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Ao vivo, na Rádio Observador.

O sol já doira teu cabelo, avermelha as tuas sardas, perfuma o alto da serra. Desenrola o novelo das vontades adiadas, urgentes como o dia que encerra. Quisemos correr, fazer parte da terra, ir em paz sem voltar em guerra. Se a rua ali à espera, a giganta primavera, esquece o drama. Que o fim da tarde nunca vai ser noite e em cada peito há um instante que canta a liberdade. Só me reconheço em beijos teus. Sabem sempre a hoje, beijos teus. Dás-me um dia inconsciente, mas devolves-me a noção só quando for mesmo importante. Dás-me o futuro que tu chamas de presente, por ser já a concretização do que pra mim é tão distante. A liberdade em estar longe e não querer estar perto, abrir o teu peito ao meu choque elétrico. Mas se há gente ali à espera pra estragar a primavera, ai, não descanse. Que o fim da tarde não quer mais ser noite e em cada peito há um instante que canta a liberdade. Só me reconheço em beijos teus. Sabem sempre a hoje, beijos teus. Agora solta beijos teus. Agora canta a liberdade. Só me reconheço em beijos teus, liberdade. Sabem sempre a hoje, beijos teus.

Luís Severo, convidado do Ao Vivo desta semana. Escutamos Primavera. Olá, Luís, bem-vindo.

Olá, Nelson.

Um prazer voltar a receber-te aqui na Rádio Observador e saber coisas tuas, que é sempre uma coisa que eu aprecio.

Acho que aqui nunca tinhas recebido, mas fica entre nós. Noutros sítios já tínhamos estado juntos.

De outras vidas profissionais.

Exatamente.

Estás aqui também porque agora em breve vais tocar, no final do mês, no Cool Jazz, em Cascais. Já lá vamos, porque está por lá.

31 de julho, só pra realçar.

31 de julho é o dia de Chet Faker e também do Miguel Marocco, que também toca nesse dia. Já falámos um bocadinho sobre isso.

Falámos, sim, senhor.

Mas queria saber em que fase estás atualmente na tua carreira, porque não temos um disco teu já há algum tempo. Ansiamos.

Muito obrigado.

Os teus últimos singles, que me recordo, cedo ou tarde, e incerteza, saíram em 2023.

No fim, já quase ali '24.

Só também não está assim tão longe.

Já está assim um bocadinho fora. Com toda a sinceridade, queria que este novo disco já estivesse aqui nas ruas, como a malta diz, mas não estava a ficar satisfeito, não estava numa fase minha boa, então fiz aqui esta pequena pausa.

Os Rolling Stones já deitaram discos pro lixo e fizeram de novo.

Não, mas não é o caso. Não é tanto isso, mandar pro lixo, mas claro que é muito bom também, numa fase em que não tinha disco, ter esta confiança da malta Cool Jazz, que fez esta data, marcou esta data, que é uma data ótima, mas ainda assim vamos ter muita música nova no concerto.

Pode servir de teste aí algum material também.

Muita já tenho tocado, mas voltar.

Muito bem. Tu tiveste também aquela sequência de discos mais guitarrinha e o pianinho. São fases que deixaste, agora estás de regresso, se calhar, a uma sonoridade mais completa ou com uma banda mais completa.

Vou intercalando entre o solo e isso. Essa é uma ótima pergunta, porque eu não me recuso, eventualmente, um dia fazer, se calhar, pianinho dois, pianinho três.

Ou outro instrumento, nunca pensaste?

Essa é a questão, porque não tenho outro instrumento. Eventualmente o coro, se fosse com muita gente, mas ficava como corinho.

Ou gospelinho.

Sim, exato, gospelinho. Mas imagina, acho que acaba por ser fixe, porque acho que das pessoas que me seguem, já vi tanta malta que acha que: "Não curto nada ver-te a solo, gosto é com músicos". Mas também há uma certa malta que diz: Acho melhor a solo, porque sinto as músicas de outra forma. Então acho fixe ter na net ambas as hipóteses.

Eu digo-te a minha opinião. O que eu acho é que eu gosto teu em qualquer formato. Por quê? Porque eu gosto de ti essencialmente pelas coisas que tu dizes, pelas coisas que tu escreves e essas estão lá.

Muito obrigado, Nelson.

