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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nossa convidada a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros. Seja bem-vinda. É uma repetente, não porque chumbou na primeira vez que por cá passou, é porque cá está de novo.
Gostou tanto que quis fazer de novo.
Exato. Só uma nota: fez 16 pontos da última vez que esteve na Comissão de Inquérito.
Vai fazer zero agora.
Só que regras muito rápidas. São cinco perguntas, cada resposta vale cinco pontos. Se precisar da nossa ajuda, recebe dois em caso de acertar com as nossas ajudas. Vamos então a isto. E sou eu que começo, não é?
Começas tu, não é?
Começamos no cinema.
E não é. Não? Então 35.
37.
37.
Vamos considerar certo.
Certo. Dois pontos.
46 vão ser no final do ano. Até agora fecharam 37 e acho que faltam nove, que ainda estão na calha para fechar.
Que ainda estão para fechar.
Sim. Algumas destas salas também garantem alguma diversidade no tipo de cinema que vemos, para que não vejamos todos só Hollywood. Acho que são importantes essa diversidade. E por falar um pouquinho em diversidade, vamos à Lei da Nacionalidade.
Nós aqui fazemos as coisas cada vez melhor. Mas também é bom fazer estas coisas. A transição mais descarada.
O que se sente é, por exemplo, nós ali em Almada, de facto, temos muito poucas salas, temos as salas do Fórum Almada, que é do shopping, que é o normal, mas depois também na nossa biblioteca central temos uma sala de cinema e temos uma programação muito cuidada e difícil, e até com filmes muito alternativos, e está sempre cheio. Sempre, sempre.
Portanto, há público, até.
Vê-se muito com os espetáculos de stand up, que têm uma grande afluência de público.
Sim, sim, e não só.
E não só, claro.
Por exemplo, os festivais de cinema estão cheios. Ou seja, as pessoas querem verdadeiras experiências, querem eventos, querem poder partilhar ideias. E, portanto, eu acho que querem mesmo proximidade e querem algo menos anônimo do que estarem sozinhas em casa a ver as suas séries ou os filmes nas plataformas. E, portanto, o cinema vai ter que se adaptar a isso e vai ter que ser, de facto, um cinema de maior proximidade e de maior convívio e de troca de ideias. E acho que isso é a política também, já agora.
Esperamos que isso se consiga.
E agora dando o salto.
Dando o salto para a Lei da Nacionalidade, queria perguntar, realmente tivemos esta notícia hoje da luz verde para um acordo entre o governo e o Chega. É uma lei pior por causa disso? Seria melhor se o entendimento tivesse sido com o PS nesta matéria?
Eu acho que independentemente dos entendimentos, o problema da lei é claras violações de constitucionalidade, e eu ainda não vi a última versão, portanto, tenho dificuldade em dizer. Agora, a ideia de criar dois tipos de nacionalidade, uma nacionalidade verdadeira ou pura, e uma nacionalidade adulterada, porque adquirida, parece-me, em si mesma, uma ideia absolutamente monstruosa, fascista, que não se aplica em lado nenhum. E, portanto, de repente, Portugal, que era uma referência justamente nesta questão da integração dos imigrantes e da solidariedade, não só, um Portugal que precisa de imigrantes, vai passar a ser um marco do país que tem uma lei onde há portugueses de primeira e portugueses de segunda. Isso faz-me lembrar os tempos do Estado Novo, onde também, no tempo das colônias, havia os portugueses e os assimilados.
Acha que é um retrocesso, não é uma adaptação aos tempos atuais, as alterações que a lei está a ser alvo?
Não, eu acho que é um claro retrocesso e pior do que um retrocesso, é uma violação clara dos princípios que construíram a Europa da paz após a Segunda Guerra Mundial. Portanto, acho perigoso, acho imoral, acho anticonstitucional e acho que qualquer cedência nesse sentido, nem os países com as leis mais duras puseram em causa esta questão de uma nacionalidade adquirida. Parece-me uma coisa absolutamente aberrante e lamento muito que um governo liderado pelo PSD, que era suposto ser um partido moderado, social-democrata já não me atrevo a dizer, mas moderado, alinhe em algo nesse género. Aliás, no outro dia ouvi o Poiares Maduro falar sobre esta lei com muita acuidade e fazer o acordo com o PS é fazer o acordo com a decência, que eu acho que é o que o governo não está a fazer por mero populismo e tentativa de aproveitamento político.
