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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje vamos analisar e debater o estilo da governação. E pode participar, ligue até ao meio-dia, o número de telefone é o 910 024 185, 910 024 185.

Pedro Adão e Silva não se retrata, não pede desculpa e até diz que pode elaborar mais sobre o funcionamento da comissão de inquéri do ATAP. Depois do seu antigo colega de governo, Lacerda Sales, e de duas deputadas do Partido Socialista terem criticado no fim de semana as declarações do ministro da Cultura, ele não só reafirmou aquilo que tinha dito, como atirou mais achas para a fogueira. Queremos, por isso, debater no Contracorrente de hoje se o ministro tem ou não legitimidade para criticar os trabalhos da Assembleia da República, nos termos em que Pedro Adão e Silva o fez. José Manuel, queremos saber qual é a tua opinião. O ministro está apenas no exercício da sua liberdade de expressão?

Bom dia, Douta Carla. Eu não creio que esteja. Aliás, acho que o próprio também não acha isso. O ministro está a fazer política e, a meu ver, nada do que disse corresponde apenas a um grito de alma. Repare que ele disse ontem, quando lhe perguntaram o que achava se podia se expressar ou não livremente as suas opiniões pessoais, como se tivesse à mesa do café, digamos assim, ele foi muito taxativo. Os membros do governo, repare, não têm opiniões pessoais. E não foi numa mesa de café, foi num órgão de comunicação social. Ou seja, não foi um desabafo. No fundo, o que ele está a dizer foi que não foi um desabafo. E não foi mesmo um desabafo, porque aquilo foi uma espécie de reafirmação, porque como hoje, de resto, a Rita de Lavaz recorda aqui no Observador, é a quinta declaração em-

18 dias.

18 dias. E ele foi subindo de tom até finalmente dar nas vistas. E eu acho que se os ministros não têm opiniões pessoais, aquele é a opinião oficial do governo. É isso que ele está a dizer. E por isso cabe perguntar, designadamente, não só se os outros ministros concordam, como se o António Costa concorda. Mas não vale a pena esperar pela resposta, porque de alguma forma ela já foi dada. E foi dada de forma muito clara por Pedro Adão e Silva, que teve muitas horas para meditar no queria ou não responder aos jornalistas, porque percebeu-se depois de Lacerda Sales que lhe iam fazer perguntas. Teve também muitas horas para trocar WhatsApp com a coordenação política do governo, se quisesse. E depois dessas horas todas, não ensaiou qualquer correção de discurso, pelo contrário.

Sim. Aliás, ontem de manhã aqui, José Manuel, no Vence Doré, já tinhas dado um zero por causa dessas declarações na entrevista ao jornal de notícias no fim de semana. Depois do que ouviste, corrigirias a nota?

Não.

Na segunda fase, não.

Não, porque o que está em causa não é um ministro ter as suas opiniões. Claro, todos os ministros têm direito a suas opiniões. É a forma como expressa essas opiniões, sendo que aquilo que ele é, que é membro de um governo que responde politicamente perante o Parlamento, lhe dá algumas obrigações. Primeiro de tudo, a frase que ele escolheu para criticar o trabalho dos deputados da Comissão de Inquérito é profundamente infeliz. Não sei até que ponto é que isso foi deliberado e pensado, mas é infeliz. Aquela espécie de procurador de cinema americano de série B, década de 80. É uma espécie de inspetores rasca. Portanto, inspetores de segunda linha, porque filmes de série B são os filmes com menos orçamento.

Mais fraquinhos.

Mais fraquinhos. Só que tem um detalhe, na década de 80 já quase não havia filmes da série B.

Foi a década dos blockbusters.

É, mais dos blockbusters. Filmes de série B são mais anos 40, 50 de Hollywood. É evidente que depois daquilo que ele disse, inspetores rascas, digamos assim, há quem se possa sentir ofendido, outros nem se sentiram assim muito ofendidos. Eu devo dizer que quanto a ofensas, eu tendo a nunca me sentir ofendido, porque acho que tem que se ter casca grossa, uma pessoa nestas coisas.

Eu posso dizer uma coisa? Eu gosto de filmes de série B.

Depende. Se forem aqueles filmes de mortos-vivos.

Não sei se é ficção científica, temos o Ed Wood, elogiado depois.

Exatamente. E posso dizer-vos uma coisa? Algo me diz que vários filmes de série B depois acabaram em festivais, acabaram em objetos de culto e até ao abrigo dos programas de apoio da cultura ao cinema, várias vezes e muitas vezes os filmes de série B são depois recuperados e transformam-se em coisas sobre as quais os ministros da Cultura dos diversos países que têm ministros da Cultura, acabam.

Eu tenho saudades, por exemplo, de uma coisa que era uma espécie de filme série B, não era bem filme série B, que eram os Western Spaghetti.

Ah, que são ótimos.

Que eram filmados aqui ao lado em Espanha.

Sim, e que hoje são verdadeiramente objetos.

Às vezes ainda vou ver alguns.

E que hoje são verdadeiramente objetos.

Sérgio Leone.

Quer dizer, pelo amor de Deus, e a música.

Mas isso não se pode chamar série B.

Mas na altura eram muito importantes.

O Western, a série, tinha que ser filmado pra Hollywood. E eram filmados pelos italianos, aqui ao lado em Espanha.

Em Espanha. Os espanhóis têm hoje um culto sobre isso tudo. O sítio onde se comprou o posto, pode-se visitar o cemitério do duelo do Bom Mau e Vilão, há todas essas coisas.

Portanto, vocês acham que a comissão de inquérito ainda vai ser um bom clássico.

A comissão vai ser um clássico da política portuguesa. E quanto à série B, eu acho que o ministro da Cultura, às vezes, também devia moderar as suas declarações sobre a cultura propriamente dita.

Bem, mas isso é outro tema.

Sim, mas é a mesma deriva. É mesmo isso, é que de cultura diz pouco.

Agora há um problema que é o seguinte: o problema daquela frase, da forma como ele se referiu à comissão, não é apenas criticar os deputados, um bate-bola. É fazer uma crítica que eu acho que é institucional e desse ponto de vista degrada as instituições. Ele agora vai elaborar sobre o funcionamento da comissão de inquérito, ele está a desvalorizar, antes de tudo mais, as regras de funcionamento das comissões, que isso é que eu acho que é muito relevante. Por quê? Porque essas regras dão precisamente origem a algumas das coisas que ele não gosta, como apertar mais quem lá está, fazer perguntas inquisitoriais mesmo, mais assertivas, como fazer perguntas até esgotar as perguntas, entrar pela noite dentro. Atenção, não é a primeira vez que se entrou pela noite dentro. Quando foi, por exemplo, o inquérito ao BPN, até era preciso trazer o Santos para o Oliveira e Costa comer, porque senão desmaiava. Não é porque de repente estou muito preocupado com o senhor ministro e com a saúde do senhor ministro, que já não posso entrar pela noite dentro, porque quando era o Oliveira e Costa, como era um vilão, já se podia fazer tudo. É necessário ter noção de que, por exemplo, se nos lembrarmos da forma muito diferente como Pedro Nuno Santos respondeu na comissão da economia, em que respondia ao que queria, ao que não lhe apetecia responder, não respondia. E depois a forma como ele foi à comissão de inquérito, nota-se bem aí a diferença, porque foram 10 dias de diferença entre uma inquisição e outra. Quem assistiu às duas percebeu que na segunda ele estava mais prudente, mais à vontade, não entrou com aquela arrogância toda na comissão. É este método de interrogatório que permite apurar os factos. Quer dizer, permite perceber se quem está a responder está a responder com franqueza, ou se quem está a responder está a tentar iludir, está a tentar enganar, está a tentar escapar, está a tentar fugir. E foi usando exatamente estes métodos de interrogatório, por exemplo, que noutros tempos nós pudemos perceber os banqueiros, a falta de memória dos banqueiros, a falta de memória de gestores como José Alba, foi o que ficou famoso, "não me lembro". Ou então, digamos, a arrogância, aquela pose do João Gouveia, aquela coisa do Vieira do Benfica. Tudo aquilo não existiria sem comissões de inquérito. Aquilo que na altura Pedro da Silva achou muito bem como comentador, não pode agora, de repente, porque não lhe dá jeito como ministro do governo socialista, achar que não presta, porque são colegas de partido, são colegas de governo.

Pedro da Silva também falou da comunicação social, não falou só dos deputados.

Eu diria que ele não é a pessoa com mais autoridade pra falar da comunicação social. Ele sempre foi muito acarinhado, não direi por todos, mas por quase todos os órgãos de comunicação social. Já lá iremos. Ele, como protagonista da comunicação social, incomoda-se com o quê? Perturba-se com o quê? Inquieta-se com o quê? Quer dizer, vale a pena recordar o que ele disse ontem. Vamos lá ver. "Posso até elaborar, muito, e seria um prazer, porque acho que é mesmo o exemplo e um sintoma daquilo que é alguma evolução muito negativa que vejo na relação entre o funcionamento das instituições e a comunicação social. Acho que estamos a abrir as portas para uma lógica de reality show que degrada as instituições, e isso foi particularmente visível na CPI e na sua transmissão posterior por um longo comentário televisivo sobre o que eram os trabalhos da comissão." Depois acrescentou ainda o seguinte: "Eu levo muito a sério aquilo que é o funcionamento das instituições. Acho que há uma reflexão a fazer, uma reflexão que eu acredito que é partilhada por muitos portugueses", ele acha que está sintonizado com os portugueses, "acho surpreendente que ninguém se inquiete com a apreensão de telemóveis na CPI, ou com perguntas sobre quem é que está a trocar mensagens, ou com inquietações noite dentro, inquisições noite dentro. Acho que nada disto contribui para o bom funcionamento das instituições." Ora bem, quem ouvisse isto, inquirições noite dentro, até ficaria com a impressão que a comissão de inquérito era uma espécie de PID ou KGB, porque a PID e o KGB que aparecia na casa das pessoas noite dentro, de madrugada. Quem ouvisse o ministro da Cultura até ficaria com a impressão que o que é estranho é os deputados prolongarem as suas sessões e trabalharem noite dentro. Muitos de nós também trabalhamos às vezes noite dentro. Quando o que é estranho não é isso, o que é estranho é se telefonar a um cidadão a altas horas da noite e depois encontrar-se com esse cidadão na rua, sozinho, para recolher um computador. Isso sim é estranho, e é de noite. Quem ouvisse o senhor ministro da Cultura também achava que reconstituir a fita do tempo, que foi uma coisa que os deputados tentaram fazer, enfim, pelo relatório que nós ouvimos, sem grande proveito, mas reconstituir a fita do tempo é precisamente uma das melhores formas de tentar perceber o que se passou ou não passou, e quem está, para usar a metáfora dos dias de hoje, a faltar à verdade. E depois ele acrescenta outra coisa que eu acho muito interessante: "Não está escrito em nenhum lado que os ministros devem suspender o seu espírito crítico em relação àquilo que é o funcionamento da assembleia." Isso é sem dúvida. Mas uma coisa é manter o espírito crítico, outra bem diferente é tratar os deputados como se fossem, sei lá, candidatas a "Troca-Madas", que parece que ele achou que fossem. Outra bem diferente ainda é falar do que se passa na comunicação social como se tivesse uma lógica de reality show, só porque houve muitos comentadores que desta vez não alinharam com a narrativa do governo Mais, há uma tradição em muitas democracias, basta recordar alguns casos célebres dos Estados Unidos, de seguir em direto audições parlamentares, muitas vezes duríssimas, sejam elas para alguém que vai ser nomeado para o Supremo Tribunal, sejam algumas que já vêm dos anos 50 e 60, por exemplo, no caso da Comissão McCarthy, da perseguição das atividades antiamericanas, eram coisas que eram ouvidas pelo país inteiro. Portanto, será que ele também acha que esse exercício de democracia aberta é um reality show? Eu devo dizer o seguinte: um comentador, e um comentador como eu, só responde perante si, perante a sua consciência e perante a sua audiência.

