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Este podcast é uma parceria do Observador Leve com a Gilead. Ao longo dos próximos quatro episódios, vamos falar de terapias celulares, terapias individualizadas concebidas à medida de cada doente. Através deste tipo de terapia, é possível, por exemplo, tirar partido do nosso sistema imunitário, reprogramando as células que nos defendem para o fazerem contra uma doença em específico. Falamos, por exemplo, de vários tipos de câncer. É nesta área que a terapia celular ganha uma importância preponderante numa abordagem inovadora dos cuidados oncológicos e, por isso mesmo, neste primeiro episódio, estamos à conversa com a doutora Fernanda Trigo, diretora do Departamento de Hematologia Clínica do Hospital de São João, sobre uma das doenças que podem ser combatidas através deste tipo de tratamento, os linfomas. Doutora Fernanda, bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. Já vamos aqui falar da importância das terapias celulares no tratamento deste tipo de câncer, mas começava por lhe perguntar e por lhe pedir que nos explique exatamente o que é um linfoma.
Muito obrigada por este convite e vamos tentar, de uma maneira que, quem nos esteja a ouvir, esta palavra linfoma não seja uma coisa não palpável. Porque aquilo que eu tenho ideia é que as pessoas, sempre que nós falamos de câncer de mama, toda a gente sabe o que é o câncer de mama, qual é o órgão atingido. Quando falamos de câncer do pulmão, também toda a gente percebe o que é o câncer do pulmão, qual é o órgão que está atingido, ou do fígado, ou do rim. Quando falamos em linfoma, as pessoas ficam, às vezes, até quando nós damos o diagnóstico a um doente: "Olhe, o senhor tem um linfoma" ou "a senhora tem um linfoma", as pessoas ficam um bocadinho: "O que é isso?" Então, assim, muito rapidamente e muito sucintamente, para que as pessoas que nos estão a ouvir entendam, o linfoma é uma doença oncológica. Em primeiro lugar, é preciso dizer isso claramente, que é uma doença oncológica, que normalmente afeta os gânglios. As pessoas muitas vezes vêm ter conosco ou são enviadas para os hematologistas, dizer que cresceu um carocinho no pescoço ou na axila ou na virilha, ou que tiveram, de repente, por algum motivo, fizeram um raio-X e havia uma alteração naquilo que nós chamamos um destino, ali uma massa. Portanto, digamos que é um tumor, é uma neoplasia, grosso modo, que afeta os gânglios linfáticos e o baço, também, por vezes, pode ser atingido. Provavelmente, vamos falar nisso, mas os sintomas que trazem, ou melhor, antes, os linfomas, desde logo, há os linfomas de Hodgkin e, em contrapartida, há depois um outro grupo muito grande de linfomas, que é o linfoma não-Hodgkin. E esses dois tipos de linfoma são diferentes do ponto de vista biológico, do ponto de vista da apresentação, do ponto de vista até de sintomatologia e também diferentes nos seus tratamentos.
E o que os distingue exatamente, doutora Fernanda?
Dizer também que os linfomas são, embora o grande público não conheça muito bem, não esteja muito familiarizado com esta palavra ou com esta neoplasia, mas os linfomas são a primeira doença hemato-oncológica, ou seja, dentro das doenças oncológicas do sangue, para dizer para as pessoas perceberem, do sangue e da medula, o linfoma é a doença mais frequente. Portanto, é uma doença relativamente frequente no campo da hemato-oncologia, não é dos tumores sólidos. Portanto, aquilo que muitas vezes as pessoas aligeiradamente dizem, dos tumores líquidos. E que não necessariamente invadem o sangue e a medula. Por vezes, invadem o sangue e a medula, mas não sempre.
Não em todos os casos.
Não em todos os casos. Normalmente, na grande maioria dos casos, são os hematologistas que tratam.
Certo.
Assim, grosso modo, o linfoma de Hodgkin normalmente aparece mais nas idades mais jovens, tem uma distribuição até que nós dizemos bimodal, portanto aparece, imagine, na década de 20, 30 anos, em gente muito jovem.
E é mais comum nos homens ou nas mulheres?
