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Um em cada oito adolescentes hoje estão fazendo terapia com o ChatGPT.
Quão preocupante é isto?
O número de transtornos de ansiedade, que é a ansiedade patológica, e de depressão, está cada vez mais acometendo jovens adolescentes e crianças. E os quadros estão cada vez mais graves. As pessoas estão se comparando a pessoas que se colocam na rede social só exibindo o que é bom. Se eu vou para a rede social, fico lá e não tenho a minha segurança, acaba que você está sempre se comparando com alguém que você não sabe nem se é verdade.
Como é que eu posso fazer mais amigas em idade adulta, pessoas que se identifiquem também comigo, e como é que eu posso encontrar alguém? Porque ou se vai para as dating apps e aquilo também não desenvolve e estamos a falar com o telemóvel na mesma. De que forma é que nós podemos voltar à realidade?
A ser humanos.
Sim, a ser humanos.
Existem empresas especializadas em ChatGPT, comprometidas em se relacionar afetivamente com as pessoas jovens, porque as pessoas não estão se relacionando. A solidão vai ser uma coisa que vai dar muito lucro. Se você foi a um encontro com um cara e deu tudo errado. Derramou vinho, você estava com roupa branca, manchou.
Estamos a dizer, fica uma história para contar.
Fica uma história para contar. Nós somos feitos de histórias. Veja se você está criando boas histórias que vão ser as suas memórias. Aí você está no caminho certo.
Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje não estou no meu cenário, porque vamos ter um episódio muito especial. Tenho aqui comigo, para uma conversa um pouquinho diferente, pela primeira vez, a Ana Beatriz Barbosa da Silva, que é uma psiquiatra muito conhecida no Brasil e que veio a Portugal fazer dois eventos, um em Lisboa e no Porto, à volta de saúde mental, porque também vai lançar agora um livro com a Porto Editora, que é "Um Tempo para Mim", que é um livro focado em autocuidado mental, journaling, todas estas reflexões que eu também vou partilhando muito de tirarmos um tempinho para cuidar de nós. E neste episódio vamos falar um pouquinho sobre a nossa sociedade, como é que estamos agarrados às redes sociais, a perder a capacidade de ter relações. Vamos falar de tudo isto, do impacto das redes sociais na nossa saúde mental. Vários temas diferentes que eu também costumo abordar aqui, desta vez com uma psiquiatra que fala muito à volta destes temas também. Uma conversa muito interessante. Eu espero mesmo que vocês gostem e vamos a esta conversa. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. Ana, dizem, e várias vezes já ouvimos esta expressão, que a minha geração, que eu tenho 27 anos, é a geração mais ansiosa de todos os tempos. E isto é por quê? Porque nós temos muitos estímulos, não conseguimos focar e acha que isto é verdade?
Eu acho que é verdade. Não acho que é só a geração. Eu acho que todo mundo que está vivendo esse tempo, está vivendo muito mais ansiedade. Isso é um fato, os números não mentem. Para você ter uma ideia, antes da pandemia, já havia uma pandemia de ansiedade e depressão no mundo. Então depois da pandemia, isso aumentou mais ou menos 25%. Aliado a isso, a gente ganhou, depois da pandemia, uma audiência de redes sociais, de YouTube, sem precedentes. Então hoje a gente tem no mundo redes sociais, YouTube, tomando conta praticamente de um território que era exclusivo da televisão e que era exclusivo do rádio. Então a gente tem isso e tem uma massificação de influencers. Hoje todo mundo que adquire um número X de seguidores numa rede social, se diz influencer. A questão é que os influencers hoje, a maioria deles coloca o que deve ser feito para você ser uma pessoa de sucesso. E aí começou uma coisa que não tinha antes, a comparação. As pessoas estão se comparando a pessoas que se colocam na rede social só exibindo o que é bom. Então, o que acontece? Se eu vou para a rede social, fico lá e não tenho a minha segurança do que eu vou fazer, do que eu estou fazendo, do que eu acredito, acaba que você está sempre se comparando com alguém que você não sabe nem se é verdade. Se é de verdade.
Mas a falta de vulnerabilidade na internet?
Com certeza, o excesso de internet traz uma insegurança, principalmente para os mais jovens, porque todo mundo parte do princípio que aquilo que está sendo mostrado é verdade. E a gente sabe que nem tudo que é mostrado na rede social, em geral, as pessoas mostram o lado muito bom, mas omitem as coisas mais delicadas. Então o nível de ansiedade está subindo e o nível de depressão está subindo. E eu acho que vai continuar subindo.
E estava a dizer no início que acha que é transgeracional.
Eu acho que é trans.
Na minha geração, sendo aquela secção de transição de que saí da escola, saí da faculdade, do padrão definido, ainda acrescenta muito.
Muito pior, porque, por exemplo, até a faculdade, tudo é pautado. Você sabe o que você vai fazer de matéria, você sabe se tem que fazer estágio, você sabe quantas horas de estágio você tem que fazer. Agora, quando você sai da faculdade, é você por você. E aí você perde aquela segurança que a estrutura de uma universidade, de uma escola, de uma instituição te dá. E aí você começa a ter a responsabilidade de fazer por você, errar por você, se corrigir por você. Isso dá uma ansiedade que é muito grande. Se tudo for feito direitinho, é uma ansiedade positiva. É o que a gente chama do estresse positivo. Porque se a sua geração não tiver ansiedade, pós-faculdade, o que acontece é que você não se move.
Procrastina.
Se procrastina. "Tá bom", vai deixando. A ansiedade faz com que a gente desperte e que a gente vá correr atrás. Então se tudo der certo, essa ansiedade de vocês pode se transformar naquele pontapé inicial, na ousadia, na coragem, mas se a coisa não der certo, essa mesma ansiedade pode se acumular e trazer o adoecimento.
