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Contas fora de horas. Somam com tradição. Com o pé ao ar. Sem pista da viração. Tentei não pensar muito, mas ninguém me autorizou a fechar a porta. Vem delimitar as fronteiras do meu voo irregular. Passageira obrigação de me ausentar e ter livre o meu caminho para ver que é só mais um tremor. Mera palpitação de um corpo errante. Mera palpitação de um corpo só. Dá-me um pouco a noção pra delimitar as fronteiras do meu voo irregular. É só mais um tremor. Vem de volta a mim. Vem delimitar as fronteiras do meu voo irregular. Passageira obrigação de me ausentar e ter livre o meu caminho para ver que é só mais um tremor no chão que não se vê.

"Tremor", ao vivo na Rádio Observador. A música de Afonso Cabral para o disco "Demorar", que chegou no final de 2024. Afonso, bem-vindo de regresso à Rádio Observador.

Olá.

E muitos parabéns por este disco. Foi muito bem recebido, como se costuma dizer, pela crítica especializada, pela imprensa especializada também. Durante o ano passado, ainda figurou em lugares cimeiros para rádios e imprensa, no que toca aos melhores do ano passado. "Demorar" demorou um bocadinho, porque 2019 é o ano do teu anterior trabalho, o "Murada". De resto, lembro-me que passaste aqui pela Rádio Observador nessa altura também, ainda no início da Rádio Observador, para mostrar esse disco. Como é que foi fazer este disco? Ele é muito diferente do "Murada". Foi, de facto, muito bem recebido.

Ele é muito diferente na parte dos arranjos e de todos os instrumentos, da forma como foi gravado, das pessoas que chamei, mais ou menos. No sentido em que o "Murada" era um disco um bocadinho megalômane, na parte dos arranjos, em que quis pôr muitos de cordas e de sopros, era toda uma coisa muito elaborada. Nesse sentido, acho que o "Demorar" é mais-

Mais minimal?

Diz, desculpe?

É mais minimal?

Minimal não diria que é, mas é mais um disco de banda, mais um disco pop rock, mais convencional nesse aspeto.

Há aqui uma diferença que salta, que é, se bem me recordo, pelo menos nos créditos, no "Murada", não há convidados. E no "Demorar", tens pelo menos dois.

Tenho dois.

Primeiro, tens a Manuela Azevedo, que vale logo por cinco.

Sim, a Manuela Azevedo, pelo menos. Tenho a Manuela Azevedo numa música, na música que dá o título ao disco, e um cantor japonês que eu gosto muito, há muitos anos, chamado Shugo Tokumaru, acho que estou a dizer bem, que canta e escreveu uma parte, porque ele escreveu a parte em japonês, que eu não saberia fazer. Isso foi uma grande diferença pra mim, porque também nos discos todos que fiz com os You Can't Win, Charlie Brown, que já lá vão uns quantos anos, e uns quantos discos Também nunca tivemos convidados, era uma coisa que eu também estava curioso e com alguma vontade de fazer.

Como é que surge este convidado, o japonês? Li também que tem um pouco que ver com o teu gosto pela cultura e depois também com a tua ligação com o Bruno Pernadas, que fez bastantes concertos no Japão.

Sim, eu tive o privilégio de ir algumas vezes ao Japão com o Bruno Pernadas, para dar uns concertos dele e apaixonei-me completamente pelo país. Já era um bocado apaixonado pela cultura e isso calhou na altura em que eu estava no processo de fazer estas canções e de fazer este disco, e achei que fazia sentido ter alguma ligação a isso. E o primeiro nome que eu me lembrei foi logo o do Shugo. Não tinha era uma canção em que isso pudesse encaixar. E depois, curiosamente, a certa altura no processo, comecei a sacar uma música em cinco minutos, pensei: "É esta, isto é perfeito". Depois fiz aquelas coisas, um dia que atirei-me, fui encontrar um endereço de e-mail no site dele, mandei naquela, ninguém me vai responder a isto, e passada uma hora ele estava a dizer que alinhava e depois gravou lá no Japão, mandou umas coisas para cá e foi superfácil, correu tudo superbem.

Li coisas muito boas também a propósito da apresentação que foi feita no Lux deste disco. Quando é que foi? Em abril?

Em fevereiro.

Fevereiro, ok. Foi bem no início do ano. Como é que foi esse concerto? Pareceu-me que foi uma ótima celebração também deste "Demorar" e um bocadinho do momento que estás a viver também.

Foi um concerto que me deixou muito feliz, porque foi um concerto com a banda toda, que é uma coisa que para já, foi único.

Quem é que é a tua banda toda atual? Porque fica difícil perceber entre Mint and the Brook Trout, You Can't Win, Charlie Brown, Bruno Pernadas, quem é que toca em quê?

Uma grande misturada. Tenho o João Correia na bateria, que é o Joca, também conhecido como Tape Junk, que toca comigo também na banda do Bruno Pernadas, o David Santos no baixo, esse não toca comigo em mais nenhuma banda, o Pedro Branco, que está comigo em tudo e mais alguma coisa.

Ele esteve cá há pouco tempo, até para mostrar as canções do Marco Paulo.

Pronto, e ele vai estar comigo em palco agora no domingo, na Casa Capitão.

Na Casa Capitão, já lá vamos.

O António Vasconcelos Dias, que foi quem produziu o meu primeiro disco e tem estado nesta minha aventura em nome próprio quase desde o primeiro dia. E nesse do Lux também estava a Margarida Campelo e a Inês Souza.

Bela banda.

São sete pessoas em palco.

Inês Souza também já está a lançar os seus singles agora.

Também lançou hoje.

