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O mês de junho foi o mais quente desde que há registro e no início desta semana, bateram-se recordes de temperatura. Afinal, de quem é a culpa? Ligue até ao meio-dia. Queremos ouvi-lo. A sua opinião conta. O número de telefone para participar no Contracorrente é o 91 002 4185. Pode acompanhar, claro, como sempre, o Contracorrente em direto nas nossas plataformas, rede social, YouTube e Facebook. Utilize a caixa de comentários para deixar a sua opinião.
Em Portugal, entramos no mês de julho com temperaturas ligeiramente mais baixas do que as registadas no final de junho, mas se considerarmos a evolução à escala global, tivemos esta semana, na segunda, terça e quarta, os três dias mais quentes de sempre, com a temperatura média do globo a ultrapassar sempre e pela primeira vez os 17 graus. Entretanto, confirmou-se que teremos El Niño e que pode ser um El Niño forte, pelo que se esperam perturbações climatéricas nos próximos meses. Com mais portugueses a começarem hoje as férias, este fim de semana, queremos discutir no Contracorrente se, como alguns receiam, as alterações climáticas estão a ocorrer ainda mais depressa do que se pensava e esperava. José Manuel, é verdade que já passamos a fasquia de 1,5 dos acordos de Paris?
Neste momento estamos com mais 1,5, mas não passamos ainda, no sentido de que aquilo não era uma temperatura média durante um período alargado e, portanto, não parece ter acontecido. Estamos, de facto, com uma anomalia neste momento. Aliás, o IPMA tem umas previsões a longo prazo, que se encontram no site, não dá para o dia seguinte, mas diz que nestes próximos meses, julho, agosto, setembro, vamos ter o que eles chamam anomalia positiva, depende da perspectiva do que quer dizer positivo.
É como o bom tempo e o mau tempo, não é?
Mais quente de um grau, um grau e meio, em relação ao que é habitual nesta época. Isto quer no continente, quer na Madeira, nos Açores vai estar mais moderado. Nos Açores é mais moderado.
É como em Sintra, não é?
Como em Sintra. Exatamente. Neste momento, à escala global, as temperaturas estão não apenas um grau e meio acima daquilo que era a base pré-industrial, porque é aquela que serve para os acordos de Paris, estão também, um pouquinho menos, meio grau, mais ou menos, acima da média de 1991 a 2020, portanto, dos últimos 30 anos. E junho bateu o recorde do mês de junho mais quente, que foi 2019. Sendo que o ano mais quente não foi 2019, foi 2016, que é o último ano que nós temos de El Niño, mas já vamos ao El Niño.
Sim.
Portanto, o que temos é que comparar, de facto, com esse nível pré-industrial. Agora, há algo que está previsto, designadamente pela Organização Meteorológica Mundial, que é que há dois terços de probabilidade, portanto, há uma alta probabilidade, de a média das temperaturas daqui até 2027 estar muitas vezes acima dos tais 1,6 graus do nível pré-industrial. Ora bem, antes de ir ao El Niño, por que se diz que as temperaturas estão neste momento tão elevadas? Aparentemente, a culpa é porque a água do mar está quente. A água dos mares está mais quente um pouco por todo lado. Sendo que, no caso concreto aqui do Atlântico Norte, as temperaturas em maio, que são as últimas que eu encontrei, estavam 1,6 °C mais elevadas do que é habitual. Isto parece pouco, a gente olha assim e parece pouco, mas é imenso. Estamos a falar de uma variação imensa. Sendo que em algumas áreas, por exemplo, em redor do Reino Unido, a diferença é maior. O que nós também sabemos é que as temperaturas do mar excluem os polos, na medição. Portanto, é 60° norte, 60° sul e, de facto, nesse período, esteve mais elevado. E a probabilidade estimada de estar tão elevado é uma em 70 mil.
Uma em 70 mil, estamos mesmo num caso excepcional.
Estamos mesmo numa coisa fora do que se podia prever como variação normal das temperaturas. Não há muitas explicações muito claras para o que está a acontecer. E há várias teorias. Por exemplo, uma das teorias é que, no Atlântico, o nosso anticiclone dos Açores não está a funcionar como costuma, os ventos não estão a levar as poeiras do Saara para cima do mar. Nós já apanhamos alguns dias aqui em Portugal com poeiras do Saara, mas elas não estão a ir para cima do Atlântico. E quando as poeiras vão para cima do Atlântico, elas bloqueiam a radiação solar e, dessa forma, o mar aquece menos, a superfície da água aquece menos. Outra questão que se fala que pode estar a acontecer é que tem vindo a entrar em aplicação um conjunto de normas antipoluição Que tiram também partículas do ar. E essas partículas do ar, o fog, que a gente às vezes fala, as cidades hoje estão muito mais limpas, designdadamente aquelas que vêm dos países que têm mais indústria, que é os Estados Unidos, estarão a deixar algumas zonas do Atlântico menos barradas à radiação. É uma explicação, o que mostra uma coisa que é muito interessante. Dá pra pensar, é que medidas que são indiscutivelmente positivas, baixar a poluição, às vezes têm resultados não previstos. Só pra te dar outro exemplo, se bem que este aqui as pessoas falam dela, mas não tem nem medições, e o que se diz é que poderá ter uma influência microscópica, quase. Mas a gente quando fala de influências microscópicas, lembramos sempre do bater de borboletas em Pequim. Mas em termos de influência microscópica, é que entrou em vigor agora há muito pouco tempo, normativos para os combustíveis dos navios de mercadorias, portanto, os navios mercantes, a Marinha Mercante, os grandes cargueiros, os grandes petroleiros, por aí adiante, que tiram gases sulfurosos, portanto, enxofre, porque o enxofre estava muito presente nesses combustíveis pesados, que são superpoluidores. E também isso faz que nas rotas marítimas poderá haver menos partículas no ar do que era habitual. Mas estamos a falar de risquinhos no meio dos oceanos. Ninguém consegue prever o que está a acontecer, mas, mais uma vez, é um pequeno sinal de que pode haver, às vezes, efeitos perversos. Agora, dito isto, há uma coisa que nós temos a certeza absoluta que provoca sempre um enorme efeito, que é o El Niño. Ora bem, o El Niño, em inglês é ENSO, El Niño Southern Oscillation, Oscilação Sul El Niño. Basicamente, o que se passa aqui? Vou tentar explicar de forma o mais simples possível. No Pacífico, estamos a falar do Pacífico, não é Atlântico, no Pacífico, há uma corrente que basicamente corre da costa da América do Sul em direção ao outro lado do Pacífico, em direção à Austrália e à Indonésia, por aí adiante. Essa corrente é uma corrente que quando os chamados ventos alísios, que são os ventos constantes da zona do Equador, estão mais fortes, puxam essa corrente, que vai aquecendo mais depressa em direção ao Ocidente, em direção, neste caso concreto, à Indonésia e à Austrália. E nessa altura, as águas mais frias que estão em profundidade junto à costa da América Latina, já a América do Sul, vêm ao de cima, chama-se a isto um fenômeno, agora não estou lembrando o nome exatamente. Ressurgência. É um fenômeno de ressurgência, e portanto, tornam com que as águas do Pacífico fiquem mais quentes. Quando isso acontece, muda tudo. Isto começou a chamar-se El Niño. Este nome foi dado pelos pescadores dessa costa, pescadores de língua castelhana, daí o El Niño. E vem o nome El Niño, porque habitualmente o fenômeno costumava aparecer em dezembro e, sobretudo, manifestar-se a seguir ao Natal. O El Niño é o menino Jesus que tinha chegado.
Mas porque era um fenômeno bom para os pescadores?
Não, era um fenômeno mau. Era um fenômeno que tem várias consequências a nível local, mas a pesca aqui é muita anchova, e a anchova desaparecia com este fenômeno. E houve períodos mesmo de grande crise da pesca de anchova. Não era bom, além de que depois provocava outros fenômenos. Provocava nuns sítios inundações, noutros sítios, cheias.
Secas, quer dizer.
Secas, quer dizer. Perdão, cheias e secas. O El Niño tem uma La Niña. A La Niña é o reverso do El Niño, quando a corrente fica mais lenta e fica mais fria. E estes dois fenômenos não se sabe quando é que vão aparecer, porque a relação do mar com a atmosfera ainda tem muitos aspetos menos conhecidos, não se consegue prever. Habitualmente, o El Niño aparecia mais vezes que La Niña, agora tem se equilibrado nos últimos tempos. Mas há registros sobre isto muito antigos, em que se tem noção um pouco destas oscilações.
Nomes inofensivos para fenômenos com um impacto enorme.
