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Este é o som da Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o antigo Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. Bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite neste dia de Santo António.
Muito obrigado eu.
É um dia especial, não é? Alfacinha, foi para os santos?
Não, infelizmente não.
Tinha compromissos.
Confesso que não tenho uma ligação muito forte a este fenómeno, reconhecendo que é um fenómeno extraordinário.
Tinha que estar em boa forma agora para a Comissão de Inquérito.
Vamos ver.
Na véspera de exame não convém abusar das horas.
Vamos só recordar as regras, que são muito simples: são cinco perguntas, por cada resposta certa recebe cinco pontos. Se pedir ajuda, só tem direito a dois pontos e se der a resposta errada, não pontua. Só para ter uma ideia do atual ranking desta semana, na terça-feira o Paulo Núncio fez 17 pontos e ontem a Rita Matias conseguiu 14.
Bom, é difícil. Tenho que bater o Paulo Núncio, não há dúvida nenhuma.
Gosta de futebol?
Adoro.
É de clube, podemos saber?
Benfica.
É que podia sempre responder que era da seleção, fica sempre bem.
Não, desde pequeno.
Benfiquista. Portanto, amanhã arranca o Euro 2024. Sabe qual é o primeiro jogo de Portugal? Esta não conta.
Esta não conta.
Esta não conta ainda.
Vergonha, mas não sei.
É na terça-feira com a República Checa. Mas a pergunta é sobre o CR7. Quantos gols já marcou Cristiano Ronaldo a favor da seleção?
130.
Isto quem sabe, sabe. É assim, quem está atento, está atento.
Mas você disse-me que o primeiro era o Paulo Núncio e eu, de facto, não posso ficar em nenhuma circunstância atrás dele.
Assim na ponta da língua.
Na ponta da língua. Sabe por quê? Porque estive a ver o último jogo de preparação.
E falou-se muito disso.
E quando ele marcou o gol, isso foi bem sinalizado. E de facto, há uma coisa que eu tenho, felizmente, graças à biologia e provavelmente também graças a Deus, é que tenho uma excelente memória.
Que bom!
Isso é bom ou mau?
Ter memória?
Sim. Pode ser mau.
Nalguns dias que correm é fundamental.
Mas não acha que pode ser mau também?
Não, olhe que não. Olhe que a memória faz-nos andar, por exemplo, do 25 de Novembro, 25 de Abril. Não é tão bom ter memória.
Já vamos avivar essa memória daqui a pouco.
Portanto, o Cristiano Ronaldo tem 39 anos, continua a bater recordes. Quem que na saúde pode também servir de inspiração, ser uma espécie de CR7 e resolver o problema, por exemplo, das urgências?
O problema é que se houvesse alguém que resolvesse o problema das urgências, nós tínhamos, de facto, um milagre, que era um milagre muito pouco provável.
Nem tínhamos dinheiro para lhe pagar, se calhar.
Não, seguramente que não. É um problema estrutural, não se resolve com uma pessoa. Mas a sua pergunta foi, desculpe, qual era a referência?
Era quem é que podia servir aqui de uma espécie de CR7 e resolver o problema das urgências, os tempos de espera, as urgências fechadas.
É um trabalho de equipa. É preciso trabalhar com os médicos, é preciso trabalhar com a formação, trabalhar com as equipas, com os administradores. Ou seja, não há, infelizmente, aqui para esta função uma pessoa.
Mas é preciso um bom treinador.
É preciso um bom treinador e uma boa equipa. Ontem a ministra foi até bastante corajosa. Eu, aliás, elogiei-a porque ela disse que há lideranças fracas na saúde e, de facto, as lideranças são essenciais para que as coisas corram bem, porque nós não podemos ter gestores Calimero, aqueles que dizem que "They do this to me since because I'm little, but it isn't just", é preciso arregaçar as mangas e muitas vezes as tutelas e os ministros são a parte mais fácil da crítica e da contestação, quando toda a estrutura intermédia tem que fazer o seu trabalho.
Tem havido muitos piegas.
