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E começa agora mais uma comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje, é nossa convidada Edite Fernandes, antiga futebolista e melhor marcadora da seleção nacional feminina. Bom dia, bem-vinda.
Bom dia.
Bom dia.
Obrigada pelo convite.
Obrigada nós por ter aceitado. Edite, sabe como é que funciona. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir ajuda, vai ter escolha múltipla e se acertar, recebe dois pontos.
Isto é muita pressão.
Muita pressão. Imagina a tabela classificativa.
Não é pior do que marcar um penalti.
Nem sei. Eu já nem digo nada. Eu acho que isto é pior.
Vai ver que sim, vai ver que é fácil. Vamos lá começar por uma relativamente acessível. Em que ano se realizou o primeiro campeonato do mundo do futebol feminino? Eu pensava que isso seria de caras.
1999?
Um bocadinho antes. A década é essa.
Pois, 1999 foi Estados Unidos campeã do mundo, que eu me recordo perfeitamente.
Então, e é quanto antes?
Foi na China.
95.
Se calhar houve outro antes.
Oh!
Quer pedir ajuda? Não, é agora?
91?
É isto.
A sério?
É devagarinho que se vai lá. A Edite Fernandes foi colega de Jenni Hermoso quando jogaram no Atlético Madrid. Quando houve a polêmica do beijo do selecionador espanhol, a Edite disse numa entrevista que há coisas que acontecem e que são abafadas. A que se referia, Edite? Passou por alguma coisa semelhante?
Não que tenha passado, mas que existiam algumas coisas de alguma pressão, de alguma insinuação, por vezes, às vezes dos treinadores para as jogadoras. Existiu em tempos, está melhor, já não existe. Quer dizer, há quatro anos aconteceu o que aconteceu, não é? Mas de qualquer das formas, eu nunca presenciei, mas sei que houve alguns momentos.
E quando diz que são abafadas pelas próprias ou internamente, ao saber?
Pelo sistema, digamos assim. E depois acaba por, muitas vezes, as colegas ou terem algum receio de pôr para fora, ou receio também de represálias e obviamente não comentam. E por vezes até por vergonha mesmo. Mas sim, pelo sistema.
Mas, Edite Fernandes, tem havido uma evolução positiva a esse nível?
Claramente, até porque agora há um maior controle de tudo, maior acesso a tudo, há vídeos, há apoios que as jogadoras também podem ter. Não ter essa vergonha, nem esse medo, porque, de facto, têm uma base, têm uma proteção e cresceu, obviamente, e está bastante melhor nesse sentido.
E aquilo que aconteceu com Jenni Hermoso só se deu e só teve aquela dimensão porque foi filmado, portanto, foi público.
Obviamente que sim. E até porque um presidente de uma federação, num protocolo, obviamente, estando assim, não pode ter aquele tipo de manifesto. Mas de qualquer das formas. No calor do momento, nós que estamos lá dentro, às vezes a excitação, a euforia, no calor daquela alegria toda, às vezes acontecem coisas, mas foi pelo simples fato de ser a pessoa quem foi, a presidente da Federação Espanhola, e está num palco que é a final do Campeonato do Mundo, obviamente, e depois na entrega de prêmios. Claramente, por também ter sido público. Provavelmente, eu não sei. Provavelmente, se aquilo não tenha acontecido e se as pessoas não tivessem visto passava. Não sei. Mas não quero estar aqui a pôr dúvidas a uma coisa.
E se calhar todos aqueles canais que entretanto estava a dizer que se formaram, que se criaram, não teriam surgido, pelo menos com a mesma rapidez. Pode ter facilitado um pouco e o simples facto de se falar sobre o assunto pode ter ajudado. Calculo.
Sim, mas também acaba por ter sido, por exemplo, para a Jenni foi complicado.
Foi duro.