Normalmente, são mais comuns nos homens. Quer uns, quer outros. Eu até costumo, às vezes, dizer aos alunos, em termos de brincadeira, pura brincadeira, que normalmente não há quase nenhuma dessas patologias que seja mais frequente na mulher. Normalmente, são todas um bocadinho mais frequentes nos homens. Não conseguimos saber por que o homem é mais atingido que a mulher, mas são um bocadinho mais frequentes nos homens. Então, eu dizia da doença de Hodgkin, do linfoma de Hodgkin, que é mais frequente nas idades de 20, 30 anos. Depois há, como a própria palavra diz, é uma curva bimodal, há ali um decréscimo e depois, na década de 60, 70 anos, volta a aparecer. O linfoma de não-Hodgkin não tem esta distribuição bimodal e aparece em todas as idades, em homens, mulheres, também há na criança, infelizmente. Portanto, as idades que mais aparecem.
E em relação a sintomas a que os nossos ouvintes devem estar atentos?
Exato. Por vezes, nomeadamente no linfoma de Hodgkin, são muito inespecíficos O que eu quero dizer com isto? Não é nada que as pessoas apontem, a não ser que palpem os tais carocinhos. Mas a maior parte das vezes não têm febre, não têm emagrecimento, não têm falta de apetite, não têm perda de peso. E, portanto, por isso é que muitas vezes até é só feito o diagnóstico quando aparece o tal caroço e depois, que eu agora dizer que é gânglio, e depois se faz uma biópsia desse gânglio, então é que o exame anatomopatológico diz que é um linfoma de Hodgkin. Os não-Hodgkin, por vezes, não todos, mas por vezes dão uma sintomatologia que já pode ser aquilo que até nós dizemos, sintomas B, que no Hodgkin pode aparecer, repito, não é tão frequente, mas pode aparecer, e no não-Hodgkin também pode ou não aparecer, que é os designados sintomas B. E o que incluímos nesses sintomas B? Se há febre, se não há febre. Normalmente, as pessoas às vezes dizem: "Tenho um bocadinho de febre ao fim da tarde, mas não é nada que seja uma febre muito alta, não é todos os dias", uma febre insidiosa, às vezes acontece. Perda de peso, por vezes acontece. Emagrecimento, perda de peso, falta de apetite. Portanto, alguns sintomas constitucionais, sintomatologia B, que podem alertar para, pelo menos, procurar um médico e ver se há, de facto, algo. E isso também pode ser comum a outros tumores oncológicos. O gastrointestinal, o tumor do fígado, do pulmão. Outro dia, muito recentemente, até uma colega que foi diagnosticada com câncer do pulmão, não tinha rigorosamente mais nada, só tinha enjoos. E depois foi se ver e estudar e tinha um câncer do pulmão. Portanto, tudo isto às vezes é um bocadinho inespecífico, mas há que estar alerta para determinadas coisas, e isso acho que é um bocado de senso comum. Uma pessoa que está a emagrecer, que está com falta de apetite, que está com suor, nomeadamente durante a noite, não é absolutamente normal e deve procurar um médico.
Certo, procurar um médico para perceber o que se passa exatamente. E em relação às opções de tratamento, doutora, nos casos de linfomas de Hodgkin, de não-Hodgkin, quais são as diferenças?
Há tratamentos, quimioterapia, e por vezes radioterapia. Nós estamos a falar de tratamentos convencionais e tratamentos já usados há muitos anos e que felizmente temos esquemas de poliquimioterapia e depois também imunoterapia, que têm resultados, nas primeiras abordagens ou no primeiro tratamento que o doente faz, por vezes, muito satisfatórios. Os doentes atingem aquilo que nós chamamos remissão completa e têm boa sobrevivência global, têm períodos muito longos sem a doença, que é aquilo que nós dizemos, o período de sobrevida livre de doença. O que isso quer dizer? Os doentes são tratados com ciclos de quimioterapia, quer para Hodgkin, não-Hodgkin, ciclos diferentes, obviamente, o tratamento da doença de Hodgkin ou linfoma de Hodgkin é completamente diferente do linfoma não-Hodgkin. E dentro dos linfomas não-Hodgkin, há uma variedade imensa e que terá que haver ciclos de quimioterapia, também diversos, conforme o tipo de linfoma. Porque há os difusos grandes células B, há os indolentes, há os pequenas células, há os alto grau de malignidade, há os mais "benignos", que não são de crescimento tão agressivo e biologicamente menos complicados. Mas quer para linfoma Hodgkin, quer não-Hodgkin, os primeiros tratamentos a fazer são tratamentos standard, tratamentos de quimioterapia ou quimio e imunoterapia, e que quer no linfoma de Hodgkin, quer não-Hodgkin, têm períodos de sobrevida livre da doença muito bons e, graças a Deus, por vezes, muito importantes. O problema é que estas doenças, infelizmente, têm sempre a possibilidade de ter uma recaída. E nas recaídas, obviamente, o que é que nós vamos fazer? Vamos tentar tratar com quimioterapia ou imunoterapia, mas que, em princípio, não seja aqueles que eles já fizeram. Porque se já fizeram uma primeira, que deu resultado, mas agora na recaída vamos tentar terapêuticas ligeiramente diferentes, uma abordagem um pouco diferente.
