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Ao vivo, na Rádio Observador.
Chama-se "Grande Entre os Assassinos" e é o primeiro solo de stand up comedy de Eduardo Madeira em 12 anos. Arranca já este sábado com uma primeira data no Cartax. Vai passar também este espetáculo por cidades como Covilhã, Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Leiria e muitas outras. Confirmem as datas deste novo solo de comédia do Eduardo Madeira, que é convidado esta semana aqui do ao vivo da Rádio Observador. Olá, Eduardo, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Este é um estúdio que já conheces mais ou menos.
Sim, conheço.
Já vamos falar um bocadinho sobre isso, mas queria centrar-me para já neste espetáculo. Por que tanto tempo para um regresso ao stand up?
Na realidade, eu nunca estive parado, porque as actuações que eu fiz durante estes anos foram um cadinho best of, mas não eram espetáculos de raiz. Portanto, fui adiando este regresso e de repente passaram-se 12 anos e pensei que não ia adiar mais. Também é certo que tive muitas solicitações pelo meio, desde a televisão, cinema, até teatro, e acabei por deixar esta parte, que foi uma parte muito importante do meu percurso, que foi o stand up comedy, num papel um bocadinho secundário. Entretanto, há coisa de dois, três anos, pensei um bocadinho mais a sério em fazer isto, só que não estava a encontrar o foco, porque normalmente um espetáculo destes exige que a gente tenha um trabalho de haver uma espécie de fio condutor. Para não ser só um conjunto de one liners. Há quem o faça, mas eu gosto de ter sempre um fio condutor e eu não estava a ter nada que me surgisse de uma forma consistente. E depois foram amigos e colegas que me começaram a alertar que eu tinha a coisa em mãos e não estava a ver.
A coisa em mãos é a verdade?
É a verdade. Não é a verdade literal, mas a coisa em mãos é o conteúdo.
Ok. Porque na apresentação do espetáculo promete ser um murro no estômago para muita gente.
Sim.
E são alguns testemunhos de histórias verídicas que acontecem neste espetáculo. São mesmo?
São mesmo verídicas.
É que algumas parecem do "Arco da Velha".
Pois é. Na realidade, foi isso precisamente que me disseram: o teu melhor material podem ser as tuas histórias, aquilo que te acontece ou aquilo que já te aconteceu. Na realidade, a partir daí, comecei a escrever e saiu-me torrencialmente. Na verdade, isto poderá também dar um livro, até porque há muitas histórias que vão acabar por ficar de fora e tenho muitos amigos que me perguntam: "Vais contar aquela vez que..." E eu disse: "Não, por acaso essa ficou de fora". E eles: "Épa, que pena".
E de onde é que vem este nome, "Grande Entre os Assassinos"?
Vem precisamente de uma das histórias.
É uma das histórias?
É uma das histórias.
Já mergulhaste no mundo dos homicídios? Explica-me um bocadinho.
Digamos que só vendo, não quero ser spoiler do meu próprio espetáculo.
Ok.
Exato. Mas o que é certo é que nós em termos públicos temos uma persona e a minha é uma que não é exatamente aquilo que eu sou, nem é exatamente aquilo que eu vivi. É uma coisa que eu tento passar para as pessoas. E o que eu vou explicar e o que eu vou mostrar é quem eu realmente sou. E pode não ser uma coisa agradável, pode não ser uma boa viagem, mas a fazê-lo, achei que devia fazê-lo agora. E também porque não penso lançar uma biografia nem uma autobiografia, pelo menos tão depressa. Então há uma radiografia, digamos assim.
Ok. Tinha esta curiosidade, até pelas opiniões que foste recolhendo dos teus colegas que te impeliram um pouco a este espetáculo: a verdade tem maior potencial cómico?
Eu creio que a verdade é sempre a base da comédia, porque repare que os comediantes têm, e estou aqui na Rádio Observador, os comediantes têm precisamente que ter um espírito observador e uma capacidade de observar a realidade e aquilo que se passa no dia a dia, para depois transformar isso em comédia. Portanto, nada melhor do que partir sempre da verdade para a comédia, para fazer comédia, principalmente esta comédia da stand up comedy, que é da observação pura. E portanto, o comediante é sem dúvida um grande observador, porque é a nossa lupa, é a nossa lente, que transforma coisas que às vezes para os outros mais distraídos não têm potencial nenhum cómico, em grandes momentos de comédia ou em momentos de comédia que valem a pena ser vistos.
Não temes a reação mais negativa por algum público? E isto para te perguntar se achas que o público está mais sensível, sente-se mais facilmente ofendido, às vezes, com uma piada, caso não goste dela.
