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Bem-vindo ao Brand Storming. Mais uma semana, mais uma guerra. Este quase poderia ser o título de uma daquelas séries de comédia série B, daquelas com efeitos especiais duvidosos e argumentos pouco credíveis. O problema é que não é ficção, é o mundo real. Entre guerras comerciais e tarifárias, depois da Ucrânia, Gaza, Venezuela, alguns países africanos e ameaças até à Gronelândia, que pareciam saídas de um delírio geopolítico, chega agora a vez do Irão. Para nos ajudar a navegar este admirável mundo tenso, mas criativo, temos desta vez connosco Inês Simas, a CEO e cofundadora do departamento de marketing e vem falar sobre tendências de marketing para este ano de 2026. Num tempo em que o ruído aumenta, talvez a grande tendência seja mesmo significado. É que vivemos numa era em que a diplomacia parece ter sido substituída por conferências de imprensa, posts inflamados e decisões musculadas. É inevitável assim reparar no paradoxo: enquanto uns escalam conflitos, outros tentam escalar consciências. Enquanto há quem invista em divisões, há, por outro lado, quem invista em inclusão. E é precisamente isso que vamos explorar hoje. Marcas que escolhem falar de cuidado, de vontade e de inteligência, por entre fertilidade, ondas cerebrais transformadas em arte e milhares de milhões de dólares que querem alimentar o futuro da AI. Nada mal para um planeta em estado de nervos. Vamos a isto? A primeira dúvida vem com a primeira pergunta: e tu, para quando? E assim, num mundo repleto de retórica inflamada a plenos pulmões, a Well's decide fazer algo radical: falar. Mas falar mesmo. Desta vez, de fertilidade. A propósito do Dia Internacional da Mulher, a marca lança a campanha "Falar sobre fertilidade fica bem" e reforça assim o seu posicionamento enquanto marca ativa na normalização da conversa sobre saúde feminina. Depois de já ter abordado menopausa, bem-estar sexual, ciclo menstrual, entre outras temáticas, a Well's volta a colocar uma dimensão essencial da saúde reprodutiva no centro do discurso. Isto num país onde as mulheres são mães cada vez mais tarde e onde, segundo dados do estudo que será apresentado ainda pela marca, oito em cada 10 mulheres sentem que se fala pouco de fertilidade. E assim, surge esta campanha. A criatividade é da VML, a produção da Garage Films, com realização de Patrícia Coveiro. Mas o que é que esta campanha faz exatamente? Nós damos a resposta. Não é apenas um filme emocional, é um ecossistema. Tem presença em televisão, rádio digital e mupis, mas sobretudo cria um projeto estruturado de literacia em fertilidade. Um projeto que, de resto, foi desenvolvido com o apoio da Associação Portuguesa de Fertilidade e também da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução. Ambas garantem a credibilidade científica. Chega também a segunda temporada do podcast "Não Fica Bem Falar de", moderado por Jéssica Ataíde e agora naturalmente focado em fertilidade. Ou seja, não é apenas publicidade, é posicionamento continuado, é território e é consistência. E no momento em que tantos preferem a confusão dos debates, a Well's escolhe esclarecer. E isso, convenhamos, também é uma forma de liderança. Boa, Well's. E enquanto uns discutem fronteiras, no Japão, alguém decidiu ultrapassar uma das mais invisíveis: a fronteira do próprio corpo. A campanha Waves of Will, desenvolvida pelos NTT Human Informatics Laboratories em parceria com a Dancer Incorporated, transformou a tecnologia de ponta em arte. Uma bailarina com esclerose lateral amiotrófica conseguiu controlar uma coreografia apenas através da atividade cerebral. Como é que isto funciona? O sistema baseia-se em imaginação motora e aprendizagem automática. Através de interfaces cerebrocomputadas, as ondas cerebrais da bailarina são traduzidas em comandos digitais. Ela imagina o movimento, o sistema interpreta o sinal e intérpretes reproduzem os gestos imaginados. A coreografia torna-se literalmente uma extensão da sua vontade. Mas isto não ficou num laboratório. Transformou-se num espetáculo público, emocional, visualmente impactante, onde a tecnologia, a inclusão e o storytelling convergem. Mais do que mostrar o funcionamento da inovação, a campanha mostra o impacto humano desta inovação. Com mais de 55 mil pessoas a viverem com esclerose lateral amiotrófica no mundo, segundo a OMS, este projeto mostra que a comunicação não é apenas mensagem, pode ser capacidade de expressão. A iniciativa integra a shortlist de Innovation na categoria Societal Innovation do Spikes Asia 2026. E no final de contas, num mundo que insiste em mostrar força, esta campanha mostra vontade. E parece-me que não, há uma grande diferença. Nesta edição do "Brainstorming" temos o prazer de conversar com Inês Simas, é a CEO e cofundadora do Departamento de Marketing. Inês, sê muito bem-vinda aqui ao "Brainstorming". Estamos ainda no início de um ano, 2026. Faço sentido e lanço-te desde já este desafio. Aliás, antes disso, Departamento de Marketing, não é o departamento de marketing de uma empresa, pois não?