Sim. Eu percebi, digamos, a malandrice da sua pergunta e portanto não me deixe apanhar nela. Não são tanto piegas, muitas vezes é o receio de decidir. A pior coisa que pode acontecer é um gestor com medo de tomar decisões, é um decisor com medo de decidir. E portanto, às vezes acontece, não é por incompetência, muitas vezes não é por má vontade, é mesmo pelo receio de criar problemas ou criar ondas.
Foi por isso que gostou do que ouviu ontem à ministra?
Gostei. Eu gosto muito da ministra, sou amiguelamos anos. Sabe que os meus camaradas e companheiros de partido às vezes ficam incomodados por eu dizer isto, mas eu não confundo a política com as pessoas e portanto tenho amizades em todos os partidos, sobretudo nos democráticos, e tenho a melhor das impressões da Ana Paula Martins. Acho que ela está a fazer um trabalho meritório e portanto merece ser ajudada.
Mas o problema na saúde não é tanto de pessoas, é mais de políticas ou tem sido de políticas.
Não, é muito do combate, é trazer muitas vezes para o combate ideológico matérias que não deviam estar no combate ideológico. Estou farto de dizer isto. Eu defendo um pacto ou um entendimento entre os partidos que governam tradicionalmente o país, o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata. Repare, devia ter havido uma lei de bases feita ao centro, foi feita à esquerda. Muitas vezes no combate político ao partirem eleições, os partidos tendem a fazer da política e da exploração do sentimento e da ansiedade das pessoas uma vantagem competitiva. Isso é um erro. Deveria haver, de facto, um entendimento estratégico, porque a saúde é uma questão de geração, é uma questão dos nossos filhos, é uma questão de quem vem a seguir. E portanto, esse entendimento, que aliás o António Arnaut desejava e sonhava que pudesse vir a existir, não tem existido. E quem é que sofre com isso? São as pessoas que têm mais dificuldades, não são seguramente aquela metade da população que hoje em dia já tem seguro de saúde ou tem subsistema.
Vamos passar então a...
Cinco pontos, não é?
Cinco pontinhos. São seus. Foi sua ideia esta, foi fácil.
Tem juros ou não? Não foi, porque vocês não sabiam. E além disso, queria perguntar se tem juros, é capitalização?
Não.
Mas também não tiram, não é?
Não tiram, não, sem dúvida.
Também não é inflação.
Não é inflação.
Pronto, ok.
Mas vamos ver se consegue o pleno nestas duas primeiras perguntas. A segunda tem que ver com o primeiro lugar no ranking dos melhores sistemas de saúde do mundo em 2023. Qual foi o país que ocupou o topo desse?
Qual é a fonte do ranking? É que há vários rankings. Esta agora.
Este é o Legatum Institute, é um think tank sediado em Londres e que elaborou este ranking para 2023. Para o ano 2023, tem em conta vários aspectos, desde O estado de saúde da população em geral, o acesso aos cuidados de saúde, a qualidade da prestação desses cuidados de saúde.
Eu tenho aqui uma desvantagem brutal, eu não conheço esse ranking.
Não se esqueça que pode pedir ajuda.
Não conheço essa fonte, mas não queria perder três pontos.
Conte, tira.
A ajuda tira-me lá três pontos.
Mas pense, dois ou zero.
Entre dois ou zero, é melhor pedir uma ajuda.
Então vamos dar mais uma ajuda.
Não se esqueça que eu sou centeano. Eu sou centeano e, portanto, sou muito fiel à questão do equilíbrio das contas, das públicas e das privadas.
Assim não vale, não pode destronfar já assim no início da conversa ao falar destas coisas.
Vamos dar então aqui uma ajuda. A verdade é que nos vários rankings os países normalmente ocupam o lugar-
Do norte da Europa são os melhores. Normalmente é o norte da Europa.
Há aqui uma das hipóteses é a Noruega, precisamente, a outra é o Luxemburgo e Cingapura.
Cingapura não está no norte da Europa, por enquanto.
Não.
Não está.
Mas isso é um ranking global.