E no fato de estarmos a falar mais até do lado profissional, muitas vezes, esta ansiedade e esta vontade de fazer acontecer, também leva ao extremo de romantizarmos o hustle, e de que de repente nós temos que estar sempre a trabalhar e até aos 30 temos que ter a vida resolvida. Que impacto é que isto tem, principalmente nos jovens, nas pessoas da minha geração, de quererem pôr a vida em pausa e eu agora vou trabalhar muito e só mais tarde é que vou viver. Faz sentido esta abordagem na vida?
Faz sentido, é isso que em geral ocorre. As pessoas falam assim: "Agora vou me dedicar 100% à profissão e vou deixar família, vou deixar constituição de família, de filhos para depois". O que a gente vê é que isso não é bem assim. O que acontece é que depois que você deixa tudo de lado, você vai ter muita dificuldade de voltar, por exemplo, a se relacionar com essa visão de constituir família. Porque enquanto você está nessa: "Vou trabalhar", o que você pensa é ficar eventualmente com alguém e essa coisa ser uma coisa que não dê muito trabalho, porque se der muito trabalho, atrapalha sua vida profissional. Então acaba desenvolvendo o quê? Relações superficiais. E depois quando você precisa, lá na frente, você vai precisar de relações profundas, afetivamente consistentes, porque quando você adoece, não é o ficante que vai ficar com você. Não vai ser esse amor rapidinho, de diversão, que vai te dar suporte. Não é esse amor que vai ser um bom pai para filhos. Não é esse amor que vai ter projetos em comum, porque uma relação precisa de projetos em comum.
Mas já estamos a escolher mal?
Eu acho que nem está escolhendo. Por isso mesmo, por esse pensamento, eu tenho que me fazer profissionalmente, acaba botando como se afeto fosse uma coisa de perda de tempo, nesse momento que vocês se encontram, entre 25 e 30 anos. Porque hoje tem uma marca, você tem que chegar aos 30, quase que com a vida feita.
Pois é isso, é a roda de que chega aos 30, já temos que ter o emprego que sempre quisemos, já temos que ter a casa comprada, temos de ter o casamento.
Exatamente.
Isto tendo a causa, novamente, mais ansiedade.
Muita ansiedade. Muita. E adoecimento. Não é à toa que essa tua geração-
Burnout.
Burnout, ia falar isso. O que é o burnout? O burnout nada mais é do que a exaustão do trabalhador. Você joga tudo ali naquele ambiente profissional e você acaba não vivendo as outras coisas. Então o burnout é a exaustão, que depois vai para a depressão, que caminha para a depressão, que aí vem esse vácuo. E nessa hora do vácuo, o afeto é o que resolve.
Pois, porque muitas vezes nós estamos naquela escada de agora é o próximo achievement, e quando se lá chega, não era isso tudo.
Não. Ou era tudo, mas não dá para chegar sozinho. O sucesso, seja lá qual for, para quem for. O sucesso, se ele vem muito rápido ou ele vem sem consistência de apoio, de família, de amigos, ele acaba sendo uma cilada. Ele não se mantém, você chega lá e despenca.
Não tem com quem celebrar?
Não tem com quem celebrar. E não tem com quem caminhar, porque sucesso não é difícil de ter. O mais difícil é mantê-lo, porque você tem que o tempo todo no sucesso se reinventar. Na minha geração, era de 10 em 10 anos, eu falava: "Ah, tenho 10 anos para deixar de atender, para virar palestrante, 10 anos para virar só escritora, 10 anos para virar, hoje, podcaster". Vocês é tudo em três, cinco, no máximo, estourando. E a próxima geração vai ser mais rápido ainda. Então essa questão da gente começar a equilibrar, por isso que a cultura do wellness está tão em moda, porque a geração Z está vendo que não adianta chegar, se você vai chegar doente.
Pois era isso que eu ia dizer, nós estamos a falar do burnout e da indisponibilidade mental, mas também acaba por ter resultados no físico, porque se nós só vivemos para romantizar o trabalho, deixamos de ter relações profundas, deixamos de ter a nossa sanidade mental, mas também a saúde física. A gente falou de ansiedade, falou de depressão, mas na parte física nunca teve tanta dislipidemia, colesterol alto. Por quê? Porque a gente vive hoje, ninguém mais come comidinha caseira. As pessoas estão na rua, estão no trabalho e fazem fast food. Aqui não tem o iFood, no Brasil tem o iFood, que é um delivery de comida.
Nós temos Glovo, Uber Eats.
Isso, mas em uma violência que ninguém mais faz comida. Hoje está se construindo apartamentos para a geração de vocês, que não tem fogão, não tem cozinha. Não é possível.
É decorativo. Tem uma boquinha lá para você esquentar um café, mas se você compra uma cafeteira, nem precisa o fogão. Então está acontecendo isso. Por exemplo, em grandes cidades como São Paulo, os imóveis que mais vendem hoje para a geração de vocês, são imóveis muito pequenos, de 40 metros, que você vai para dormir É um dormitório bonitinho, bem arrumado, mas é um dormitório.
Mas isso acontece por quê? Porque estamos só focados na carreira, é isso?
Exatamente.
E como é que podemos mudar o chip pra isso não acontecer?
Eu acho que o chip é vendo a realidade. E isso eu acho que a geração Z está vendo. Não vale chegar, se chegar, com a saúde comprometida. O que a geração Z hoje está fazendo? Tem encontro de trabalho, mas hoje estão querendo conhecer pessoas pra ter um relacionamento mais sério, não é mais na balada. Eles estão querendo conhecer na aula de yoga.
No Red Club, no clube da corrida.