É de várias, na verdade. Antes de mais, obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui a conversar contigo.

Não me esqueci da provocação, explica-nos só o que é o Departamento de Marketing.

Nós chamamo-nos Departamento de Marketing porque achámos que ia ser muito claro dizer que nós somos um departamento de marketing que funciona como uma extensão dos departamentos de marketing que estão nas empresas e que muitas vezes não têm os recursos suficientes ou as competências certas, ou precisam de acelerar determinado projeto. Não somos uma agência, somos um departamento de marketing e o nome vem disso.

Usando um termo futebolístico, estão lá para fazer a dobra do que os departamentos de marketing habituais não conseguem chegar, às vezes.

Nunca melhor dito.

Portanto, a provocação que te ia fazer é: estando em 2026, ainda no início, faz sentido continuarmos a pensar no marketing, na vida, no mundo, como se ainda estivéssemos em 2020?

Eu acho que faz sempre sentido pensar no marketing. Eu acho que o marketing é absolutamente essencial aos negócios e os negócios são essenciais às pessoas. Portanto, eu considero que faz sempre sentido pensar e falar de marketing. Ele tem evoluído, e portanto eu acho que a tua pergunta vai nessa, ou seja, isto mudou tanto nos últimos anos. Infelizmente, eu acho que há coisas que até mudaram demais e mudaram a uma velocidade demasiado grande. Ou seja, respondendo, acho que faz muito sentido continuar a pensar no marketing como pensávamos em 2020 ou em 1990, porque as bases do marketing são essenciais em qualquer momento.

Não mudou nada?

Não mudaram os fundamentos, não mudaram a importância da estratégia, não mudou a importância da consistência de uma marca, não mudou a importância das equipas. Mudaram os canais, diversificaram, são mais, mudou o ritmo com que trabalhamos, mudou o perfil das pessoas que fazem marketing, mudou a cabeça do consumidor que recebe o marketing, mas os fundamentos e a estratégia são tão importantes que se eu pudesse, guardava-os numa caixa intemporal e fazia com que nunca mudassem.

E há algum desses fundamentos em especial que destaques ou que tenhas sempre bem presente? Ou alguns?

Eu acho que a estratégia é um, ou seja, estratégia para mim é por que tu fazes determinada coisa e, portanto, teres o porquê, saberes primeiro a quem é que te diriges. Vou chamar consumidor, podias chamar cliente ou comprador, ou o que quer que seja, mas genericamente é quem é o teu consumidor, o que ele precisa, o que tu podes fazer por ele. E portanto, acho que isto é uma coisa e isto é uma decisão estratégica. E a partir daí crias as tuas marcas, os teus serviços, os teus produtos.

Ou seja, a estratégia na base de tudo.

Sempre. Há tanta gente que a meio da corrida, continuando no desporto, se esquece de: "Espera, mas para onde é que eu ia? Qual era a direção?" E de repente estamos só a correr.

Às vezes é preciso olhar para trás também.

É preciso sempre saberes em que direção estás a correr e qual é o teu destino, sendo que o destino tem que ser o impacto no negócio e não pode ser uma marca mais bonita, mais decorativa ou mais atrativa. Portanto, eu acho que este sentido estratégico e sentido de impacto, eu guardaria numa caixa e não deixaria que mudasse nunca.

Então é isso que se guarda na caixa e daquelas mudanças de que estávamos a falar, das tendências, o que é que veio para ficar? Já se consegue perceber?