É verdade. Eu diria que, não conhecendo esse ranking e vendo ele de Londres, foi o Luxemburgo.
Cingapura.
No norte da Europa.
E a Noruega ainda aparecia à frente do Luxemburgo.
Não conheço o ranking, mas não há como havia no liceu aquela possibilidade de fazer recurso, de meter o recurso.
Apresentar recurso.
Quantas perguntas são?
Cinco. São cinco. Ainda consegue.
Portugal neste ranking ocupa o 40º lugar.
Não é possível. Quando nós olhamos para os indicadores agregados da OMS e de todos os institutos como a OCD, Portugal oscila sempre entre o 14º e o 18º, 17º lugar.
Mas aí é ao nível dos 30 e tal países da OCD, talvez.
Não. Da OCD é assim, mas mesmo na União Europeia, quando consideramos a União Europeia, Portugal tem uma posição muito competitiva, anda entre os 15 e os 20. Este ranking pode estar a avaliar questões subjetivas de qualidade e não tanto resultados em saúde.
Mas Portugal compara bem, genericamente.
Portugal compara bem. Portugal é hoje a 42ª ou 43ª economia do mundo, penso que andaremos à volta disso, num contexto em que existem 193 países, à volta deste número, embora nem todos estejam na Assembleia Geral das Nações Unidas. E nós andamos na saúde entre os 15 e os 20. Portanto, nós comparamos muito melhor em saúde, até que em educação, porque em educação, se formos ao PISA, estamos para cima dos 30. Não vale a pena também nós nos fustigarmos. Nós em saúde fazemos bem, temos feito muito bem. Falta, de facto, alguma organização, alguma articulação melhor do sistema, mas é um belíssimo sistema de saúde.
E o que explica que nos últimos anos tenha havido um crescimento tão acentuado dos seguros de saúde em Portugal?
Significa esta retórica absurda, muitas vezes tóxica, entre a esquerda e direita, sobretudo entre a extrema-esquerda, a esquerda moderada e a direita, que é esta: nós diabolizamos o privado, não percebemos que os médicos, muitos deles, estão lá, e que temporariamente, enquanto os médicos estão lá para satisfazer necessidades, nós temos que ter acordos com o setor social, com o setor privado. Não, é preferível estabelecer um muro, criar esta ideia e as pessoas, na ausência de respostas, o que é que fazem? Contratam um seguro de saúde, têm o seu subsistema. As empresas também têm oferecido aos trabalhadores seguros de grupo. E você repare, falamos há pouco do norte da Europa. Os melhores países da Europa, que têm melhores sistemas de saúde, são os do norte. Têm sistemas de saúde integrados, como é o nosso, baseados no modelo inglês, inspirados no modelo inglês. E, no entanto, a combinação público e privado é muito mais vantajosa para o sistema público. Por exemplo, no norte da Europa, o setor privado anda ali pelos 10%, 11%. Nós aqui andamos já nos 30 e tal por cento, o que significa que há, de facto, um efeito de restrição que leva as pessoas, muitas vezes com medo de não ter acesso aos cuidados públicos, tenham uma reserva tirando do seu rendimento, que é um rendimento que não se compara com o rendimento do norte da Europa.
Muito bem. Alberto Campos Fernandes, vamos seguir. Cinco pontos, não é?
Cinco pontos.
Cinco mais um.
Ainda tem 15 no horizonte. Tem 15.
O Paulo Núncio falhou na segunda. Vamos seguir então, terceira questão.
Temos que completar o nosso Excel, está visto.
E não há hipótese de um prolongamento?
Não há. Aqui não há.
Não há, não. Quem disse numa entrevista em 2019, situamo-nos já no tempo, quem disse sobre o então ministro das Finanças: "Mário Centeno costuma ajudar-me a dormir melhor"?
Quem disse isso?
Quem disse esta frase sobre Mário Centeno?
Eu acho que terá sido o primeiro-ministro.
Não. Foi Marta Temido, numa entrevista à Rádio Renascença em 2019.
Pois.
Também achou quando estava no Ministério da Saúde que Mário Centeno tinha esse efeito ansiolítico?
