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Sonho-te desde o princípio dos tempos. Procuro em mundos desde que me lembro. Eu sei, nem tudo é mágoa. Pelas cidades de escuros lamentos, pela poesia dos dias cinzentos, pelas areias de longos desertos, pela magia dos tempos incertos. Eu sei, nem tudo é mágoa. É salto, é golpe de asa. É fonte, é fruto, é trégua. É trova, é vento e passa. Sonho-te desde o princípio dos tempos. Procuro em mundos desde que me lembro. Pela vertigem de planos desfeitos, pelas miragens de sonhos perfeitos. Eu sei, nem tudo é mágoa. É salto, é golpe de asa. É fonte, é fruto, é trégua. É trova, é vento e passa. E cada caminho escolhe o destino, serve uma só canção. E cada lembrança, como criança, vai numa direção. Eu sei, nem tudo é mágoa. É salto, é golpe de asa. É fonte, é fruto, é trégua. É vlo, é voo, é água. É fogo, é chuva, é Sara. É trova, é vento e passa.

Tiago Bettencourt ao vivo na Rádio Observador. Cá está ele com "Nem tudo é mágoa", uma das canções que já fazem parte da lista musical da Rádio Observador e que está em "Foz", o novo trabalho do Tiago Bettencourt, que chegou na semana passada. Tiago, obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigado eu pelo convite.

Muitos parabéns, belo disco. Tenho gostado muito de ouvir estas novas canções. Bem mais calminhas. Estás mais introspectivo? O que é que se passa?

Não, acho que tem de tudo.

Tem ali umas mais arriscadas.

Tem ali uma 120 bpm, pista de baile de luxo.

Verdade. Fala-me um bocadinho deste disco, como é que ele nasceu? Percebi que a determinada altura estiveste até na Suíça a passar uma temporada e que o álbum ganhou grande parte da forma precisamente nesse chalé suíço.

Sim, foram 15 dias que eu passei numa casinha de madeira no meio da Suíça, onde descobri a direção do álbum. A seguir a isso, ainda fui para aí ano e meio a trabalhar fechado na minha sala de ensaio, a descobrir universos mais eletrónicos. Depois, no fim do processo convidei o Fred para coproduzir o álbum.

Fred Ferreira?

Sim, Fred Ferreira. Por isso o último mês e meio foi com o Fred.

Como é que foi esse trabalho com ele?

Foi ótimo.

Muito talentoso também.

Sim, nós já nos conhecemos há muito tempo. Eu confio muito no Fred e no gosto dele. Trabalhamos os dois muito bem juntos. Acho que não há um único disco em que ele não tenha tocado pelo menos uma bateria nos meus discos. Mas desta vez foi um bocadinho diferente, foi no meio deste mundo um bocadinho mais eletrónico, onde ele está mais à vontade que eu, porque também está lá há mais tempo. Eu precisava dele para soluções que eu não sabia que existiam e para desatar nós, porque no fundo estamos a usar um vocabulário que não costuma ser o meu. Então estou a aprender.

O facto de ser mais eletrónico.

Ser mais eletrónico, sim.

Ok. Ainda assim, estas canções continuam a nascer de um processo muito teu, muito solitário.

Sim, continuam a ser as minhas canções que eu vou escrevendo nas minhas viagens durante esta minha vidinha.

Como é que foi essa experiência na Suíça? Já alguma vez tinhas ido para um sítio e de alguma forma ele poder influenciar o resultado das canções?

Eu faço sempre uma viagem grande antes de todos os álbuns. Geralmente é um mês, e sozinho. Tinha estado na Argentina um mês antes desta espécie de residência. Mas geralmente quando eu viajo estou sempre a andar, estou sempre a caminhar e vou escrevendo. Estar 15 dias só num sítio a trabalhar sozinho, acho que só na minha sala de ensaio, mas é completamente diferente de estar longe num cenário idílico, com montanhas e neve branca por todo lado.

Encontraste aquelas vaquinhas cor-de-rosa? Não.

Vaquinhas cor-de-rosa não encontrei.

São um mito, não é? É só naquela marca de chocolates.

Exato. Não encontrei. Se andavam por lá, estavam escondidas.

Estavam escondidas. Li uma coisa engraçada que tu escreveste a dizer: não há aqui nenhum conceito, nunca há um conceito, na verdade. Nunca vais fazer um disco conceptual, como alguns artistas apelidam.

Nunca se sabe, mas estes discos, pelo menos, nunca são. Eu acho que já fiz um disco conceptual chamado "Tiago na Toca", em que musicai poemas e fiz versões de fados. Esse era conceptual. O resto, no fundo, são canções que eu vou escrevendo e só no fim é que vejo o que as une. E a única coisa que as pode unir é o nome do álbum, que neste caso é "Foz".

"Foz" é também o título de uma canção. Foi por aí que foste buscar o título.

Sim, totalmente.

Não tem nenhuma justificação metafísica pra escolha.

Eu acho que a justificação metafísica é eu ter chamado essa música "Foz" e eu ter olhado praquela palavra e ter percebido que era um nome perfeito pra este álbum, porque era realmente uma ideia. A ideia de foz era uma ideia.