Sim, isso sem dúvida. Eu acho que se perdeu, não sei onde, e é uma questão que vou falando com muitos comediantes E outras pessoas. A certa altura, perdeu-se a ironia. Eu acho que começou por aí e é talvez a perda mais forte. Mas também com isso foi muito do sentido de humor das pessoas. E as pessoas hoje em dia parecem que estão realmente mais sensíveis, estão acantonadas numa série de certezas. Sendo que a certeza é que não deveríamos ter certezas, pelo menos tão absolutas. E as pessoas estão acantonadas nessas certezas. E tudo o que beliscar a sua ordem natural e o seu mundo, ficam logo muito ofendidos. Há dias eu li uma coisa muito gira que dizia: não se pode hoje em dia fazer uma piada a ciclistas, a benfiquistas, a portistas, a católicos, a maçons. Não se pode fazer piada a certos grupos, porque ficam muito ofendidos de repente. Sendo que toda a gente é passível de uma boa piada. Inclusivamente eu, como comediante, quando me fazem uma boa piada, o mais que eu posso fazer é: "Ah, malandro, apanhaste-me". Mas tenho que reconhecer que se a piada for boa, que é uma boa piada.
Devo confessar-te a nível pessoal que aprecio muito o Filipe Homem Fonseca, com quem trabalhaste e trabalhas, e tens uma relação até musical com os Chibola Mol.
Trabalhámos muito juntos.
Este espetáculo não contempla esse tipo de momentos mais musicais dos quais eu tenho saudades.
Não vai ter momentos musicais. Eu tenho feito muito ao vivo.
Tu usas muito instrumentos.
Eu uso muito a guitarra, que é aquele instrumento que eu gosto de tocar. Gosto de tocar um bocadinho de todos, mas a guitarra é talvez aquele em que consigo tocar melhor um bocadinho. O suficiente para eu transformar-
O menos mau.
O menos mau, exactamente. Para transformar aquilo em momentos de comédia e em momentos divertidos. Mas neste espetáculo não vai haver. O que vai haver é precisamente: vou falar precisamente de momentos nos meus espetáculos e os Chibola Mol vão obviamente ser uma parte importante do espetáculo, porque tudo aquilo foi um epifenómeno e eu vou ter que falar disso.
Tenho sempre a sensação que estás envolvido em muitos projetos ao mesmo tempo. Quais são os mais importantes nesta altura, para além deste solo de comédia que vai se iniciar agora este fim de semana?
Olha, eu, na realidade, como tu dizes e bem-
Surf, televisão.
É. Vai agora estrear a segunda temporada de um programa que eu fiz, que é o "Bairro do Humor". É uma ideia minha, escrito por mim. Na sequência, um bocado do trabalho que eu já tinha feito com a "Patrulha da Noite". Houve aí um hiato grande, porque eu entretanto estive uns tempos fora da colaboração com a RTP, mas vai voltar agora essa segunda temporada. Vai estrear dentro de dias. Eu não te posso dizer o dia certo, porque a RTP demora sempre a libertar estas informações, mas vai estrear dentro de dias, se tudo correr bem, a segunda temporada. E depois estou a fazer ainda uma peça de teatro, que já estava a fazer há uns tempos, que é o "Pisamento", que está no Auditório do Taguspark, com a Liliana Santos e a Nuri Madruga. Uma peça muito divertida, uma autora norte-americana, foi um sucesso lá em Off-Broadway e cá também está a correr muito bem. Mas eu acho que talvez a minha grande aposta neste momento, até porque é uma coisa que ainda não estreou, é precisamente este "Grande entre os Assassinos", porque é um espetáculo que é divisor, digamos assim, no sentido que há uma história para trás e agora haverá outra história daqui pra frente, porque a partir daqui há muita gente que vai olhar pra mim e vai dizer: "É lá". Pro bem e pro mal. Vai dizer um: "É lá".
Eu próprio estou curioso, porque parece-me que estás a apostar também em estar em palco parte da tua bagagem. Parte do que aconteceu, parte do teu passado. Isso parece-me bastante interessante e bastante corajoso também. Por falar no teu programa de televisão, os teus bonecos, as tuas caricaturas são sempre incríveis. Muito recentemente, o Donald Trump é uma delas. A caricatura é uma coisa que te dá muito trabalho, para além da parte da maquiagem e da caracterização em si, essa coisa de incorporar um personagem e caricaturá-lo é um exercício difícil?
Olha, isso foi mais uma coisa que me aconteceu por acaso. Muitas das coisas na minha vida me aconteceram por acaso. Foi nos Contemporâneos que eu descobri essa veia da caricatura que não tinha pra trás, a não ser circunstancialmente, na brincadeira. E é nos Contemporâneos, o Nuno Lopes fazia a direção de atores, e é o Nuno Lopes, creio eu, que começa a dizer que quem fazia bem isto era o Eduardo Madeira. E eu lembro-me que as primeiras três caricaturas que eu faço são logo muito boas. Uma delas é o António Lobo Antunes.