Exatamente. Ou no spa, ou no retiro espiritual. E isso vai ficar cada vez mais em alta. Se alguém tiver que investir no mercado, vai ser o wellness. Por quê? Porque esse mercado vai absorver todo o adoecimento que essas novas gerações estão trazendo. Não tem como, porque é uma conta que não fecha. Se você pega dois anos de estresse intensivo, entre dois anos e três anos, que você bota marcha firme na profissão e não alimenta o resto, você vai adoecer, tanto física quanto mentalmente. A questão é: ao adoecer, você vai sacar os primeiros sinais de adoecimento e vai puxar o freio, ou você vai direto pra depressão, e aí você chega na depressão, você está num vazio. E aí preencher esse vazio, é muito mais difícil. Então, eu acho que as novas gerações começam a se atentar que os primeiros sinais já têm que agir.
Nós já estamos muito mais conscientes também de terapia, da importância de estarmos a cuidar da nossa saúde mental. Mas mesmo assim, parece que continuamos a viver um bocadinho, a deixar as coisas irem ao limite e só, lá está, nesse ponto de rutura é que vamos pedir ajuda, e não pra prevenção. É muito mais pra curar do que pra prevenir.
Exatamente. Mas já tem uma parte da geração que começa a se atentar antes. Porque, por exemplo, nunca a geração de vocês foi tão sedentária. Sedentária em termos de atividade física. Por quê? Faz tudo no computador. É tudo na frente do computador. Nunca a gente teve tanto problema de visão por excesso de tela. Nunca a gente teve tanto problema de colesterol alto, de problemas articulares por posições repetitivas. Então assim, isso começa a ser um fato. E os que da geração perceberem isso, vão sair na frente, porque na hora que os outros capotarem, estiverem na exaustão, esses que estão se cuidando, vão passar adiante.
Mas não acha que a nível de problemas, por exemplo, articulações e coisas assim, não é uma repercussão que só vamos ver mais pra frente? E que se calhar deixamos andar. Não?
Porque está começando a vim cedo. Hoje, se você pegar a geração que fica dentro de um quarto, dentro de uma tela, fazendo home office, que com a pandemia foi outra coisa que veio, o home office, você vai ver que já tem. Se você fazer um exame, já começa a ter uma degeneração articular. Tudo que era uma coisa que viria com muito tempo, vocês estão antecipando.
A mim, no meu caso, eu acabei por tomar a decisão de mudar na minha vida, uma mudança radical pra ser mais ativa e tudo mais, porque fui fazer análises e percebi que as coisas não estavam bem.
Exatamente. Agora, você percebeu antes, que é o que começa a despontar naqueles que vão ter sucesso sustentável. Que a maioria não vê.
Pois. Acaba por, lá está, ser aquele problema que vamos pondo debaixo do tapete e deixar arrastar. "Agora deixa-me trabalhar e subir na carreira e lá pra frente cuido disso."
É porque não vai dar. A gente tem que entender o seguinte: o infarto do coração, que se tem aos 40 anos, ele começou aos 20. É que você não faz o exame pra ver. Você não faz a dosagem da gordura no sangue, você não faz a dosagem do açúcar no sangue, porque tem muito da geração que já está alterado. A tal da resistência da insulina, o excesso de comida condimentada, o excesso de comida muito calórica, acaba trazendo. E esses problemas que você antes falava: "Ah, diabetes, sei lá, com 40, 50", na realidade ele começa aos 20. E está começando antes. Tanto que hoje a gente tem, independente da tua geração, o número de transtorno de ansiedade, que é a ansiedade patológica, e de depressão, está cada vez mais acometendo jovens adolescentes e crianças. E os quadros estão cada vez mais graves. Não sou eu que estou falando. A Organização Mundial de Saúde declarou isso em 2016.
E isto é tudo resultado do imediatismo?
Com certeza, porque a gente está preocupado em chegar, mas a gente esqueceu que quando chega, você continua a viver. O pódio não é o fim. Não é a hora que você fala assim: "Ai, consegui." Tá, e daí? A vida continua depois disso.
Mas de termos também a vida facilitada, não é? Ou seja, de termos tudo na ponta dos dedos. Eu posso encomendar comida, eu posso chamar um carro, posso fazer tudo aquilo que eu quiser. Até nem preciso de ir ao shopping, posso encomendar tudo sem sair de casa.
Mas isso acaba trazendo o quê? Falta de conexão olho a olho, conexão humana real. A gente nunca teve tanta conexão, mas virtual. E tem um mercado que cresce, por exemplo, não é à toa, Mari, que hoje existem Empresas especializadas em ChatGPT e chats de inteligências artificiais gerais, comprometidas em se relacionar afetivamente com as pessoas jovens, porque as pessoas não estão se relacionando.
Pois.
Acredite se quiser. Você viu um filme chamado "Her", que era "Ela"?
Não.
Veja, porque aquilo que aconteceu, acho que era com Joaquin Phoenix, se eu não me engano, um filme maravilhoso. Ele já relatava isso. Era um cara em um mundo de muito trabalho, de muito estresse, que começa a não ter tempo de se relacionar com as pessoas, ele começa a se relacionar com o computador. E esse computador, uma mulher com uma voz maravilhosa, se eu não me engano era Scarlett Johansson. Exatamente. Ela só não recebeu o Oscar nesse filme porque não tinha Oscar para fala, porque ela não botava o rosto, era só uma voz. Só por isso que ela não recebeu o Oscar. Então ela se faz uma mulher maravilhosa, que conversa, que acorda ele bem-humorado, que conversa, que é: "Como é que foi o seu trabalho? Me conte."
É, totalmente como o ChatGPT.
Exatamente. Então isso a gente tem que entender, que todas as nossas mazelas, tem gente olhando, o mercado é vivo, no sentido, olhando para ver. A solidão vai ser uma coisa que vai dar muito lucro, em pouco tempo, em muito pouco tempo.
Eu queria entrar também neste tema de a dificuldade de nós nos relacionarmos. Parece que estamos tão conectados no telemóvel, mas depois não sabemos como nos conectar cá fora.
Na vida real.
Mas têm surgido até agora as trends dos run clubs, os clubes de corrida e tudo isso, para trazer as pessoas para a rua, mas parece que é preciso voltar a ensinar as pessoas a se relacionar.
