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Ao vivo, na Rádio Observador.
Este tema é dedicado a todos os assalariados do mundo corporativo, incluindo aos da Rádio Observador. Era só mais um dia em que eu ia pro escritório. E nesse dia eu só ia porque era obrigatório. Mal sabia eu que naquela sala de reuniões, iam ser negociadas as minhas emoções. Entre apertos de mão e gente de fato e gravata. No meio da elite, diria mesmo nada de nada. Apresentaste-te, mas antes pousaste a tua pasta. Levantaste o olhar pra mim, esticaste minha mão e basta. Eu podia dizer que era um gosto estar aqui no Observador, mas em vez disso, digo: o prazer é meu, mas vai ser nosso. O prazer é meu e também teu, aposto. O prazer é meu e se quiseres eu mostro, como as nossas ações vão subir. Eu estou livre como o mercado. Temos encontro marcado, no restaurante do mercado gourmet. E eu gosto de ir aprumado e com o discurso aprimorado, mas não temos de nos tratar por você. Entre um jogo de padel e uma folha de Excel, convido-te a trabalhar na empresa do Miguel, especialista em energia sustentável. Dominei a concorrência como um cartel, 51% na tua conta bancária. Vou fazer de ti a minha sócia maioritária. Tenho aqui a documentação necessária. Assina comigo e nunca mais vais mudar de área. E é isso. Por mim, temos negócio fechado, ou não? Yes. O prazer é meu, mas vai ser nosso. O prazer é meu e também teu, aposto. O prazer é meu e se quiseres eu mostro, como as nossas ações vão subir. Sempre a subir, sempre a subir, sempre a subir. Sempre a subir, sempre a subir, sempre a subir. Sempre a subir, sempre a subir, sempre a subir. Da formalidade ao à vontade, está na cara que nós somos caras-metade. Minha cara, é verdade, eu vi a oportunidade e não a deixo escapar, invisto na totalidade.
"O Prazer é Meu", Mike Alnight, ao vivo na Rádio Observador, esta semana a mostrar "Existência e Sensual". Consegui dizer bem, Miguel?
Certíssimo.
Simplesmente Miguel. Obrigado por teres vindo.
Ora essa, o prazer é meu.
Muitos parabéns por este disco. Tenho gostado muito de o ouvir. De resto, já mereceu apresentações em Lisboa, Porto e Braga, concertos dos quais ouvi falar grandes coisas. Não sei se queres confirmar ou desmentir.
Correu muito bem. Acima de tudo, foram cheios de amor. Fui lá falar de amor e amor recebi em troca. Obrigado a toda gente que esteve presente.
Imagem bonita. Mike Alnight, ou para os amigos, ou para quem quiser, nesta altura da sua vida, simplesmente Miguel. Este é um disco que me parece uma viragem. O teu nome, durante 10 anos, esteve muito associado ao hip-hop. Depois com o disco "Palavras Cruzadas", feito com o David Bruno, já se notava aqui alguma mudança de gênero ou de exploração sonora, que tem continuidade neste "Existência e Sensual". O que te motivou para estas novas canções?
Sim, é um bocado como se fosse o Miguel, do David e Miguel, mas só o Miguel.
Exato. Agora a solo.
E como tu disseste, é uma viragem, mas a curva é muito extensa. E já vem com uns anos. E também apanhou balanço no disco em parceria com o João Não e o Lil' Nunes, que fizemos o agrupamento musical os Tais, e fizemos o dance romance mais virado pros anos 2000, kizomba e eletrónica, mas também já a roçar esta onda. E veio desaguar aqui, porque todo este processo de fazer projetos colaborativos me fez criar de uma forma mais descomprometida e de uma forma mais leve, e acabei por conseguir abrir-me mais no meu projeto, por estar mais à vontade com essa exploração que testei noutras águas e depois quando voltei para as minhas, já vinha com mais ferramentas e com esta ideia de não ser exclusivamente um rapper e alargar o meu leque de capacidades como entertainer e ser um cantor. E comecei a pensar: como é que seria hoje em dia o cantor romântico de antigamente? Quem seria essa pessoa no século XXI? O gajo que anima o cassino, o cruzeiro.
