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Ao vivo, na Rádio Observador.
Ócio é um negócio, posso ou não posso, peso, meço. Preso ao prazo, eu prezo o prazer de não fazer caso. Vício ou preguiça, vício é o ofício, dedico ou me abdico. Ao comprido mastigo e remeto mais este caso ao acaso. Viver é ver o sol morrer no azul do mar. Saber andar é saber deixar andar. Não há nada, nada. Não há nada como não fazer nada. Nada, não há nada. Não há nada como não fazer nada. Amaço ou avanço, aceito ou declino, à qual me inclino. Reclino, encosto e com gosto à eterna gosto me entrego. Luta ou leito, labuta ou deleite, leva-me, levo. Demito-me logo ou delego em alguém e a mim me relego. Viver é ver o sol morrer no azul do mar. Saber andar é saber deixar andar. Não há nada, nada. Não há nada como não fazer nada. Nada, não há nada. Não há nada como não fazer nada. Fumigo em mim a formiga, fumo um cigarro, sigo cigarra. Sou Nero, deliro em delírio por ver tudo arder em paz. Nada, nada. Não há nada como não fazer nada. Nada, não há nada. Não há nada como não fazer nada.
Miguel Araújo no ao vivo desta semana e aqui com "Elogio da Preguiça". De resto, uma canção que já se ouve há algum tempo aqui na Rádio Observador. Miguel, muito obrigado por teres vindo.
Obrigado, eu é que agradeço o convite.
Muitos parabéns por este novo disco. Chama-se "Por Fora Ninguém Diria". Eu gostei particularmente do facto de ele ter sido lançado no dia 1 de janeiro. Ali quase com a missa do galo, surgiu o novo disco de Miguel Araújo. Por alguma razão, o Ano Novo é sempre uma coisa em que fazemos algumas resoluções. Este disco também tem esse statement de: "Isto agora vai ser diferente, este ano vai ser bom".
Sim, nós organizamos os anos assim dessa maneira, se bem que não me diz grande coisa. O 1 de janeiro não me diz especialmente grande coisa. Para mim, os anos começam em setembro, que é quando começa a época da escola dos meus filhos. Para mim, o início do ano é o setembro, é quando eu faço as resoluções de me meter no ginásio, etc. Não é em janeiro, acho ali uma quebra um bocadinho artificial.
Sem dúvida.
Mas o que é que acontece? Eu tinha este disco pronto já há muitos meses antes, quase um ano antes de ele ter saído. Só que 2025 foi um ano com muita atividade. Eu fui ao Meo Arena, fui ao Super Bock Arena, lancei um EP com duetos.
O "Recantigas", não foi?
Ah, depois saiu também esse disco.
Saiu esse disco com muitos convidados.
Então eu tinha, num almocinho de trabalho com o meu manager e com o pessoal da minha agência, ele sugeriu que este disco deveria sair só em 2026. Eu, um bocadinho por piada, programei para sair no primeiro de segundo de 2026.
Mas foi só por graça. Saiu ali antes pingos do fogo de artifício.
Não foi picardia com o management de Miguel Araújo.
Era uma piada. Olha, gosto muito desta canção. Eu acho que tu tens esta característica desde há muito tempo. Tu consegues escrever coisas com as quais as pessoas se identificam, a prová-lo estão as enchentes nas grandes salas do país que tens tido. E estes 20 anos que estás agora a assinalar, sempre com muito sucesso. O "Elogio da Preguiça" é um desses casos. É impossível alguém não se identificar com aquilo. Como é que tu consegues fazer de coisas tão mundanas, transformá-las numa canção bonita, que é o que acontece aqui?
Eu não sei, eu nunca tinha pensado nisso, mas eu conheço muitas pessoas que são absolutamente elétricas e hiperativas. São incapazes de não fazer nada.
Essas pessoas eu não as compreendo.
O não fazer nada é um desafio que é bastante saudável e bastante útil pra pessoas que não conseguem estar paradas, mas há muitos, eu não sei como é que é possível, mas eu adoro. É um estado que pra mim é muito natural. A lei do menor esforço, pra mim é uma das leis básicas de física do universo.
Há uma altura, já vai alguns anos, eu acho que li isso numa entrevista, desmente-me se eu estiver enganado ou se tiver sido fake news. Há uma altura em que tu dizes que quase que testas as tuas canções com a tua família ou com a tua mãe, ou com a tua irmã, ou com a tua esposa, já não me recordo exatamente qual era o agregado com quem tu testavas as tuas músicas, mas de alguma forma, se elas sentissem aquele efeito mais oreelhudo, tu começavas a perceber que essa poderia ser uma boa canção. Ainda é um método pra compor e pra escolher temas?
Sim, eu agora tenho método que é quando vou levar os meus filhos à escola, que eu agora já não vou de carro, que eles levam de bicicleta sozinhos, porque a minha casa é muito perto da escola onde eles andam. Mas quando vou de carro, meto músicas que tenha feito a pré-produção uns dias antes.
Teste.
