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Duas semanas de mandato e um recorde praticamente batido. Desde 20 de janeiro, Joe Biden já assinou quase tantos decretos quantos Franklin Roosevelt no seu primeiro mês. Biden diz que está a corrigir o que foi mal feito. Os republicanos acusam-no de não cumprir a unidade que pregou. Unidade também é o que tem procurado o Partido Republicano, e não está fácil, sobretudo quando se tem uma Marjorie Taylor Greene. Sem teorias da conspiração, esta semana temos a Madalena Meyer Resende e o Bruno Cardoso Reis. Eu, que já perceberam, estou um pouco galholha hoje, sou a Sara Antunes de Oliveira e vamos aos prêmios. Começamos pelo modo da semana, o Frank Underwood. Madalena, começamos por ti e pela divisão dentro da Igreja Católica e da falta de apoio dos bispos a Joe Biden.

É verdade, uma parte dos bispos mais conservadores da América, sabemos que especialmente desde que o Papa Francisco se tornou papa, ou Jorge Bergoglio se tornou o Papa Francisco, que as divisões na Igreja Católica da América se têm aprofundado e aparece também agora, depois da tomada de posse ou durante a campanha de Joe Biden, o mais católico dos presidentes americanos, o segundo católico depois de Kennedy, mas que de facto tornou muito óbvio a sua religião e fala de uma maneira muito pública e até muito política, que parte dos bispos, incluindo a liderança da Conferência Episcopal Americana, se tem vindo a demonstrar pouco amiga do novo presidente, enfatizando que certas políticas que ele promove são males morais.

Dizia aí há muito a questão do aborto.

Do aborto, exatamente, a contracepção, o casamento, etc.

Aliás, por causa da questão do aborto, ainda durante a campanha para as primárias, houve um padre católico que proibiu Biden de comungar na Carolina do Sul. Não o deixou comungar na missa, porque achava que ele não estava em comunhão com a Igreja.

Acho que é interessante perceber que realmente nos Estados Unidos, talvez de forma mais acentuada, não sei se a Madalena concorda, mas de facto a Igreja Católica sempre teve esta coisa, que ao contrário da tradição protestante, em que no fundo se há grandes diferenças, ou às vezes diferenças nem assim tão grandes, há uma separação e os Estados Unidos é talvez o campeão disso, ou seja, de um enorme empreendedorismo também religioso, e portanto surgirem novas confissões, novas organizações religiosas dentro do campo do protestantismo. No catolicismo, a tradição é uma grande convivência, nem sempre confortável, de diferenças, mas eu acho que realmente, como diz a Madalena, talvez nos Estados Unidos ainda mais do que na Europa, embora se note um pouco no catolicismo global, estas tensões entre correntes mais conservadoras, que tradicionalmente se identificavam muito com o papado durante o pontificado do João Paulo II e depois do Papa Ratzinger, e agora não. No fundo, inverteram-se aqui as dinâmicas. E as correntes mais progressistas, mais preocupadas com questões sociais, de que o Biden é um bom representante, agora identificam-se muito com o papado e às vezes entram mais em conflito com outras correntes e com a hierarquia. Mas realmente é uma dinâmica bastante interessante.

É interessante, mas ao mesmo tempo também diria eu que é uma espécie de tiro no pé do próprio catolicismo, de tornar de maneira tão política esta divisão, que é uma divisão também contra o Papa Francisco, como sabemos. Portanto, daí o meu Underwood para esta dinâmica.

