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Muito bom dia. Primeiro foi o mistério sobre o que podia ter acontecido à Kate Middleton, depois o anúncio de que durante uma operação ao abdômen tinha sido detectado um cancro e que a Princesa de Gales estava a ser submetida a quimioterapia. Para muitas pessoas foi um choque, Kate tem apenas 42 anos. Para médicos e cientistas representou, contudo, mais um sinal de um fenômeno que os tem alarmado: o aumento da incidência de cancros em pessoas aparentemente saudáveis, algumas até atléticas, com menos de 50 anos. É sobre esta tendência que queremos falar no "Contra Corrente" de hoje, procurando perceber o que se está afinal a passar. José Manuel, bom dia, antes de mais. Suponho que viste o vídeo gravado pela Princesa de Gales.
Bom dia novamente. Vi, achei um vídeo muito bem feito, muito certeiro, muito genuíno.
Simples, muito simples.
Muito simples e com a capacidade de ao mesmo tempo mostrar tristeza, aflição, compaixão e solidariedade com todas as pessoas que têm de alguma forma a mesma doença e dando-lhes também uma mensagem de esperança e de vontade de lutar. Agora, há ali um lado, quem costuma ver a Kate Middleton, eu não costumo seguir com muita atenção a família real inglesa, mas vejo as fotografias de vez em quando, como toda a gente no mundo, sempre muito bem vestida, aqueles chapéus, tudo aquilo é sempre muito cuidado. É que ali era uma pessoa como nós todos. E eu acho que nisso a família real tem um engenho especial nestes momentos. Eu sempre gostei muito, por exemplo, das mensagens de Natal da Rainha Isabel II. A mensagem na altura do Covid era fabulosa, absolutamente incrível. Acho que fiz um "Contra Corrente" só sobre essa mensagem, porque de facto é uma capacidade de falar com as pessoas muito especial. Mas dito isto, a ver mais com a Kate Middleton e a família real, eu acho que ali o que surpreendeu mais as pessoas foi: ela ter 42 anos, como tu disseste. E não é habitual, ou não era habitual, ainda não é, mas não é muito comum ter cancro nessa idade. Um dos principais fatores de risco do cancro é a idade. Conforme nós vamos para velhos, a probabilidade de termos cancro aumenta. A idade média do diagnóstico é 68 anos. Não é o dobro, mas é bastante mais do que a idade que tem a Kate Middleton. E isto por quê? Já agora, vale a pena perceber por quê. Nós já fizemos aqui há dois anos, foi em fevereiro de 2022, um programa sobre o cancro, que o título era mesmo: "Será que vamos todos morrer de cancro?" A propósito do facto de precisamente a idade ser uma idade, por regra, avançada. Isto acontece porque o cancro é uma doença complexa. Aliás, de alguma forma, são várias doenças. Em que consiste o cancro? É uma multiplicação descontrolada de células, é disso que estamos a falar. Geralmente são aquelas massas que até podem ser muito grandes em alguns casos. A particularidade do cancro, por comparação com os tumores, é que o cancro, o crescimento desse tecido novo, no caso dos cancros malignos, não se circunscreve ao tecido onde teve origem, mas invade os tecidos à volta e portanto acaba por ter um efeito destrutivo. Isto acontece, sobretudo, porque o mecanismo de reprodução das células, de multiplicação das células, que temos que ter, nós estamos constantemente a renovar os nossos tecidos, a maior parte deles, alguns que são difíceis de renovar, mas a maior parte deles, se desregula, fica desregulado. Isso acontece por efeito de uma interação entre os nossos genes, que são aquilo que determina a construção das novas células, e o ambiente. O que acontece é que precisamente por haver uma interação com o ambiente, é preciso tempo. E é a passagem do tempo que aumenta a probabilidade de haver a tal desregulação. Como tudo na vida. Quem tropeça muitas vezes à fonte, há uma vez que se parte. Vou usar uma parábola que não sei se é a melhor de todas, mas penso que as pessoas percebem. Isso deriva da tal interação com fatores ambientais, que podem ser muito variados, desde comportamentos até ao facto de nós vivermos no planeta Terra sujeitos a radiações cósmicas. As pessoas não têm ideia disso, mas nós estamos permanentemente a ser atravessados por partículas e a ser atingidos por radiações, mesmo aqui dentro de um edifício como nós estamos.
Nós então dentro deste estúdio, com aparelhos eletrônicos.
Nem tem a ver com os aparelhos eletrônicos. A maior parte da radiação ambiente é uma radiação natural que vem de vivermos no sistema solar. Depois há outros fatores de risco, que são conhecidos, já lá vamos a eles, como tabaco, álcool, o que comemos ou não comemos, e outro tipo de comportamentos, alguns deles com aspetos que eu diria que a maior parte das pessoas nem sequer tem conhecimento, mas que podem ser um pouco perturbantes. Ora bem, dito isto, o que tem acontecido é que Nos últimos anos, tem havido uma maior capacidade de tratar as outras doenças e, portanto, doenças como o cancro e outras que associamos à velhice ou à idade mais avançada, começam a ganhar maior projeção. Por exemplo, as doenças degenerativas. As doenças que têm sido mais ou menos circunscritas são as que têm a ver com aquilo que havia antes, as tuberculoses, as gripes. Houve o Covid, que desenrolou um pouco isto, mas mesmo assim, o Covid, passado um tempo, está controlado. Ficamos com as doenças cardiovasculares e as doenças mais próprias da velhice. Mesmo as doenças cardiovasculares, por exemplo, em Portugal, nos últimos 20 anos, praticamente, a sua incidência não deve estar para metade, mas quase. Isto é um indicador de uma taxa de mortalidade padronizada, que eu não sei exatamente o que é, mas passou de 250 para 170, ou 150. É uma descida bastante significativa. Já os tumores malignos manteve o mesmo grau de incidência e ultrapassou, inclusivamente, a taxa de mortalidade das doenças cardiovasculares, e portanto, é uma indicação de que é, neste momento, o principal fator de risco de nós todos, sobretudo a partir de uma certa idade, são, de facto, os tumores malignos. Para teres uma ideia, há aqui alguns números. O governo que está de saída aprovou no final do ano passado, final de dezembro, antes já estava em gestão, o nome exato é Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro, onde está muita informação sobre o que está em causa. Os números que aqui vêm citados neste relatório é que nós temos mais de 50 mil cancros diagnosticados por ano, e isto tem vindo a subir. Aquilo que indicam os estudos um pouco por todo o mundo, mas com incidência especial nos países mais desenvolvidos, é que o risco em pessoas mais novas, abaixo dos 65, 70 anos, tem vindo a crescer, sobretudo se considerarmos a coorte abaixo de 50. É aquilo que estamos agora a falar, é o que engloba a Kate Middleton. Só para dar também um número: os novos casos de cancro entre pessoas com menos de 50 anos aumentaram 80%, 79,1% entre 1990 e 2019. O número de mortes não cresceu tanto, cresceu só 28% aproximadamente. É um bom sinal, nós estamos a conseguir controlar e tratar os tumores malignos, mas são resultados que mostram um padrão diferente. Isto não é exatamente igual nos países desenvolvidos e nos países menos desenvolvidos, há comportamentos diferentes, e a tendência estimativa é que isto vá continuar a aumentar. Por exemplo, até 2030, estima-se que aumente 30%. E o risco maior é para as pessoas com menos de 40 anos. Isto implica tentar perceber o que se está a passar. Neste momento, as doenças oncológicas é uma das principais causas de morte entre os portugueses. 25% dos óbitos em 2019. Eu estou a usar 2019, porque 2020 é ano de Covid. Não podemos comparar com os anos de Covid, as estatísticas deste período de Covid são estatísticas fora do comum. Estamos a falar de quase 30 mil óbitos por ano, o que é essencialmente metade dos casos, em termos de nós pensarmos, pode significar metade das situações diagnosticadas. As principais causas de morte, neoplasias, como também se diz, pulmão, cólon, estômago, mama e próstata. E também com alguma importância os casos do sangue, as chamadas hematológicas. Hematologia é sangue. Eu vou falar em termos genéricos. Agora, em termos da população mais jovem, tem havido alguma discussão na literatura científica, quer da área da oncologia, quer da área médica, quer inclusivamente revistas como a Nature. Tem havido alguma discussão sobre por que está a acontecer, por que nós estamos a apanhar isto. E há basicamente várias explicações, não há uma única explicação. Há uma explicação que seria a boa explicação: melhores rastreios. Estamos a melhorar o rastreio.
A identificar melhor quem tem doença.
Começar a fazer os rastreios mais jovem, identificar melhor as situações de risco, perceber situações que tenham a ver com predisposição genética e começar a rastreá-las mais cedo. E há muitas situações, por exemplo O cancro dos intestinos, a famosa colonoscopia, que é um exame particularmente desagradável, é um tipo de exame que se recomendava a partir de uma determinada idade e hoje em dia está a começar a recomendar-se mais novo. As mamografias. Colonoscopia já fiz uma, mamografia nunca fiz nenhuma. A Helena ri-se.
Mas também há cancro da mama nos homens.
Também há cancro da mama nos homens. Aquilo que eu estava a dizer é que a recomendação médica é que começa-
Microfone, Helena.
É desagradável.
A mamografia também.
Eu não dizia de outra forma.
A recomendação começa a ser feita mais cedo. E há melhores métodos de diagnóstico. Há uns anos atrás tínhamos apenas radiografias, depois passamos a ter TACs e hoje em dia temos ressonâncias magnéticas. Evidentemente, tudo isto custa dinheiro e é também por isso que os sistemas de saúde em todo o mundo estão mais dispendiosos, não queria dizer caros, estão mais dispendiosos. Isto é tudo muito mais sofisticado, mas também deteta o que antes era indetetável. E depois há outra questão que tem a ver com comportamentos. Até que ponto é que alguns comportamentos levam a que exista um aumento das taxas de doenças cancerígenas, oncológicas. E aqui eu encontrei uma lista que é longa, é variada e não há claridade sobre de onde é que possa vir a razão principal. Provavelmente é uma razão múltipla. Como eu disse, o cancro é uma doença complexa, com origens muito diferentes. Há cancros que evoluem muito depressa, outros que podem estar latentes décadas. Latentes, quer dizer, não evoluírem de forma muito grave durante muito tempo. O risco de vários tipos de cancro não é igual. E há as razões clássicas: fumar. Não há dúvida hoje que os fumadores têm um risco acrescido de doenças cancerígenas, sobretudo nos tecidos que estiveram em contacto com o fumo do tabaco.
