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O fim dos automóveis com motor de combustão interna já não vai acontecer em 2035, como estava previsto, pelo menos na União Europeia, onde esta semana a meta dos 100% sem emissões passou para 90%. É, porventura, a mudança mais emblemática e a mais discutida, mas outras metas estabelecidas para a transição energética, nomeadamente as relativas a regras de reporte pelas indústrias, pelo menos de acordo com as propostas da Comissão Europeia. Para esta evolução, contribui muito o novo equilíbrio político na Europa, onde os partidos socialistas e liberais perderam peso a favor dos partidos do centro-direita e também das forças da direita radical. Contudo, o que terá sido determinante foi a posição da Alemanha e do novo chanceler Merz, até porque seria a Alemanha e a sua poderosa indústria automóvel a que mais estaria a sofrer e que está a sofrer com as regras da transição climática. Além disso, há ainda os agricultores, que hoje vão manifestar-se em Bruxelas, assim como o aparecimento de vozes de peso a apelar para o que consideram ser políticas mais realistas. Com o Conselho Europeu reunido em Bruxelas, com uma agenda já muito pesada, sobretudo por causa da Ucrânia, no Contracorrente de hoje queremos perceber o que significam estas mudanças nas políticas europeias. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
A Europa queria ser um exemplo para o mundo depois do Acordo de Paris. Será que vai deixar de ser?
Eu acho que há sempre um problema nestes processos, e esse problema é particularmente agudo na Europa, porque há uma diferença entre a ideia de que podemos ser os meninos bem comportados e uma realidade no terreno de economias e sociedades que em muitos aspectos estão, eu não diria a desfazer, mas estão em grande crise. Hoje, como tu referiste e também foi referido no noticiário, vai haver uma manifestação muito grande em Bruxelas de agricultores, talvez uma das maiores. Vai estar presente a nossa confederação dos agricultores, mas há imensos tratores que já foram alugados na região de Bruxelas para ocupar o centro. Deverá haver aquelas cenas habituais, parece que desta vez o que eles vão despejar é leite azedo, vai ser um cheiro agradável. Mas dir-se-á: mas por quê? Porque o nosso mundo mudou muito para essa gente e às vezes nós nas cidades não andamos por isso. Um dos países onde o peso da agricultura é tradicionalmente mais importante, mais relevante, é a França. A França em 1960, portanto não foi assim há muito tempo, foi no século e no milênio passado, mas não foi assim há tanto tempo, não chega a ser há 70 anos, a França tinha 4 milhões de explorações agrícolas. Atualmente tem 400 mil. Uma parte disso é bom, é evolução no sentido da eficiência na produção, mas outra parte é destruição do mundo rural. A França é um dos países onde esta tensão é maior e tem a ver com algo que vai estar hoje a ser discutido no Conselho Europeu, que é saber se vai ou não assinar o acordo do Mercosul, o acordo com os países da América do Sul, já, ou se vai adiar mais uma vez. Em causa está saber se as regras que os agricultores europeus têm que cumprir para a sua produção, e que muitas vezes são determinadas por burocratas, pessoas que vivem muito longe da vida destas pessoas, às vezes políticos eleitos, mas também estão muito longe os do Parlamento Europeu, por exemplo, muito longe dos seus eleitorados, determinam regras que têm que ser cumpridas, regras sanitárias, regras ecológicas, que têm que ser cumpridas dentro da União Europeia, mas depois os produtos que chegam de fora não têm que cumprir essas regras e naturalmente tornam-se mais competitivos. Eu estou a falar da agricultura pra não começar logo por aquilo que tu referiste mais, que é o mundo dos automóveis. Que é um mundo também que hoje faz parte da nossa forma de vida e tem a ver com saber até que ponto é que conseguimos ou não fazer a transição. A Europa atrasou-se, é óbvio que se atrasou industrialmente