Eu proponho também aqui um Underwood esta semana. É uma coisa muito curta, tem a ver com os problemas na testagem em Nova York, não propriamente com a testagem à Covid, mas com o trabalho de sequenciar o genoma das amostras dos casos positivos para perceber se as novas variantes já estão a ser responsáveis pelas infecções. Isso é uma coisa que, como temos visto logo depois do exemplo do Reino Unido e agora também em Portugal, é absolutamente fundamental para o controle da pandemia. E Nova York só está a conseguir fazer isso em relação a 1% dos casos diários detectados, o que é um problema. Estima-se que sejam precisos pelo menos 10% dessas amostras sequenciadas e desse genoma sequenciado para se perceber e se conseguir controlar a pandemia. Há ali vários problemas, não só os laboratórios estão todos a trabalhar uns para cada lado, como sobretudo isto, os testes estão a ser feitos, mas depois estas amostras dos casos positivos não estão a chegar aos laboratórios. E todos eles falam da necessidade de uma entidade, de alguém que supervisione, que organize, que crie uma estratégia. E nós temos visto ao longo do tempo, também já agora com a administração Biden, que em alguns aspectos do controle da pandemia continua a faltar esta estratégia, que é muito fruto, naturalmente, da forma como o sistema de saúde está organizado e da questão dos estados e do sistema federal. Mas continua a faltar uma estratégia que faça com que as coisas funcionem, ainda para mais num estado que foi tão afetado durante a primeira vaga, está a viver uma segunda, e a grande preocupação é que possa ter esta segunda vaga já tomada por uma terceira sem ainda acabar, por causa destas novas variantes, e não parece haver aqui uma forma de resolver este problema, de pôr o sistema a funcionar.

Sim, eu acho que essa é uma lição da pandemia em termos genéricos. Eu acho que não é preciso ter um Estado autoritário para ter uma resposta eficaz, mas ter um Estado muito bem organizado, muito bem dotado de meios também, inclusive orçamentais, mas relativamente centralizado, ou pelo menos com uma grande capacidade e experiência de coordenação, isso parece ser a chave para ter bons resultados. Vemos isso na Coreia do Sul, vemos isso em Taiwan, na Nova Zelândia.

Sim, aqui na Alemanha tem esse sistema. Também tem sido ajudado pela autoridade da chanceler, que todas as semanas faz uma espécie de cimeira com todos os Lander e que, de certa maneira, tenta harmonizar a política central. Aparentemente, na América não é assim. Há essa dificuldade.

Sim, quando há esta descentralização, eu acho que, como diz a Sara, ainda é mais importante esta função de coordenação. Se ela não existe, então o risco de caos e desorganização é muito grande.

Certo, até para uma coisa tão simples quanto garantir que as amostras dos casos positivos chegam aos laboratórios, porque ainda para mais Nova York tem que sobrar e chegar a laboratórios e sistemas físicos para fazer estas análises. Só que as amostras não estão a chegar lá.

Só pra dizer que eu acho que há sempre aquele choque quando se chega à América, vindos da Europa, que é de certa maneira uma certa fragilidade das estruturas do Estado. Para quem está habituado a um Estado forte na Europa, nota-se como na América não é tanto assim.

Isso tem vantagens em certos aspectos, mas noutros é complicado.

Certo, neste, por exemplo. Vamos avançar para as coisas boas desta semana. Vamos ao donut. Bruno, tens aqui guardado um donut para uma entrevista de John Kerry.

