impede de conhecer a realidade tal como ela é.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.