Ou do bar.
O bar, sim. O bar de música ao vivo, porque eu cresci nesse ambiente. Aliás, dentro da barriga da minha mãe. A minha mãe já estava no bar que ela tinha com o meu pai, que era o Vicente Borga, na Madragoa, em que o meu pai fazia exatamente esse papel de artista de variedades, que era uma cena nessa altura, que era cantar e entre as cantigas, encher chouriço e contar piadas, entreter a noite em várias vertentes.
Era um host.
É isso.
Não sei se tu concordas com esta ideia, que é de quando em vez, parece que precisamos de passar uma espécie de período de nojo em que as coisas com 20 anos são foleiras, mas passado depois esses 20 anos, começam a surgir de uma forma que parece mais aceita ou há um revivalismo. E este todo o ambiente do cantor romântico, do artista de bar, está nesta altura a ter esse ressurgimento. O teu disco é um desses exemplos.
Sim, daí o termo vintage.
Exato.
As coisas fazem 20 anos-
Dão a volta
...e a moda dá a volta. E podemos ver isso também na roupa, no design, em tudo. Agora, acho que as coisas estão um bocadinho mais aceleradas e as gerações mais novas já estão a reviver os 2010. Portanto, a coisa está a acelerar.
Está a ficar mais próximo esse gap.
Cada vez mais a rebolar mais rápido.
Há pouco estava a tentar perceber também como é que musicalmente isto é feito. Tu hoje aqui na Rádio Observador, estás acompanhado do Baco, de quem gosto muito também das canções. E ele tem dedo neste disco, na sua produção?
Sim, super tem. Ou seja, eu quando o conheci, já tinha algumas ideias do disco, alguns temas, mas já tinha tentado produzi-los com outras pessoas e a coisa não se tinha dado.
Ok.
Eu estava a precisar de uma pessoa com uma linguagem mais musical e mais também fora do âmbito da produção de hip-hop, que por muito boa que seja, tem ali uma certa limitação para certos gêneros, que eu precisava de expandir, basicamente. E o Baco tem uma cultura musical grande, toca vários instrumentos e acima de tudo, a nossa comunicação foi extremamente eficiente. Ele percebeu as referências, começou a trabalhar nelas e estávamos ali um bocado, às vezes ele começava a produzir, eu começava a escrever, outras vezes íamos desenvolver uma ideia que eu já tinha e ainda outras vezes, ou seja, durante o processo todo, havia sempre aqueles acertos: "é mais assim, é mais assado". Ou seja, eu estava ali um bocado tipo Joana Vasconcelos e ele o artista realmente trabalhador na craft, a partir a pedra. Mas a verdade é que sem ele o projeto não teria sido possível e esta relação de trabalho para mim é para continuar.
Ainda assim, o disco, recorda-me se estiver errado, mas acho que só tem dois convidados, o Extinto e o João Chaves, locutor de rádio, lenda do Oceano Pacífico.
Sim.
Adoro uma, que há uns anos havia uma rádio mais alternativa que tinha programa, que era o Marciano Pacífico. Era uma homenagem ao João Chaves. Como é que foram estas duas colaborações muito diferentes?
