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Um ano à frente da liderança do PSD. Luís Montenegro vale mais sozinho ou coligado? Ligue o número de telefone para onde pode expressar a sua opinião em direto no Contracorrente. É o 91 002 4185. Acompanhe o Contracorrente nas redes sociais, utilize a caixa de comentários para escrever a sua opinião.

O Observador está a divulgar desde ontem, ao final da tarde, um estudo sobre sondagens de comportamento de voto e cenários de coligações à direita, que usou uma amostra maior do que a habitual neste tipo de trabalhos e que aponta para alguns resultados que são novidade, em especial sobre a forma como se comporta o eleitorado do PSD. No Contracorrente de hoje vamos querer discutir esse estudo. Vamos ter conosco um dos seus autores, que é também colunista do Observador, André Azevedo Alves. Mas antes, há alguns pontos que, José Manuel, queres destacar, não é verdade?

Sim, exatamente. Bom dia novamente.

Olá, bom dia.

É possível que quem olhe apressadamente para esta sondagem só repare naquilo que eu diria que é o mais sexy. O PSD abriu uma certa distância para o PS e isso ainda não tinha acontecido noutros estudos. É um ponto importante e é muito relevante, já falarei dele mais adiante, mas antes deixem-me chamar a atenção para algumas originalidades do estudo. Primeiro que tudo: oportunidade. Este é um estudo da Universidade Católica, foi feito pelo Centro de Sondagens e em colaboração com o Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos. Dá-lhe umas características um pouquinho diferentes daquelas que nós estamos habituados a ver nas sondagens feitas para jornais, não é o caso. Seja lá como for, aquilo que o centro detetou desta vez, já tinha detetado em anteriores estudos, que era uma intuição que tínhamos, que a maioria absoluta do Partido Socialista, a atual maioria absoluta, ficou muito a dever-se a escolhas de última hora. Houve muitos eleitores que só decidiram votar no Partido Socialista, no PS, nos últimos dias antes da votação. Porventura, no próprio dia da votação. Isso terá acontecido, uma parte disto é dedução, uma parte disto também deriva de estudos, pela eficácia da mensagem de António Costa, que nos últimos dias da campanha explorou, aparentemente bem, o receio que alguns eleitores teriam de que o PSD, que estava a aparecer bem nas sondagens antes, que Rui Rio pudesse fazer uma coligação com o Chega. Para além disso, Rui Rio também não fez o melhor que podia ter feito. Deu sinais de excesso de confiança e pode ter acontecido, aí já é difícil detetar isso pelos estudos, que alguns dos potenciais eleitores do PSD se desmobilizassem. Ora bem, uma parte desta informação, como eu disse, já era conhecida. Este estudo permitiu perceber uma coisa que é importante, é que é entre os que votaram no Partido Socialista, aqueles que votaram há um ano e meio, que hoje encontramos mais eleitores arrependidos das escolhas que fizeram. O que pode acontecer por duas razões: primeiro, porque houve muito tráfego do tal voto útil do Partido Socialista, e por outro lado, também pode ser uma consequência de atravessarmos uma fase de maior descontentamento com a governação socialista.

Aliás, o estudo foi realizado enquanto decorria a comissão de inquérito parlamentar à TAP, não foi?

Sim, aquela comissão de inquérito que vai ser tema durante o dia de hoje, vamos ver se amanhã também é tema aqui. Estamos à espera da comissão de imprensa, mas de facto os trabalhos de campo para este estudo decorreram durante o mês de junho, o que significa que já foram depois das audições com mais impacto na comissão. Para todos os efeitos, quer dizer, medindo audiências, que é uma maneira que nós temos de medir o impacto, foram as de Frederico Pinheiro, João Galamba, acho que principalmente de João Galamba. E essas já foram em maio.

Portanto, estava no rescaldo ainda dessa audição.

Já estava no rescaldo disso, mas não apanhou em cheio, digamos assim. Em junho foram as de Pedro Nuno Santos, do Mendes e de Fernando Medina, que não tiveram o mesmo impacto. Seja lá como for, não há dúvida de que, independentemente da TAP, há um outro ambiente social, que é de contestação ao governo em muitas frentes, educação, saúde, habitação, que obriga-nos a ter cuidado e, portanto, a não exagerar muito nas leituras políticas da sondagem. Até porque nós vivemos numa bolha um bocado político-midiática, por assim dizer, e por isso damos muitas vezes importância a pequenos desenvolvimentos e eu, olhando para o caso da TAP, eu não estou convencido que, por exemplo, esta sondagem mostra o PSD mais separado do PS. Não acho que tenha sido por causa do João Galamba. Acho que não chega para isso. Agora, é precisar alguma importância, apesar de tudo, a esta distância do PSD, porque ela fica já fora da margem de erro, isso é um aspecto importante. Estamos a falar de dois, três pontos e como a amostra é grande, a margem de erro é mais pequena. E depois há dois aspetos que se relacionam com este que eu quero chamar a atenção O primeiro é que apesar de darmos muita importância a estas sondagens, temos que ter bem presente que elas nunca são um retrato fiel do que aconteceria se fossem eleições. Se, por exemplo, se tivéssemos eleições este fim de semana, nada nos garantia 100% de segurança que o resultado ia ser aquele. Por quê? Porque, por um lado, não há nenhuma eleição no horizonte, as pessoas quando responderam àquela sondagem não estão provavelmente com a preocupação de saber em quem vão votar, e portanto é uma manifestação de vontade um pouquinho mais solta, por assim dizer.

Menos descomprometida.

Menos descomprometida, mais descomprometida. E depois, quando falo desse tipo de sondagens, eu diria que elas apanham mais as flutuações da opinião pública, os sentimentos, do que propriamente uma intenção de voto firme. Aliás, isso está explicado no próprio texto que nós publicamos, que é um texto dos investigadores que fizeram o estudo. Isto não acontece só com estas sondagens, ou melhor, no que respeita às eleições, sim, mas no que respeita às sondagens pré-eleitorais, não às de boca de urna, como são feitas a alguma distância das eleições, no fundo, permitem aquilo que António Costa fez na última semana de campanha, que é só não havia campanha.

Ainda serve para alguma coisa a campanha.

Ainda serve para alguma coisa. Para fazer campanha e para tentar mudar aquilo que é o sentido dessas sondagens. Podemos discutir isso melhor, mas eu queria também chamar a atenção para um outro foco deste estudo da Católica, que foi aproveitar este momento em que é potencialmente possível encontrar mais gente descontente com o governo, para procurar perceber basicamente o que é que poderia funcionar à direita, em termos eleitorais, em termos de acordos.

Pois, isso é muito interessante. Chegou-se a alguma conclusão?

Eu diria que sim, apesar de termos que ter aqui os cuidados, estamos a trabalhar com um inquérito realizado numa altura em que, por exemplo, se as pessoas não estão a pensar em quem vão votar amanhã, menos estão a pensar em votar em coligações, porque não há nenhuma coligação no horizonte. Há aqui algumas perguntas que foram feitas testando a temperatura da água, digamos assim, para ver que coligações poderiam ser feitas à direita, sendo que à partida todas elas excluem o Chega, porque à direita os outros partidos, neste momento, já disseram que não fariam acordos com o Chega.

Nem o PSD? O PSD não foi assim tão claro como a Iniciativa Liberal, por exemplo.

Do ponto de vista de dizer "Chega", não. Do ponto de vista de dizer que não faz acordos com extremistas, nem com partidos xenófobos, já foi. E portanto, a partir daí, e aliás, se quisermos colocar a Iniciativa Liberal numa coligação qualquer, temos que tirar de lá o Chega. Estamos a falar de coligações pré-eleitorais, que é o que estamos a falar aqui. Aliás, neste momento não se coloca, acho que nenhum partido está a pensar nisso e não vai haver seguramente nas europeias. Mas sei lá como for, era tentar perceber até que ponto, se houvesse uma coligação, essa coligação pelo efeito de possível vitória, pudesse atrair mais gente. E portanto consideraram-se uma coligação PSD/IL, PSD/CDS e PSD/IL/CDS. No fundo, são coligações mais parecidas com o que já tivemos, com a Aliança Democrática, com o À Frente Portugal. O que é interessante nesta análise é que qualquer destas possíveis coligações não parece somar, isto é, acrescentar. Não parece valer mais do que vale o PSD sozinho, ou mesmo o PSD somado com a votação dos outros partidos, cada um a concorrer por si.

Sim, e quanto é que o PSD pode somar com esses partidos?

Considerando os resultados da sondagem, já valerá mais de 40%.

É o necessário para a maioria absoluta?