Todo o aparelho respiratório.
A garganta, o esófago, os pulmões. E já vimos que o pulmão é a principal causa de morte pelo cancro. O consumo de álcool, sobretudo o consumo excessivo de álcool. Obesidade e excesso de peso. Uma epidemia. As estatísticas da obesidade em jovens e, sobretudo, muito jovens, crianças e adolescentes, em países, não tenho para Portugal, mas para os Estados Unidos, em 50 anos, passou de residual, 5%, 6%, para 30%, um terço. São números alucinantes, que naturalmente têm consequências.
Chamam-lhe a epidemia do século XXI, a obesidade.
Exatamente. Depois, há questões que são doenças. Por exemplo, a diabete tipo 2 é um fator acrescido de risco. E depois há outros comportamentos. Por exemplo, comermos aquilo que comemos. Genericamente, diz-se se tivermos uma dieta mediterrânica, com vegetais, sobretudo coloridos, sobretudo os verdes, e não comermos apenas carnes e carnes vermelhas. Nós temos aqui um podcast sobre nutrição.
"Aprender a Comer".
"Aprender a Comer", que é muito interessante. Não fala sobretudo de doenças malignas, fala da outra epidemia, do excesso de peso, mas tem inúmeras indicações sobre como é que nos devemos comportar. Eu recomendo, particularmente. Mas voltando aqui ao nosso tema, houve aqui mudanças de comportamento, que têm não apenas a ver com termos deixado de ter a chamada dieta mediterrânica, que não era naturalmente uma dieta universal, o Mediterrâneo é apenas uma parte do mundo, mas sobretudo passar para as chamadas comidas rápidas ou fast food, com comidas ultraprocessadas, comidas muito calóricas e apetitosas. O excesso de açúcar, por exemplo, uma questão muito presente, e que isso é de facto um risco em termos de cancro.
E depois com muitos conservantes.
Muitos conservantes, muitos É.
Para poder aguentar muito tempo nas prateleiras.
Exatamente. Muitos É, como agora se diz.
Muito sódio, para não estragar.
Pronto. Agora, há outras coisas que são menos óbvias. Por exemplo, dormir pouco ou dormir de forma irregular, sobretudo na infância. Mandar a criancinha para a cama quando ela é jovem, que é uma coisa que às vezes é um trabalho difícil dos pais, face às atrações do mundo moderno. Antigamente, estou a falar mesmo antes da revolução industrial, antes de termos todos luz elétrica em casa. Havia uma altura em que deixava de haver luz, e as pessoas dormiam.
A escuridão assim obrigava.
A escuridão assim obrigava. Podiam fazer outras coisas, mas basicamente havia pouco estímulo. Não se ficava a ver televisão. Eu ainda nasci numa casa onde não havia televisão. Aliás, eu nasci com a televisão em Portugal, tenho a idade da RTP.
1957, exatamente.
A televisão só chegou uns anos depois à minha casa e na altura não havia na maior parte das casas. Depois há outra coisa que está a tornar-se uma tendência, mas que não é saudável também deste ponto de vista, que é ter os filhos tarde. Nós sabemos que a idade que as mães hoje em dia têm o seu primeiro filho é já depois dos 30, o que não é a idade biológica ideal. Dizer isto pode ser muito mal interpretado, porque muitas das vezes corresponde a uma evolução da própria libertação, emancipação da mulher. Mas tudo na vida não há almoços grátis, há coisas que vêm por bem, mas que têm às vezes outras consequências. Nós andamos de automóvel, mas às vezes morremos em acidentes de automóvel ou ficamos feridos, mas não imaginamos deixar de andar de automóvel. Outra coisa que também tem a ver com isto, que é dar ou não dar de mamar. Isto tem muito a ver com o cancro da mama. Não dar de mamar ou dar de mamar durante muito pouco tempo, ou só tarde, só se tem o filho muito tarde, aumenta o risco de cancro da mama. Os contraceptivos orais, a chamada pílula, também aumenta os riscos de cancro. E naturalmente, tudo o que são as toxinas ambientais, que são muito variadas, o famoso amianto, que ainda andamos a retirar das nossas escolas, mas que se generalizou muito. E há muitas outras coisas, que têm a ver com produtos que usámos ou continuamos a usar, desde certos tipos de tintas a muitas outras coisas. Tudo isto ajuda a explicar, primeiro, porque é que o risco de cancro tem vindo a aumentar e, sobretudo, porque é que tem vindo a aumentar em mais novos. Porque não havendo uma única razão e podendo uma parte, como eu expliquei há pouco, uma parte dos motivos para nós estarmos a detetar tantos cancros ser estarmos a melhorar o-
O rastreio?
O rastreio. Não podemos ignorar que temos, de facto, hoje em dia, comportamentos não é diferentes de há um século atrás, é diferentes de há uma geração atrás. E que algumas dessas coisas nos fizeram melhorar imenso a vida, quer do ponto de vista material, quer do ponto de vista comportamental e por aí adiante, mas, por outro lado, incluem riscos. Uma coisa que, por exemplo, tem a ver com o sono, que é a exposição à luz de telemóveis, de aparelhos deste género, durante demasiado tempo. É televisões, mas também é ecrãs de computador e telemóveis. Nós passamos a vida à frente de ecrãs. E eu passo, seguramente, a vida à frente de ecrãs. É diferente com miúdos.
São muito estimulantes para o nosso cérebro.
Exatamente. São muito estimulantes.
Isto tem um preço. Luz azul.
A luz azul tem um preço, tem um custo. Nós não imaginamos viver sem este tipo de aparelhos, mas isto cobra uma franquia. Admite-se que, provavelmente, este aumento tem mais a ver com questões de comportamento e alimentação do que com os outros fatores, porque os aumentos maiores de cancros nos tais pré 50 anos acontecem, sobretudo, em cancros do aparelho digestivo, digamos assim, desde a garganta até aos intestinos. O que pode indiciar, estamos a falar tudo de probabilidades, que terá a ver mais com o tipo de alimentação que fazemos. E falta falar aqui de outra coisa que eu acho também muito relevante e que é algo que cada vez se fala mais, e que eu acho fascinante, que é o impacto que todos estes comportamentos e esta alimentação têm numa coisa a que se deu muito tempo pouca importância, ou não importância suficiente, que é a chamada microbiota.
Micro?
Biota.
Biota.
Sabes o que é?
Tenho uma ideia.
Microbiota são todos os micro-organismos que vivem no nosso corpo num regime mutualista. Digamos assim.
Permanente troca.
Mutualista. Isto é, ao contrário de alguns micro-organismos, como o Covid ou como algumas bactérias que nos provocam doenças, e que temos de tratar ou com antibióticos ou com antivirais, nós temos uma quantidade enorme de micro-organismos que vivem na pele, na boca, sobretudo nos intestinos. É onde está a maior parte deles. Alguns, vivendo nesse ambiente, fazem-nos falta e portanto, por isso, quando as pessoas tomam muitos antibióticos, destroem a chamada flora intestinal. Flora intestinal é um nome errado, porque flora remete para algo do reino vegetal e aquilo é tudo. São protozoários, são bactérias, é tudo aquilo que nós temos no nosso trato digestivo.
São a nossa guarda pretoriana.
Não, aquilo não é só guarda pretoriana. Por exemplo, para a produção de vitamina B é importante. Sem essa simbiose com esses micro-organismos, torna-se mais complicada a produção de alguns nutrientes que nos fazem falta, a sua transformação, tudo isso é relevante. Esta conversa é um bocado escatológica para estarmos aqui de manhã a falar disso. Mas uma parte significativa das nossas fezes são restos De bactérias e outros micro-organismos. Elas estiveram ali em simbiose, a fazer o seu trabalhinho e depois saem. É evidente que de vez em quando, uma bactéria que está presente nos intestinos e que nos faz falta, quando passa para outras zonas do corpo, pode provocar problemas e doenças. Vou dar um exemplo: Escherichia coli. Sabes o que é Escherichia coli? Tu sabes? Sabes, Helena. O nome comum da Escherichia coli é colibacil.
Sim.
A Escherichia coli é uma bactéria muito estudada em genética, foi das mais usadas nos laboratórios durante muito tempo. Quando estudei Biologia, falávamos muito da Escherichia coli e a mosca da fruta, Drosophila melanogaster. Desculpem-me lá trazer estes nomes aqui um bocadinho complicados. Mas toda a gente sabe que a Escherichia coli, se passar dos intestinos para outras partes, sobretudo do corpo das mulheres, causa um problema muito desagradável. Porque é que eu estou a falar disto? Porque quer a alimentação, quer, por exemplo, o abuso de antibióticos, quer o abuso de outras substâncias, pode desequilibrar completamente a microbiota e ao desequilibrar a microbiota, desequilibra o equilíbrio do organismo. É um dos fatores que é apontado como podendo ajudar a desencadear situações de desenvolvimento anormal de células, vulgo tumores ou cancros. Tumores malignos. É disso que estamos a falar, é disso que temos de estar bem presentes, porque nós agora, como eu referi, já temos uma estratégia nacional de combate ao cancro. Dessa estratégia faz parte a prevenção, mas também o rastreio. Não vi, ao ler essa estratégia, referências muito específicas a esta realidade dos menos de 50, mas temos de ter consciência que ela existe e está em expansão no mundo desenvolvido, que é, para todos os efeitos, o nosso mundo. E por isso, no fundo, há muita Kate Middleton nesta Terra, todos sabemos isso. Sabemos que no caso concreto das mulheres, o cancro da mama muitas vezes até se revela precisamente em idades mais novas, mas no caso dela é um cancro que nós não sabemos exatamente que cancro é, mas sabemos que é um cancro da zona abdominal, aparentemente, pelo menos é as indicações que sabemos. E eu não quero saber mais coisas sobre isso, acho que não precisamos de estar a ver o boletim médico da Kate Middleton, mas talvez aproveitar o facto de ser alguém saudável e com 42 anos, que chama a atenção para o facto de isto ser muito comum.