Para fenômenos com impacto brutal. A nível local, eu vou falar disto, até porque é uma zona onde já estive e que é maravilhosamente bonita, que é Galápagos. As Ilhas Galápagos ficam precisamente no meio desta corrente. As Ilhas Galápagos ficam em cima do Equador e esta corrente passa por lá. Eu tomei banho quando lá estava e a água é fria. É Equador, mas a água é fria, ou estava fria nessa altura. Está a aquecer e isso tem consequências dramáticas pra fauna dos Galápagos. Todos nós sabemos que os Galápagos é aquelas ilhas onde o Darwin olhou pras tartarugas e pra outras espécies, e ajudou a formular a teoria da evolução, da seleção natural. Há 40 anos, em 1982 ou 83, houve um El Niño particularmente forte Só para teres ideia, nos Galápagos há uns pinguins. Uns pinguins pequeninos, muito engraçados, eu vi-os quando lá estive. Esses pinguins quase desapareceram, porque eles são muito dependentes da temperatura da água, é pinguins de água mais fria, a gente até associa a isso, mas não são só os pinguins, por exemplo, as iguanas, muito típicas também dos Galápagos.
Muito caras a Darwin também.
Muito caras a Darwin. Alimentam-se de algas verdes e com as águas mais quentes, há uma explosão das algas vermelhas que não servem para a alimentação deles. Os corais, que nós associamos a águas quentes, no entanto, os corais são muito sensíveis à temperatura. Os corais desapareceram, nesta altura, 90% dos corais morreram na altura do último El Niño. Entretanto, houve uma grande recuperação da natureza, mas há muitos receios de que um outro El Niño forte, porque o meio natural não conseguiu recuperar até aos níveis pré este último El Niño. É evidente que os Galápagos já estão muito desequilibrados em termos de equilíbrios naturais, já não são os Galápagos do Darwin. Agora, aquilo que nós sabemos é que há medições muito antigas sobre as cheias ou não cheias na zona do Nilo, desde o tempo do princípio da civilização islâmica, portanto, 1500 anos de anotações. E conseguiu-se já estabelecer uma relação entre aquilo que se considera poder ser anos de El Niño. E isto tem a ver com o estudo de como o El Niño influencia o clima em algumas regiões, designadamente, por exemplo, no sul dos Estados Unidos, e depois com a medição dos anéis de crescimento das árvores, que permitem perceber se foi ou não foi ano de El Niño. Tudo isto é muito interessante, mas permite perceber isso. E consegue-se estabelecer uma relação entre cheias no Nilo ou secas no Nilo, ausência de cheias no Nilo, e o El Niño, porque o Nilo vem lá de baixo, no meio de África, e essa zona, atualmente é uma barragem, mas que na altura eram as quedas d'água do Aswan, pode variar muito de ano para ano, e se variar muito, desde os faraós que há registos de secas absolutamente catastróficas ao ponto de morrer 20, 30% da população do Egito. Isto é muito longe. Uma das maiores catástrofes que houve na Índia, registada historicamente, é também uma grande seca na viragem do século, não é do passado, é do anterior, século 19 para o século 20, já com a administração britânica, portanto, os registos aí são melhores. Não quer dizer que o socorro tenha sido melhor, não foi nada, morreram muitos milhões de pessoas e também está associado a um El Niño particularmente forte. Aliás, há El Niños muito fortes em meados do século 19 e no fim do século 19. E depois houve uma certa acalmia durante grande parte do século 20. Mas, por exemplo, nesse El Niño de 82, 83, as perdas só na economia americana, estão estimadas em 4,1 trilhões de dólares. A gente tem dificuldade em saber quanto é um trilhão, mas um trilhão é milhão de milhão, portanto, é uma coisa gigantesca. Não é mil milhões, é milhão de milhão. E no mais recente, houve um outro El Niño em 97, 98, ainda foram superiores, foram 5,7 trilhões. Portanto, o que é que pode acontecer com um El Niño forte outra vez, em termos económicos apenas, porque depois em termos de clima, não se sabe muito bem. Tudo isto para dizer que o facto de termos um El Niño a nascer, atenção, ele só se vai manifestar a sério mais perto do Natal, precisamente. E para essa altura, a estimativa é que as temperaturas à superfície estejam entre três graus a quatro graus mais elevadas, temperatura do mar, do que o habitual. Estamos a falar de uma diferença grande. Agora, se o El Niño talvez tenha sido o primeiro grande fenômeno climático a chamar a atenção, reparem, em 82, 83, praticamente não se falava de alterações climáticas. Havia, na altura, enfim, quem falasse disso. Nos anos anteriores, década de 1970, ainda se pensava que se calhar a temperatura podia estar a descer, podíamos estar a caminho de um novo período glaciar, era do gelo. E depois, de repente, percebeu-se que não, que o caminho era outro.
Se calhar, anos 80 do século passado, falava-se da camada do ozono, começavas a falar sobre isso.
Houve dois grandes temas nessa altura, que foram nos anos 80, ambos resolvidos. Às vezes nós conseguimos resolver temas ambientais, que era as chuvas ácidas.
Sim.
As chuvas ácidas, que eram basicamente chuvas que aconteciam no centro da Europa por causa da indústria, sobretudo a indústria do Reino Unido e dos Países Baixos, que consumiam carvão. Mas praticamente o carvão desapareceu. Sabemos o que é que foram as greves das minas de carvão no tempo da senhora Thatcher, década de 80. Às vezes a gente diz que está tudo ligado, e está tudo ligado. E o outro foi a camada do ozono, que eu me lembro dos meus miúdos quando andavam na escola, diziam: "Não uses os sprays, cuidado com os frigoríficos." E tudo isso foi alterado e hoje em dia a camada do ozono recuperou. É mais complicada as alterações climáticas relacionadas com a acumulação de gases com efeito estufa na atmosfera. É mais complicado e sabemos que é muito mais complicado. Seja lá como for, nós às vezes achamos que os excessos climáticos são só de agora. Mas, por exemplo, a maior tempestade que há memória no Reino Unido foi em outubro de 1987, portanto, década de 80. Caíram no sul da Inglaterra 15 milhões de árvores. 15 milhões de árvores? 15 milhões de árvores. A maior cheia do Bangladesh foi em 88. Falou-se muito de uma cheia que houve este ano, mas foi uma cheia pequenina. A maior foi em 88. A maior cheia do Mississippi foi em 93. Portanto, foram coisas de há uns anos. Seja lá como for, eu gostava de chamar a atenção para isto: nós estamos perante um fenómeno que, em muitos aspectos, aprendemos muito. Hoje em dia, a meteorologia e a previsão climática é muito mais sofisticada, mas há muitas coisas que nós não sabemos e temos dificuldade em perceber. Por exemplo, nós sabemos que há três milhões de anos, a temperatura, pelos métodos que nós conseguimos medir a temperatura, claro, são métodos indiretos, não tínhamos termômetros há três milhões de anos, era mais ou menos idêntica à temperatura atual, com níveis de CO₂ também parecidos, portanto, de dióxido de carbono também parecidos. No entanto, repara, o mar estava 60 metros acima do que está hoje. Não é 60 centímetros, é 60 metros. Por quê? Verdadeiramente, nós não conseguimos dar muito boa resposta para isto. Nós sabemos que o mar pode ter oscilações de nível brutais e até nos custa imaginar como elas podem ser brutais. Quando foi a última glaciação, a glaciação de Würm, o nível do mar estava mais de 100 metros abaixo do que está hoje. A nossa plataforma continental estava à vista. Ia-se a pé pelo Canal da Mancha, de França. Todo o Mar do Norte estava fora d'água. Portanto, ia-se a pé de Paris para Londres, se houvesse Paris e Londres nessa altura. Podia-se ir a pé ou de bicicleta, sem ter que apanhar o comboio por baixo do túnel. Como é que essas massas de gelo se comportam? Nós não sabemos tudo, nem nada que se pareça com isso. O nível do mar altera-se, basicamente, porque a água se acumula sob forma de gelo em cima dos continentes. Não basta ser sob forma de gelo em cima da própria água, porque nós sabemos que se tivermos gelo na água e o gelo derreter ou for congelado, o volume não se altera assim tão radicalmente. Há pequenas diferenças de volume, mas não são brutais. Altera-se, primeiro, um bocado por uma coisa que nós sabemos, que um corpo mais quente é maior, a dilatação. Portanto, um mar mais quente ocupa mais volume, mas sobretudo porque o gelo que está acumulado em cima dos continentes, e o maior dos continentes a acumular gelo é a Antártida, sem comparação com os outros, pois há outras zonas muito importantes, a Groenlândia, por exemplo, tem importância. Esse gelo, se for para a água, faz subir a água do mar, se for tirado da água e ficar preso em cima dos continentes, como aconteceu na glaciação, faz descer. A dimensão total deste fenómeno é muito difícil de prever, assim como tem sido difícil de prever, por exemplo, o ritmo de recuo dos glaciares, que é uma forma de acumulação de gelo. Portanto, nós temos muitas dificuldades em perceber o que aí vem. Temos noção de que vai haver mais extremos climáticos, pelo menos na nossa perceção. Por que eu digo na nossa perceção? Porque uma parte dos extremos climáticos de que nós falamos são consequência de estarmos mais presentes no mundo. De haver mais gente a viver à face da Terra, como sabemos, de haver mais gente em zonas perigosas. Mais concentrada. Mais concentrada, mais riqueza para perder e, portanto, muitas vezes damos mais importância a esses extremos, porque muitas vezes quando temos registros, encontramos extremos lá mais longe. Por exemplo, em Portugal, a um certo nível, pode-se ver os extremos climáticos. E alguns dos extremos climáticos são antigos. A menor temperatura é de 56. A maior temperatura média já é antes, já são 2003, 2004, e também a maior máxima. A maior chuvada no continente foi nas Penhas da Saúde. Agora foi batido, uma loucura absoluta. Só para ter uma ideia, no continente, a maior precipitação ao longo de um dia foi 220 milímetros e aqui há uns dias atrás, no Chão do Arieiro, mês de junho já, há praticamente um mês, foi a 6 de junho, nós estamos a 7 de julho, foi 497 milímetros, portanto é quase 500 milímetros. Quinhentos milímetros é uma coisa absolutamente descomunal. Estamos a falar de uma coisa louca. Essa é recente, mas depois há umas que são antigas. Por exemplo, o maior valor de temperatura mínima do ar na Madeira foi em 66, já foi há bastantes anos. Nós às vezes olhamos para isto e temos noção de que está tudo a acontecer agora mais do que muitas vezes. Está, há mais tendência para haver acontecimentos extremos, mas uma das grandes imprevisibilidades é o que nos vai acontecer. Neste momento, por exemplo, a Europa tem estado mais quente do que até a média mundial A média do globo todo. Mas nós, em Portugal, já tivemos ondas de calor, mas agora estamos com uns dias mais amenos. Não é matemática pura, não é dois mais dois igual a três.