e sobretudo no que respeita à inovação neste domínio. Este ano, em 2025, porventura, o maior consultor europeu, que é a Volkswagen, volta a liderar as vendas no mercado elétrico, dos carros elétricos, mas em segundo lugar está a Tesla, que foi o primeiro ano passado, e o modelo mais vendido é um modelo da Tesla, que é uma marca americana com poucos anos, como toda gente sabe. Mas, em boa parte, não são já os chineses, porque nós aos chineses fazemos aquilo que o Trump faz ao mundo. Nós gostamos muito de dizer mal do Trump, mas a verdade é que para evitar que os carros chineses deem mais depressa cabo da indústria europeia, nós aplicamos taxas aos carros chineses muito elevadas. E os chineses já estão a começar a construir os carros deles dentro da Europa para ver se contornam essas taxas e marcas como a BYD estão em taxas de crescimento muito rápidas no mercado europeu, enfim, estão lá no fundo da tabela, mas estão a crescer muito rapidamente. E sobretudo, o tema que se coloca é saber se é viável ter 100% das vendas Da construção e das vendas em 2035. Repara, nós na Europa, nos últimos cinco, seis anos, passamos de uma cota de mercado dos veículos elétricos de 8%, para, se este ano correr bem, ficará entre os 17% e os 18%. Isto subiu 10% a cota de mercado. Este ano volta a haver crescimento, mas o ano passado houve até uma diminuição das vendas nos mercados europeus. Isto acontece porque, entre outras razões, os governos estão a tirar subsídios. Estes carros só eram vendáveis porque eram subsidiados, porque pagam menos impostos que os outros carros, porque o seu custo de fabrico ainda é maior, porque as margens para a indústria automóvel são menores. Repara, acho que foi ontem, ou ontem ou hoje, fechou uma fábrica da Volkswagen na Alemanha. Não acontecia há 88 anos, fechar uma fábrica da Volkswagen. Estamos perante uma situação que é, de facto, complexa e há mais frentes onde isso é complexo, porque frentes que se cruzam com o mundo rural, que se cruzam com o mundo urbano por causa dos automóveis, que se cruzam com todas as profissões e a atividade económica que depende da indústria. E, portanto, a Europa, porventura, em vez de achar que consegue ir a marcar o passo, acompanha o passo. O meu problema nem sequer é esse, é saber se consegue acompanhar o passo, porque no que diz respeito, por exemplo, à instalação de fontes de energia renovável, o ritmo na Europa é bastante mais baixo do que, por exemplo, na China. Bastante mais baixo, porque nós estamos sempre a encontrar obstáculos à instalação de grandes zonas com painéis solares ou zonas com ventoinhas, como nós lhes gostamos de chamar, ou mesmo novos empreendimentos hidroelétricos. Nunca no nosso quintal, nunca in my backyard, que é a expressão que se utiliza, e há muitos advogados especializados em fazer parar estes processos. Nós, em Portugal, tivemos alguns exemplos disso, nomeadamente para infraestruturas que foram muitas vezes adiadas por causa da intervenção desse tipo de grupos e desse tipo de ativismo. E nós não podemos querer, como diz o povo, sol na eira e chuva no nabal. É bom, não é? Sol na eira.
Era perfeito.
Era perfeito. E muitas vezes a conciliação obriga a isto. Mas naturalmente que há também quem diga que este adiamento pode ser negativo, porque alivia a pressão sobre a indústria e sem tanta pressão, a indústria não é obrigada a inovar tão depressa. Portanto, há aqui muitos argumentos prós e contras, há muitos outros fatores. Nós nem falámos aqui de outras questões, tem a ver com as cadeias de abastecimento, tem a ver com os equilíbrios políticos da Europa, também é um ponto muito importante. Tem a ver com o dinheiro que a Europa não tem, neste momento, ou pelo menos o orçamento europeu não tem. A Europa tem muito dinheiro, mas está a gastá-lo de outras formas. Vamos falar um pouquinho disso tudo, com a ajuda também de muitos convidados, depois das 10:00.
Até já, José Manuel.
Até já.
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