E não apenas saudável e com 42 anos. Estamos a falar de alguém que objetivamente, pela condição social que tem, é alguém que é muito seguida clinicamente, quer dizer, são pessoas que vão regularmente ao médico, não têm dificuldades nesse acesso, antes pelo contrário. Era alguém que até pela sua imagem, cultivou sempre uma imagem de muito vigor físico, muito desportista. Ela participava em N provas, corria, saltava e nadava. Sabe-se também que tinha e tem cuidado com a alimentação e, portanto, sem dúvida, há aqui todo um lado, quase de alguém que transmitia uma imagem saudável, ela mesma e saudável nos seus hábitos e que de repente surge com uma doença desta natureza, o que de alguma forma é complicado, porque nós, em geral, até precisamos de ter a noção, de ter a convicção, não é a noção, termos a convicção que aquilo pode não nos acontecer. Isto acontece em relação a todas as doenças e muito particularmente em relação ao cancro. A ideia de que se fizermos A mais B, mais C, nós não vamos sofrer aquilo, como se a doença, toda ela, e muito precisamente a questão do cancro, fosse o resultado de questões do que fizemos mal.
Do produto de uma receita.
Não é só isso. Como eu disse, basta andar por aqui e receber a radiação. Um dos cancros mais agressivos é o cancro de pele, o melanoma. E o cancro de pele é um cancro que num país com muito sol, como o nosso, e com pouca melanina na pele, nós não temos a pele escura como noutros países. Ou melhor, eu tenho a pele mais escurecida, mas a maior parte das pessoas têm a pele bastante clarinha, não estão preparadas para tantas horas de exposição ao sol, como eu diria que está na moda. Porque no século XIX, uma mulher bonita era uma mulher branquinha. Agora uma mulher bonita é uma mulher tostadinha.
Bronzeada, pronto, não vou dizer tostadinha.
Aliás, a própria expressão ar saudável, hoje em dia.
O ar club med.
Exato.
Mas mesmo no caso dos cancros de pele, nos sinais que têm que se fazer essas monitorizações, não se pense que tudo decorre das pessoas terem uma grande exposição ao sol. Mesmo pessoas com muitos cuidados podem ter problemas e até em zonas do corpo que nunca apanham sol. Mas nós precisamos de ter um bocadinho essa relação causa e efeito em relação à doença, para explicar e para nos convencermos também a nós mesmos, que aquilo provavelmente não nos vai acontecer, porque nós estaremos, segundo queremos acreditar, a fazer tudo bem.
Não há receitas salvíficas.
Não. E depois, também em relação, e aqui o caso de Kate é muito importante nesse sentido Também um pouco a ideia que se tem estilado na sociedade, que é: nós podemos ter qualquer doença, mas vamos sempre ser capazes de fazer a nossa vida e vai ser sempre tudo ótimo. Depois podemos falar disso mais à frente, até por causa do apelo de uma jornalista norte-americana, que também tem uma doença dessa natureza, e o que ela diz, que realmente não é bem assim.
Muito bem, contamos também com a opinião dos nossos ouvintes, 910 02 41 85. Pode ligar para se inscrever no Contra Corrente e participar até ao meio-dia. O José Manuel Fernandes falava há pouco aqui das doenças do foro do aparelho digestivo. Temos em linha Pedro Nahar Figueiredo, médico especialista em gastroenterologia e também hepatologia. É presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia. Bom dia. Dr. Pedro Nahar Figueiredo, confirma esta tendência a cada vez mais pessoas novas a baterem-lhe à porta com cancros?
É verdade, isso nota-se de facto, e particularmente nos cancros do aparelho digestivo, e designadamente no cancro do intestino. De tal maneira, que é uma tendência nacional e internacional, do chamado mundo ocidental, onde o cancro do intestino é mais frequente, no sentido de fazer recuar o início dos programas de rastreio, que atualmente em Portugal é aos 50 anos, para os 45 anos, no sentido de conseguir fazer uma prevenção mais eficaz. Eu estive a ouvir com muita atenção o que estiveram a dizer em relação à Kate. Há aqui um aspeto que talvez não tenham focado e que eu gostaria de salientar, que é um conhecimento base destes assuntos da oncologia. A oncologia, em termos daquilo que desencadeia os tumores, oscila basicamente entre dois grandes grupos de aspetos. Os aspetos de natureza ambiental, onde incluímos a alimentação, alguns agentes bacterianos que são agentes de cancro digestivo, como é, por exemplo, a infeção pelo helicobacter pylori ou alguns vírus, e depois os fatores genéticos. E aquilo que nós temos ideia e aquilo que é ensinado nas faculdades é que quanto mais cedo aparece na idade um cancro, maior a probabilidade de que os fatores genéticos tenham influência e menor a probabilidade que o ambiente tenha influência. Isto faz sentido, porque se as pessoas tiverem um cancro numa idade muito mais avançada, é natural que a genética tenha menos peso e que o ambiente tenha mais peso. Isto para chamar a atenção. Nós não sabemos o que é que a tal Kate, qual é o tumor que tem, mas nós para eventualmente formularmos uma opinião, gostaríamos de saber qual é a história familiar patológica da Kate. Se tem uma história familiar de neoplasia. E, portanto, isso tem muita influência.
É possível escrever essa história, professor Pedro Nahar Figueiredo?
A história familiar faz parte. Não é a história genética, é a história familiar. Sempre que se faz uma história clínica, perguntam-se os antecedentes pessoais das pessoas, se já estiveram internadas, se já foram operadas, que medicamentos é que tomam, e deve perguntar-se também a história familiar, designadamente dos familiares em primeiro grau. Se têm uma história de neoplasia, se têm uma história de infeção, se têm uma história de doença cardiológica. Isso faz parte obrigatória da história clínica quando se encontra um doente. Portanto, eu gostava de chamar a atenção e sobretudo no cancro do intestino, é bem conhecida a agregação familiar, eu chamaria assim, agregação familiar no cancro do intestino. Ou seja, uma pessoa que tem um ou dois, ou três, ou o que for, familiares de primeiro grau ou mesmo de segundo grau, que tiveram um cancro do intestino, tem uma probabilidade muito maior de vir a ter igualmente um cancro do intestino. Portanto, este aspeto da história familiar, da genética, se assim quisermos chamar, é também muito relevante neste contexto dos cancros que aparecem em idades mais jovens.
Mas sobre essas causas não se pode trabalhar, porque tem a ver com o nosso património genético. Agora, podemos trabalhar as causas? Pode-se?
Podemos trabalhar também o património genético. Vou lhe dar um exemplo destas coisas da minha área. Imagine que nós estamos a fazer, ou na medicina geral e familiar, um indivíduo, ou uma senhora ou um homem, que vai a uma consulta no sentido de fazer uma medicina preventiva e o médico de família, ou o médico gastroenterologista, ou internista, ou cirurgião, pergunta em relação à história familiar. É que a história familiar, se houver, por exemplo, uma história de tumor do intestino num familiar em primeiro grau, por exemplo, pai ou mãe, que teve um tumor numa idade inferior a 60 anos, por exemplo, aos 50 ou aos 45, isso faz com que o rastreio desse indivíduo, do filho, recue uma série de anos, para 10 anos antes do caso index. Portanto, não é bem assim. No caso do cancro do intestino, estão bem padronizadas as circunstâncias em que o rastreio deve ser feito em idades mais jovens, tendo em atenção a história familiar da pessoa. Portanto, isto é muito relevante. E depois há os outros aspetos de que estamos a falar, são os chamados de prevenção primária, ou seja, de uma boa qualidade de vida, de combate à obesidade, de fazer exercício físico, não beber álcool em excesso, não fumar e portanto, isso é a chamada prevenção primária. Quando falamos em fazer exames de colonoscopia ou pesquisas de sangue oculto nas fezes, falamos em prevenção secundária. Mas para lhe dar uma ideia que no caso do cancro do intestino, que é um dos grandes cancros do nosso país, e não sabemos se é esse que a Kate tem, não fazemos ideia, é possível adaptar o rastreio, ou seja, a prevenção, em função da história familiar e fazê-lo recuar para idades muito mais jovens, muito antes dos 50 anos.
A que se deve esse aumento do cancro do intestino em Portugal?
É difícil dizer, não é só em Portugal. Eu acho que se deve também ao facto de hoje em dia as pessoas realizarem colonoscopias com muito mais facilidade. Aqui há uns anos largos As colonoscopias não eram feitas sob anestesia. Hoje em dia a anestesia está disponível para a realização de colonoscopia e aquilo que era um procedimento muito agressivo, doloroso, deixou de o ser uma vez que é feito sob anestesia. Isso tem a ver seguramente com o aumento do número de colonoscopias. E, por outro lado, eu penso que terá a ver com estes aspetos da vida ocidental, a vida sedentária, a obesidade, o tabaco, o excesso de álcool e, portanto, com os modos de vida ocidental, porque são tumores do ocidente, não são tumores dos países, digamos assim, entre aspas, menos desenvolvidos, portanto, acompanham muito aquilo que é a vida ocidental.
Como sabe, há muitos mitos em torno da alimentação. Um deles, que tem crescido, não sei se é um mito, se é uma verdade, mas gostava de verificar isso consigo, tem a ver com o facto de cada vez mais pessoas estarem a rejeitar o glúten porque dizem que faz mal ao aparelho digestivo. Confirma-se essa informação?
É uma coisa sem sentido. É uma coisa absolutamente sem sentido.
Portanto, podemos comer glúten à vontade?