E, às vezes, perante os tribunais.

Sim, mas eu essa parte preferia que não acontecesse.

Pois, mas acontece.

Às vezes acontece. Um ministro tem outro poder. Eu acho que isto é preciso ter consciência. Um ministro tem outro poder, que nós podemos ter o poder de influenciar. Um ministro tem o poder de decidir, que é uma coisa diferente apenas de influenciar. E ele tem que ter noção disso, porque ele teve já como comentador apenas o poder de influenciar, digamos assim. Veremos que não foi bem assim, foi um pouco mais. E agora tem o poder de decidir. Portanto, isso implica uma outra responsabilidade e com a responsabilidade vem, neste caso, contenção. Agora tu vais perguntar se estou a limitar a liberdade de um ministro. Não. Pelo fato de ele ser ministro, ele tem a sua liberdade limitada e não sou eu que estou a dizer isto. Há uma sentença famosa do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, a propósito de um caso célebre de liberdade de imprensa, em que a expressão usada pelo Tribunal Europeu é que há como que uma compressão dos direitos, porque lhe é dado um outro poder. Portanto, a partir desse momento, eu diria assim, por exemplo, um comentador pode, sem que aconteça nada de especial, a não ser os tribunais, insultar outro comentador ou ser agressivo com outro comentador. O ministro, quando vai por esse caminho, se calhar o melhor é fazer como o João Soares, que se demitiu.

Então estás a sugerir que Pedro Adão e Silva se demita?

Não. Eu nunca sugiro que ninguém se demita. Já sabes que as pessoas gostam muito de pedir demissões. Eu nunca peço a demissão de ninguém. Acho que quem está a fazer mal, se estiver a fazer muito mal, isso é mau para quem estiver em funções. Ora bem. Agora, há outra razão por que também não quero pedir a sua demissão, é que eu não tenho nenhuma urgência em voltar a vê-lo no Expresso, na TSF, no Record, na RTP, na Sport TV. Um, dois, três, quatro, cinco. Ele colaborava em cinco órgãos de informação diferentes.

Antes de ir para o governo.

Antes de ir para o governo. Quer dizer, não sei se foi antes de ir para o governo, porque houve aquele período em que ele esteve na comissão do 25 de Abril e não sei o que ele manteve dessas colaborações. Não o seguia com tanta atenção, digamos assim. Eu não tenho nada contra espalhar a colaboração por muitos órgãos de informação. Houve muita gente que o fez ao longo da vida e o faz ainda. Nada contra isso. Agora, aquilo que eu acho discutível. Há outra questão, é evidente, quem anda a fazer isso, pois não tem tempo para fazer aquilo que é a sua função. Ele é professor de uma universidade portuguesa, do ISCTE. E, portanto, como ontem lembrava no Twitter a Sandra Croato, que também se formou no ISCTE, quando ela se doutorou, em princípio o doutoramento é aquilo que dá a entrada na profissão, a sério, de professor, já tinha mais currículo acadêmico. Currículo acadêmico agora mede-se pelas publicações científicas em revistas conceituadas. Ela já tinha mais publicações acadêmicas do que o diretor dos doutoramentos do ISCTE inteiro, que era quem? Pedro Adão e Silva. Portanto, voltando às suas inúmeras colaborações, eu não tenho nada contra elas, acho que apenas há uma questão que tem a ver com transparência e com a boa identificação das pessoas. A Rita Tavares diz hoje que ele entrou para o PS com 18 anos, esteve lá até 2004, e que ainda não regressou. Não tem cartão. Mas eu acho que aqui o cartão pouca diferença faz, com toda a franqueza, porque ele não foi um mero compagnon de route do Partido Socialista. Há muitas pessoas que nunca se inscrevem nos partidos, mas estão sempre naquela área. Ele não é um comentador político como os outros, apesar de muitas vezes aparecer como tal. Portanto, vamos lá ver. Os comentadores políticos não são figuras asséticas, não têm que ser figuras asséticas, podem ter as suas ideias políticas, devem ter muitas vezes e devem assumi-las, não devem andar a fingir que são figuras asséticas. Agora, há uma diferença entre isso e ter um compromisso com um partido político, compromisso que já teve várias facetas, e é bom ter isto muito bem presente. Houve, como eu disse, a fase inicial. Inscreveu-se no Partido Socialista, subiu rapidamente, ainda não tinha 30 anos, já fazia parte do secretariado do PS no tempo de Ferro Rodrigues. Quando Ferro Rodrigues deixou de ser secretário-geral, todos se lembram, aquele episódio em 2004, ele também saiu.

Quando Santana Lopes substitui Durão Barroso na liderança do governo português.

Ele saiu, mas não passou à oposição a José Sócrates, porque em 2009 Ele é uma das pessoas que escreve o programa, a moção ao Congresso do Partido Socialista do José Sócrates. Estamos a caminho das eleições de 2009. Há aqui uma coisa que eu estou um bocadinho, no que respeita a José Sócrates, o João Miguel Tavares costuma dizer que é a prova do algodão. Helena Matos está sempre aqui a recordar as relações das pessoas com José Sócrates. Eu tenho exatamente a mesma perspetiva. Em 2009, não se podia dizer: "Não sei de nada, não suspeito de nada." Em 2009, já tinha sido noticiada a história das licenciaturas. Atenção, muito importante. Em 2009, já se sabia dos processos. Aliás, houve um inquérito a seguir no Parlamento, que foi eleito a seguir, em 2009, sobre as tentativas de interferência na comunicação social. Só que, atenção, Pedro Adão e Silva não foi neutro nessas tentativas de interferência. Ainda ontem reapareceram alguns dos vídeos em que ele aparece a, por exemplo, atacar o telejornal de uma televisão. Todos nós temos direito a criticar o que os outros fazem do ponto de vista jornalístico. É mais complicado fazê-lo fingindo que se está numa posição independente quando não se está. Muitos podem ter sido cegos voluntários, como eu disse, mas nessa altura havia outra coisa, que é: ele nunca, a partir daí, se distanciou realmente de José Sócrates, como por exemplo, acabou por fazer, apesar de tudo, Fernando Acácio, que disse: "Ele enganou-me." Eu não me recordo, posso não ter lido tudo, porque de facto cinco órgãos de informação diferentes, seguir toda a produção, pode ter acontecido, mas não me recordo Pedro Adão e Silva dizer: "Ele enganou-me."

Todos os problemas eu acho que é melhor que eu tenha dito.

Aliás, quando o José Sócrates foi preso.

É porque é impossível que eles o tenham enganado. Eles quiseram ser enganados.

Claro, foram cegos voluntários.

É vergonhoso o que algumas pessoas fizeram, que estiveram ao lado de José Sócrates, que beneficiaram até de alguns desmandos de José Sócrates, que insultaram os outros porque chamavam a atenção para aquilo que José Sócrates fazia, depois virem dizer que José Sócrates os enganou. E aí estou-me a referir concretamente a pessoas como Fernando Acácio. Acho absolutamente vergonhoso, porque as pessoas quiseram ser enganadas.

Houve pessoas, vamos lá ver. Ou então são...

Ou então são tontas.

Ou então são tontas.

Longe de mim querer defender José Sócrates, mas acho que as pessoas que o rodeavam e que tanto atacaram os outros porque o criticavam, contribuíram muito para aquilo que foi a tragédia do José Sócrates.

Havia muitas questões que entravam, como se costuma dizer, pelos olhos de dentro. A gente podia concordar com a política dele. Eu não concordava. Podia-se concordar com os TGV, com os aeroportos, com essas coisas todas. Mas havia outras coisas que já se sabiam. Vamos lá ver. Havia muitos casos, tinha havido muitos casos, de coisas que tinham começado muito atrás, na Cova da Beira. Havia a história também dos projetos de arquitetura, havia as histórias da Universidade Independente, havia as histórias da licenciatura, havia as histórias do Alcochete. Do Freeport, havia isso tudo. Tudo acabava sempre em histórias muito rocambolescas. Escutas telefónicas destruídas, proteção por parte do Procurador-Geral da República e do Presidente do Supremo Tribunal, sobretudo do Presidente do Supremo Tribunal, uma figura que eu tenho um particular carinho, digamos assim, entre aspas, da altura. Presidente do Supremo Tribunal da altura, não é o atual, não tem nada a ver. Tudo isso era conhecido. Era conhecido a forma como ele vestia. Havia uma loja em Beverly Hills que tinha o nome dele na montra. Uma das lojas mais caras do mundo.

Tinha a loja dos principais clientes na montra.

Tinha o nome dos principais clientes na montra. Era uma das lojas mais caras do mundo.

Toda a gente que olhava para ali percebia se tinham herdado dinheiro.

