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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Esta é a última vez que estamos a emitir neste horário. A partir da semana que vem, passaremos a emitir a seguir ao noticiário das 11h da manhã, pra quem nos segue em direto. Evidentemente, quem nos ouve noutros horários poderá continuar a ouvir-nos à hora que preferir. Mas neste programa nós vamos conversar de novo sobre os Estados Unidos da América. Estamos num período de transição e desta vez vamos procurar perceber um pouco o que pode mudar na política externa. É sempre uma grande ansiedade cada vez que muda um presidente nos Estados Unidos. A política externa é uma das áreas onde a Casa Branca tem um papel preponderante. Há sempre a forma como se olha, sobretudo da Europa para os Estados Unidos, uma grande bipolaridade relativamente à forma como se olha pra um presidente democrata ou pra um presidente republicano. No entanto, muitas vezes as alterações de rumo não são tão radicais como isso. De alguma forma, tivemos alterações grandes com Trump, tivemos seguramente gigantescas no que diz respeito à retórica. Tivemos alterações grandes no que diz respeito à participação em organismos multilaterais, mas noutros aspectos talvez não tenham sido tão substantivas como às vezes se refere, no que diz respeito às tendências de fundo. E agora interessa perceber o que é que vai passar com Joe Biden. No que diz respeito aos aspetos da retórica e multilaterais, já há sinais importantes, como o regresso a algumas organizações e a alguns tratados multilaterais, mas no que diz respeito às tendências de fundo, importa perceber se elas vão mudar assim tanto. Jaime Gama, Biden regressou aos acordos de Paris, Biden regressou à Organização Mundial de Saúde, mas isso talvez não seja o mais relevante. Ou melhor, é evidente na questão do ambiente é muito relevante, mas naquilo que se refere a outros aspetos, designadamente à relação entre os grandes blocos, à tensão com a China, à relação, à forma como se olha pra Europa, se olha pro Pacífico, o que é que espera desta presidência Biden?
Espero um regresso ao clássico americano, embora sem descartar por completo estes últimos anos. Ou seja, Biden tem ideias feitas sobre as relações internacionais e política externa. Deve ser, porventura, o presidente com mais conhecimento prévio dessa área antes de ser investido, porque ele foi oito anos vice-presidente, acompanhou muito esses assuntos e foi, como senador, durante muitos anos, presidente da Comissão de Relações Externas do Senado. Além disso, é alguém que manifestamente gosta dessa área. A equipa que ele escolheu é uma equipa de confiança e de experiência. Confiança em relação a ele, porque são todos mais ou menos pessoas que uma ou outra vez se cruzaram com ele, colaboraram com ele, uns mais ligados ao time Clinton, outros mais ligados ao time Obama, mas todos numa esfera democrática que num momento ou noutro passou também por ele enquanto vice-presidente. São escolhas profissionais, escolhas jovens e escolhas muito capacitadas em áreas específicas como o intelligence, a ajuda externa, diplomacia clássica, a diplomacia não clássica, portanto, tem aí um padrão. Biden, se nós quisermos, não é igual a Hillary Clinton, seguramente diferente, um pouco mais centro-esquerda, mas também não é Kerry, nem é Obama. É mais espectro moderado, atribui imensa importância ao consenso em política externa, à reconstituição das instituições americanas. Portanto, vai haver aqui um regresso ao ideal clássico da América, país do excepcionalismo, que é a doutrina consistente e clássica que está muito bem sintetizada por Kissinger da política externa norte-americana. Nós somos uma nação privilegiada, temos o dever de ter uma liderança no mundo, não pela força, mas pelas ideias Criar aliados, criar parceiros, eventualmente criar organizações internacionais para fazer progredir e convalidar pelos outros os nossos valores, que são os valores da democracia liberal, os valores da democracia clássica, os valores dos Estados Unidos. Portanto, eu acho que vai haver, neste ponto específico particular, algo capaz de retirar a política externa americana de um círculo retórico de ataques e defesas mútuas, de recriminações ideológicas, para algo que pode fazer uma plataforma