À vontade, a não ser as pessoas que têm a doença que não permite comer glúten, que se chama doença celíaca, que é uma doença fácil de diagnosticar hoje em dia, que atinge cada vez mais pessoas, mas essas pessoas são verdadeiramente hipersensíveis ao glúten, desenvolvem quadros de diarreia, emagrecimento, de anemia. Agora, retirar o glúten da alimentação, não tendo um diagnóstico de doença celíaca, é algo que não faz sentido por ele. Claro que pode haver pessoas que por uma razão ou outra sintam que fazem má digestão ou que têm alguma distensão abdominal quando comem alimentos sem glúten e podem retirá-los. Mas sob o ponto de vista científico, a única doença em que se justifica e que o único tratamento é fazer uma dieta sem glúten, é a chamada doença celíaca. Tudo o resto não faz grande sentido, a não ser a título individual, a pessoa A ou B ou C, que por uma circunstância qualquer ingere alimentos com glúten e entende que ao tirar o glúten dos alimentos, deixa de ter alguns sintomas de distensão abdominal. Mas isto fora do diagnóstico de uma doença celíaca, é algo que não tem grande fundamentação científica.
Nós saímos agora de um período pandémico, há alguns meses.
Certo.
A pandemia atrasou muito os rastreios e os diagnósticos, Dr. Pedro Nara Figueiredo?
Atrasou um bocadinho, mas sabe que depois houve já uma boa recuperação, sobretudo do Serviço Nacional de Saúde. Eu, por exemplo, sou diretor do Serviço de Gastroenterologia aqui dos Hospitais da Universidade de Coimbra, atualmente chamado ULS de Coimbra. E nós, no sentido de recuperar, gerámos, produzimos e propusemos ao Conselho de Administração fazer um programa nacional de recuperação da lista de espera de colonoscopia, que começámos a fazer já em outubro de 22. E conseguimos recuperar e conseguimos anular a lista de espera. E penso que em muitos outros hospitais também houve este tipo de procedimento em relação aos serviços de gastroenterologia. Houve esta preocupação de recuperar os procedimentos endoscópicos, que na altura foram muito travados, porque eram muito geradores de eventuais infeções pelo Covid e as pessoas tiveram algum receio. Mas penso que isso foi ultrapassado, pelo menos aquilo que eu tenho conhecimento dentro da maioria dos serviços de gastroenterologia do Serviço Nacional de Saúde.
Os portugueses estão despertos para a necessidade de realizarem diagnósticos cada vez mais cedo ou não?
Eu penso que sim. Como lhe digo, no caso muito específico do cancro do intestino, em que nós, como Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, recomendamos a realização de colonoscopias e o Estado propõe um outro modo de rastrear, que é através da pesquisa de sangue oculto nas fezes, eu penso que, como lhe disse, quando esse teste é positivo, as pessoas têm que fazer uma colonoscopia. Eu penso que a possibilidade, como disse há pouco, de esses exames serem realizados sob anestesia, com grande conforto para as pessoas, retirou muito da conotação negativa que havia na colonoscopia. E a colonoscopia foi muito disseminada pelo país e as pessoas hoje já não têm receio, estão particularmente atentas. Eu pelo menos noto isso. As pessoas estão cada vez mais disponíveis para fazer o seu rastreio de cancro do intestino. E depois a colonoscopia é um exame que nós consideramos excelente, porque como é sabido, procura detetar a pequena lesão benigna que precede o aparecimento do cancro. E quando nós vemos na colonoscopia uma pequena lesão benigna, a que as pessoas chamam pólipo e bem, ele é excisado imediatamente e portanto a pessoa fica curada por um lado e fica prevenido o cancro do intestino para os próximos 10 anos. E portanto, eu penso que as pessoas têm cada vez mais noção disto. As campanhas também têm sido muito grandes da parte da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva e de Gastroenterologia e portanto as pessoas têm vindo a aderir cada vez mais, graças à informação e também graças ao conforto com que hoje podem fazer uma colonoscopia.
Há muita desinformação em torno da informação médica, como saberá. Há alguma relação entre o aumento do cancro em pessoas com menos de 50 anos e a toma da vacina? Por mais disparatada que possa parecer a pergunta, há muitos ouvintes-
A vacina da Covid? Está a falar da vacina da Covid?
A estabelecer uma relação direta entre a toma da vacina e o aparecimento de cancro em pessoas com menos de 50 anos.
Que eu tenha ideia, que eu tenha conhecimento de alguma publicação científica em revistas devidamente indexadas e com fator de impacto importante, não tenho conhecimento. de que isso tenha uma fundamentação científica que seja publicada. Não tenho conhecimento disso.
Muito bem. Pedro Hernâni Figueiredo, pedia-lhe só um favor: se nos pudesse dar alguns conselhos de como viver de forma saudável, baixando a probabilidade de podermos ter cancro antes dos 50, que conselhos daria?
Que conselhos daria? São os conselhos gerais da Sociedade Portuguesa de Gastrologia. Não fumar, tabaco fora. O álcool em excesso, nem pensar. Uma ou duas pequenas bebidas por dia. Controlar o excesso de peso, fazer exercício físico e falar com o seu médico de família no sentido de fazer o rastreio do cancro do intestino, preferencialmente, se calhar entre os 45 e os 50 anos, e não esquecer também um cancro que tem vindo a aumentar um bocadinho, que é o cancro do fígado, e pedir ao seu médico de família para fazer as chamadas análises do fígado. Portanto, médico de família, rastreio do cancro do intestino, análises do fígado. Para a vida do dia a dia: não fumar, uma a duas bebidas por dia, no máximo, nada de excesso de peso e fazer exercício físico. São as recomendações que nós damos para as pessoas.
E o dormir é assim tão importante? José Manuel falava aqui do sono e da importância de dormir bem.
Tudo é importante. Nós estamos preparados, temos o nosso ritmo circadiano, chama-se assim, de noite e do dia. E, portanto, convém que durante a noite nós descansemos e façamos um sono reparador, de forma, isso contribui seguramente para a qualidade de vida e talvez para o nosso equilíbrio emocional e sabe-se lá, para outros equilíbrios que eventualmente possam ter relevância neste campo da oncologia. Seguramente que sim.
Muito bem. Pedro Hernâni Figueiredo, agradeço-lhe. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Obrigado nós por ter estado aqui em direto no "Contra Corrente". Estamos a olhar para os números do cancro. Por que há cada vez mais pessoas com menos de 50 anos com esta doença? Ligue, participe aí em direto no "Contra Corrente". O número de telefone é o 910 002 41 85. E tu, Helena, claro, como todos nós, estás preocupada.
Sim, claro que estou preocupada, embora queira chamar a atenção para o seguinte: esta doença não é olhada por nós de uma forma como as outras. O vocabulário que usamos para referir o cancro-
Nós, a população em geral.
Sim, não é o vocabulário que usamos para referir as outras doenças. No caso do cancro, é quase que uma linguagem bélica. As pessoas estão a lutar contra um cancro. Nós não dizemos, por exemplo, que as pessoas estão a lutar contra uma úlcera no estômago ou contra a artrite, mas usamos muitas vezes até a ideia de que a pessoa perde a batalha quando morre. Há todo um imaginário em torno desta doença que se confronta muito até com outras questões, que são questões civilizacionais. É quase a ideia de que estamos a lutar contra um inimigo que está dentro de nós, ao passo que as outras doenças é uma questão de sofrimento e que nos fazem sofrer. Esta, para além da questão do sofrimento, há quase que a ideia de um inimigo interno. E daí que o cancro tenha acabado por preencher no nosso imaginário quase que um espaço de doença de civilização. E correspondem a várias falsidades, a várias mentiras, mas a vários mitos e, portanto, às vezes são muito difíceis de desmontar. Esta ideia de que no passado não se sofria de cancro. Por mais que se diga que foram encontrados fragmentos, por exemplo, em múmias ou em esqueletos, que permitem dizer que em tempos pré-históricos já se sofria de cancro, que no antigo Egito das múmias também já se sofria de cancro. Aliás, penso que daquilo que consegui perceber, uma das referências mais antigas a uma patologia que se pode, quem sabe o que é um cancro e sabe identificá-lo, diz que poderá ser um relacionamento com o cancro, é numa coisa que é conhecida como o papiro Edwin Smith, não porque o Edwin Smith tenha alguma vez escrito o papiro, mas sim pela sua divulgação. Estamos a falar, penso eu, que 2800 anos ou quase 3000 anos antes de Cristo, e sim, será feita uma referência a uma espécie de tumores no tórax. E portanto, que serão associados por quem sabe ler papiros e sabe ler os sinais do cancro a uma referência a cancros. Depois vamos encontrar referências, sempre naqueles nomes que são clássicos em tudo isto. Temos sempre o Hipócrates, e a questão do caranguejo, das patas do caranguejo, tudo aquilo. Temos logo esta ideia, mas é muito comum as pessoas dizerem-nos que no passado não havia cancro. Este problema do tempo. Esta ideia de que houve um tempo bom em que esta doença não aparecia. Depois também temos a questão do bom selvagem, e que é o cancro como uma doença dos civilizados, um sinal da mácula da civilização, versus os bons selvagens, aqueles povos que viviam nas tribos, fosse em África, depois, como isso foi tornando mais difícil, na América Latina, a ideia de que estes povos não sofriam de cancro. Isso é muito comum, por exemplo, naquelas reportagens que vão ainda aparecer muito nos jornais no século passado, nos anos 60, 70, em que quando se descobria ainda mais uma tribo, punha sempre aquela coisa, que eles desconheciam a guerra E o cancro. Não era verdade, nem uma coisa nem outra. E morriam todos de velhos. Depois também conviria dizer qual era a esperança média de vida daqueles que-
Morriam todos de velhos aos 40 anos.
Foi, e no caso das mulheres até antes. Havia sempre esta ideia de que o cancro é uma doença de civilização. Aliás, há mesmo várias comunicações, até em congressos médicos, em que temos cancro e civilização, cancro doença da civilização. E depois a própria ideia de que nós somos uma civilização cancerígena.
Mas há um lado verdadeiro nisso.
Sim, mas os cancros são diferentes, não é?