Ou eram milionários, ou eram estrelas de Hollywood, que ganham aquilo que a gente sabe. E no meio daquilo tudo, José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal. Como é que se comprava? Era possível ver os preços nessa loja. Já não sei como é que ela se chama, mas consegue-se ver. Consegue-se ver, inclusivamente no Google Street conseguia-se ver lá o nome dele. Não era preciso lá ir para descobrir isso. Toda essa gente andava com ele à volta, percebia como é que aquilo funcionava e não dava por nada, não reparava em nada, não estranhava nada. Há muitas coisas que eu sempre achei estranho, que não achava normal, que os jornalistas com quem eu trabalhava e que faziam o Partido Socialista disseram: "Mas como é que ele veste daquela maneira? Como é que ele vive naquele sítio?" Pronto, não interessa. Nada disto acontecia e o que é que entretanto fez Pedro Adão e Silva? Pedro Adão e Silva não era apenas defendê-lo nos órgãos de informação. Ele fez parte daquele grupo, é bom não esquecer isto, do grupo que criou, alimentou uma coisa chamada Câmara Corporativa. Muitas pessoas já não sabem ou não se lembram do que era a Câmara Corporativa, mas eu conto. Era um blog anônimo. Toda a gente assinava com o mesmo pseudônimo, Miguel Abrantes, praticamente. Depois de vez em quando enganavam-se, punham lá outro nome diferente, mas todos nomes falsos, em que ele pontuou a par com João Galamba. Eu ontem no Vencedor disse que ele era colaborador do Câmara Corporativa por causa de Das músicas, que eram as músicas dele. Na verdade, não é apenas por intuição que se diz isto. No inquérito da Operação Marquês, uma das coisas que se apanhou foi a forma como um dos animadores desse blog, a pessoa que coordenava aquilo, um senhor chamado António Costa Peixoto, era pago com aqueles dinheiros que a gente sabe qual era o circuito, para fazer a Câmara Cooperativa. Esse António Costa Peixoto também foi depor na instrução do processo. E o que ele disse nisso? Isso está num artigo publicado pelo Luís Rosa aqui no “Observador”. O que ele disse? Ele disse o seguinte: “Continuo a almoçar uma vez por semana com algumas pessoas, como o Pedro Adão e Silva e o João Galamba.” Repito, Pedro Adão e Silva e João Galamba. “A gente reúne-se uma vez por semana. Agora tenho faltado recentemente.” Isto foi uma interrogação já feita em 2015 ou 2016. Isto não foi em 2008. Não sei a data exata, mas foi nessa altura. Quando o Luís Rosa leu estas declarações, contactou o Pedro Adão e Silva para saber se era verdade, se isto era assim. O que ele respondeu? O Pedro Adão e Silva escreveu vários livros e o Costa Peixoto disse nessas interrogações que o tinha ajudado. O nome dele só aparece nos agradecimentos. Portanto, fica-se sempre com a dúvida o que foi escrito por um e escrito por outro. Revisão dos seus textos. Ele disse que sim, tinha ajudado na revisão dos seus textos e dos seus livros. E acrescentou algo que eu acho fabuloso e que é muito em linha com o seu pensamento sobre a CPI da TAP, que é isto: “Não vejo a relevância dessa matéria.” E tudo isto por quê? Porque ele conhecia o Costa Peixoto há muito tempo, por ser primo de um primo dele. Família alargada. Portanto, no fundo, ele nunca vê relevância em matérias que incomodam muito o Partido Socialista. Aliás, sobre o Sócrates ainda há mais coisas.

Que tipo de coisas é que há mais?

Sócrates também falou dele nos interrogatórios. Sócrates referiu-se a ele como sendo um amigo. Ele disse: “Um amigo meu, Pedro Adão e Silva.” Está nas transcrições. E curiosamente, por que ele contactou o amigo? Por que isso aparece nas coisas? Contactou o amigo para o amigo falar com a mãe, que é advogada, para a mãe o aconselhar numa das histórias cabulosas de todo este processo, que são as heranças da mãe, essas coisas todas, como é que se divide, não divide e tal. É muito engraçado, voltando aqui à Frida Kahlo, quando eles já se tinham separado, já não andavam os dois juntos, uma dessas revistas de coração põe uma notícia a dizer: “Apareceram juntos, juntaram-se.” Onde? No lançamento de um livro de Pedro Adão e Silva. Enfim. Não vou entrar por aqui, quero só fazer uma última nota, porque neste triângulo, eu falei de duas pessoas, mas isto faz um triângulo. Quer dizer, é um quadrilátero, se considerarmos o Sócrates no meio disso tudo. Falta aqui um lado.

Que é quem?

Pedro Marques Lopes. Pedro Marques Lopes era, eu acho que é um personagem sinistro. É um Dupont, daquela dupla Dupont e Dupont, em que Pedro Adão e Silva marcava o passo, naquele programa da TSF, e Marques Lopes ia abanando com a cabeça, como aqueles quinzinhos que a gente antigamente via nas chapeleiras dos automóveis.

O Pedro Adão e Silva tinha e tem muito mais sustento para falar.

Não tem comparação.

Marques Lopes não tem nada a ver.

Pode não ser um grande académico, mas não é um palhaço.

E tem graça quando quer.

Tem graça, tem estilo, é bem-educado, é charmoso, é surfista. Há mais surfistas na vida. Também temos um surfista entre os nossos colaboradores, que é o João Marcos de Almeida.

Ele escreve, por exemplo.

Eu às vezes encontro-o na praia, estou a chegar com os cães e ele a chegar com a prancha de surf.

Sim, ele contou isso à Maria João Simões. Aquele livro sobre o caso Saltillo, por exemplo, o “Deixem-nos Sonhar”, tem graça. Eu fiz comentário, não muitas vezes, mas algumas vezes na RTP com o Pedro Adão e Silva, e havia de facto esse desconforto. Todos nós temos opiniões políticas, aliás, acho que somos pagos para isso. Não é para irmos ali fazer de Miss Simpatia. Mas é muito desconfortável estar com alguém que se sabe que está a até colaborar diretamente com um partido e que se apresenta como alma, no caso do síndrome esquerda, independente. Mas com tudo isto, tem graça e é capaz de contar uma história, portanto, não tem comparação.

Não tem comparação. É uma coisa completamente diferente. Seja lá como for, agora indo para uma coisa um pouquinho mais política. Eu fiquei com duas convicções. A primeira: nada acontece por acaso. A criação deste facto político só pode ter a ver com um objetivo. Esse objetivo é, por um lado, desviar o centro das discussões do relatório da TAP. O relatório da TAP criou um indiscutível mal-estar. Pode-se exagerar, mas quando é demais o exagero, mesmo as pessoas distraídas notam. E naquele caso, notaram. E ao contrário do que pensam muitas pessoas, isso discutiu-se nos cafés deste país, o que se passou naquela comissão de inquérito. E a ideia de que só contam as narrativas, há limites para isso também. Depois, eu acho que também houve outro objetivo para subir de tom e já não sei bem definir quando é que foi a entrevista à TSF, TSF Journal Notícias, e portanto saber se ele deu isto antes ou depois da entrevista, mas que deu jeito, deu jeito, que foi também não se falar do caso do capitão Ferreira. Que é um caso de corrupção, como ontem aqui discutimos. E portanto, eu diria que é muito de tentar desviar e de criar narrativas e de criar factos políticos e de andar nisto, que vive a coordenação política do governo e Pedro Adão e Silva, apesar de aparentemente ainda não ser do Partido Socialista, não ter regressado a ter o cartão, é dessa coordenação política. Por isso, para concluir, e porque infelizmente hoje eu gostaria muito de ter aqui como convidado uma pessoa que infelizmente não vai cá poder estar, que é o Paulo Tunhas, de quem a gente tem muita saudade. Mas o Paulo Tunhas, quando Pedro Adão e Silva foi nomeado comissário para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, escreveu um texto notável, mas sobretudo tem lá uma frase que eu acho que é um verdadeiro aforismo. O Paulo Tunhas gostava imenso de aforismos, aliás, coordenou um livro de aforismos da Custódia Besar Luís, um livro muito giro. Um belo livro, que eu recomendo. Chama-se "Custódia Besar Luís, Aforismos, Prefácio de Paulo Tunhas." Feito isto, o aforismo de Paulo Tunhas é: "O pedor é uma virtude política, mas o PS não precisa dela." Eu acho que está tudo dito.

Está tudo dito para já, porque já temos a Raquel Abecasis conosco em linha para nos ajudar também aqui a discutir este caso e esta figura do governo agora tão no centro dos holofotes. Bom dia, Raquel Abecasis.

Bom dia, Carla.

Pedro Adão e Silva fala em nome do governo quando critica desta forma tão dura a comissão parlamentar de inquérito à TAP ou está a desviar as atenções também em nome do governo?

Sempre em nome do governo. Eu acho que o Pedro Adão e Silva está transformado numa figura que todos os governos têm, que é o ministro da propaganda. Aliás, não é uma figura que exista só nos governos de democracia, existiu também muito no tempo do Estado Novo, com os vários governos de Salazar. Eu acho que Pedro Adão e Silva é, de todos os membros do governo, para além de estar no núcleo duro do governo e do núcleo que define a estratégia, é, de facto, o mais habilitado para fazer esse papel na comunicação social. No passado, no tempo de Sócrates, era Santos Silva, muito. Hoje em dia é Pedro Adão e Silva, é o ministro que tem mais qualificações para isso, é alguém que as pessoas se habituaram a conhecer, como o José Manuel Fernandes estava a dizer na televisão, a fazer comentário político. Ele era, eu devo dizer, um comentador claramente alinhado com o Partido Socialista, mas acho que também não enganou ninguém e acho que, de facto, no comentário político, temos tido e temos quase sempre isso em Portugal, a começar pelo Presidente da República, que se notabilizou no país por ser comentador político e hoje em dia temos outros ex-líderes partidários, etc. Portanto, eu não o censuro por isso. Agora, devo dizer, até porque o Pedro Adão e Silva era alguém que, não partilhando das minhas ideias e com quem eu também partilhei comentário algumas vezes nalguns meios de comunicação social, era alguém que eu, apesar de tudo, respeitava pela forma consistente e por ter algum enquadramento e alguma consistência nos comentários que fazia, não era um trauliteiro puro e duro, estar agora entregue a este papel e no fundo, a imagem que me fica é um bocadinho a imagem daqueles fumadores que deixaram de fumar e se tornam fundamentalistas. E portanto, ele hoje em dia é o fundamentalista anticomentadores, que dá um bocadinho vontade de rir, é um bocadinho ridículo, mas que eu acho que também demonstra uma coisa: que é o Partido Socialista e o governo de António Costa percebem que estão com problemas sérios, e este caso do relatório é só mais um, entretanto já surgiu o do secretário de Estado, que é até bastante mais grave do que esse. E a estratégia que adota é, em vez de ir resolver o problema, atacar o mensageiro. E portanto, a estratégia que foi definida foi essa. Pedro Adão e Silva fez agora estas declarações polémicas, mas isto já veio de trás. Ele nas últimas duas, três semanas tem marcado posição em vários meios de comunicação social, em painéis, em programas, etc. Sempre neste tom de ataque ao comentador. E eu acho que esta imagem diz tudo. O fumador que se torna um antitabagista primário e perseguidor dos outros, é uma imagem, é uma figura que nos cria um pouco alergia de pele e que o vai descredibilizar, porque ele não vai ser ministro toda a vida. E eu acho que é muito difícil que ele possa regressar a uma posição que tinha e onde, apesar de tudo, era respeitado.

