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Eu disse para alguém que não era o fim. O fim não se anuncia como em alguns filmes. Por falar nisso, vamos ao cinema jantar antes. Eu quero que fiques melhor e que saibas que olho para ti como quem te ama, como quem te reconhece ao longe. Eu já não vivo sem o medo dos sonhos que tenho e depois te conto. Quando eu acordo, não sei onde estou, de que lado da cama. Quando eu te vejo, eu não sei como foi que sobrevivemos até aqui. O tempo que passa não é maior do que o silêncio, nada é. O tempo que fica em nós, o tempo que precisamos, o tempo que morre conosco, o tempo que não pedimos, nem sabemos contar. Eu disse para alguém que recomeçar não era possível, não, nunca mais. As conversas de início de ano, 12 passas, um só engano. Não dá para ser quem nunca fomos. Eu já te conheço. Tu não és igual a ninguém que eu já tenha visto. Eu parti o espelho do meu quarto a ver se dormia melhor sem reflexos, mas quando eu acordo, não sei onde estou, de que lado da cama. Quando eu te vejo, eu não sei como foi que sobrevivemos até aqui. O tempo que passa não é maior do que o silêncio, nada é. O tempo que fica em nós, o tempo que precisamos, o tempo que vive conosco, o tempo que não pedimos. O tempo que fica em nós, o tempo que precisamos, o tempo que vive conosco, o tempo que não pedimos, o tempo que fica em nós.
"O Tempo Que Fica", Rita Cortezão, ao vivo na Rádio Observador. Rita, muito bem-vinda, muito obrigado.
Obrigada.
Muito bonita esta versão só com teclas e a voz da Rita. "O Tempo Que Fica" faz parte do disco de estreia da Rita Cortezão, chama-se "tudo, um pouco". Fiz esta pausa porque tem uma vírgula. Tudo, vírgula, um pouco. Tem a coprodução do Benjamim. De resto, o Benjamim, que assinou aqui para a Rádio Observador recentemente a banda sonora do mais recente podcast Bluzz, "Os Segredos da Seita do Yoga". Como é que foi este trabalho com o Benjamim? Podíamos começar já por aqui. Ele mexeu muito nas tuas canções? Foi um bom parceiro?
Foi um ótimo parceiro. O Benjamim é uma pessoa, um músico e um produtor muito sensível e, no fundo, o processo inteiro foi de uma enorme aprendizagem. E foi muito gradual também a interferência que ele teve nas minhas canções. Ele desde cedo determinou que tinha de ser eu primeiro a experimentar, a errar e a sair da minha zona de conforto com aquilo que eu já tinha composto. E só depois, quando nos juntamos, é que estávamos um bocadinho mais na mesma página, digamos, em termos de ideias e do que queríamos fazer com as músicas. E só nessa fase é que tivemos um diálogo em que eu não estava em pânico sobre todo o processo. O Benjamim foi um grande amigo e ensinou-me muita coisa. Acho que não poderia ter feito isto com outra pessoa.
Estava aqui a ler uma entrevista um pouco mais antiga tua, até porque o disco chegou no final do ano passado, outubro, creio.
Foi em outubro.
Outubro. Já tinham saído algumas canções, da qual a "Lisbolha", que eu gosto muito, é a minha favorita do teu disco. Gosto mesmo muito dessa canção. Mas fala-me um bocadinho do teu percurso, porque eu percebi que começas muito cedo, com um teclado de plástico. Como é que isto evolui? Porque depois tens formação, tens Hot Club no currículo. Como é que isto te influenciou? Podias estar a fazer jazz hoje em dia.
Podia. Foi uma coisa que o Benjamim também me disse muito cedo, de eu deixar para trás a escola, porque eu tinha muitos tiques ainda do jazz enquanto cantora e até compositora. Mas não, eu comecei no piano mesmo, em música clássica, e tive o clássico trauma de estudante de música clássica. Depois a minha passagem para o jazz ajudou muito na minha procura e na minha viagem para encontrar a minha própria linguagem. E com isso, talvez um pouco antes, comecei muito timidamente a fazer canções no meu quarto e a cantá-las. Porque eu até essa altura nunca tinha tido aulas de voz, foi só no Otoclube com a Joana Espadinha, a Beatriz Nunes e a Joana Machado que eu entrei nesse mundo também. Mas foi uma mistura de eu adolescente a querer escrever as minhas canções, com eu a perceber que se calhar a música tinha um papel bastante mais sério na minha vida do que eu inicialmente pensava. E depois com muitos incentivos e influências de grandes professores que eu tive, Margarida Campelo, João Firmino, que me ajudaram a criar esta identidade enquanto pessoa que escreve canções.
E o piano ainda é o companheiro de composição, sempre?
Sim, o piano, apesar desse trauma do clássico, manteve-se como aquilo em que eu me apoio para escrever. Eu começo sempre no piano e depois vem a letra e a melodia mais ou menos ao mesmo tempo. Mas eu não me considero uma pessoa que sabe tocar piano ainda.
Tens de safar. Explica-me um bocadinho se há algum universo lírico, as coisas que tu dizes, letras que tu escreves. Que tipo de influência, quais são estas temáticas? Até porque quando se juntam canções num disco, pensa-se sempre que ele possa ter algum fio condutor. Este é o teu primeiro longa duração, como é que estas canções encaixam todas? Elas falam exatamente de quê? Há um tema comum ou são mais canções avulsas que outra coisa qualquer?