Em princípio, com os partidos separados, é difícil. O PSD teve maioria absoluta, 120 deputados, que até é uma maioria absoluta com alguma folga, com 41,6%, salvo erro. Esta sondagem tem, no intervalo superior dos partidos, até chega aos 44%, mas separados não somam da mesma forma. Portanto, eu diria que como método, o que está nessa sondagem não garantiria a PSD/IL/CDS, se o CDS conseguisse eleger, a maioria absoluta, mas fica muito mais perto do que tinham ficado até agora. E isto acontece porque acontece aqui uma outra coisa que me parece também ser relativamente novo nesta sondagem, por comparação, ou neste estudo, mas vou chamar sondagem, com outras sondagens, que é o Chega cresce menos do que está a crescer nas outras sondagens. Neste caso, dificilmente chegaria a 10%. Dez por cento é mesmo o intervalo superior onde poderia ficar o Chega. Ou seja, é aquém de outros estudos. Há duas possibilidades de explicação para isto. Uma é técnica. O Chega pode estar a sofrer daquilo que os especialistas chamam efeito do eleitor tímido. Isso está explicado também no texto que está publicado, até com referências acadêmicas. O efeito do eleitor tímido é haver eleitores que, por o seu candidato ou o seu partido ter má imprensa, ter má imagem pública aparente, preferem não dar a cara. Isso está, por exemplo, bem sinalizado para a primeira eleição de Donald Trump. Nenhuma sondagem apanhou a vitória de Donald Trump Mas há outra explicação possível, que eu acho que é uma explicação mais política e que também devíamos explorar. Aquilo que este estudo parece indicar também é que a descida do Chega coincide com alguma subida do PSD, que aparece com um intervalo que pode chegar a 36%, muito maior do que em outros estudos, o que significa que o PSD pode estar a recuperar votos que estaria a perder para o Chega, que já perdeu alguns e continua a perder para o Chega. Portanto, conjugando este resultado, ou esta leitura política, se quiseres, com a constatação que o PSD faria melhor sozinho do que coligado, podemos estar a assistir a um fenômeno interessante, mas não surpreendente, que é, no fundo, aquilo que é hoje em dia um PSD um pouco mais combativo, mais agressivo. O PSD de Montenegro, por comparação com o PSD de Rui Rio, não estou a dizer que seja uma coisa extraordinária. Pode mais facilmente concentrar o voto dos descontentes, no fundo, aqueles que gostariam de ter uma alternativa ao Partido Socialista. Eu digo que não é surpreendente, porque me parece que se pode estar a passar-se o mesmo em Espanha.

Sim, José Manuel, já vamos falar do exemplo espanhol e ver o que é que nos serve para Portugal. Vamos interromper agora só a tua intervenção para irmos em direto para o Parlamento, porque Miguel Viterbo Dias já está a começar a conferência de imprensa para a apresentação das conclusões do relatório preliminar da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP.

Exatamente, e está a começar agora mesmo. Vamos, por isso, ouvir Ana Paula Bernardo.

O que esteve na origem da constituição desta comissão parlamentar foi um caso específico, foi o conhecimento da atribuição de uma indemnização de € 500 mil a um membro da comissão executiva da TAP, o engenheiro Alexandre Arraes, na sequência de a então designada renúncia por acordo. Conhecido este fato, foi um fato que gerou uma forte contestação política e social, talvez, e sobretudo, face ao contexto difícil em que nos encontrávamos, ao contexto difícil em que a TAP se encontrava, um momento em que estava a decorrer um programa de reestruturação, onde o Estado injetou 3,2 mil milhões de euros e um programa com impactos muito significativos nos trabalhadores, nomeadamente em termos de despedimentos e de cortes salariais que variavam de 20 a 50%. E portanto, tal levou a questionar, de uma forma geral, não apenas o valor da indemnização, mas de uma forma mais lata, questionar as práticas da gestão, perceber se isto era habitual e também perceber como é que o Estado, enquanto acionista e enquanto responsável com a tutela dessa empresa, exercia as suas responsabilidades e as suas missões nessa empresa. E portanto, são estes os objetivos que nos foram atribuídos pela resolução da Assembleia da República. Permitam-me agora que deixe duas ou três notas de metodologia e de clarificação de opções que assumi na elaboração deste relatório. Uma primeira nota que tem a ver com a forma como o documento se encontra estruturado, portanto, entendeu-se ser importante fazer uma breve apresentação, um breve enquadramento da empresa, um ponto de introdução, que é aquele onde se procura explicar as opções e o conteúdo, um ponto final sobre propostas, sobre recomendações. Em termos dos capítulos e da sistematização do conteúdo, a minha opção foi procurar responder ponto a ponto aquilo que são as alinhas do nosso mandato. E portanto, encontram um relatório que está constituído em torno de seis pontos centrais. Ainda em termos de configuração, em cada ponto, em cada alinha, digamos assim, do mandato, vocês encontram uma parte mais explicativa, portanto, com a descrição daquilo que foram os fatos, com a descrição daquilo que se destacou no âmbito das múltiplas audições que foram feitas, mas também de um trabalho de análise documental do acervo documental que entretanto foi chegando, uns a requerimento da própria CPI, noutras situações, por iniciativa das próprias entidades ou dos próprios depoentes. Numa segunda parte de cada capítulo, encontram um conjunto de recomendações específicas relativamente àquelas matérias. Ainda sobre o relatório, uma nota sobre a questão temporal. A resolução da Assembleia da República, como sabem, faz uma referência a uma delimitação temporal do período avaliado por esta comissão de inquérito, apontando para o período 2020/2022. Contudo, no âmbito da CPI, e os senhores jornalistas tiveram a oportunidade de acompanhar os trabalhos de perto, tiveram acesso a essa nota, desde cedo percebemos que não era possível cumprir plenamente o mandato que nos tinha sido atribuído, ou seja, avaliar a gestão da TAP e a gestão política da TAP naquele período, sem perceber Muitos dos acontecimentos e muitas das ações que em períodos anteriores conduziram à situação da empresa em 2020. E, portanto, a opção foi realizar uma análise retrospetiva, tendo sido definido o período 2015 a 2022. E por que este período? Porque de fato, nestes últimos anos, são anos onde há acontecimentos significativos naquilo que é a vida da TAP. Em 2015, a opção pela privatização da TAP, em 2016, 2017, a recompra, a reconfiguração e a reentrada do Estado na TAP. E depois, nesta reta mais final, 2020, 2022, a questão da pandemia Covid, a decisão de apoiar os auxílios estatais e a reestruturação da empresa através do plano de recuperação negociado com a União Europeia. Ainda quanto ao conteúdo, e sei que esta é uma questão que certamente gera alguma curiosidade, dizer-vos aquilo que não está no relatório e por que não está no relatório. Ao longo dos trabalhos da TAP, fomos tendo discussões sobre um conjunto de acontecimentos que foram debatidos, que foram analisados, mas que não dizem respeito diretamente ao objeto da TAP e muitos deles não é competência de uma comissão de inquérito fazer a apuração e retirar conclusões. E permitam-me que aqui perca um pouco de tempo e vos diga, falando concretamente dos casos e dos incidentes que têm sido muito veiculados. Sobre os acontecimentos ocorridos na noite de 26 de abril, no Ministério das Infraestruturas, o caso já foi remetido para as entidades policiais relevantes, do qual resultou a abertura do inquérito no Ministério Público, e este inquérito decorrerá de forma independente e para lá dos trabalhos desta comissão. Noutra situação, noutro momento, a intervenção do SIS, com vista à recuperação do computador que saiu das instalações do Ministério das Infraestruturas. A própria Assembleia da República já realizou um conjunto de diligências sobre o esclarecimento deste assunto. Com efeito, a primeira comissão, a Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República, que é competente nestas matérias, já ouviu o diretor do SIS, já ouviu a secretária-geral do SIRP, já acompanhou a situação e nomeadamente aquilo que foi a avaliação feita pelo próprio Conselho Fiscalizador do SIRP. Mesmo aquela reunião existente, que também foi objeto de discussão nos nossos trabalhos, a reunião ocorrida em janeiro, onde participaram a então CEO da TAP e um deputado do PS. Portanto, em janeiro de 2023, data inclusivamente anterior à constituição desta CPI, logo que foram levantadas algumas dúvidas sobre aquela reunião, a CPI tomou de imediato a diligência de remeter esta questão à 14ª Comissão, portanto, à Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados, que é a comissão competente para o efeito, e essa comissão também já emitiu a respetiva deliberação. E, portanto, a não inclusão de forma mais detalhada e o não retirar de conclusões sobre acontecimentos desta natureza foi precisamente por isso, porque não fazem parte do objeto da comissão e segundo, porque o seu apuramento e a sua análise deve ser feita nas sedes adequadas. E, portanto, o relatório que aqui vos apresento e que será necessariamente uma apresentação que não será muito extensa, é um relatório que, em termos de conclusões, apresenta 75 conclusões. Setenta e cinco conclusões repartidas pelos tais seis capítulos que eu referi há pouco. E portanto, deixando só algumas notas sobre as principais conclusões de cada um dos artigos, dizer-vos que naquilo que se refere ao processo de cooptação, nomeação e contratação de Alexandre Reis e de outros administradores, e da forma como esses administradores exercem suas funções, relembrar aqui que desde 2 de outubro, que a TAP por ser empresa pública, se lhe aplicam disposições do regime jurídico do setor público empresarial e o próprio estatuto de gestor público. Diplomas que têm um conjunto de disposições, de direitos e de garantias e de obrigações do governo e das empresas nas situações em que existem empresas públicas ou empresas com participação pública. E neste capítulo, o que detetamos foi que, apesar da existência destas disposições, a Comissão Executiva e o Conselho de Administração da altura, exerciam funções sem terem celebrado os contratos de gestão que a lei lhes impunha. E essa obrigação é cometida Aos administradores, que não o fizeram no momento e em tempo devido. E esse contrato é tão importante porque é aquele que define o conjunto de metas e de objetivos que cada administrador tem que prosseguir, e é dessa avaliação de cumprimento que decorre, nomeadamente, pagamento de remunerações variáveis, etc. Porém, aqui também dizer-vos que apesar dos gestores se encontrarem sem este contrato de gestão, também a CPI concluiu, ou pelo menos concluímos, não haver quaisquer evidências de iniciativa por parte das tutelas e, mais concretamente, da UTAM, que é a entidade responsável neste domínio, no sentido de sinalizar aos administradores e de sinalizar ao conselho de administração a necessidade do cumprimento desses prazos. Peço desculpa. No que se refere ao segundo ponto, que tem a ver com uma das questões centrais da resolução da Assembleia da República, a CPI conseguiu apurar os factos relacionados à saída de Alexandra Reis, factos estes que já tinham merecido uma análise por parte da Inspeção-Geral das Finanças. Contudo, as audições acabaram por permitir densificar o relatório e confirmar não só pela nulidade do ato de despedimento, a renúncia por acordo relativamente à Alexandra Reis, como permitiram perceber qual tinha sido o papel central que a então CEO teve em todo este processo. Não foi possível apurar com exatidão as razões e motivos que estiveram na base da Alexandra Reis, ainda que esta saída esteja também associada à vontade de uma reconfiguração da comissão executiva por parte da CEO, mas de qualquer modo, também se conseguiu apurar que a tutela setorial acabou por dar o conforto político à decisão da CEO, apurando-se também que a tutela financeira, portanto, estamos a falar de uma empresa que tem tutela partilhadas entre finanças e infraestruturas, apurou-se que as finanças não foram envolvidas neste processo. Souberam do processo no momento final, quando houve a comunicação da TAP à CMVM. No que se refere ao capítulo seguinte, e sobre a dúvida sobre a questão de se haveria alguma relação entre a saída da engenheira Alexandra Reis da TAP e o percurso subsequente da engenheira Alexandra Reis, nomeadamente a sua nomeação para a NAV, também se verificaram não haver evidências de qualquer relação entre a saída em fevereiro e a nomeação no momento futuro. A passagem para a NAV foi um processo de nomeação que seguiu os trâmites legais e expetáveis que seriam esperados por esta nova empresa, a NAV também ser uma empresa pública. Relativamente ao capítulo cinco, também é um capítulo que se prendia com a forma como a informação entre a TAP e as tutelas circulava, como a informação entre as TAP e a tutela e a tutela e a TAP circulava, mas também porque isso foi questionado e também foi objeto de análise ao longo dos trabalhos da CPI, de possíveis ingerências da TAP na gestão corrente da empresa. Novamente refiro que, ao abrigo do regime jurídico do setor público empresarial, há um conjunto de normas sobre a forma como empresas tuteladas e tutela se devem relacionar, os atos de uns e os atos de outros, e também dessa análise se percebeu que, eu peço desculpa, eu passei para o capítulo 15 sem ter falado no quatro, mas mantenho-me no quinto, se percebeu que não houve registro de evidências com relevância material que evidenciam a prática de interferência na gestão corrente da empresa por parte das tutelas. E mesmo as alegadas situações que foram apontadas e que foram sendo discutidas estão devidamente circunscritas, são explicadas no relatório e não qualificam uma prática de gestão. Aliás, no próprio momento da avaliação da relação, de uma eventual relação de saída da engenheira Alexandra Reis para a NAV, a própria engenheira Alexandra Reis também refere que nos cinco meses em que esteve na NAV também não houve qualquer interferência ou ingerência política. No capítulo quatro, agora sim, que tem a ver com a questão das remunerações, das decisões. A grande conclusão que se pode extrair de todos os depoimentos e de toda a documentação é que fica claro que se no passado existiram práticas que podemos considerar merecedoras de reparo pelo seu caráter, às vezes discricionário, de tratamento desigual entre administradoras. E recordo aqui que estamos a falar Especialmente ou concretamente num período em que a empresa não era uma empresa pública, era uma empresa privada. Mas afirmar que sob a tutela pública e contrariamente àquilo que alguns pretenderam fazer passar de que eram inúmeros os casos similares ao do engenheiro Alexandre Reis, de pagamento de indenizações elevadas a administradores, estas situações não foram confirmadas. Portanto, o único caso detectado no âmbito da tutela pública, da empresa pública TAP, a partir de 2 de outubro de 2020, o único caso apurado foi o de Alexandre Reis e, como sabem, foi uma situação que já se encontra corrigida. Depois, relativamente ao que deveria ser um dos pontos centrais nesta comissão parlamentar de inquérito, tem a ver precisamente com a gestão da TAP e com a gestão política da tutela da TAP. Aqui foram analisados três períodos, como eu referi inicialmente, a privatização em 2015, o processo de recompra e de reconfiguração acionista em 2016 e 2017 e, numa fase final, os auxílios de Estado e o plano de reestruturação. E sobre os diferentes processos, foi possível conhecer alguns factos novos, sobretudo densificar alguns factos e algumas situações que se prendem muito concretamente. São vários os assuntos, mas destaco neste momento duas situações concretas, que são os chamados fundos airbus, a forma como foi feita a capitalização e a compra de um acionista privado em 2015. Um outro elemento que foi objeto de uma análise bastante detalhada da nossa parte e que se reflete também no relatório, tem a ver com as cartas de conforto, portanto, as garantias que o Estado deu em diferentes momentos, no momento da privatização e no momento da recompra também, que deu em relação àquilo que eram as dívidas da TAP, portanto, assumindo os riscos por essas dívidas. Destacar que também a partir de 2016, e essa foi claramente uma opção política do governo de então, a necessidade de o país ter um controle estratégico da TAP face àquilo que é o papel econômico e social da TAP, o seu contributo para a economia nacional, a sua proximidade com as comunidades portuguesas no exterior e tudo o que a TAP significa para o desenvolvimento e para o crescimento de outros setores. E também neste momento, apesar de o Estado ter assumido este processo, aquilo que se dizia em 2015, que o Estado assumiu riscos relativamente às dívidas existentes antes de 2015, também aqui neste processo não deixou de haver riscos para o Estado. Riscos que acabaram nem num período, nem noutro se concretizar, mas que o relatório procura também elucidar. Finalmente, um plano de reestruturação, que também foi muito debatido, um plano de reestruturação que foi negociado com a Comissão Europeia e que num contexto de pandemia, em que praticamente tivemos, não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, a paralisação do setor da aviação, o que colocou a TAP numa situação especialmente crítica e que precisava de uma resposta de emergência. No momento em que essa resposta de emergência não veio.