Que voltamos a ver há dias, a propósito do falecimento.
Exatamente, a propósito do falecimento. Mas também o Jorge Jesus, que me acompanhou muitos anos. Cheguei a fazer publicidade do Jorge Jesus. E o Vasco Pulido Valente, que como era uma figura menos reconhecida, não teve tanto impacto. Teve muito impacto pra certas pessoas, teve quase nenhum pra outras. E é aí que eu começo. Eu acho que tens que ter algum talento, mas tens que ter muita técnica. Observar. Às vezes, são pequenos tiques das pessoas que levam quem está a olhar a perceber: "Muito bom. Ele faz mesmo isto".
É mais uma vez um trabalho de observador.
Mais uma vez, é um trabalho do observador. É observar.
Às vezes encontrar um tique exponencial.
Por exemplo, pediram a certa altura para fazer o Nuno Markl. Eu sou amigo do Nuno Markl há muitos anos. Trabalhei muito com ele. Foi talvez o mais fácil de todos, porque aquela coisa dele do: " Espetacular!" Eu trabalhava com ele lado a lado nas produções de fictícias.
Sabias o que sacar.
É, aquela coisa fisicamente e alguns trejeitos que ele tem, que são muito característicos do Nuno, aí foi talvez mais fácil. Ou seja, quando disseram isso, eu pensei: só tenho que me pôr fisicamente parecido.
Exato.
É que não sei como, porque não somos. Ponham-me fisicamente parecido que eu saco o resto.
O resto faz-se.
Foi mais fácil.
Queria ir um bocadinho também ao teu trabalho em rádio. Aqui na Rádio Observador chegaste a fazer a triangulação do paralelepípedo com o Januário Canutilho e o Arménio Paulo, duas personagens interpretadas por ti que discutiam a atualidade. O que é que guardas dessa experiência e também do trabalho que tens vindo a fazer agora noutras rádios?
Sim.
Não interessam nada para esta conversa.
Olha, foi muito engraçado isso.
É que o humor em rádio nem sempre é fácil.
Nem sempre é fácil. Eu acho que o que mais foi complicado para mim era assumir o compromisso de ter que fazer os dois personagens, mas também visualmente. Ou seja, eu com poucos meios tentei fazer o Arménio Paulo e o Januário Canutilho da melhor maneira que eu conseguia, mas não deu para desenvolver da maneira que eu queria, porque não conseguia fazer isso tecnicamente, era muito complicado, era sempre muito difícil. Mas deu muito gozo.
O que eu gostava daquilo era precisamente a sátira política da atualidade.
Eu tenho muitos amigos de direita e muitos amigos de esquerda. E eu tenho uma coisa gravíssima. Eu sou uma espécie de cão rafeiro, eu vou para aqui porque sei que ali vai haver comida, mas depois de repente passa um cheiro qualquer, eu viro-me e vou para aquele lado. Em termos políticos, às vezes sou um bocado rafeiro. Por quê? Porque eu consigo estar a ouvir um tipo da esquerda a falar e eu digo: "Concordo. Tudo. Sem dúvida". E depois passado um bocado, oiço outro de direita e digo: "Sim, concordo".
Realmente.
Realmente. Como é que eu não pensei nisto? E a seguir oiço outro da esquerda.
És fluido politicamente.
Sou fluido. Sou trans qualquer coisa em termos políticos. Porque na realidade, nós temos que fazer uma opção, que é às vezes uma opção estranha. Por quê? Porque eu gosto de muitas coisas da esquerda, mas também gosto de coisas da direita. E fico às vezes ali num território que eu não consigo me classificar. Talvez hoje seja um bocadinho mais de esquerda, mas às vezes oiço coisas e digo: "Sem dúvida, este aí tem razão".
Só para terminar, voltar aqui a lembrar o nome do novo espetáculo do Eduardo Madeira. É um solo de comédia que vai percorrer várias cidades do país já a partir deste fim de semana. No sábado há uma primeira apresentação no Cartaxo, mas passem pelas redes sociais do Eduardo Madeira, onde ele é fortíssimo no TikTok, que é uma coisa que eu deixei de fora desta conversa, mas que fica para uma outra oportunidade.
Essa foi forte.
É verdade. Acompanhem estas datas de "Grande entre os Assassinos". É um solo de comédia que promete não deixar ninguém indiferente, até porque é verdade, porque vais revelar uma série de verdades que muita gente não conhece.
Eu preguei isso.
Muito bem, Eduardo Madeira, muito obrigado por teres vindo ao "Ao Vivo".
Obrigado.
Fica também aqui o convite a todos os nossos ouvintes na Rádio Observador para que acompanhem este novo espetáculo do Eduardo Madeira, se tiverem estômago para tal. Um abraço, Eduardo. Até à próxima.
Um abraço. Obrigado. "Ao Vivo", na Rádio Observador.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.