Não, há um lado verdadeiro nisso, de ser uma doença de civilização, porque tem a ver com a esperança de vida. Se a idade média pra ter o cancro é 68 anos.
Tens que chegar lá.
Tens que chegar lá.
Sim. Se as pessoas lá chegam, têm mais casos, claro. Estávamos agora a ver a doença da civilização e é preciso chegar lá. E há um outro assunto que os nossos convidados, certamente todos eles, e até provavelmente vários dos nossos ouvintes, terão mais informação do que eu sobre este assunto, mas que é uma questão que se coloca neste momento, que é o sobrediagnóstico do cancro. Ou seja, os cancros não são todos iguais. Os cancros ou os tumores, como for mais adequado referi-lo. Haverá uns de progressão muito rápida e outros de progressão muito lenta, ou mesmo que não progridem. Como nós, neste momento, temos meios de diagnóstico muito mais eficazes, vemos alguns nomes conceituados nesta área a chamar a atenção que, por exemplo, o caso sempre mais comum é o caso da próstata, em que muitas vezes podemos estar a fazer provavelmente tratamentos e diagnósticos com tudo aquilo que isso implica, porque temos esses meios, tumores que nunca se desenvolveriam, ao passo que, as doenças, e esta parece ter dessas terríveis ironias, é que os cancros mais agressivos, que progridem mais rapidamente, não são assim tão facilmente despistáveis em exames. O caso sempre mais clássico, e que também é sempre muito dado, é a questão do caso do pâncreas, em que as pessoas entre o detetarem e o terem uma situação muito grave declarada, é um tempo breve. Temos aqui esta questão sobre a qual não tenho nem informação, nem formação, mas que é uma questão que se vê. Nós somos realmente uma civilização onde se deteta muito o cancro, porque vivemos mais e, em alguns casos, se calhar, neste momento, até estaríamos a intervir em situações que daqui por alguns anos nos vão dizer: "Não, nessas não deviam intervir, era nas outras" porque também temos de perceber, este é um campo em que se está sempre a evoluir. E aquilo que é prática de um tempo, não pode ser a prática de outro. Nas formas de tratamento mais antigas, por exemplo, naquilo que é na zona da Índia, mas o cancro já existia mesmo milhares de anos antes de Cristo. Vamos encontrar, por exemplo, referências à aplicação de uma espécie de cataplasmas, de pastas, nas zonas onde era detetável aquela protuberância do tumor. As pessoas, provavelmente, de cancro não morreriam, mas as substâncias do cataplasma, essas eram de tal forma tóxicas que elas morreriam. Mas vamos encontrar, claro que no início, a ideia é sempre que só se pode resolver aquilo por uma intervenção, é o chamado retirar, o estripar, note-se que nós usamos em relação a este tipo de intervenção cirúrgica, a ideia de limpar. "Não, ficou tudo limpo." É uma expressão que se ouve muito, esta ideia de que há quase que uma impureza que nós transportamos, e que de repente a cirurgia, até com o seu quê de mágico, de ritual, acaba por nos limpar daquela impureza que nos marca.
Mas há uma razão técnica pra isso, Andreia. Estamos a falar de células que se multiplicam descontroladamente. Se não tira-as todas de lá, elas voltam a começar a descontrolar-se. Por isso é que quando nós dizemos que está muito disseminado e que não é operável, ou que a operação não correu bem, está espalhado, é porque de facto não se consegue tirar tudo e às vezes tira-se de sítios que não são os próprios. Por exemplo, no caso de uma intervenção de próstata, quando já a situação está mais declarada, muitas vezes tira-se a próstata e depois os gânglios todos à volta.
Sim. Hoje em dia, note-se, as intervenções cirúrgicas são muito menos estendidas do que eram no passado. Estamos nesta questão, e aí é que me parece ser interessante olhar pra esta doença, nesta perspectiva quase do nosso imaginário em torno dela, pra lá da doença de civilização, e dos civilizados. É um argumento também ele muito do domínio do fantástico. Temos depois um outro lado que se juntou agora, que é aplicar isso aos seus próprios tratamentos. Nas outras doenças, as pessoas podem discutir se são operadas, se não são operadas, se vale a pena, se não vale a pena, mas não têm uma opinião quase ideológica sobre o tratamento. Se nós repararmos, e isto pode levar a decisões dramáticas de pessoas inteligentíssimas. O caso mais comum é o caso do Steve Jobs, que tinha um dos raros cancros de pâncreas que poderia ter tido algum sucesso, teria tido algum sucesso numa intervenção cirúrgica, ele vai protelar esse tratamento, porque achava que devia ter um tratamento que ele, entre aspas, definia como natural. Ou seja, esta ideia de que há tratamentos naturais para esta doença e sempre subestimando a questão de hoje, algumas formas de tratamento, nós sabemos que causam um profundo mal-estar. O caso da quimioterapia, por exemplo, mas sempre a ideia de que o tratamento é uma questão que está maculado por essa questão civilizacional. Como se houvesse uma forma de tratamento que não tivesse essa mácula. Nós, se tivermos um problema nos olhos, somos operados e não nos pomos a discutir se devemos ou não ver, ou se devemos ou não fazer aquele tipo de operação. Contudo, quando se chega ao câncer, vemos muito isto e raramente se ouve alguém dizer: "Felizmente, consegui ultrapassar aquilo graças à quimioterapia." Hoje a esperança de vida de alguém que tem esta doença é muito diferente daquela que tinha no passado. É muito superior, pessoas ultrapassam, continuam a viver as suas vidas, mas é como se o próprio tratamento ele mesmo também estivesse com essa mácula da civilização, nesse imaginário.
Não será também porque é uma experiência traumática em si?
Sim, podemos pensar isso.
Porque o câncer coloca-nos sobre a nossa maior interrogação e o nosso maior medo, que é a finitude.
Pois, mas há outras doenças que nos confrontam com a finitude e com situações muito incapacitantes, mas não têm esta carga. E chegamos, apenas para não me alongar muito mais, temos convidados, pessoas com muita experiência e saber para falar. Chegamos a uma coisa que é muito importante no anúncio da Kate, da Princesa de Gales, e que se prende com isto. Há uma frase do auto da "Barca do Inferno", que foi professor de português, os alunos sempre tinham que ler tal coisa, a figura do parvo. E o parvo dizia imensos palavrões, mas o parvo é a personagem que diz das coisas mais importantes naquele auto. E como era parvo, passaria muito mais facilmente. E há um momento em que lhe perguntam por que está ali, e ele responde: "Vim adoecer e fui má hora morrer e nela pera-me só". Isto, à época, era uma questão muito importante, que era se Deus estava ou não ao nosso lado no momento em que morremos. Era a mesma questão que se colocava ao nível da heresia. E uma das questões que se coloca na doença, sobretudo naquela que tem à frente a questão da finitude, como tu dizes, é que, em geral, as pessoas, as famílias reagem acompanhando o doente, há uma enorme solidariedade, mas a questão dos limites físicos, que são muitas vezes colocados ao longo do tratamento, do sofrimento, acaba por nos confrontar com uma coisa que é a pessoa sozinha, ela que está ali. Por mais solidariedade que haja de toda a gente, é a pessoa que está ali e está sozinha. Com uma circunstância, isto acontece neste momento muito com este tipo de cancros que afetam muito o aparelho digestivo, que é nós vivemos numa sociedade que cultiva a beleza, a juventude, a saúde e a ideia de que seja qual for a nossa idade ou a nossa circunstância, conseguimos fazer sempre tudo da mesma maneira.
E no final vivemos para sempre.
Sim, e morremos vai lá saber por quê, porque fizemos tudo certo e comemos sempre as coisas certas. E, portanto, um dos problemas que coloca esta doença, sobretudo no aparelho digestivo, é que há todo um conjunto de constrangimentos que não se adequam à imagem que nós cultivamos. E é muito interessante encontrar apelos, nomeadamente estava a pensar numa jornalista norte-americana, problema também do aparelho digestivo, mas já há vários anos, e ela dizia que efetivamente acha que deve ser muito difícil alguém que tem que cultivar uma imagem de glamour, de elegância, e esta jornalista falava de coisas como fezes para um saco, problemas de acesso à casa de banho. Aliás, falava muito sobre a questão das casas de banho e acabava a dizer: "Se quem quiser falar sobre casas de banho, eu estou cá", se ela quiser trocar umas ideias sobre o assunto. Portanto, há quase que uma antítese da imagem que nós temos para transmitir. O câncer é uma doença, espero que os nossos convidados expliquem o que é, o José Manuel já aqui fez isso, mas eu acho que do ponto de vista do nosso imaginário, da forma como nos vemos a nós, como vemos a sociedade, também tem muito para contar.
E vira-nos a vida do avesso esta doença. António Moreira é médico oncologista. Bom dia, obrigado por se ter juntado a nós no "Contra Corrente".
Muito bom dia, eu é que agradeço a oportunidade. Não consegui acompanhar o programa desde o início.
Estamos perante uma pandemia quando olhamos para o número de casos de pessoas com câncer com menos de 50 anos?
Acho que é importante aqui dois pontos em relação a esses dados epidemiológicos. Em primeiro lugar, dizer que 90% dos cancros ocorrem acima dos 50 anos. Este é um ponto importante em termos de enquadramento da incidência de câncer e da relação com a idade. O outro ponto importante é que existe, de facto Não é um mito, é um fato. Há um aumento da incidência de câncer abaixo dos 50 anos.
Isso está mais relacionado com o diagnóstico precoce ou estamos perante uma mudança de paradigma biológico? Se é que assim podemos dizer.
