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Ao vivo, na Rádio Observador.
Sei dizer os detalhes do teu rosto. Sem olhar, lembro cada pormenor dos teus olhos e das rugas que não tens. Dos teus lábios e dos beijos que eu imaginei. Mas estou só na vertigem e tu nem me conheces. Ando a sonhar baixinho, a ver se me apareces a qualquer hora do dia, quando menos esperar por ti. Para seguirmos juntinhos e nos fazermos à estrada, onde o pôr do sol não muda nada. E eu não acorde sozinho, condenado a escrever clichês. Mas estou só na vertigem e tu nem me conheces. Ando a sonhar baixinho, a ver se me apareces a qualquer hora do dia, quando menos esperar por ti. Para seguirmos juntinhos e nos fazermos à estrada, onde o pôr do sol não muda nada. E eu não acorde sozinho, condenado a escrever clichês.
"Clichê" é uma das canções novas do Miguel Maroco, é convidado ao vivo desta semana. Miguel, bem-vindo.
Alô.
É um prazer estar de novo aqui contigo também na Rádio Observador, com este terceiro álbum acabadinho de sair. Por que "Desgraça"? Até porque fiquei com a impressão que há uma espécie de ironia nesta desgraça ou ela é assumida?
Se é só irónica ou se é assumida, acho que o tempo vai dizer.
OK.
Mas sim, a ideia era ser uma coisa um bocado irónica.
Fatalista, isso.
É, exato. Mas sem levar demasiado a sério também. Mas no fundo, a ideia é: eu estudei matemática, podia ter feito um caminho talvez mais standard, mais seguro, de alguma forma, e escolhi ser músico profissional.
Mais lucrativo, talvez.
Sim.
Depende.
Exato. Por isso é que o tempo dirá. Pode ser muito lucrativo ou muito pouco lucrativo.
Estava a ler também no teu press release a propósito deste disco, achei piada à coisa de querer escrever hinos para uma vida mais boémia, mas que isso, de alguma forma, saiu um tiro pela culatra, dito de outras maneiras. Sentes que a noite e a boémia têm um preço que só consegues pagar agora através destas canções?
Sim. Eu quando comecei, queria meio que imaginar uma personagem, talvez a personagem que eu gostava de ser, mas depois à medida que fui escrevendo as canções, comecei a sentir que não estava bem a dizer a verdade. E depois as canções não ficavam boas, porque eram um bocado plásticas demais.
Estavas a ser um impostor.
Exatamente. E, portanto, passou tudo um bocado por aí, por perceber que encontrei, se calhar, esta nova maneira um bocadinho mais extrovertida de ser, mas não deixo de ser uma pessoa superintrovertida, que precisa do meu espaço e do meu tempo e dos meus momentos de reflexão e introspeção.
Como é que surgiu também esta arquitetura para o disco, mais ou menos inspirada no espaço físico de um hotel? Temos um check-in. Como é que surgiu esta arquitetura? Foi um daqueles momentos eureka, que fizeram ligar, de alguma forma, as canções no disco?
Não, na verdade, essa ideia nem sequer foi minha, a ideia foi da Madalena Talman. Eu já sabia desde o início do disco, desde que comecei a escrever, que queria ter uma faixa introdutória e queria ter uma voz icónica a abrir o disco, só a falar e a apresentar o disco, etc. Falei com a Madalena, porque eu também lhe propus que fosse ela a escrever o texto, e ela quando ouviu o disco, devolveu-me esta ideia que era: "Achei o teu disco supercinemático, e se isto fosse enquadrado assim num hotel?" E eu achei que era uma ideia superinteressante e que o desafio passou a ser: o texto que vais escrever tem de falar de alguma forma Talvez um pouco indireta sobre as canções e o que se passa nas canções, sendo que depois o imaginário é do gênero. Todas as canções podiam estar a acontecer num dos espaços do hotel, ou seja, podia ser num quarto, no lobby, no bar, no restaurante ou na piscina, no spa.
Assinas as canções e também a própria produção destas 12 novas canções. Como é que foi trabalhar este lado mais de limar as canções? Como é que te sentiste nesse papel? É uma necessidade também de maior controle da obra e criou-te alguns desafios?
Sim, eu sempre produzi as minhas próprias coisas, mas acho que neste disco foi o disco em que eu tive mais controle, também porque fui gravá-lo a vários estúdios diferentes. Eu até agora tinha gravado tudo no mesmo sítio e assim um bocado mais depressa. E este disco demorou um bocadinho mais de tempo e fui mesmo gravar as coisas aos sítios onde sabia que ia encontrar os sons que eu queria. Gravei as baterias no estúdio do meu baterista, fui gravar pianos a Vale de Lobos, fiz uma coisa um bocado mais curada, meio tipo de alfaiate. E isso foi interessante, porque acho que, no fim de contas, o resultado ficou muito mais à medida daquilo que eu procurava fazer. Eu sempre tive esse controle da produção, mas desta vez é que o disco está mesmo como eu queria que ele soasse, porque fui mesmo aos sítios à procura dos sons que eu queria e não foi uma coisa de entrar num estúdio, gravar mais ou menos os sons que existem lá nesse estúdio. Por isso é que acho que o disco também está mais de acordo com aquilo que eu ambicionei.