Não tinha, de facto. Eu gosto muito do Mário Centeno, acho que ele daria um excelente presidente da República, se tiver disponibilidade e vontade para isso. Mas o Mário Centeno foi uma espécie de guardião, não só da geringonça, porque toda a Europa estava na expectativa de ver o que daria uma coligação de um Partido Socialista moderado com a extrema-esquerda e com a esquerda. O presidente da República, como sabe, na altura tinha as suas inquietações e o Mário Centeno, com a sua simpatia disciplinadora ou com a sua disciplina simpática, porque ele tem sempre um sorriso na cara, mesmo quando está a negar o mais pequeno dos recursos que qualquer ministro da tutela lhe peça.
Era assim no Conselho de Ministros.
Foi verdadeiramente. Era sempre simpático.
Era a austeridade de rosto humano.
Era uma austeridade de rosto simpática. Eu diria que ele era capaz de dizer: "Temos que ver", quando confrontado com uma situação extrema, por exemplo, ao SNS e se lhes pedia uma ajuda, ele dizia sempre que ia ver. Claro que às vezes demorava algum tempo a ver e havia alturas em que não via mesmo nada.
Às vezes acabava o ano.
Não via mesmo nada. Aquela questão das cativações-
Parece o pai a adiar o presente às crianças
...as cativações não eram as cativações da despesa corrente, eram, sobretudo, cativações da despesa de investimento.
De investimento.
Agora, repare, a posteriori, nós temos que olhar para o legado de Mário Centeno. Mário Centeno fez bem pelo país, porque aquela Fórmula de nos olhar em ter alterado e ter mudado, mas também sobretudo do ponto de vista da reputação financeira do país, as agências de rating, de notação financeira. É claro que há uma certa esquerda que não gosta disto, que nem sequer percebe o que é uma agência de notação financeira e que acha que o céu é o limite, portanto, que os orçamentos são apenas instrumentos indicativos. Eu acho que o país está devedor de Mário Centeno nessa matéria. Claro que há um preço e há uma contrarrealidade que é: houve muito sacrifício ao nível das políticas públicas e dos serviços públicos, isso é evidente. Não há milagres.
Custou-lhe muito dizer aquele "Somos todos Centeno"?
Não, foi sentido. Sabe que as pessoas pensam que eu disse aquilo ironicamente. E eu tinha avisado o primeiro-ministro quando fosse ao Parlamento, numa próxima interrogação, diria aquilo, porque verdadeiramente eu detesto dívidas. Sabe que eu conheço bem o Paulo Macedo há muitos anos e tenho muita admiração por ele. Eu lembro-me sempre de uma frase que ele dizia que déficit e dívidas são impostos diferidos. Dizia ele, dizem outros economistas. E portanto, esta ideia de que nós vivemos a surfar dívidas, claro que há dívidas aceitáveis, há dívidas razoáveis, que são para gerir a economia das empresas e do país. Mas eu acho que nós temos uma responsabilidade para com os nossos filhos, que é deixarmos sempre o país melhor do que aquilo que encontramos. E portanto, eu disse verdadeiramente que era Centeno, respondendo ao PSD, que em matéria de contas públicas e equilíbrio orçamental, nós somos todos Centeno no governo. E éramos, porque também se não fôssemos, não tínhamos outra alternativa, porque estávamos numa estratégia de defender o país e de o colocar perante o exterior numa situação de maior credibilidade.
E acha, Adalberto Campos Fernandes, que os portugueses perceberam isso em Centeno ao ponto de até o poderem eleger presidente da República se ele quisesse?
