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Olá, professor Carlos Filhais.

Olá, boa tarde, está bom.

Professor, deixe-me só desligar aqui o telemóvel antes de começarmos. Por falar em telemóvel, a minha operadora quer que eu adira ao 5G. Eu agora tenho 4G. O que isto quer dizer, professor?

O 4G, 5G e antes disso, 2G, 3G, etc., são gerações. O G significa gerações. São fases de concretização de tecnologia. E a diferença do 2 para o 3, para o 4, para o 5, basicamente, é uma diminuição do comprimento de onda, o que significa aumento das frequências. Trata-se, em qualquer dos casos, de utilizar micro-ondas. Nós quando estamos a usar o nosso telemóvel e andamos com esse aparelho agora no bolso, toda a gente usa. Generalizou-se de uma maneira impressionante, parece que há mais telemóveis do que pessoas.

É verdade.

Eu só tenho um, mas há quem tenha mais do que um. Acho que há 20 milhões de cartões de telemóvel em Portugal e só somos 10 milhões de portugueses. Mas o que estamos a fazer é emitir e receber micro-ondas. As micro-ondas estão por todo lado, são captadas por antenas e enviadas por outros meios, não pelo ar, por cabos, até à antena mais próxima. Se eu telefonar com o telemóvel para alguém, vai por micro-ondas até à antena mais próxima e depois já não vai por via aérea para a antena mais próxima da pessoa. Se a pessoa estiver no Reino Unido, aquilo também vai à procura, manda um mensageiro ver onde é que está a pessoa e vai depois para aquele sítio. Trata-se sempre de micro-ondas. As micro-ondas são ondas eletromagnéticas, são uma forma de luz invisível. Distinguem-se de outras ondas, por exemplo, infravermelhos, que são aquelas que usamos nos comandos de televisão. E distinguem-se das ondas de rádio, que são as que usa, por exemplo, a Rádio Observador para fazer as suas belas emissões.

Obrigado.

Apenas pelo comprimento de onda. O que significa, para dar valores, que as micro-ondas têm comprimentos de onda entre um metro e um milímetro, o que significa que acima do metro chamamos convencionalmente ondas de rádio. Isto são valores convencionais, podíamos pôr a fronteira noutro sítio qualquer. É uma divisão um pouco arbitrária que ali pusemos: ondas de rádio e micro-ondas. Há até quem conceda o mesmo nome, chamando ondas de rádio a tudo. E um comprimento de onda mais baixo que um milímetro já são infravermelhos. É aquela luz que permite ver no escuro, que se usa em alguns reality shows, está a luz apagada e, no entanto, com câmaras de infravermelhos. Por quê? Porque o nosso corpo é emissor de infravermelhos e nós emitimos todos naturalmente. Até a própria Terra, o efeito estufa, deve-se à emissão de infravermelhos pela Terra. As micro-ondas são radiações que existem naturais, também podemos utilizá-las artificialmente. Nós pomos informação dentro das micro-ondas, viajam todas à velocidade de luz, mas qual é a diferença? É que agora, atualmente em Portugal, vem a quinta geração, mas estamos a usar a quarta geração. O que acontece ao passar de uma geração para a outra, ao diminuir o comprimento de onda, nós conseguimos empacotar mais informação, o que significa que as transmissões são mais rápidas e vamos ter uma banda mais larga. E será possível com o 5G, muito mais do que com o 4G, descarregar imediatamente ficheiros enormes e visualizar imediatamente ficheiros enormes, filmes. Até entrar nessas coisas novas, que é a realidade virtual, realidade aumentada, etc.

Sem perder informação.

Sem perder qualidade. Aquilo que hoje fazemos com um bom sistema de fibra ótica, por exemplo, vamos poder fazer sem fios. E isso vai, de facto, revolucionar as comunicações. Já está a acontecer em muitos sítios do mundo. Em Portugal, infelizmente, está um pouco atrasado, porque demorou muito tempo um leilão, é um processo administrativo, as operadoras já pagaram, ou aquilo foi complicado, elas queixam-se, e o serviço ainda não está a ser prestado. Esta tecnologia já está madura noutros sítios, já está utilizada e em breve estou convencido que vai chegar também aos nossos sítios. É claro que são precisos aparelhos capazes de lidar com o 5G.

Claro. Professor, andei a ler sobre precisamente o 5G e descobri que há muita gente a questionar as radiações emitidas pelas antenas. Antes de mais, que radiações são essas e se é para ter receio ou mesmo medo.

Sim, é radiação eletromagnética. E são, como eu disse, ondas que estão entre as ondas de rádio e as ondas infravermelhas. Este tipo de ondas, das ondas de rádio às ondas infravermelhas, estão de um lado comprimentos de onda maiores do que o da luz visível, que é aquela janela de radiação que nós conseguimos ver. São ondas que, em princípio, não são perigosas. Por exemplo, podem no máximo provocar algum aquecimento. Os infravermelhos nós sabemos que aquece, mas as radiações perigosas estão do outro lado da luz visível. São, designadamente, a luz ultravioleta. Por isso esse medo todo com o buraco de ozono. Os raios-X, que são de fato perigosos, são ionizantes, o que significa que prejudicam as moléculas arrancando os eletrões. E se tirarmos os eletrões, estamos a prejudicar todas as reações químicas em que se baseia a vida. E ainda pior, os raios gama, que são de um comprimento de onda muito curto e que provêm do núcleo atômico. E, portanto, essas de um lado são perigosas, as outras não se encontram perigos conhecidos, o que significa que podem ser usadas. Claro que têm sido feitos muitos estudos. Apesar desses muitos estudos que dizem que não conduzem a conclusões sobre a existência de perigos, mas há quem diga, há sempre gente que diz coisas, e há teorias de conspiração, dizem-se as coisas mais variadas, se vamos pra internet encontramos tudo. E há quem tenha medo de todas as ondas, há quem tenha medo só de algumas, há quem já hoje tenha medo das micro-ondas, ou até de qualquer coisa que se faça com micro-ondas, e faz-se tanta coisa com a micro-ondas. Exemplo, já agora, quando usamos o Bluetooth em um carro, estamos a usar micro-ondas, quando usamos o Wi-Fi, e aqui nesta sala onde estou a falar tem Wi-Fi, estamos a usar micro-ondas. Quando usamos GPS também são micro-ondas. E já agora, há micro-ondas naturais no cosmo. O cosmo está impregnado de micro-ondas, que é um resto do Big Bang.

