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Ao vivo, na Rádio Observador.

A tua trança enrola os teus cabelos e os teus olhos tendem a fechar. Ninguém sabe ler-te o pensamento que te cansa o olhar. Ninguém te amarra os sonhos que habitam nesse lugar. Nem rouba a paz em vê-los a começar. Desfaz a trança, solta o teu cabelo. Sabes, tudo um dia vai mudar. Nasce a esperança lá no pensamento. Deixa ter lugar. Ninguém te amarra os sonhos que habitam nesse lugar. Nem rouba a paz em vê-los a começar. Ninguém te amarra os sonhos que habitam no teu olhar. Nem rouba a paz em vê-los a começar. Ninguém te amarra os sonhos. Nem rouba a paz em vê-los. Ninguém te amarra os sonhos que habitam no teu olhar. Nem rouba a paz em vê-los a começar. Ninguém te amarra os sonhos que habitam no teu olhar. Nem rouba a paz em vê-los a começar.

Rita Red Shoes ao vivo na Rádio Observador com "A Tua Trança". É um tema que já faz parte da nossa playlist há alguns dias. Rita, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigada eu.

E muitos parabéns por esta canção, que tu interpretas fabulosamente, mas ajuda muito também ter sido escrita pela Márcia, que é uma grandessíssima escritora de canções. Como é que nasceu essa colaboração? E fiquei contente de perceber que será um primeiro avanço para outras colaborações com outras autoras, não é?

Precisamente. Esta ideia, esta parceria, é a primeira vez que acontece. Embora eu e a Márcia já nos conhecemos há muito tempo.

E se calhar já andavas a gabar-lhe uma canção há algum tempo.

Já. Mas no fundo, esta parceria é a primeira de muitas que vão acontecer e que vão sair em disco lá para setembro. Esta é a primeira, porque também, e na verdade, foi a primeira autora que me entregou a canção. Isto por quê? Porque a minha ideia com este próximo disco é ser uma homenagem às minhas colegas compositoras, algumas delas, como é óbvio, não consigo pôr num disco tantas maravilhosas comigo.

Um triplo álbum ou quádruplo.

Exato. Pode ser o começo de um projeto. Mas então a Márcia foi obviamente um dos nomes que rapidamente me cruzou os pensamentos. Isto é um disco de homenagem num projeto que começou algures em 2012, com um espetáculo que não deu origem a um disco, mas deu origem a uma turnê, em que eu senti vontade de homenagear mulheres escritoras, compositoras. Na altura, era do mundo todo. E depois essa semente ficou aqui e eu pensei: "Um dia tenho que fazer mais qualquer coisa com isto". E há cerca de um ano, um ano e meio.

Essa altura tinhas uma portuguesa, não?

Tinha a Amélia Muge e a Shana também.

Ah, boa.

E enfim, a coisa ficou um bocadinho em banho-maria e há cerca de um ano e meio, esta ideia voltou a mim e eu pensei: "Bem, eu acho que isto agora tem que ser um disco e não uma turnê". Porque entretanto, desde 2012 até agora, até 2026, muitas mulheres apareceram cantautoras a escrever muito bem. E então pensei: "Não, isto vai ser um disco com mulheres, colegas do nosso país". E assim foi. Convidei algumas, a Márcia foi das primeiras e rapidamente me enviou esta pérola.

Muito simples, mas muito bonita esta canção. Tua interpretação também ajuda isso. Queria olhar contigo pra um assunto que não sei se te diz alguma coisa ou não. Passei os olhos por uma notícia em que dizia que o teu primeiro disco solo é de 2008.

Verdade.

O que quer dizer que vais fazer 20 anos de carreira a solo.

Já viste.

Isto pesa de alguma forma e já pensaste em assinalar essa data? Ainda estamos um bocadinho longe, ainda faltam dois anos.