No formato que for. Eu acho que tens essa característica de ser uma espécie até de trovador da urbanidade, da cidade. Gosto dos temas com que falas das cidades e de temas que às vezes são mais mundanos, a passagem do tempo.

E olha que, na verdade, desculpa interromper-te, fiz muita música aqui na rua do lado.

Aqui em Alcólar.

Nós tínhamos aqui o estúdio. Não, era a um minuto daqui. Até me fez confusão. Hoje aquilo é uma daquelas cozinhas Bolt. Desculpa, não se pode dizer. Pronto, essas coisas que as pessoas encomendam.

Sim.

Claro que antes de vir para aqui, passei lá, quis ir lá no estúdio antigo que nós tínhamos, Cucamonga. Estavam lá senhoras.

A trabalhar?

Sim, claro.

Claro, as instalações da Cucamonga, exato, onde tocavam também os Capitão Fausto, ensaiavam ali também.

Era aqui mesmo atrás. Acho que já viste um sítio de onde saem imensas motas.

É verdade. Mas voltando a essa tua característica, as novas canções ou as próximas canções continuam a ter essa toada, continua a ser a tua marca autoral, desse tipo de letras, de canções, esse tipo de temática?

Sim, no sentido que nunca vivi noutro sítio que não, de facto, a cidade. Agora estou a viver nos Olivais, que é uma zona um bocadinho mais campo, mesmo assim na cidade. Mas acho que sim. Eu estou sempre a fazer letras e eventualmente acho que é por isso que é o que me sai melhor dentro de tudo, porque é o que eu ocupo mais para fazer tempo. Eu, de facto, ocupo muito, porque é algo que eu faço quando estou.

E sai-te sempre primeiro uma letra e depois um instrumental, ou não?

Saem frases. Depois no instrumental moldo, mas nunca parto para um instrumental sem ter pelo menos coisas soltas. Não tem de ser mesmo uma letra rígida. Claro que depois também mudas coisas, porque o que se lê não é como a pessoa canta e depois mudas sempre qualquer coisinha, de métricas, as sílabas tônicas, essas coisas chatas, mas tento sempre ter uma ideia vaga, mesmo que depois não seja rígida.

E depois como é que isso evolui? Continua a ser um trabalho muito só teu ou a determinada altura começa a entrar mais gente nesse processo de terminar uma canção e depois gravá-la?

Neste meu novo disco, eu fiz a composição sozinho. A Catarina Branco deu-me uma ajuda com os arranjos e com essas questões, mas a composição é minha. Mas também tenho aos poucos, quando me apetece, faço coisas para outra malta. E é bom, às vezes, quando encontras pessoas que não têm a mesma lógica que tu a fazer canções e que se calhar compõem de outros modos, isso é muito engraçado e acho que levas sempre qualquer coisa.

Eu há dias vi pelas redes sociais uma colaboração que deverá surgir em breve com a Ana Mariano. Ela também já passou aqui pelo ao vivo da Rádio Observador.

Grande amiga.

Gosto muito dela, ela é muito talentosa.

É muito talentosa. Já não é fácil, porque como é, de facto, uma pessoa com quem eu me dou muito, parece que fica mal dizer que é, mas sim.

E eu tinha curiosidade também se estes tempos em que estás há já algum tempo a trabalhar nesse disco também é intercalado com outro tipo de trabalho desse gênero, de colaborações.

Eu com a Ana, a gente compôs uma canção que é para um disco de um intérprete que ainda não sabemos se ficou. Portanto, não posso ainda revelar, mas sabes que é essa coisa.

Mas é para olhar para além disso. É diferente.

Eu não sei se ela quer que eu fale disto, mas eventualmente pode haver qualquer coisa dela em que eu entre, mas ainda não é certo. Acho que não sou eu que tenho de dizer, porque ela é dela.

Ela já publicou um vídeo contigo.

Certo. Só me sinto, não sei o que é suposto dizer.

Mas gostei dessa junção. Falemos só um bocadinho, para terminar, do CoolJazz no final do mês, dia 31. Alguma vez imaginaste tocar num festival com o Chet Faker? Diz-te alguma coisa como artista?

Diz. Até tem piada, porque eu acho que malta mais nova já não tanto, mas acho que para a minha geração e tua, se calhar agora, 30 e poucos, 30, mas eu estava outro dia a falar com uma pessoa que tinha 20 e tais e que não diz tanto, mas malta assim mais velha diz muito. E eu sim, tenho essa ligação e claro que fico satisfeitíssimo.