Há muitas variáveis.
Há muitas variáveis. E, portanto, eu diria que nós vamos, de facto, ter mais calor nos próximos tempos. Provavelmente, o facto de termos tido uma La Niña fez com que os últimos anos, desde 2006 para cá, tivessem sido com temperaturas médias globais mais baixas do que aquelas que eram decorrentes da acumulação de gases com efeito estufa na atmosfera. Mas agora que temos a conjugação de vários fatores ao mesmo tempo, vamos ter provavelmente anos bastante quentes e, associados a anos bastante quentes, vamos ter nalguns sítios mais cheias, porque com mais calor evapora-se mais água do mar, portanto, há mais vapor de água, podem-se formar nuvens mais pesadas. Aquelas grandes cheias que nós temos aqui em Lisboa era precisamente porque tinha havido acumulação de água na atmosfera, porque o mar estava mais quente e também mais secas, porque muitas vezes isto, mesmo o El Niño, pode provocar coisas de sinal contrário.
Muito bem. De facto, uma conjugação de fatores, falamos muitas vezes em tempestades perfeitas. Será muito aquilo que nos ajuda a partir para este Contracorrente, onde já temos ao telefone Carlos da Câmara, que é investigador do Instituto D. Luís Carlos da Câmara. Bom dia, já está aqui há algum tempo em linha connosco. Agradeço o facto de nos estar a acompanhar. Perante até estes exemplos distantes no tempo que acabámos de ouvir, que gravidade é que atribui a esta sucessão de quebra de recordes de temperatura no globo?
Muito bom dia. Foi com todo o gosto que eu estive a ouvir este panorama que nos foi dado pelo José Manuel Fernandes, em que falou destes extremos, a clima, a meteorologia, a dificuldade de previsão. Portanto, eu diria que o meu papel aqui vai ser, talvez, sistematizar um pouco dentro do conhecimento científico. Vou tentar evitar palavras complicadas e tentar apresentar isto da forma mais simples possível.
Claro.
A primeira coisa que eu vou já dizer é que, como climatologista, sou relativamente pouco sensível a recordes. Por outro lado, também são os recordes que fazem com que eu esteja a falar aqui. No fundo, o meu coração está dividido. Ora bem, de facto, os recordes não têm que acontecer agora. No fim de contas, eu sou sportinguista, o Sporting também foi campeão e não é uma coisa sistemática. No fundo, aqui é exatamente o mesmo. A primeira coisa que eu acho que é importante aqui fazer uma distinção é entre clima e meteorologia, que são duas coisas que muitas vezes são confundidas. E eu diria que a climatologia, se quiser, ocupa-se com a parte mais estrutural, palavra que está na moda, e a meteorologia com a parte que é mais conjuntural. Muitas vezes, estas duas componentes conjugam-se e levam a que haja uma maior propensão para extremos. Dando também um exemplo, é imaginar uma curva de uma estrada em que o pavimento se vai desgastando ao longo do tempo. Isso é uma mudança estrutural. Ora bem, imaginemos agora que está um dia de chuva, que é conjuntural. Juntando o pavimento ao piso mais escorregadio, se eu tiver um terceiro fator, que é um carro com um bocadinho mais de velocidade ou um condutor mais distraído, e tenho um acidente. De facto, aqui as alterações climáticas, nomeadamente as emissões com gases com efeito estufa, é a tal mudança estrutural. O El Niño é conjuntural no sentido que faz parte da variabilidade natural do clima. Quando as duas coisas se conjugam, acontece que vai haver uma maior propensão para haver extremos de temperatura. Eu ainda aqui há umas semanas, aqui mesmo no "Rádio Observador", estava a dizer que era extremamente provável que se batessem recordes. Não sabia que iria ser nos dias passados, nem sabia que iam ser três dias de seguida, mas eu diria que estaria 10 contra um em como isso iria acontecer este ano. Este é o primeiro aspecto. O outro aspecto é, de facto, a previsibilidade. No fim de contas, o que acontece é que nós conseguimos prever estas componentes mais conjunturais. No fundo, eu sou capaz de prever com alguma fiabilidade de que haveria um El Niño. De facto, a notícia já vem desde fevereiro ou março, que iria haver um El Niño que se iria instalar no globo sucedendo a uma La Niña. Nem sempre a sucessão é assim tão rápida, às vezes há os chamados anos neutros, mas isso foi bem previsto e, como dizia há pouco o José Manuel Fernandes, vai-se acentuar, em particular, perto do tempo do Natal e é por isso que o El Niño se chama El Niño, era El Niño lá Navidad, porque é durante o Natal que o episódio ocorre e quando ele é com duração de muitos meses ou até anos, é isso que interessa aos climatologistas e ao que nós chamamos o El Niño mesmo, o fenômeno do El Niño. A parte estrutural, digamos, é muito mais lenta. Eu não sou capaz de prever, mas sou capaz de prever os parâmetros da distribuição estatística. Eu sou capaz de prever a média, o desvio padrão, etc. Por quê? Porque esses parâmetros é que estão ligados a alterações no forçamento da atmosfera. E eu sei que ao longo destes anos tem havido um aumento da média, tem um aumento do desvio padrão, que leva a que, por um lado, a temperatura vá aumentando paulatinamente, por outro lado Extremos possam ocorrer com mais frequência e quando se juntam vários fatores concorrentes, vai haver extremos como os que têm acontecido. O Jamal Fernandes também falou que no passado houve temperaturas semelhantes e isso é uma coisa que é sabida. Sabemos que os oceanos já estiveram 60 a 70 metros acima ou abaixo, como o Jamal Fernandes também disse, e muito corretamente, isso tem que ver, por um lado, com a dilatação, o calor dilata os corpos. Uma pessoa diz: "Mas dilata pouco". Mas se nós pensarmos que a profundidade do oceano são muitos quilômetros, não é preciso uma dilatação muito grande pra ele subir logo vários metros ou dezenas de metros. Mas, por outro lado, também, os próprios continentes flutuam, entre aspas, um geofísico se calhar não concordaria com flutuar, mas é a chamada isostasia. No fundo, a parte mais sólida está a flutuar sobre um manto mais líquido e portanto, se houver um derretimento de gelos, normalmente, o que vai acontecer é que há mudanças, há desníveis entre o fundo do oceano e o fundo dos continentes. Todo este processo é complicado.
Já agora, deixe-me só dar um exemplo que é fácil das pessoas perceberem, para dizer isso mesmo, que é os fiordes da Noruega, porque toda a Escandinávia está de alguma forma a vir ao de cima.
