Como reformar a direita num país cuja classe política torce o nariz a quaisquer reformas? Mais do que reformá-la, como renová-la e puxá-la para uma drástica evolução num país cuja classe política é alérgica, quando não claramente hostil, a quaisquer mudanças radicais do status quo? Como forçar uma classe política que se refugiou no conformismo, completamente anquilosada intelectualmente, a aceitar que existe uma clara necessidade de provocar um “choque” intelectual para responder aos desafios do mundo em mudança no qual vivemos? Regenerar intelectualmente a direita será uma tarefa hercúlea, sem dúvida, mas necessária… Sem hegemonia cultural, não há hegemonia política. Já escrevera, num texto anterior, que um dos erros mais graves que as direitas ocidentais cometeram foi o facto de terem abandonado a cultura à esquerda, concentrando-se na gestão económica. Há poucos dias, o intelectual Balbino Katz, falando sobre as raízes intelectuais do VOX, reforçou esta ideia e descreveu o erro que as direitas cometeram um pouco por todo o Ocidente:

Existe uma ilusão persistente nos partidos de direita: a de acreditar que as ideias são um luxo, uma distracção de intelectuais, quando muito um ornamento destinado aos colóquios e às revistas, enquanto a política séria começaria com as sondagens, os programas económicos, as nomeações e a conquista das autarquias. A história política europeia demonstra, contudo, o contrário. Um partido pode perfeitamente prosperar durante algum tempo sem uma doutrina; pode até beneficiar de uma crise, capitalizar os descontentamentos, conquistar votos e aproximar-se do poder. O que se torna muito mais difícil é permanecer no poder e, sobretudo, fazer aí outra coisa que não seja uma gestão ligeiramente diferente da ordem que pretendia derrubar.

Ao deixarem o domínio da cultura à esquerda, as direitas acabaram por perder o “coração” dos mais jovens e, assim, deixaram-lhe espaço para definir os limites da Janela de Overton — os limites daquilo que é considerado politicamente aceitável ou não pela opinião pública. Um erro que ainda hoje pagamos caro… O que fazer para recuperar a hegemonia cultural? É preciso, primeiramente, desenvolver uma acção metapolítica. Através da metapolítica, desenvolvida por intelectuais “orgânicos” — isto é, intelectuais que lutam contra a ordem cultural vigente — influenciar as massas: que as ideias da direita sejam aceitas como sendo a “normalidade”. Ou seja, que a visão do mundo das direitas se torne o “senso comum”. O plano parece, à primeira vista, simples! Seria preciso, primeiramente, que um pequeno grupo de intelectuais renovasse intelectualmente as direitas nas suas bases, criando conceitos, ideias, teorias, estabelecendo, para esse efeito, contactos com intelectuais ocidentais que trabalham para atingir o mesmo objectivo nos seus países respectivos. Em segundo lugar, estes intelectuais teriam de criar movimentos metapolíticos destinados a formar jovens interessados na arte de “pensar”. Em terceiro lugar, os membros destes grupos de reflexão metapolítica teriam de influenciar as massas — através de artigos publicados em jornais já existentes, da organização de palestras, conferências e colóquios e da tradução de livros de pensadores de direita estrangeiros (antigos e actuais).

Dito assim, até parece fácil! Mas não vai ser… Será uma tarefa duríssima, não tenhamos dúvidas. Impulsionar intelectualmente a direita, ou melhor, as direitas, num país em que até alguns intelectuais preferem não se aventurar por terras incógnitas — ou seja, não se arriscar a explorar novas ideias —, em que muitos jovens que se interessam por política, sobretudo os jotinhas, têm como principal e única preocupação a de obter tachos, e em que a esquerda domina culturalmente desde 1974 e detém uma quase hegemonia cultural no ensino público, na academia, nos meios de comunicação, na administração pública e no mundo da arte, não é muito animador. Contudo, face ao estado absolutamente preocupante do país — natalidade em quebra, economia débil, imigração descontrolada, crise do imobiliário, atraso relativamente à Quarta Revolução Industrial —, é mais do que nunca vital que as direitas recuperem a hegemonia cultural e, com ela, a hegemonia política. E, a partir dessa hegemonia política, consigam provocar uma viragem de 180 graus.