Há, seguramente, várias causas e há sempre alguma complexidade nesta análise. Como já foi dito no programa, há um foco muito grande nos tumores digestivos, particularmente no câncer colorretal. Já se falou até de teorias interessantes do microbioma e da relação ao sistema imunológico que o microbioma pode ter, mas isso remete-nos naturalmente para questões que têm a ver com a alimentação, com os alimentos processados, com as carnes vermelhas, com um conjunto de alterações que foram sendo introduzidas na alimentação e que reforçam essa hipótese. No entanto, não são só os tumores digestivos que têm vindo a aumentar, por exemplo, os tumores uterinos, que estão provavelmente ligados também à obesidade, e outros tumores que não têm uma relação direta com a alimentação. Portanto, existem seguramente aqui várias causas. Se nós olharmos, por exemplo, para alguns estudos que são interessantes, comparando, por exemplo, o Japão com a Coreia do Sul, reforça-se a ideia que o estilo de vida e, sobretudo, a alimentação, podem influenciar a incidência de câncer, nomeadamente o aumento da sua expressão abaixo dos 50 anos. Nós vemos uma maior subida, por exemplo, na Coreia do Sul, do que se assiste no Japão, onde os dados estão relativamente estabilizados. Mas o estilo de alimentação na Coreia do Sul é muito mais próximo do estilo ocidental do que no Japão. Portanto, há uma série aqui de dados apontando pro estilo de vida, pra alimentação, pro sedentarismo, pra tudo isso, mas, e como também já foi dito, não são essas, com certeza, as únicas razões. Porque misturam-se aqui também outros fatores, que a Helena também já falou há pouco, nomeadamente a sensibilidade de alguns meios diagnósticos, que pode fazer com que se estejam a detetar mais cedo alguns casos de câncer. Por outro lado, também, existem iniciativas individuais, muitas vezes em contexto de ausência de sintomas, de realizar exames de rotina, check-ups e tudo. Essa atitude também contribuirá, com certeza, para se diagnosticar mais precocemente alguns tumores.
Por iniciativa do doente?
Por iniciativa do próprio. Às vezes nem estamos a falar de rastreios organizados, o rastreio pressupõe uma definição de critérios e de monitorização. Estou falando de iniciativas dos próprios.
Consegue dizer-nos por quê? São pessoas que aparecem porque têm casos próximos? E porque de alguma maneira se assustam e querem perceber?
Será uma das razões. Quer dizer, se calhar estamos a contribuir um pouco para isso cada vez que fazemos essa discussão, mas ela tem que ser obviamente feita e na medida do possível.
Se salvar vidas já será bom, não é?
Claro. Isto é um compromisso entre, também como já foi dito, penso que pela Helena no programa, há muitos tumores que têm uma letalidade elevada e que infelizmente não são rastreáveis, porque na maior parte das vezes quando são diagnosticados, já o são em fases mais tardias e com menos oportunidades de tratamento. De qualquer forma, eu acho que esta situação, este aumento efetivo de casos abaixo dos 50 anos, sobretudo nalguns tipos de tumores, pode vir a ter um impacto na redefinição também dos programas de screening, reduzindo a idade a partir da qual essa indicação é colocada, nomeadamente em relação ao carcinoma colorretal e, eventualmente, também em relação ao carcinoma da mama. Por outro lado, com os dados que temos, eventualmente controversos, por vezes, há fatores que já estão bem identificados como sendo fatores não só de risco, muitas vezes de câncer, mas também de outras doenças, nomeadamente doenças cardiovasculares. A questão da prevenção é central, e da tentativa do equilíbrio de uma vida também com os prazeres que se deve ter, mas tentando balancear isto, de facto, com o estilo de vida mais saudável.
O tabaco e o álcool continuam a ser grandes fatores de risco?
Sim, esses são incontestáveis. Esses há muitos anos, mas também passaram o seu período, há umas décadas atrás, de negação. Mas hoje em dia são incontestáveis. Não sei se vamos ter o mesmo impacto em relação à questão da alimentação processada e até quer a muitas outras manipulações naquilo que comemos, que desconhecemos, mas provavelmente nunca terão o impacto que tiveram e que tem, sobretudo, o tabaco.
Quando diz que desconhecemos o impacto da comida processada, é porque ainda não passou tempo suficiente na história da humanidade que nos permita tirar conclusões do consumo continuado desse tipo de comida, é isso?
Exatamente. E nós vemos que esta tendência, de facto, de aumento existe quando estamos a avaliar pessoas mesmo na década dos 20, 30 anos. E repare que, se calhar, mesmo as pessoas que hoje em dia têm 30 ou 40 anos, tiveram uma alimentação um bocadinho diferente daquelas que, neste momento, são crianças ou adolescentes. O consumo, nomeadamente, de alimentos processados tem vindo a aumentar. Nós esperamos não estar aqui numa ponta do iceberg de um aumento progressivo e ainda mais significativo do cancro em idades precoces. É algo que não podemos, neste momento, prever. O que temos são dados concretos que nos apontam para um aumento desta incidência.
E podemos estabelecer aqui um paralelismo entre tipos de cancro do passado e tipos de cancro de hoje e relacioná-los com o tipo de alimentação ou não?
Claramente, em relação ao cancro colorretal, existem estudos já com algum recuo, ligando o aumento de incidência deste tumor, e aqui não estamos a falar só naturalmente abaixo dos 50 anos, mas de uma maneira geral, a uma modificação, a um determinado estilo de vida, que é difícil também isolar qual é o peso da alimentação, do sedentarismo ou de outro tipo de comportamentos. Mas no meio disto tudo, e como já foi aqui discutido e as coisas surgiram em torno de um caso muito midiático, tantas vezes nos escapa, do ponto de vista individual, qual é o fator de risco que determinada pessoa teve para contrair um cancro nos seus 30, 40 anos, onde o estilo de vida é saudável, onde não há fatores genéticos conhecidos, onde nada faria prever, nomeadamente, muitas vezes em pessoas que praticam inclusive desporto de alta competição, onde nada faria prever uma situação dessas. Efetivamente, há fatores de risco, há alguma complexidade na análise desses fatores de risco. Alguns estão identificados, devemos conhecê-los e devemos ajustar individualmente o nosso comportamento e tomar as nossas decisões em relação aos riscos que queremos ou não queremos correr, tentando, na medida do possível, minimizá-los, mas continua a haver muitas situações que não têm uma causa identificável e que, aliás, levam muitas vezes os doentes a uma revolta suplementar pensando: "Mas eu fiz tudo bem. Fiz tudo o que eles dizem, fiz todas as medidas, fiz até os rastreios, fiz isto, fiz aquilo e, no entanto, isto surgiu por quê?"
É o que tem também esta doença assustadora, a Helena Matos referiu isso há instantes. Há muita imprevisibilidade e estamos entregues ao nosso próprio destino. Não controlamos tudo. António Moreira, agradeço-lhe. Muito obrigado, médico oncologista, por ter aceitado o convite para estar aqui em direto no "Contra Corrente". Foi bom o seu alerta e os seus conselhos para quem nos ouve. Muito obrigado.
Nada, eu que agradeço. Consideração de bom programa. Muito obrigado.
Obrigado. Seguimos já para o encontro com o próximo convidado, é Vítor Neves, presidente da Europa Colon Portugal. Bom dia, Vítor Neves.
Olá, bom dia. Muito bom dia.
O cancro do cólon representa 9% das mortes de cancro em Portugal. Estamos em linha com a realidade europeia, a realidade mundial, ou há aqui uma particularidade portuguesa?
De facto, as doenças oncológicas do foro digestivo em Portugal têm um peso enorme. É um problema de saúde pública já há muitos anos. Os dados de 2022 Fixam-se em mais de 18 mil casos novos e mais de 11 mil mortes e entre elas o cancro do intestino, de facto, tem um peso muito grande. E nós na Europa estamos na linha superior da incidência e da mortalidade. Entre 2019 a 2022, houve um aumento de incidência superior a 4,7% e um aumento de mortalidade de 14,2%, dados da Organização Mundial de Saúde.
E encontra explicação para esse aumento? Afinal, a dieta mediterrânica.
Encontramos, de facto, como estava a ouvir o doutor António Moreira a dizer, as razões são grandes relativamente ao nosso comportamento também, aos meios ambientais, à obesidade, aos fatores de risco, ao álcool, tabaco, e é o tipo de alimentação que temos, é o sedentarismo, mas também no cancro do intestino existe um rastreio de base populacional, que é o melhor rastreio custo-benefício, e que em Portugal tende a ser implementável. Quase não existe, existe de uma forma menor ou baixa na zona norte do país e no resto do país quase não existe. Portanto, havendo uma forma de nós podermos prevenir ou encontrar esta doença cedo e resolvendo-a, porque esta doença é uma doença que demora seis a oito anos a crescer e a tomar uma forma de estado avançado. É urgente que Portugal tome atitudes da área da prevenção e diagnóstico precoce, que não acontecem. E depois acontecem estes números de sofrimento, desgaste e de mortes em Portugal, que não são admissíveis.
Quer dizer que o país está a falhar, então?
Quer dizer aquilo que a Europa Colon diz há mais de 15 anos, que há um rastreio de base populacional que existe muito bem implementado na Bélgica, na Holanda, na zona da Catalunha e que em Portugal tem tido picos de implementação, retrocesso. Agora estávamos numa fase de uma tentativa de avanço da sua implementação, já está parada há uns meses. E, portanto, é urgente que as políticas de saúde no nosso país tenham uma grande componente de prevenção e de diagnóstico precoce.
E está parada por quê?
Desculpe.
Perguntava se sabe.
Eu percebi. Está parada porque a Direção Geral de Saúde não implementou até agora o rastreio de base populacional no país inteiro, que deve funcionar e que as guidelines dizem que pelo menos dos 50 aos 74 anos é obrigatório que todas as pessoas o façam e não estão a fazer. A nossa taxa de adesão em Portugal anda abaixo dos 30%, enquanto num país normal com um rastreio eficaz, tem que ser superior a 65%. Nós próprios, a Europa Colon Portugal, fizemos um rastreio piloto, como fazemos todos os anos, o ano passado no final do ano, na zona de Lisboa, numa zona de risco, que é a Cova da Moura, Casal de Mira e Alfragide. Envolvemos 1200 pessoas, fomos falar com uma carrinho para dentro dos bairros, envolvemos 1200 pessoas e conseguimos cerca de 74% de adesão. Portanto, isto não é um assunto do cancro do intestino que assusta as pessoas, que as afasta, desde que elas percebam qual é o benefício e qual é a vantagem que têm. E como dizia o doutor António Moreira, estamos entregues ao nosso destino. Nós também temos uma grande culpa, neste caso, de promovermos o nosso destino. E aqui, no cancro do intestino, há forma de ele se resolver, diminuir as mortes, a incidência, o sofrimento e até os custos do Sistema Nacional de Saúde, porque quanto mais doentes encontramos no estadio inicial, mais barato é o seu tratamento. E, portanto, urge que as políticas de prevenção em Portugal de saúde pública se implementem, sobretudo esta, que é um problema de saúde pública muito grave.