Exatamente, é isso mesmo que está a acontecer. E o exemplo também que deu, de fato, que os gelos do Ártico não contam. Eu digo sempre às pessoas pra fazerem em casa a experiência. Um copo, um bom uísque e gelo, e encham até mesmo à bordinha do copo. Depois cheguem a olhar pro copo e vão ver que o gelo derrete e não cai uma gota. Isso já o Arquimedes dizia, porque de fato, o gelo tem que ocupar o volume do líquido deslocado e vai caber exatamente na parte que derreteu, e portanto não há uma mudança de nível. Aí, o que conta é, por um lado, o gelo que está fora do copo, que são os glaciares, são as calotes que entretanto derreteram, e a dilatação, são os dois fenômenos importantes. Agora, o que é muito importante as pessoas perceberem, e é isso que preocupa os climatologistas, não é só isto ser a ação do homem, é um fato que é, mas é a taxa a que está a acontecer. A taxa de aquecimento. Isso qualquer pessoa pode ir à net e ver um gráfico de temperatura que vá desde há milhões de anos atrás até agora. E é impressionante, porque desde a Revolução Industrial até agora, a subida é repentina, parece mesmo um taco de golfe, em que quando se chega à ponta, ela curva rapidamente, e esse é que é o problema, é que nem os ecossistemas estão preparados e muito menos as sociedades. Este é que é o aspecto a sublinhar, é a taxa, que essa nunca foi vista. Ninguém diz que não houve já alterações climáticas. Claro que houve, há uma dinâmica. Agora, a particularidade desta é ser, por um lado, a ação do homem e, por outro lado, a taxa extremamente rápida. Também é importante perceber que este tipo de fenômenos não é tipo eu agora deixo de emitir gases e isto vai tudo ao sítio. Não. Primeiro, estes fenômenos não são reversíveis. O que eu quero dizer com isto? O exemplo que me vem sempre à cabeça é uma mola. Se eu tiver uma mola e puxar um bocadinho, deixo de puxar e ela volta ao mesmo sítio. Mas se eu puxar muito e a mola deformar, quando eu deixar de fazer força, ela fica deformada permanentemente. Já nunca mais volta ao estado inicial. Esta é a primeira coisa. Na atmosfera, as coisas não são reversíveis. Esse é o primeiro problema. O segundo é que a natureza, em particular o sistema climático, não se compadece com a nossa mentalidade, que é deixar que atuamos e temos uma resposta ao fim de 10 anos, que normalmente até queremos antes do fim da legislatura. Não é nem ao fim de 10, nem ao fim de 20, nem ao fim de 30. Vai ser um processo extremamente lento e que exige uma ação concertada ao nível global. E ainda há um outro aspecto.
Muito rapidamente, Carlos da Câmara.
Vou ser muito rápido, que estas coisas não são homogêneas, ou seja, há locais do planeta que são mais sensíveis, em particular as calotes, e muito em particular os climas mediterrânicos, que logo pra azar nosso, é onde nós estamos localizados.
É onde nós estamos.
No fundo, este é que é o verdadeiro problema.
Carlos da Câmara, muito obrigada. Foi mesmo climatologia para totós. Agradeço muito ter trazido aqui tanto colorido a este tema que é complexo. Simplificou-o em Um Bom Dia e um bom fim de semana. Vamos continuar a falar também dos recordes, vai ter que ser na segunda parte do Contracorrente. Até já.
11 horas e 5 minutos, segunda parte do Contracorrente. Junho foi o mês mais quente de que há registro e no início da semana bateram-se recordes de temperatura em Portugal. De quem é a culpa? Ligue até ao meio-dia. O número de telefone é o 91 0024185.
Queremos ouvir os nossos ouvintes, também os convidados que preparamos para este Contracorrente. Mário Marques é climatologista. Bom dia, Mário Marques, bem-vindo também.
Bom dia.
Isto que está a acontecer esta semana, esta sucessão de recordes de temperatura, dá-nos pistas para o verão que vamos ter, para já?
No caso português, eu penso que não. Penso que o verão português, aliás, está a ser mais ameno do que é normal. Sobretudo, normal, última norma climatológica 90, 2021. E o que acontece é que, de fato, nós também somos um pequeno Retângulo na área global e geográfica do planeta. Mas o nosso verão vai ser um verão até ligeiramente a menos, sobretudo julho vai ser o mês mais fresco do conjunto dos três, eventualmente, tal como já tinha previsto em maio. Mas isso é outra questão. No que toca, de facto, ao verão em termos globais, sobretudo no continente europeu e mesmo no continente americano, porque já tivemos em maio temperaturas batendo alguns locais recordes no Canadá e no norte do continente americano. E também em maio já tivemos temperaturas que bateram alguns recordes também nalguns países europeus. Junho também entrou para o mesmo caminho e, sobretudo, no caso do sudeste da Europa e Europa Central, tiveram já temperaturas muito acima da média e estão a tê-lo. E aliás, neste momento, hoje, Paris irá atingir os 33, 34 graus e Lisboa os 26, 27 graus. Lá está, a nível de previsões mais a médio e longo prazo e de padrões, isto aqui não se está a adequar muito a Portugal, mas em termos gerais, de facto, este aumento da temperatura é uma situação à qual nós iremos ter que nos habituar, porque senão, repare, a temperatura média anual dos anos ou da última década, sobretudo a última década, nós temos quatro a cinco anos que estão nos top cinco. Portanto, 2017, 2016, que até está em primeiro lugar, depois temos 2019, depois também temos 2020. E é engraçado que este aumento da temperatura reflete mais na temperatura mínima. A temperatura média mínima está a subir muito mais do que a temperatura média máxima. E aliás, há uma situação interessante e um padrão muito interessante e deveras preocupante, que é nos meses de outono e inverno, onde essa temperatura tem vindo a subir mais. Isto é, a anomalia da temperatura nos meses de inverno e inclusive até o primeiro mês de primavera climática, que é o março, tem tido uns recordes de anomalia positiva, isto é, tem estado mais quente em termos globais, cerca de 1,5 grau a 1,8 grau acima do que é a última norma climatológica. O problema é, de facto, durante os meses onde deverá fazer frio, onde deverá chover mais e deverá haver acumulação das neves, que é para haver uma boa alimentação de toda a rede hidrográfica e também dos lençóis freáticos e subterrâneos, não está a acontecer na Europa. E temos visto que nos últimos quatro, cinco anos, tivemos três outonos e invernos que foram muito abaixo da média. E em Portugal, está a ser abaixo da média já nos últimos cinco, seis anos. Isto é, chuvas abaixo da média durante esses seis meses e temperaturas acima da média de uma forma substancial.
Deixe-me só dar uma pequena nota, porque referiu há pouco que tem subido mais a temperatura mínima do que a temperatura máxima, o que às vezes pode deixar as pessoas menos preocupadas, mas não. Uma temperatura mínima muito elevada é muito complicado, sobretudo pelo tipo de casas que nós temos em Portugal, para arrefecer e para as pessoas mais idosas, não arrefecer à noite é talvez uma das coisas que causa mais problemas de saúde e que pode provocar mais mortes, para ser franco e direto, quando há vagas de calor, não é?
Sim, a temperatura mínima, e repare que apesar de nós não termos tido um verão quente, tem sido um verão normal, nalguns casos até tem sido com temperaturas máximas abaixo da média, a temperatura mínima está lá muito para cima. Inclusive, tivemos noites tropicais em dias em que não tiveram dias tórridos, não sei se me faço entender.
Sim.
E isso também no verão é preocupante. Em caso de um bom conforto térmico, a temperatura no inverno mínima mais alta é benéfico. Mas não quero deixar de recordar que no conjunto total de situações, quer em termos até de saúde pública, quer em termos agro meteorológicos, de surgimento de doenças em N culturas e também na capacidade de retenção da água nos solos, a temperatura mínima é um fator regulador de muita interação entre natureza e fungos, micróbios, portanto, doenças. E o que é que acontece? Acontece que, de facto, não só Portugal, mas sobretudo os países do norte da Europa, não estão minimamente preparados, nem em termos genéticos, nem em termos de edificado, para temperaturas tão elevadas, mesmo no inverno e no verão, mas sobretudo no verão, porque, de facto, são situações muito tóxicas. Em questões de saúde pública, é muito complicado.
Claro. Mário Marques, mas por que aparentemente Portugal, este pequeno retângulo, está a escapar a esta tendência que se regista na Europa?
