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Muito bem-vindos ao nono episódio especial de "As Histórias da Bíblia", com o qual vamos encerrar esta segunda temporada. Todas as semanas, às quintas-feiras, temos vindo a responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Foram muitos aqueles que nos ouviram todas as semanas neste podcast e também que nos enviaram perguntas, comentários e sugestões por nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também aqueles que deixaram perguntas e comentários, quer no YouTube, quer nas plataformas de podcast onde nos têm ouvido. Nós, no último domingo, naquele que foi o último episódio da segunda temporada, estivemos a falar sobre o apóstolo Pedro, o homem que Jesus escolheu para liderar o primeiro grupo de cristãos. Se não ouviu na Rádio Observador, pode sempre encontrar o episódio em podcast, em todas as plataformas. E esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada por e-mail pelo nosso ouvinte João Pitorra. Ele escreveu-nos o seguinte: "Bom dia, antes de mais gostaria de agradecer pelo ótimo podcast, que muito me tem ajudado a decifrar os textos da Bíblia". Eu gosto sempre de ler esta parte inicial dos e-mails para nos aleijarmos um bocadinho. Muito obrigado, João. Depois o nosso ouvinte deixa duas perguntas. Nós desta vez vamos focar-nos apenas na primeira pergunta que ele nos enviou, que é a seguinte: "Como recomendam ler a Bíblia pela primeira vez? Simplesmente do início ao fim, saltando entre alguns livros ou secções?" Isto realmente, Daniel, é uma pergunta pra um milhão de euros. Porque qualquer pessoa que já tenha pegado na Bíblia, olhando pra aqueles milhares de páginas, pode ficar desmoralizado com a ideia de ou não ler mais livro nenhum no ano, ou fica desmoralizado com a ideia de levar aquilo do início ao fim. Que recomendações é que tens pra um primeiro leitor da Bíblia? Isto é um livro que se lê como um romance? Como é que se faz isto?

Podíamos dizer: "Olha, leia como quiser, como se sinta melhor, não quero aqui dar lições".

Muito bem, está fechado o episódio.

Santa liberdade, filhos de Deus. Mas não, sim, mais a sério, ao ler isto, eu lembrava-me de quando eu era adolescente, dada altura, quis ler a Bíblia e pensei: "Então agora vou ler a Bíblia, começar do princípio e vou até ao fim". E comecei a ler o livro do Gênesis, fala da criação do mundo, depois entra aqui em histórias dos patriarcas, interessantes, com enredo. Muito bem. O livro do Êxodo, o segundo livro, a escravidão no Egito, Moisés que vai liberta o povo, caminho no deserto. No final do livro do Êxodo, já há uma série de preceitos e leis pra construção ali do tabernáculo, já é um bocadinho mais aborrecido. O terceiro livro, o livro do Levítico, então uma série de legislação acerca de sacerdotes e preceitos cultuais, e desisti por aí.

É como ler o Diário da República.

É, eu desisti por aí. E por isso fiquei com esta certeza de que não é talvez a melhor forma de ler a Bíblia. Há quem o faça, certamente, mas não é o mais pedagógico. Lê-lo como um romance, pra já, porque não é um romance com princípio, meio e fim. Como já sabemos, é uma biblioteca, é um conjunto de livros de diferentes tempos, de diferentes lugares, contextos, teologias, por assim dizer, distintas. E, portanto, talvez seja melhor fazer uma certa seleção mais pedagógica pra nos introduzir aqui nas escrituras. Pra já também esta ideia de irmos percebendo o que é que estamos a ver. Ao ler a Bíblia, precisamos também de uma certa de ajudas, de introduções. As editoras católicas, por exemplo, não são as únicas, mas as editoras católicas tentam também sempre que as Bíblias tenham introduções a cada livro, notas de rodapé, explicar ali palavras ou conceitos ou passagens mais difíceis, também pra ir nos dando um bocadinho de chaves de leitura para passagens mais complicadas. Ainda assim, eu diria que, sobretudo pra quem lê num contexto cristão, enfim, se for judeu, por Bíblia entende-se ao Antigo Testamento, mas entendendo aqui por Bíblia, a Bíblia cristã, ou seja, Antigo Testamento e Novo Testamento, eu diria que começar pelos Evangelhos, ou pelo menos por um dos Evangelhos. Enfim, depois há aqui três evangelhos que seguem um esquema semelhante, os chamados sinóticos, como sabemos, Mateus, Marcos e Lucas, São João já é um pouquinho diferente. Mas começar pelos Evangelhos, penso que é uma boa porta de entrada, porque são textos narrativos, são uma espécie de biografia de Jesus. Noutro episódio já falamos sobre que tipo de texto é que são os Evangelhos. Evangelhos, o livro dos Atos dos Apóstolos, que também nos conta esta difusão da Igreja, de Jerusalém até Roma. E depois irmos procurar textos narrativos. Eu diria, em geral, que os textos narrativos que contam histórias, que ainda assim é a maior parte da Bíblia, do Antigo Testamento, são talvez mais fáceis pra entrarmos e percebermos um bocadinho a linha geral histórica deste povo que, com Abraão e os patriarcas, depois Moisés e a libertação do Egito, depois juízes, o estabelecimento desta monarquia com David, Salomão. Enfim, esta linha narrativa, que também faz uma meditação sobre a história e uma teologia da história, é talvez mais fácil de seguir. Os textos mais legislativos, mais legais, mais de preceitos legais São talvez mais duros de engolir, por assim dizer, mais difíceis de mastigar. Mas também há textos poéticos de uma grande beleza, que são também interessantes de intermediar na nossa leitura com estes textos narrativos. Se o leitor ou ouvinte procurar na internet, provavelmente encontrará sugestões e itinerários de leitura da Sagrada Escritura que podem ajudar.