Eu acho que a gente vai passar por isso. Eu acho que a gente vai ter livros que vão começar, livros ou inteligências artificiais, que vão começar a relembrar como é que é se relacionar, porque as pessoas não sabem mais se portar na frente das outras.
Ainda ontem estava a ouvir um episódio do Jay Shetty, que era só sobre linguagem corporal, como comunicar, como falar com pessoas, como fazer novas amizades. E parece que precisamos desse tipo de skills que estão a faltar na nossa realidade, não é?
Exatamente. Porque a gente está perdendo a capacidade, a minha geração nem tanto, a de vocês muito mais, porque eu já vivi tanto, que eu já me relacionei tanto, que hoje eu olho para trás e falo: "Não faria isso, faria isso aqui, repetiria isso". Mas vocês não têm esse lastro de vivência, principalmente porque vocês estão na vida profissional. Então chega na vida afetiva, vocês não estão sabendo como olhar, se cruza a perna, se não cruza a perna. Aí começa todo um mercado de coaches querendo ensinar como é que você se relaciona. E aí você perde a naturalidade, porque tem uma coisa que o ser humano tem, é individualidade e autenticidade. A gente se apaixona por isso, afetivamente. Se todo mundo vier pautado para falar as mesmas coisas, para olhar do mesmo jeito, a gente vai ser inteligência artificial se relacionando com inteligência artificial.
Não é fácil, eu sei. E vamos fazer uma pausa no episódio de hoje para vos falar do patrocinador que temos aqui no podcast, a Hiwell, e não havia um melhor episódio para falar sobre saúde mental, terapia. A Hiwell é uma plataforma onde podem fazer as consultas de psicologia online. Têm mais de 1600 psicólogos, onde podem experimentar primeiro, ver se é a pessoa certa para vocês ou não. E tal como falamos muito aqui nesta conversa, a importância de nós nos autoconhecermos, mas também termos ajuda durante o processo, porque não tem de ser um processo solitário nesta fase de mudanças, nesta fase de crescimento, principalmente, que estamos sempre com altos e baixos e imensas questões para resolver e que achamos muitas vezes que é só conosco e que temos que passar por isso sozinhos, e não temos. Portanto, fica aqui a minha recomendação, a Hiwell é uma plataforma onde podem fazer as consultas todas online, podem agendar através da própria aplicação no telemóvel, é muito prático, muito fácil. Portanto, fica aqui a minha recomendação e tenho também um código de desconto para vocês, que é 15MARIANARIBEIRO, em que a partir da primeira consulta, porque a primeira é gratuita, os primeiros 15 minutos iniciais, a partir da primeira consulta têm então os 15% nas consultas seguintes. Espero que ajude e que decidam dar esse passo. Amiga, faz parte. Quando partilho mais estes temas das relações humanas, das perguntas que mais me fazem é: como é que eu posso fazer mais amigas em idade adulta, pessoas que se identifiquem também comigo, e como é que eu posso encontrar alguém? Porque ou se vai para as dating apps e aquilo também não desenvolve e estamos a falar com o telemóvel na mesma, ou então as pessoas parece que também não sabem o que fazer. De que forma é que nós podemos voltar à realidade?
A ser humanos.
Sim, a ser humanos.
De que forma voltamos a ser seres humanos? Tendo projetos e propósitos em comum. Nada é mais eficaz do que pessoas que têm projetos e propósito em comum de vida. Por exemplo, quando uma pessoa resolve se casar com a outra, tem o propósito de formar uma família. Isso é um propósito. Propósito é aquilo que eu me comprometo para fazer, independente das dificuldades que virão. As pessoas não têm propósito. Por exemplo, amizade hoje é meio que tipo assim: "Você gosta da cor vermelha? Então nós somos amigas". Não, isso não é amizade. Isso é ter um gosto em comum. Amizade é uma relação, talvez seja a relação de amor mais perfeita que tem, porque é amor sem sexo. Amizade é amor sem sexo. Então quando as pessoas falam: "Não, eu quero fazer amigas", imagina, se ela está com dificuldade de fazer amizade, ela está com dificuldade de ter relações afetivas. Porque amizade é um dos maiores afetos que tem. Eu acho que está na hora da gente voltar e falar assim: "Espera aí, o que me faz humano?" A coisa mais humana que tem é eu me relacionar com o outro. É a coisa mais humana que tem. Reconhecer em mim as minhas vantagens, as minhas qualidades e também as minhas limitações. E aceitar no outro também, que ele tem coisas muito boas e coisas mais limitantes. E todo mundo trabalhar para isso melhorar.
Nós estamos mais individualistas?
Muito mais. Isso que é o problema, porque a gente quer soluções que estejam no nosso clique, como você falou. Eu posso ligar e pedir o livro, eu posso acessar e pedir a comida.
Eu posso falar com o ChatGPT e pedir um conselho.
Exatamente. Hoje foi feita uma pesquisa no Brasil, não sei aqui, um em cada oito adolescentes, hoje, estão fazendo terapia, eles dizendo, com o ChatGPT.
Quão preocupante é isto?
Nós estamos nos desumanizando, quando a gente teria que estar aumentando a possibilidade de relações a partir de uma inteligência artificial. Nós estamos fazendo o contrário. Nós estamos deixando a inteligência artificial ditar o nosso comportamento. Só que nós que criamos a inteligência artificial. E agora estamos sendo submissos a ela. Não estou falando contra a inteligência artificial, ela é um fato. Contra fato a gente não discute. Mas ela não é para que ela determine o que você tem que fazer. Ela é para facilitar que você faça mais e melhor, com menos esforço. Hoje os professores estão tendo dificuldade em corrigir trabalhos, porque todos são feitos pelo ChatGPT. Como que a gente diferencia qual é o trabalho feito por um ser humano, em processo de crescimento, de um ChatGPT?
E a rapidez com que isto está a crescer é assustador.