Porque a Jenni neste momento está fora de Espanha, a Jenni praticamente vai poucas vezes a Espanha ou quando vai, tem que ir, não digo escondida, mas há 50% de espanhóis a favor, 50% de espanhóis contra. É complicado, porque quem ficou com a imagem lembrada foi praticamente a Jenni. Mas continua a desfrutar do futebol no México. Obviamente, agora não tem ido à seleção. Não percebemos, obviamente, mas isso são as opções da selecionadora espanhola.
Ficamos com a sensação que a situação não ficou totalmente resolvida ainda, pelo menos. Vamos para mais uma pergunta. Esta agora é completamente diferente. Qual é que é o valor atual do salário mínimo nacional?
876.
870 está ótimo.
Ah, boa!
Estamos a rondar aí.
Mais de cinco pontos.
Tenho que enganar em cima. Sou funcionária pública, tenho que enganar em cima.
Pois, se calhar as jogadoras sabem melhor o que é um salário mínimo do que um salário máximo. Ainda há muita diferença em relação àquilo que é o salário dos jogadores de topo com as jogadoras de topo no futebol.
Claramente. Isto acho que será algo que não é comparável, nem vai ser nunca comparável. Eu acho que nós merecemos ser reconhecidas em nível também monetário, obviamente que sim, e valorizadas por isso mesmo, por aquilo que fazemos, mesmo a uma profissão, do que os masculinos. Mas eu acho que a indústria do futebol é uma indústria tão grande, que move milhões Neste momento, o futebol feminino também já move milhões. Até há poucos dias tivemos a maior transferência de sempre no futebol feminino, da Smith. Passou 1 milhão. Portanto, também já move. Mas ainda é uma discrepância muito grande em relação a ordenados. Mas, de qualquer das formas, já temos grandes equipas europeias, equipas portuguesas também, a terem um bom ordenado para viver e fazer a vida do futebol e da profissão em Portugal.
No caso das federações, as federações devem pagar o mesmo a jogadoras do futebol feminino e aos jogadores? Sabemos que nos clubes há grandes diferenças.
Aqui iríamos entrar um pouco em guerra, porque algumas federações que têm equal pay, por exemplo, os Estados Unidos, a Dinamarca, algumas seleções da Escandinávia também. Não sei se a Inglaterra também tem neste momento, tenho dúvidas, mas nas federações ainda há diferenças, porque como se diz nas seleções, há diárias e as diárias são completamente diferentes daquilo que é para os homens.
Mas deviam ser? Devem continuar a ser diferentes ou devem caminhar para essa igualdade no pagamento?
Eu acho que deveria caminhar para essa igualdade. Quer que lhe pergunte se vai acontecer? Provavelmente não. Ou então poderia ser bem melhor do que é.
Acha que ainda são valores baixos.
Ainda é uma discrepância bastante. Exatamente.
Vamos então passar à terceira pergunta. É esta mesmo sobre um acontecimento recente, a final do Campeonato da Europa de Futebol Feminino. Como se chama a treinadora da seleção inglesa que ganhou o terceiro título europeu consecutivo? Ganhou a treinadora o terceiro título, porque a seleção foi o segundo.
É a Sarah Wiegman.
Exatamente. Está certo. Ganhou o primeiro com a seleção dos Países Baixos e agora os dois últimos com a seleção da Inglaterra. Em Portugal, devíamos ter uma mulher a treinar a seleção nacional? Francisco Neto já está há alguns anos à frente da seleção nacional, com bons resultados, até, mas devíamos ter uma mulher à frente da seleção?
Eu gostava e acho que cada vez mais temos capacidades e as mulheres treinadoras têm competências. E dizer se é melhor um treinador ou uma treinadora, isso não. Desde que a treinadora tenha competência ou o treinador, eu acho que isso pouco importa.
Ou seja, não vê diferenças assinaláveis entre o facto de ser uma boa treinadora ou um bom treinador.
Não, exatamente não. Havendo competências, eu acho que tem que estar no local certo e não existem essas diferenças. Neste caso, não existe no futebol masculino mulheres a treinar, obviamente que sim. Existem homens a treinar no futebol feminino, mas cada vez mais têm aparecido mulheres nas grandes seleções, nas grandes equipas e a conquistar também o seu espaço nesta área do treino. E têm bastante competência e são muito boas.
