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Vai, da cabeça aos pés, só as pernas desenhadas. Tu, tu sabes quem és. Está no corpo, está na posse, está na cara. Viver é brutalmente sincero, é ser o céu e o limite. Passar rendeu ao inferno, ser interno e sempre eterno. Já vesti, já despi cada medo, cada crença. Transitei na luz para dançar como quero, porque eu sou livre. Porque eu sou livre. Porque eu sou livre. Eu sou livre. Para que volto tudo, mas para que tiro o mundo se faz perder a cabeça? E foi bem lá no escuro que aprendi a ter clareza. Pente-peito, salto alto, rompendo em fé. A vida é um palco à luz do verde. Um corpo em construção, se desmandei. Sou constelação, se fluir para lá da compreensão. Em cada verso, sou universo, porque eu sou livre. Porque eu sou livre. Porque eu sou livre. Eu sou livre. Sou livre. Sou livre. Sou livre. Sou livre.
"Livre", é este o tema título do novo EP do Alex Dalva, que está hoje no ao vivo da Rádio Observador. Bem-vindo, Alex.
Obrigado.
Obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Já tínhamos feito um destaque desta canção há algumas semanas, na altura em que saiu, no final do ano passado, num outro programa que tenho aqui com o Tiago Pereira, que é o "Isto Não Passa na Rádio". E ele estava louco com a "Livre", e eu acho que é uma grande canção e é uma ótima forma de dizer ao que se vem. Para além disso, é, de facto, algo que diz muito sobre este novo trabalho, porque também ele se chama "Livre". Como é que é este trabalho de regresso em nome próprio? Não se pode dizer que é um projeto. Li algumas vezes projecto.
Não, na verdade, eu olho para este trabalho precisamente como um projecto.
Agora já é um projecto.
Sim, não é necessariamente uma redefinição da carreira, embora é um projecto que surge de um período de exploração e descoberta identitária. Eu olho para essas coisas que estou a trazer agora para público, como um artista plástico olha para uma série de pinturas, ou uma performance ou uma instalação. O "Livre" é uma peça em si e a seguir virão outras.
É conceptual, Alex?
De certo modo, sim. Existe uma narrativa, não é muito explícita, mas sim, é uma ideia. Existe uma espécie de não lugar onde esta música toma ação. Mas eu gosto de deixar essas coisas para-
Para análise, pelos outros
...para análise de quem ouve.
É a teoria da obra aberta, não é?
Sim, mas acho que também na medida em que depois eu começo a falar dos locais por onde passei, que influenciam e inspiram a música que crio, torna-se mais fácil também as pessoas imaginarem-se nesse contexto.
Eu acho muito engraçado que estas novas canções, e a "Livre" como primeira amostra, levantou um pouco essa bandeira. A sonoridade parece um bocadinho mais electrónica. Alguns diziam: "O Alex está bué banger". E eu achei que tu já eras banger, mesmo quando não eras tão Tão eletrónico, se quiseres, um bocadinho do sítio de onde vens artisticamente. Mas de facto agora nota-se que há mais dança, mais pista de dança, diria?
Sim, sem dúvida.
Estás mais da noite, Alex, o que é que se passa?
A noite, sem dúvida, inspirou este trabalho. E eu até imagino que quando começas a pôr o EP a tocar, eu estou a convidar-te a entrar num clube à noite e se calhar só na sexta faixa é que tu vês o sol a nascer e na sétima é a música que, na minha opinião, é perfeita para voltares para casa, sais do clube e quando estás a voltar para casa, ouves o Máximo a tocar piano para ti. Mas é isso. Basicamente, passei mais tempo a frequentar espaços de diversão noturna, em particular lugares que tinham uma componente mais comunitária, como o Planeta Manas, por exemplo, que era um sítio feito pela comunidade para a comunidade. E mais do que ser um local de diversão, a coisa que me surpreendeu mais era a forma como as pessoas cuidavam umas das outras e também tinham conversas que eram importantes e que tomavam decisões de como poderiam propor alterações à cidade e discutíamos muita coisa, desde coisas do foro mais emocional e filosófico, até mesmo a fazer planos de como é que poderíamos contribuir para a cidade se tornar um sítio melhor para todos nós. Desde falar de voluntariado e poder ajudar pessoas que estavam a passar por necessidades, seja por não ter onde morar ou terem dificuldades em arranjar comida, etc.
Um lado social também.
Exatamente.
Intervenção social.
Também, sim, poder contribuir para a comunidade, poder dar alguma coisa de volta, porque acho que há um preconceito quando se pensa em ravers. A nossa imaginação vai sempre a um lado mais hedonista e de pessoas que procuram uma experiência mais individual, mas eu encontrei o oposto.
É engraçado, até porque quando falas desse ambiente mais de noite ou de pista de dança ou de raver, também associamos a multicolor e a identidade gráfica deste novo trabalho é quase a preto e branco. Como é que isto acontece? Torna a coisa mais densa. Parece que dou depois também outra interpretação às canções, não são tão frívolas, se quisermos.