Sim, ele deu uma entrevista este fim de semana ao Fareed Zakaria, aquele programa de assuntos globais, o GPS. Como sabem, o John Kerry foi nomeado, já tinha sido chefe da diplomacia norte-americana, que foi candidato presidencial, evidentemente, portanto um peso pesado na política norte-americana e na diplomacia norte-americana, foi nomeado como uma espécie de czar, um representante especial do presidente Biden para as questões do clima, com assento no Conselho de Ministros, portanto é um ministro, vamos dizer assim, com assentos também no Conselho de Segurança Nacional, que é um órgão extremamente poderoso de coordenação de tudo o que é a ação externa do Estado norte-americano. Aqui, realmente, eu acho que se notou a grande experiência política e a grande experiência também de comunicação do John Kerry. Sobretudo, eu destacaria dois aspectos. Um é ele insistir neste ponto que, ao contrário do que dizem os críticos conservadores deste esforço de resposta à crise climática, ela faz todo sentido do ponto de vista econômico. Não é uma política socialista, não é uma política anticapitalista, embora haja quem defenda também isso, correntes ambientalistas mais radicais. Não é essa a agenda do presidente Biden e do John Kerry. O John Kerry diz: "Não, isto é a continuação do sonho americano, há imenso dinheiro para ganhar aqui, são novas indústrias, são novas empresas, vão surgir grandes fortunas em torno disto e, portanto, isso não é verdade. Nós não podemos é perder este barco, até em nome do nosso dinamismo econômico e da criação de emprego". Portanto, refletindo muito também esta preocupação, que é nós estamos cientes que há aqui uma transição complicada da indústria dos combustíveis fósseis, etc. Obviamente, é mais fácil declarar do que depois fazer, eventualmente, mas há esse compromisso e aparentemente já há algumas medidas preparadas nesse sentido, de garantir que em zonas onde tradicionalmente há minas, onde há extração de petróleo, etc., depois se faça um investimento nestas indústrias verdes, na produção de energia renovável, etc. E depois, o último ponto que eu acho que é muito importante é esta ideia de que, em relação à China, e portanto à dimensão externa desta política, o John Kerry diz: "Esta é claramente uma área em que nós temos que cooperar com a China. Sem isso não é possível avançar. A China representa quase um quarto do CO₂ que é emitido, os Estados Unidos representam volta de 15%. Portanto, nós temos que colaborar aqui, mesmo que noutras áreas vamos entrar em conflito e em competição, temos de conseguir cooperar aqui". Portanto, acho que isso é realmente fundamental.

Sim, eu acho que a escolha de John Kerry, só por si, mostra que a ideia de que Biden ia pôr a tônica da sua administração também nas questões do clima, não era só retórica, ou pelo menos, com esta escolha, mostra que de fato é uma das prioridades. Agora é preciso esperar pelas ações. Eu vou tentar ser muito telegráfica num donut que também aqui tenho, que vai para as audiências dos canais de informação norte-americanos do mês de janeiro, que eu acho que mostram que Que é um erro e que foi um erro deixarem-se encurralar em barricadas políticas, como aconteceu nos últimos quatro anos. As audiências deste mês mostram que a Fox caiu, enquanto que canais como a CNN subiram. Não tem a ver exatamente, esta minha análise, com o fato de ter sido a Fox a cair e a CNN a subir. É verdade que a Fox cai porque depois da queda de Trump, a Fox tentou fazer um ajuste até na sua programação, mudou algumas coisas e os seus telespectadores fiéis não gostaram, claramente rejeitaram. E eu acho que a Fox é ou deve ser um exemplo para os outros, porque da maneira como se colou a uma polarização, como os outros também fizeram nos últimos anos, telespectadores mais fiéis habituaram-se a ver ali um aliado das convicções que têm, não exatamente um canal de notícias e do jornalismo. E quando sentiram que deixaram de ter esse aliado, porque houve ali uma estratégia diferente, rejeitaram isso. Eles dizem que isto é normal, porque também aconteceu quando Barack Obama venceu as eleições. A verdade é que a situação é vista com grande preocupação, porque até Rupert Murdoch veio intervir de novo nas decisões, nos seus 89 anos, e nas mexidas que estão a ser feitas. Portanto, acho que deve ser um exemplo para todos os canais que alinharam por este diapasão, de um lado ou de outro, para perceberem que não é exatamente por ali. Já não temos muito tempo nesta primeira parte, portanto, eu propunha que avançássemos para a Sarah Palin, que ainda temos para falar agora. Bruno, um disparate o apelo dos republicanos à unidade?