Como é que se adapta um alinhamento, que ao que parece já tem até canções novas, para um festival naquela localização e com esse cartaz nesse dia?

Acho que apesar de tudo é um evento fácil para o que eu faço, porque é para gente sentada, há muita gente sentada. Não é aquela coisa festival de mosh.

Mas de alguma forma também é um festival que tem um lado mais jazzístico, mais fusão de estilos.

Sim, acho que tenho mais, se calhar, medo disso. Nos meus acordes não tem assim muitas nonas. Não sei se isto assim no jazz vai.

Sim.

Mas acho que vai ser divertido. Fiz o que me apetece, mas não estive a pensar.

Vais sozinho ou com banda?

Vou eu sozinho.

Ok.

Não sei ainda se vou ter alguma coisa, isso depois fica lá para a data, mas tinha sido essa mesma-

A ideia.

Sim, a ideia, sugestão deles.

Nesse mesmo dia há também Miguel Marôco.

Exatamente, Miguel Marôco.

Também passou pelo ao vivo aqui muito recentemente.

Saiu o novo disco dele há uns meses.

É incrível. Gosto muito do disco do Miguel Marôco. Depois de Primavera, temos "Cedo ou Tarde".

Uma das já está cá fora.

Uma das que já está cá fora, dessas de 2023. "Cedo ou Tarde", vamos ouvi-la agora com o Luís.

Novembro ou dezembro.

Com o Luís Severo e também com os cuidados técnicos do Rafael Peco. Luís, muito obrigado por teres vindo.

O som muito é bom, Rafael, muito bom.

O Rafael é ótimo e vai ser ótimo também, Luís Severo, 31 de julho no CoolJazz. Um abraço, Luís.

Muito obrigado, um abraço. Se a vida passa a correr e um dia sem avisar. É cedo pra adormecer, tarde pra acordar. Revoltas por esquecer, sonhos por adiar. É cedo pra adormecer ou tarde pra acordar. Se é cedo demais pra adormecer, tarde demais pra acordar. A família afasta-se, o verão volta mais quente. A casa arrumada fica um caos de repente. O vinho adiado pra hora certa, a sesta apetece, o tempo aperta, outro mau pressentimento. Sempre uma ânsia de ser produtivo, como se a lua dependesse disso. Ladra o cão tão contente, já vai raiar o dia. Sais de casa em jejum pra chegar antes do tempo, onde o perto é longe pra agitar a corrente. Depois da labuta, o amor de madrugada. Que seja urgente, nem dá pra cova do dente. Será que a tristeza entorta o andar? Ou atrás de tanta aura positiva, as formas que a sós tentas cozinhar pra acabar com essa vida que já se repete, mas ainda é cedo demais. É que o dia passa a correr, mas sem nada mudar. É cedo pra adormecer, tarde pra acordar. São mensagens por ler, roupa por engomar. É cedo pra adormecer ou tarde pra acordar. Se é cedo demais pra adormecer, tarde demais pra acordar. Se é cedo demais pra adormecer, tarde demais pra acordar. Morrem os bacanos, os bacanos morrem sempre. Em fatalidades, sempre surpreendentes. Vais ao café respirar fundo, perguntar pelo fim do mundo à natureza impaciente. É tudo tão grande, maior que o teu motivo. Sorte seres figurante nesse teu caminho, com a paixão pelo mistério que nasce e morre num dia. Quem espalhou o ódio um pouco por toda a gente, esqueceu que o amor foi outrora a semente. E se agora quem vota na destruição é o teu pai, o teu irmão, fecha os olhos, segue em frente. Pra acabar tudo no tempo certo, vai estragar ao filho o mundo em aberto. O teu poder pequenino, trá-lo sempre vestido em pactos com cassetetes e grita às paredes que agora é tarde demais. É que a vida passa a correr e um dia sem avisar. É cedo pra adormecer, tarde pra acordar. Revoltas por esquecer, sonhos por adiar. É cedo pra adormecer ou tarde pra acordar. Se é cedo demais pra adormecer, tarde demais pra acordar. Se é cedo demais pra adormecer, tarde demais pra acordar. Dorme o sono dos justos, em olhar de serpente, que a cidade é um mundo, mas não cabe toda gente. E de tanto lutar com o teu irmão, ficou só a solidão e o teu saquinho de água quente.

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