E nós aqui no início desta nossa conversa, doutora, falávamos de terapias inovadoras, da questão das terapias celulares CAR-T.
Agora, obviamente, como se sabe, nós temos a hipótese de tratar os doentes recaídos e os refratários, portanto, que já fizeram uma primeira linha terapêutica, que tudo correu bem, e que depois recaíram e depois fizeram uma outra segunda terapêutica, e podemos recorrer às novas terapias celulares, às chamadas CAR-T cell. Já vamos tendo em Portugal algumas clientes, é verdade, o nosso centro já tem doentes tratados com CAR-T cell, e que, obviamente, é uma esperança para estes doentes. Nomeadamente para doentes jovens, doentes que ainda tenham um bom estado geral, obviamente que teremos que tentá-lo sempre que possível. Eu não sou a pessoa certa, mas seguramente vai ter mais pessoas que lhe vão dizer quantos estão tratados em Portugal, quais são os resultados desses mesmos tratamentos. Temos, de facto, alguma coisa neste tipo de tratamentos, nomeadamente, e como sabe, até agora, nos linfomas não Hodgkin. E dentro dos linfomas não Hodgkin, aqueles que, pelo menos no nosso centro, foram mais tratados com CAR-T cells foram os linfomas não Hodgkin de células grandes B difusos. Esses linfomas, pelo menos, tanto quanto eu sei, terão sido o primeiro tipo de linfoma a ser tratado com esta metodologia, com este tratamento CAR-T cell. Como lhe digo, eu não sei quais são os resultados em Portugal. Posso-lhe dizer do nosso centro que houve uns que correram bem, houve outros que correram menos bem, infelizmente. Portanto, também não me parece que possamos dizer, neste momento, que as CAR-T cells salvam todo o doente com linfoma não Hodgkin, refratário ou recaído em segundas, terceiras linhas terapêuticas, e que as CAR-T cells sejam milagrosas. Penso que não podemos dizer isso. Há doentes que têm corrido bem, mas há outros doentes que têm corrido menos bem. Que isso é uma esperança para futuro, eu não tenho a menor dúvida e acho que devemos, cada vez mais, sempre que os doentes tiverem condições e sempre que for pertinente, propor o doente para essa terapia. Essa terapia, como nós sabemos, é uma terapia de recolha de células do próprio doente, modificá-las geneticamente e infundi-las novamente no doente para tentar combater com o sistema imune do doente a própria doença. Agora, penso que esta terapia se vai estender a muitas outras patologias, nomeadamente ao mieloma múltiplo, por exemplo. Provavelmente, aos linfomas não Hodgkin de outro tipo que não o difuso de células grandes B, como é o do manto, por exemplo, penso que também será. Eventualmente, também a leucemia linfocítica crónica. Enfim, acho que há uma variedade de doentes com estas patologias que poderão vir a beneficiar deste recurso, porque isto é uma terapia, não é a primeira abordagem. Pode ser que venha a ser, num futuro próximo, não direi de primeira linha, mas de segunda linha. Neste momento, penso que ainda é preciso pelo menos umas duas ou três linhas prévias. E não sei muito mais, mas penso que era mais ou menos isto que teríamos para falar hoje, certo?
Certo, exatamente. Nós vamos continuar ao longo destes episódios a falar de linfomas, de terapia celular, dos desafios que os doentes enfrentam e dos apoios disponíveis para minimizar o impacto desta doença. Hoje estivemos à conversa com a doutora Fernanda Trigo, a diretora do Departamento de Hematologia Clínica do Hospital de São João. No próximo episódio, teremos a conversa com o doutor Manuel Bacasis, o presidente da Associação Portuguesa contra a Leucemia. Doutora Fernanda, muito obrigada pela disponibilidade, mais uma vez.
Olhe, eu é que agradeço e espero ter sido suficientemente clara para quem nos possa estar a ouvir.
Este podcast é uma parceria do Observador Leve com a Gilead.