O que estamos a seguir é o essencial da conferência de imprensa de Ana Paula Bernardo, deputada do PS e relatora deste relatório da Comissão de Inquérito à TAP.

Miguel Viterbo Dias, vamos naturalmente continuar a acompanhar o essencial desta conferência de imprensa com esta ideia. Os dados que foram omissos do relatório preliminar, considera a relatora, foi porque não tem a ver com o objeto desta comissão. Lá voltaremos. Retomamos o Contracorrente. Hoje partimos de um estudo da Universidade Católica que olha para o comportamento do eleitorado português, para olhar para todos os cenários que estão aqui em cima da mesa. E connosco temos já, e voltaremos à conversa com o José Manuel Fernandes já daqui a pouco, mas temos um dos autores do estudo, muito conhecido dos ouvintes e dos leitores do Observador, o André Azevedo Alves, que é aqui comentador e colunista. André, bom dia, obrigada pela disponibilidade, agora por limitações da agenda da informação, com menos tempo. A primeira questão tem mesmo a ver com o momento deste estudo, não havendo eleições no horizonte, o que se pretendeu exatamente apurar?

O que se pretendeu com este estudo, indo para além das flutuações conjunturais das intenções de voto, foi aferir como é que o eleitorado, com especial incidência, mas não limitado ao eleitorado à direita, perceciona várias possibilidades de cenários de coligações pré e pós-eleitorais. Até porque esse, em princípio, é um elemento que obviamente varia ao longo do tempo, mas varia de forma menos conjuntural do que as tais flutuações na intenção de voto ao longo do tempo. E o que o estudo aponta nessa dimensão é que

Curiosamente, se calhar contrariamente a uma intuição que muita gente terá olhando para os valores que as sondagens vão dando, nomeadamente PSD, IL, etc., mas em especial PSD e IL, que vários cenários de coligação pré-eleitoral que juntassem o PSD, nomeadamente IL e/ou CDS, teriam um efeito líquido negativo. Ou seja, olhar para os valores do PSD, para os valores da IL e fazer uma soma directa e pensar: "Bem, se estivessem juntos, se calhar daria praticamente com uma maioria absoluta", é um exercício que, segundo o que o nosso estudo sugere, é um exercício incorrecto. Aqui já entro numa componente mais explicativa. Não o que está nos dados, mas como é que podemos interpretar os dados, porque provavelmente haverá componentes do eleitorado que ficariam desmobilizados pela apresentação conjunta a eleições. Portanto, isto também sugere que, do ponto de vista de umas próximas legislativas, não resta solução ao PSD se quiser ser governo, além de se procurar, por um lado, afirmar mais no seu próprio espaço, quer à esquerda ganhando terreno ao PS, quer à direita, nomeadamente impedindo o crescimento do Chega. E o estudo mostra também que há um substancial eleitorado que está entre o PSD e o Chega. E por outro lado, esperando que, nomeadamente IL, eventualmente com menor probabilidade CDS, mas também CDS, que serão os dois parceiros pós-eleitorais potenciais. E o estudo também mostra que há uma aceitação bastante grande de soluções pós-eleitorais que incluam IL e CDS, e uma aceitação muito baixa, uma rejeição muito alta de qualquer solução que envolva o Chega, incluindo dentro do próprio eleitorado do PSD. Portanto, uma eventual nova chegada do PSD ao poder dependerá destes dois elementos. Por um lado, a consolidação de algum crescimento do PSD e, por outro lado, ter, nomeadamente nestes dois parceiros, IL e, como eu dizia, com menor grau de probabilidade, o CDS, parceiros que permitam formar essa maioria. Mas a tal solução, que pode parecer tentadora, olhando para os números em bruto, fazer a tal soma aritmética simples, é uma falsa solução.