Vamos ver a lei que sai. Será votada hoje, em princípio.
Mas continuamos com cinema.
Vamos continuar. É um clássico, Inês Modas. Quem realizou o filme "Feios, Porcos e Maus", aquele que se passa num bairro de lata nos arredores de Roma?
O Ettore Scola? É fácil.
Seis pontos. Dá. Cinco pontos aqui bastante fáceis. As barracas parece que voltaram, aquele cenário era muito neorrealista, mas há uma semana alertou para o crescimento descontrolado da construção ilegal, nomeadamente o bairro da Penajóia e no Raposo, uma carta aberta ao primeiro-ministro e ao ministro das Infraestruturas. Uma semana depois, já teve alguma resposta?
Não.
E espera que vai ter resposta ou não?
Temos que ter uma resposta. Hoje já enviamos mais uma missiva ao governo, porque a última resposta que tivemos foi em agosto, foi um esboço de plano que todo ele já estava desatualizado, até porque tinha dados de 2023 e 2024. Nós temos ali uma questão que é premente, aquele território é mesmo pertença única do Estado, aliás, está fora do nosso plano diretor municipal e nós não temos mesmo qualquer jurisdição ali. O IHRU, inclusivamente, constrói sem licença, não é, de facto, um espaço de jurisdição da Câmara. Noutros espaços, sejam públicos ou privados do município, ainda a semana passada aconteceu, havendo uma construção ilegal, nós podemos lá chegar, demolir e depois segue o processo normal. Ali é uma questão muito mais complicada por ser do Estado e sobretudo ganha uma dimensão muito preocupante. Preocupante para todos, para aqueles que lá vivem, porque não têm condições mínimas de viver ali, sem água, sem saneamento básico, sem luz, mas também condições preocupantes para todas as pessoas e as empresas que estão à volta. A carta aberta alertava para isso mesmo. Nós temos empresas e equipamentos fundamentais ali à volta, aquilo está ao lado do Hospital Garcia de Orta. Nós temos tido cortes de eletricidade em permanência, não tem atingido o Garcia de Orta. Tivemos cortes de água também, por desvio de água.
O que é que propõe? Como é que se ultrapassa então esta situação?
É absolutamente urgente que o IHRU crie uma equipa, da qual a Câmara já se dispôs a colaborar, para fazer o levantamento daquelas pessoas.
Para alojamento.
Não sabemos. A primeira questão é saber quem são aquelas pessoas, qual é a situação daquelas pessoas, porque há situações certamente muito diversas. Depois há as regras do alojamento e da porta de entrada, que são os programas que estão disponíveis. Mas a primeira coisa é saber quem são aquelas pessoas, inclusivamente, a partir desse levantamento, qualquer pessoa que venha a mais fica automaticamente excluída de qualquer apreciação, mas é isso que é preciso fazer.
Tem ideia, pelo menos, da dimensão, número de pessoas ou de famílias que lá deixaram de viver?
Varia. Segundo o IHRU, isto são dados do próprio IHRU, havia 800 fogos, quer dizer, estamos a falar de mais de mil pessoas que ali estão. Como é óbvio, não é o município em si mesmo, nem sequer pode resolver um problema desta dimensão. Aliás, saiu ontem uma notícia em como o bairro duplicou neste último ano, que ainda não acabou, mas em 2024 já tinha também duplicado em relação ao final de 2023.
E o município tem recebido muitos pedidos de apoio para habitação, nos últimos anos têm aumentado esses pedidos de apoio?
Sim, sem dúvida nenhuma. Nós temos recebido cada vez mais pedidos de apoio para a habitação. Já para não falar que nós próprios, na nossa estratégia local de habitação, ainda temos bairros como o Segundo Torrão para resolver. Nós conseguimos resolver um bairro completamente precário na Costa da Caparica, que era as Terras da Costa, e esse conseguimos resolver todo e as pessoas foram todas realojadas. O Segundo Torrão conseguimos fazer uma primeira fase e íamos passar às fases seguintes. É evidente que a Penha Longa e Raposo é um fenômeno absolutamente recente. Aquilo começou há cerca de dois anos. Na altura, ainda com o governo do Partido Socialista, ainda eram umas dezenas poucas de casas que estavam a ser construídas. Nós chegamos a fazer um primeiro levantamento, depois disseram-nos para não continuarmos, porque o IHRU iria fazer esse levantamento. Esse levantamento não sabemos se chegou a ser concluído ou não, em todo caso, já está completamente desatualizado, porque entretanto aquilo aumentou de forma exponencial e perante uma total inação. Volteme, iam demolir umas certas casas em construção, mas isto tem que lá ter quase uma equipa em permanência.
