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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Paulo, diz lá, vamos ter outro brilharete como o orçamento do ano passado?
Tudo indica que sim. Daqui a pouco, esta manhã, vamos ficar a saber isso quando o INE divulgar os dados finais do excedente orçamental do ano passado. Mas o ministro das Finanças já deu a entender ontem que o saldo final das contas públicas ultrapassou positivamente aquilo que era a previsão do governo. O orçamento de Estado previa um excedente de 0,3% do PIB e poderá ficar ali pelo dobro ou até mais. Joaquim Miranda Sarmento disse ontem, de facto, e citamos aqui o ministro: "Boa surpresa, uma boa notícia para o país e que será muito acima das previsões das entidades e daquilo que era a expectativa". Isto também vai ajudar, obviamente, as contas deste ano. É melhor começar com o excedente maior no ano passado do que de outra forma, sempre há ali uma folga em caixa. E as contas deste ano sabemos que vão ser muito mais apertadas com as despesas, com os juros da dívida e agora com o imprevisto impacto da guerra. Portanto, é uma boa notícia e ainda bem que ela chega, porque elas têm sido raras, não é?
Claro. Bruno, e há uma perseguição à direita?
É disso que se queixa André Ventura, isto depois de terem sido noticiadas as buscas feitas pela PJ na Câmara de Albufeira, que visavam Rui Cristina, o presidente da autarquia, por suspeitas de discriminação e incitamento ao ódio. Numa reunião da Assembleia Municipal, o autarca eleito pelo Chega disse que não havia dinheiro para a etnia cigana enquanto houvesse albufeirenses com falta de casa. Voltamos aqui sempre ao mesmo: para a República ou numa república não existem comunidades, existem indivíduos. Se Fulano tem dívidas ao Estado, por exemplo, não recebe apoios, independentemente de ser Fulano, Sicrano, Beltrano ou cigano. Negar apoio a pessoas de etnia cigana, remetendo-as para o fundo de uma lista de apoios, pode ser, de facto, um problema de discriminação. O que se pode questionar aqui também é a atuação das autoridades. Será que era preciso tanto barulho, tanto ruído por causa de declarações que foram públicas do presidente da Câmara de Albufeira? Mas antes de apontar o dedo às autoridades, André Ventura devia olhar para dentro, não só neste caso, mas em muitos outros que têm aparecido nos últimos tempos.
Sim. Paulo, e será que nunca conseguimos fazer acabar uma obra na data prevista? Faltou aí um nunca.
Faltou.
Era um que faltava.
Nunca, Luís. Garanto. É verdade. Isto parece que faz parte da nossa cultura e claro que não podemos corromper essas características do país. Desta vez falamos do Hospital de Lisboa Oriental, um grande hospital que está projetado há muito tempo para Lisboa, que é suposto substituir seis hospitais antigos que estão espalhados pela cidade. Fala-se dele há muito tempo e em 2017, imagine-se, é nessa altura, o então secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, fez a apresentação pública da obra e portanto aí pensou-se: "É desta". E nessa altura, ele disse: "A obra vai arrancar já e vai estar pronta em 2023."
Portanto há três anos.
Exatamente, já está há três anos. Não andem à procura dele porque ele não existe, ok? Claro que depois meteu-se a pandemia, meteram-se várias eleições, vários Natais, e só em 2024, agora já com Luís Montenegro a governar, é que as obras começaram de facto. Mas é impossível nós vermos uma obra acabar antes de ter começado, não é? E o calendário foi sendo revisto. A conclusão da obra começou por ter uma nova data em 2027, depois passou para 2028 e agora já vai a meio de 2029. Eu sei que bem batizaram este hospital de Hospital de Todos os Santos, mas nem com todos os santos a ajudarem a coisa funciona melhor. De facto, vai sendo uma tristeza de país.
Se é de Todos os Santos, também é do São Nunca. Do São Nunca há de estar. É Todos os Santos.
Bruno, como é que é? Pela boca morre o peixe?
Estava-se mesmo a ver que isto dos restaurantes que Isaltino Morais tanto promove e elogia ainda ia dar problemas e eles aí estão. Parece que vários funcionários da Câmara de Oeiras, apesar de receberem subsídio de alimentação, ou então tinham mesmo direito a despesas de representação, como o caso do próprio presidente da autarquia, apresentavam faturas de refeições para serem pagas pelo fundo de maneio da câmara, com a justificação de serem reuniões de trabalho. Ora, este hábito, não lhe chamemos esquema, terá custado mais de 150 mil euros aos cofres da câmara durante sete anos, cerca de 1800 € por mês, mais ou menos. Digamos que é um valor exagerado, mesmo tendo em conta que se come bem por aqueles lados, como temos tido a oportunidade de ver nas várias publicações de Isaltino Morais nas redes sociais. Mesmo que se venha a apurar que o procedimento é legal ou habitual em várias autarquias, não deixa de parecer um gasto um bocadinho exagerado e dispensável e, por isso, mesmo que esteja legalmente enquadrado, não deixa de ser eticamente censurável. Ou então teremos de inventar aqui um novo slogan: eles comem, mas fazem.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.