À falta de um rastreio público, o que é que cada um dos nossos ouvintes pode e deve fazer?
Entre os 50 e os 74 anos de idade, é obrigatório que se faça o rastreio. Portanto, devem pedir o rastreio, se é que ainda não o fizeram, ao seu médico familiar, médico de família ou médico assistente. E agora há, de facto, uma tendência também de tentar procurar abaixo de 50 anos, porque nos Estados Unidos já se faz a partir dos 45 e todas as pessoas que tiverem ligações hereditárias do primeiro grau, que os pais tenham tido a doença, devem fazer o rastreio muito antes dos 50 anos, ou seja, a partir da idade em que o familiar teve a doença. Portanto, se nós tivermos esses cuidados, fazermos o rastreio na idade própria e tivermos o cuidado de termos uma educação para a saúde que nos promova a eliminação de muitos fatores de risco, que podem ajudar que esta doença aumente, e eu disse há pouco, a obesidade, o álcool, o tabaco, o sal, as carnes vermelhas e o sedentarismo, também temos a nossa responsabilidade social individual feita e contribuímos para que, de facto, esta doença diminua. Mas mais do que isso, é necessário que as entidades em saúde em Portugal estabeleçam como prioridade as políticas de prevenção e diagnóstico precoce. É por aí e é também através das pessoas e os jovens, dado que o tema também é este, que se aproximam de centros de saúde e que transmitem sintomas e que normalmente os médicos não os valorizam, porque entendem que as pessoas são muito jovens Para terem determinadas doenças oncológicas, que comecem a valorizá-los mais e que investiguem as causas desses sintomas, porque é por aí, na valorização dos sintomas nas unidades de cuidados de saúde primários, que pode ser a solução também de muitas causas destas doenças oncológicas.
Vítor Neves, obrigado.
Obrigado nós. Muito obrigado pela oportunidade.
Obrigado. Vítor Neves, presidente da Europa Colon Portugal. Estamos a 20 minutos do fim do programa de hoje. Ainda temos tempo para ouvir o Jorge Lima, que é vice-diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto. Bom dia.
Bom dia. Viva.
Viva. Falou-se muito aqui de investigação médica, de diagnóstico precoce. A investigação em torno do cancro evoluiu muito nos últimos anos, correto?
Certíssimo. Se há coisa que evoluiu na área do cancro foi a investigação básica, fundamental e aplicada, até porque muitos dos tratamentos que nós temos hoje em dia, da chamada medicina de precisão na área do cancro, são fruto da excelente investigação que se tem feito nos últimos anos.
E é isso que justifica também o facto de estarem a ser rastreadas cada vez mais pessoas com idades inferiores a 50 anos? É porque hoje há maior conhecimento científico e mais ferramentas para detetar a presença de cancro no corpo de um doente?
Um dos pontos fundamentais é o facto de haver mais tecnologia e mais ferramentas. Ora, se nós temos mais meios ao nosso dispor para tentarmos identificar precocemente um cancro, então temos que os usar, porque já sabemos que quanto mais precocemente for identificado um determinado tipo de tumor, mais eficaz será o seu tratamento. Portanto, temos que usar todos os meios que temos ao nosso dispor para que o façamos. Podemos usar meios de imagem, meios da própria pessoa se autoauscultar, se autoverificar se tem algum sintoma, algum sinal. E depois podemos ter meios mais aprofundados e mais detalhados, que dizem respeito, por exemplo, a ver se há alguma ou não suscetibilidade genética para determinados tipos de tumores, onde esta suscetibilidade é mais relevante.
Evoluiu muito o diagnóstico, mas também evoluiu muito o tratamento.
Sim. Para além de termos técnicas mais precisas do ponto de vista cirúrgico, do ponto de vista de radioterapias, nós temos tido um grande aumento naquilo que nós chamamos os medicamentos biológicos, se quisermos, ou os medicamentos de terapias dirigidas. Ou seja, quando nós falamos de medicina de precisão, nós estamos a dizer que vamos estudar do ponto de vista genético as características do tumor, as características genéticas do tumor. E o objetivo com este estudo é identificar as alterações genéticas que podem ser alvos terapêuticos. Um caso paradigmático é a melhoria nos tratamentos do cancro de pulmão, que foi muito devido a esta medicina de precisão, e a conhecermos cada vez mais as alterações genéticas do tumor. Ora, se nós as soubemos melhor, se nós temos agora fármacos que são dirigidos a determinadas alterações que estão presentes nestes tumores, nós vamos conseguir ser mais eficazes nos tratamentos, porque estes fármacos dirigidos são muito mais específicos para as células tumorais e menos nocivos para as células normais do nosso corpo. Portanto, são mais precisos, mais eficazes, menos efeitos secundários e com qualidade de vida melhor para o doente. E foi muito da investigação que partiu a identificação, ou nós sabermos mais sobre o ponto de vista genético do tumor, que permitiu então desenvolver mais fármacos, mais dirigidos e mais eficazes.
E são de acesso universal?
São de acesso universal. Nós temos diferentes implementação destes fármacos nos países, consoante as agências reguladoras e os mecanismos reguladores os aprovam. Temos a agência FDA nos Estados Unidos que aprova, na Europa temos a Agência Europeia de Medicamento e depois cada um dos países tem os seus próprios reguladores.
Em Portugal será o Infarmed.
É o Infarmed que aprova os medicamentos. Depois cada um dos países tem os seus mecanismos e, portanto, pode demorar mais uns países do que noutros. Mas tipicamente nós em Portugal temos acesso à grande maioria dos medicamentos que são hoje inovadores e que estão presentes noutros países. Não temos um atraso significativo. Claro que podemos sempre melhorar, mas acho que é importante também dizer que as pessoas cá em Portugal têm acesso à maioria dos medicamentos que estão a ser desenvolvidos. O que nós não temos, e aí é que podemos melhorar muito, é ter acesso aos fármacos antes de estarem na fase já do regulador, ou seja, os medicamentos que estão a ser testados em ensaios clínicos, porque aí é muito importante nós também conseguirmos ir buscar mais ensaios clínicos, porque é na fase em que os doentes podem aceder aos fármacos mais rapidamente. E aí, sim, temos um bom espaço a melhorar.
Bom dia, daqui é Leda Matos. Corrija-me se eu não estiver correta. Nós, no caso dos tratamentos oncológicos, temos estado a assistir, por exemplo, houve uma altura em que a radioterapia parecia estar quase esquecida ou pelo menos estava a ser menos usada. Neste momento, temos um recrudescimento do interesse, ou pelo menos da curiosidade em torno da radioterapia, talvez pela sua capacidade de uma maior precisão. Ou seja, os diferentes tratamentos não estão apenas a evoluir. Muitos deles, dessa evolução, também faz parte alguma reformulação. Houve uma altura que se fazia mais cirurgias, depois mais radioterapia, depois a quimio. Portanto, há uma constante mudança ou não?
É verdade. E eu acho que esta mudança e a forma como as coisas vão ficando mais relevantes ou menos, tem muito a ver com a precisão que atingem. O ponto fundamental aqui é mesmo este, porque do ponto de vista biológico e de alvejar e eliminar o tumor, não é difícil. Nós conseguimos matar as células do cancro. O problema é que as células saudáveis, não cancerosas, também morrem todas. Daí eu estar a insistir neste ponto da precisão. A precisão dos medicamentos que se tomam, ou a precisão da radioterapia, ou a precisão da cirurgia. Qualquer uma destas abordagens é fundamental no tratamento do cancro. E de facto, agora temos abordagens de radioterapia muito mais precisas do que tínhamos antigamente. Por exemplo, uma abordagem com o tratamento de protões, que é mais precisa e é mais limpa para as células saudáveis. E temos mesmo os equipamentos e a forma como é administrada a radioterapia é muito mais precisa. Em vez de alvejarmos as células do tumor e depois 1 cm ou 2 cm à volta, nós só alvejamos mesmo o sítio que queremos ir, onde queremos chegar. E também conseguimos controlar em profundidade. É toda esta complexidade da abordagem que é importante aqui. E depois, estes tratamentos são tipicamente complementares uns aos outros. Nós fazemos uma remoção cirúrgica, mas depois podemos não ter a certeza se removeu todo o tumor. Portanto, temos que ir lá com a radioterapia, ou temos que ir lá depois também com algum tipo de quimioterapia, ou algum tipo de terapia dirigida. Cada caso é avaliado de cada vez, consoante tem ou não tem alterações genéticas que são alvejáveis, consoante é mais fácil abordar ou acessível do ponto de vista da radioterapia ou não. É uma gestão de cada caso. Qual é que é a melhor abordagem para cada um.
Portanto, a ciência está no bom caminho. Poderá, e aqui poderei estar a ser excessivamente otimista, poderá ser no futuro o cancro considerado uma pequena infeção do nosso corpo? Caminhamos para aí?