Ora bem, como já dizia o meu velho e saudoso mestre e amigo, o Antimo de Azevedo, o Anticiclone dos Açores é o nosso escape, entre aspas. Poderá ser a nossa ventoinha, mas também poderá ser o nosso aquecedor. Isto é, consoante a posição do anticiclone dos Açores, e há uma tendência, tal como ele tinha a teoria nos anos 80 e início dos anos 90, de que o anticiclone dos Açores iria cada vez mais propagar-se um pouco mais para leste e conectar-se com o núcleo de altas pressões no centro da Europa. E é o que tem vindo a acontecer, sobretudo nos últimos sete anos. Nós tivemos três, quatro verões onde essa presença desse anticiclone no centro da Europa fazia com que se propagasse mais facilmente as temperaturas altas do norte da África e mesmo do Médio Oriente pela Europa Central e, por vezes, nós tínhamos períodos mais antagônicos, com subidas e descidas e grandes oscilações de temperatura e tempo mais seco, prolongadamente mais seco, sobretudo durante os meses de inverno Devido a essa ligação, mas também ao anticiclone dos Açores, nas alturas em que deveria estar bastante colocado e sitiado em cima do território, estendendo-se até o Golfo da Biscaia ou mesmo até ao Golfo de Cádiz, de maneira mais normal naqueles meses de verão, junho, julho e agosto, esta situação não tem vindo a acontecer. E neste momento o anticiclone dos Açores está fraco, está muito fraco e vai continuar fraco com esta tendência e está mais movido para sudoeste dos Açores, mais sobre as Bermudas e com pouca amplitude. E em contrapartida, as áreas de alta pressão estão a atingir grandes dimensões em termos geográficos. Repare que até no final de maio, princípio de junho, mas sobretudo em maio, nós tivemos um anticiclone, por vezes, dos Açores interligado com o europeu e abrangia toda a parte norte do paralelo 50 entre o Canadá, Terra Nova e até à Sibéria. Portanto, até enchia a Escandinávia. E tivemos aquele padrão, tudo abaixo do paralelo 45, mais grau, menos grau, onde tivemos um padrão desde a Grécia e, portanto, Balcãs até aos Açores, praticamente, onde nós tivemos uma propensão para as baixas pressões trovoadas e com situações inclusive até que geraram situações intensas e muita destruição, não só em Portugal, como noutros países. E tivemos esse padrão durante duas a três semanas. Eu acho que esta situação tem que se relacionar com os padrões. Às vezes um só evento não poderá ser relacionado diretamente com as alterações climáticas. Agora, a natureza não gosta de desequilíbrios e por vezes tem que se ajustar a um determinado posicionamento do globo. E onde há mais uma situação de calor num determinado local, numa determinada área, tem que se regular, noutras áreas, existe uma tendência para o oposto, mas que futuramente essas oscilações e grandes alterações num curto espaço de tempo poderão ocorrer, sobretudo no nosso território, isso cada vez mais tem se notado nos últimos anos, essa tendência. Não quer dizer que se vá continuar a assistir essa tendência, mas normalmente, como se costuma dizer, um inverno frio não vem sozinho, mas também um verão ameno também não vem sozinho, normalmente e estatisticamente. E nós tivemos isso o ano passado, estamos a ter isto este ano. Agora, teremos aqui, eventualmente, outras implicações, uma ou outra teleconexão que este ano poderá ajudar um bocadinho esse padrão de termos eventualmente um verão com maior número de dias com precipitação, e já está a ocorrer, junho foi assim, e julho vai estar a chover um ou dois dias que atingimos a média, sobretudo aqui no noroeste peninsular, é o que vai acontecer amanhã de sábado, irá chover. Já atingimos praticamente a média número de dias com precipitação, que é isso que temos que conectar mais. Mas depois em agosto deverá haver uma tendência para haver o maior número de dias com precipitação, mas com uma atmosfera mais tropical, isto é, com temperaturas amenas, mínimas até um pouco altas. As máximas poderão não subir tanto, mas existirá alas a que pequenos fluxos do Norte de África e fluxos do Mediterrâneo se conjuguem e encontrem fluxos transportado via Atlântico, noroeste, mais úmidos, mais frescos, e que ao juntar podem dar, entre aspas, vou levar aqui uma forma mais simplista, dar faísca, foi o que aconteceu, por exemplo, ontem, na zona de todo o nordeste espanhol, Zaragoza e Pirineus, ocorreram esse tipo de situações. Agosto deverá ser preponderante para isso. Serão boas notícias para não existirem tantos incêndios e para ajudar os bombeiros, mas ao nível local, caso isso aconteça, serão más notícias para os agricultores.
Mário Marques, algum indício que nos diga que o verão se está a deslocar, ou seja, que começa mais tarde e acaba mais tarde?
Sim, há um indício estatístico, sem dúvida. Eu já fiz essa análise várias vezes e existe uma preponderância, sobretudo analisando temperaturas de estações ou dados de estações desde 1975 até à data, em que as temperaturas mínimas ou a temperatura média começam a surgir mais cedo, isto é, temperaturas mais altas mais cedo no calendário, e está uma tendência para se prolongarem até mais tarde no ano. Isto é, porventura, teremos temperaturas cada vez mais acima dos 20 graus, em média, a começarem logo no início de março e a prolongarem-se até novembro.
Portanto, serão os melhores.
Exatamente. E há uma tendência cada vez maior, não só aqui no continente, no território português, mas sobretudo em países onde normalmente nevava. Existiam cerca de 10 a 15 dias de neve por ano e nos últimos anos, nenhum. Portanto, isso é várias preocupante, porque em termos de sustentabilidade do ciclo hídrico, da água no território e no continente europeu, e a alimentação de rios, porque os rios são alimentados não só pelas chuvas, porque há uma drenagem muito rápida das chuvas. Sobretudo quando há separação de águas pluviais e águas residuais, as pluviais vão para o rio e chegam mais depressa ao mar. Portanto, o que acontece é que temos que até preservar um bocadinho essas águas pluviais. Agora, as neves e a consecutiva acumulação de neves em diferentes outonos e invernos ajudam a criar uma acumulação e aumento de fluviais, é o que não tem acontecido, e sim, com a libertação lenta e cadenciada do derretido desse gelo, é que alimenta todos os cursos de água.
Daí o provérbio português "Ano de nevão, ano de muito pão".
Sem dúvida. Mais vale uma nevada do que dois carros de estrume, no caso do agricultor em fevereiro. Quando existe uma queda de neve, ela depois derrete muito lentamente e ajuda a propagar-se um bocadinho e infiltrar-se nas camadas superficiais do solo e alimentar de uma forma muito mais segura e duradoura todo o ecossistema subterrâneo, sem dúvida.
Mário Marques, muito obrigada. Bom dia, estas explicações são também importantes. Um bom dia, bom fim de semana. Ouvimos aqui o Mário Marques, climatologista. Vamos ouvir os nossos ouvintes em São João do Estoril, o Carlos Oliveira é vigilante e está no contra-corrente. Bom dia.
Muito bom dia aos presentes e a todo o auditório. Ora bem, de quem é a culpa das alterações climáticas? A meu ver, a culpa é da Mãe Natureza e não do fator humano, porque, como diz um dos climatologistas, o teorema de Arquimedes, deu o exemplo do copo e do gelo. Muito bem. Portanto, há certos senhores, como estou a lembrar aqui do Al Gore, que dizem que vai haver um tsunami, que o fator humano é primordial para que aconteçam essas desgraças todas, mas não. A meu ver, a culpa é somente da Mãe Natureza, porque a Mãe Natureza, como disse este último climatologista, e com razão, tem equilíbrios. Há países que têm o hemisfério norte com muito calor e o hemisfério sul com o trampoi, com o frio. Vou dar dois exemplos. Um exemplo é no Saara, há gravuras em que aparece a flora e a fauna, que há milhares de anos tinha vida. Houve talvez algum meteorito ou houve alguma mudança do eixo de rotação que tornou essa região o Saara. Outro exemplo que vou dar. Na Islândia, um país em que eu lá estive, basta só um vulcão emergir, que ele toda a região, ao emitir as partículas, vai emitir muito CO₂, muito metano e esses gases tóxicos e partículas, e no ano que vem, isto está provado, porque tenho lido artigos sobre climatologia, no ano seguinte, normalmente, o inverno torna-se mais agreste. Portanto, eu no caso concreto, a culpa é, entre aspas, da Mãe Natureza. Vou dar um terceiro exemplo. O homem só interfere é nas grandes cidades. Por quê? Porque nas grandes cidades temos os asfaltos, temos os grandes prédios, aí há o fator humano que interfere. É por essa razão que as cidades, no caso Lisboa, a temperatura é muito quente. Se formos a 25 km, por exemplo, da serra de Sintra, neste momento, eu vou há dois dias, era uma nortada, uma pessoa parecia que estava no inverno. Portanto, a minha conclusão é que o fator humano não tem importância, é mais a Mãe Natureza.
Carlos Oliveira, fala de São João do Estoril, também tem estado muito vento por aí. Obrigada, deixando esta ideia, a responsabilidade por estas alterações climáticas é da Mãe Natureza, não é do ser humano. João Oliveira, está em Oeiras, é economista. Bom dia.
Bom dia. Olhe, eu gostaria de chamar a atenção aqui de dois pontos. Iniciamos um ciclo vicioso com as seguintes fases. Primeiro, a queima das florestas deliberada pelo homem tem como consequência uma menor absorção do anidro carbônico, uma menor moderação das temperaturas, o ar fica mais seco e quente, e isso tem como consequência mais fogos incontroláveis, somada à queima deliberada das florestas pelo homem. Neste ciclo vicioso, já ultrapassamos o ponto de não retorno a caminho do apocalipse climático. Mais fogos incontroláveis criam mais calor, menos umidade e assim sucessivamente. É um processo de mais secas, maior desertificação. As reflorestações que existem são insignificantes quando comparadas com o número de árvores que são queimadas. As árvores foram fundamentais durante milhões de anos, criaram a atmosfera que tornou possível a vida animal na Terra. Em paralelo, continuamos a emitir 37 milhões de toneladas por ano de anidro carbônico para a atmosfera, o que aumenta a temperatura média no planeta, porque impede a irradiação do calor e, de certa forma, captura o calor na atmosfera. Basicamente, é estes dois pontos. Resumindo, já ultrapassamos o ponto de não retorno. Cada vez vai haver mais fogos incontroláveis e o aumento de temperatura. Este processo é irreversível, como já foi referido aqui. Pronto. Bom dia. Obrigado.