Sim, porque a matéria sobre a qual eu estou a trabalhar não é necessariamente superficial, são questões que eu tive que ir buscar ao meu âmago e é uma proposta de convidar as pessoas a refletir sobre certas coisas num contexto mais dançável. E é possível tu refletires e dançares.
Se calhar até tomamos melhores decisões depois de fazer essa reflexão nesse ambiente.
Também o trabalho é muito influenciado pelas artes plásticas ou pelo teatro. Eu durante o processo estive a trabalhar com o Teatro Praga, também estive a fazer performance art com a Grada Kilomba, e aqui a influência da Grada Kilomba é muito gritante, até mesmo esta questão do preto e branco.
Há uma ideia de corpo também, não é?
Sem dúvida. Nem tanto enquanto contraste, mas pensar em tudo o que existe pelo meio. Nós muito facilmente temos uma ideia que há o bem ou o mal, o escuro e o claro, mas também há muita coisa pelo meio e é nesse espaço intermédio que todos nós, enquanto humanidade, habitamos.
Fala-me um bocadinho dos teus convidados no disco, já aí fazias referência ao Máximo. Eu creio que ele participa em duas, pelo menos, canções que estão neste EP. Encontrei aqui a Sónia Trópicos e outros nomes, Malina. Quem são estas pessoas, como é que chegas ao contacto com elas e como é que elas também fazem a incursão nestas canções? A Sónia Trópicos e o Máximo não os veria num disco juntos.
Sim, provavelmente não estariam num disco juntos, mas a verdade é que quando sais à noite ou quando vais ver concertos, provavelmente, se fores ao Lux, vais encontrar todas estas pessoas que estão neste disco. Mas são pessoas que, das duas, uma, ou de algum modo fazem parte do meu cotidiano, ou então são pessoas por quem eu tenho uma admiração enorme e convido a juntarem-se a mim neste projeto. Mas há uma intenção clara de combinar pessoas que vêm de um universo mais erudito, como o Máximo Francisco, a própria Ian, que é primeiro violino da Orquestra da Casa da Música, no Porto, e também a Gisela Mabel, que à semelhança do Máximo, é um prodígio do piano, em particular no jazz e também na música clássica. E convidar a colaborar com artistas que se calhar ouvem no cotidiano, a Malina, numa perspetiva mais pop, o Maudito na nova música urbana, no rap, que é um dos meus rappers favoritos na atualidade. E depois nomes importantes na música eletrónica underground, como mencionaste a Sónia Trópicos, mas também a Xtasia, que é uma das pessoas que está na linha da frente da hiperpop e até mesmo da música eletrónica hardcore, entre outros, como o Aiden Makes Music, por exemplo.
Olha, queria olhar contigo também aqui já algumas datas que estão marcadas para as apresentações ao vivo, porque tenho curiosidade de perceber como é que elas funcionam, quem é que estará contigo em palco, que set é este que montaste também para mostrar estas canções ao vivo. 26 de março, Lux, em Lisboa, mas há 27 de março, Salão Brasil, Coimbra, 3 de abril, Maus Hábitos, Porto, 4 de abril, Chaves, 10 de abril, Leiria, 11 de abril, Évora. São as datas para já confirmadas de apresentação do livro. Como é que isto funciona ao vivo? Estou supercurioso.
Eu também estou, porque ainda estou a montar esse espetáculo. Vai ser uma tour em conjunto com a Rita Onofre, que em breve também lança o seu álbum "Bruta". E nós vamos estar a unir esforços Ela neste momento está a viver em Berlim e assim que ela regressar vamos perceber como é que as coisas vão funcionar, em que pontos do espetáculo é que haverá uma mistura entre os dois discos. Mas da minha parte será uma espécie de DJ set híbrido, onde eu trago para cima da mesa alguma da experiência que adquiri no ano passado na cabine, atrás dos decks, mas também há uma camada de coisas que são tocadas ao vivo. Mas acima de tudo, estou a privilegiar a conexão que eu crio com as pessoas. Acho que quem já viu um concerto de Dálva sabe mais ou menos ao que vai e a forma como eu gosto de interagir com o público, quase como se estivéssemos numa espécie de concerto de hardcore ou de punk rock. Mas a música é pop, então acima de tudo será mais acerca dessa energia e dessa interação.
Estou curioso. E também para te ouvir aqui no ao vivo da Rádio Observador. Tema para fecharmos o programa desta semana, escutamos há pouco "Livre", vamos a Mina?
Exato, sim.
Vamos a isso. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns por este trabalho, agora em nome próprio de Alex Dálva. Os Dálva voltarão também em breve, pelo que já percebi. Vamos continuar a saber deles em breve. Muito obrigado, Alex, e muitos parabéns.
Muito obrigado.
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