Essa também é uma questão, Raquel, porque Pedro Adão e Silva tem esta imagem pública e também no trato pessoal, e creio nós todos provavelmente o conhecemos pessoalmente, de uma figura cordata, acessível. Isto implica um custo pessoal e um custo profissional até grande. Como é que se entende?

Eu acho que o poder corrompe. É o que eu acho. E ele está neste momento num lugar de poder, ele é uma pessoa muito influente neste governo, ele está a ver a casa a destruir-se por dentro e, portanto, parece-me que isto é um ato de desespero que não mede consequências.

Mas concertado com o primeiro-ministro

Sim, seguramente. Eu acho que esta estratégia foi definida num gabinete aqui há umas semanas e Pedro Adão e Silva foi mandatado para fazer este papel, e já começou a fazer e vai continuar a fazer. Claramente, eles perceberam que precisavam de um ministro da propaganda e de alguém que tentasse desfazer a perceção pública dos muitos casos que estão a acontecer, das muitas inabilidades com que não estão a conseguir lidar com os problemas. E portanto, foram buscar Pedro Adão e Silva, que tem uma argumentação aparentemente coerente, ou sempre teve, para tentar dar corpo àquilo que António Costa dizia numas declarações infelizes a propósito da admissão do secretário de Estado. Ou seja, dar corpo a esta ideia de que nós somos a bolha, nós falamos de coisas que não interessam a nenhum português e eles, sim, sabem o que é importante e tentam descredibilizar o mensageiro, quem comenta, quem faz notícias e quem tenta escrutinar. Pedro Adão e Silva tem esta missão, mas ela foi definida claramente naquele petit comité em que o Governo define a sua estratégia, também com um célebre comunicador ou diretor da agência de comunicação, Luís Paixão Martins, e enfim, está a desempenhar o seu papel. Eu acho que ele, apesar de tudo, deve achar que o tempo cura tudo e que daqui a uns anos pode voltar à sua posição antiga. Mas eu acho que estas manchas ficam lá para sempre e acho que Pedro Adão e Silva não vai poder voltar nunca mais a ser aquele comentador que sabíamos que defendia uma causa, mas apesar de tudo, tentava fazer com alguma seriedade. A partir de agora perdeu esses créditos, é isso que eu acho. E tenho pena, devo dizer.

Ao ponto de assistirmos a um desconforto público por parte de alguns socialistas, a começar por Lacerda Sales. Isto pode levar a uma tensão entre o partido que apoia o Governo e o próprio executivo, ou isso também daqui à próxima polêmica vai acabar por se dissipar?

Eu acho que essas tensões no PS já estão a surgir há algum tempo. Eu acho que o PS já não é o partido unido que era quando há um ano tiveram a maioria absoluta. Eu acho que a pouco e pouco, mais em surdina ou mais vocais, nós começamos a ouvir algumas vozes dissonantes dentro do Partido Socialista. Isso é seguramente também alguma coisa que deve estar a preocupar António Costa, que é um homem experiente e sabe também ler esses sinais. E voltamos sempre ao tema de sempre. Pedro Nuno Santos voltou para o Parlamento, voltou com aquela imagem de que está ali para ser mais um a ajudar o governo, mas todos sabemos, e lá dentro também sabem, que essa não é a prioridade de Pedro Nuno Santos e portanto vai aproveitar todas estas dissonâncias para tentar ganhar pontos e sobretudo, se conseguir que ainda por cima não seja ele o responsável pelas divisões, tanto melhor. Quando o poder se quer fazer absoluto, é sempre difícil conseguir manter toda a gente dentro de casa. E eu acho que foi o que aconteceu neste episódio com Lacerda Sales, que apesar de tudo é um homem independente, que provou na comissão de inquérito que conseguia fazer aquele papel de presidente da comissão de inquérito com a isenção necessária e que portanto não poderia nunca, sob pena de ser ele o descredibilizado, deixar passar aquelas críticas em branco.

Raquel Lucas Assis, obrigada pela análise e por teres voltado aqui ao "Contra Corrente." Bom dia para ti. Vou, nos minutos que temos, ouvir o primeiro ouvinte desta manhã, que está em Lisboa. O Pedro Pinto é funcionário público. Bom dia.

Olá, bom dia. Consegue-me ouvir bem?

Sim, muito bem, Pedro.

Ok. Eu quando tentei entrar no "Contra Corrente", antes de saber qual era o tema, pensei que por estar a ouvir a história do cartoon, que seria esse o tema, e depois entendo qual seria e afinal até há uma enorme interligação. Bom, sobre todos estes casos, eu recordo-me de uma conversa que tinha com o meu falecido pai, quando estes escândalos começaram no tempo do José Sócrates. Não que nunca tivesse havido escândalos antes. E eu fiz um comentário com o meu pai, que ele arregalou os olhos, na sua experiência, que era o seguinte: isto há 20 anos, quando havia um escândalo político, eu comentava, ainda criança ou adolescente, que: "Então, mas é assim que se resolvem os problemas?" O que era o assim? O assim era que antigamente, as pessoas demitiam-se e o problema parecia que acabava por ali, não havia mais responsabilidade. Isto já parecia grave. Atualmente, com o PS e com estes indivíduos, aquilo que nós assistimos é que nem isso acontece, já nem se demitem. Isto leva-nos à questão dos anteriores, de João Galamba, da comissão. E aqui queria uma ressalva pegando um bocadinho nas vossas rubricas em que dão algumas notas. Eu dava um enorme 18 ao senhor doutor Lacerda Sales. E aqui tudo abaixo de 10 a qualquer um dos outros intervenientes que estamos hoje a falar. E o que eles têm em comum, o que eles têm de diferente? Ora bem. Carreira. Na política portuguesa, num país pequeno como o nosso, quem nós temos na política e nos comandos do país é gente que não tem carreira. A carreira limita-se às juventudes, às universidades A reboque das juventudes aos cargos políticos ou às aulas nas universidades. E por muito mérito que tenha alguém que conclua uma licença, um mestrado, seja aquilo que for, nem que seja o Domingo, o que é certo é que estes são os pontos comuns. Nós estamos rodeados desta incompetência. E o problema é que as pessoas de quem estamos a falar hoje, entre os quais o senhor Ministro da Cultura, são tão cheios de si mesmos, são bem a expressão em inglês full of itself, que eles próprios não são capazes de admitir isto. Eles acham-se realmente ao nível daqueles cargos que ocupam. E nós temos que lidar com isto, e nós não mudamos isto nas alturas das eleições, e não sei se é possível sequer mudar. Permita-me só um parêntesis, peço imensa desculpa pelo parêntesis, mas eu acho que vem a reboque. Esta história do cartoon não é uma questão menor. A senhora Isabel Moreira já nos habituou a um sentimento anti-polícia, curiosamente muito partilhado por alguém que o José Manuel Fernandes falou hoje, que é a Fernanda Câncio. Um sentimento que não consigo compreender, estará no passado, estará alguma história particular, eu não consigo honestamente compreender. Um ódio à polícia. A senhora Isabel Moreira falou em Cova da Moura, não se lembra, nem sabe especificar qual a questão que ela está a falar de Cova da Moura. Falou no processo de Alfragide, que foi um processo que não foi de racismo. Tentaram que fosse, mas que foi uma situação infeliz porque resultou numa condenação. Não vou pôr aqui em causa que o coletivo de juízes tenha decidido e dito que era convicção do tribunal e não com base na prova recolhida. Isto é muito importante, as pessoas não sabem porque não acompanham, não leem acórdãos e é normal, as pessoas só leem as notícias. Eu quero dizer aqui uma coisa muito importante. Isto é um papel de atenção que os jornalistas têm que ter, que é de questionar mais. Em 2017, foi noticiado que a senhora Isabel Moreira referiu uma qualquer comissão, observatório internacional que refere que a polícia portuguesa é racista, tem casos de racismo e de homofobia. Eu não me esqueço desta frase. E pela primeira vez, eu não me limitei às notícias e andei, nosso amigo Google, todo o mundo pode usar.

Pedro Pinto, vou-lhe pedir só para acelerar na intervenção. Estamos com pouco tempo e que ligação é que faz ao tema que estamos a discutir agora?

Ok. A ligação que faço é realmente a todo este sentimento que existe de quero, posso e mando e que imponho e impomos através de comunicação social, de pretensos estudos e afins. E neste caso arrastamos a polícia porque ela não se defende. A polícia não tem quem a defenda como têm os médicos, como têm outras classes, não tem uma forma de lutar com uma greve, por exemplo. E eu concluo já então só este ponto, já agora finalizo este raciocínio. Os estudos que davam a polícia como racista baseavam-se, nomeadamente, no processo Alfragide, que na altura estava em julgamento, portanto inconcluído estava. E os de homofobia em zero casos, em zero denúncias. E portanto, é nisso que a senhora Isabel Moreira e outros enchem a boca de razão, sem razão alguma, mas tem que ser questionado. E agora colando com o inicial e concluo, temos que questionar mais. Não nos podemos chegar com as opiniões e dar apenas valor porque são ministros, porque são deputados. Nós temos que questionar. E aí sim, esta comissão de inquérito foi importantíssima, deixou muita coisa a nu. Agora, quais são as consequências? Veremos.

Veremos então. Pedro Pinto, obrigada. Aqui com um desvio de tema, mas a dizer que é preciso questionar mais. Estamos rodeados de incompetência, dizia este ouvinte. Vamos continuar a falar da súbita centralidade de Pedro Adão e Silva neste governo. É na segunda parte do Contracorrente. Até já.

Segunda parte do Contracorrente. Hoje estamos a olhar para o estilo da governação. O número de telefone para onde pode ligar para participar em direto é o 910 024 185. Pode acompanhar o Contracorrente também em direto no Facebook e no YouTube.

E vamos já ouvir a opinião da Helena Matos. Pedro Adão e Silva pode e deve entrar nesta onda de críticas, não só aos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito, mas também à comunicação social que faz parte?