Bom dia e obrigada, João Oliveira. Mais uma opinião que chega dos nossos ouvintes. O João Pacheco decidiu enviar-nos uma mensagem por áudio
Muito bom dia a todos no observador. Acho um tema muito importante no que toca à atualidade, embora tenha uma discordância em relação a alguns assuntos. Não há qualquer tipo de dúvida que estamos num período de aquecimento global, do qual o ser humano pode ter um bocado de culpa no cartório, mas isso são dados, é uma questão de procurar. O grande impacto que o ser humano teve no planeta foi quando criou os CFCs, porque era um elemento que não estava presente na natureza, do qual originou o buraco do ozono. Graças a Deus, rapidamente os governos tomaram medidas contra isso e hoje em dia, se ainda há o buraco do ozono, é uma coisa ligeira, que a natureza regenera. Agora, estar sempre a mencionar a questão do dióxido de carbono, acho uma desculpa um bocado, não quero dizer vaga, porque também é verdade, o dióxido de carbono é responsável pelo aquecimento global, mas nós não nos podemos esquecer que há milhares de anos, a atividade vulcânica no planeta Terra era de longe superior à que temos atualmente. E apenas um vulcão ativo liberta mais dióxido de carbono do que um país inteiro a trabalhar. Portanto, períodos de aquecimento e períodos de arrefecimento já estão mais comprovados na nossa ciência. Na Idade Média, a temperatura média era mais quente do que é atualmente. Isto tem a ver com a idade dos gelos, os períodos glaciares. Agora, se falarmos na destruição da flora marina, através da pesca intensiva, porque as pessoas esquecem-se, pensam que a floresta da Amazônia é o pulmão da Terra. É verdade, mas os oceanos são o que absorve mais dióxido de carbono no nosso globo. Em vez de falarmos da produção de dióxido de carbono, começamos a falar em medidas pra controlar a destruição de ecossistemas inteiros pela pesca massiva. Os próprios cruzeiros, que as pessoas esquecem, são cidades ambulantes que libertam imenso lixo, imensa poluição para os nossos oceanos. Isso acho que era mesmo de louvor. E outra coisa que eu acho muito interessante, se estamos numa deadline tão apertada, eu acho que era: "Ok, vamos requisitar todos os recursos tecnológicos pra chegarmos a um consenso, a uma tecnologia que finalmente nos livre de combustíveis fósseis em termos". Porque já temos, mas não são tão viáveis quanto isso. Muito obrigado.
Obrigada. Obrigada a nós, João Pacheco, aqui dizer que o foco deve estar no combate à poluição. Miguel Miranda, ex-presidente do IPMA, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Bom dia, bem-vindo também ao Contracorrente. Miguel Miranda, já falámos aqui, o José Manuel falou, logo no início do Contracorrente, da dificuldade cada vez maior que é prever o que vai acontecendo em termos climatéricos. O que é isso de entrar em territórios não conhecidos?
Bem, os modelos todos que existem, que têm sido razoavelmente performantes, baseiam-se, obviamente, no conjunto de ideias preconcebidas da física, da química e da biologia. Ora, o que nós temos, infelizmente, é que enquanto que a física é uma área bastante conhecida e, por natureza, simples, a química já é um pouco mais complexa e a biologia é muito mais complexa do que a química. Nós temos camadas de complexidade diferentes. Ciclicamente, nós temos duas formas de saber se sabemos modelar bem. A primeira forma é remodelar o passado e ver assim, realmente, o que a gente modelaria nessa altura, se tivéssemos hoje a tecnologia, é igual àquilo que se observa ou não. Hoje em dia, os modelos já conseguem reproduzir razoavelmente o que foi observado. E depois temos a segunda questão, que é saber se estes modelos continuam igualmente válidos no futuro. E aí é que temos situações em que não estão a mostrar realmente aquilo que se esperaria. Isso, por exemplo, verifica-se hoje em dia naquilo que se chama a temperatura do oceano. O oceano sempre foi o parente pobre da modelação. A modelação sempre foi atmosférica, porque é a parte da Terra que nós temos maior conhecimento, maior volume de dados e maior capacidade investida, porque a previsão meteorológica é precisa pra aviação, é precisa pra muita coisa, pra agricultura, então tem muito valor econômico, então houve um grande investimento. O oceano tem tido um investimento muito inferior. E quando nós agarramos e vemos que a temperatura do oceano está a subir de forma sistemática. E quando nós observamos que essa subida é superior àquilo que nós previmos, nós estamos num território que não conhecemos. Porque se o território fosse aquilo que nós conhecemos, então as nossas previsões estariam muito perto das nossas observações.
Sim, mas não conhecemos, Miguel Miranda, porque não há interesse econômico, não há vantagem econômica em conhecer, é isso?
Não, é porque o investimento que estamos a fazer neste setor ainda é insuficiente pra aquilo que nós precisamos. Repare, nós passamos décadas a discutir se o problema era o CO₂. Quando, do ponto de vista científico, era bastante claro que o CO₂ era o principal problema. Não é que não haja outros, há muitos outros problemas, mas o CO₂ era um problema central. O tempo que se perdeu teria sido gasto melhor de outra maneira. E deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Lembra-se do tabaco? E lembra-se do tabaco e da relação do tabaco com o cancro?
Sim.
E sabe com certeza, porque isso deu origem a uma enorme quantidade de filmes, de que foram feitas várias tentativas, umas mais infrutíferas que outras, para pressionar o público, no sentido de que não havia nenhuma relação entre o cancro do pulmão e o tabaco e o fumo. E, na verdade, nós hoje todos pensamos, eu pelo menos penso, que quem fez esse tipo de esforço e quem fez esse tipo de campanhas devia ser chamado à responsabilidade. Da mesma forma, todos aqueles que fizeram campanhas negacionistas. Não é dúvidas, as dúvidas são sempre aceites. Não é controvérsia, a controvérsia faz parte da ciência. Mas quando nós temos campanhas sistemáticas no sentido de negar a evidência científica, então devia haver responsabilização dessas campanhas. E o que se está a passar agora é que nós estamos a arrancar tarde. Nós estamos com um nível de resultados e num nível de sucesso que ainda é baixo, mesmo na Europa, e a Europa está claramente à frente do resto do mundo. E pode acontecer, e nós temos que nos preparar pra isso, que os limites que nós filosoficamente fixámos de um grau e meio, dois graus, dois graus e meio, sejam todos ultrapassados.
Estamos mesmo na fase em que estamos a testar esses limites.
Nós estamos encostados a esses limites.
Já estamos encostados a esses limites.
E a questão é: será que uma vez passando esses limites, nós entraremos numa fase de descontrole? Eu não estou a dizer que vamos entrar. E não há evidência que vamos entrar. Mas atenção que há alguns indícios no sentido de dizer que nós não sabemos bem o que é que vai acontecer. E isto tem que estar na nossa cabeça, porque isso tem que guiar a nossa ação. Não no sentido do dramatismo, que o dramatismo nunca serviu nada a ninguém, mas no sentido de serenidade consciente. E é mesmo necessário tomar medidas para reduzir o efeito estufa. O efeito estufa é que fez a humanidade. É o efeito estufa que permite que a gente viva, senão morríamos todos. Mas o efeito estufa não pode ser tão importante que a seguir nos destroa a nós, à humanidade. E é esse o problema central dos nossos dias.
E esse problema é desvalorizado até quando nos são apresentados alguns planos de contingência para situações extremas, seja a seca, seja o risco de incêndios, acabamos por ficar mais desfocados do problema global.
O problema está que os modelos sempre apontaram para duas coisas complementares, que era que a temperatura média ia aumentar e que a irregularidade também ia aumentar, ou seja, a diferença entre os fenômenos extremos e os fenômenos não extremos. Os modelos diziam isso, mas isso é uma coisa, outra coisa é nós percebermos o que é que isso significa na realidade e percecionarmos. Se pensar nos picos de precipitação de há dois anos na Europa do Norte, se pensar no episódio de vento que houve na semana passada na Holanda, um vento de 140 km/h, árvores arrancadas por todo lado. Nós começamos a ver que o clima está a testar os limites da nossa resiliência. Nós, os países ricos do hemisfério norte. Está a testar a nossa capacidade de resistir ao tempo.
Com o conforto a que estamos habituados.
Com o conforto a que estamos habituados e com a forma de ocupar a superfície da Terra que estamos habituados. Se chegar a uma altura que digam: "Não podemos ter outdoors, porque os picos de vento vão arrancar com eles. Não podemos ter árvores isoladas, porque os picos de vento vão arrancar as árvores isoladas e quando temos um pico de chuva e a seguir um pico de vento, vamos ter deslizamentos de terrenos." Então nós vamos ter que tornar o nosso mundo mais resistente, mais resiliente e muita coisa vai mudar na forma de viver da humanidade.
Estaremos preparados para isso?
Bem, eu penso que já há muita gente que está, pelo menos, a contar com isso. O preparados é diferente, porque infelizmente, muitas destas preparações vão exigir investimentos significativos, em particular de infraestruturas. Infraestruturas de equipamento de água, como se viu em Portugal, no continente, desculpe, e agora na Madeira, em relação, por exemplo, às cheias rápidas. Investimentos, por exemplo, podem ter a ver nos aeroportos, no sentido de nós termos períodos significativos em que não é possível utilizá-los, como tem acontecido na Madeira, ou, por exemplo, situações em que nós temos fogos florestais tão sistemáticos e tão intensivos que provavelmente a existência de casas isoladas e de aldeias com muito pouca ocupação humana se pode tornar completamente irrealista. Portanto, o tempo irá resolver seguramente aquilo que a gente não resolver. Só pode até pior do que está.