Mas não digo nada, meto só. E depois, às vezes eles gostam e pedem pra pôr outra vez e no dia seguinte: "Pai, põe aquela não sei o que mais". E aí é que eu sei se tem alguma viabilidade comercial, a minha música.
Isso é giro. Também li a propósito deste novo disco, "Por Fora Ninguém Diria", o disco que saiu agora em janeiro, que de alguma forma recupera uma espécie de processo criativo que já tinhas tido com o "Cinco Dias e Meio" e com o "Peixe Azul". Isto quer dizer que é um regresso a esse tipo de composição e se calhar até a esse tipo de temática e de lírica?
Sim, não é tanto em aspectos de temática e de lírica, nem sequer muito de composição, é mais enquanto método de trabalho, tem mais a ver com a produção, a maneira como eu produzo as músicas. Eu desde que tenho estúdio em casa, desde 2018, que me entretenho a brincar no estúdio com as músicas que vou fazendo. Eu não vou pro estúdio fazer músicas, mas vou pro estúdio produzir ou pré-produzir, ou fazer maquetes das músicas que eu entretanto já escrevi. E é uma coisa que eu gosto muito, a minha brincadeira de adulto é como estar num quarto cheio de Playmobils, que era o que eu fazia com os meus primos quando era miúdo. Pra mim, tem um bocadinho essa lógica, sem qualquer pressão, sem qualquer ideia ou sem qualquer olho no que será a consequência daquilo. Portanto, a grande porcentagem das minhas músicas vão pro lixo, acabam por nunca sair.
E continuam a nascer à guitarra, normalmente contigo sozinho?
Sim, guitarra, piano. Hoje em dia eu gosto muito de fazer ao piano. Mas entretanto, a estatística que vem agarrada a cada canção que eu faço é que ela, em princípio, não vai sair, porque 90% das músicas não saem. Por isso é com essa desplicência, não é bem desplicência, mas é com esse desapego que eu estou ali a trabalhá-las. E ao fim de alguns tempos, aconteceu com o Peixe Azul. Ao fim de alguns tempos, o que seriam as maquetes das músicas, eu gostei do lado assim um bocadinho rough around the edges, um bocadinho inacabado. Não é desleixado, porque isso é uma palavra feia.
Lo-fi?
Também não é lo-fi, porque o meu estúdio é todo state of the art.
Exato.
Mas é o lado um bocadinho imediato, um bocadinho ingênuo de abordar as músicas. E agora com esta coleção de canções eu senti essa coisa. Senti: "Olha, se calhar não preciso de produzir da maneira mais convencional estas músicas, se calhar é assim que elas são". E aceitei-as assim e lancei-as assim.
Ainda assim, de alguma forma, eu achei que neste disco tu revelas um tipo de maturidade diferente do que nesses dois. É óbvio, já lá vão alguns anos. Fala um bocadinho daquelas salas grandes que encheste, estiveste no Meo Arena, estiveste Super Bock Arena. Estamos também aqui um bocado a embrulhar isto num 20º aniversário de carreira. É uma espécie de dever cumprido? Olhas pra estas enchentes, estar a tocar numa sala tão grande com tanta gente, pra 20 anos de canções, de uma forma satisfatória contigo próprio?
Eu acho que há várias coisas.
I made it.
Há várias coisas a dizer sobre isso. Uma delas é que foi natural e foi progressivo, foi aos pouquinhos. Eu não fui vítima ou abençoado, quer uma pessoa olhar pra isso como uma coisa boa ou má, eu acho que é ambos, mas eu não fui fruto de um sucesso imediato, que hoje em dia eu vejo muita colega minha mais nova, que de fato acontece-lhes isso, têm um sucesso overnight, do dia pro outro.
E fazem logo o Coliseu, coisa que se calhar tu demoraste um pouco mais a fazer.