Não tenho a menor dúvida. Se me perguntar hoje em dia, com a confusão que vai e com a proliferação e a atomização política que existe hoje, não é no Parlamento, é no espaço político nacional, nós à direita encontramos um autocarro cheio de candidatos. E claro que uns vão sentados na fila da frente e outros vão lá atrás. Nós à esquerda temos um problema entre os candidatos, que eu chamaria um bocadinho mais gráficos, para ser simpático, e aqueles que têm alguma probabilidade de gerar um grande consenso ao centro, que é onde se ganham eleições legislativas e presidenciais. Não tenho dúvida que as pessoas olham para o Mário Centeno e dizem assim: "Ok, tu sacrificaste alguma coisa nos serviços públicos, não deixaste que as liberalizações comandatórias pudessem ir tão longe quanto isso, mas nós devemos hoje estarmos na posição que estamos em termos internacionais, não só de reputação política, mas de reputação financeira."
E Mário Centeno ri-se quando lhe sugere que ele passe a ser candidato a presidente?
Eu terei que ele sorriu por fora e riu por dentro, mas eu acredito que, enfim, não sei se isso está naturalmente no seu horizonte pessoal, mas que era um bom nome e era um nome que vale a pena ter em conta.
E teria sido uma boa solução para primeiro-ministro? O presidente da República naquela altura deveria-
Não é pergunta do quiz.
Não é.
Eu não sou nada favorável a primeiro-ministros por interposta legitimidade. Acho que a legitimidade dos primeiros-ministros advém do voto do povo e a não ser em situações absolutamente extraordinárias, como por exemplo, uma guerra, uma crise institucional sem precedentes, nós não devemos ter primeiros-ministros interinos. Isso funcionou mal no passado. Vimos o que aconteceu com Pedro Santana Lopes e, portanto, eu acho que a legitimidade democrática, pese embora a instabilidade que é gerada, pese embora a perturbação e a alteração política que possa gerar, está sempre em primeiro lugar e sobrepõe-se a qualquer nomeação interina.
Deixe-me voltar rapidamente à questão presidencial. Se há lançar Mário Centeno como candidato socialista a presidente da República.
Só me obriga a mim, só me responsabiliza a mim.
O nome é discutido no partido ou não?
Não faço ideia nenhuma. Acho que o partido e a estrutura e a direção do partido, naturalmente, que é cedo ainda, mas há com certeza conversas informais. Haverá muitos nomes dentro do PS. Se me pergunta a mim, dentro do Partido Socialista, dos nomes equacionáveis, se eu punha o Mário Centeno lá em cima, punha com certeza.
Adalberto Campos Fernandes tem cinco pontos. Ainda tem 10. Também? Um horizonte.
Permite apenas.
Portanto, conseguia chegar aos 15, como o Manuel Pizarro, o António Mendonça Mendes e a Isabel Mendes Lopes. Tiveram 15.
E o Paulo Núncio teve quantos?
17, já foi. Isso já era.
Pronto, então o meu target agora-
O segundo pode ser muito honroso. Quem é o target agora?
A Rita Matias.
A Rita Matias já foi 14. Quem é o target?
Pode ser o Pizarro.
Pizarro, com 15. Muito bem, e vamos continuar a falar de nomes que lhe são próximos. Fernando Araújo ainda é diretor executivo do SNS, demissionário. O mandato deveria ser de três anos, até podia ter sido renovado três vezes consecutivas. Não chegou ao fim, como sabemos. O que lhe perguntamos é quanto tempo esteve Fernando Araújo até ao pedido de demissão neste cargo?
Quanto tempo esteve? Não percebi a pergunta.
Na direção executiva do SNS.
Desde que se demitiu?
Desde que se demitiu.
Até este cargo?
Desde que entrou no cargo até ao pedido de demissão. Quanto tempo?
Até ao pedido de demissão. Eu tenho que fazer contas.
Pois bem.
Fazer contas, porque estamos a falar, essa pergunta é tricky, porque obriga-me a fazer mesmo contas no tempo, na linha do tempo.
Estamos a ajudar. Quando é que ele começou?
Então ele foi-
Foi nomeado por Marta Temido ainda.
Teve sem estatutos, uma quantidade enorme de tempo.
Sim, mas começou antes, começou em funções antes e a trabalhar antes.
Estamos a falar de 22.
Talvez final ou início de 23.
Estamos a falar de 22, 23, portanto, estamos em 24. A pergunta é quanto tempo esteve? Eu preciso de ajuda, mesmo.