Por mais difícil que possa parecer, influenciar o debate político através da metapolítica, mesmo num país dominado pela esquerda, é perfeitamente possível. Por outras palavras, é possível inverter o rumo das coisas através da metapolítica. E foi precisamente isso que a corrente intelectual Nouvelle Droite fez em França. Foi em 1967, quando a esquerda já tinha alcançado a hegemonia cultural — Maio de 68 seria apenas a verdadeira demonstração de força —, que um grupo de uma dezena de jovens intelectuais franceses, no coração de uma Paris cada vez mais dominada pela extrema-esquerda, decidiu contra-atacar. Estes jovens intelectuais, vindos da experiência política falhada do movimento Europe-Action — um movimento político (e uma revista) pan-europeísta de extrema-direita —, perceberam que o tempo da conquista do poder político estava ainda distante e que era necessário influenciar a mente dos ocidentais antes sequer de imaginar conquistar o poder através de uma eleição. Alain de Benoist, jovem e dinâmico intelectual, juntou um grupo de jovens e criou, em 1968, uma associação metapolítica: o GRECE (Groupement pour la Recherche et l’Étude de la Civilisation Européenne), com poucos meios financeiros, mas com uma vontade infinita de mudar o Ocidente. Começaram por escrever pequenos artigos, organizar pequenas conferências, debates e tertúlias. No início, chegavam a poucas pessoas. Mas, pouco a pouco, o número de apoiantes foi aumentando. Jovens brilhantes, vindos de todos os horizontes — literatura, arte, ciências exactas, ciências sociais —, começaram a participar nos encontros, atraindo cada vez mais curiosos. Deste movimento meta-político, surgiram revistas tais como as revistas Nouvelle École, Éléments ou Krisis que enriqueceram o panorama intelectual da direita francesa. Daí, nasceu a corrente intelectual Nouvelle Droite.

Qual foi o balanço da Nouvelle Droite? De termos como “gramcismo de direita”, utilizado por vários políticos e comentadores ocidentais, ao termo “etnomasoquismo”, passando por conceitos como ethnodifférentialisme, “etnocídio”, ou ainda “preferência nacional” e “preferência civilizacional” — isto é, a ideia de que os Estados ocidentais devem privilegiar os seus cidadãos face aos estrangeiros e de que os Estados ocidentais devem privilegiar outros Estados ocidentais face a Estados não-ocidentais —, chegando finalmente ao controverso termo “remigração”, popularizado pela mouvance identitária francesa, esta corrente intelectual soube criar conceitos que vieram para ficar. O movimento metapolítico GRECE soube fazer chegar o seu vocabulário muito para além das reuniões parisienses, influenciando o debate político ocidental através de conceitos que entretanto se tornaram conhecidos por milhões. Sem falar de todos os jovens, em França, mas também em Itália, no Reino Unido, na Alemanha ou em Espanha, que assistiram a reuniões do GRECE, leram os livros de Alain de Benoist, Ivan Blot, Guillaume Faye, Giorgio Locchi ou jean-Claude Valla e acabaram, depois de integrarem os grandes partidos das direitas radicais nas décadas de 1980, 1990 e 2000, por exercer influência sobre a política europeia.

De facto, o que seria hoje o RN — provavelmente o próximo partido no poder em França — se não tivesse sido intelectualmente impulsionado pela chegada de várias dezenas de jovens intelectuais vindos da Nouvelle Droite nos anos 80? O que seriam a AfD, a Fratelli d’Italia, o Vlaams Belang, os Democratas Suecos ou o VOX sem os vários intelectuais vindos da Neue Rechte, da Nuova Destra ou da Nueva Derecha, todos eles, em maior ou menor grau, influenciados pela Nouvelle Droite francesa? E que dizer da importância de conceitos como “remigração” e “etnomasoquismo” (como forma de atacar o Partido Democrata) nas campanhas de Donald Trump em 2016 e 2024? Não quer dizer que todos os políticos destes partidos tenham lido autores como Alain de Benoist ou Guillaume Faye, longe disso. Mas é possível sustentar que algumas das ideias desenvolvidas por estes autores e por outros intelectuais da Nouvelle Droite circularam muito para além dos seus círculos originais, influenciando outros movimentos e correntes da direita radical europeia. Ou seja, as ideias teorizadas pelos intelectuais da Nouvelle Droite circulam hoje no debate político público, sem que a maioria saiba a sua proveniência exacta. É precisamente essa ideia que Balbino Katz procura destacar:

Este é um dos contributos essenciais da Nova Direita francesa das décadas de 1970 e 1980. Partilhem-se ou não as suas conclusões, esta corrente compreendeu que a correlação de forças políticas nunca se reduz ao número de deputados ou ao controlo de alguns ministérios. Existe, a montante, um outro campo de batalha, mais lento e mais profundo, onde se decidem as palavras, os valores dominantes, os modelos de comportamento e a imagem que os povos têm de si próprios e da sua história. (…)

(…) É importante evitar aqui um equívoco frequente. Dizer que um partido possui raízes intelectuais não significa que os seus dirigentes apliquem docilmente os livros de alguns autores. As verdadeiras influências são bastante mais subtis. Um filósofo inventa um conceito; um ensaísta simplifica-o; uma revista difunde-o; um jornalista transforma-o numa fórmula; vinte anos mais tarde, um responsável político utiliza-o sem sequer saber exactamente de onde veio. A metapolítica é bem-sucedida precisamente quando deixa de se apresentar como tal e as suas ideias se tornam senso comum.