Em permanência para conhecer a situação em primeiro lugar.
E agir de imediato. Nesta coisa das casas, não é quando as pessoas lá estão a viver que se vai demolir, é antes que qualquer pessoa. E já para não falar que é óbvio que alguém ganha dinheiro com a construção daquelas casas. Aquelas casas não é propriamente o resto da madeira ou da chapa que encontramos, aquelas casas é quase uma urbanização, aquilo é tijolo, aquilo já é quase uma pequena vila, tem cafés, tem barbearia, tem mercearias. Já é um bairro.
Vamos falar disto no Contracorrente também, depois das 10.
E é óbvio que temos que todos pensar nas consequências. Aquelas crianças têm que ser acolhidas na escola, como é óbvio, e têm estado a ser acolhidas na escola. É obviamente uma pressão muito grande ao nível da saúde e é preciso ter a certeza que aquela população e aquelas crianças estão a ser acompanhadas do ponto de vista da saúde. É obviamente um problema ao nível da higiene urbana, porque é uma grande produção, já para não repetir as condições mínimas de salubridade.
Falou em saúde, é para aí que vamos agora na terceira questão. Inês Medeiros: em que território ultramarino Garcia de Orta exerceu a sua profissão de médico? Ele era médico, contemporâneo de Luís de Camões. Isto já é uma pista, se quiser. Território ultramarino, Luís de Camões.
Goa!
Certíssimo.
Muito bem.
Foi em Goa, de facto.
Foi uma boa pista.
Foi uma boa pista.
E há lá um jardim em Goa, que é o Jardim Garcia de Orta, mesmo para celebrar o médico português.
Pronto, e agora já sabe onde é que vamos em termos de tema. Faz algum sentido concentrar na Península de Setúbal as urgências, pelo menos de algumas especialidades, num único hospital? Que é o plano do governo, basicamente.
Vamos lá ver. Pode fazer sentido, mas pode fazer sentido uma vez que o Garcia de Orta é conhecido por ter um dos melhores serviços de neonatologia e pode fazer sentido se continuarmos a concentrar no Garcia de Orta a excelência, os casos mais complicados, toda essa grande especialidade.
Mas se exigir resposta ao Garcia de Orta para toda a Península de Setúbal, isso não vai pôr em causa a qualidade do serviço que é prestado?
Isso era o que eu ia dizer a seguir. Ou seja, o que nos preocupa nesta concentração não é para continuar a melhorar o serviço de excelência, porque o Garcia de Orta é um hospital de referência, e volto a dizer, não é só para a Península de Setúbal, é até ao Algarve. É mesmo o grande hospital de todo o sul do país. O que me preocupa nesta concentração é fazê-lo por uma questão de falta de meios, o que significa que vai sobrecarregar ainda mais o Garcia de Orta. E vamos lá ver, os partos, de uma maneira geral, não é doença. Devem ser feitos em meio hospitalar por uma questão de segurança e, portanto, devem ser feitos de preferência em proximidade e, sobretudo, as mulheres têm direito a serem seguidas pelo seu médico, pelo menos as equipas que os acompanharam. Portanto, a concentração de serviços de ponta numa única urgência, para mim, faz todo o sentido. Esta concentração apenas para colmatar falta de profissionais, eu até admito que tenha que acontecer, mas não é uma boa solução.
Vamos avançar para a quarta pergunta, falar de outro tipo de crise. E a pergunta é: quantos deputados o Bloco de Esquerda elegeu em 1999? Foram as primeiras eleições legislativas a que concorreu o Bloco de Esquerda. Quantos deputados elegeu nessa altura?
Não tenho certeza nenhuma, mas foi o Loçã. Eu diria dois ou três.
Dois, está certo.
Ela disse dois ou três e faltou teclar. Até me enganei na tecla.
Creio que foi o Luís Fazenda e Francisco Loçã.
Eles ficaram em pé à espera que lhes distribuíssem os cargos no Parlamento.