Eu acho que ele entende o que está a fazer como um ato político. Ou seja, é preciso preservar o governo no momento complicado. Houve a comissão de inquérito à TAP, há o escândalo nas Forças Armadas, o capitão Ferreira, e portanto, é preciso criar um fenómeno que capte as atenções, e que esse fenómeno tenha contornos absurdos até dá jeito. Portanto, eu acho que Pedro Adão e Silva está claramente a fazer um trabalho político de um ministro que está ali para fazer política, que é aquilo que ele tem feito. Ele não tem sequer uma perspectiva daquilo que é ou poderia ser um ministro mais da área da cultura e que tivesse uma perspectiva, claro, também marcada ela politicamente, mas uma perspectiva do que deveria ser aquele ministério, e portanto, é isso que ele está a fazer. Chama-se às vezes ministério da propaganda, mas na propaganda não é bem isto. Isto é mesmo uma questão mais instrumental. Nesse sentido, ele sucede a outras pessoas, como já tem sido dito, outras pessoas que já desempenharam este papel no passado. Creio que não o está a fazer mal E não o está a fazer mal a desempenhar esse papel, até porque nós temos alguém também com este tipo de perfil, que é o João Galamba, que está naquela espécie de banho-maria. Agora são férias, depois veremos qual vai ser o seu futuro. E há aqui uma complicação grande, que apesar de tudo, João Galamba tem uma pasta muito complicada, com grandes responsabilidades, e logo pode ser mais difícil desempenhar esse papel. Pedro Adão e Silva está a fazer aquilo que neste momento é útil a António Costa, é instrumental. Acho que ele terá até um pouco a noção do ridículo. Discordo da Raquel. Eu acho que ele não vai nada ficar queimado politicamente com este episódio, até porque não há memória. Por exemplo, nós hoje tivemos aqui de manhã na Rádio Observador, a Isabel Moreira, muito indignada com a questão da intervenção ministerial por causa da exibição daquele cartoon na RTP. É preciso que se perceba que a RTP é uma empresa pública, portanto toda a classe política acha que pode falar, os ministros ligarem pra RTP porque exibe isto ou porque exibe aquilo. Mas a Isabel Moreira, que eu acho que tem razão, nós podemos gostar ou não gostar dos cartoons, dos cartazes, mas não devemos estar a interferir na sua exibição. A mesmíssima Isabel Moreira, há bem pouco tempo, tomou-se de umas fúrias por causa do cartaz em que o primeiro-ministro aparecia representado lá em cima naquela manifestação dos professores. E achava que sim, que o primeiro-ministro tinha toda a razão para estar muito ofendido e sentiu-se muito ofendido. Foi há um mês. E a Landa podia dizer agora estas coisas como se não tivesse dito as outras no 10 de junho. Não há memória e dentro de algum tempo ninguém se vai lembrar destas coisas do Pedro Adão e Silva. Até porque é curioso, estas coisas são assim. O Pedro Adão e Silva, nós já tivemos, e o José Manuel refere aqui, outras comissões parlamentares que se arrastaram pela noite, outras tiveram interrogatórios muito duros, outras em que os próprios deputados que fizeram foram tecendo comentários às vezes complicados face àquilo que ouviam e ao destempero daquilo que ouviam e ao despropósito. Eu estou a pensar, por exemplo, na deputada Mariana Mortágua. A deputada Mariana Mortágua foi transformada numa espécie de estrela, e ela era uma boa deputada em comissões parlamentares, e à época, o Pedro Adão e Silva não achou nada que aquilo fosse um filme de série B. Qual série B? Aquilo era o melhor que se tinha produzido. Ele até faz declarações sobre Mariana Mortágua, dado o seu destaque na altura, falava-se que tinha nascido uma nova estrela na política portuguesa, e ele diz: "A Mariana tem características", esta gente de esquerda trata-se toda assim, são todos muito próximos. "A Mariana, Mortágua, tem características que são decisivas para se tornar uma política competente e popular. Assertividade e preparação técnica." Ou seja, quando era a Mariana, que eu trato por Mariana Mortágua, a fazer as perguntas, e que eram os banqueiros, os gestores, era uma questão de assertividade e preparação técnica. Agora, como estamos num governo de esquerda e questionar algumas das práticas, da forma como a esquerda geriu e teve uma interferência direta naquela empresa, já estamos no filme da série B. Esta alteração de óculos é muito comum, e a direita também o faz. Só que a esquerda consegue fazê-lo com mais eficácia, porque vive sempre neste estado de superioridade moral. Pedro Adão e Silva certamente que se lembra do que disse sobre Mariana Mortágua, sobre as comissões parlamentares de inquérito, em que Mariana Mortágua faz perguntas a Zé Nalbandian, e ficaram pra história. Aí era assertividade, agora é série B. É claro que ele sabe isto. Agora, o que a mim me interessa, e como digo, não acho nada que ele vá ficar sem prestígio político. Dá uma entrevista, conta duas histórias, ele conta bem e tem conversa. E houve aqui uma questão que a Raquel Abrucais referiu. Ele é uma pessoa cordial no contacto, também. Ao contrário de outras pessoas que até têm também sustento e algo pra dizer, mas que se tornam muito agrestes. Não, ele é cordial no contacto. O que ele sabe, aquilo que está a fazer neste momento, é o que é que vai acontecer. Todas as pessoas que vejo a destacar-se do Partido Socialista neste momento, estão todas numa área muito à esquerda. E Pedro Adão e Silva é também uma dessas pessoas. Eu recordo que ele, quando esteve na comissão da celebração ou das comemorações pra assinalar os 50 anos do 25 de Abril, houve logo problemas, nomeadamente pela sua visão sobre o 25 de Novembro. Ele tem uma perspectiva muito ideológica, e é à parte da Chic, até porque uma pessoa até pode ter uma posição de lástima sobre o que aconteceu no dia 25 de novembro, mas não tem de excluir. Podem promover-se debates. Agora, aquela visão muito editada do que foi o 25 de abril, estava concebido uma perspectiva mais de propaganda. Portanto, vindo aqui agora, eu recomendo o livro do Pedro Adão e Silva e João Tomás sobre Saltillo, para as pessoas que não sabem nada de futebol, como é o meu caso. Eu até percebi, e isto tem muito a ver com a política. O Pedro Adão e Silva explicou-me o que era aquilo do campo inclinado em que a seleção portuguesa tinha treinado quando esteve em Saltillo. Não fazia ideia que alguma vez tinha existido uma coisa dessas. E a política em Portugal é uma espécie de campo inclinado. Mediaticamente e em termos da criação do imaginário, ela favorece geralmente as pessoas de esquerda e sobretudo se forem da esquerda do Partido Socialista. Agora, é essa ala esquerda do Partido Socialista em que eu vejo surgirem mais pessoas, uns como possíveis candidatos a líder, outros como possíveis candidatos a segundos do líder ou a homens fortes do líder. E, portanto, a minha grande inquietação, não gosto nada de ter razão, porque tive razão na questão de achar que das indústrias da defesa aquilo ia dar alguma coisa, e portanto, que a TAP, comparado com aquilo que pode estar a acontecer nas indústrias da defesa, pode ser uma coisa até politicamente simples comparado com aquilo que acontece nas indústrias da defesa. E a minha preocupação aqui em relação ao Partido Socialista, preocupação não, é talvez mais uma questão de intuição. O que é que vai ser do Partido Socialista? As figuras que nós vemos neste momento destacarem-se são da ala esquerda do Partido Socialista. O Partido Socialista, muito provavelmente, vai ficar entregue aos Pedros, ao Pedro Nuno Santos, ao Pedro Adão e Silva, claro, com diferentes protagonismos e espaços. E como é que um partido que é charneira em Portugal, porque tem estado no centro-esquerda, vai acabar, provavelmente, a deslocar-se muito mais para a esquerda. Nós vimos ontem aquele debate em Espanha entre o Sánchez e o Feijóo. A sociedade portuguesa não é, de maneira nenhuma, a sociedade espanhola, mas vamos ter de passar por um processo de radicalização tão forte? Porque é curioso que as pessoas digam: "Ah, porque temos radicais dos dois lados." Mas a estratégia em Espanha do Sánchez foi mesmo radicalizar a sociedade, porque ele tinha de radicalizar para poder dividir, para poder captar votos, para poder engolir os outros partidos à sua esquerda. Isso não funcionou e por isso as coisas correram-lhe mal. Mas aquilo que nós temos tido em Portugal com o Partido Socialista, é que António Costa, neste momento, tem uma estratégia de engolir, o PS terá uma estratégia de engolir aquilo que está à sua esquerda. E esta geração, Pedro Nuno Santos, Pedro Adão e Silva, têm o perfil para o poder fazer. Mas o que isso pode implicar para Portugal? Portanto, eu vejo esta atuação do Pedro Adão e Silva como claramente instrumental, tal como outros detalhes, independentemente dela mais conhecer a medalha, a Maria Betânia, mas o entregar a medalha num concerto em que aliás tinham feito várias, e isso é normal num concerto, os artistas são livres de o fazer, mas vários considerandos de caráter político, vários slogans de caráter político, e portanto é entregue a medalha no final do concerto. Nós tivemos este ministro praticamente fora das notícias e agora temos cinco intervenções. A Rita Tavares referiu esta manhã aqui no "Observador", na história do dia, que irá haver uma sexta, porque vai haver uma entrevista à RTP. É claro que Pedro Adão e Silva é o primeiro a saber disso tudo. Portanto, eu acho que ele está, e aí discordo da Raquel, não, ele não comprometeu o futuro. Ele está mesmo a trabalhar para o seu futuro dentro de um Partido Socialista, muito mais à esquerda do que este que estamos a conhecer.

Mesmo sem precisar do cartão do militante.

E mesmo sem precisar do cartão do militante, porque essas são as pessoas mais importantes às vezes para um partido. Isso debateu-se imenso em Portugal com o Vargas Gonçalves, em 74, 75. Se ele era militante ou não era do Partido Comunista Português. É claro, o cartão era completamente irrelevante, porque ele era instrumental. Aquilo que eu vejo aqui com o Pedro Adão e Silva, este dizer, desdizer, e depois ele já fez isto no passado com outros protagonistas, é o tal jogo em campo inclinado, que ele descreve muito bem em Saltillo, mas também se aplica à política portuguesa, faz-se à esquerda e à direita. A esquerda consegue fazê-lo com mais eficácia e impunidade por causa da tal superioridade moral. Agora, ele vai ter um lugar no futuro da política portuguesa, porque um homem destes faz falta aos líderes. Sim.

Vai ter algures aqui um lugar.

Parece-me ser óbvio.

Helena Matias, vamos ver o que os nossos ouvintes estão a dizer nas redes sociais, João Miguel.

