Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O João Manuel Fernandes quer voltar a falar hoje no Contra-Corrente de alguém de quem discordas muitas vezes e desta vez por causa da morte de Marcelino da Mata. Bom dia, João Manuel.

Bom dia. Exatamente. Como sabes, Marcelino da Mata morreu na passada quinta-feira. Morreu de Covid no Hospital Amadora-Sintra. Ele tinha 80 anos e acho que infelizmente deixou muitas histórias por contar. E digo que deixou muitas histórias por contar, porque ele era o militar mais condecorado do Exército Português, porventura, de toda a história das nossas Forças Armadas. Só que tinha uma coisa que não batia muito certo. Ele era negro, era um português nascido na Guiné-Bissau e que combateu na Guiné-Bissau durante a guerra de África. Participou em mais de mil operações de combate, algumas absolutamente rocambolescas. Agora, o que acho extraordinário é que alguém com uma história assim, alguém que recebeu, de facto, as mais altas condecorações do nosso exército, alguém que foi promovido até tenente-coronel apenas em virtude dos seus feitos militares, tenha morrido sem uma palavra do presidente da República. Marcelo, que é sempre lesto a celebrar tudo e todos, a mandar condolências a tudo e todos, desta vez, que eu tenha dado por isso, ficou em silêncio, o que eu acho que é incompreensível.

Talvez o presidente receasse que Marcelino da Mata fosse uma figura polêmica.

Claro, que Marcelino da Mata não é nem podia ser uma figura consensual. Mas como tudo na vida, há alturas em que não nos podemos esconder, sobretudo não podemos continuar a esconder a nossa história. Portugal travou durante 13 anos uma longa guerra na Guiné, em Angola e Moçambique. Na minha perspectiva, foi uma guerra que Portugal não devia ter travado. Não era uma guerra justa. Só que acontece que os soldados que nela se bateram cumpriram a sua missão. Muitos morreram, muitos ficaram feridos, muitos ainda hoje vivem traumas que viveram nesses anos. E alguns, como Marcelino da Mata, lutaram com uma bravura absolutamente extraordinária. No exército se diz que a vida dele dava vários filmes. Várias das operações em que participou, e das quais regressou vivo, eram tão ou mais difíceis que algumas daquelas que às vezes vimos naqueles filmes de ação e de ficção de Hollywood. Agora, é óbvio, que por isso e por muitas coisas que a sua história não encaixa, por assim dizer, na narrativa perfeitinha e muito politicamente correta da nossa revolução e da nossa descolonização.

E de facto, João Manuel, é estranho que o militar português mais condecorado seja um negro.

Exatamente. Não só é estranho, mas só é estranho se insistirmos numa visão do mundo a preto e branco. E aqui o preto e branco não se refere à cor da pele dele, mas àquela visão maniqueísta que às vezes temos das coisas em que no mundo só há vilões e só há heróis, e não há pessoas complicadas, complexas, em que todos nós temos partes melhores e partes piores. Marcelino da Mata costumava dizer que se tinha alistado no exército português porque se sentia português. E na cabeça de muita gente isso não é normal, porque ele era da Guiné, só que ele era assim. E ele era assim porque ele era contra o PAIGC. Agora, por que ele era contra o PAIGC? Ele dizia que era contra o PAIGC, porque além de se sentir português, também era contra uma força política que era dirigida por cabo-verdianos. E é uma coisa que quase sempre é omitida, mas o PAIGC nasceu, de facto, dirigido por cabo-verdianos, e isso foi um problema que só se resolveu depois da independência. Agora, repara, antes do fim da guerra, ele só veio uma vez a Lisboa. E veio a Lisboa pra receber a Cruz e Espada, a nossa mais alta condecoração militar. Quem lha deu? Foi o próprio Salazar. É uma coisa que, mais uma vez, não encaixa muito bem na nossa visão do que foi a nossa história, porque não bate certo Salazar condecorar um negro, que é algo que não entra bem na narrativa bonitinha do Estado Novo, é algo que destoa.

Achas que é por isso que acusam Marcelino da Mata de ser um criminoso de guerra?