O Zé Maria é convidado numa canção, "Farra e Folia", creio, não é?
Exatamente.
Depois tens o norte-americano Justin Stanton, dos Snarky Puppy, ele que é norte-americano, mas que já é meio lisboeta também. Como é que surgiram estas duas colaborações? Porque parecem, primeiro, dois nomes com percursos bastante diferentes, não é?
Isso é interessante, mas na verdade eles até se interseccionam bastante. Acho que eles tocaram mais vezes juntos do que eu toquei com cada um deles a nível individual. Porque basicamente o Justin viveu cá durante uns dois a três anos. E acho que também nessa altura procurou um bocadinho enturmar-se com o meio local do jazz, etc. E o Zé Maria já é uma voz com um track record incrível no meio do jazz em Portugal e acho que eles se interseccionam de uma maneira bastante óbvia. Eu conheci o Zé Maria e o Justin, na verdade, através do meu guitarrista, que é o Fred Martin. Eles gostaram da minha música. O Zé Maria não fiz tanta cerimônia, porque é mais amigo, etc. Mas depois com o Justin, fiz alguma cerimônia ao convidá-lo. " Será que podias tocar no meu disco?" assim com algum medo. E ele foi superaberto, superquerido. Disse: "Yeah, man, no worries."
Ele é muito simpático. E é um grande fã da água das pedras. Diz que é a melhor água com gás do mundo.
Ele há de saber.
Vamos olhar um bocadinho aqui para este concerto de apresentação do "Desgraça", 18 de junho, no Beleza, em Lisboa. De alguma forma, também é um espaço que historicamente apela à dança, diria. Como é que se encaixam estas canções num espaço que tem uma pista? E estou curioso para perceber também quem é que está contigo em palco na apresentação deste "Desgraça".
Comigo em palco vai estar a minha banda do costume, que é o Francisco Santos na bateria, o Gonçalo Bicudo no baixo e o Fred Martin na guitarra. Mas depois ainda vou somar outros dois músicos, que vão fazer com que o show cresça ainda para uma coisa um bocadinho mais enérgica e cheia de intensidade. E, na verdade, a escolha do Beleza não é aleatória, porque eu efetivamente queria mesmo que as pessoas fossem ouvir o disco neste contexto de diversão e de dançarem e de soarem um bocado com as canções, porque eu acho que elas também têm um pouquinho esse potencial. E também quando comecei a pensar no disco, queria muito que o disco fosse uma experiência, ao ser ouvido ao vivo, que houvesse esta vertente do jazz, da improvisação, da intensidade e do frenesim. Portanto, acho que é assim que vai ser o concerto.
É um bom disco para curar uma ressaca emocional?
Talvez seja um bocado intenso para ouvir quando se está de ressaca. Eu acho que pode ser melhor ouvir antes de se estar de ressaca.
Ok, para a fase anterior.
Exato.
Miguel Marôco no ao vivo desta semana com "Desgraça", é o novo álbum. Não percam o concerto a 18 de junho no Beleza, em Lisboa. Ele também vai passar pelo Cool Jazz, porque foi vencedor de, como é que se diz? É um passatempo. Não.
É um concurso.
É um concurso dos novos talentos da Jazz Cool Jazz. O Miguel Marôco é um dos vencedores, o que o vai também levar a palco nesse festival em Cascais. E agora, para fechar, "Sayonara Meu Amor". Faz sentido. É mais uma das canções de "Desgraça". Miguel Marôco no ao vivo desta semana da Rádio Observador, aqui também com os cuidados técnicos do Artur Costa e do Rafael Peco. Miguel, muito obrigado e muitos parabéns por este disco.
Obrigado.
Até à próxima.
Dar ou pedir perdão. Por mais tinta que escorrer, já é tarde para lutar por um amor que morreu e nada mais, nada mais resta dizer. Sayonara, meu amor, já não é preciso guardar rancor. Não vale a pena ver-me chorar, porque o meu choro corre para o mar. Sayonara, meu amor, já não é preciso guardar rancor. Não vale a pena ver-me chorar, porque o meu choro secou com a chuva ou perdeu-se no vento. Foi afogar o meu lamento num corpo visível que estava à mão, entre dois versos com pouca intenção. Sarar foi aprender que há vida para além e que o lixo de uns é o tesouro de outros. Eu só não era o teu e nada mais, nada mais resta dizer. Sayonara, meu amor, já não é preciso guardar rancor. Não vale a pena ver-me chorar, porque o meu choro corre para o mar. Sayonara, meu amor, já não é preciso guardar rancor. Não vale a pena ver-me chorar, porque o meu choro corre para o mar. Sayonara, meu amor, já não é preciso guardar rancor. Não vale a pena ver-me chorar, porque o meu choro.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.