É assustador, mas você entende que em pouco tempo a gente vai ter a diferença de um ser humano mecanizado e submisso à inteligência artificial, daquele ser humano que vai ter a inteligência artificial como parceiro. Esse que vai ter como parceiro, domina o mundo.
Mas como é que conseguimos pôr esses limites em nós?
A gente tem que ter o conhecimento. A gente tem que ter o conhecimento que o ChatGPT foi feito por um ser humano, que foi botando informação nele. Toda informação que está lá pertence à humanidade, e não a ele. Agora, todo o conhecimento que está lá, eu preciso de tudo daquilo para ser feliz? Não. O que é essencial para você ser feliz? Essa resposta o ChatGPT não te dá, porque cada ser humano tem o seu sentido e propósito de vida. O que é sentido de vida? O sentido tem a ver com o que eu tenho de melhor, com o que eu tenho de talento. Quando eu pego o meu sentido, descubro quais são os meus talentos, aquilo que eu faço melhor, e pego isso e aplico como a minha profissão, como o meu modo de viver, eu estou dando propósito ao meu sentido.
O propósito tem que estar sempre relacionado com a parte profissional?
O sentido, sim. O sentido depende dos meus talentos. Quando eu pego os meus talentos e coloco na profissão, eu estou botando propósito de o meu melhor estar indo para o que eu faço. Agora, não basta, porque propósito tem que ser bom para você e tem que ser bom para os outros. Senão, não é propósito. Aí você está deixando de ter a condição humana, que é você ser fator de soma para outras pessoas. E é isso que nós estamos perdendo. Nós estamos perdendo a essência da humanidade, que é fazer o nosso melhor, e o nosso melhor também ser algo bom para os outros.
E não acha que esta trend do wellness, do bem-estar e de estarmos tão focados em nós, a minha geração partilha muito de "solo dates" e "vou sozinha", e "vou viajar sozinha". Isto, por um lado, é muito bom, porque saímos da zona de conforto e crescemos também nesse sentido, mas acrescenta a parte de individualização.
Aumenta a individualização. O que hoje nós temos, e talvez isso seja a coisa mais contrária à humanidade, porque nós evoluímos não porque fomos mais inteligentes, isso não é o caso. Nós evoluímos por cooperação. Nós chegamos no topo do reino animal por cooperação, não por inteligência. Até porque nós éramos bichinhos muito frágeis. Olha um tigre, olha um ser humano. Olha a força, potência, velocidade de um tigre. Olha a nossa, nada.
Mas por que nós sentimos esta necessidade? Porque se calhar temos demasiados estímulos no nosso dia a dia e há muito mais esta necessidade de fugir e de só estar sozinha, de estar numa bolha.
Exatamente. Só que não tem como, o ser humano nasceu para se relacionar. A gente aprende na relação, a gente erra na relação, a gente se corrige nas relações. E o que está acontecendo é que a gente está com a ilusão de que a gente pode fazer tudo sozinho. Não pode. A gente não pode fazer nada sozinho. Por exemplo, se você tem seu apartamento e o seu porteiro, o vigia, não trabalha, você já não consegue fazer nada sozinho. Nós somos totalmente dependentes. Desde bebê, nós somos o filhote do reino animal mais dependente que tem. Esse individualismo é ilusão.
Eu acho que a minha geração acaba por se perder, ou seja, esta fase de vida acaba por mexer um bocadinho nisto, porque é aquela fase de vida em que nós deixamos de estar dependentes dos nossos pais e de repente temos de viver sozinhos e descobrir a vida sozinhos, e começa a abrir esta portinha de individualismo, de agora estou por minha conta. E acaba por quebrar um bocadinho dessa Dessa necessidade de estarmos a depender de outras pessoas, diria eu.
Talvez a gente não seja mais dependente. Se tornar adulto significa que os pais se tornaram desnecessários, mas isso não quer dizer que eles se tornaram desconectados de afeto. Então talvez a tua geração esteja falando assim: "Ah, eu não dependo mais do meu pai, da minha mãe", ou "Eu virei adulto". Mas você depende do afeto. Ser independente financeiramente, materialmente, não significa ser independente afetivamente. Então assim, os clubes de corrida, de yoga, também se a gente não entender que encontrar ali só para aquilo, não faz o ser humano, faz uma tribo. A tribo do yoga, a tribo da corrida, mas a gente precisa mais, a gente precisa nos conectarmos com intenção verdadeira de dar o nosso melhor e receber o melhor do outro.
Como é que podemos fazer isso no dia a dia? Parece que hoje em dia, quem tiver mais ocupado é o melhor. A busca pela performance e a correria, e estás ocupado, estás a fazer o teu trabalho.
É uma grande bobagem.
Pois.
Porque eu digo que as pessoas mais ocupadas e mais sábias, peça para elas as coisas, porque elas vão te dar. Ser mais ocupado não significa que você é o mais sábio. Todas as vezes que eu precisei de conselhos de pessoas, as mais ocupadas, entre aspas, foram as que paravam tudo e falavam: "Na minha opinião, é essa". E hoje é o que eu faço também. Eu hoje tenho uma equipe com mais de 40 funcionários, que o máximo de idade é 28.
É sério?
É sério. E a gente se dá muito bem, porque a gente tem essa coisa. Às vezes chega alguma coisa para mim que eles já bateram cabeça. E eu posso estar ocupadíssima, posso estar viajando, eu falo: "Me traz o problema". Na hora que me traz o problema, eu paro tudo, analiso, falo: "Olha, na minha visão, eu acho que pode ser assim". E às vezes é por intuição, porque eu não tenho os algarítimos como vocês têm. "Ah, não, os números dizem isso." Tá, mas diz, mas eu estou com a impressão que isso aqui também pode funcionar. E essa união de intuição, de sabedoria, de modernidade, de tecnologia, é que vai trazer para a gente, a possibilidade da gente ser um ser humano melhor. Eu acho maravilhoso trabalhar com a geração de vocês, porque vocês sofrem por uma coisa que eu olho e falo assim: "Isso não é motivo para sofrer". Problema, temos um problema, eu falo: "Que bom".
