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António José Seguro escolheu os Açores e a ilha Terceira para o primeiro 10 de Junho, e era grande a expectativa sobre o que iria dizer num discurso proferido na mesma ilha onde fica a Base das Lajes. O presidente acabou, contudo, por falar mais daquilo a que chamou de palavras do meio, mais com olhos postos na agenda doméstica, e ficaram para Miguel Mouzinho das Despesas de um discurso mais centrado na agenda internacional e também na geopolítica. Foi um discurso com algumas frases fortes, nomeadamente uma que é um bom ponto de partida para o Contracorrente de hoje: "Uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal". José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Há uma cortina de medo?

Há, pelo menos, a percepção de que estamos a entrar num tempo novo e que esse tempo novo exige uma forma de pensar, porventura, mais atenta, mais informada e talvez mais rápida do que muitas vezes temos. Nós ontem tivemos, de facto, dois discursos que eu diria diferentes, o que é natural, porque o discurso do presidente e o discurso do governador das comemorações tradicionalmente são discursos diferentes, mas neste caso havia muita expectativa sobre aquilo que Seguro diria ou não diria. Eu sei que há pessoas que estão a ler nas entrelinhas das entrelinhas pra ver se conseguem descobrir ali mensagens muito relevantes, mas no essencial, creio que António José Seguro reafirmou princípios gerais. Pode-se depois dizer: "Esses princípios gerais não são bem aquilo que o governo ou o Paulo Rangel têm defendido", mas basicamente reafirmou princípios gerais. Portanto, é difícil tirar dali, na minha perspectiva, uma mensagem clara, designadamente para aquilo que pode ser dom comum. Ao contrário, o discurso de Miguel Mouzinho pareceu-me um discurso muito interessante. Miguel Mouzinho é um especialista em relações internacionais.

Exatamente.

É alguém que escreve regularmente e comenta regularmente sobre esses assuntos, é professor de geopolítica, é açoriano, portanto, cresceu nos Açores e tem reflexão, designadamente sobre a Base das Lajes. Há um texto muito importante dele, que é muito referido na bibliografia, um texto que já tem mais de 25 anos, portanto, numa época até da vida dele diferente, penso que ainda estava a acabar o doutoramento nessa altura, em que faz um bocado o ponto da situação daquilo que tinha sido a utilização e as exigências políticas relativamente à Base das Lajes, na sequência de momentos em que elas também tinham sido utilizadas, designadamente em 12 operações que não eram totalmente consensuais, digamos assim, mesmo em Portugal, mesmo ao mais alto nível, como tinha sido a intervenção da NATO, nesse caso, no Kosovo, e também umas operações no Iraque alguns anos antes. Não estou a falar da Guerra do Iraque maior, que foi depois de 2003. O texto é anterior a isso. Agora, eu gosto muito daquela frase que tu citaste, achei muita graça e quando estava a ouvi-la, veio-me à cabeça outra. Não sei se é uma frase famosa, como se costuma dizer, que é a primeira frase do Manifesto do Partido Comunista do Marx e do Engels, 1848, tem quase 180 anos, que é: "Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo." Aqui não é a Europa, é Portugal, e é um perigo, e não é o comunismo, mas é aquilo que ele depois explica mais adiante, que é a grande rutura. Ele, aliás, tem um livro que acabou de publicar muito recentemente, que se chama precisamente "A Grande Rutura", e é para essa reflexão que ele chama a atenção. Dizendo que estamos num tempo em que, ao contrário do que se passou nas últimas décadas, pós Segunda Guerra Mundial ou mesmo pós Guerra Fria, não temos um guião claro pra forma de nos orientarmos no mundo das relações internacionais, porque há muitos elementos novos e não basta orientarmos com as coisas tradicionais. Ele também chama a atenção pra outro aspecto que me parece particularmente interessante, que é referir que ao decidir, não podemos ir apenas por instintos, não podemos ir apenas por aquilo que é a reação imediata. E desse ponto de vista, é bastante importante termos noção do que a história nos ensina, do que a experiência de outros tempos nos indica. E isso é muito relevante, e cita autores desse gênero. Ele é também um estudioso dos clássicos, e quando falo de clássicos, falo de clássicos gregos. E tem, de resto, uma iniciativa interessantíssima, uma coisa, aliás, que já foi objeto de reportagens na imprensa dos Estados Unidos, que é ele tem há mais de 20 anos, julgo eu, uma espécie de curso na ilha Terceira, Angra do Heroísmo, que basicamente o que faz é alunos do final do secundário juntam-se pra ler Homero, pra ler os clássicos, pra ler livros clássicos. Aliás, ele costuma contar que Terceira é uma cidade relativamente pequena, comparando com as maiores cidades portuguesas. Não sei se há mais que uma livraria, eu conheço uma livraria na ilha, em Angra do Heroísmo. Eu disse que Terceira é uma ilha, Angra do Heroísmo é que é uma cidade, desculpem. Há uma livraria, ele chegou lá e disse que queria encomendar, salvo erro, na altura eram20 exemplares da "Odisseia". Ainda por cima é uma tradução nova, um livro relativamente caro e este homem: "20 exemplares?" E ele o que fez foi: pôs os miúdos, adolescentes, a ler aquilo alto. Todos os fins de semana eles juntam-se e aquilo é um sucesso absoluto, há imensos miúdos a quererem fazer isso. E depois aquilo acaba tudo com uma coisa que eu creio que ele continua a fazer, já não falo com ele sobre isso, há uns tempos, que é aquele curso, aquela leitura em conjunto de um clássico, acaba com uma volta à Ilha Terceira, dar a volta toda, é a volta de 40 km, a pé.

É uma bela caminhada.

Uma bela caminhada. Vai ele com os adolescentes e cria um ambiente. No fundo, aquilo é a nossa cultura, a nossa forma de nos relacionarmos e de entendermos a vida coletiva, tem muito a ver com aquilo que vem desde Homero, desde Tucídides, que ele citou ontem no discurso, vem desses autores. E nós hoje temos muitas vezes a tendência para ignorar isso completamente. Aliás, podemos depois falar um bocadinho disso. Falou-se um bocadinho que se calhar Trump nem sabe quem é Tucídides e portanto, quando o Xi Jinping lhe falou na armadilha de Tucídides, ele poderia não saber o que isso significava. Tucídides dava a entender que China era a nova Atenas, a potência emergente. Depois podemos falar um bocado melhor o que significa a armadilha de Tucídides, mas Xi Jinping também não deve conhecer bem Tucídides, porque no fim quem ganha é Esparta, não é Atenas, não é a potência emergente. Mas isso tudo mostra a complexidade dos dias de hoje e foi por isso que ele chamou a atenção, mais do que para dar uma fórmula fechada, porque isso teria vários caminhos, três caminhos: caminho de alianças de potências médias, caminho multilateral, caminho do reino do mais forte. Vamos falar um pouco sobre isso a seguir.

Depois das 10h. Até já, José Manuel.