Eu acho que uma tendência é uma coisa que nós começamos a observar e ela começa a chegar, mas ainda não está democratizada. Pelo menos aí assume o entendimento da tendência. Eu acho que veio para ficar a inteligência artificial. Não há dúvida nenhuma que não é um toca e foge, é uma coisa que veio mudar as nossas vidas e com ela ocorrem muitas outras mudanças. Eu acho que a principal mudança que nós hoje estamos a assistir no marketing, não só no marketing, mas no marketing, que nos toca nesta conversa, é a redefinição da força de trabalho, da maneira como as pessoas trabalham.

E no mundo do marketing traz mais desafios ou mais vantagens, a inteligência artificial?

Eu acho que trará mais vantagens. No sítio onde estamos hoje, está a trazer mais desafios. Precisamos de tempo para calibrar e para deixar assentar. A balança desequilibra sempre primeiro até se conseguir equilibrar. Eu acho que ainda está bastante desequilibrado. Já há um uso bastante democratizado da IA, mas nós ainda não sabemos bem conjugar tudo. Eu ia te contar que o que eu mais sinto que é uma tendência é a redefinição da força de trabalho, ou seja, redefinir quem são as equipas de marketing, como é que trabalham, que perfil têm, o que é que as move, como é que interagem.

A dimensão, também?

A dimensão, obviamente. Mas tu ao diminuíres, que é esse o desafio que traz a tecnologia, ou aparentemente traz nesta fase esse desafio, tu ao diminuíres tens que reconfigurar. E outra coisa que eu vejo todos os dias acontecer nas equipas de marketing é que já não é um departamento. E portanto, tu podes ter uma pessoa que é absolutamente fundamental num trabalho de marketing, que está num departamento que não te reporta, ao qual tu não tens acesso como um departamento de tecnologia, por exemplo. E portanto, reconfigurar a força do trabalho é claramente uma tendência e veio para ficar e ainda estamos às apalpadelas, diria.

E no meio dessa reconfiguração e dessa digitalização e utilização da inteligência artificial, há o contraponto de que também estavas a levantar o véu há instantes, que vai ao encontro da personalização das campanhas, da comunicação das empresas, muito mais direcionado estrategicamente para quem eu quero comunicar, como eu quero comunicar. E depois, esta integração não é um bocadinho, às vezes, distópica até? Fazer tudo muito mais mecanicamente, mas queremos que seja tudo muito mais personalizado.

Sem dúvida.

Às vezes parece um contrassenso.

É uma dissonância e eu acho que estamos a tentar encontrar o equilíbrio. Sem dúvida que nós estamos perante um consumidor super informado, super exigente e que tem tanto das nossas marcas como nós, os donos das marcas, temos. A tua marca, hoje, marketeer, não é tua, é tua e dos teus consumidores. E portanto, eles têm uma palavra a dizer, têm a marca na mão, interagem com ela minuto a minuto. Noutros tempos do marketing, a marca era da empresa e depois de vez em quando o consumidor tinha acesso. Hoje é o contrário, ela é líquida, está diluída, está presente em todo o dia a dia. Isso faz com que o consumidor a considere dela e isso faz com que se torne muito mais exigente.

Vou te fazer um desafio. Pensares nisto, não sei se já tinhas pensado. Demasiada personalização não pode também desvirtuar depois as marcas? E o produto que as empresas vendem?

Eu acho que sim. Eu acho que nós podemos personalizar não as marcas. Eu acho que mais tendência do que personalização, porque eu acho que não se pode ir mais além e a tecnologia tem os seus limites também, porque a tecnologia é limitada por dados e nós hoje temos uma limitação no uso de dados gigantesca. E eu não sei tu, mas como consumidor, quantas vezes tu pensas: "Vão pôr aqui os meus dados, vão me chatear, vão ver, Big Brother is watching me". E todos os constrangimentos legais colocam barreiras a uma personalização efetiva, porque eu para ter uma conversa pessoal contigo, eu tenho que te conhecer. E eu tenho que ter um diálogo aberto para te conhecer. E isso é muito difícil fazer com a tecnologia e ao exagero da personalização. Para não cair num erro, o que eu acho que tem acontecido agora é muito mais a criação de comunidades, ou seja, é também uma forma de personalizar, mas criando, de alguma forma, clusters e comunidades de pessoas que estão agregadas. Nós todos, o ser humano, vive em comunidade e portanto, isso também faz sentido, aquele sentimento de pertença e tu és daquela comunidade. Tu vês hoje muitas marcas que em vez de comunicarem de forma pública, estão a comunicar nas suas comunidades, no WhatsApp que está fechado ou num determinado grupo que está fechado, ou fazem uns encontros. O crescimento das comunidades em detrimento da ultrapersonalização, eu penso que é uma das coisas que está a acontecer e que defende as marcas, e que eu acho que continua a fazer sentido para o consumidor.