Mas lá está. Vemos com naturalidade um homem a treinar, a orientar a seleção feminina, mas não me lembro de nenhum exemplo de uma mulher a treinar um clube, um dos principais clubes ou mesmo até de divisões inferiores do futebol masculino.
Sim, não sei, mas lá está, é a mentalidade também desportiva de Portugal, provavelmente. E nós temos treinadoras com nível alto, com o nível mais elevado de treinador, o quarto nível, é o Pro. E nós temos treinadoras com esse nível que podem treinar seleção e podem treinar qualquer equipa da primeira liga e da segunda liga. Eu acho que isso seria a coragem dos clubes poderem fazer isso. Aliás, na Alemanha, por exemplo, temos uma treinadora adjunta, acho eu, ou que durante uns tempos assumiu uma equipa alemã da Bundesliga. Para eles é tudo um pouco mais natural, para eles e para todos os países fora de Portugal, porque acho que nós ainda estamos um pouquinho atrás.
Ainda estamos um bocadinho atrasados.
Ainda estamos. Então vamos até à China, que a Edite conhece bem, porque chegou lá, não foi? Quantas medalhas de ouro conquistou a delegação chinesa nos últimos Jogos Olímpicos, que foram em Paris o ano passado? Quantas medalhas? Pode dizer ou só as de ouro ou só as de prata.
O total? Eu sei que elas ganham sempre muitas. Sei lá, umas 100?
Quase.
Não anda muito longe, não.
Quer ajuda? Quer ajuda.
Vamos à ajuda. Noventa e uma, 95 ou 98?
Também é, Carla. Também não é muito.
Também é grande ajuda. Porque tem o oito, 98.
Não foi 98, foram 91 medalhas. Edite, tendo já estado na China, o que nos falta para sermos um bocadinho mais fortes a nível internacional, no desporto?
Já nos falta um pouco menos do que aquilo que faltava há 20 anos. Eu estive na China há 20 anos e já na altura era uma grande diferença. Foi a primeira vez. Eu abri portas para estas jogadoras todas, hoje em dia, terem as condições que têm e estarem mais perto do nível das outras. Mas ainda nos falta um pouquinho mais. E este Europeu também foi um pouco a demonstração disso. Há ali um leque de seleções, umas oito, 10 seleções que são realmente de topo. Depois há as outras 10, 15 abaixo que estão ali no equilíbrio Mas ainda falta um bocadinho mais. Falta trabalharmos nas estruturas, falta trabalharmos nas condições dos clubes, muitas das vezes, nas condições das próprias equipes, porque nem todas as equipes treinam a horas decentes. Há equipes a treinar ao final do dia ou à noite. Ainda existem essas equipes a treinar no final de todos os outros escalões. Portanto, ainda falta um bocadinho para podermos estar muito próximo do nível. Conseguimos já baternos, conseguimos já jogar contra essas grandes seleções e essas grandes equipes, por exemplo, na Liga dos Campeões, o Benfica há duas épocas fez uma excelente prestação. Novamente, este ano está na fase de grupos, mas falta ali qualquer coisa. Ainda falta muito trabalho, ainda falta muito investimento. E vamos esperar, aguardar, que o presidente da Federação também publicamente assumiu que queria investir 22 milhões no futebol feminino. Vamos ver onde vai ser canalizado e como vai ser canalizado para que também possa haver maior crescimento na modalidade.
Venham lá então esses milhões. Edite Fernandes, está com 15 pontos, vamos para a última questão. E aqui vamos regressar um bocadinho às origens, às suas. Então a pergunta é esta: qual é o nome popular da Igreja Paroquial das Caxinas, que tem esse nome devido à sua forma pouco habitual?
É de Senhora dos Navegantes.