O apelo em si, não, mas os termos em que é feito. Por um lado, há este lado irônico, que é o apelo do Partido Republicano à unidade nacional, quando o próprio Partido Republicano está extremamente dividido, como falaremos, em princípio, na segunda parte. Mas depois eu acho que sobretudo há este problema de muitos republicanos, pelo menos, e de muitos líderes republicanos, que é apelarem à unidade, mas uma unidade em que não reconhecem factos políticos centrais, nomeadamente a questão da derrota nas eleições, ou seja, da vitória do Joe Biden, e também sem haver aqui um compromisso evidente com a questão da democracia, da alternância pacífica e, portanto, no fundo, esta ideia de que isto serve, sobretudo, para safar o Trump da chatice de um impeachment e de eventualmente ter sanções, por exemplo, não poder voltar a candidatar-se em função disso. E, portanto, acho que isso realmente não é um contributo para a unidade, embora ela seja altamente desejável.

Parece que é uma espécie de negação. Que estes republicanos, sobretudo, estão aqui numa fase em que quase parece que nada disto aconteceu e, portanto, vamos continuar a fazer política da mesma maneira e fazer os mesmos apelos que faríamos em circunstâncias normais. E o perturbador é que este é, de facto, um momento muito importante para o Partido Republicano, que eu continuo a achar que ainda não percebeu exatamente o que é que deve fazer para o futuro e como é que vai fazer isso para o futuro. Há muitos caminhos ziguezagueantes a acontecer e no meio disso, coisas como esta. Dizias muito bem, que a questão não é o apelo à unidade, é o contexto em que ele é feito e, sobretudo, o que é que não é repudiado para garantir que essa unidade é possível.

Se não estamos unidos em torno dos factos e dos valores básicos, é muito difícil. Desculpa, Madalena.

Só para acrescentar, vamos falar disso, mas eu acho que também é sinal daquela enorme divisão e da falta de sentido que ainda impera no partido, que não é só resultado de Trump, que era anterior a Trump e que permitiu Trump, digamos assim. E, portanto, esta reconstrução eu penso que vai ser uma reconstrução que exige um líder primeiro e depois exige uma reconstrução que também é intelectual e que também é doutrinária. E, portanto, é um disparate, mas ao mesmo tempo é sintoma do que se está a passar.

Eu acho que um dos problemas será precisamente chegar esse líder. E eu acho que uma parte da desorientação neste momento tem a ver precisamente com isso. Mas vamos primeiro fazer o intervalo, já poderemos falar de novo sobre esta questão dentro do Partido Republicano, a seguir a este intervalo. Segunda parte do Café América desta semana, já poderemos retomar a conversa sobre o Partido Republicano, mas eu propunha que começássemos esta segunda parte com os decretos de Joe Biden, os muitos decretos de Joe Biden, desde que tomou posse. E o que isso significa, Bruno Cardoso Reis?

Eu acho que as acusações de ditador são exageradas, embora, como referiste, Sara, realmente aqui é claramente uma barragem de decretos que só se aproxima e mesmo assim ultrapassa a do Franklin Delano Roosevelt. Aquilo que o Biden diz, ainda bem. Ele fez questão na sua Sala Oval, na sua sala de trabalho, de ter o quadro maior, como maior destaque, é precisamente do Franklin Roosevelt. Portanto, ele acha que está a enfrentar uma crise do tipo da Grande Depressão.

Ele diz: "Eu não estou a fazer novas leis, estou a eliminar más políticas."