É uma falsa solução, sendo que este estudo vai mostrando que o PSD aparenta estar a recuperar eleitorado do Chega.

Sugere isso, embora eu diria que esses dados são aqueles dados que são mais susceptíveis à alteração conjuntural. Uma parte substancial do trabalho de campo foi feito durante o auge da comissão de inquérito à TAP, que está também na ordem do dia hoje. Portanto, é possível que, em relação à flutuação de intenção de voto, nomeadamente entre PSD e o Chega, os valores que estão no estudo e subjacentes ao resto da análise sobre as coligações dão o PSD um bocadinho mais forte do que tem aparecido noutras sondagens recentes e o Chega um pouco mais fraco, ligeiramente abaixo dos 10%. Mas eu, em relação a esses dados, acho que é cedo para dizer que isso é uma tendência e teremos que esperar por outros estudos e outras sondagens, essas sim focadas especificamente na evolução da intenção de voto, para vermos se há aí uma tendência ou não. O que me parece que é, de facto, mais de salientar é que o caminho das coligações pré-eleitorais para o PSD, no atual contexto, claro que ao fim daqui por dois, três anos poderá mudar, mas não parece que para esse tipo de dado possa mudar daqui por dois, três meses, ao contrário da intenção de voto. O caminho das coligações pré-eleitorais para o PSD parece-me que é um beco sem saída neste momento e, portanto, para usar uma expressão mais coloquial, o PSD e a sua liderança precisam mesmo de fazer pela vida.

Precisam de fazer pela vida, sendo que o Chega continua a ser um partido sobre o qual existe uma cerca sanitária, até por parte do eleitorado, que não o quer ver misturado com outros partidos.

Exatamente. E níveis de rejeição muito elevados. Eu devo dizer que um elemento que, não vou dizer que me surpreendeu, mas que eu não esperava que fosse tão forte, e nós temos até mais dados que sairão depois num segundo ensaio também para o Observador. Os níveis de rejeição dentro do próprio eleitorado do PSD, portanto, os níveis de rejeição do Chega dentro do próprio eleitorado do PSD são muito elevados. Portanto, nesse sentido, isto é obviamente algo que, do ponto de vista nomeadamente do Partido Socialista, é uma carta importante, porque o estudo confirma que aquela que poderia ser, enfim, nós pré-eleitoralmente nem sequer consideramos a possibilidade de um acordo pré-eleitoral do PSD com o Chega, parece-nos que isso não faria qualquer sentido sequer estar a gastar perguntas com isso, porque está fora de opção. Mas perguntamos sobre percepções do eleitorado dos vários partidos relativamente a uma qualquer forma de entendimento pós-eleitoral do PSD, nomeadamente com o IL e com o Chega, e se em relação à IL há níveis de aceitação relativamente elevados, mesmo da parte de eleitores à esquerda. Têm uma visão desfavorável, mas com níveis não extraordinariamente negativos. Em relação ao Chega, esse panorama muda e dentro do próprio eleitorado que está inclinado a votar PSD Essa possibilidade de entendimento é vista de forma muito negativa e isso limita, eu diria, neste ciclo político. Repito, aqui parece-me que isso vai para lá da flutuação das intenções de voto, é algo que eu não acredito que mude em três meses ou em seis meses. Poderá mudar em dois, três, quatro anos, mas não num intervalo mais curto. As opções do PSD estão, de facto, limitadas pré-eleitoralmente, porque as coligações não somam, pelo contrário, e pós-eleitoralmente, porque o partido que aparece geralmente, incluindo também nesta sondagem, em terceiro lugar, é um partido que está, para grande parte do próprio eleitorado do PSD, rejeitado em cenários de qualquer entendimento pós-eleitoral. Há aqui uma aritmética e uma situação difícil para o PSD.

André Silva dos Vale, muito obrigada por teres vindo ao "Contra-Corrente" e agradeço esta análise aos dados deste estudo da Universidade Católica, que o Observador publica. É o ponto de partida do "Contra-Corrente". Vamos continuar a analisá-lo já daqui a pouco. Até já.

Segunda parte do "Contra-Corrente": um ano à frente do PSD. Luís Montenegro vale mais sozinho ou coligado? Ligue, o número de telefone é o 91 002 4185.

O ponto de partida é um estudo da Universidade Católica publicado no Observador. O José Manuel Fernandes estava a apresentar as linhas gerais desse estudo quando a atualidade nos obrigou a interromper o teu raciocínio, José Manuel. Estavas a falar se era importante perceber o que está a acontecer agora em Espanha, para olhar para os cenários de eventuais coligações em Portugal. É ou não importante?

Eu diria que sim e acho que estamos todos com os olhos em Espanha, porque lá há dois partidos parecidos connosco, o PSD e o Vox. Não são exatamente a mesma coisa, têm histórias diferentes e o ambiente político em Espanha é muito diferente. Mas é um partido que faz parte do mesmo grupo que o PSD, o PP, e tem um posicionamento político e sociológico muito semelhante. E depois temos o Vox, que eu diria que é um Chega vitaminado, com mais estrutura, com mais conteúdo intelectual e também com mais base social. São coisas diferentes. Seja lá como for, neste momento, em Espanha, o que parece estar a acontecer é que o PP, que hoje em dia é mais aguerrido com o Felipe VI do que era antes, e depois das experiências também de sítios como Madrid, estará a recuperar algum eleitorado que em anteriores eleições tinha fugido para o Vox. Até que ponto isso é reproduzível em Portugal é um ponto de interrogação. Até que ponto é que um governo espanhol, que pode não ter o Vox lá dentro, mas pode ter o acordo do Vox, poderá influenciar o ambiente político em Portugal, é outro ponto de interrogação. Mas independentemente disso, só brevíssimas questões sobre algumas das questões que estão aqui. Primeiro, outros resultados. A IL sobe um bocadinho, não sobe muito. O bloco parece recuperar eleitores que tinha perdido para o Partido Socialista, voto útil em António Costa, mas o mesmo não se está a passar aparentemente com o PCP. O PCP continua a cair. Eu já fiz durante muitos anos estudos com a altura de sondagens mesmo com a Católica, o PCP muitas vezes era sub-representado, mas desta vez aparece mal, aparece abaixo de 3%, portanto é um resultado mau. O CDS aparece neste estudo, é um estudo grande.

Também costuma aparecer mal nas sondagens.

Às vezes quase não aparece, às vezes nem sequer é contabilizável, mas neste caso aparece, e aparece quer à frente do LIVRE, quer à frente do PAN. Atenção, foi o que aconteceu nas últimas eleições, só que não conseguiu eleger deputados por causa da distribuição dos votos. Mas é significativo, seja lá como for, o CDS tem uma espécie de prova de vida daqui a um ano nas europeias. Vamos ver o que é que sucede depois das europeias. Há alguns elementos, além disso, que me parecem interessantes e não queria deixar algumas notas. Primeiro, o eleitorado à direita continua a ser mais masculino do que feminino, e isso é sobretudo verdade no Chega e na IL. No Chega, não nos surpreende muito. Partidos semelhantes ao Chega costumam ter um eleitorado mais masculino, e está muito bem documentado. Aliás, o próprio discurso do partido ajuda a que isso suceda. No caso da IL, é mais difícil de explicar e é algo que os liberais têm que tomar atenção. No que diz respeito à idade, há aqui uma novidade, que é alguma recuperação do PSD no grupo acima dos 65 anos. O que confirmei uma ideia, que aliás eu já referi aqui, que teriam sido as sondagens que o Partido Socialista e o governo fazem com regularidade e que dariam indicação de que esta espécie de feudo do Partido Socialista, que era o eleitorado com mais de 65 anos, estar a fugir, que terá levado o PS a fazer algo que tinha dito que não fazia, que era fazer marcha atrás na questão das pensões de reforma. Lembras-te que o ano passado chegaram a apresentar na Assembleia estudos a dizer que não se podia aumentar e afinal este ano, a meio do ano, agora este mês, é agora, vai haver esse aumento das reformas. Em contrapartida, se o PSD começa a entrar de novo no eleitorado que já foi muito dele, que era o eleitorado mais velho, a IL é sobretudo um partido de eleitorado jovem, como foi durante muito tempo o Bloco de Esquerda, e o Chega é um partido de eleitorado de meia idade, 35 a 64. Na escolaridade, a IL confirma a ideia de que é um partido de pessoas com mais formação Já o Chega é um partido que entra sobretudo em eleitorado que habitualmente não vota. Bate certo. Eleitorado de protesto, eleitorado que estava zangado e isso bate certo com a ideia que tínhamos do que é o partido.

Temos aqui muita informação.

Sim, temos muita informação. O André já anunciou mais um ensaio e vamos ter mais informação também sobre o que está, designadamente sobre esta questão da relação com o Chega, com o partido. Isso tem a ver com um tema que não vamos ter muito tempo para falar hoje, que é os extremismos. Até que ponto o eleitorado refere a presença de extremismo e receia esses extremismos como ameaça para a democracia. E claramente aí o Chega aparece destacadíssimo. Mais o Bloco do que o PCP também aparecem referenciados, mas bastante menos do que o Chega, o que pode ter dois efeitos, pode ser uma sequência do ambiente midiático, comunicacional, pode também ser o efeito de, por assim dizer, a passagem pela geringonça desvitalizou essa ideia de mais extremismo desses dois partidos. Seja lá como for, só reforçar algo que disse aqui o André há pouco. Três quartos dos eleitores do PSD achavam positivo que ele se coligasse com a IL. Três quartos não querem que se coligue com o Chega. São mesmo opostos. Eu diria que neste momento está aí uma linha vermelha no que respeita ao PSD.