E o aparecimento dessas comunidades também favorece depois a implementação de um papel social por parte das marcas e das empresas?

Eu acho que é inevitável. Eu adoro comparar marcas às pessoas. E o que tu esperas de uma pessoa é que no momento de aflição ou de desigualdade, tu sejas solidário. E eu acho que isso nós todos esperamos das marcas. As marcas têm que se chegar à frente, têm que ter uma voz, têm que ter um papel, têm que ajudar quando é preciso, têm que deixar uma marca da sociedade. Eu acho que isso tem muito a ver também com as comunidades, mas sobretudo com o nível de exigência dos consumidores e com o fato de uma marca estar na sociedade.

E os consumidores, de fato, valorizam essas marcas que sentem que estão próximas, que têm um papel social, que dão a mão quando é preciso?

Eu acho que é inevitável. Se esse trabalho for feito com consistência e sem oportunismo, ou seja, se eu estiver sempre lá, se isso fizer parte dos meus valores, se fizer parte da forma como eu marco e me comporto, e se tiver o que nós chamamos o fit to brand, quer dizer, tu não podes ir como marca fazer uma coisa que não tem nada a ver contigo. É como as pessoas. Imagina, tu és muito tímido e de repente há um dia que nos encontramos e tu falas muito. Eu vou estranhar.

Não faz sentido.

As marcas não podem ser isso. Nós temos que ser ultraconsistentes no trabalho que fazemos com as marcas, e isso é muito valorizado, porque é ter uma voz, é ter um papel, é estar aqui não só para te vender ou para te conquistar, mas também estar aqui quando é preciso. E eu acho que as marcas aí têm muito a ver com o comportamento que nós esperamos das pessoas.

E dentro dessa coerência, todas as marcas têm que estar em todos os canais permanentemente? Isso é uma vantagem, é um erro? Depende da marca?

Essa é uma belíssima pergunta. Apetece-me dizer que sim. Apetece-me dizer que no mundo em que estamos todos hiperligados, se tu não estás, quem está calado ou quem está longe, está ainda mais longe, desaparece mesmo.

Quem não aparece, esquece.

Quem não aparece, esquece, exatamente. Dantes nós contactávamos com uma marca através de um programa de rádio ou de um outdoor na rua, e hoje ela entra de diversas formas. As marcas têm que ter essa liquidez, no sentido de estarem líquidas e estarem em todo lado e estarem à nossa volta.

Ou seja, trazendo aqui o teu departamento de marketing para a conversa, se eu estiver a ouvir falar acerca do departamento de marketing no brainstorming e depois for à procura do departamento de marketing numa página web, no Instagram, no Facebook, no TikTok e não estiver lá, eu esqueço.

Deste-me um segundo para me encontrares e se não encontrares, vais desistir. E eu acho que hoje nós somos muito pouco pacientes. Uma coisa que demora 10 segundos já é "tive aqui o amanhã todo". E portanto, essa impaciência do consumidor, perdeste uma oportunidade. Eu acho que as marcas devem estar em todos os touch points o mais possível, mas queria levantar um tema que é estar em todo lado, mas com controle na velocidade. Eu acho que as marcas hoje, se estivéssemos na estrada, tínhamos uma multa de excesso de velocidade. Isto está com uma velocidade, uma loucura. As marcas produzem conteúdo, uma loucura. Estão em todos os canais, tem que estar sempre on.

Agora estes últimos dias, tens estado a dar na RTP2, e passo aqui a publicidade, apesar de ser um canal público, tens estado a dar uma série de reportagens acerca do mundo do marketing. E estava a falar uma responsável de uma agência a dizer que, por vezes, e hoje em dia, passam-se dias, às vezes semanas, a produzir um conteúdo de 30 segundos que vai para uma rede social e que desaparece.

Exato.

Isso é uma angústia também para quem trabalha em marketing, não é?