Estamos todos rodeados de micro-ondas.

O mundo já estava antes de nós existirmos rodeado de micro-ondas, mas agora com certeza nós fabricamos mais. Como é que fabricamos as radiações? Pomos nas antenas umas cargas a vibrar, as cargas a vibrar fazem o campo eletromagnético, portanto, o sinal propaga-se através do ar ou através mesmo do vazio. Portanto, nós podemos enviar informação sob essa forma. A informação reunida, e há muitos organismos credíveis, instituições científicas, conduzem à conclusão que não existe perigo da utilização que hoje fazemos e o mesmo se passa com o 5G que está planeado. Isso não impede que haja vozes que não são credíveis, vamos chamar os bois pelos nomes. Aquilo que uma pessoa ou outra diz, ou mesmo intitulando-se cientista, ou pertencendo a uma associação que em princípio deveria ser credível, isso não quer dizer nada, porque a ciência não funciona dessa maneira. A ciência funciona através de consensos, e os consensos vão se acumulando a partir de grande número de artigos científicos. Um artigo científico, por exemplo, não prova nada. É preciso consolidar através de muitos estudos. E todos os estudos, numerosos, feitos por governos ou por instituições independentes conduzem à conclusão que podemos usar com segurança. De outra maneira não poderíamos usar.

Claro. Professor, estes receios com o 5G lembram um pouco quando os aparelhos micro-ondas apareceram em Portugal. Nessa altura, dizia-se que fazia mal à saúde e até que provocava câncer. Aliás, uma pequenina confidência: a minha mãe, que nos ouve todas as semanas, ainda acha que não se deve usar muito o micro-ondas.

Uma salva só à sua mãe.

Pode usar à vontade ou não pode?

Olha, então em especial pra sua mãe, pra todas as mães e pra todas as outras pessoas. Os fornos micro-ondas, que é assim o nome, são aparelhos que são seguros. Estão construídos pra fazer uma tarefa, e essa tarefa é muito simples. De fato usam-se neles micro-ondas, mas é uma micro-onda muito bem determinada. Tem um certo comprimento de onda só. E é um comprimento de onda específico pra fazer uma coisa. As moléculas d'água começam a vibrar. Portanto, aquilo está afinado, tem uma pontaria afinada, é uma radiação muito específica e uma pontaria afinada pras moléculas d'água que estão por todo lado nos alimentos, começarem a vibrar. E é isso que torna os alimentos quentes. E, portanto, essas radiações só existem dentro do forno micro-ondas. Por quê? Porque aquela gaiola, aquela caixa onde estão confinadas essas micro-ondas, é feita de tal maneira que elas não venham pra o exterior. E, portanto, não deve haver receio de utilização do micro-ondas. Eu sei das várias coisas que se dizem. Sei lá, porque estamos a falar do 5G. Só pra ver o caricato que às vezes acontece, agora quando foi da Covid, e infelizmente ainda não passou a Covid, mas houve ataques a antenas 5G em vários sítios, na Holanda, no Reino Unido, ataques incendiários mesmo, ataques que podemos chamar terroristas, porque diziam que eram aquelas antenas que estavam a provocar a Covid, que era a origem do vírus. E apareciam vídeos na internet, apareciam indivíduos pretensamente com formação científica, enfim, desaprendendo tudo o que lhes foi comunicado, a dizer que os vírus começaram a nascer no organismo devido à influência das radiações, e portanto disparates completos.

Completamente.

Infelizmente, as comunicações servem pra tudo, infelizmente ou felizmente. A liberdade é um bem precioso, mas também servem pra asneira.

Pois é, é como a imaginação.

Exatamente, pode-se imaginar tudo. Muitos de nós têm muito mais desenvolvido um lado irracional, e parece que o lado irracional não tem limite. E portanto, acredita-se em tudo e mais alguma coisa e depois arranja-se justificação pra própria crença. Crença não justificada. E portanto, as teorias de conspiração sobre micro-ondas, em particular o 5G. Aliás, é engraçado, tudo o que é novo mete medo. É o efeito da novidade. "Epa, vem qualquer coisa. Mas o que é? Ah, isso o que é não se sabe, então vamos ter medo." Não. Pra qualquer coisa vir pro domínio público, tem que ser muito bem testada.

E parece que há pessoas que gostam mesmo de descobrir e de alimentar a desconfiança em relação à tecnologia.

É verdade. Os hackers. Há pessoas que inventam coisas que não levariam a ninguém e, no entanto, têm um prazer. Isto é um caso que até a própria ciência deveria estudar. Têm um prazer em enganar alguém. E a internet está cheia de gente a querer enganar. É mais de metade a querer enganar a outra menos de metade.

Muito bem, por falar em internet, ouvinte@observador.pt é o e-mail que pode utilizar para nos enviar perguntas, dúvidas e também sugestões. Professor Carlos Filhais, até pra semana.

Até pra semana. Foi um prazer estar com o senhor.