São de facto muitos dados para análise, refletem muito mais do que a conjuntura do momento e podem ajudar, por isso, a perceber melhor algumas estratégias dos partidos. A Raquel Bacasis é economista e comentadora do Observador. Bom dia, Raquel, bem-vinda também aqui. O que destacas destas conclusões? Temos aqui um PSD que vale mais sozinho do que em coligação, é um dado importante até para a estratégia de Montenegro.

É, eu acho que é um dado muito importante para a estratégia de Montenegro e para a leitura que as diversas entidades políticas fazem sobre a situação política. Para mim, a coisa mais importante que este estudo prova é que, ao contrário do que tem sido voz comum e muito capitaneada pelo senhor Presidente da República, há alternativa no país. Como sempre houve e como não pode deixar de haver em democracia. E eu acho que este estudo, que vai um bocadinho para além daqueles estudos das sondagens circunstanciais, prova que essa alternativa não deixou de existir. E portanto, é um erro olhar para a situação política partindo de um pressuposto que é falso, que é que não há alternativa no país. Em relação ao facto do PSD valer mais sozinho do que coligado. Eu confesso que não é uma coisa que me espante muito neste momento da vida política. Eu acho que isso já nalguns momentos foi assim, mesmo quando houve coligações pós-eleitorais com o CDS, porque em momentos de incerteza política, as pessoas gostam de apostar numa alternativa certa. E eu acho que as indicações que isto dá à liderança do PSD é que há aqui uma equação difícil, mas que tem que ser feita, que é, por um lado, prosseguir este caminho da alternativa, mas, por outro lado, conseguir aqui um equilíbrio muito difícil, que é o PSD será tanto mais forte, será tanto mais alternativa, quanto mais conseguir ir buscar eleitorado insatisfeito ao Partido Socialista e eleitorado insatisfeito ao Chega. Estando cada um no polo oposto, essa é uma equação difícil, mas que este estudo também prova que é possível e que num certo sentido poderá estar a acontecer já neste momento. E portanto, eu acho que dá aqui indicadores fortes para que a direção do PSD possa ir afinando a estratégia.

Dá aqui um fôlego à estratégia de Montenegro que lhe permitirá fazer aquilo que alguns ainda não entenderam que fez, que é traçar uma linha vermelha clara com o Chega, como a Iniciativa Liberal já fez.

Sim, eu acho que o Luís Montenegro já ensaiou fazê-lo. Eu diria até que se não fosse uma certa insistência, nós poderíamos até considerar que ele já colocou essa linha vermelha e que já disse que não faria coligações com o Chega, mas como ele é incerto, umas vezes diz de uma forma mais definitiva e outras deixa algumas dúvidas a pairar no ar, eu acho que isto dá-lhe a garantia que pelo menos do ponto de vista da estratégia eleitoral, não há nenhuma dúvida sobre que o PSD terá tanto mais sucesso quanto mais marcar essa linha vermelha com o Chega. Até para potenciais eleitores que venham do Chega para o PSD, essas linhas vermelhas são importantes, porque, como sabemos, o eleitorado do Chega é um eleitorado de protesto e de pessoas que muitas vezes não é por concordarem com o partido, mas é por estarem fartos da situação. E portanto, quanto mais essas pessoas tiverem a noção de que a alternativa é o PSD, mais podem deslocar o seu voto para o PSD.

Raquel, este estudo mostra-nos também que parece haver um arrependimento por parte de alguns dos eleitores que votaram Partido Socialista nas últimas eleições. Já vês aqui espaço para que alguns deles possam votar no PSD? Podem também escolher os partidos da esquerda e aí será o Bloco de Esquerda também a ganhar algum ânimo?

É o que o estudo mostra. O Bloco de Esquerda está a recuperar eleitorado depois de uma pesada derrota e de um desgaste muito grande que teve nas últimas eleições. E como dizia o José Manuel Fernandes, é sintomático que o mesmo fenômeno não esteja a acontecer no Partido Comunista, apesar de o Partido Comunista ter mudado de líder e, portanto, claramente nota-se aqui uma tendência de desgaste do partido mais tradicional de esquerda e de uma recuperação do Bloco de Esquerda. Vamos ver se se confirma. Esse é o lado que eu tenho mais dificuldade em perceber que conclusões tirar deste estudo, apesar de ter lido as conclusões que o Observador publica, porque eu acho que os inquéritos são feitos numa altura muito específica, que para o objeto do estudo são importantes, mas que do ponto de vista da análise política têm também a sua importância, que é no auge de toda aquela agitação criada à volta da Comissão de Inquérito da TAP. E se estivermos a analisar isto temporalmente para um período de eleições, eu acho que há aqui muitos fatores que podem contar, inclusivamente os tais eleitores arrependidos, que eu não sei se não se desarrependem, se por hipótese as coisas se equilibrarem e daqui a um ano o PS estiver a governar sem os ditos casos, sem grandes escândalos e sem grandes acidentes de percurso.

E menos impostos, como já foi prometido.

Exactamente. Menos impostos, mais pensões. Eu acho que aí há que ter alguma cautela, porque acho que esses arrependimentos, aliás, o estudo também diz isso, quando fala daquilo que levou as pessoas a votar nas últimas eleições e da importância que teve o voto de última hora. Eu acho que estes estudos têm que sempre contar com esse fenômeno, e aprender alguma coisa com aquilo que foi o resultado surpreendente das últimas eleições.

Uma última questão, voltando outra vez para o outro aspecto político. Isto mostra também que o Chega ainda não é visto pelos eleitores como um partido do sistema, para os eleitores que não votam Chega?

Sim, isso eu acho que não é, e acho que nunca será. Pelo menos tão cedo não será, a menos que o Chega comece a chegar a lugares de poder e se comece a normalizar. Eu acho que isso é a estratégia que o Chega segue e que os outros partidos, num certo sentido, ajudam o Chega a construir essa estratégia, deixando-o marginalizado e fora do sistema, etc. Mas eu acho que a estratégia do Chega é exatamente essa, e é aí que o Chega sabe que consegue capitalizar votos.

Raquel Bocasis, obrigada. Um bom dia, uma boa quarta-feira pra ti. A análise da Raquel Bocasis. Vamos ouvir os nossos ouvintes, e temos um elemento da Iniciativa Liberal que quer participar, a Eunice Baeta, que é diretora operacional. Ouve-nos em Sintra. Bom dia, Eunice Baeta.

Olá, bom dia. Obrigada mais uma vez por me deixarem participar. Eu sou eleita em Sintra pela Iniciativa Liberal. E gostava de dizer, antes de mais, que concordo plenamente com a Raquel. Oposição sempre houve e haverá, faz parte da democracia. Portanto, também discordo do presidente da República quando ele aparentemente não avança com uma queda deste governo em prol de novas eleições. Posso concordar com ele em basear-se pelo fato de o PS ter obtido uma maioria absoluta e, portanto, assim deixar algum tempo esta governação perdurar até que haja um motivo, pelo menos para o Presidente da República, pra que ele caia. Mas como o tema é as coligações, o que eu queria referir, e sendo membro da IL, é que discordo plenamente das coligações pré-eleitorais. À semelhança daquilo que é feito em países desenvolvidos do norte da Europa, as coligações pós-eleitorais são muito mais proveitosas, porque discutem-se propostas concretas e caminhos concretos que se podem seguir, baseando obviamente nos programas de cada um quando se apresentam a eleições. E honestamente, também acho pouco proveitosas as coligações pré-eleitorais, porque por norma a soma dos dois dá um resultado negativo. E isso foi evidente, no meu ponto de vista, naquilo que aconteceu com o PAF. Portanto, a última coligação que foi feita para as legislativas entre o PSD e o CDS, não me parece que o resultado tenha sido positivo e inclusivamente isso permitiu que nós tivéssemos uma governação onde se contasse com a CDU e com o Bloco de Esquerda. Portanto, nessa perspectiva, acho que foi pouco produtiva e fez pouco sentido. Apesar de eles estarem coligados no governo, não fazia sentido terem se apresentado a eleições coligados e o resultado, pelo meu entendimento e pela minha leitura, foi aquele que obtivemos. Tivemos uma geringonça durante o mandato e acho que não faz grande sentido. Gostava também só de dizer, relativamente às mulheres.

Sim, já agora queria aproveitar pra lhe perguntar se tem alguma interpretação.

É realmente um facto. Não posso negá-lo e não há nada como assumir aquilo que é um problema ou aquilo que poderá vir a ser um problema pra lidarmos com ele.

O que poderá explicar isso?

Eu acho que as mulheres têm um envolvimento político muito mais emotivo e muito mais ligado a causas. A Iniciativa Liberal defende uma causa, que é o liberalismo, que acho que é obviamente uma causa legítima pra qualquer pessoa, mas é pouco chegado às mulheres. Elas têm muito mais um lado emotivo que as liga muito mais a áreas sociais e a Iniciativa Liberal terá que explorar um pouco melhor esse território, se quiser, no futuro, também agregar um eleitorado e uma política ativa por parte das mulheres. É difícil. Devo lhe dizer que a lei da paridade pra nós é sempre um problema, porque nos obriga a recrutar mulheres que muitas das vezes nem estão propriamente interessadas em ter uma vida política ativa por vários fatores, por vários fatores familiares, às vezes até profissionais, às vezes até com algum medo, porque nós quando fazemos campanha na rua ouvimos muitos insultos, ainda, por parte dos homens.

Nós, as mulheres, em geral, qualquer que seja o partido a que pertencem? É isso que está a dizer? Ou pela experiência que tem?

Eu falo daquilo que sinto quando saio à rua em representação de um partido liberal.