Eu acho que, desde logo, esse é um aspecto muito importante deste balanço, que é talvez metade desta barragem de decretos são basicamente a revogar decretos anteriores do presidente Trump. Isso também tem aqui um problema. Eu ia começar pelo lado positivo, mas os lados negativos. Realmente não é uma questão de ditadura, mas mostra que o presidente, confessadamente, acha que vai ter dificuldades em fazer avançar grandes mudanças no Congresso, mesmo com uma maioria muito estreita, sobretudo no Senado. Basicamente, é um empate que só é desempatado com o voto do vice-presidente, o que significa que qualquer democrata mais moderado, mais conservador que falhe, é logo um problema. Isso cria problemas também para fora, porque, por exemplo, do ponto de vista dos parceiros europeus, tal como o Biden agora facilmente revogou estas medidas do presidente Trump, elas depois podem voltar a ser revogadas, eventualmente daqui a quatro anos, por um outro presidente, e também são sujeitas a escrutínio judicial, ou seja, podem ser contestadas nos tribunais, nomeadamente no Supremo Tribunal, que agora, como sabemos, é muito mais conservador. O lado que eu acho que é bom, mostra que é uma equipa muito bem preparada, com imensa experiência, são de um modo geral decretos bem desenhados, ou seja, não houve, como no caso de vários decretos do Trump, coisas que não tinham sido discutidas internamente. Por exemplo, aquela questão de banir pessoas vindas de países muçulmanos, de países que não era suposto estarem, que criou um caos nos aeroportos de todo o mundo, etc. Portanto, esse claramente não é o perfil desta administração, que é muito mais profissional. Há o regresso ao multilateralismo nalgumas destas medidas, a questão do regresso à Organização Mundial de Saúde, ao Acordo de Paris, questões ligadas realmente a lidar com a crise climática. Eu acho que, apesar de tudo, mesmo em termos de conteúdo, há um ou outro aspecto claramente mais negativo, ou que mostra que não devemos ter expectativas exageradas em relação ao presidente Biden, que é, por exemplo, a dimensão protecionista, que ele até acentua. Há já uma iniciativa do presidente Trump chamada Buy American, comprar produtos americanos, que ele diz que não é suficientemente eficaz e, portanto, vai reforçá-la no sentido de a tornar ainda melhor, no sentido de proteger as empresas e os empregos americanos e, portanto, criar problemas, por exemplo, para as exportações europeias. E há também aqui esta aposta na questão da política mais identitária, obviamente aqui na vertente mais à esquerda, muito socorrida de preocupações de racismo, que em alguns casos são reais, mas que eventualmente noutros casos podem alimentar novas divisões. Mas eu acho que mostra sobretudo este aspecto, que é o Joe Biden está ciente que é importante tentar falar com os republicanos, é importante tentar fazer passar iniciativas no Congresso, mas vai ser difícil em muitas áreas fazer isso e, portanto, mais vale arriscar decretos presidenciais com as críticas que isso pode ter e com os riscos de virem ser revogados pelo Supremo Tribunal ou por outros presidentes do que não fazer nada.

Sim, eu concordo que tem um lado que é obviamente relacionado com o desfazer de uma grande parte de más políticas de Trump. Acho que um segundo elemento, e que está bem expresso na sua escolha do retrato de Franklin Delano Roosevelt, que é o chamado o novo "New Deal", ou seja, um novo contrato social americano, que tem a ver exatamente com esta profunda divisão ou ultrapassar esta profunda divisão social que se tem vindo a acentuar na América. E portanto, há aqui um lado um bocadinho europeu neste novo contrato social, no fundo, é assegurar a economia de mercado, mas através de uma intervenção de Estado muito forte. E daí já estas primeiras intervenções legislativas. E portanto, este novo contrato social é acerca de criar uma nova segurança social, especialmente na área da saúde e do ensino superior. E portanto, acho que a administração Biden demonstra, neste momento, de forma muito forte, que há um desígnio e uma crise que os americanos têm que ultrapassar e que esse chamado empate no Senado ou esta dificuldade de passar a legislação de forma ordinária, vai ser muito difícil, mas que o presidente não vai estar com meias-medidas e vai usar mais ou menos os mesmos instrumentos que tanto o Trump como já o Obama fizeram anteriormente. Na questão identitária, do meu ponto de vista, é a mais controversa, ou seja, até que ponto é que Biden quer ir além de uma agenda liberal para uma agenda progressista e que, no fundo, está a dar azo às mesmas divisões que já o Obama suscitou com algumas destas matérias, em matérias de direitos civis e relações raciais. E aí sou um bocadinho mais cética.

Sim, é, por exemplo, esta-

Eu concordo com as vantagens que...