Olha, isso é uma angústia e, sobretudo, é impossível manter a tal consistência de que falávamos atrás, porque de repente tens uma obrigatoriedade de estar sempre a falar e já não falas só do que deves, já estás só a falar. E há outra regra que é: quando tu não tens nada importante para dizer, cala-te. O estar em todos os canais não pode representar excesso de velocidade, não pode representar perder a consistência da marca e não pode representar "vou só estar a dizer alguma coisa porque tenho que estar a falar". Repetir é uma das regras da publicidade, saberás, estar com consistência, agarrar uma ideia-chave da marca e explorá-la nos diferentes formatos e não estar sempre a dizer coisas diferentes e inventar, enfim, a comunicar demais. Eu acho que hoje o desafio com que nós mais nos deparamos é esta velocidade.

Portanto, estar em todo lado ao mesmo tempo, mas não fazer tudo em todo lado ao mesmo tempo.

Exatamente.

Ok. Para as equipes de marketing que nos estão a ouvir, para os marketeers, para os curiosos, também para quem está à frente de empresas, se estiverem a pensar e preocupados em definir uma estratégia de marketing para os próximos dois anos, por onde é que devem começar? Por essa estratégia, por ver de onde é que vieram, por onde é que vão e onde é que estão?

Eu acho que sim, olhar para trás. A história também nos diz isso, é olhar para trás que compreendemos o presente e o futuro. Eu acho que olhar para o território da marca, há muitas marcas que mudam de acordo com o brand manager. Tu às vezes sentes, se tiveres um olhar mais apurado: "ui, a equipe de marketing mudou, o diretor de marketing mudou."

A agência mudou.

A agência mudou, exatamente. Porque as pessoas chegam e querem deixar a sua marca. Eu acho que é preciso ter muito respeito com o trabalho que é feito por trás e com a consistência dessa marca e não destruir essa consistência.

Mas esse é um problema dos marketeers, não é? Dos criativos.

Nós gostamos de novidade.

Gostamos de novidade e gostamos de dizer: "Eu agora vou fazer diferente. Agora é que vão ver como é que é."

É verdade, eu acho que não é só nós. Eu reconheço, percebo, encaixei.

Não, eu estou a falar no geral.

Nos políticos, nós também vemos isso.

Sim, mas eu, em particular, e permito-me aqui partilhar um bocadinho da minha vivência, onde quer que esteja e onde quer que chegue, tenho muita preocupação em respeitar o que está para trás. E acho que é também assim que se constroem projetos e que se constroem coisas bem fundamentadas, com respeito por quem fez e pelo que fez.

É muito importante incutir isso nas equipes, ainda mais que nós chegamos novos e que trazemos, obviamente, um olhar fresco àquela marca, esse respeito pelo passado. Eu costumo dar formação na área de marketing com o meu sócio, Tiago Lemos, e ele diz sempre que o histórico da marca é como aquele íman que nós trazemos da viagem. Tu não tens que voltar à viagem lá atrás, mas aquilo está em ti, a experiência que tu viveste ali. Então, esses ímãs são o histórico da tua marca. Olha para eles.

Essa imagem é incrível.

E respeita isso. Portanto, acho que isso, olhar para trás, não esquecer a estratégia e lembrar que o marketing não é decorativo e o objetivo do marketing é vender mais ou vender melhor. E esse é o propósito de tudo que nós fazemos.

Então, já temos aqui o game plan, qual é que é o erro que não se pode cometer, pondo em prática este game plan?

Eu acho que se podem cometer alguns erros, antes de mais, eu acho que devia ser instituída uma cota de erro em todos os departamentos de marketing, uns 5% de possibilidade de errar, porque se não pudermos errar, não vamos experimentar. E eu hoje vejo marcas a dizer que antes de pôr um anúncio na televisão ou na rádio, onde quer que seja, pré-testam tudo. Eu acho que a vida perde a graça com muitos demasiados pré-testes. Acho que uma componentezinha de risco faz todo sentido. Às vezes aquilo que nos parece que não resulta, depois resulta e vice-versa. Portanto, cota de erro seria a minha primeira recomendação. Erros que eu vejo mais acontecerem: olhar para as migalhas no chão, ou seja, perder a big picture. Sucessivamente, as equipes de marketing estão muito fragmentadas, estão muito especializadas, estão divididas entre diferentes geografias, no caso das multinacionais, e de repente apanhamos uma pessoa que está a olhar para aquela migalha no chão, mas não percebe o todo. E portanto, estamos numa fragmentação e numa especialização tão grande que ninguém está a olhar para o todo e diz: "Espera, mas isto está alinhado com a estratégia e vai produzir resultado?" Então estamos todos a fazer pequenas coisas que não estão coladas. Eu digo, a brincar, as migalhas no chão.

