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Já aqui está o José Manuel Fernandes. Vamos conhecer o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto depois das 10:00, só tem que ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. Carla.
Mais uma greve geral, desta vez só da CGTP e nas vésperas de um feriado, uma greve contra um pacote laboral que já não está na concertação social, a 12ª greve geral desde o 25 de abril. Mais logo vamos discutir números sobre a adesão, sendo quase certo que falaremos, sobretudo, de números de adesão no setor público, até porque no setor privado só um em cada 15 trabalhadores está hoje sindicalizado. Mas no Contracorrente de hoje, não queremos voltar a discutir os motivos desta greve. Queríamos antes tentar perceber como nasceu e como evoluiu o movimento sindical e que importância tinham os movimentos grevistas no passado, por comparação com os dias de hoje. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
A história dos movimentos sociais e do sindicalismo está longe de ser pacífica, não está?
Está longe de ser pacífica, mas é uma história muito interessante, porque é uma história que é muito marcada pela evolução da economia, sobretudo o aparecimento da indústria, que é um fenômeno sobretudo do século 19. Mas há greves em Portugal e no mundo antes disso. Há uma coisa muito curiosa, um dos primeiros estudos realizados sobre greves em Portugal, ou melhor, um dos estudos mais sistemáticos, que foi publicado na "Análise Social" pelo José Manuel Tangarrinha, vai até ao século 18. Não há estatísticas, portanto é feito com base em notícias de jornais. E ele teve necessidade de incluir, por exemplo, as greves dos pequenos comerciantes, dos ofícios, que hoje não consideraríamos como greves, porque no fundo são greves de trabalhadores independentes ou pequenos patrões, mas que tiveram muito peso em determinada altura e, no caso de Portugal, é muito relevante até na própria história do sindicalismo, porque nós nunca tivemos, ou só tivemos muito recentemente e muito episodicamente, grandes fábricas, grandes indústrias, coisas com um peso importante, sendo que onde aparecia esse tipo de infraestruturas, nós tivemos algumas das nossas greves mais relevantes. Por exemplo, há greves praticamente desde o século 19 na Marinha Grande, que é um centro vidreiro. Há uma grande identificação de algumas regiões do país com períodos de greves. Hoje em dia já é diferente. Por exemplo, o Barreiro, a CUF, uma greve em 1943, ainda durante a guerra. Mas a forma como em Portugal o movimento operário, o movimento sindical nasce de uma forma bastante desarticulada e depois muito caótica. Nós vamos ter cá hoje um convidado que nos vai falar de uma greve muito interessante, muito marcante no Porto, em 1903, uma greve das tecedeiras. Era uma greve sobretudo de mulheres, que durou imenso tempo, que levou a que houvesse movimentos, porque na altura quem estava em greve passava fome, que é uma coisa que hoje é inimaginável. Porque não recebia. Era uma coisa muito desesperada, muito sanguínea. Temos momentos em que isto está ligado muito primeiro aos anarquistas, depois quando os anarquistas é que dominam o período da Primeira República, que é quando temos, porventura, as greves mais violentas. Depois temos os comunistas, sobretudo, a dominar, que ainda hoje dominam. A CGTP está ligada ao PCP e é obviamente uma coisa do PCP. Agora, vamos chegar à atualidade e vamos ver aquilo que se está a passar em Portugal. Nós tínhamos mais de dois terços de sindicalizados nos anos 70. Logo assim que houve o 25 de Abril, tínhamos um nível de sindicalização muito elevado e vínhamos por aí abaixo. Os números podem variar, não são muito fidedignos, mas no setor privado, como disseste, é 7%, que é um em cada 15 trabalhadores, é quase nada. No setor público será um pouco maior e passa-se cá o mesmo que se passa noutros países. Há mais greve no setor público do que no setor privado. Esta greve, por exemplo, é sobretudo setor público, apesar de o pacote laboral ser sobretudo para o setor privado. Mas independentemente, não vamos voltar ao pacote laboral. Vamos falar um pouco disto, porque é interessante ver até o que isto representa hoje. Porque se calhar, uma das razões para nós termos tão pouca sindicalização tem a ver com o poder que demos aos sindicatos, nomeadamente com uma coisa chamada portarias de extinção, que não obrigam as pessoas a serem sindicalizadas, e ao não serem sindicalizadas, também desresponsabilizam as lideranças sindicais.
Vai ser muito interessante, de certeza, até no dia de hoje estarmos a olhar para isso. Até já, José Manuel.
Até já. 91 002 41 85 para participar no Contracorrente e entrar em direto depois do jornal das 10.