O Bloco de Esquerda atravessa uma crise que é óbvia. Esta crise é extensível também ao PS. Muito se falou agora depois das autárquicas que o PS estava aqui numa encruzilhada entre um PS mais Leão ou um PS mais Leitão. Como é que vê esta questão?
Mais Carneiro. Leitão, não sei.
Alexandra Leitão e Ricardo Leão.
O PS tem a vantagem de ser um grande partido e naturalmente, como todos os grandes partidos, tem várias tendências lá dentro e desde que estejamos todos de acordo em princípios basilares do PS, e eu acredito que isso estamos, o resto é uma questão de intensidade, vamos dizer, para um lado ou para o outro. A primeira questão é que eu acho que mesmo depois das autárquicas verificou-se que o PS não houve aquela derrota estrondosa, uma debacle enorme, e que o PS ainda tem uma grande adesão no terreno, que é a principal força de um partido, é de facto o seu assento nos territórios e na proximidade, e por isso que as autárquicas são tão importantes. Agora, eu acho que a esquerda tem um desafio pela frente. Tem um desafio porque a esquerda, neste momento, tem um discurso que é certo, mas que é um discurso curiosamente muito conservador. Nós temos um discurso a dizer: "Voltar a direitos basilares, voltar a direitos laborais". Com discursos conservadores não se atraem jovens e, portanto, o que me preocupa a mim é como é que nós voltamos a dar esperança aos nossos jovens. Eu confesso que estou sempre a repetir esta tecla, porque acho que é mesmo essencial. Como é que voltamos a dar esperança aos nossos jovens? Como é que nós conseguimos que eles voltem a acreditar no Estado social, coisa que não acreditam de todo. É óbvio que não concebem a sua vida com empregos para a vida e, portanto, a relação com o trabalho mudou completamente. Nós temos que ter uma posição muito clara relativamente às novas formas de trabalho, mas não é certamente com esta proposta do novo código laboral do governo que vamos conseguir fazê-lo.
Falar para os jovens. Inês, a próxima pergunta, que é a última, vai aqui no seguimento do que está a dizer e é uma afirmação recente, que lhe pergunto quem foi que disse: "Era importante que António José Seguro, como fez Mário Soares em 86, ocupasse o espaço do centro-esquerda."
Está-me a perguntar quem é que o disse?
Sim, quem disse isto. Recentemente, na televisão.
Aí não faço mesmo ideia, mas posso atirar. O José Luís Carneiro. Não.
Não.
Então.
Mas também é do reino animal.
E somos todos. Nós somos todos do reino animal.
Pelo nome.
Pelo nome, pelo apelido.
Ou Ricardo Leão. Hã?
Pelo apelido. Ricardo Leão, Alexandra Leitão ou José Luís Carneiro. Era importante que António José Seguro, como fez Mário Soares, ocupasse o espaço do centro-esquerda.
Ricardo Leão. Não, Alexandra Leitão. Pronto, então, ok. Mas aqui não. Dois pontos.
Foi a Alexandra Leitão, sim. Isto vai no mesmo sentido, mas queria dar o salto para as presidenciais. Já sabe em quem vai votar? Não é óbvia a resposta, portanto.
Não, eu não escondo que não é óbvia a resposta. Não é óbvia a resposta, porque eu sou daquelas que também gostaria que houvesse um candidato que juntasse a esquerda. Gostaria que não houvesse tanto candidato, e que se pensasse bem na importância destas eleições. Votarei certamente naquele que tiver mais hipóteses de travar o Chega, isso é logo a primeira questão, mas provavelmente votarei no candidato do PS.
Ainda não disse o nome do candidato.
Não, o António José Seguro, posso dizer. De facto, ainda não pensei muito nisso, mas enfim, parece-me óbvio.
Havia outro nome mais óbvio que pudesse unir a esquerda?
Eu tenho vários nomes, mas agora não vale a pena estar a citar nomes. Falámos demais dos candidatos que não querem ser candidatos e, portanto, acho que neste momento não vale a pena.
Fez 19 pontos, fez melhor do que da última passagem.
Na próxima somos nós os dois.
Para a próxima vai a maioria absoluta.
Já não é em Almada, de certeza.
Eu sei, é o terceiro mandato.
É o terceiro mandato.
Inês de Medeiros é presidente da Câmara Municipal de Almada. Foi a nossa convidada na Comissão de Inquérito. Muito obrigada.
Muito obrigado.
Muito obrigada.