Eu já tinha entrado no disco do Extinto e fez todo o sentido. De certa forma, o tema em que ele entra, o "Demónios", não é alusivo a um tema de rap, mas também ele está numa fase de exploração das suas raízes em Ourém e de ir buscar coisas mais tradicionais do cantautor. Então colou-se muito àquilo que é uma faixa, que é um bocado uma homenagem ao José Pinhal, na sua estética. E o verso dele de rap fez todo sentido, embora seja rap mais cantado, fez todo sentido no tema. E em relação ao João Chaves, eu tinha esta ideia de fazer a música Oceano Pacífico, que é uma música que fala sobre paz interior e sobre encontrar esse caminho para a paz interior, aquela sensação que temos quando estamos debaixo d'água e não ouvimos nada. E o tema tinha aquela pinta de música que se vai ouvir na Marginal, às 02:00 a.m, a andar de carro. E lembrei-me do programa, que fazia sentido por causa do nome da música. Encontrei o João Chaves no Facebook, mandei-lhe uma mensagem e ele, com toda a amabilidade, enviou-me áudio do WhatsApp e disse assim: "Só quero estar creditado na música, está tudo, muito obrigado".
Impecável.
Foi mesmo impecável.
Ainda assim, repara, o hip-hop não está completamente alheado neste disco, não é?
Não está. Ele está presente em quase todos os temas, acho eu, com a caneta, o tipo de escrita e as metáforas, e alguns versos, microversos que eu tenho de rap, alguns momentos de rap e com a presença do Extinto. Portanto, não é uma total desconexão, porque no fundo, essa é a minha raiz de criação, é daí que eu venho. O que eu quis foi acrescentar muito mais layers e cores ao leque.
Miguel Cacheiro, no ao vivo da Rádio Observador esta semana. Recorda-me só o tema que vamos ouvir a seguir, depois de "O Prazer é Meu".
Chama-se Conta Própria, dedicado a todos os trabalhadores independentes e também às pessoas que fazem da vida crítica.
Boa. Lembrar que há concertos de Mike Almight com este novo disco no Salão Brasil, lá em Coimbra, sábado, 21 de março, depois Texas que lá vem Leiria, 27 de março e a 2 de maio passa também por Santo Tirso ou Vila das Aves. Temos de confirmar onde serão os concertos este ano do Festival Sonoridades, onde vai estar também o Mike Almight. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns por este disco e espero apanhar-te num destes concertos em breve. Um abraço, Miguel.
Obrigado, Nelson. Obrigado.
Já este tema, quero dedicá-lo a todos os trabalhadores independentes e empresários por conta própria. Sempre quis andar a correr atrás do sonho em vez de fazer o que os outros querem. Nunca quis viver da mesma forma que todos, independentemente do que eles dissessem. Sou eu, o meu patrão e empregado e decido o aumento que me dou. E tenho tido boa gente do meu lado, que me diz que é no trajeto certo que eu estou. Mas há sempre alguém que acha que tem de fazer prevalecer opiniões. Sugeres que eu vá por onde tu queres, mas eu não te pe Fácil não é, basta sofrer e trabalhar. Ser como tu é que é complicado, ficar sentado a criticar. Mas se não gostas daquilo que eu faço e por acaso ainda estás por aí, fica a saber que eu não trabalho para ti, eu trabalho para mim. Conta própria. Oiço-te a ladrar, mas no canil alheio. Falas bem na cara e falas mal por correio. Gostas de saltar na toca de outros coelhos. Doem-te os cotovelos quando te pões de joelhos. Imagina avaliar o prédio e não construir nem um piso. Estás comprometido com esse compromisso. Mas, meu amigo, eu não compro isso. Ser como eu é tão fácil, não é? Basta sofrer e trabalhar. Ser como tu é que é complicado, ficar sentado a criticar. Mas se não gostas daquilo que eu faço e por acaso ainda estás por aí, fica a saber que eu não trabalho para ti, eu trabalho para mim. Conta própria. Mais uma vez. Assim. Ser como eu é tão fácil, não é? Basta sofrer e trabalhar. Ser como tu é que é complicado, ficar sentado a criticar. Mas se não gostas daquilo que eu faço e por acaso ainda estás por aí, fica a saber que eu não trabalho para ti, eu trabalho para mim. Para mim. Para mim. Para mim.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.