Um sítio onde várias coisas se encontram.

Sim, e o princípio e o fim. Mas eu só descobri, acho que depois, quando eu tive que escrever um texto sobre o álbum, é que percebi que Foz ainda tinha mais do que aquilo que eu achava. Porque quando escolhi, foi pela sonoridade, foi pelas cores que me sugeria, pelos cenários que me sugeria. Foz, eu vou sempre ali pra zona da foz do Arelho.

Pra mim é Foz do Douro. Cada um tem a sua, se calhar.

Cada um tem a sua foz.

Muito bem.

E depois percebi que é uma palavra muito rica e graficamente é muito bonita também.

Também é verdade. Na semana passada, já apresentaste estas canções no Convento São Francisco, em Coimbra. Temos concertos no dia 18 de dezembro em Lisboa, no Campo Pequeno, 20 de dezembro na Super Bock Arena, no Porto. Estava aqui a confirmar. Vais a Londres também no início de dezembro? Há um concerto em Londres? Como é que isso vai funcionar?

Vou ao Jazz Café, que é um sítio onde acho que já alguns portugueses foram lá. Por ser um circuitozinho que já existe, não estou à espera de uma carreira internacional. Vou lá eu e o Pedro Branco, fazer um concerto um bocadinho mais pequeno. Mas nunca se sabe, pode lá estar um olheiro de uma editora mundial e perceber o talento que eu tenho e querer apostar. Nunca se sabe.

O Pedro Branco passou já aqui pelo "Ao Vivo" há algumas semanas, também para mostrar aquele projeto em que toca Marco Paulo, pra além de acompanhar tantos músicos, sendo que está contigo já também há algum tempo. É um belo guitarrista.

É um génio.

Falando destes dois concertos, Campo Pequeno em Lisboa e Super Bock Arena no Porto, são concertos em salas um bocadinho maiores. O Foz será o grande destaque para estas apresentações? Estas músicas vivem bem com as tuas anteriores? Já pensaste como é que é o alinhamento?

Nós tocamos as músicas agora no concerto de Coimbra e foi interessante perceber que sim. Eu toco com os meus músicos e isso acaba por unificar todo o concerto inteiro. Por ser um álbum bastante mais eletrónico, estamos todos a tocar instrumentos. O Lencastre, baterista, está a tocar uma bateria mais eletrónica, mas também tem lá a bateria normal, por isso vai ser um compromisso. E soaram bem ao vivo agora em Coimbra, por isso acho que vai ser bonito também em Lisboa e Porto, mas vamos tocar as outras músicas também. Por isso vamos tocar algumas das músicas novas. E num concerto tão grande, seria um bocado egoísta só tocar o álbum novo.

Não há convidados pra estes concertos, nem no disco.

No disco, tenho um dueto com a Milhares, e tem também uma participação muito pequenina e muito especial com a Raquel Tavares.

Ok. Belas escolhas.

Não chegaste ao fim do disco.

Ainda não cheguei ao fim do disco. A Milhares tem uma grandessíssima voz, parece-me uma ótima ideia teres feito aqui um dueto com ela.

É um ser especial.

Sem dúvida, aquele vozeirão dela tem ali qualquer coisa de especial. Qual é a canção que nos trazes para fechar o ao vivo?

Eu estava a pensar tocar uma chamada "Luz no Escuro", só porque hoje está um dia tão chuvoso, e achei que pode ser uma boa ideia.

Belíssimo. Tiago Bettencourt, com as canções de Foz, é o novo disco do músico português. Obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns por este trabalho. Os concertos de apresentação marcados agora para dezembro na Super Bock Arena e também no Campo Pequeno em Lisboa. 18 de dezembro em Lisboa, 20 de dezembro no Porto, são as próximas atuações do Tiago Bettencourt, já com estas canções de Foz. Tiago, muitos parabéns. Obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Vamos ouvir mais uma canção do novo disco do Tiago Bettencourt, aqui também com os cuidados técnicos do Pedro Oliveira. Um abraço, Pedro. Obrigado.

Há luz no escuro, há luz no escuro, eu vi. Há luz no escuro. Há luz no escuro, há luz no escuro, eu vi. Há luz no escuro. Eu vi as cores que há na luz, o espaço aparecer e cada passo a ter caminho. Eu sei, não é fácil conter o abraço do vazio, longe do amanhecer, mas juro, eu vi a luz no escuro, há luz no escuro, eu vi. Há luz no escuro. Senti, olhando sem temer, meus olhos a ceder ao escuro, a existir no mundo. Eu sei, difícil é saber remar pelo vazio, nas curvas de um só rio, mas juro, eu vi a luz no escuro, há luz no escuro, eu vi. Eu sei, a sombra vai roubar a chama do porvir. A sombra vai jurar, a sombra vai mentir, mas firmes pés no chão, aceito o que há de vir. Mão no coração, juro, eu vi a luz. Há luz no escuro, há luz no escuro, eu vi. Serei do escuro e da luz. Serei do entardecer ou de um dia a nascer, sorrindo.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.