Sim, exato. Os primeiros sete anos da minha vida profissional foram muito na sombra. E isso foi bom, porque deu-me escola, deu-me traquejo, deu-me experiência, deu-me isso tudo. Mas dá uma ideia que hoje em dia se espera que os sucessos sejam imediatos quando se pega num artista assim acabado de sair de um concurso de talentos. Dá uma ideia que se a coisa não bate em meio ano, o próprio fica muito desmoralizado, as pessoas à volta ficam muito desmoralizadas, quase que se exige de um artista hoje em dia que tenha sucesso imediato. Eu não foi esse o caso. Eu quando gravei meu primeiro disco a solo, honestamente não pensava em ir dar concertos, tanto que eu fui pro estúdio, não com a ideia de gravar um disco, mas com a ideia de fazer uma filmagem com o André Tentugalinho, que eu à guitarra iria tocar uma série de músicas que eu tinha na gaveta. Aquilo iria ser filmado e iria pro YouTube ou pra televisão, ou o que quer que fosse, mas ia ser só isso. Depois eu cheguei lá, tinha marcado três dias de estúdio, que acabaram por passar pra cinco dias e meio de estúdio, que é como o disco se chama, em que eu, tal como uma criança que se deslumbra com as coisas, eu deixei-me deslumbrar e fui metendo um baixo, uma bateria, uns pianos e tal, e acabou por ficar assim uma coisa um bocadinho mais arranjadinha. E depois apareceu o interesse da EMI na altura de lançar aquilo como disco. Fiquei meio cético, porque aquilo não soa muito a um disco. Aquilo são primeiros takes, takes diretos do princípio ao fim, nos vários instrumentos. Aí sim, há ali um desleixo inerente ao disco. Eu tive que pensar muito bem se queria lançá-lo como disco. Mas eu não tinha sequer organizado uma banda, não tinha contratado músicos pra ir pra cima de um palco, coisa que eu não iria. O disco saiu em maio, acho eu, e apareceu um concerto Em julho eu tive que ligar a correr a amigos meus para ver se queriam vir tocar comigo. E eu estava tão impreparado para ir ao palco que eu não sabia se conseguia dar um concerto do princípio ao fim, nunca tinha experimentado cantar, não sabia se tinha voz para isso. Então eu atuava sentado nessa altura porque não tinha posição ainda, estava muito desconfortável com essa coisa de ser o frontman. Já tinha anos de palco, mas não como frontman. Se nessa altura me aparecia o MEO Arena, se o meu sucesso tivesse sido de tal maneira, iria ser mau, iria ser uma coisa para a qual eu não estava preparado. Por isso, respondendo à pergunta que tu me fizeste, as coisas foram acontecendo gradualmente, foram fermentando, foram gestando nesse sentido. E por isso quando chegou o dia, eu já me sentia capaz de fazer uma coisa assim. Foi bom.
E esse crescimento aconteceu com bons adubos, diria. Olha, estava aqui a olhar para a tua agenda, passem pelo site do Miguel Araújo, miguelaraujo.pt. Estou a ver aqui concertos na Guarda, 24, 25 de abril, à Teatro Circo no final de abril também, com duas datas, creio que três também seguidas em maio, em Vila Nova de Famalicão. São agora os próximos concertos. Também é fixe para ti vir de salas tão grandes e fazer este circuito de salas mais pequenas pelo país, porque eu acho que tu tens essa sorte também. O teu público gosta muito de ti. Isso é uma relação boa que tu criaste com quem gosta da tua música.
Sim, eu adoro as salas pequenas também. Um artista que eu adoro, que é o Ben Folds, diz que o grande desafio é fazer das salas grandes uma sala pequena e fazer das salas pequenas uma sala grande.
Bem visto. Percebo.
E eu lembro-me quando fiz os concertos com os Zambuos no Coliseu em 2016.
Aqueles 3000, não foi?
Sim. É uma sala grande, para todos os efeitos, são 3000 pessoas. 3000 é o número de pessoas que lá estão. E logo a seguir eu fiz uma mini digressão de autocarro na Galiza, em bares. Eu nunca tinha tocado em bares, nunca tinha cantado as minhas músicas em bares, porque eu passei logo para o tal concerto que eu falei há bocado, que foi em Rio de Morto, nas festas, onde eu atuava sentado. Depois fui para as festas de Viseu, para as festas de Condeixa, sempre sentado. Mas eram plateias minimamente numerosas. E nunca tinha passado pela experiência de tocar as minhas músicas e cantá-las em bares, e fui fazer isso para a Galiza. Por isso é engraçado, porque eu passei do Coliseu para as salas mais pequenas, onde as pessoas não me conhecem de absolutamente lado nenhum, ninguém conhecia as minhas músicas. Foi muito mais desafiante, muito mais estressante, fiquei muito mais nervoso, muito mais ciente daquilo que estava a fazer.
Estão ali mais perto de ti.
Ali em bares para 25 pessoas do que semanas antes no Coliseu. Por isso a dimensão das salas é muito relativa.
Salas é o que fizermos, o que quisermos fazer delas.
Exatamente.
"Por Fora Ninguém Diria", novo disco do Miguel Araújo. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Vamos ouvir agora "Céu", uma destas novas canções do Miguel Araújo e confiram aí as datas por onde ele vai andar nas próximas semanas. Miguel, muito obrigado e muitos parabéns por este teu disco.
Obrigado.
Quem é que aspira o céu enquanto o céu aspira o chão? Quem é que dá uma passa ou passa um pano no balcão? Quem é que pensa em tudo, esfrega os olhos de cansado? Se o céu não pensa em nada, esfrega o chão da sala ao lado. Passa um dia, passa um ano, passa a ferro, passa ao lado. Quem não quer um pedaço de céu? Quem quer ser a ponta do véu? E quem quer só aquilo que é seu. Leva mais um pedaço de céu. Céu entre suspiros, faz suspiros para fora. Passa o tempo, passa ao lado, já passa da hora. Enquanto alguém despeja em verso mágoas tão cruéis. Céu despeja os restos que há no cesto dos papéis. Passa um dia, passa um ano, passa a ferro, passa ao lado. Quem não quer um pedaço de céu? Quem quer ser a ponta do véu? E quem quer só aquilo que é seu. Leva mais um pedaço de céu. Leva mais um pedaço de céu. Leva mais um pedaço de céu. Leva mais um pedaço de céu. Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.