Não sejam dramáticos.
Não, vamos lá, nós podemos pensar em três possibilidades, pelo menos. Isso ativa a criatividade, isso não ativa a frustração. Para mim, ter um problema é maravilhoso.
É para crescer.
Todo mundo. Agora, eu ainda digo, não tenha medo de errar, porque a gente aprende mais com os erros, pode ter certeza. O funcionário que eu falo alguma coisa, ele fala: "Não, não fui eu, foi fulano". Eu já não gosto dessa pessoa. Eu não estou perguntando quem foi. Eu não quero nem saber de quem foi o erro. Eu quero saber o que a gente está fazendo para fazer melhor. É isso que vale. Se foi o outro que errou, o erro vai ser de todo mundo e a vitória vai ser de todo mundo. Se a gente não parar de pensar individualmente, essa visão individualista, você chega no sucesso, mas sozinha. Você comemora com quem? É o que eu digo para a minha equipe, pelo amor de Deus, o problema não é errar. O problema é a gente não abrir portas para soluções.
Uhum. E no dia a dia, tirando a parte profissional, de que forma é que nós nos podemos conectar mais conosco?
Aí eu acho que é muito individual. Eu me conecto, por exemplo, uma coisa que me regula emocionalmente, a gente tem que saber quais são os gatilhos que me acionam coisas boas e quais são os gatilhos que me acionam coisas ruins. Isso é autoconhecimento, cabe cada um ter isso muito bem estudado. Agora, na hora que eu sei quais são os meus gatilhos, eu também aprendo o que me regula, o que me faz bem. Por exemplo, de manhã, enquanto eu estou tomando banho, vou fazer maquiagem, eu estou ouvindo música clássica. Aí você vai falar: "Ai, Bia, música clássica é chato". Tem cada uma que é maravilhosa. Tem a trilha sonora de um filme que você deve ter visto ou ouviu falar, que é o "La La Land". A trilha sonora daquele filme é uma das coisas clássicas mais belas que já foram feitas. Se você botar trilha sonora "La La Land" e botar a primeira música, Mia e Sebastian.
Tenho que ouvir.
Você vai começar o teu dia mais regulado. Pelo menos eu começo.
Pois, ou seja, é autoconhecermos.
Autoconhecimento. Então o que me regula? Música. O que me regula? Rir com os amigos. Eu sou aquela pessoa assim, que se eu tiver que fazer xixi nas calças, porque eu estou rindo, eu vou estar feliz. Não tem o menor problema, porque eu acho que poucas pessoas nos fazem rir e poucas pessoas riem com a gente de verdade. Então para mim o riso é sagrado. Eu não tenho a menor coisa de rirem de mim. Eu nem gosto muito de gente que fica chateado porque a gente riu. "Ah, está rindo de mim?" Se estiver, você está sendo porta-voz de uma das coisas melhores que tem. O sorriso aciona um neurotransmissor chamado endorfina. É prazer, é o mesmo prazer do corredor quando ultrapassa os limites. Então a gente tem que saber mais, não só da gente, mas do funcionamento do corpo da gente Por exemplo, abraço. Abraço vale muito mais do que beijo. O abraço libera ocitocina.
É sério?
É sério. Por isso que eu estou falando, não basta ter autoconhecimento, você tem que ter conhecimento. Ocitocina é o mesmo neurotransmissor que a mãe libera quando está dando de mamar. Você imagina a força dessa substância, porque você acaba de ter neném, você tem uma maquinazinha de chorar, fazer xixi e evacuar. E você fala: "Meu Deus, o que eu vou fazer com isso?" Por isso que é muito comum o baby blue, que é aquela fase de 15 dias que a mãe fica desesperada: "Como é que eu vou administrar isso aqui?" E depois de 15 dias, essa mãe está apaixonada por essa encrenca, de fazer coisas, de não deixar ela dormir, de não deixar ela comer. Por quê? Porque nesse contato corpo com corpo do bebê aqui, libera ocitocina. Ocitocina é o cimento do afeto. Então quando você abraça uma pessoa, não é esse abraço, que é um abraço, você está querendo se livrar daquela pessoa.
Tem que abraçar sério.
Você vai saber o dia que você está começando a se envolver com alguém, quando você entender que o abraço daquela pessoa é um lugar muito bom de ficar.
É segurança.
Não só segurança, é o lugar mais confortável que tem. Aí você vai falar: "Eu acho que eu posso começar a fazer um projeto de vida com essa pessoa."
Vou estar atenta.
Isso que a gente está falando é científico. Então ocitocina é do abraço, endorfina é do sorriso. É muito bom sentar com os amigos. Eu adoro, uma prática que eu tenho é a gente contar os micos da gente.
Micos?
Como é que eu vou falar micos? Gafes, coisas que a gente fez.
Rir dos erros dos outros.
Dos erros.
Sim.
Dos erros, isso.
Os percalços.
Isso, os percalços. Micos pra gente são os percalços. E mesmo que na hora tenha sido uma coisa complicada, depois a gente consegue rir muito disso. E é muito bom. E é até uma maneira de você desfazer aquilo que num primeiro momento parecia: "Meu Deus, deu tudo errado, falei errado na entrevista, a pessoa não entendeu." Depois, quando você vai lembrar daquilo, pelo viés do engraçado, você limpa do teu cérebro qualquer trauma.
Tira a pressão.
Você tira a pressão.
Desconstrói esta memória.
Desconstrói, aí a memória não fica traumatizada, não fica do trauma, fica do: "Gente, acontece. E vai acontecer outras vezes."
Sim, quando nós partilhamos alguma coisa com as amigas, parece que tira toda essa pressão de tudo que aconteceu.