Assim, apercebemo-nos de como um grupo inicialmente reduzido conseguiu, ao longo do tempo, criar conceitos políticos que são hoje utilizados por alguns dos homens e mulheres mais poderosos do Ocidente. Como, em síntese, as suas ideias se tornaram o novo senso comum. E, se dei o exemplo do GRECE/Nouvelle Droite, deve-se ao facto de que o exemplo francês é um caso de sucesso alcançado com poucos meios financeiros — e, em Portugal, temos poucos meios financeiros. Muitas vezes, são necessárias, antes de mais, pessoas com uma grande força de vontade e coragem para levar a cabo os seus planos. Resta saber se as há em Portugal.

Há poucas semanas, apareceu um novo movimento em Portugal, que se pretende cultural e de formação de elites: o Movimento Futuro Português, cujo presidente é um youtuber — ou “influencer”, como dizem agora os mais jovens — chamado Alexandre Sousa. O movimento assume-se como nacionalista e iliberal. Podemos não partilhar nem a sua crítica do liberalismo, nem o seu nacionalismo exacerbado, nem o conceito de “aristo-populismo”. É o meu caso: não partilho de todas as suas ideias, mas vejo com interesse a sua criação. Será sinal de que há divisões internas no Chega? Possivelmente. Mas será que isso interessa mesmo, por agora? Ou não nos deveria interessar antes o facto de haver jovens que pretendem discutir ideias, partilhar livros, conceitos, convidar intelectuais? Por outro lado, o Chega deveria ver com bons olhos o facto de um dos seus militantes ter decidido tentar impulsionar intelectualmente a direita radical que, em Portugal, bem precisa desse esforço, pois ainda falta uma coluna vertebral ao Chega, e essa lacuna poderá vir a ser-lhe fatal num futuro próximo. Que a escolha de uma deputada sem particular perfil intelectual para o cargo de vice-presidente de um movimento que se quer metapolítico possa ser criticada, parece-me perfeitamente normal. Mas que o facto de o jovem que criou o movimento tenha tido a boa ideia de convidar o Doutor Alexandre Franco de Sá e o Duarte Branquinho para dar os seminários de formação das “novas elites”, isso é, sem dúvida, uma excelente ideia. Pode ser (ou não) o início de algo interessante no panorama intelectual português.

As figuras mais conservadoras e liberais do PSD — aquelas que estão mais próximas das ideias actualmente defendidas por Pedro Passos Coelho — deveriam apoiar a criação de um movimento que tivesse, por exemplo, como objectivo renovar o próprio partido, pois este parece já não ter ideias capazes de mobilizar as novas gerações. Um grupo de intelectuais que propusesse ideias liberal-conservadoras não poderia ser uma lufada de ar fresco para um partido cujos eleitores mais jovens parecem afastar-se cada vez mais? Estarão a fugir das figuras do partido, do seu programa ou, simplesmente, da própria social-democracia? Não sei. Mas o que sei é que muitos ansiavam por um verdadeiro partido socialmente conservador — e, em certa medida, identitário — e economicamente liberal. Não será tempo de repensar as próprias fundações ideológicas do PSD? Mas, claro, se tal movimento surgisse, teria de ser — tal como no caso do Movimento Futuro Português — feito por pessoas próximas do PSD, mas 100% independentes, escolhidas a dedo pelo seu mérito intelectual e não simplesmente pelo nome de família ou por pertencerem às jotas. Porque daí não surgiriam ideias novas; bem pelo contrário.

E, fora estes movimentos, porque não um movimento mais conotado com a direita conservadora pura e dura? Outro conotado com uma direita identitária de tipo mais europeísta ou ocidentalista, ao estilo do Institut Iliade em França? E, finalmente, um movimento conotado com esta nova corrente que está a influenciar figuras como J. D. Vance e outros na Casa Branca, o “Iluminismo das Trevas” (Dark Enlightenment ou NRX)? E porque não uma revista que representasse todas as correntes de direita? E um canal de TV abertamente de direita? Porque razão não há uma Cnews, uma El Toro TV, uma NewsMax TV ou uma One America News em Portugal? Uma televisão com programas sobre filosofia, sobre economia, sobre geopolítica, sobre religião, sobre História, mas sempre numa perspectiva de direita? Será impossível em Portugal? Será pedir demasiado? Um canal com caras novas, e não as mesmas de sempre, vindas directamente da política. Pessoas de diferentes áreas, que saibam verdadeiramente do que falam, e não comentadores de 24 anos que estão lá apenas por serem “filhos de”…

