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Ao vivo, na Rádio Observador.

Tenta toda a solidão. Tenta o espaço sem outra mão. Tenta o que é estar só. Tenta só tirar o pó. E todo o teu amor. Todo o teu amor. Todo o teu amor será maior. Tenta o que é estar no vazio. Tenta ficar bem com o frio. Tenta só tentar a dor. Tenta não sentir calor. E todo o teu amor. Todo o teu amor. Todo o teu amor será maior. Todo o teu amor. Todo o teu amor. Todo o teu amor será maior.

"Tenta", canção de Esteves sem metafísica, aqui no ao vivo da Rádio Observador. A Teresa está conosco neste ao vivo desta semana. Olá, bem-vinda.

Olá, Nelson.

Muito prazer em conhecer-te melhor. Tenho ouvido com interesse a tua música. Passaste também agora recentemente pelo festival NOS Alive, já lá iria um bocadinho também a esse momento, mas queria começar aqui pelo nome, Esteves sem metafísica. Inevitavelmente, aqui uma referência a Fernando Pessoa, Álvaro Campos no Tabacaria. Escolheste este nome de alguma forma como lembreta própria para que as canções sejam mais diretas, terra a terra, sem grandes artifícios ou floreados?

Bom, a escolha do nome foi muito menos pensada ou menos elaborada do que possa parecer. Esteves sem metafísica, parece que andei aqui em grandes elucubrações identitárias. Eu partilho um apelido com essa personagem, que é o Esteves. E na faculdade de Letras, quando eu andava lá, tínhamos um grupinho e havia uns amigos meus que me tratavam-

Eram os intelectuais, não eram?

Eram, sim, os intelectualóides.

Os intelectualóides.

Eram os intelectualóides, superinteligentes e mais interessantes que o resto da humanidade. Éramos todos assim.

Teresa Esteves da Fonseca é o teu nome.

Exatamente.

Está no meio o Esteves.

Exatamente.

Queria, no entanto, tentar perceber como é que se chega a este disco de estreia, porque tu já editaste livro e agora chegou o disco. É sempre um momento, se calhar, em que arrumas algumas das tuas gavetas de escrita. Como é que foi transformar coisas que até poderiam, diz-me tu, ter um fim mais de livro e depois foram transformadas em canções?

Boa pergunta. Eu fico sempre atrapalhada ao responder a essas perguntas, porque tenho de organizar de uma forma super articulada coisas que foram muito vagas e pouco estruturadas no sentido de prever o que é que ia acontecer, o que eu queria fazer. Eu comecei a compor no princípio da pandemia. Já estava ligada à música há muito tempo, já cantava, já tocava há muito tempo, mas nunca tinha experimentado compor. E comecei a tentar explorar algumas ideias e começou a aparecer umas canções, umas que não tinham piada nenhuma e ficaram na gaveta e outras que-

Faz um disco lá de vez, um dia.

Um disco lá de vez, exatamente. O caixote de lixo não se desvaloriza.

Como é que nascem estas canções? Porque, por exemplo, quem escreve um livro ou quem escreve poemas, é sempre um trabalho muito solitário. Não há uma banda a escrever, não há quatro mãos a escrever livros. Se calhar até há.

Por acaso, os exemplos de literatura a quatro mãos não são os melhores.

Sim, de facto, não.

Grandes escritores, de repente, juntam-se e aquilo dá asneira.

As tuas canções também são assim? São um processo muito solitário ou depois a determinada altura tens a colaboração de mais alguém, de outros músicos?

Sim, às duas coisas. Eu acho que o ato criativo, mesmo o partir pedra Tirar da não forma uma coisa com forma e com limites, para mim é uma coisa bastante solitária. Ou seja, eu nem sequer consigo ter liberdade agora. Se calhar um dia vai ser diferente, mas neste momento a parte da ideia em que, de repente, aparece uma coisa que não tem bem forma e eu quero dar-lhe alguma forma, essa parte é bastante solitária. Mas depois, e foi aqui a grande novidade com este disco, foi-

O debut. Depois, algum momento chega a produção, não é?

Exatamente. Chega a produção, eu mostrei as coisas em bruto ao Sebastião Macedo, que também é músico e tem dois discos em nome de Príncipe. E eu gostei muito da linguagem de produção dele, das escolhas da estética sonora que ele usa nos discos dele. Então fui ter com ele e mostrei as coisas. E aí é que, de repente, há toda uma novidade para mim de agora alguém vai dizer alguma coisa sobre isto, vai me perguntar.

Como é que ele lidou com isso?

Muito melhor do que eu estava à espera.

Boa!

Descobri que o meu ego, sendo grande, não ocupa assim tanto espaço.

Ainda bem.