Essa acusação apareceu ou reapareceu por estes dias, claro, feita pelo inevitável Mababu Dá, que eu já vim falar aqui muitas vezes. De facto, ele tem um jeito especial pra aparecer sempre nestas alturas a dizer coisas um bocado ofensivas, no mínimo. De facto, como é que Mababu Dá costuma distinguir as pessoas só pela sua cor da pele e a dizer mal de Marcelino da Mata? Só acusando de ser fascista e criminoso de guerra, que foi o que ele fez. Acrescentou mesmo que ele não lhe merecia respeito nenhum, que é, no mínimo, estranho pra alguém que tem nacionalidade portuguesa, como Mababu Dá tem, relativamente a alguém que cumpriu o seu dever enquanto português, como era o caso de Marcelino da Mata. Portanto, é evidente, cada vez que Mababu Dá vai pra as redes sociais fazer provocações destas, só suscita aquilo que ele diz que vai lá fazer, que é combater o ódio. Não, ele vai lá incitar ao ódio. E é o que ele fez, e é o que ele suscitou. Ele é mesmo um dos nossos incendiários de serviço, para mais, sem que alguma vez alguém tenha realmente feito acusações sérias a Marcelino da Mata nesta matéria.

Sim, mas Vasco Lourenço também o acusa de ser um criminoso de guerra.

Vasco Lourenço acusou-o de ter participado na Operação Mar Verde, uma operação militar em que um grupo de comandos realizou em Conacri, na Guiné Equatorial. É evidente que era uma operação ilegal, Portugal estava a intervir na capital de um país estrangeiro, Portugal não estava em guerra com a Guiné Equatorial, mas dessa operação, é bom recordar, resultou a libertação de portugueses que estavam prisioneiros Nesse país e estavam prisioneiros, alguns deles há muitos anos. A que tipo de crimes de guerra Vasco Lourenço se refere em específico, além dessa operação ilegal? Eu não sei. Será que as formas de ação no Mato de Marcelino da Mata foram mais brutais do que o habitual? Não sei. Sei que Marcelino da Mata costuma referir-se a alguns militares portugueses que por não serem particularmente bravos, para dizer o mínimo, na forma como se comportaram na frente de combate e Vasco Lourenço se calhar não gosta da forma como ele se referia a ele. Enfim, não há dúvida que há alguns que foram bravos e há outros que foram menos bravos, portanto era bom que Vasco Lourenço esclarecesse porque é que, por exemplo, o MFA foi cúmplice de entrega ao PAIGC dos outros guineenses que combatiam com Marcelino da Mata, que combatiam como comandos do Exército Português e que ao serem entregues ao PAIGC, imediatamente chacinados, foram fuzilados sem hipótese de defesa, sem julgamento e isso sim, foram crimes de guerra, mas esses aparentemente são crimes de guerra que não parecem incomodar nem Vasco Lourenço, nem Mamo Budá, porque isso foram mortes sem hipótese de defesa.

Mas estamos aqui, José Manuel, a falar de histórias antigas, não é?

Sim, são histórias antigas, mas são histórias que nós devemos conhecer melhor. A nossa história, a nossa memória, no fundo, a nossa identidade é feita disso tudo, do que é bom, do que é mau, do que é assim, assim. Portanto, Marcelino da Mata é difícil às vezes de encaixar nas narrativas dominantes, porque era um soldado negro, herói num país que apesar de tudo, é um país sobretudo de brancos, como nós somos. Depois, um país libertado de uma ditadura, mas um país libertado onde ele a seguir foi preso e foi torturado num quartel por militares, sobretudo supostamente libertadores. Depois ainda, num país onde os governos enchem a boca com Estado social, mas onde ele vivia na miséria, com uma pensão que mal lhe dava para comer. De facto, Marcelino da Mata é um homem que não fica bem na fotografia, porque não sabemos bem onde é que havemos de errar ou mal. Suponho que não foi ainda enterrar, porque os enterros de quem morreu com Covid estão muito atrasados. Acho que o enterro é só hoje. Estou a ver quem é que aparece para dar uma homenagem que ele indiscutivelmente merece. Espero que isso não fique apenas na mão de extremistas. Eu não apoiei a guerra de África, repito, mas não é por isso que deixo de respeitar e honrar aqueles que nessa guerra combateram em nome do meu país. O passado não se apaga, acho que não devemos apagá-lo e acho que todos, nomeadamente os representantes de Portugal, deviam ter isso bem presente. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.