Até ao pedido de demissão.
Preciso de ajuda. Eu prefiro perder com dignidade. Eu prefiro ficar atrás da Rita Matias, uma vez que já estou completamente anulado pelo Paulo Núncio. Agora a minha disputa é só com o Manuel Pizarro, mas ainda tenho a esperança de ficar à frente da Rita Matias, o que não será, do ponto de vista democrático, não será nada.
10 meses, 14 meses ou 15 meses?
Essa é malandra. Mas eu costumo fazer aquela coisa que há um quiz, há uma aplicação, e dizem-me sempre quando há essas três hipóteses que é do meio, mas não é, é a última.
Pois é.
Muito bem.
Muito bem.
Já estou a quatro pontos de Rita Matias.
A atual ministra é alguém de quem gosta muito, já disse. Também trabalhou muito diretamente com Fernando Araújo. Por que correu tão mal a relação entre os dois? Ou não é pessoal, ou não é um problema pessoal?
Não, vamos lá ver. Nesta mistura fina que resulta na percepção pública da relação deles, há vários condimentos. Há um condimento político, há um condimento pessoal e um condimento técnico. Eu creio que o Fernando Araújo, de quem eu gosto muito, é um homem muito sério, muito capaz e muito competente, mas também tem seus defeitos, porque é muito teimoso. Determinado e teimoso. O Fernando Araújo nunca acreditou que o Partido Socialista perdesse as eleições. E eu em conversas até mais informais com ele, fui dizendo que ele deveria ter, enquanto dirigente público, uma posição neutra, porque ele poderia, se houvesse uma lei de bases de saúde entre o PS e o PSD, um entendimento de regime, o diretor executivo deveria ser uma figura pacífica, que continuava a trabalhar normalmente.
Como diretor-geral de saúde.
Recomendei-lhe que ele deveria manter uma posição neutra e distante. Eu acho que ele cometeu um erro ter ido ao comício de encerramento do Partido Socialista no Porto, porque um dirigente que trabalha com os dois governos não pode, na refrega eleitoral, estar a tomar partido. Não deve. Quer dizer, pode, poder, pode. Eu acho que ele não é muito político. Repare, ele é muito técnico e é muito pela sua consciência e pela sua maneira de pensar. Não tem aquela malandrice que aqueles que gostam muito de política ou andam na política ativa têm. Agora, isto não invalida que ele seja, de facto, um quadro de referência do sistema de saúde português e que tem muito caminho pela frente, com o PS ou com o PSD, ou mesmo fora da política, ele tem muito caminho pela frente.
Muito bem, Adalberto Campos Fernandes.
Agora é para a vitória.
A caminho.
Cinco pontos. Tem preciso de cinco pontos.
Exato.
É que quatro já não consegue.
Esta vai conseguir.
Esta é muito fácil.
Ficar entre o Paulo Núncio e a Rita Matias é, pra mim, hoje, dia de feriado municipal na cidade de Lisboa e no meu conselho, de Cascais. Eu relvo, motivo de enorme satisfação. Uma pergunta simpática.
É muito simpática esta e é a última. Qual foi o ministro da Saúde com o mandato mais curto da democracia?
Da democracia portuguesa, portanto. Sim, senhora. Muito bem. Mas atenção, não é assuntos sociais, está me a perguntar da saúde.
Esqueça esse período em que houve o Ministério dos Assuntos Sociais, ministro da Saúde mesmo. Com a orgânica que nós conhecemos hoje.
Tem que acertar essa.
Qual foi aquele? Tem que acertar, esta é óbvio para si. Qual foi o ministro da Saúde com o mandato mais curto da democracia? Vou lhe dar uma dica, que basta olhar um bocadinho à sua volta. À sua volta, não aqui no estúdio, mas no tempo.
Nas fotografias lá no corredor do Ministério da Saúde.
Não sei se lá estão.
Também não sei se lá está.
Enquanto não vê, não foi tempo suficiente, não deu pra tirar a fotografia.
Aquele governo que quase ninguém se lembra.
