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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Esta é uma velha regra da física. Quando o nível baixa, o interesse sobe.

O interesse das redes sociais, sim, Carla, mas não sei se os eleitores apreciam a descida tão acentuada do nível retórico na Assembleia da República. Há uns meses, a deputada do PS, Eva Cruzeiro, ouviu no Parlamento um "vai para a tua terra", vindo da bancada do Chega, respondeu chamando aos deputados do Chega racistas e xenófobos. Acontece que o Parlamento decidiu censurar o comportamento da deputada do PS, com esta indicação de chamar racistas e xenófobos aos deputados de uma determinada bancada parlamentar, tratando-os por vocês, constitui um comportamento inadequado e inaceitável por parte de uma senhora deputada à Assembleia da República. É verdade, podemos concordar com isto, mas também é preciso um bocadinho de contexto. É admissível dizer a qualquer pessoa, ainda mais na Assembleia da República, a um deputado ou a uma deputada: "vai para a tua terra." Não se trata isto de uma tirada claramente racista e na ânsia de ser salomónico, o Parlamento põe ao mesmo nível a ofensa e a resposta. O nível é baixo, isso não há dúvidas. Quanto ao interesse, não é certo que aumente.

Paulo, então e a embrulhada dos juízos do Tribunal Constitucional pode ser ainda mais complicada.

É, já não está fácil o entendimento para a admissão dos três lugares de juízes que estão em aberto. A AD, o PS e o Chega não se entendem, mas tudo pode ainda ficar pior, mais complicado.

Mais ainda.

Mais ainda. E por quê? Porque José João Abrantes, que é o presidente neste momento em exercício do Tribunal Constitucional, estará de saída do próprio cargo do Palácio Ratton. O mandato dele só termina em 2029, portanto, ainda havia três anos pela frente. Os mandatos são de nove anos, mas o juiz já terá assumido dentro do tribunal que pretende deixar o cargo em abril ou maio. Ora bem, abril ou maio é já ali. Aliás, abril é daqui a sete dias. Isto foi notícia do Público. E isto coloca, obviamente, esta perspectiva, mais pressão ainda na escolha que está em curso, porque José João Abrantes foi indicado pelo PS quando acedeu ao Tribunal Constitucional. O PS, neste momento, já se queixa da perda da influência no Tribunal Constitucional. Portanto, saindo ele, é menos uma pessoa da sua área, da área socialista, se quisermos, ou indicada, pelo menos pelos socialistas, no Tribunal Constitucional. Já agora, talvez fosse avisado que o presidente em exercício oficializasse já a sua saída a prazo, ou então desmentindo que não vai sair, porque a fazê-lo vai sair já dentro de um ou dois meses, para se resolver tudo em pacote, porque senão estamos a resolver três cargos e daqui a dois ou três meses vamos estar metidos na mesma embrulhada dificuldade de entendimentos no Parlamento para a escolha da pessoa que vai suceder a José João Abrantes. Enfim, isto parece que está tudo embrulhado mesmo.

Olha, não sei se é um embrulho, mas é com certeza um retrocesso, o novo regime da identidade de género, não é, Bruno?

É assim que a esquerda gosta de apresentar a posição da direita sobre os temas ditos fraturantes. E por muito frágil que seja o consenso científico sobre certas matérias, a esquerda atira logo com o retrocesso civilizacional, com o ataque aos direitos humanos e fundamentais. Bem, o que os três projetos da direita aprovados na sexta-feira fazem é, sim, um retrocesso cronológico. Voltamos mais ou menos à lei de 2011. Volta a ser obrigatório que uma pessoa que não se identifica com o sexo de nascença apresente uma validação médica para poder mudar o nome e género no registro civil e deixa de ser possível que os menores entre os 16 e os 18 anos possam mudar de género no registro, com relatório médico e consentimento dos pais, o que acontecia até agora. Perante estas medidas que não agradam à esquerda, acena-se logo o papão do caos, do regresso à Idade da Pedra. Não vale a pena exagerar o regresso ao passado, é 2011, e 2011 não foi assim há tanto tempo.

Pois. E olha, então e Paulo, quem dá mais?

Pois é sempre assim. Quando alguma dificuldade se atravessa no nosso caminho, abre-se logo leilão entre os partidos, os partidos e os governos em funções, para ver quem é o mais generoso nas propostas de ajuda. Temos a guerra, temos o aumento do preço dos combustíveis. Neste momento, o governo introduziu aquela redução no ISP, cujo mecanismo já vinha do governo de António Costa, e reforçou também em €10 o apoio para aquela medida que todos gostamos muito, a bilha solidária. Mas os partidos vão todos dizendo que não chega, pedem mais medidas contra os efeitos da guerra. E são muitos, a IL, o PCP, o Livre, o Bloco de Esquerda, o PAN. Defendem, por exemplo, que se baixe o IVA da bilha de gás para 6%, que se fixem regras na comercialização dos combustíveis. Enfim, não todos estes partidos defendem tudo, mas pelo conjunto é assim, ou que se controlem os preços dos alimentos essenciais. Além, obviamente, do IVA zero num pacote de produtos alimentares de bens essenciais. Portanto, vamos ver o que dá este leilão, isto numa altura em que ainda nem sabemos sequer a profundidade e a duração que aí vêm. Ainda estamos mesmo dentro do túnel às escuras.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.