Tenho gostado muito das coisas que tenho ouvido dela. Domingo, às 11h00, é um ótimo programa. Adoro esta ideia de haver programação, concertos domingo de manhã, porque dá para ir com os mais novos também. Casa Capitão, que de resto substitui o Music Box. O fecho do Music Box foi já anunciado há algum tempo. Toda a programação passa então a acontecer agora na Casa Capitão com a mesma equipa. E este fim de semana há festa de abertura já com concertos hoje, amanhã, ao longo de todo o dia e também no domingo, e é domingo de manhã que lá vai estar o Afonso Cabral. Como é que olhas também para esta coisa de tocar às 11h00 num domingo? Parece-me que gostaste da ideia.

Eu gosto. Estranhamente, nos últimos anos já toquei muitas vezes de manhã, porque também toco num projeto mais infanto-juvenil chamado Mais Alto, e fazemos muitos concertos de manhã. E eu gosto muito, tenho a dizer. Fazer um concerto deste tipo de manhã é diferente, no entanto. Mas fico muito contente, porque acho ótima a ideia, como estavas a dizer, é um ótimo programa para ir em família. Eu aproveito para levar os meus filhos, que normalmente, por exemplo, no Lux não dá.

Claro. Para já.

Para já. Portanto, eu gosto muito desta ideia. Há mais concertos no fim de semana a essa hora. E é ainda por cima entrada grátis, portanto, é mesmo para aproveitar e levar o agregado inteiro.

É verdade, para ver também as canções de "Demorar", e não só, o novo disco do Afonso Cabral. Como é que olhaste para o fecho do Music Box? Tens também uma ligação ao espaço, já lá deves ter tocado tantas vezes e com mais do que um dos teus projetos. Acho que ficamos todos mais ou menos satisfeitos de haver uma alternativa que passa a chamar-se Casa Capitão. Com naturalidade, com alguma mágoa? A sociedade às vezes reage assim um bocadinho com uma certa mágoa às coisas.

Sim, acho que a minha primeira reação foi de alguma tristeza, de mágoa, porque já nem sei quantas vezes é que já dei concertos no Music Box. Eu, no meu início de vida profissional, trabalhei lá durante um ano, conheço bem aquelas pessoas, conheço bem aquele espaço. É sempre estranho e é sempre triste ver uma coisa destas fechar, mas há uma continuidade do trabalho que estavam lá a fazer e portanto, acho que não é propriamente uma morte, é uma mudança. Eu não sei ainda como é que está a Casa Capitão depois das obras, ainda não fui lá. Estou muito curioso para ver aquilo. Mas claro, é sempre estranho ver assim um espaço acho que já icónico e marcante na cena da música portuguesa. Não deve haver artista português que não tenha tocado no Music Box.

Dos que valem a pena.

Já lá vi coisas do mais underground e desconhecido. Lembro-me de ver lá uma noite, quando eu trabalhava lá, em que tocou, sei lá, na mesma noite o B. Fachada, o Pedro Abrunhosa e a Carminho. Portanto, acho que isso define bem a diversidade daquele espaço. Claro que é sempre triste, mas continua toda a programação e todas as pessoas que estavam ali ligadas, tudo na Casa Capitão.

Como é que está a correr também a aventura do estúdio Louva-A-Deus, que faz de ti um empresário da música?

Quando me perguntam a minha profissão, tenho que pôr músico barra empresário.

Exato.

Vai correndo bem. A Francisca Cortesão-

Foi ela que te convidou.

Foi ela que me convidou, que me desafiou para abrir com ela um espaço. Somos estúdio, somos sala de ensaio, somos espaço de cowork com um monte de gente ligada à música, somos agência, somos editora. É tudo um bocadinho, tudo com um grupo de pessoas de quem gosto muito e que gostam muito daquilo que fazem, tudo feito com muito carinho e bem feito, acho eu.

E foi lá que foi feito o teu disco.

Foi lá que foi gravado o meu disco. Sim.

Muito bem. Afonso Cabral, para além deste concerto domingo às 11h00, nesta festa de abertura que começa já hoje da Casa Capitão em Lisboa, há mais concertos previstos?

Domingo estou na Casa do Capitão em duo, eu e o Pedro Branco. Depois, em outubro, eu sou péssimo com datas, dia 17.

Mas por aí é que há.

Vou arriscar 17, mas podem ver, está tudo na internet. Vou estar em Ovar, no Expand Ovar, com uma raridade, com a banda toda, full band. Portanto, vai ser fixe.

E o Cantinho de Charlie Brown? Estão bem?

O Cantinho de Charlie Brown continua a dar concertos por aí. Estivemos em Coimbra há semana passada, há duas semanas.

Estão bem, estão ótimos. Gosto de saber. Gosto muito dos e o Cantinho de Charlie Brown. Afonso Cabral, nosso convidado no ao vivo desta semana, também aqui a mostrar as canções de "Demorar". O disco chegou no final de 2024, muito elogiado, belo disco. Gosto muito da canção que dá título com a Manel Azevedo, claro. Escolheste a "Manel" para fechar esta passagem pela Rádio Observador. Domingo, às 11h00, há concerto de Afonso Cabral na Casa Capitão, em Lisboa. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns pelo teu percurso, pelo que tens feito até aqui. Vamos a essa "Manel" e bom fim de semana.

Bom fim de semana. Manel, traz de volta o frio. Encosta-te com o teu sorriso. Aquece comigo até que o som faça desçar no pôr do sol, até o dia chegar. Manel, traz de volta o frio. Enrola-te dentro dum abraço. Aquece comigo até que o som faça desçar no pôr do sol. Aquece comigo só até o dia chegar. Manel, mostra-me que o amor existe. Manel, mostra-me que o amor existe. Manel, mostra-me que o amor existe. Manel, vem.

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