Sim.

Existem ainda algum estigma e há homens que fazem críticas pejorativas às mulheres que estão na vida política ativa. Eu lido bem com isso, é-me completamente indiferente, porque eu estou aqui por pura convicção, mas há quem não queira se sujeitar a esse tipo de críticas. E sim, é muito difícil as mulheres estarem envolvidas numa vida política ativa também por questões sociais e familiares que às vezes são inibidoras dessa presença e dessa participação mais ativa. O que é muito triste, porque elas também têm tantos contributos tão bons como os homens.

Algumas mulheres na política dizem que às vezes bastaria mudar horários de algumas das ações dos partidos.

Sim, porque eu tive que abdicar e abdico muitas vezes da minha vida familiar. Tenho uma família compreensiva que aceita, mas é difícil de participar em determinados eventos e em determinadas situações por uma questão de horário. Porque à noite gostamos de estar com a nossa família como todas as pessoas, mas é quando existe disponibilidade extraprofissional pra poder fazer algumas atividades políticas e isso é às vezes um impedimento também pras mulheres, o que é compreensível, mas tem que haver, obviamente, uma estrutura familiar que o permita.

Eunice Baieta, muito obrigada por nos ter ligado e ajudar aqui a explorar um caminho que é a participação das mulheres na vida política, um pouco à margem do pretexto inicial, mas a verdade é que é uma reflexão que também aqui acrescenta ao debate. Um bom dia, Eunice Baieta. Nesta altura, tínhamos um ouvinte também em linha, mas a chamada caiu. José Manuel, queres participar? Isto vai um pouco à margem, mas esta explicação que este ouvinte da Iniciativa Liberal avança para haver menos mulheres, quer no partido e no fundo, até na vida política, é atendível.

Eu acho que é atendível no sentido em que eu nunca fui favorável às cotas forçadas, digamos, porque acho que apesar de tudo, a relação das mulheres com a política pode não ser exatamente igual à dos homens. Eu gostaria que houvesse paridade, mas acho que depende muito das circunstâncias. Pode haver alturas em que há mais mulheres, alturas em que há menos. E forçar, enfim, há pessoas que dizem que ao forçar, abre-se a barragem, por assim dizer. Às vezes sim, às vezes não. Nem sempre as coisas acontecem dessa forma, olhando pra experiência de outros países. E eu não sei, sinceramente, se é por isso que a Iniciativa Liberal não está, pelo menos nas sondagens, tão presente entre as mulheres. Parece-me óbvio que é um partido urbano, que é um partido de gente mais qualificada em termos de formação, que é um partido jovem. Tudo isso bate certo com aquilo que tem sido a maneira-

Faltam as causas emocionais, dizia esta ouvinte.

Talvez faltem causas, talvez seja muito cerebral, um partido muito cerebral, com coisas muito cerebrais e poucas causas emocionais. E depois também, vamos lá ver. Na verdade, não tem muitos rostos femininos. Quando lutou pela liderança, havia uma mulher.

Carla Castro.

Carla Castro, não ganhou. Há deputadas, Carla Castro e outras, não me recordo agora qual é o nome, mas penso que há pelo menos duas deputadas, ou três, não quero dizer asneiras, mas não é um partido com tantos rostos. Mas isso não é muita razão pra isso. Por exemplo, vamos lá ver, o PS nunca teve nenhuma dirigente mulher. Teve a presidente do partido, mas não conta muito pro caso, não é uma figura muito presente. E eu até diria que, olhando, por exemplo, pro governo, as mulheres do governo não dão muito nas vistas, apesar de haver uma que é porta-voz e estar muito presente, não tem um peso próprio muito grande. E isso não impede que o Partido Socialista tenha tido já muitos votos de mulheres, e não creio que o PSD, por já ter sido dirigido por uma mulher, tivesse conseguido isso, ou o CDS, que também já foi dirigido por uma mulher e teve a primeira mulher que foi líder parlamentar. Pode ter importância, provavelmente tem mais importância a questão emocional

Que pode ser uma explicação. Vamos ao encontro agora do Armando Barata, economista, liga de Lisboa. Ouve-nos em Lisboa. Bom dia, Armando Barata.

Olá, bom dia a si e aos seus convidados. Só para fazer um prefácio, um comentário ao que disse o José Manuel Fernandes. Eu também estou um pouco de acordo, não estou muito de acordo com as cotas, apesar de estimular ativamente e gostava que houvesse mais mulheres na política, mas isso depende muito também das circunstâncias, e estou de acordo. Deve haver um estímulo e uma paridade concreta, mas cotas é forçar uma coisa que eu acho que não se deve fazer. Quando as pessoas querem legislar esse tipo de coisa, geralmente têm sempre depois outros tipos de efeitos que nunca são os melhores. Mas eu estou de acordo com a participação cada vez mais das mulheres e fico muito contente com isso. Vamos às sondagens. Relativamente às sondagens, isto são tendências. Estas tendências têm que ser vistas como tendências e o eleitorado, neste momento, tem a tendência de estar a rejeitar a política do governo, mas até há pouco tempo, além de estar a rejeitar a política do governo, não tinha uma alternativa explícita sobre qualquer outro partido que pudesse nos dizer que neste momento há uma alternativa. Eu digo isto já há algum tempo, porque nós temos uma noção muito concreta que as sondagens, como nós sabemos, e eu também já fiz estatística e sei como é que essas coisas se fazem, têm sempre intervalos de confiança, têm sempre parâmetros que não se consegue cobrir e por vezes até a amostra que é feita pode ser uma amostra que tem alguns elementos que não consegue absorver. Há pouco eu ouvi um senhor dizer aí que a questão da timidez relativamente ao Chega. Eu quero dizer o seguinte: o Chega é daqueles partidos que chegou à sociedade portuguesa e que criou uma espécie de uma ruptura no discurso. Criou grandes adeptos fanáticos e criou pessoas que o odeiam. Portanto, este tipo de clivagem na sociedade portuguesa não temos muita história sobre isso. É porque é um partido novo que começou a fazer este tipo de movimentos eleitorais e até aqui não tinha havido isso. De qualquer maneira, uma coisa é o desejo que nós temos, e eu desejava que o PSD fosse neste momento a alternativa de governo, porque é um partido democrático, um partido de centro, mas um partido reformista, um PSD igual ao PS ninguém deseja, e portanto, o eleitorado neste momento quer que o PSD seja um partido reformista, que faça e que não deixe isto tudo na mesma, mas também nos diz que rejeita, ou pelo menos o eleitorado do PSD rejeita uma coligação com o Chega. Eu percebo isso, porque uma pessoa moderada não quer dizer que goste de se juntar a pessoas que não são moderadas ou que têm um tipo de política um pouquinho diferente. Só que existe neste discurso todo, e eu penso que isso vai acontecer na altura das eleições, eu já disse isto aqui uma vez e vou repetir outra vez: há uma massa silenciosa que não se pronuncia e que até nem diz tudo quando a sondagem é feita, por questões particulares, por questões de consciência, uma série de elementos, que deseja, efetivamente, que o Partido Socialista, a maioria absoluta que deram ao Partido Socialista há um ano e pouco, essa maioria absoluta, esse apoio eleitoral que o Partido Socialista teve, e foi verdade, neste momento, desapareceu. E é preciso que as pessoas tenham mesmo essa noção. Desapareceu. O Partido Socialista desperdiçou, através dos erros que nós percebemos e conhecemos, através de uma política que não é reformista, uma política que tem as suas dificuldades, mas foi montada num esquema de mentira e de descontinuidade. As pessoas percebem que existe, neste momento, apenas uma questão de gestão de poder. Veja que o António Costa, em qualquer pergunta que faça, mesmo agora sobre a CPI, ele não responde a nada. Aliás, ele acha que não tem que responder a nada. Portanto, montaram-se nesta maioria absoluta, acham mesmo que são os donos do Estado. Vejam, por exemplo, a relatora desta comissão da CPI, já tem um relato, que não é surpresa, que já está de acordo às medidas do Partido Socialista. Portanto, vão ver que o Partido Socialista, no final, não teve ali qualquer influência em nada na tapa. Isso não está no âmbito desta CPI. E portanto, as pessoas percebem isto, apesar de não serem todas especialistas, percebem que o Estado está neste momento capturado por um partido, que além de estar capturado, apenas gere o poder e não faz reformas, e quer mudar. E o PSD, neste momento, tem que se assumir claramente como alternativa. Não é dizer que deixam o governo governar porque nós estamos aqui para fazer. Não, neste momento, acho que o PSD devia dizer que neste momento está pronto para governar e que este governo já não pode governar nas condições em que tem. Agora, as questões, por exemplo, quando chegar a altura das coligações. Eu penso que o PSD tem que se assumir e ir à procura da maioria absoluta. Estou de acordo que não tem que dizer que tem que fazer acordos com o Chega, nem com a Iniciativa Liberal. Pode falar, por exemplo, com a Iniciativa Liberal, mas tem que se assumir por ele. Neste momento, não haver uma identificação com nenhuma coligação. Deve exigir ao Partido Socialista que faça o mesmo relativamente à esquerda radical, porque foi a esquerda radical que, na minha perspectiva, tem todo o direito de existir como partidos, mas se formos comparar, são contra a NATO, são contra a Europa, defendem uma sociedade diferente da nossa, são a favor da Rússia na guerra. Quer dizer, há uma série de elementos que fazem com que tenham contradições no sistema democrático que nós vivemos. E o Partido Socialista também devia ser obrigado, e os jornalistas também fazerem bem essa pergunta e não só ao PSD. Mas o PSD deve ir sozinho, deve admitir que quer alcançar uma maioria absoluta. Eu penso que é possível, porque esta massa silenciosa descontente, esses 70 e tal por cento que são contra o governo e a forma de governar, esses 70 e tal por cento, na altura das eleições, estou mesmo convencido, se o PSD for claro naquilo que quer fazer e não ter medo, esta timidez, este pelado sempre um pouco igual ao PS, mas um bocadinho melhor. Se for só assim, não chega lá. Mas se se assumir como alternativa, como partido reformista nas diversas áreas da governação e dizer ao que é que vai, eu penso que o presidente da República vai ter um argumento forte para que depois das eleições, e é aquilo que eu desejo, que depois das eleições europeias, consiga fazer uma dissolução da Assembleia da República e se vá a novas eleições. Porque apesar da dissolução da Assembleia da República criar problemas no país, porque há o PRR, mas o PRR, como já perceberam, tem sido um flop na sua implementação. Apesar de haver problemas graves no país e as eleições iam de alguma maneira aumentar um pouco essa instabilidade que existe neste momento, é preferível termos um novo governo do que continuarmos com o Partido Socialista a fazer o que tem feito e a dar cabo daquilo que já resta pouco do nosso país, que chegamos a uma situação, e eu estou a falar mesmo económica, porque os resultados económicos que vêm aí são muito maus, apesar de o governo, e como vocês sabem, o governo estar cheio de dinheiro à conta da inflação, mas as pessoas estão pior.