Às vezes você foi a um encontro com um cara e deu tudo errado. Derramou vinho, você estava com roupa branca, manchou, e foi desesperador no dia.
Estamos a dizer, fica uma história pra contar.
Fica uma história pra contar. Nós somos feitos de histórias. E eu sempre digo, se a gente quer chegar numa determinada idade com sucesso sustentável, toda vez que você estiver vivendo, veja se você está criando boas histórias que vão ser as suas memórias. Aí você está no caminho certo.
É viver de verdade, não é viver através do telemóvel.
É viver de verdade. Entendeu? E falar assim: "Isso aqui eu vou lembrar daqui a 20 anos e vai continuar sendo uma lembrança boa." É criar boas recordações, e a gente só faz isso vivendo aqui e agora bem, não tem jeito.
Costuma escrever muito no seu dia a dia?
Eu costumo escrever, sim. Eu sou a mulher das frases. Eu tenho um hábito, eu acordo em geral 6h30 mais ou menos, e eu levanto às 7h. Nesse período, eu fico pensando como é que vai ser o dia, o que eu tenho pra fazer. Eu não penso nunca na hora de deitar pra dormir. Isso eu não penso, eu durmo. No dia seguinte, e toda vez que me vem algum sentimento, me vem uma frase. E aí eu sempre anoto, eu tenho sempre muitos caderninhos de cabeceira. Eu sempre vou escrevendo alguma coisa, ou então em avião, em avião eu também tenho que ter coisinhas pra escrever. Se a viagem é longa, vai vir muito pensamento. E assim, não só meu, mas de amigos, amigas que me falaram coisas, situações, filmes que eu vi.
É guardar pra depois reler.
Exatamente.
Também faço muito isso.
Aí eu vou botando a data e escrevo. Tempos depois eu paro e falo: "Gente, tinha esquecido que eu tive essa emoção, que eu tive esse sentimento, que eu tive esse pensamento".
Parece que reler até é mais fácil depois de perceber em que estado é que eu estava, o sentimento associado.
E você está falando uma coisa, os estudos científicos atuais mostram que o hábito de escrever, mas não é digitar, é escrever. Aciona uma série de áreas no cérebro, então ele é muito melhor pro desenvolvimento do cérebro, muito melhor pra memória e também faz com que você possa se ver no momento que você escreve e depois você vai rever. Então é como se aquilo fosse fazendo um diário. A moda que a minha geração, quando eu era adolescente, a gente tinha diários que eu via.
"Querido diário".
"Querido diário". Isso desapareceu, e agora volta como uma técnica poderosa de autoconhecimento.
É até ligado à gratidão, de agradecermos todos os dias e começar numa nota positiva e tudo mais. E este livro aqui surgiu um bocadinho nessa ótica?
Esse livro é o primeiro livro de frases. Mas como eu não queria uma coisa só de frases, "Um Tempo pra Mim" Que eu botei o nome de autocuidado. Dez minutos de autocuidado diário para você. O que acontece? Toda vez que eu vou fazer skincare, cuidar da pele, eu faço, gosto, acho aquilo bom, momento meu, mas teve um dia que eu falei: "Por que as pessoas não fazem um mental care?" Aquele momento, tipo assim: "Espera aí, o que eu pensei? Qual foi o sentimento que predominou naquele dia? Qual foi o pensamento? O que eu tirei desse dia hoje?" Aí eu falei: "Gente, eu acho que eu vou fazer um livro assim". Aí eu falei: "Como é que eu vou fazer esse livro?" Aí eu lembrei das frases, que tinha muitas frases. Eu falei: "Vou fazer um livro de 365 frases, para ter uma por dia. E além de você trazer a frase, vou trazer uma pequena reflexão, uma pequena sugestão de prática, mas fundamental, que tenha espaço para as pessoas escreverem.
E acharem anotações.
O que elas sentiram, porque pode ser que você sinta uma coisa diferente do que eu falei. E tudo bem, porque aí eu vou aprender com você também.
Claro, isto também é para obrigar a pensar todos os dias, a sair do piloto automático. E como é 10 minutos, toda gente tem 10 minutos.
Às vezes dá menos de 10 minutos. Eu botei 10 minutos, que em geral é o skincare. Eu só não lancei o nome mental care, para não assustar. Mas na realidade é o mental care. É uma hora que você para e fala assim: "Espera aí, qual foi o sentimento que dominou meu dia? Foi raiva? Foi angústia? E por quê?" Porque aí eu passo a me conhecer. E do momento que eu me conheço, nada me tira do sério. Porque se tirar, eu sei como corrigir. É aquela coisa.
Vai ter as ferramentas.
Exatamente. Eu tenho as ferramentas.
E isto aqui tem uma ordem específica?
Não. Dá para fazer assim ou você segue os dias. Por exemplo, pode abrir no dia de hoje.
Que dia é hoje, dia?
Hoje é dia 16. Não, 15.
Quinze de maio. A riqueza da simplicidade, a verdadeira riqueza está nas pequenas coisas da vida.
Era o que a gente estava falando aqui. Será que a gente não está deixando de fazer boas memórias? Porque um dia nós seremos as nossas memórias.
Tem alguma favorita?
Olha, não sei. Não, não tenho uma favorita. Eu mesma, de vez em quando abro e me deparo assim: "Gente, eu pensei isso mesmo?"
Eu fui logo ver o meu dia delas e eu: "Sim, faz todo sentido, adorei."
A mesma surpresa que às vezes vocês têm, eu também tenho. Porque isso foi escrito, tem coisa que foi escrita há 10 anos atrás, tem coisa que foi escrita ontem. E eu continuo escrevendo as frases. Porque virou um hábito, porque ali eu sei qual foi o que ficou no dia. Por exemplo, esse dia que fala de simplicidade, deve ter sido algum dia que eu andei de bicicleta na lagoa e aquilo foi maravilhoso para mim. Ou então dias que eu tive com crianças e aquilo foi ótimo.
Faz-te lembrar da origem.