Ainda faltam dois anosNão sei, porque eu sou daquelas pessoas que não são muito de olhar para trás e são mais de olhar para frente, o que faz de mim uma pessoa bastante ansiosa. Ou seja, tenho muita dificuldade em sentar-me e olhar: "Ah, já fiz isto e também já fiz aquilo". A minha cabeça não pensa assim, pensa: "Eu quero fazer isto, ainda quero fazer isto, ainda quero ir ali". Então, esta ideia dos 20 anos pesa, mas no sentido em que: "Bolas, estou a ficar velha". Já ando aqui a chatear o pessoal há tantos anos. Mas ainda bem que consigo fazê-lo. Consigo continuar a fazer aquilo que eu quero, mais ou menos à maneira que eu quero e que sei. E orgulho-me disso.

De alguma forma, também há uma mudança, creio que a partir do lado bom, quando derivas para o português mais ou menos definitivamente. Como é que está a correr? Já podemos dizer que é uma viragem definitiva?

Eu não acredito em coisas definitivas, mas acho que vou ficar aqui nesta plataforma do português durante algum tempo. Mas não ponho de todo parte, até porque eu acredito muito na espontaneidade do que sai quando se está a criar. Portanto, se me aparecer de repente uma canção que me faça sentido ser em inglês ou noutra língua qualquer, para mim isso não representa um problema, não representa uma questão. Enveredei pelo português e agora tenho que respeitar isto. Acho que a criação é bom que não tenha essas limitações. Às vezes há limitações boas, que também levam a outras soluções e outras criações, mas essa para mim não é, de todo, uma delas.

Como é que te desdobras em tantas funções? Porque a tua carreira também passa por fazer música para bandas sonoras, para outros formatos. Como é que está isso a correr? Estás sempre aberta também a esse tipo de trabalho e não só àquela escrita e interpretação em nome próprio?

Sim, claramente. Eu acho que uma das coisas que mantém alguma sanidade nestes 20 anos é, de facto, eu ter feito várias coisas com registos diferentes, com pessoas diferentes, em formatos diferentes. Eu preciso muito disso para me realimentar. Eu não gosto muito de repetir, gosto de explorar coisas novas. Só temos esta vida, a partir do que eu saiba. E por isso penso sempre que convites, se calhar alguns deles inusitados, são uma oportunidade para eu me reconhecer noutros registos.

É o caso do Rita e os Usados de Qualidade. Foi uma coisa que te surpreendeu ou que te causou desafio artístico?

Completamente. Foi um projeto que eu não fui de todo à procura, foi uma coisa que veio ter comigo, que me surpreendeu, porque para todos os efeitos estamos a falar de composição.

Estamos ali com grandes nomes da música nacional.

Grandes nomes e de outra geração.

E tu és a front woman.

Eu sou a front woman. Que raio de ideia. Mas, no fundo, é um bocadinho isto, é estar disponível para coisas que possam vir até um bocadinho fora daquilo que se calhar eu tenho traçado para mim, mas de repente me atropelam e eu deixo-me ser atropelada e vou nesse caminho e tento descobrir quem é que eu sou no meio disto. E esse projeto em específico, os Usados de Qualidade, também sou só intérprete. Só é aqui muito entre aspas, mas no fundo foi como revestir estas canções e como pô-las na minha pele, como é que eu consigo interpretar isto sem mexer no lado de composição, que é um bocadinho também isto que vai acontecer neste meu próximo disco, e que me dá bastante prazer e gozo pegar em algo que até já foi feito de outra forma e como é que eu faço à minha maneira.

Dizias que és muita coisa, és também mãe. Presumo que isso também tenha influência na forma, às vezes, principalmente como se escrevem certas canções ou temáticas que se abordam. Se calhar foi por causa disso também que nasceu o Xinfrim, que é um disco que também é um espetáculo que ainda andai pela estrada. Estava aqui a conferir 2 de maio em Ponte de Lima, é pelo menos uma das próximas datas que tens com este projeto Xinfrim. Como é que é trabalhar este universo mais infanto-juvenil?