O que diz, Sara?

Diz, Bruno.

Não, era, por exemplo, esta iniciativa de-

Então deixa-me só dizer isto rapidamente. Já vamos a essa questão da questão identitária, passe o pleonasmo, a repetição, aliás. O que dizia é, eu concordo com as vantagens que vocês veem. A minha dúvida é se não faria mais sentido Que um presidente que surge e toma posse como alguém que quer mostrar que é possível ter um país unido, que é possível chegar a entendimentos e que é possível ser moderado, tomar todas estas decisões sem tentar que pelo menos algumas delas fossem ao Congresso, sem tentar que algumas delas resultassem de facto de um entendimento, de pôr à prova essa tentativa de fazer passar estas questões por outro processo legislativo que não o decreto, porque abre o flanco e põe-se a jeito, passando a expressão, para esta crítica de que alguém que se quis assumir como o presidente de todos, moderado, à procura de entendimentos, afinal passou duas semanas a reverter reversões. E é isso que eu acho que é um erro. Apesar de perceber que Joe Biden também tem de mostrar, sobretudo ao seu eleitorado, que o facto de poder vir a ter dificuldades no Congresso, não o fará ficar paralisado. Por outro lado, acho que é difícil de compreender que apesar dele, por curta que seja, ter uma maioria no Congresso, optar por tomar todas estas decisões assim de supetão.

Eu acho que é uma coisa realmente importante, sobretudo para o futuro. Ou seja, pelo menos o presidente Biden tem que fazer algum esforço nalgumas áreas para desmontar esse argumento, que para já tem alguma base nos factos. Realmente, ele mais do que qualquer presidente na história americana, avançou com uma barragem de decretos, isso é inquestionável. Eu penso que este esforço que ele está a fazer para negociar com pelo menos senadores republicanos mais moderados, alguns aspectos desse plano de recuperação, fazem parte desse esforço. Mas eu acho que era muito importante haver aqui uma outra iniciativa de peso. Fala-se muito de um grande programa de investimento em infraestruturas inteligentes, até seguindo um pouco o exemplo da própria China, que está também a fazer isso como parte da resposta à crise da economia durante a pandemia, que obviamente é muito menor do que no resto do mundo, mas para aquilo que é habitual na China, também se verifica. Isso podia ser uma área, mas eu acho que realmente essa vai ser uma questão muito importante nos próximos tempos e obviamente os republicanos não vão abandonar esta narrativa. Em relação à dimensão identitária, eu acho que o ponto aqui da Sara era muito importante, que é: ele tem de dar alguma coisa à sua base e também tem de mostrar que não é um sitting duck, não vai ficar completamente paralisado. Eu percebo que ele toma algumas iniciativas de combate ao racismo, não só percebo, mas de alguma forma até apoio. Acho que é uma questão real nos Estados Unidos, e não só. Mas, por exemplo, ele simplesmente acaba com o novo programa de reflexão, uma coisa até mais cultural, de política cultural em torno da Declaração de Independência e da Revolução, um pouco em reação da parte dos republicanos a esta ideia, que também está manifestamente errada, até houve muitos historiadores marxistas que se manifestaram contra isso, de que a Declaração da Independência e a formação dos Estados Unidos tinha sido uma espécie de projeto racista e esclavagista, quando há muitos dos pais fundadores que de facto têm escravos, mas mesmo esses muitas vezes eram críticos da escravatura, deram a liberdade aos escravos, e muitos outros eram abertamente abolicionistas, embora tivessem chegado a compromissos que nem sempre lhes agradaram. Mas ele simplesmente acaba com esse projeto. Eu acho que isso é dar o flanco, é permitir que estes órgãos de comunicação mais à direita venham dizer: "O presidente é hostil à Declaração da Independência, hostil à Constituição." Acho que aí se calhar podia-se tentar ser um pouco mais inteligente e não dar tanta, digamos, red meat, como eles dizem nos Estados Unidos, não dar tanto sangue à base eleitoral de apoio, porque de facto isso depois compromete esses esforços de unidade e de algum diálogo com os republicanos, pelo menos mais moderados.