Portanto, trabalhar efetivamente em equipe.

Em equipe, sim. E com a big picture.

Inês, no "Brainstorming" fechamos sempre as nossas conversas da mesma forma, com um desafio. Se pudesses atribuir uma música ao papel do marketing em 2026, fazendo também aqui a ligação com o departamento de marketing, que música é que escolherias? Ou que música é que escolhes?

Olha, é mesmo difícil, mas sendo um bocadinho impulsiva, o meu primeiro pensamento com esta pergunta foi uma música do Cazuza, um cantor brasileiro, que eu não sei se o nome é, mas o refrão é "Exagerado". Não sei se conheces. Isto para dizer que eu acho que o marketing tem que ter um certo exagero, não no sentido da velocidade, não no sentido da quantidade, mas no sentido de ser notado. Também vemos muitas vezes muita gente a fazer muitas pequenas coisas e o convite, e o que eu acho que deixa, de fato, uma marca, é quando fazemos alguma coisa que faz a diferença, que se nota. Ou seja, se eu for a uma festa, eu tenho que lembrar de ti, ou pelo que tu disseste, ou pelo que fizeste. Se me fores indiferente enquanto marca, a nossa relação vai ser difícil. E, portanto, eu convido as marcas a serem exageradas, a terem um ponto de vista, a serem absolutamente fiéis aos seus princípios, a falarem, a gritarem quando precisarem de gritar, porque em grandes costumes, é difícil deixar uma marca quando está toda a gente a falar Há que exagerar um bocadinho para sermos notados. Talvez eu destacasse esta música do Casimiro.

Inês Simas, CEO e cofundadora do departamento de marketing. Foi com ela que estivemos aqui a olhar para as tendências do marketing para o ano que agora está a começar, com estratégia, com fundamentos, com uma quota parte de erros e também com algum exagero. É assim que fechamos a conversa. Inês, obrigado por teres vindo ao "Brainstorming".

Eu é que agradeço.

E muito sucesso.

Obrigada.

No final de mais um "Brainstorming", temos uma escala quase obscena de dinheiro. A OpenAI anunciou uma ronda de financiamento de 110 mil milhões de dólares ou, como dizem nos Estados Unidos, billions. Entre os investidores estão a Amazon, a NVIDIA e a SoftBank. A avaliação da empresa sobe assim para os 840 mil milhões de dólares. Nem imagino o que é isto. A Amazon compromete 50 mil milhões, a NVIDIA e a SoftBank 30 mil milhões cada. Para quê? Para garantir poder computacional, para garantir o acesso prioritário a GPUs e também para consolidar infraestruturas. No final de contas, o objetivo é expandir a parceria com a Amazon Web Services como fornecedora exclusiva de cloud para a plataforma empresarial OpenAI Frontier, num compromisso estimado em 100 mil milhões de dólares em consumo de serviços ao longo de oito anos. Estamos a falar de números que ultrapassam o PIB de vários países e com mais de 900 milhões de utilizadores semanais do ChatGPT, a OpenAI posiciona-se como um dos principais atores na corrida global pela inteligência artificial. E assim, enquanto uns investem em arsenais, outros investem em algoritmos, mas ambos disputam o poder. Só um deles promete, pelo menos teoricamente, ampliar a capacidade humana. Mas surge a questão: para quê e para quem? Esta semana no "Brainstorming" falámos de conflitos declarados e latentes, falámos de uma marca que escolhe esclarecer em vez de dividir, da tecnologia que devolve o movimento a quem o perdeu e de uma empresa que levanta 110 mil milhões para moldar o futuro da inteligência artificial. E depois de tudo isto, acho que podemos concluir que num mundo saturado de ruído, quem ganha é quem cria significado. E num mundo em guerra permanente, destaca-se quem escolhe construir. E é para isso que o "Brainstorming" está cá todas as semanas, para construir boa disposição, também criatividade e boas ideias. E assim vamos para o ar todas as segundas-feiras, depois das 21h30, numa edição que fica também sempre disponível em podcast, no site do Observador e nas principais plataformas. Com ajuda à produção da Inês Neto e a sonoplastia que transforma ideias em ambiente do Bernardo Almeida, eu sou o Hugo Silva e até à próxima edição, lembre-se: num mundo em que muitos insistem em rebentar paredes, talvez a melhor estratégia seja, em vez disso, construir pontes. Até para a semana.