Foi o meu colega de curso, Fernando Dialda Costa.
Exatamente.
15 pontos para o colega de curso.
Não sei se sabiam.
Não sabíamos.
O meu curso de medicina foi o único que deu dois ministros à República. E não desfazendo duas pessoas brilhantes. O Fernando Dialda Costa é meu colega de curso, nós fomos companheiros e muitas vezes até dirigentes associativos e acadêmicos. E de facto, eu às vezes brincava com ele e dizia que se os ministros tivessem um epíteto ou um cognome, eu teria alguns certamente também pouco simpáticos ou mais simpáticos.
Conhece algum?
Ele teria o Breve.
Ele teria o Fugaz.
E o Adalberto Campos Fernandes conhece alguns que lhe são atribuídos?
Não.
Que possa revelar, obviamente.
Não estou dizendo isso pra me defender.
Por vezes sabemos das alcunhas.
E já estavam em campos opostos na altura?
Sim, repare, eu fui dirigente acadêmico numa altura em que a esquerda tinha um grande peso na faculdade de medicina e ser socialista moderado como eu sou, era de facto ser quase um tipo perigoso. Ele era muito alinhado com posições junto ao CDS. Ele não tinha partido, não tinha filiação, mas era muito alinhado com o CDS.
Muito rapidamente e a propósito disso, de governos de curta duração, este governo vai durar pouco ou vai durar muito? Quer apostar?
Quero apostar. Sim, que eu fiz uma aposta. Vocês já sabem que eu fiz uma aposta e tive que pagar um almoço.
É verdade.
Vocês já sabem disso. Mas eu apostei, e posso dizer isto aqui na antena, que o Chega nas legislativas não teria mais de 14%. Perdi com amigos e amigas essa aposta, tive que pagar o almoço, mas eu disse a eles que se não havia possibilidade de diferir a aposta, uma vez que acertei agora nos europeus.
Adalberto Campos Fernandes, foi uma recuperação maravilhosa, espetacular. Quinze pontos, sai daqui com 15 pontos.
Sim, e claro, se houver rapel ou se houver, digamos, recurso, não é rapel. Eu gostava, apesar de tudo, de tornar o Paulo Núncio.
Um frente a frente com o Paulo Núncio.
Faremos um dia desses.
A questão sobre o Luís Montenegro, sabe que mudou tudo no domingo.
Acha que sim?
Mudou, claramente.
Neste momento apostaria que o governo vai sobreviver ao Orçamento de 2025.
Quanto mais tempo o Luís Montenegro estiver em funções, pior para o André Ventura, que aliás já dá sinais de fortíssimo nervosismo e de errática atitude agora com a Madeira, tudo isso que está a acontecer. O André Ventura não estava preparado para o luz frio que tomou.
Pior para Ventura e melhor para Pedro Nuno Santos.
Luís Montenegro pode se transformar no irritante poderoso de André Ventura. Em relação ao PS, eu acho que o PS, tendo ganho, como dizia o António Vitorino, não há vitóriazinhas nem derrotazinhas, há vitórias. Mas apesar de tudo, é uma vitória pequena. Mas serviu para que o Pedro Nuno talvez tenha percebido que ele tem muito tempo, é muito jovem e, portanto, não tem necessidade nenhuma de se precipitar e que de facto estar constantemente a dizer que o governo vai cair, não vai cair, o orçamento passa, não passa, não ajuda nem o país, nem o Partido Socialista, nem a ideia que os portugueses têm que o Partido Socialista sempre foi um referencial de estabilidade e que chega ao poder quando os portugueses entendem que deve chegar ao poder e não por qualquer tipo de birra ou de pressão injustificada e prematura.
O tempo é que já passou.
Luís Montenegro, se tiver, de facto, determinação, tem um excelente ministro das Infraestruturas, não se esqueçam disso, que é de Cascais. O Miguel Pinto Luz é um excelente seguro de vida pra este governo.
Adalberto Campos Fernandes, muito obrigada por ter vindo à Comissão de Inquérito, que regressa na próxima terça-feira com Alexandre Poço, do PSD.