Mas até nesse sentido, já aqui foi recordado que qualquer ação que tomemos agora, ou uma concertação de ações, porque é disso que se fala, vai demorar muito tempo, vai levar muito tempo até que haja uma atenuação destes fenômenos extremos.
Se quiser ter esse ponto de vista, e eu concordo bem com ele, então digo que nós vamos passar por situações muito complicadas antes de sair do outro lado. Porque é evidente que tem toda a razão. Mesmo ações feitas agora, os resultados não vão ser rápidos. Foi dado por um vosso ouvinte há pouco, o exemplo dos CFCs, mas atenção, os CFCs eram um produto industrial, e como era um produto industrial, uma ação junto da indústria é sempre muito simples de conduzir. Tem custos, mas é simples. Nós aqui não estamos a falar disso. Estamos a falar do modo de vida. E o modo de vida, já estamos a falar de outra coisa. Estamos a falar de uma mudança e de uma adaptação que tem sempre uma velocidade própria e que quando ela é mais lenta que a velocidade do aumento do perigo, claro que vamos passar por riscos que são seguramente superiores.
Ficou claríssimo, Miguel Miranda, muito obrigada. Bom dia.
De nada. Bom dia a todos.
Um bom dia também e um bom fim de semana. O que pensa de tudo isto, Carlos Palmela, que é profissional de saúde e que está a ligar de Lisboa. Bom dia.
Bom dia. Eu aproveito a oportunidade para agradecer a oportunidade que me dão de participar no programa e de felicitar a Rádio Observador pelo seu quarto aniversário, cumprimentar os intervenientes no programa, em especial o José Manuel Fernandes, hoje ausente Helena Matos, infelizmente não fixei o nome dos restantes intervenientes e peço desculpa por isso.
Nada disso.
Eu, numa espécie de declaração de condições para falar, eu devo dizer que não sou de maneira nenhuma um entendido nesta área da climatologia, nem das alterações climáticas. A minha opinião é meramente de um leigo no assunto, apenas com certo interesse por tudo que diga respeito à geografia. Entrando então na questão do programa. Penso que nem o negacionista mais empedernido poderá hoje negar que, de facto, existem alterações climáticas que estão a acontecer com mais rapidez que aconteceram no passado e que o aquecimento global é um facto. Foi dito que este ano tivemos o ano, a nível mundial, mais quente de sempre. Não ponho em dúvida essa afirmação, mas já agora, como aliás afirmou o vosso interventor no programa, o climatologista Mário Marques, pelo menos aqui em Lisboa, não se verificou nada disso. Durante o mês de junho, eu penso que nunca tivemos nenhuma temperatura superior, nem igual a 35 graus, e mesmo poucos dias tivemos temperaturas superiores a 30 graus, o que aqui em Lisboa realmente não se pode dizer que sejam temperaturas muito elevadas no mês de junho e julho. Ora bem, mas então em relação à pergunta que a Rádio Observador fala, qual é o culpado deste aquecimento? É evidente que a resposta é dada pelos cientistas. O culpado é a revolução industrial, com todas as alterações que provocou a nível planetário e entre essas alterações, o aumento da população exponencial é certamente importante e sobretudo a emissão de gases com efeito estufa, sobretudo por utilização de combustíveis fósseis. Esta é a resposta que a ciência nos dá. Eu pedi para intervir no programa, sobretudo para citar o nosso caso de Portugal. O governo português tem tido uma atuação bastante sensata, porque tem seguido todas as orientações da ciência no sentido de diminuir a utilização de combustíveis fósseis e alterar realmente todo o nosso sistema de produção de energia e hoje com larga utilização de energias renováveis. Portanto, nesse sentido, Portugal tem tido um papel muito meritório. Mas eu penso que nós devemos compreender que, sendo um pequeno país com 90 mil km² e com 10 milhões de habitantes, não é do nosso esforço que vai resultar a melhoria das condições climáticas do mundo. Nós temos de fazer o nosso papel, mas temos que, sobretudo, nos preocupar com a defesa do nosso território. E é sobretudo por isso que eu pedi para intervir. E há aí duas frases que me parecem muito importantes. Uma é uma frase que estava escrita num laboratório, por um professor muito conceituado, que dizia que o primeiro passo para resolver um problema é percebê-lo claramente. E em relação ao nosso país, a Portugal, eu penso que das alterações climáticas, embora todas tenham consequências, por exemplo, o aquecimento, a subida da temperatura vai provocar, por exemplo, o reaparecimento de doenças tropicais que já foram erradicadas. Sem dúvida que isso existe. Mas o que me preocupa mais, a nível das alterações climáticas no nosso país, é a descida da pluviosidade. Penso que não está inteiramente comprovado que isso esteja a acontecer, porque o nosso clima sempre foi muito irregular, sempre tivemos longos períodos de seca, isso ao longo de toda a história, mas na verdade, se se confirmar esta diminuição significativa da pluviosidade no nosso país, esse deve ser, e aqui entra o segundo conceito, o nosso inimigo principal. Deveria ser aí que nós deveríamos concentrar todos os nossos esforços. Evidentemente que a luta contra a seca é um problema que terá de ser resolvido pelos especialistas, mas o que me preocupa é notar um certo alheamento a nível da nossa população e a nível mesmo do nosso governo. Fala-se muito na subida da temperatura, etc. E fala-se muito pouco nos meios que provavelmente terão de ser meios muito importantes que teremos de utilizar para proteger o nosso país, porque nós corremos o risco, se se confirmar realmente uma descida significativa da chuva em Portugal, corremos o risco de ter uma alteração do nosso clima para um clima desértico quente, dizendo de outra forma, corremos o risco de uma parte do nosso país ser incluída no deserto do Saara e, portanto, a defesa da integridade da territorialidade do nosso território deveria ser uma preocupação muito importante de todos os portugueses e do nosso governo. E foi sobretudo para transmitir esta mensagem, o nosso inimigo principal não é a subida da temperatura, é a baixa da pluviosidade no nosso país E a maneira de resolver um problema, o primeiro passo a dar, é percebê-lo claramente. Eu agradeço mais uma vez a oportunidade que me deram de participar no vosso programa, do qual sou um ouvinte muito fiel.
Muito bom dia, ainda bem que nos ligou com esta chamada de atenção, perceber o problema, identificar aquele que é, efetivamente, o inimigo principal. Obrigada, Carlos Palmela. O António Nunes é engenheiro, está em Oeiras. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia.
Bom dia, estão a ouvir?
Sim, estamos a ouvir muito bem, António. Só lhe dou um tip para baixar o som do rádio, por favor, porque agora percebi que há aqui um som que pode incomodar na comunicação.
Ok.
Muito bem.
Agradecer o ouvinte anterior e a participação anterior, porque é nessa linha mesmo que eu gostava de intervir, que é o seguinte: eu julgo que para a maior parte da população, o que hoje são as alterações climáticas, já não são questão, toda a gente percebe isso. E a contribuição de Portugal para a melhoria do clima no planeta é nula. Nós podemos deixar de existir hoje e o clima não se alterará, não haverá nenhum contributo positivo, porque as nossas emissões são próximas de zero em termos percentuais daquilo que são as emissões globais de gases com efeito estufa. Mas aquilo que nós podemos fazer e que nós devíamos discutir e gastar a nossa energia, não é discutir essa questão para a qual nós não podemos contribuir. É sim, saber o que é que nós podemos fazer para resolver os problemas que nós vamos sofrer no futuro das alterações climáticas, e isso nós não estamos a fazer. E eu gostava de colocar algumas questões e sugestões sobre o assunto, que é: de que forma estão hoje os PDM a refletir as alterações climáticas e a necessidade, por exemplo, garantir a absorção da água no solo, por um lado, por outro, aproveitar a água da pluviosidade mais intensa e mais concentrada para utilização futura. Outra questão ainda que se coloca de maneira geral é: o que é que as entidades que gerem os nossos parques e zonas protegidas estão a fazer para garantir a preservação dessas mesmas espécies e desses mesmos parques, nomeadamente com acessos, com pontos d'água, etc. Porque eu vejo, por razões profissionais, ando de norte a sul, e vejo uma inação completa das entidades gestoras dos parques naturais, em providenciar meios de combate a incêndio, de preservação das espécies, não conforme nós estamos nesta altura, não com a situação atual, mas com aquilo que vai ser os períodos de seca mais prolongados e depois pluviosidade concentrada em menos tempo.
Sim.
E ainda uma questão que a mim me preocupa, que é a questão da agricultura. Nós precisamos alimentar a população, e até, se de facto se vier a verificar a desertificação ainda maior das zonas da latitude onde nós nos situamos, nós precisamos de produzir alimentos, e só conseguimos produzir alimentos em quantidade se tivermos água. E o que é que nós estamos a fazer para aproveitar as águas e retê-las para aproveitamento, por exemplo, durante o verão? Discute-se muito se a barragem pode ser feita ou não pode ser feita, os impactos que tem, mas não se discute e não se analisa e não se valoriza os impactos positivos de retenção da água para utilização no verão. E isso parece-me que é muito mais importante do que estragar, vamos dizer assim, algumas dezenas de hectares ou centenas de hectares, quando vamos com isso mesmo poder proteger milhares e milhares de hectares. São as questões que eu gostava de colocar ao público e para discutir.