É verdade, mas tem outro nome ainda. Sim, é a Senhora dos Navegantes, mas tem outro nome ainda, igreja do?
Do Barco?
Do, exato.
Era automóvel.
Navegantes, barco.
O que poderia ser mais?
Caxinas, não é?
É verdade. A minha mãe mora ali pertinho, sou dali mesmo do lado.
É ao fundo da rua, não é?
Não nasci nas Caxinas, nasci em Vila do Conde mesmo.
Mas Vila do Conde, claro.
Sim, Vila do Conde, mas depois há quase 40 anos a família mora ali. Mas não somos mesmo dali daquele povo.
Aquilo não é uma freguesia, mas é quase uma freguesia. Caxinas é um bairro.
É um bairro.
Mas aliás, muitos futebolistas nasceram ali. Por quê? Joga-se muito na rua lá? Jogava-se muito na rua?
Joga-se. Eu costumo dizer que aquilo é um viveiro. Aquilo nasce dali.
Foi sim.
Sai dali o Paulinho Santos, ele é vizinho, o Fábio Coentrão. Um monte deles. E ali ao lado tem o Bruno Alves, que é poveiro, e às vezes a gente brinca um com o outro, porque ele diz: "Tu sabes, tu não és das Caxinas, tu és da Póvoa". Que ali é fronteira quase com o povo de Verzim. Mas sim, saem dali grandes jogadores e fizeram sucesso.
Mas isso é um acaso? Joga-se ali na rua uns com os outros? Há uns que seguem o exemplo dos outros?
Sim, e no fundo também é pé descalço, na praia, é nos rings. Agora, hoje em dia, as crianças e os miúdos jogam muito no sintético, mas o futebol de rua é a melhor formação do mundo. E ali é basicamente o futebol de rua, é o que é, é nos rings, é na praia e, no fundo, eu acho que é por aí que vêm também esses grandes talentes e crescem ali a jogar na rua. E ainda continua a existir muito isso, tendo em conta que hoje em dia as crianças nem brincam na rua.
Pois.
E ali ainda continua a existir. É algo que está intrínseco naquela zona.
Do que é que tem mais saudades, Edite? Marcar gols?
Tenho saudades de marcar gols, mas principalmente daquele ambiente, da competição, do balneário, de toda a rotina, a dinâmica, acho que sinto mesmo saudades. E quando elas jogam na seleção ou quando sigo sempre o futebol feminino. Eu gosto de futebol, as minhas referências sempre foram do futebol masculino.
Então diga-nos lá qual, já agora.
A minha referência sempre foi o João Vieira Pinto, do Benfica.
É uma boa escolha.
E eu recordo-me, e vou dizer por que eu me recordo. Eu recordo-me porque eu tinha 15 anos, em 1994, e vi aquele famoso jogo dos seis-três.
Dos seis-três, claro.
Exatamente.
Como não ficar na memória.
Contra o Bayer Leverkusen.
Ah, também o dos quatro-quatro. Esse também é inesquecível, em que ele também marcou um gol.
Exatamente. E as minhas referências eram masculinos, portugueses, depois tinha outros. Seguia avançados, por aí, os Batistutas da vida, esses italianos assim, ou argentinos.
Olhe, pode continuar que o Paulo Ferreira conhece todos.
Estão a brincar.
Está a concordar, alguns têm dúvidas.
Está de lágrimas nos olhos o Paulo a recordar esses grandes momentos. Vou aprender muito consigo.
O Paulo é do futebol, não é, com ele?
Não, mas eu sempre fui vidrada no futebol. Eu só fui para o futebol feminino porque eu não conhecia o Boavista. A minha primeira equipa foi o Boavista, com 17 aninhos. Eu não sabia o que era futebol, não sabia o que era referências, e fui logo parar à melhor equipa nacional na altura. Mas era tudo futebol masculino, eu só via futebol de homens.
Edite Fernandes, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Foi um gosto, 20 pontos.
Obrigada.
Obrigada.
Um beijinho grande. Obrigada, bom dia.