Sim, eu acho que algumas destas iniciativas, como já foi dito, vão ter que passar pelo Congresso. Ou seja, nem tudo isto vai ser trigo limpo como parece à primeira vista. E portanto, isto vai ser obviamente matéria de negociação com os republicanos no Senado e na Casa dos Representantes. Agora, não nos podemos esquecer que também o Partido Democrata está extremamente dividido e também aqui o presidente Biden está obviamente a ter que ceder parte da sua agenda à ala progressista. E vamos ver toda esta dinâmica, penso eu, a ser uma dinâmica que determine em larga medida a política americana nos próximos anos. Ou seja, as duas alas mais radicais dos dois partidos a tentarem influenciar as políticas, no caso dos democratas, da administração, no caso dos republicanos, a forma como eles votam no Congresso.

E por falar em alas mais extremas nos dois partidos, se calhar olhamos agora para o Partido Republicano. Quando estávamos a debater que temas falaríamos hoje, Bruno, falaste aqui na guerra civil republicana.

Sim, eu acho que ela continua bastante animada. Houve ataques, sobretudo no caso da Câmara dos Representantes Houve ataques cruzados de Marjorie Greene, que é uma congressista completamente dedicada ao Trump e próxima, apoiante do QAnon, etc. Descobriu-se que tinha feito declarações extremamente graves de apoio a teorias da conspiração, de negar que tinha havido um ataque ao Pentágono durante o 11 de setembro, que tinha havido tiroteios contra escolas, apelar até ao apoio de ataques violentos contra congressistas democratas, contra a Nancy Pelosi, etc. Mas, por outro lado, ataques a uma outra congressista extremamente importante, aliás, é a número três no grupo parlamentar republicano na Câmara dos Representantes, a Liz Cheney, que além do mais é filha do vice-presidente Dick Cheney, portanto uma figura bastante influente, que votou a favor do impeachment do Trump. Eu acho que essas divisões estão muito ativas, estão muito marcadas. Parece-me que nós sabemos que esta divisão vem já de trás. Eu acho que é evidente que o Trump e a família querem continuar politicamente ativos. Eles acham que qualquer declaração de morte política é completamente exagerada. Vamos ver se conseguem, e com que eficácia, nomeadamente substituir o Twitter e o papel das redes sociais, se conseguem lidar com esta nova Fox ou com alternativas à Fox. Também há aqui a dimensão do financiamento, que também já tem aparecido, ou seja, o Trump tem conseguido mobilizar muito dinheiro naqueles famosos super PACs, que no fundo são fundos de apoio a políticas ou políticos alinhados com o Trump. Estão a ser feitos esforços para isso acontecer também ao nível dos republicanos mais moderados, e muito aqui com a figura do líder republicano no Senado, Mitch McConnell, a liderar essa fação mais moderada. Mas de facto, eu acho que nós temos aqui um problema de fundo, que é não sei qual é o futuro do Trump. Eu acho que, apesar de tudo, alguns aspetos do trumpismo não vão desaparecer assim tão depressa, porque vêm de facto desta linha, que aliás a Madalena estava a referir, de uma política americana cada vez mais identitária, cada vez mais polarizada, em que a polarização e a dimensão identitária se alimentam e se radicalizam mutuamente. E dos dois lados. Eu acho que aqui a situação é pior do lado do Partido Republicano e, sobretudo, levou já a uma espécie de culto à personalidade e a pôr-se até em questão regras básicas da democracia, do reconhecimento dos resultados eleitorais, etc. Mas também do Partido Republicano, das alas mais radicais, também há esta dimensão identitária muito forte de deslegitimação, de recusa do diálogo com o adversário, demonização do compromisso, etc. E, portanto, isso de facto torna muito difícil sair deste impasse. Neste momento, ele manifesta-se sobretudo no Partido Republicano e portanto acho que é demasiado cedo para fazer previsões sobre como é que isto vai terminar. Com esta última dimensão, só queria sublinhar que é com uma divisão também entre os republicanos no Senado e os republicanos na Câmara dos Representantes. Como nós sabemos, o Parlamento americano é bicameral. Ora, os membros da Câmara dos Representantes são eleitos cada dois anos, portanto estão quase em campanha permanente e têm muita dificuldade em pensar no futuro, no longo prazo, do futuro do partido, etc. Estão a pensar já nas próximas eleições, nas próximas primárias, e portanto acham que é muito arriscado desafiar o Trump, mesmo aqueles que eventualmente seriam tentados a fazer isso. Também precisam de aparecer. São muito mais, são mais de 400, portanto têm dificuldade muitas vezes em ganhar espaço mediático e se forem mais radicais, isso dá-lhes espaço nos media. Enquanto, de facto, os congressistas republicanos no Senado são eleitos cada seis anos, portanto têm margem de manobra para pensar muito mais no futuro do partido no longo prazo. E esses claramente querem eventualmente aproveitar alguns elementos do trumpismo, mas querem claramente distanciar-se o mais possível do Trump, que veem como um grande problema em termos do normal funcionamento das instituições americanas e do próprio normal funcionamento do Partido Republicano.