Lembrar sempre o número de telefone.

Vamos lembrar o número.

Lembrar o número é o 91 002 4185. Por falar em redes sociais, estamos com um problema na nossa internet, pelo que a transmissão vídeo no Facebook e no YouTube teve de ser interrompida. Mas aproveito para lembrar, e ainda bem que me chamaste, o e-mail para onde os nossos ouvintes podem enviar as suas mensagens é o ouvinte@observador.pt e claro, há sempre disponível o número de telefone o 910 002 4185. Se não puderem entrar em direto até ao meio-dia, podem enviar mensagens de voz.

Essas estão a funcionar. Há redes, havia este problema agora, há redes sociais, não há a rede internet, o que nos impede de ouvir agora. Se restabelecermos essa condição rapidamente, ainda vamos conseguir ouvir e ter esse contributo que é sempre aqui feito pelo João Miguel Santos. Enquanto isso, temos os nossos comentadores, os nossos convidados e os nossos ouvintes para registar neste contracorrente, como é o caso do André Azevedo Alves, que já está conosco em linha. André, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Esta estratégia agora, este protagonismo de Pedro Adão e Silva é de fato estratégico? Temos futuro político para o atual ministro da Cultura, como dizia a Helena Matos?

Eu acho que Pedro Adão e Silva está fazendo aquilo que sempre fez, independentemente dos diferentes chapéus que foi colocando, seja de comentador, de acadêmico, agora de ministro, antes recordo imediatamente antes de comissário. Talvez fosse até a designação mais adequada. Mas acho que Pedro Adão e Silva tem sempre feito este papel, que é basicamente o papel de um apparatchik do Partido Socialista, que vai passando a cada momento as narrativas que são definidas. É um apparatchik articulado, tem experiência em midiática e, portanto, é capaz de falar nos mídia e fazer passar essas mensagens. A única diferença que vejo é que agora ocupa uma pasta ministerial, mas parece-me que as funções de Pedro Adão e Silva são bastante claras e têm muito pouco a ver com o ministério. Portanto, é basicamente um operacional político relevante. Repare-se que ainda por cima ele se pronuncia sobre uma área que não tem nada a ver com o seu ministério. Portanto, isso é duplamente interessante. Usar o seu espaço midiático para ajudar aquilo que foi sentido como uma necessidade pela liderança do Partido Socialista neste momento, que é de procurar aliviar um pouco a pressão face ao que foram as revelações incômodas e o desgaste associado à CPI da TAP. E Pedro Adão e Silva veio cumprir o seu papel. Portanto, nesse aspecto, não me parece que haja nada de extraordinariamente novo. A única novidade aqui é que agora Pedro Adão e Silva, que no passado fez este papel, como dizia, como suposto comentador independente, como suposto acadêmico independente, como comissário para as comemorações do 25 de abril, agora faz ocupando uma posição de ministro.

Mas isso será que também implica alguma espécie de reposicionamento no governo entre aqueles que são os ministros mais políticos? Inicialmente, neste governo, podíamos pensar que esse papel caberia, por exemplo, a Mariana Vieira da Silva ou Ana Catarina Mendes. Pedro Adão e Silva começa a juntar-se mais ao núcleo forte, ao núcleo político do primeiro-ministro?

Eu acho que é cedo em que Pedro Adão e Silva sempre esteve nesse núcleo político, no sentido em que, como eu referia, parece-me que nunca as funções de Pedro Adão e Silva, seja agora como ministro ou antes de ser ministro, foram outra coisa que não funções essencialmente de propaganda política. E, portanto, nesse sentido, sempre foi eminentemente político e do núcleo político e de comunicação política ao longo das últimas décadas, diria, não tem feito outra coisa. Do ponto de vista do posicionamento interno no Partido Socialista, aí parece-me que é cedo para dizer que, pelo fato de ter tido estas declarações, Pedro Adão e Silva poderá estar agora numa posição mais favorável em termos relativos face a outros competidores pela sucessão de António Costa. Aí parece-me que provavelmente continua a ser uma figura de segunda linha nesse jogo. Enfim, se ao longo dos próximos tempos assumir um maior protagonismo, eventualmente poderá ter que ser reavaliada esta impressão. Mas para já, neste momento, considerando destes dois elementos, por um lado, que está a fazer o que sempre fez e segundo, que está numa pasta com uma importância relativa diminuta, acho que é cedo para fazer esse tipo de apreciação. Se se mantiver este perfil mais interventivo, aí acho que poderá, de fato, fazer essa reavaliação.

Helena, queres fazer uma questão ao André Azevedo?

André, há aqui uma pergunta. Eu acho, sim, que ele é uma figura de segunda linha, mas um importantíssimo segundo. Mas achas que poderia ser um segundo de alguém com o perfil do Pedro Nuno Santos? Opção demasiado descida.

Aí já me parece mais plausível. Ou seja, não Pedro Adão e Silva competir com Pedro Nuno Santos ou competir com outras figuras pela sucessão de António Costa, e era nesse sentido que eu dizia que me parece cedo e não tenho dados para ver Pedro Adão e Silva entrar nessa corrida, até porque me parece muito francamente que lhe faltam várias E qualidades importantes para esse desiderato. Agora, no momento em que se vai antecipando a saída de António Costa, em que Pedro Nuno Santos está na linha da frente para essa sucessão. A possibilidade de ter Pedro Adão e Silva como uma espécie de braço direito ou um dos braços direitos para a componente comunicacional/propaganda política, aí já me parece algo mais plausível. Mesmo para aí não será certamente o único candidato, mas para esse tipo de função, parece-me que Pedro Adão e Silva "terá currículo." Aliás, parece-me até que será das poucas funções importantes, funções políticas para que Pedro Adão e Silva terá efetivamente experiência, perfil e currículo.

Mas achas que ele pode fazer um percurso parecido com o de Santos Silva? Também começa pela comunicação social, também vem da universidade.

Acho que, apesar de tudo, há algumas diferenças.

Não tem os antecedentes no trotskismo como Santos Silva.

Não tem esses antecedentes. Ao mesmo tempo, Augusto Santos Silva tinha, apesar de tudo, um percurso académico mais sólido do que Pedro Adão e Silva. Pedro Adão e Silva, praticamente, do ponto de vista académico, tem um currículo que é nulo. O que não é o caso de Augusto Santos Silva, que fez uma carreira académica com alguma substância antes de transitar mais em pleno para a atividade política. Agora, esse paralelo, com as devidas diferenças, até históricas e geracionais, acho que é um paralelo que se pode colocar. Porque provavelmente, admitindo que Pedro Nuno Santos venha a ascender à liderança do Partido Socialista, e que Augusto Santos Silva, naturalmente, não vai desempenhar essas funções com Pedro Nuno Santos, até pela tal questão geracional, de idade e de percurso.

E até outras ambições que Augusto Santos Silva poderá manter.

Exatamente. E já não seria o tempo. O que quer que Augusto Santos Silva faça, não será quase certamente ser para Pedro Nuno Santos o que foi durante bastante tempo para António Costa. E nesse aspecto, Pedro Adão e Silva poderá, de facto, com as devidas diferenças e as devidas distâncias, ser um forte candidato a essas funções. Portanto, não do ponto de vista, até ver ou até fortes dados em contrário, a entrar na corrida à sucessão como protagonista. Agora, a posicionar-se como uma espécie de possível braço direito comunicacional, gestor da comunicação/propaganda política, parece-me que aí Pedro Adão e Silva poderá, de facto, ter perfil. Não faço ideia, não tenho conhecimento interno suficiente do Partido Socialista para saber, até pela relação entre os dois e pela relação entre Pedro Nuno Santos e o ex-candidato dessas funções, se Pedro Adão e Silva será o melhor colocado. Porque são funções que implicam também uma grande confiança pessoal. Portanto, não estou certo que essa relação privilegiada exista entre Pedro Nuno Santos e Pedro Adão e Silva, mais do que em relação a outras possíveis figuras, mas aí parece-me que poderá ser um candidato e isso sim, encaixa bem com este tipo de declarações, até, repito, completamente deslocadas da pasta que o ministro ocupa. E nesse sentido, pode ser também o próprio Pedro Adão e Silva a procurar demonstrar serviço e a procurar demonstrar: "Eu sou capaz de fazer este tipo de coisas, inclusivamente ocupando uma pasta ministerial."

André Jesus Alves, obrigada. Bom dia.

Obrigado. Bom dia.

Aqui a análise do nosso comentador do Observador. Em linha, a ligar de Estremoz, está o Rui Gonçalves, que é advogado. Bem-vindo, Rui Gonçalves.

Olá, bom dia.

Bom dia.

Obrigado. O que eu queria dizer quando me inscrevi no programa, neste momento mudou um bocadinho, porque me parece que o tema do programa era muito importante, porque acho que, de facto, esta intervenção do Pedro Adão e Silva é muito reveladora de muitas coisas. Tenho pena que o programa se tenha tornado aqui quase que uma dissertação sobre alguém que, de facto, não merece uma dissertação, porque parece-me que o Pedro Adão e Silva é mais um comentador que depois foi promovido no âmbito político e que nós sabemos que isso faz escola aqui neste país, até ao mais alto nível. Mas o que eu queria frisar das declarações de Pedro Adão e Silva é algo extraordinário que tem a ver com o seguinte: com a forma como o Governo, e toda a gente sabe que ele será a voz do dono nesse aspecto, como o Governo olha para o Parlamento e como olha, de facto, aquilo que António Costa diz, que à Justiça o que é da Justiça, à Política o que é da Política, demonstra uma coisa que facto seria verdadeira se ele cumprisse as regras de um Estado democrático. E quando o Pedro Adão e Silva diz assim: "Eu posso criticar perfeitamente os deputados, porque os deputados criticam os membros do Governo e, portanto, nesse sentido, eu não me vou retratar." Ora, começa por aqui logo uma perspectiva errada do que são os poderes em Portugal. Porque, de facto, os deputados servem para controlar a atividade do Governo e o Governo não serve para controlar a atividade E logo por aqui percebemos que Pedro Adão e Silva é mais um daqueles que olha para o país de uma forma totalmente distorcida. E depois quando diz que alguma vez se viu testemunhas, porque numa CPI são testemunhas as pessoas que ali estão a falar, lhes ser perguntado com quem é que estão a trocar mensagens. Alguma vez se veria isto num tribunal? Eu não sei se o senhor Pedro Adão e Silva tem passado pelos tribunais, eu de facto vivo disto, e num tribunal, se eu estivesse a testemunhar e pegasse no meu telemóvel, imediatamente eu seria admoestado e seria algo totalmente inaceitável. Trocar mensagens, então, seria algo completamente impensável. Depois pergunta: mas faz algum sentido haver apreensões de telemóveis numa CPI? A CPI tem praticamente os poderes de um tribunal e, para mais, no caso a que ele se refere, tenho a ideia que foi a própria testemunha, no caso o Frederico Pinheiro, que ofereceu o telemóvel para apreensão, que aliás é perfeitamente legítimo e a CPI tem poderes. Isto mostra que não há uma mínima noção do qual deve ser o funcionamento do Estado. E nessa dinâmica percebe-se, de facto, como o governo funciona e como o governo pensa. O governo não entende que o Parlamento possa sindicar a sua atividade, como é, de facto, constitucionalmente definido. Só queria dizer mais duas coisas para terminar e para não tirar tempo. Primeiro, um elogio natural a Lacerda Sales. Eu já o tinha dito noutras circunstâncias que Lacerda Sales parece ser diferente. Eu lembro-me, por exemplo, na intervenção daquela personagem absolutamente estranha chamada Hugo Mendes, na intervenção introdutória que ele faz de uma forma agressiva e malcriada, Lacerda Sales é o próprio que o interrompe várias vezes e pede-lhe respeito pela Comissão e ao longo de toda a comissão mostra um equilíbrio que eu confesso que é completamente raro no que é o Parlamento e a qualidade dos deputados, portanto, um elogio para ele também. Para terminar mesmo, pedir para a Rádio Observador se lembrar que também há portugueses no interior do país e que gostavam de ouvir a Rádio Observador através da rede artesiana e não só através da internet. Obrigado.