E ficaram aqui.
Parecem mais importantes do que estamos a discutir se vai subir um grau ou um grau e meio, ou que impacto é que isso vai ter. O que nós temos que fazer é agir para contrariar ou mitigar os efeitos daquilo que vai acontecer, que nós sabemos que vai acontecer.
António Nunes está focado à questão, o que é que podemos fazer e com um olhar aqui concreto, nomeadamente para os PDMs. Obrigada, bom dia. O Daniel Silva é engenheiro civil, está em Lisboa. Bem-vindo também.
Olá, bom dia.
Bom dia.
Sim, eu sou de Lisboa, como disse eu tenho engenharia civil no técnico. Dito isto, só para dizer que acho que este tema é um tema de extrema relevância e importância para todo mundo. E acho que este tipo de espaços de debate deveriam incluir, sobretudo, especialistas, não tanto opiniões avulsas de pessoas que pouco ou nada percebem de clima. Isto são assuntos extremamente complexos, que precisam de estudos, precisam de base científica. E ouvir continuamente comentários, seja nas redes sociais, seja na internet, seja nas rádios, de pessoas que simplesmente nada percebem, apenas acham, é achismo, acho que só contribui realmente para a desinformação. E tenho ouvido aqui realmente algumas pessoas que ligam nesse sentido, mais do tudo, porque eu, de facto, sou engenheiro civil, mas não percebo nada de clima, apenas posso basear as minhas opiniões, e acho que devíamos todos fazer isso, em factos científicos, em estudos, e não no achismo. O meu contributo era só realmente neste sentido, mais do que tudo.
Muito bem, Daniel Silva, fica também aqui registrado. José Manuel Fernandes, e penso que esta referência que ouvimos aqui tem a ver com um debate que acaba por às vezes reduzir a questão, que é o nível de interferência do homem nas alterações climáticas. Devemos estar a discutir mais o que é que se pode fazer para resolver aquilo que é uma inevitabilidade e que nos vai acontecer.
Sim, sendo que aquilo que temos que fazer são muitas coisas diferentes. O Miguel Miranda chamou a atenção aqui pra um aspecto, que é: há questões que têm a ver com procurar alterar a economia mundial, porque é disso que estamos a falar, a forma como nós produzimos bens e também nos alimentamos, para fazer com que isso tenha o menor impacto no que diz respeito à acumulação dos gases que ajudam a que a atmosfera esteja a ficar mais quente, o mar e a atmosfera. E são muitos, nós falamos muito de dióxido de carbono, mas há muitos outros. Há uma quantidade de outros gases, agora não vou falar deles todos. A começar pelo vapor d'água, que é bastante mais eficaz a reter o calor do que o próprio dióxido de carbono. Depois, há outra coisa que às vezes se fala pouco, e nisto tem que haver algum balanço, que é preparar-nos para as alterações que vão ocorrer. Porque vão ocorrer. Não é um comboio, nem é um petroleiro, é um gigantesco petroleiro que está em andamento, que tem uma inércia e que não volta pra trás. Isso tem a ver com coisas que nós já percebemos que entram em ruptura, quando temos cheias súbitas, por exemplo, ou quando temos ventos excessivos, ou quando temos calor excessivo, mas fazer isso de forma que não haja impactos no outro lado, porque estamos a fazer obras excessivas ou a consumir energia excessiva. Eu acho que o balanço não é recusar o progresso ou recusar que as pessoas possam viver melhor. É fazer aquilo que, em muitos outros momentos, provavelmente não tão críticos, nós fizemos ao longo da história da humanidade, que foi, através da tecnologia, ir resolvendo os problemas. Desde o Malthus, que dizia que não poderia haver mais gente na Terra. O Malthus viveu em meados do século 19, portanto há quase 200 anos. Dizia: "Isto vai acabar, não vai haver alimento pra todos". De vez em quando vem essa conversa novamente, mas nós sabemos que com a Revolução Verde, foi possível fazer crescer muitas coisas de forma que não é agressiva pro ambiente e que é muito vantajosa para a humanidade. Eu fiquei contente, por exemplo, esta semana, discutiu-se muito pouco isso, mas na União Europeia foi aprovado, ou está em vias de ser aprovado, que nós possamos consumir e cultivar produtos geneticamente modificados, portanto, colheitas geneticamente modificadas. E isso foi uma coisa que durante imenso tempo se fez imensas campanhas contra. No entanto, quase tudo que nós consumimos é geneticamente modificado. Às vezes, a questão está na velocidade. Dito isto, e porque estou a falar de velocidade, nós temos que ter muita noção de que o grande desafio dessas alterações climáticas não é elas nunca terem acontecido. Claro que nós vivemos em períodos que já foram mais quentes dos atuais e também já vivemos em períodos mais frios. Até que ponto, por exemplo, períodos em que houve grande desenvolvimento até da própria humanidade, em termos da forma como se expandiu a agricultura, como aumentou a população, foram períodos mais quentes ou períodos mais frios. Nós sabemos algumas coisas sobre isso, não sabemos ainda tudo, até porque isso variou conforme as regiões do mundo e o desenvolvimento comparado dessas regiões do mundo. Mas há uma coisa que nós sabemos: ao ritmo, como aliás, penso que foi o Carlos Câmara que falou disso, ao ritmo a que estamos a introduzir estas modificações e elas estão a acontecer, não há forma de o mundo vivo se adaptar e sobreviver. Pode ocorrer a chamada sexta extinção, há até um livro com esse nome, "Sexta Extinção", que é aquilo que acontece de um ano pro outro nos Galápagos, como eu descrevi aqui há pouco, quando de repente a temperatura da água sobe 3 graus, e desaparecem os corais, e desaparecem os pinguins, desaparecem as iguanas, ou pelo menos são drasticamente reduzidas. Mas depois recupera, porque entretanto, a seguir ao El Niño, vem uma La Niña e aquilo conseguiu recuperar. Se tivermos só El Niño, já não seria possível recuperar. Evidentemente que num prazo de décadas ou séculos, provavelmente séculos, os Galápagos seriam colonizados por outras espécies. Mas nós temos ideia de que não temos a certeza se algum dia poderíamos voltar a ter a variedade, a riqueza que lá encontramos hoje. Nós temos, continuando no Pacífico, na Ilha de Páscoa, onde há aquelas famosas esculturas, terão existido florestas enormes e essas florestas foram exploradas até a sua exaustão, pelo menos é uma das teses que existe para o desaparecimento da civilização que ergueu aqueles fantásticos monumentos, e que depois quando lá chegaram, penso que foram ingleses, os exploradores ingleses, não estava já lá ninguém capaz de erguer aqueles monumentos fantásticos. Talvez porque se foi uma sobre exploração, se foi uma alteração climática que fez desaparecer essa floresta, os cientistas ainda discutem. Mas aquilo já foi muito diferente, assim como aqui em Portugal, o próprio coberto natural já foi muito diferente. Em tempos históricos, o Saara foi mais verde do que é hoje. Porque vínhamos a sair de uma glaciação. Só que isto acontecia devagar, era possível haver essas alterações quando é tudo em poucos anos.
Quase uma adaptação.
Era possível haver uma adaptação. Mesmo assim, estamos a pagar o preço dessa adaptação, em termos de variedade genética e de número de espécies. A Europa, que esteve debaixo dos gelos durante a glaciação, é muito menos rica que outras regiões do globo, onde foi possível haver uma recolonização mais rápida, às vezes até à mesma latitude. Nós temos poucas espécies de aves, poucas espécies animais, por comparação com outras regiões do globo, e isso é uma consequência da alteração provocada pela última glaciação. Ora, aquilo que está a acontecer é a um ritmo que não se compara com o ritmo da glaciação, e chamemos assim desglaciação, não existe, a palavra existe, que está a acontecer. Portanto, o impacto sobre o meio natural é provavelmente irreversível, é brutal e é provavelmente irreversível.
A tal mola que falou o Carlos.
Quando foi a última lição do Miguel Miranda, quando ele se jubilou aqui há poucas semanas, ele deu um número que eu não me queria enganar, mas é assim no gênero: 90 e muitos por cento da biomassa existente atualmente à face da Terra, provavelmente excluem-se aqui os oceanos, 90 e muitos por cento é o homem e os animais que o homem trata pra sua alimentação. Todo o resto da biodiversidade é uma fração que não chega a 5% a 10%.
Olha, é um número mesmo impressionante. Vamos partir com ele pra fim de semana, José Manuel, até segunda-feira, já com a Helena Matos.
Já com a Helena Matos. Helena Matos regressa, felizmente.
Um regresso pra segunda-feira.
Pra todos nós. Pra começar, pros ouvintes.
Bom fim de semana e até segunda-feira.