Olha, é na verdade muito prazeroso, porque é um público muito genuíno. Não gostam, não gostam. Coisa que ainda não me tem acontecido, graças a Deus. Ainda ninguém me mandou embora do palco, mas também quando gostam são muito generosos, são muito participativos e claro, a minha filha e o facto de ter passado por este processo da maternidade foi uma grande inspiração. Acho que é um universo que eu sempre gostei, mas se calhar não se transformava em espetáculo e em disco se eu não tivesse sido mãe. Portanto, a minha filha foi o grande mote para eu me dedicar a escrever este espetáculo. No fundo, eu digo no início do espetáculo que as crianças não vão aprender nada de jeito ali. Portanto, aviso os pais que eu não estou do lado dos pais ali, estou do lado das crianças, portanto é mesmo para fazer xinfrim e desarrumar tudo e deixar a sala de pantanas, porque as temáticas são aquelas que eu também, como mãe, sofro em casa ou não querer tomar banho. Enfim, falar sobre puns.

Aquelas birras, às vezes, muito parvas.

Sim, a invenção de um vocabulário que é só deles. E tudo isso é muito mágico e gosto, sobretudo, de me debruçar sobre essa altura das nossas vidas, porque é provavelmente a altura em que temos uma liberdade maior e ainda não estamos formatados, portanto, podemos inventar vocabulário, inventar palavras e é tão rica que é muito inspiradora, claro.

Sem dúvida. Olha, para terminar, estamos aqui a ficar sem tempo, vamos escutar, tem mais uma canção. Por que trouxeste a Nina Simone? Faz aqui um bocadinho a ponte com o outro espetáculo que falavas das artistas mais internacionais e agora ponte para este novo álbum só com autores nacionais. Mas é uma escolha que eu estou aqui ansioso por ouvir.

Olha, a Nina Simone é uma das cantoras e compositoras, embora ela tenha tido a sua maior parte do tempo em carreira como intérprete, mas ela escreveu esta canção, "Ain't Got No", que eu acho que tem muito que ver com a história dela, obviamente, e enfim, não só a dela, mas os afro-americanos.

A letra tocou-me muito e o percurso dela também. E quando eu imaginei este espetáculo na altura, em 2012.

Há ali um feminismo musculado também a agir na canção.

Bastante musculado e bastante explícito, mas poético ao mesmo tempo, que eu acho que é maravilhoso e não é fácil de fazer. E ela foi uma das autoras que deu quase o pontapé de saída para este espetáculo e portanto, para mim, era quase inevitável para fazer esta ponte entre o meu próximo disco e aquilo que foi a semente do meu próximo disco, trazer a Nina Simone.

E obrigado por o teres feito. Rita Red Shoes no ao vivo desta semana da Rádio Observador. Aproveitem também para vê-la se passarem pelo Teatro Diogo Bernardes em Ponte de Lima no próximo dia 2 de maio e sigam-na nas redes sociais, porque ela vai por lá colocando os espetáculos que se vão seguindo a este, que ainda é do Chinfrim. Aguardo agora as novas canções que se prevê que cheguem lá mais para o outono. Muito obrigado, Rita, e muitos parabéns.

Obrigada. Ain't got no home, ain't got no shoes, ain't got no money, ain't got no class, ain't got no skirts, ain't got no sweater, ain't got no perfume, ain't got no bed, ain't got no mind. Ain't got no mother, ain't got no culture, ain't got no friends, ain't got no schooling, ain't got no love, ain't got no name, ain't got no ticket, ain't got no talking, ain't got no God. And what have I got? Why am alive anyway? Yeah, what have I got? Nobody can take it away. I've got my hair, got my head, got my brains, got my ears, got my eyes, got my nose, got my mouth, I got my smile. I've got my tongue, got my chin, got my neck, got my boobies, got my heart, got my soul, got my back. I've got my sex. I've got my arms, got my hands, got my fingers, got my legs, got my feet, got my toes, got my liver. I've got my blood. I've got life. I've got my freedom. Oh, I've got life. Nobody can take it. I've got life. I'm gonna keep it. I've got life. I've got life. I've got life. I've got life. I've got life. Ao vivo na Rádio Observador.