O título do disco, "tudo um pouco", acho que resume um bocado a minha conclusão da análise que eu fiz posterior a ter uma série de canções que eu queria ter num disco. E essa análise, eu percebi que todas essas canções tinham em comum a minha experiência. Não é fora do comum em pessoas que escrevem canções, vem sempre de nós, mas eu sempre me conectei muito com a ideia de o quão mais vulnerável eu possa ser, melhor a canção me sabe e melhor a canção soa. Mas no fundo, todas as canções que eu faço, quer eu queira quer não queira, são um bocadinho daquilo que eu queria falar naquele momento. É um tudo que eu estou a pegar enquanto faço a canção, que depois resulta num pouco, mas ao mesmo tempo esse pouco também em si mesmo resulta num todo que depois eventualmente se tornam coisas diferentes consoante as pessoas que ouvem a música, e isso já não tem a ver comigo. Mas o fio condutor do álbum, foi este tempo que eu dediquei a fazer o disco e o que aconteceu comigo nesse tempo. Eu sinto que o álbum abre e fecha muito num ciclo, porque a primeira música e as últimas duas falam muito da mesma coisa em momentos diferentes. Tem muito a temática do luto, a temática da minha relação com a minha própria cidade, a temática com o amor que eu sinto por amigos, a minha relação comigo mesma, o que se passa dentro da minha cabeça. Eu diria que esse fio condutor sou eu a puxar vários fios de várias experiências e a chegar com este conjunto de bocadinhos vulneráveis.
Esta apresentação que fizeste aqui há pouco do "Tempo que Fica", já vamos ouvir uma outra canção, "um pouco de tudo".
"um pouco de tudo".
"um pouco de tudo", desculpa, foi a que escolheste para fechar o programa. Mas de facto, é muito diferente ouvir estas canções da forma como me estás a apresentar aqui e depois ouvir o disco. O disco é de alguma forma muito bem composto do ponto de vista sonoro. Há ali muita coisa a acontecer para além da tua voz e do teu piano. Esse foi um trabalho também de banda? Eu percebi que tu tocas vários instrumentos, mas há aqui depois uma dimensão que se transporta, por exemplo, para o ao vivo e que tem essa componente que é menos de artista a solo.
Eu até agora só tive a sorte de tocar com uma banda no meu concerto de lançamento, que foi na ZDB.
Em novembro.
E foi uma ótima experiência, até porque eu já tinha tocado com esses músicos, que foram ex-colegas meus no Otoclube. Mas não houve bem essa experiência de banda na gravação do disco, ou seja, a banda era eu e o Benjamim. O Benjamim também é um super multi-instrumentista. Ele tocou bateria, baixo, imensos sintetizadores, percussões. Não fez vozes, sei lá porque não, mas já agora eu sei tomar conta disso. Mas eu gosto muito também do lado produção e, como disse, ele encorajou muito a minha exploração do software que eu estava a usar e de brincar com isso. E eu gosto muito de ir buscar sons, de ir buscar texturas.
Isso nota-se no disco. Não é um disco pequenino, nesse sentido de ser mais minimal.
Não.
Foi isso que eu gostei de descobrir. "um pouco de tudo" para fechar o Ao Vivo desta semana com a Rita Curtizão aqui no nosso estúdio, também com os cuidados técnicos do João Tição. Obrigado, João. Rita, muito obrigado por teres vindo.
Obrigada.
Vou seguir o teu Instagram até para perceber quando é que acontecem mais concertos, porque agora estou curioso para te ver ao vivo.
Vai haver um dia 27 de fevereiro, este mês, na Casa Capitão. Vou fazer a primeira parte do meu amigo Samuel.
Boa. Combinado. 27 de fevereiro.
27 de fevereiro.
Casa Capitão, Rita Curtião ao vivo e agora também aqui no nosso estúdio, na Rádio Observador, no "Ao Vivo" desta semana. Rita, muito obrigado por teres vindo. Parabéns.
Não é fácil entender. Como é que eu me sinto agora. Como é que eu me vou sentir depois. Quando tu te fores embora. Então fica só mais um segundo. Eu tenho um mundo aqui escondido. Onde me perco com mais frequência. Do que me encontro. Não é fácil distinguir. O que é meu do que eu invento. O que eu digo por ser mesmo assim. E o que já é força de hábito. Em pedir que não peças desculpa. Se eu não for louca, sou dispersa. E cada noite que deixo para trás. Não é minha. Já começa de manhã, fico cansada sem me conseguir mexer. Sou mastigada, é mania de viver tão controlada. Noutra vida foi melhor. Dia de nada. Um pouco de tudo. É tudo o que eu peço. Saber o que vem depois. E não ter descanso. A cada minuto, ser tudo e um pouco. Ser o antes no depois. Ser mais que perfeito. Ser mais que perfeito. Isso não está bem. Tu nunca estás bem. Isso não está bem. Um pouco de tudo. É tudo o que eu peço. Saber o que vem depois. E não ter descanso. A cada minuto, ser tudo e um pouco. Ser o antes no depois. Ser mais que perfeito.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.