Uma pequena infeção, há aqui uma grande diferença, é que uma infeção é algo que é causado por um agente externo. E tipicamente é mais fácil eliminar um agente externo do que eliminarmos um cancro que vem de uma degeneração das nossas próprias células. Uma transformação neoplásica das nossas próprias. E essa é a grande dificuldade, é nós conseguirmos claramente distinguir o que é uma célula neoplásica, portanto tumor, de uma célula não neoplásica, portanto saudável. Quanto mais nós soubermos daquilo que distingue uma célula de um cancro de uma célula não cancerosa, melhor conseguimos alvejar a célula cancerosa, porque a conseguimos distinguir claramente da célula saudável. E isto é fundamental. Se for uma bactéria, é mais simples dizer: "Isto é uma bactéria, isto aquilo não é", ao nosso sistema imune. Se for uma célula cancerosa, aí é mais difícil, por vezes, o nosso sistema imune estar alerta para uma célula que é cancro de uma célula que não é cancro. Pode não ser tão simples. Agora, eu acho que nós estamos a evoluir muito nas formas como tratamos. Nós estamos a conseguir abaixar a mortalidade por cancro e tornar, no fundo, uma coisa que se dizia, que já se diz há algum tempo, que é tornar o cancro como uma doença crônica, em que nós conseguimos monitorizar e perceber o que está a acontecer relativamente à resposta a determinados tratamentos. E evoluir também no tratamento consoante o cancro vai mudando. E isto pode, sim, evoluir para um contexto de uma doença crônica, em que nós conseguimos ir controlando ao longo do tempo.
E dando, obviamente, mais qualidade de vida à pessoa. Jorge Lima, obrigado.
É o mais importante.
É o mais importante. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Muito obrigado por se juntar a nós no "Contra Corrente". Helena Matos, notas finais. Há razões para sorrir, afinal.
Tendo em conta o que era a nossa esperança média de vida aqui há largos milhares de anos, eu creio que sim, que há razões para sorrir. Até prova em contrário, a vida é mesmo uma espécie de uma doença crônica, com o desfecho que todos nós sabemos. Conseguirmos viver mais tempo e com saúde é, penso eu, o grande desejo de todos nós, sobretudo quando passamos aquela fase em que achamos que somos imortais, que é uma coisa que acontece ali mais ou menos até aos-
Aos 40, não é?
Não, um bocadinho mais. Já começamos a ir ao dentista antes e a ter um certo confronto com a mortalidade. O que eu acho que nós temos aqui uma coisa muito importante e para voltarmos à protagonista que deu azo a este programa, que é o facto da Princesa de Gales ter anunciado ao mundo que tinha cancro, e não é um cancro qualquer. Porque é muito diferente dizer-se que se tem um cancro de mama ou de outro órgão qualquer, do que dizer que se tem um cancro no aparelho digestivo, sobretudo na zona abdominal, por todo o conjunto de circunstâncias que lhe estão associadas. Temos de perceber o seguinte: as famílias reais tiveram e têm um papel importante na questão de levar os povos a aceitar determinadas circunstâncias, que não são apenas históricas. Às vezes, tem as questões das derrotas, ou de momentos melhores ou piores da história desses povos. Não apenas isso. Por exemplo, as famílias reais foram muito importantes na divulgação de algo que sei que é um assunto muito caro, que são as vacinas. A forma como as famílias reais na Europa levaram os seus netos, os seus filhos, eles mesmos a vacinar, se quiseram que fossem vacinados. Estamos a falar dos tempos das outras vacinas, estamos a falar das varíolas, por exemplo, como eles foram importantes para esse processo de aceitação de algo Do qual as pessoas tinham medo. Por exemplo, no Japão, eu não sei, hoje em dia teremos de admitir que os números são reais, mas durante muito tempo o cancro, socialmente falado, tinha lados de tabu. Não se dizia que se tinha cancro. O imperador do Japão, não o atual, mas o pai do atual, teve um papel importante quando a dada altura declarou que tinha cancro. Não era a questão do segredo em torno da família imperial, era mesmo um tabu quase social em relação a uma doença que tinha uma série de estigmas. Isso é importante. Aquilo que nós vimos neste anúncio da Kate-
Cá também, hoje há menos, mas também houve durante muito tempo alguma vergonha associada.
Sim, mas havia uma questão de doença prolongada.
Uma das vergonhas que mais me irrita é essa mesmo, que vem nos jornais.
A doença prolongada.
Muitas vezes, em vez de dizer "morreu de cancro", diz "morreu de doença prolongada". E às vezes, infelizmente, o cancro não é nada prolongado.
Claro. Para além de que muitas vezes não é prolongado, existem várias doenças muito prolongadas.
Doença súbita, regra geral, é uma coisa cardíaca, e prolongada é cancro. Mas por que não se diz?
Pois. Mas hoje ainda isto acontece assim. Nesse aspecto, este anúncio é também importante, porque vem da parte de alguém que transmitiu sempre uma imagem não apenas de muita saúde, mas também de grande elegância, e estamos a falar de algo que não tem elegância alguma, que é um cancro no aparelho digestivo. E daí esta questão de que pode ser importante. E também pode ser importante, ontem estive a ouvir até um podcast de uma jornalista que veio a falecer com cancro, dos tais que são muito rápidos, e exatamente ela chamava a atenção. Este é um processo, como tu referias há bocado, é um processo individual, é quase que um processo no sentido de que individualmente alguns fazemos ao longo da vida de transformação, mas em que, na prática, há, por um lado, um grande entusiasmo médico, mas, por outro, vai se dando sempre muito pouca informação às pessoas. Fala-se do novo medicamento, da nova terapia que vai ser feita, como é que vai ser feita, como é que vai correr, as expectativas que existem. Fala-se de muita coisa, mas, por exemplo, depois, muitas vezes, deixa-se ao cuidado da pessoa e do seu agregado familiar irem descobrindo aspectos mais complicados relacionados com as terapias. É claro que nós temos sempre muito, neste momento, aquela coisa muito cinematográfica das mulheres a cortarem o cabelo antes de fazerem quimio. Porque já se sabe que, muito francamente, é a parte menos complicada, porque o cabelo volta a nascer, às vezes até nasce muito mais forte do que estava. Agora, aquilo que nós estamos a falar aqui é de sacos para fezes, é de como é que se organiza um quotidiano, porque isto é praticamente, durante algum tempo, pelo menos, um trabalho a tempo inteiro. E isso acontece muito nos hospitais. Aquilo que eu acho que há de mais parecido com um hospital é uma prisão, não no sentido de nós não termos liberdade, mas sim de não sermos donos do nosso tempo. O nosso corpo passa a ficar à disposição de estruturas que funcionam em função de si mesmas. Partes do princípio que aquelas pessoas não têm mais nada para fazer, e se calhar não terão, e as suas famílias também não. Há aqui um lado de um tempo suspenso, quase de algo que de repente acontece numa vida e a mete literalmente ao contrário. E esta questão do lado das pessoas, de tudo aquilo que se explica muito pouco sobre o que acontece, e sem me alongar muito mais. Há uns anos, um grande amigo meu, teve um problema exatamente no aparelho digestivo e lembro-me que fomos almoçar, numa fase em que ele já estava em recuperação, e eu, claro, não sabia nada das sequelas que ele tinha, e ele disse: "Olha, vamos fazer assim: nem chocolate, nem feijões, está bem? Porque eu tenho um saco." Mas era alguém que eu conhecia desde a minha adolescência e com quem eu tinha uma relação de enorme proximidade. E que de repente eu estou a falar daquele assunto de uma forma absolutamente descontraída e descomprometida. Mas há tudo isto que nós não queremos ver, porque vivemos da tal imagem de que mesmo quando estamos doentes, nós conseguimos fazer tudo sempre da mesma maneira, quando temos 20, 40, 60, 80, e estejamos doentes, estejamos saudáveis, nós estamos aqui, nós somos sempre iguais. Não, nós temos que aceitar que, em primeiro lugar, os corpos não são perfeitos e depois também não estão sempre bem.
José Manuel, não estamos preparados para a degradação do nosso corpo.
Quer dizer, nunca estamos. Não estamos preparados para a degradação de nada. Tudo que passa vai se desorganizando. É esse o princípio da entropia. Vai aumentando a entropia, vai aumentando a desorganização do nosso corpo. Uma das vantagens é que o cancro não se desenvolve com a mesma velocidade em corpos mais novos e em corpos mais velhos, também sabemos disso, pela própria velocidade de reprodução, entre a regeneração dos tecidos. É muito importante, no entanto, ter noção de que a evolução da ciência tem sido brutal. Nós estamos aqui a falar de coisas um bocadinho mais preocupantes, mas a ciência tem sido muito impressionante. Eu tenho uma pessoa das minhas relações que há 10 anos lhe foram previstos três anos de vida. Está cá. Tem trabalhado sempre. Isto acontece porque, de facto, a ciência tem produzido coisas incríveis. Agora, isto tem um preço, tem um custo Os medicamentos a que vamos tendo acesso, de vez em quando aparecem aquelas doenças que têm medicamentos que custam milhões de euros. Não sei se no caso dos carcinomas haverá medicamentos assim, mas há muitos tratamentos que custam muitos milhares de euros por mês ou por toma. Nós vamos prolongando a vida das pessoas nas nossas sociedades e temos sistemas, nomeadamente sistemas públicos de saúde, onde o princípio é a saúde não tem preço, mas ela no fim do dia tem. Um preço qualquer, mas tem. Muitas vezes quando se diz que os problemas do financiamento dos sistemas de saúde é o envelhecimento da população, esquece que não é só o envelhecimento da população, é o tipo de doenças e o tipo de tratamentos são cada vez mais sofisticados. Eu há pouco falei que nós começámos por ter raio-X e agora temos ressonâncias magnéticas, mas nós começámos por ter aspirinas e hoje em dia temos medicamentos de milhões de euros que são supereficazes. E quando pensamos que ninguém, a não ser os multimilionários, poderiam em circunstâncias normais pagar esses medicamentos, temos de ter noção que estamos a exigi-los aos nossos sistemas públicos e a recebê-los. Não é só exigi-los, é exigi-los e recebê-los. Isso tem um lado também em si de milagroso, mas eu suspeito que há uma altura em que nós vamos de alguma forma ter que racionalizar isso, e isso é provavelmente o mais complicado e o mais difícil.
E abrirá um novo debate.
Abrirá seguramente um novo debate, porque há muitos tratamentos que às vezes temos com pessoas que já não têm qualidade de vida nenhuma e que custam imenso, mas é muito difícil dizer quando é que deixamos de os ter. Mas enfim, é outro debate.
É outro debate. Vem aí hora do almoço, uma saladinha e durmam bem. Até amanhã.
Até amanhã.