E no centro desse cálculo volta a estar aqui Mitch McConnell, já o tinhas referido, mas em relação a Marjorie Greene, veio dizer que as mentiras como as que ela tem propagado são um cancro dentro do Partido Republicano. E fez um ataque duríssimo num comunicado que foi publicado e no qual também sai em defesa de Cheney. Dizer que ela foi uma pessoa corajosa, que defende os seus princípios, o que me deixa aqui de novo com o meu sentimento eterno em relação a Mitch McConnell, que para mim anda sempre a saltar entre os Pellys, os Underwoods e os donuts. Porque é verdade que disse isto, mas também é verdade que votou a favor da questão levantada por Paul Rand, alegando que o impeachment era inconstitucional, numa questão prévia colocada no Senado ao processo que vai começar na próxima semana contra o presidente Trump. Mas depois veio apoiar o voto dela a favor do impeachment, mas também a deixou uma data de dias a cozinhar em lume brando. Demorou a fazer isto e devia tê-lo feito mais cedo.

Eu só em resposta à Madalena, diria que o McConnell é um jogador bastante duro, mas apesar de tudo, tradicional. Ou seja, para ele há certos limites que não se ultrapassam. Nem dentro do partido, na guerra intestina dentro do partido, nem fora. E portanto, acho que essa é a grande diferença em relação a outros atores mais radicais.

Eu diria que durante a era Trump foram ultrapassados vários limites, e o Mitch McConnell que se queixasse.

Eu também acho que está sempre a cozinhar em lume brando. O que eu acho é que é óbvio que mesmo para os republicanos do establishment, eles já perceberam que não conseguem ganhar sem a base de Trump. E, portanto, também a base de Trump já percebeu, ou tem que perceber, que não pode ganhar sem os republicanos que não são Trump. E eventualmente, se isto correr bem, os normais, digamos assim, nos quais eu ponho talvez a Liz Cheney agora um bocadinho em lugar de destaque, vai ser óbvio que estas inflexões populistas do partido não vão desaparecer e eles vão ter que conviver com elas. Portanto, acho que vai ser por aqui que se vai encontrar um acordo.

O que me parece é que isto também mostra que esse caminho futuro, ou pelo menos de forma mais consolidada, ainda vai demorar a aparecer dentro do Partido Republicano. Termina aqui este Café América. Nós estaremos de volta na próxima semana, mas um dia e três horas mais cedo do que é habitual. É mesmo assim. A partir da próxima semana, o Café América será às terças-feiras, às 11h, aqui, como sempre, na Rádio Observador. Volte conosco. Até lá.