João, isto é como a "Guerra das Estrelas", que há toda uma série de discussões online sobre qual a melhor ordem para ver os filmes.

Não sabia que havia isso. Eu por acaso acho que ia pela ordem em que os filmes saíram da "Guerra das Estrelas". Nunca fiz dessas coisas esotéricas. Mas, posso ser um bocadinho bruto naquilo que vou dizer, na formulação pelo menos, mas se calhar há livros na Bíblia que não são para ler do início ao fim como nós concebemos a leitura. Estou aqui a lembrar o livro dos Números ou o Levítico. Acho que é difícil uma pessoa pegar, até mais no do Levítico, pegar naquilo e ler do início ao fim. Como ali, por exemplo, os Salmos, mesmo com a beleza e riqueza que o livro dos Salmos tem.

Os Salmos, podemos encará-lo como uma espécie de coletânea de vários textos poéticos.

Durante o ano, ou seja, pegar naquilo e ler de uma assentada os cento e tal Salmos, parece-me uma derrota. Agora, um conselho, partindo daquilo que é o estilo do livro que uma pessoa mais gosta, se calhar nós conseguimos enquadrar qual é um possível início. Se nós gostamos de uma coisa mais histórica, com batalhas, com reis, rainhas, conflitos, se calhar os livros dos Reis, até mesmo de Samuel, farão mais sentido, o primeiro e segundo livro de Samuel. Se nós gostamos até de uma coisa mais poética, se calhar o Cântico dos Cânticos ou o Eclesiastes, mais reflexivo, é uma melhor porta de entrada. Se nós quiséssemos ir pro Novo Testamento, como diz o Daniel, se calhar os Evangelhos é a melhor porta de entrada, porque depois há certas alturas em que as cartas de Paulo também são um bocadinho herméticas. Por exemplo, a carta aos Romanos, é um bocado complicado entender ali algumas coisas.

Mais densas.

Mais densa. A mesma coisa dos Hebreus, ou mesmo o Apocalipse. Se quisermos uma coisa de São Paulo, se calhar Filémon. É verdade que aquilo é um bilhetinho, lê-se no meio da casa de banho, como dizia um professor meu na faculdade. Ou as cartas de João, se calhar são mais fáceis de ler.

A dos Coríntios também.

A dos Coríntios, sim. Portanto, entender aquilo que nós gostamos e começar a ler. E também aceitar que a certa altura vamos ter que ler um livro à paz. O livro de Judé, por exemplo, é particularmente violento e se calhar a certa altura, ou mesmo do Ezequiel, não sendo violento, mas se calhar seja mais difícil, um livro difícil de ler.

Uma característica da maioria das edições das Bíblias é que normalmente os textos estão cheios de notas de rodapé. Para um leitor que está a pegar na Bíblia pela primeira vez, vale a pena estar a consultar cada nota de rodapé e demorar meia hora por cada página?

Depende do interesse. Muitas dessas notas de rodapé, às vezes, são só indicações numéricas, ou seja, de paralelos, que remetem pra outra coisa. Eu diria que as introduções, sim.

Sim, as introduções acho que seriam.

Não forem assim muito longas. Mas até concretizando, eu diria: Evangelhos, depois Atos dos Apóstolos, certamente, Cartas de Paulo, a primeira à Coríntios é relativamente longa, mas até se lê bem. A segunda à Coríntios também, Filémon, fantástico. Depois, no Antigo Testamento, Gênesis, primeiro e segundo Samuel, metade do livro do Êxodo, primeiro e segundo Samuel também, o livro de Rute, que já falámos neste programa, o livro de Ester, Tobit. Portanto, há aqui alguns livros que também são mais pequenos.

O Isaías, em algumas partes. O Isaías está dividido em três partes, a última parte do livro de Isaías, se calhar, é mais engraçada. Depois está Cântico dos Cânticos, Eclesiastes. Não sei se há mais algum. Há vários.

Também depende um bocadinho da predisposição de tempo que alguém quer gastar com isto.

Já agora aproveito para perguntar como é que foi a vossa experiência pessoal a ler a Bíblia. Calculo que, Daniel, tu por questões acadêmicas, já deves ter corrido cada linha várias vezes.

Acredito que sim, mas até a partir do que dizia há pouco, nunca li do princípio ao fim. Nunca fiz esse exercício do princípio ao fim, mas tenho certeza que já li tudo.

Muito bem. Acho que desta vez respondemos de forma bastante clara à pergunta, porque o nosso ouvinte perguntava se devemos ler a Bíblia do início ao fim ou saltando entre livros e secções. Penso que está claro que a recomendação é ir saltando, ir também procurando quais os textos que se podem adequar mais ao interesse e ao momento de cada leitor. Bom, fica por aqui este episódio especial em que procuramos responder a esta dúvida enviada pelo nosso ouvinte João Pitorra. Foi também o último episódio especial desta segunda temporada. Nós vamos de férias de verão e voltamos para a terceira temporada das Histórias da Bíblia no dia 13 de setembro. Na terceira temporada, vamos continuar a responder às dúvidas dos nossos ouvintes todas as quintas-feiras. Por isso, já sabe o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt continua disponível durante o verão. Boas férias.