E por isso acha que este estudo ajuda a confirmar a ideia de que existe uma alternativa ao atual governo?

Penso que sim.

Após eleições europeias, será uma boa data para o Presidente da República voltar a avaliar a situação política. Armando Barata, muito obrigada por nos ter ligado, falando aqui de uma massa silenciosa que não diz tudo quando é questionada nestes estudos de opinião. Em Lisboa está também o nosso próximo ouvinte inscrito, o Domingos Silva, que é empresário. Bom dia.

Olá, Rádio Observador, bom dia.

Bom dia.

Acho sempre muito engraçado esses estudos, estas sondagens, essas coisas todas, e continuar-se a verificar que a alternância democrática em Portugal é PS, PSD. Parece um metrónomo. PS, PSD, PSD, PS. Parece um metrónomo. Mas desiludam-se, porque é exatamente, e como dizia o camarada Jerónimo, é exatamente farinha do mesmo saco. E só o citei por acaso, não o citei por qualquer afinidade. Vou só deixar uma pequena história, uma pequena situação. Vou tentar não dizer os nomes, embora vocês imediatamente comecem a perceber quem são as pessoas, apesar de não nomeadas. Estava alguém a protestar por causa de uma injustiça que cometeram com essa pessoa e vários grupos parlamentares se dirigiram a essa pessoa, uns dando a sua solidariedade, outros perguntando no que é que podiam ajudar. E o grupo parlamentar do PS não apareceu, mas apareceu o grupo parlamentar do PSD. Apareceu o grupo parlamentar do PSD muito bem representado por todos os seus vice-presidentes da Assembleia da República. E o que o grupo parlamentar do PSD veio ajudar, veio propor? O grupo parlamentar do PSD veio propor a quem estava a fazer essa contestação, veio-lhe propor o seguinte: olhe, acaba com a contestação que está a fazer e se acabar com a contestação que está a fazer, nós damos-lhe um lugar em qualquer câmara do país e com habitação, com casa, e também pra sua família, e também com emprego pra sua esposa. Eu volto a repetir, no caso não tenham percebido. Os vice-presidentes do PSD não prometeram lugar em câmaras do PSD, prometeram lugar em qualquer câmara do país. Isto mostra à sociedade este exemplo que se alguém percebe ou tenta enviesar a questão de que PS e PSD são dois partidos com algum antagonismo e com ideias diferentes, não há aqui nada de diferente. E acho muito estranho este servilismo do PSD relativamente ao PS, perante esta proposta que foi feita à pessoa, uma proposta perfeitamente obscena. Aliás, foi o que a pessoa me disse e me comunicou, foi exatamente isto, uma obscenidade total. Rádio Observador, obrigado pelo vosso tempo Continuação de bom dia, boa semana. Muito obrigado.

Prazer também, Domingues Silva. Muito obrigada. Uma boa quarta-feira, boa semana que ainda falta aqui com esta crítica, afinal todos farinha do mesmo saco. Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Bem-vindo também, Rui Pedro, aqui ao Contra Corrente. Afinal, há alternativa ou há uma rotatividade previsível?

Olha, Carla, eu acho algo curioso deste estudo, de facto, é que o PSD consegue estar dois, três pontos acima do PS, o que não se tem visto muito. Anda ali um ponto à frente, um ponto atrás, às vezes vem por aí abaixo, outras parece estar a arrancar e não consegue. Portanto, essa perspectiva é interessante para Luís Montenegro. Às vezes quando as sondagens são más, os partidos desvalorizam, mas quando são boas nunca deixam de dar alento ao partido em questão. Mas há aqui desde logo um problema, além daqueles que o José Manuel referiu e que alguns ouvintes também referiram, de depois mudar a percepção mais junto das eleições e do PS poder distribuir riqueza e outro tipo de benefícios para o eleitorado, que é a questão de não saber contra que PS é que Luís Montenegro irá concorrer. Ou seja, neste momento este PS tem este valor, mas está ainda personificado na cabeça das pessoas em António Costa. E apesar dessa corrente que anda por aí a dizer que é possível ele ir em 2026, ninguém acredita que propriamente o primeiro-ministro vá de novo a votos. E, portanto, desde aí há logo que fazer esta ressalva, mas não deixa de ser positivo para o PSD até depois de um ano em que nem sempre tem sido boas notícias. Vamos ver outra coisa, que é a falta depois de um impacto pós-europeias, que poderá ter aqui ou não um impacto grande conforme aquilo que for o resultado do PSD. Há quem diga que o PSD, ou pelo menos os comentadores da ala da direita, às vezes têm um wishful thinking que o PSD poderá ganhar, mesmo que por pouco, apesar do impacto do Chega e da IL, e da Iniciativa Liberal. Mas pode ser muito difícil, por exemplo, o PS colocar uma figura que pode ser mais ou menos popular. Agora fala-se muito de Marta Temido, que tem aquele Christina Factor. É popular junto de várias casas, entra de várias maneiras, entrou durante vários dias e, portanto, tudo isso vai influenciar. Sobre também o estudo em específico, mas estes dados gerais, Carla, acho que são positivos e mostram que Luís Montenegro pode chegar lá. Mesmo que se troque aqui o rosto do PS pelo caminho, que é previsível que aconteça. Depois, sobre a rejeição das coligações pré-eleitorais, podemos dizer que o eleitorado é esperto, sem nenhum sentido pejorativo do termo, porque, de facto, as coligações pré-eleitorais acabam por não interessar a ninguém. A única coisa que interessa é eventualmente no método d'Hondt, em distritos mais pequenos, em que às vezes há ali uma disputa entre PS e PSD, e absorver os votos de um outro partido pode ser interessante para ganhar mais um deputado e no cômputo nacional ter mais sete ou oito deputados com base naquilo que é a influência do método d'Hondt, mas quase ninguém ganha com isso, porque não pode afirmar as ideias individualmente, perde lugar nos debates. Já não sei, mas, por exemplo, em 2011 era Pedro Passos Coelho, aliás, em 2015 era Pedro Passos Coelho que ia aos debates televisivos. Paulo Portas ficou fora dos debates televisivos, o que era desde logo uma perda, porque ele era bom nos debates. E, portanto, nesse aspecto, ninguém ganha com isso e acho que os eleitores não é sinal claro. Nem o PSD ganha mais indo sozinho, e isto também é um sinal importante para o próprio PSD de Luís Montenegro. Outra coisa que eu acho muito interessante, em termos de boas notícias, é que se nós olharmos, 31% dos inquiridos, é quase um terço, que votaram no PS, consideram provável ou muito provável votar no PSD. Ou seja, isoladamente. Ou seja, é quase um terço dos eleitores que votaram no PS, que responderam a este estudo, que consideram. Enquanto que se o PSD for com a IL, com o CDS ou com os dois, esses valores baixam para metade, só 15, 14 ou 12% desse eleitorado é que admitiria votar no PSD. Portanto, isto é interessante.

E é dar, Rui Pedro, é dar razão ao que dizia Rui Rio. As eleições conquistam-se ao centro.

Ao centro, exatamente. E nesse aspecto está aqui a prova. E vemos isso também no quê? Vocês têm falado muito esta manhã aí na taxa de rejeição do Chega, que é de facto muito elevada. Só mais uma coisa sobre o Chega, é que também 29% dos eleitores do Chega admitem agora votar no PSD, o que também é bom, apesar de se conquistar ao centro, haverá sempre uma parte do eleitorado. Qual é a diferença aqui? É que a franja é muito mais pequena de eleitores do Chega do que a franja de eleitores do PS. Portanto, ao PSD será sempre mais proveitoso ir buscar esses eleitores ao PS que perdeu ao centro. Mas nessas taxas de rejeição, e agora numa perspectiva pós-eleitoral, e aí as coligações são possíveis, e o eleitorado do PSD mostra estar muito confortável com a Iniciativa Liberal, 76% estão confortáveis com essa opção, juntando aqui as opções que consideram positivo ou muito positivo, o que significa que o eleitorado do PSD quer que no dia a seguir, Luís Montenegro e Rui Rocha, se forem eles os líderes, se sentem para discutir o governo e para fazer uma coligação pós-eleitoral, se aí for necessário para haver uma maioria governativa. E o mesmo não acontece com o Chega. Há uma grande rejeição, quase na mesma medida. 72% do eleitorado do PSD que não quer que o Dias se queira as eleições, Luís Montenegro se sente com o Chega. Isto são tudo sinais importantes para aquilo que é o discurso político de Luís Montenegro, que tem aqui várias pistas para onde ir. É interessante que o CDS aparece ali, Carla, e deixa-me só dizer que o CDS é um partido que provavelmente não terá expressão eleitoral, até porque não há um círculo de compensação nacional. Se houvesse, talvez tivesse um deputado, dois, três, mas será difícil voltar a eleger. Mas o CDS é um partido dos poucos que tem experiência governativa ou tem quadros com experiência governativa, porque o PCP e o Bloco entraram no chamado arco da governação, mas não na governação. E portanto, já há várias vezes nisso o CDS, se calhar o PSD gostava de contar com Pedro Mota Soares, com Alcides Meireles, com Nuno Magalhães e com outros para o seu governo. Isso significa que o CDS, aquilo que não tem como resultado eleitoral, tem como quadros que podia oferecer numa coligação pós-eleitoral e acho que nesse aspecto, o PSD também não se importaria. Agora é preciso é o CDS ter votos.