Nós também gostávamos muito. Obrigada, Rui Gonçalo, por este desafio que nos vai lembrando sempre que nos liga dos Tremós. Também gostávamos muito disso. Um bom dia para si. O Domingos Silva está em Lisboa, já nos pode ouvir em FM. Bom dia.

Olá, bom dia. Conforme prometido, não vou ocupar mais do que um minuto.

Obrigada.

Eu gostava que alguém perguntasse ao senhor primeiro-ministro ou aos próprios ministros que qualificações, habilitações, que background de trabalho ou de conhecimento é que eles têm como justificação para ocuparem os lugares para os quais são nomeados. Já não é só uma questão de pura incompetência, é que não têm rigorosamente nada a ver com aquilo para o qual estão nomeados. A única coisa que eles têm todos em comum é o cartãozinho rosa do servilismo e do lamber as botas ao Partido Socialista. Rigorosamente mais nada. Esta gente não presta para nada. E depois dão-se estas histórias tristíssimas, estas histórias lamentáveis, e têm estas atitudes e estes comportamentos dos quais saem com um sorriso, não sei se é sorriso amarelo, se é sorriso... se calhar é sorriso cor-de-rosa. Enfim. Observador, continuação de bom dia, boa semana. Muito obrigado.

Obrigada, Domingos Silva. Bom dia também. Com esta pergunta em um minuto, quais as qualificações para alguém ser nomeado ou convidado a ministro. O prometido é devido, João Miguel, a nossa rede ainda está aos saltos, mas já conseguiste recolher algumas opiniões.

Consegui. Manuel Filipe Gomes questiona: "Reality shows, afinal, a quem os devemos? Ao PS, que nos tem brindado com algumas temporadas desse tipo de programas deprimentes. Se o PS não fizesse trapalhadas umas atrás das outras, a oposição e a comunicação social não teriam tema." Fernando Cascais escreve que à pergunta se Adão e Galamba correspondem a um novo estilo de governação, diria que não, escreve este ouvinte. Fernando Cascais considera que são dois soldados que chegaram a ministros e ali chegados não conseguem esquecer os hábitos da caserna. Na opinião deste ouvinte, são casos isolados no governo que, apesar de poderem influenciar mais um ou outro governante ao estilo trauliteiro, não acredita, Fernando Cascais, que consigam contaminar todos os governantes a entrarem por esse caminho. Quanto a Luís Flores, considera que Pedro Adão e Silva lançou mais um ponto na agenda midiática da comunicação social, precisamente quando há um caso mais grave de corrupção que envolve mais um secretário de Estado que se demitiu. "Começa a ser um padrão neste governo e no PS", escreve Luís Flores. "É preciso desviar as atenções."

Aqui ficam mais opiniões dos nossos ouvintes. O André Abrantes Amaral está em estúdio conosco e participa muitas vezes aqui no Contracorrente, é comentador e colunista do Observador. André, agora ao vivo, bem-vindo e obrigada pela presença. Há aqui, de facto, um novo estilo de governação ou estamos a encontrar o tal padrão de que falava um dos nossos ouvintes na rede? Um padrão de atuação do governo quando há casos difíceis mediaticamente e politicamente falando.

Sim, eu percebo agora este comentário que estava a ler, porque nós podemos dizer que são situações muito pontuais, mas a verdade é que são situações pontuais, são casos muito isolados, mas que têm demasiada projeção e estão em lugares de destaque. João Galamba, no Ministério das Infraestruturas, tem dossiês pesadíssimos e muito importantes, deles é a TAP e o aeroporto. E Pedro Adão e Silva está no Ministério da Cultura

Podemos dizer que não é tão relevante, e aqui eu acho que é interessante como o Ministro da Cultura tem tanta importância no centro político do governo. Eu acho que isto revela bem.

Tem ou está a ter?

Está a ter ou parece que tem, porque ele faz parte do núcleo político e é nessa medida que ele acaba por ter muito destaque. Mas é curioso, e acho que é interessante analisar por que esse lugar de destaque na política, no núcleo político, é atribuído a um ministro da Cultura. Eu acho que esta ligação da cultura à política dentro do governo é curiosa, e aí sim é reveladora da forma como o governo socialista funciona. Porque a cultura geralmente deve ser reativa, ou melhor, deve ser de oposição ao status quo e geralmente ao poder instituído. E aqui, não, nós estamos a ter um ministro da Cultura a ter um discurso político e a determinar esse discurso político. Das duas, uma: ou isto foi feito sem pensar muito e a pasta da Cultura foi atribuída a Pedro Adão e Silva para lhe arranjar um lugar dentro do governo e lhe dar orientação política, ou então isto foi pensado mesmo assim, e isso ainda é, do meu ponto de vista, mais grave. Depois, falar um pouco sobre se Pedro Adão e Silva terá ou não grande futuro político dentro do Partido Socialista. Primeiro, ele nem sequer é militante e eu nem acredito que ele alguma vez venha a ter grande sucesso no Partido Socialista, em termos de cargos políticos. Acho que politicamente, este cargo de ministro da Cultura é o seu apogeu, o ponto máximo. Parece-me ser uma pessoa que funciona na sombra e é um pouco como um carro de combate, que serve para, não queria dizer esta expressão, mas é o chamado saco de pancada. Ele vai à frente para ser o centro de todas as críticas e ofereceu o corpo às balas. E faz um pouco isso com estas críticas, que demonstram não um desrespeito pela Comissão Parlamentar de Inquérito, especificamente, ou pelo Parlamento, é pelo próprio conceito da separação de poderes. Porque nós, por exemplo, em relação aos tribunais e as comissões parlamentares de inquérito, de acordo com o regimento, no artigo 13, número um e dois, vem dito, já agora eu posso até ler, que gozam de poderes de investigação das autoridades judiciais, que estas não estejam constitucionalmente reservadas. E número dois diz que podem ser ajudadas pelas autoridades judiciárias, dos órgãos de polícia criminal e pelas autoridades administrativas, nos mesmos termos que os tribunais. Ou seja, em certa medida, são equiparados quase aos tribunais. Nós, cidadãos, podemos criticar o funcionamento do tribunal. Eu posso dizer que acho descabido que, por exemplo, determinados inquéritos sejam feitos a altas horas da madrugada, mas acho que não passa pela cabeça de ninguém que um membro do governo vá criticar o funcionamento do tribunal nesses termos, porque isto é uma intromissão direta do poder executivo no poder judicial.

Peço desculpa de interrompê-lo, mas de facto ouvimos nas redes sociais, que acompanharam também muito intensamente os trabalhos desta comissão, houve efetivamente críticas à forma como, por exemplo, a chefe de gabinete de João Galamba esteve pressionada até altas horas da madrugada.

Eu posso achar essas críticas perfeitamente legítimas, o que eu não considero é que o ministro possa fazer, porque isso é uma intromissão direta no poder legislativo. E a separação de poderes é isto, o poder executivo executa as leis, o poder legislativo faz as leis e escrutina a execução dessas leis. Ou seja, se existe intromissão de um poder no outro, é do poder legislativo, no Parlamento, no governo, nunca o contrário. E nós temos o ministro da Cultura a violar esta regra. É grave não só porque é ministro, mas ainda mais porque é ministro da Cultura, pelas razões que eu já disse há pouco. E é esta filosofia política do Partido Socialista, que pisa determinado tipo de regras que são praticamente sagradas no Estado de Direito, é que acaba por ser um pouco preocupante e revelador. Ou seja, apesar de serem casos, podemos dizer, isolados de determinadas pessoas, elas têm tanto destaque que acabam por poluir, de certa forma, o funcionamento de todo o governo. E este é outro caso curioso, que tudo isto tem o guarda-chuva, vá lá até para usar o guarda-chuva que António Costa usou para Marcelo Rebelo de Sousa, tem o guarda-chuva de António Costa. Mas aqui outro aspeto que eu achei curioso foi, e só mesmo para terminar, a reação dentro do PS.

Ia perguntar-lhe sobre isso, porque houve reação.

Houve esta reação do Lacerda Sales, que achei a louvar, mas acho curiosa, porque pôde demonstrar que há setores no Partido Socialista que começam a sentir que o lugar de António Costa, o seu mandato como secretário-geral do partido, está em vias de terminar. E mais tarde ou mais cedo, isto pode ser já até uma janela do que é que vai acontecer quando o António Costa decidir que vai sair do Partido Socialista. E é revelador de que vai ser uma batalha campal, atroz, e vamos ter muitos programas no "Conta-Corrente", de certeza, para analisar vários episódios extremamente interessantes e curiosos.

Não começa cedo demais essa luta interna.

Talvez, mas quer dizer, há um certo posicionamento e um certo à vontade, porque Lacerda Sales esteve no governo e aqui critica um ministro do governo a que ele pertenceu.

Critica e pede que se retrate.

Exatamente. E está muito bem, mas não era de esperar tanta veemência e tanta acutilância da parte de um deputado do Partido Socialista.