Me faz lembrar de coisas muito simples. Ou brinquei de água com criança. Ou então fiquei com o cachorrinho brincando. Que eu sou aquela que vou para o chão brincar. Eu não brinco no sofá. Se tiver que ir para o chão, vou para o chão, se tiver que subir em árvore, subo. Porque é importante a gente estar participando das coisas, enquanto a gente pode.
Claro.
O dia que eu não puder, não tem problema, mas eu vou ter muita memória aí, do dia que eu já pude.
E este livro acabou agora de sair em Portugal também.
Acabou de sair em Portugal. Ele já está no Brasil desde novembro do ano passado.
É, mas é já há muito tempo. Onde é que as pessoas podem então encontrar este livro?
Vamos lá. Aqui em Portugal, você vai me ajudar. Na Fnac é fácil.
Fnac é fácil.
Bertrand é fácil. E tem a própria Hook, que é a própria editora da nossa editora.
Muito bem.
A própria livraria da editora.
Estamos aqui mesmo a chegar ao final e só tenho aqui mais duas últimas perguntas, que é: qual a maior aprendizagem que a Ana de hoje gostava que a de 25 anos tivesse tido?
Vinte e cinco anos atrás, eu estaria mais ou menos com a sua idade. Vamos lá. Tenha calma. Não tem nenhum problema que não tenha solução. E se não tiver solução, o tempo traz, torna ele desimportante, porque o tempo passa e torna desimportante. Eu acho que eu só comecei a ter isso, que hoje eu tenho e não quero perder de jeito nenhum, a partir dos 40. Mas eu vou te dizer, depois dos 50 ficou muito melhor, porque nada me abala, porque tudo vai passar mesmo, a gente querendo ou não.
Parece que só quando passamos um problema e olhamos para trás: "Por que eu estava estressada com isto?"
Exatamente. Mas ao mesmo tempo, por exemplo, eu acho que quando você faz um ambiente de trabalho mesclado, de pessoas com mais experiência, de pessoas que estão chegando, e a gente pode ter essa coisa de vamos errar junto, seja para um lado ou para o outro, eu acho que isso pode vir antes, porque o ambiente de trabalho que eu vivi não tinha essa mescla. Hoje não se fala mais geração, vai chegar um ponto que não vai ter geração Z, vai ser a geração, se eu não me engano, Blue.
Não consegui.
É B-L-U, Blue, se eu não me engano, que não vai ter mais essa coisa de geração, vai ter integração dos mesmos problemas que são humanos para todo mundo. Não vai diferir muito.
Porque já vamos ter acesso a mais conhecimento, a mais ferramentas, livros, podcasts.
Porque hoje você vê, aqui em Portugal está se lançando um residencial para terceira idade, que é uma coisa tecnológica de ponta, mas muito de ponta, de pessoas que estão aprendendo inteligência artificial depois dos 60 anos, de pessoas que estão tendo atividade intensa fisicamente. Então assim, isso é uma coisa que a gente vai ver que vai chegar uma hora que as gerações estão se-
Todas misturadas.
Todas misturadas. E talvez isso seja a solução, porque a evolução veio pela nossa união Talvez seja isso que esteja faltando. Não ficar tanto: "com a sua idade". Não tem mais isso. Em todas as idades você sente medo, em todas as idades você sente angústias, talvez os motivos mudem. E quando a gente vê que isso tudo é comum da espécie humana, de nós, de sermos bichinho humano, talvez as coisas fiquem mais fáceis.
Sim, se calhar estamos abertos também a aprender todos uns com os outros e não é olhar para os mais novos como: "Ainda não percebem nada desta vida". Estamos aqui todos para o mesmo.
É isso que eu estou falando. Na minha equipe, os novos estão trazendo coisas muito maravilhosas. Às vezes eu sou aquela que fala assim: "Não, fica tranquilo, vai dar errado, mas vai dar certo". E às vezes eles ficam até: "Como vai dar errado, vai dar certo? Não, se der errado, vai dar certo também". Mas isso eu já vivi. Então, eu acho que essa colaboração de gerações vai deixar de uma ficar julgando o outro. E talvez a gente só cresça e a gente só possa adoecer menos com esse tipo de coisa, porque foi essa colaboração que trouxe a gente até aqui.
Faz sentido. Qual foi o melhor conselho que a Ana recebeu recentemente e que tenha marcado?
Recentemente? Eu acho que não foi recentemente, mas foi de um paciente meu, que falou assim: "A melhor coisa que você faz quando você não tiver solução para nada ou que você estiver no desespero, que nada aciona, é pensar assim: se eu morresse hoje, isso não tinha mais a menor importância". Eu acho que foi esse conselho. Eu não penso na morte como fim, até porque eu acredito que a vida continua. Mas eu penso, de vez em quando, eu penso na morte do tipo assim, de autoavaliação. Estou vivendo uma vida que está valendo a pena. Então assim, pensar na morte para mim nunca é uma coisa mórbida. Eu acho que a morte chegará do jeito que eu vivo. Se eu vivo bem, ela chegará bem. Então isso para mim não é um empecilho, não tem nada mórbido com a morte. Mas de vez em quando eu penso e falo assim: se ela chegasse hoje, ela me encontraria feliz? Que eu quero que ela me encontre feliz.
É uma bússola.
É uma bússola.
Boa.
Se eu estou indo na direção certa.
Perfeito resumo para o nosso episódio de hoje. Adorei tê-la aqui, espero que corra bem os próximos dias e muito sucesso para o livro e para tudo o resto.
Muito obrigada!
Muito obrigada e sempre voltar a Portugal.
Vai ser um prazer. Eu quero ver o seu livro.
Ainda não é público.
Um dia eu quero ver o seu livro.
Um dia.
Um dia, quando estiver, tudo bem.
Muito obrigada, Ana. Adorei mesmo. Obrigada.
Muito obrigada.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramos domingo à hora do costume?