Sim. Estamos aqui nestes cenários de coligações pós-eleitorais à direita. Houve, em tempos, um almoço entre Luís Montenegro e Rui Rocha, depois publicamente não houve mais sinais. O que se passará? Os dois partidos entenderam que o próximo almoço tem que ser depois das legislativas?

Sim, eu acho que isso justifica-se por um ponto que é, numa fase até às eleições, sejam elas quando forem, e isto também é válido para as europeias, os partidos ganham muito em marcar a diferença. Ou seja, a Iniciativa Liberal quer marcar muito a diferença de como é um partido diferente do PSD, que é mais do sistema, é mais de centro, é social-democrata, ou pelo menos na sua base é social-democrata, enquanto a verdadeira casa liberal é a Iniciativa Liberal e isso ganha muito em marcar a diferença. O PSD, obviamente, também não quer que continue o êxodo de eleitores do PSD para a Iniciativa Liberal, que começou nas últimas eleições de uma forma mais clara. E portanto, acho que eles ganham um bocadinho em ser amigos, admitir uma conversa para depois, mas agora não aparecerem assim tantas vezes como as pessoas podiam pensar que era possível.

É mais um havemos de beber um café um dia destes, não é?

Exatamente.

Tu estavas a falar desta grande incógnita que é a liderança do Partido Socialista nas próximas legislativas, se isso pode criar várias variáveis à direita, à esquerda também. Bloco de Esquerda e PCP, eventualmente mais até Bloco de Esquerda, vai depender muito de quem será o próximo candidato do PS.

Nós estamos a ver já nesta sondagem um certo arrependimento, isso é uma coisa um bocado mais cristã, mas parece que também atinge os bloquistas. Mas o ponto é, acho que as pessoas caíram na conversa do papão do Chega e que foram no voto útil do PS, parecem estar a começar a querer voltar. Resta saber se um líder como Pedro Nuno Santos será suficiente para o eleitor tipo do Bloco votar.

De Mariana Mortágua, que também será testada, digamos assim.

Sim, ou seja, se perante Mariana Mortágua e Pedro Nuno Santos como líder do PS, se eles continuam a preferir Mariana Mortágua, ou se pelo facto do líder do PS já não ser António Costa, que está lá ao centro e ser alguém da ala esquerda do PS, se isso poderá fazer com que algum do voto útil que migrou para o PS em 2022, continue no PS de Pedro Nuno Santos. Haverá outra coisa curiosa, Carla, que é nós vimos aqui que 30% dos que votaram no PS admitem votar no PSD. Este eleitorado de centro pode ter medo do papão Pedro Nuno, até porque à direita dará muito jeito começar a vender um Pedro Nuno marxista, extremista e encostado ao Bloco de Esquerda. E portanto, isso tudo pode influenciar depois as eleições quando elas ocorrerem.

Quando elas ocorrerem. Rui Pedro Santos, obrigada por teres vindo aqui também ao "Contra Corrente". Muitos cenários em cima da mesa, José Manuel Fernandes. Isto é mais do que lúdico, isto ajuda-nos efetivamente a perceber como é que o eleitor olha para além da espuma dos dias, para o que é vida política em Portugal.

Sim, eu acho que o eleitor vai procurando, apesar de tudo, vai estando atento, e há aqui sinais dessa atenção, quer na zanga, digamos assim, com o governo e com o Partido Socialista, quer no facto de ir seguindo os vários partidos e estar atento aos seus posicionamentos. Nós não falámos aqui, por exemplo, do Bloco. O Bloco tem uma subida. Isto já conhecido como Mariana Mortágua, conhecido como o mês em que a Mariana Mortágua é entronizada. Habitualmente, a atenção mediática favorece os partidos e portanto, nos meses em que há um congresso, o partido que faz o congresso aparece com mais votos. Mas o PCP também já passou por isso e não beneficiou muito. Agora, eu acho que há aqui uma coisa que é relevante, que é saber, quando se diz: as eleições ganham-se ao centro. As eleições ganham-se ao centro a partir de posições bem assumidas e não a partir da diluição das alternativas e das políticas. Às vezes há aquela ideia "eu tenho que ter uma política mole para ganhar uma eleição". Não, há eleitores de centro que oscilam, ou melhor, eu não gosto muito do termo de centro, há muitas pessoas que não são capazes de se identificar tão claramente do ponto de vista ideológico Mas olham para as diferentes propostas e aderem a elas em função disso. E quando nós olhamos, por exemplo, para a forma como circulam os votos entre os partidos, vemos que um partido como o Chega vai naturalmente buscar a maior parte dos seus votos aos outros partidos de direita, mas também vai buscar votos ao PCP, ao próprio Bloco, ao Livre, por estranho que isso possa parecer. Portanto, há aqui uma circulação de votos importante, sendo que, atenção, este aspecto é muito relevante: numa eleição vota um pouco mais de 50% dos eleitores. Se considerarmos só o continente, que é onde os votos se traduzem em mandatos, pode até valer 60%. Estes 40% de eleitores que não votam não são só eleitores que não votam sempre, são eleitores que nesta eleição decidiram não ir votar porque, por uma razão ou outra, não estão convencidos com o partido onde habitualmente votam. A participação eleitoral, tirar os eleitores de casa para os levar a votar, não é só nos Estados Unidos que determina muitas vezes como é que as eleições são ganhas ou são perdidas, também é em Portugal. Isso significa que, do ponto de vista da afirmação de políticas, ter a afirmação de políticas mobilizadoras, e isso muitas vezes faz-se por contraste e não por afinidade, é muito relevante para tirar essas pessoas de casa. Eu costumo dar este exemplo, até julgo que já uma vez citei aqui. Eu lembro-me quando foi aquela eleição em Espanha, onde não sei se foi o Aznar, se foi já o Rajoy, perderam para o Zapatero, quando todas as sondagens até à véspera diziam o contrário. Estamos a falar da eleição que foi a seguir aos atentados da Atocha, aos atentados de Madrid. Houve ali uma questão que se passou entre uma tentativa de manipulação da opinião pública e, de repente, houve uma grande mobilização dos partidos, digamos, dos eleitores de esquerda, que deram uma vitória inesperada aos socialistas, ao PSOE. Isto foi mobilização. E eu quando me apercebi do que estava a passar, achei aquilo estranho. Comecei a ver, chegaram os resultados e não estava a perceber o que se estava a passar. Em Madrid consegue-se ver a votação por bairro e não apenas por freguesia. E fui ver bairros que tradicionalmente votam mais à direita, o chamado Bairro Salamanca, que é uma zona rica de Madrid, e depois uma zona que vota tradicionalmente mais à esquerda, que é Lavapiés, que fica ao sul da Praza Maior, que é uma zona pobre. E de repente vi a abstenção a baixar muito em Lavapiés e a subir em Salamanca, e disse: "Pronto, foi isto que aconteceu. O PSOE vai mesmo ganhar essas eleições, apesar de ainda só estarmos com os primeiros resultados que estão a chegar." E eu acho que isso não se faz apenas por os partidos fazerem políticas ao centro. Os partidos não podem insultar os eleitores, como é óbvio, portanto, têm que fazer políticas sensatas, mas têm que muitas vezes afirmar as suas diferenças, e as suas diferenças também são mobilizadoras. Portanto, aquela ideia de que eu tenho que me apagar as minhas diferenças ideológicas para ganhar os eleitores, é uma ideia que não é verdadeira. E se quisermos a prova disso, é o próprio António Costa. Ou se quiserem, também Passos Coelho, também não apagou as suas diferenças. As últimas pessoas que ganharam eleições em Portugal foram as que não apagaram diferenças e aquelas que as apagaram, como Rio, perderam.

E não é só uma questão de estilo ou de carisma.

E não é só uma questão de estilo e de carisma, também é capacidade de mobilizar pessoas em torno de ideias, em torno de políticas, mobilizar e não as assustar. É preciso ter cuidado com este balanço. Mas ganhar ao centro é mobilizar as pessoas para ir votar e não apenas achar que há ali uma mole, uma massa inerte de eleitores que ora andam para um lado, ora andam para o outro, que é um pouquinho mitológico, em termos de massa inerte de eleitores.

José Manuel Fernandes, chegou ao fim este "Contra Corrente", com aquelas interrupções que a atualidade nos obrigou a fazer, até porque continuam a surgir as reações ao relatório preliminar da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP. Amanhã voltamos mais uma vez em "Contra Corrente". Até amanhã.