Foi um processo que, por acaso, correu muito bem. O Sebastião é muitíssimo criativo e tem uma capacidade de perceber aquilo que o artista ou o criador está a querer chegar. Onde é que estamos a querer chegar.

Nem sempre são felizes esses casamentos entre músicos e produtores. Este parece ter sido.

Pois não. Porque eu acho que aqui estão duas pessoas que estão positivamente nas tintas para algumas coisas.

Fiquei curioso. Apesar de solitário, o teu companheiro de composição é a guitarra ou o piano. Tens alguma preferência?

Exclusivamente guitarra. Houve algumas músicas, sobretudo uma, que começou com o ritmo, depois com a linha de baixo e depois só o resto é que veio.

Tinha também uma dúvida: eu próprio não consegui muito bem fazer este exercício para quem ouve pela primeira vez "Esteves Sem Metafísica". Como é que definirias este universo musical? Há referências que se podem usar para quem ouve a tua música pela primeira vez, que ajudem a catalogá-la de alguma forma?

A enquadrar. Eu não sei se o próprio artista é a melhor pessoa para definir aquilo que está a fazer.

Mas olha que os jornalistas às vezes não são muito bons a fazer isso também.

Mas há uns que são bastante acertados. Eu não sei bem o que é que definiria. Eu acho que a principal coisa que define isto é que não há muito esta coisa de "isto vai caber numa gaveta", mas também não há uma arrogância ou rebeldia de querer sair fora das gavetas todas, porque eu não acredito que isso seja sequer possível. Nós somos aquilo que ouvimos, que vivemos, etc. E isso tudo é enquadrável. O que eu queria com este disco, e acho que vou continuar a procurar isso, é alguma organicidade sonora de instrumentos, pessoas a tocar, uma banda.

Ok.

Era isto que eu queria. Gosto muito também de criar ambientes, de camadas. Pronto, era isto que eu queria. Não sei como é que se pode definir isto.

É música por camadas.

Música por camadas. Pronto.

Qualquer coisa desse gênero. Como é que foi o festival Nós a Lives? Sempre um sítio com mais gente a passar.

Sim.

O ambiente de festival. De alguma forma, conseguiste depois ali fazer um set que se adequava às canções do debut?

Sim. Fomos cinco para palco. Estive com um saxofonista, baterista, baixista, teclista e eu. E conseguimos encontrar ali um soft spot entre todos. Tínhamos a limitação de ser meia hora, ponto final.

No Coreto.

No Coreto, às 16h30. Eu estava um pouco nervosa, pensando: "Vão estar tipo três pessoas a ver isto", que eram os meus irmãos e os amigos deles.

Mas ouvi dizer muito bem desse concerto. Uma pergunta só para terminar, muito rápida: o debut acabou de sair, mas o teu próximo trabalho é um segundo disco ou um segundo livro?

Se calhar, um segundo disco livro. Não está decidido. Lembrei-me disto agora. Mas sim, as coisas têm de ser separadas e tem de haver uma capacidade.

Têm?

Eu acho que sim, porque senão depois cai numa coisa muito relativa e tudo é tudo, e desaprendemos a dar nomes às coisas.

Mas o teu livro é mais antigo, é de 2023.

É de 2023.

"A Morte Não Tem Pátria".

Exatamente.

Estou à espera de um novo agora. Podias ir intercalando sempre um livro.

Podia intercalar, já tenho uma gaveta cheia.

Escutem as canções de Esteves Sem Metafísica, estão pelos Spotifys da vida. Já agora podem também ler o livro de poesia "A Morte Não Tem Pátria", da Teresa, que foi convidada do Ao Vivo, aqui como Esteves Sem Metafísica. Há pouco estivemos com a música "Tenta", fechamos o Ao Vivo desta semana com "Dar-me de Volta". É assim, não é?

"Dar-me de Volta", exatamente.

Vamos escutá-la. Obrigado, Teresa, por teres vindo. Parabéns.

Muito obrigada, Nelson. Os meus braços dormentes de não saber tocar no refrão da tua dor. Mesmo que a vida se estenda pra lá do que eu consigo, eu não sei o teu tom. Estendo-me ao paraíso agreste, onde não sei existir. Sabes bem o que me desperta quando só quero dormir. Durmo de olhos abertos, não toco o que está perto, eu não sei embarcar. Na náusea que causa o teu espaço e toda a maravilha onde eu não sei ficar. Abres a porta do meu império que nem eu sei onde está. Tento na volta dar-te o que quero, mas caio ao tentar abraçar. Teu peito que é tão mais forte que o rio cheio de pressa pra chegar ao mar. E as minhas margens tão frágeis, tão cheias de si mesmas, quebram-se ao teu chegar. Só te posso dar o desejo de te querer para mim. Venho perdida e já tão gasta, mas sei que isso chega pra ti. Sei que isso chega pra ti.

Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.