Haverá um despertar intelectual à direita que, aliado a um partido político e a uma figura suficientemente popular para reunir pessoas à sua volta, conseguirá obter a hegemonia política em Portugal? Pode ser que sim, pode ser que não. Como se diz na minha terra, “o futuro, só Deus sabe”. O caminho será longo. Mas não será com as mesmas velhas e poeirentas ideias, com as mesmas frases clichés e com os mesmos slogans vazios que as direitas irão atrair o eleitorado mais jovem. Os grupos de reflexão metapolítica serão fulcrais. E estes terão de trabalhar não contra, mas com os partidos: de forma independente, mas complementar. Porque, se há uma crítica que poderíamos fazer à Nouvelle Droite, esta foi feita não por um indivíduo exterior, mas por um dos seus maiores intelectuais: Guillaume Faye. O intelectual vanguardista afirmou — com uma honestidade intelectual que muitos deveriam invejar — que, apesar de a Nouvelle Droite ter criado muitos conceitos, as suas ideias ainda não chegaram plenamente ao poder. Segundo Guillaume Faye, um grupo metapolítico deveria influenciar o debate tendo sempre em mente a possibilidade de permitir a chegada ao poder de um partido que defenda a sua visão. Ou seja, a luta pela hegemonia cultural deveria estar intrinsecamente ligada à luta social, económica e política de um determinado partido. Ora, a grande figura da Nouvelle Droite, Alain de Benoist nunca quis trabalhar de mãos dadas com um partido político. Grave erro, segundo Guillaume Faye, pois, ao não querer influenciar a política prática, os intelectuais da Nouvelle Droite tornaram-se um pouco como os sábios bizantinos: enquanto Constantinopla estava a ser atacada, eles discutiam sobre o “sexo dos anjos”.

É, de facto, uma crítica que poderíamos fazer ao movimento GRECE/Nouvelle Droite: este não soube ser uma ponte entre a metapolítica e a política institucional. Daí que eu pudesse ter mencionado no meu texto um exemplo de um movimento que não é totalmente análogo, mas que é uma organização com uma dimensão metapolítica e que soube transformar ideias em influência política: a Heritage Foundation. Embora seja incorrecto comparar os dois exemplos, pois, desde o início, o GRECE tinha como objectivo transformar o ambiente intelectual e cultural, produzir conceitos, disputar a hegemonia cultural e, indirectamente, transformar a política prática sem nunca “fazer política”, enquanto a Heritage Foundation é, como indica o seu site, um think tank de política pública, cujo objectivo é transformar princípios conservadores em propostas concretas, bem como influenciar directamente a legislação, formar políticos e mudar as políticas das administrações presidenciais americanas. Mas o facto é que a Heritage Foundation soube fazer com que as suas ideias não só influenciassem os políticos americanos, mas que a política prática do governo norte-americano seguisse os conselhos do think tank. O mesmo não se pode dizer do GRECE: as suas ideias têm influência, mas nenhum partido faz legislação baseando-se nelas. Contudo, em Portugal, uma organização como a Heritage Foundation, com meios financeiros colossais, é impossível. Algo como o GRECE, com poucos meios financeiros e poucas pessoas, mas pessoas determinadas, é mais plausível.

Consequentemente, quem fizer parte de grupos deste género terá de o fazer tendo em mente que, por detrás da acção metapolítica, deverá existir o objectivo de permitir que um candidato que represente as suas ideias possa alcançar a hegemonia política. Para quê? Com que objectivo? Salvar Portugal? Ao ponto a que chegámos, penso que seria preciso um milagre, e eu sou muito céptico — mesmo sendo cristão — quanto à possibilidade de milagres acontecerem numa era em que há demasiados telemóveis para os filmar. Diria antes: para pelo menos tentar inverter, mesmo que lentamente, a inexorável queda, pois Portugal está à beira de um precipício. E, para pelo menos travar essa queda, será preciso mais do que aumentos de 1 ou 2% das pensões e aumentos de 5€ do salário mínimo. Terão de existir ideias novas. E estas ideias terão de ser diferentes, realmente inovadoras, corajosas, audazes… Resta apenas saber se, neste país em claro declínio, ainda existe ideias audazes e corajosas…

Numa sociedade que considera subversiva toda a verdadeira ideia, que procura desencorajar a imaginação ideológica e que pretende abolir o pensamento em benefício do espectáculo, o objectivo principal deve ser despertar as consciências, colocar as questões mais perturbadoras e provocar electrochoques ideológicos, verdadeiros “ideochoques”. (…) Um pensamento vencedor só pode triunfar se se afirmar contra a corrente de uma ordem já em declínio.

Guillaume Faye, L’Archéofuturisme. Techno-science et retour aux valeurs ancestrales, éditions L’Æncre, 2011/La Nouvelle Librairie, coll. Agora, 2023 (traduzido do francês pelo autor do texto)