Helena Matos, tens falado muito do PS pós-António Costa. Isto está aqui também um caldo, uma base para olharmos para os cenários que podem vir por aí, com o André Abrantes de Raquel a dizer que pode não ser bonito

Sim, e até porque eu estava aqui e vi uma notícia que diz que existe uma disponibilidade muito grande na sociedade portuguesa para uma maior intervenção do Estado. Tudo se acha que se resolve havendo uma maior intervenção do Estado. Isso é música para os ouvidos do Partido Socialista. E agora mesmo nós estamos com uma reflexão, e o Pedro Adão e Silva, enquanto ministro da Cultura, veio dizer que se deveria refletir sobre isso, que se vai refletir, porque está a ser revisto o contrato de concessão do serviço público, estamos a falar da RTP, e agora que será a criação de uma cota de 5% por hora de notícias do setor no serviço de informações. Ou seja, nós já estamos não a discutir ter programas sobre cultura no serviço público, mas já que nos noticiários, nos espaços de informação, deverá haver uma percentagem de tempo, uns 5%, 6% desse tempo, que deverá ser afetado à cultura. Isto dito assim, porque claro, isto é o que defendem os promotores destas ideias, isto vai aumentar imenso o interesse dos portugueses pelo ballet e pela música clássica.

Isto já está a colar com a outra polêmica do cartoon.

Pronto, exatamente. Ou seja, eu acho isto tão preocupante, ou coloco no mesmo espectro de preocupação, que um ministro ligar e dizer que não gostou do cartoon. O ministro tem todo o direito de não gostar do cartoon. Isso é óbvio. Agora, nós temos uma sociedade em que para qualquer circunstância se considera que tudo se resolve havendo mais Estado a interferir. Eu espero que se tenha a consciência do que é estar a definir, a entrar já nos espaços de informação, porque depois poderemos ter não sei quantos minutos para promover hábitos de saúde saudáveis, a literacia, a não violência. Ou seja, numa sociedade em que os diversos agentes, e privados também, muitas vezes privados, acham que tudo se resolve havendo uma maior interferência estatal, e que mesmo perante o falhanço óbvio dessa interferência estatal, se opta por achar que deverá haver mais interferência. Aquilo que choca na TAP, na Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP, é que temos ao vivo e em direto à frente dos nossos olhos, o filme de um falhanço da interferência do Estado. E por isso é que ela incomoda. Logo, aquilo que eu vejo em tudo isto é a criação de um ambiente ou o reforço de um ambiente em que homens como Pedro Nuno Santos e figuras secundárias como Pedro Adão e Silva, e instrumentais. Eu acho que o caso do Pedro Adão e Silva não é um caso de estratégia, é um caso de tática, por parte do primeiro-ministro. Em que surgem como os homens que podem resolver isto tudo. Porque haverá sempre um algo mais a fazer, uma comissão, um instituto, uma criação, uma intervenção, para de alguma forma resolver os problemas fazendo crescer ainda mais essa máquina estatal. Portanto, o Pedro Adão e Silva, eu repito, acho que está a ter um comportamento instrumental. Não vejo que um ministro da Cultura possa ter um tal grau de exposição em tão pouco tempo e que, sobretudo, contrasta até com um perfil muito baixo nos meses anteriores. Portanto, como em poucas semanas ele tem tantas intervenções e intervenções tão visíveis e até conflituantes ou aparentemente conflituantes com uma parte do Partido Socialista, sem ter um aval do primeiro-ministro para isso, sem ter uma espécie de cobertura para isso. Pedro Adão e Silva não é de modo algum. Já nós não temos sequer ministros com perfis muito fortes. Isso aconteceu noutros governos anteriores, que não de António Costa. Ministros que muitas vezes até tinham posições em que discordavam dos primeiros-ministros. Nós não temos aqui ministros com um perfil técnico ou político que lhes permita ter esse tipo de posicionamento, e muito menos um ministro da Cultura, que nem sequer é filiado no Partido Socialista. E portanto, eu acho que há aqui uma cobertura por parte de António Costa, que está a usar instrumentalmente Pedro Adão e Silva. E Pedro Adão e Silva não é tonto e portanto, tem absoluta consciência disso. E temos um governo em que várias figuras estão a ser usadas pelo primeiro-ministro, o caso do João Galamba também, para resolver aquele que é o grande problema, que é o que vai ser o futuro do Partido Socialista. Portanto, temos aqui vários homens, uns a serem queimados em fogo lento, outros a chegarem-se à frente, mas isto na prática é um baile, às vezes quase que de um jogo de sombras, porque lá atrás está um problema que é o Partido Socialista, que vai mudar de líder.

José Manuel, mesmo que para isso o governo afronte diretamente o Parlamento?

Vamos ver como é que o Parlamento reage. Nós temos vários tipos de reação, aparentemente três do Partido Socialista, mas que não me parecem corresponder a um levantamento de resto da bancada. Hoje já tivemos alguns deputados, aqui a Rita Tavares, para aguar a fervura e alguns anonimamente, como é óbvio. Não é nada óbvio, mas é aquilo que acontece regularmente. Houve aí alguns protestos dos vários deputados, mas nada que tivesse criado demasiado frisson. Nós vamos ter agora uma coisa importante, está a acabar o prazo para entrar as propostas de alteração ao relatório. Pelo que eu percebi, já entrou o Bloco de Esquerda, já entrou o Chega. Vamos ver o que é que vai-

Sim, tinha até terminado ontem

O prazo terminou. Portanto, vamos ter agora a discussão e a negociação disso. Eu não creio que muitas coisas vão mudar, mas eu penso que há aqui várias coisas. Eu ainda há pouco disse que isto era muito a criação de um facto político para que não se discutissem outros assuntos. Eu creio que é isso, mas é mais qualquer coisa para além disso, e o que é para além disso é uma espécie de sinal à navegação. Não façam mais isto. E um sinal à navegação para dentro do próprio Partido Socialista, porque para todos os efeitos, esta comissão de inquérito aconteceu com a condescendência do Partido Socialista, com uma direção dos trabalhos que foi bastante respeitadora. Houve até ali um problema pelo meio, saiu o Seguro Sanches, entrou Lacerda Sales. E eu julgo que o que se está a dizer ao grupo parlamentar é para ser combativo, para ser mais agressivo ainda do que é. Mas no grupo parlamentar e no Partido Socialista há pessoas a dizer: "Nós não podemos abusar da maioria absoluta." Quer dizer, Álvaro Beleza e sobretudo Alexandra Leitão, que está no Parlamento e, portanto, tem esta pressão. Agora, tudo isto cruza com o problema de saber como é que os Pedro Nunistas se alinham nisto, porque os Pedro Nunistas podiam estar do lado em que fossem mais, enfim, Alexandra Leitão. Essas geografias internas do Partido Socialista eu não estou por dentro, mas dizem que é uma Pedro Nunista. Agora, ela não pode também descolar muito do relatório da comissão, porque ela também está a proteger Pedro Nuno Santos. Vão ser tempos interessantes os próximos. Aliás, vamos ter Pedro Nuno rapidamente. Temos que esperar que passem as férias a fazer comentário e cada vez que ele fizer comentário vão lhe dar no mínimo tanta atenção, julgo eu, como dão neste momento para aí ao Marques Mendes ou equivalente.

Ou equivalente, ou no caso a Alexandra Leitão, Andreia Branço Amaral. Vão ser, de facto, tempos interessantes do ponto de vista político com esta comissão, independentemente do que seja o relatório aprovado com esta comissão parlamentar de inquérito à TAP a marcar um antes e um depois no governo. Será que é assim ou as férias vão ajudar a esquecer isto tudo?

Infelizmente, eu acho que sim, no que toca à má gestão de todos estes dossiês, à má gestão política e financeira de todos estes dossiês, eu acho que sim, que as pessoas vão se esquecer. E o resultado disso vai ser um Pedro Nuno Santos, que já é enaltecido por muitos socialistas como uma pessoa fantástica e como um homem providencial, e não haver contra-argumentos. Mesmo havendo os argumentos, ninguém os usa de uma forma enfática. Se Pedro Nuno Santos tivesse no PSD, ele teria sido torcido completamente. Teria sido uma pessoa que tinha destruído qualquer hipótese de recuperação da companhia aérea portuguesa e tinha tido uma ideia estrambólica nas costas do primeiro-ministro relativamente a um aeroporto. Não teria mais pé para andar. Agora, ele continua a ser encarado como uma pessoa fantástica, por quê? Porque tem carisma e uma pessoa pode ter carisma, sei lá. Agora não que eu esteja a exagerar, mas os ditadores geralmente têm carisma. E o carisma não é tudo. Por isso é que nós também temos as capacidades de poder fazer as análises e distinguir o bom trabalho do carisma político. O ideal é que uma pessoa tenha carisma, e também faça um trabalho bem feito. E não é esse o caso. E esta confusão vai fazer com que Pedro Nuno Santos surja como um homem providencial dentro do Partido Socialista e o que aconteceu fique esquecido.

Mas isso também não revela fragilidades por parte dos partidos da oposição que não conseguiram sublinhar os aspetos que fragilizam o governo.

Eu acho que conseguiram sublinhar, mas o que acontece é que isso depois é um problema mais geral da sociedade política, da nossa vida política. Tem a ver com a Assembleia da República, a legitimidade dos deputados, a eleição, o Álvaro Beleza falou disso, aliás, no Observador. Se não foi hoje.

Foi ontem.

Foi ontem. Eu é que ouvi hoje. E é verdade, ou seja, a forma como nós elegemos os deputados e se dá-lhes uma ligação maior ao eleitorado, essa separação que existe e a percepção que as pessoas têm de que não estão devidamente representadas no Parlamento, faz com que o que sucede no Parlamento não seja tão tido em conta. E outra coisa que também aconteceu, muitas das pessoas que nós estamos aqui a falar estiveram ligadas a José Sócrates. Veja-se que é o Partido Socialista, o António Costa, que foi ministro de José Sócrates, no Ministério da Justiça, que desvaloriza os casos de corrupção. Isto vindo de uma pessoa que foi ministro da Justiça do PS, é secretário-geral do Partido Socialista, é primeiro-ministro do Partido Socialista, depois de um ex-primeiro-ministro do PS ter sido detido e estar a aguardar julgamento por um caso de corrupção. Quando isto é aceitável, tudo pode acontecer.

Tudo pode acontecer. Andreia Branco Samara, muito obrigada por ter vindo hoje aqui pessoalmente aos estúdios da Rádio Observador para o Contracorrente. Hoje chega ao fim. Amanhã regressa à hora certa, mas com outro tema. Até amanhã. Helena Matos e José Manuel Fernandes.

Até amanhã.