boa de consenso entre os republicanos clássicos e os democratas não muito radicais. Portanto, há aí uma boa plataforma de trabalho. Agora, não é impunemente que se viveu os anos Trump e consequentemente Biden tem a preocupação de trazer à agenda política externa pontos relevantes que se medem com as implicações políticas das políticas externas. Porventura, articular mais a agenda das relações internacionais com a agenda dos interesses econômicos americanos. Porventura, defender a noção de que há uma política externa para a classe média, querendo com isto dizer, defender os interesses de uma política externa baseada numa política industrial americana. Ele, portanto, vai ser menos globalizante do que a administração Obama. Não estamos perante um terceiro mandato do Obama. Vai ser diferente. Vai haver mais preocupação nessa área. A agenda com a China vai ser uma agenda dura, não vai ser uma agenda de capitulação. E há uma agenda que Trump tinha cultivado com moleza, que vai passar a ser mais firme, que é a agenda das relações com a Rússia. Portanto, vai haver aqui nuances e mudanças, mas os aliados vão ser mais bem tratados, organizações como a NATO vão sê-lo. A parceria transatlântica vai seguramente renascer. As relações com os países da Ásia vão ser relações mais trabalhadas para não criar aos países da Ásia o dilema de ter que decidir entre ser aliado dos Estados Unidos ou da China. Portanto, vai haver mais sofisticação no tratamento com os países asiáticos que não a China. Vai haver a chamada a novos parceiros importantes, como por exemplo, a Índia e a Indonésia, vão ser cultivados aliados que, porventura, foram um pouco afastados pela administração anterior, como por exemplo, a Austrália e a Coreia do Sul. Enfim, vão ter um tratamento mais privilegiado. E a União Europeia e o Canadá, os aliados tradicionais, vão ter um relacionamento que Trump praticamente desfez por razões ideológicas e doutrinárias. Portanto, é uma área onde vai haver transformações, não radicais, transformações com ajustamento pragmático, com sentido pragmático. Vai haver uma diplomacia smart, não uma diplomacia de estrondo. E a equipe é uma equipe bem qualificada se virmos no National Security Council, no CIA, na coordenação do Intelligence Nacional, na defesa, na política externa, na ajuda ao desenvolvimento que agora renasce, estão pessoas que têm todas bastante experiência de governação e bastante experiência de lidar com o mundo. Não é uma equipe de ideólogos contra o mundo, é uma equipe de profissionais que quer majorar o papel dos Estados Unidos no mundo. Por isso é que o leitmotiv tem sido "America is back", a América regressa de novo, a América está outra vez presente.
José Morgado Pinto, está de acordo com este ponto de vista? Acha que, de facto, vai haver estas mudanças, este realinhamento tão substancial?
Bom, eu acho que nem a administração Trump foi tão retórica, ou melhor, foi tão ideológica. E há coisas que eu acho que vão ser de continuidade. Quer dizer, por exemplo, Trump, não há dúvida que em relação aos países asiáticos, mesmo no caso da Índia, ele ultimamente fez exatamente por causa da questão da China. O Trump centrou muito, e com razão, e Biden também nesse aspecto, até falamos aqui várias vezes nisso, era talvez o único ponto onde mesmo nos próprios debates, ambos estavam mais ou menos de acordo, era naquilo que se podia chamar o perigo chinês, porque até numa dada altura, até num debate, se acusaram mutuamente de ser o favorito dos chineses. Portanto, isso é um ponto em que, de facto, ambos estão de acordo. Trump teve talvez o aliado asiático com que ele cultivou mais, que ele se aproximou mais, foi do Japão e ele teve imensas conversas com o primeiro-ministro japonês. Mas em relação à Índia, em relação de um modo geral a esses países asiáticos, ele procurou também sempre cultivá-los, até exatamente por causa da questão da China. Também me parece que Biden está a fazer um bocado aquilo que outros governos do mesmo tipo de centro-esquerda fazem em relação à esquerda radical que os apoia, que é dar-lhes na política interna uma série de coisas, algumas são às vezes um bocadinho quase a puxar para o paranoico, outras são coisas um bocado folclóricas, por exemplo, a preocupação de nomear para determinados cargos pessoas de minorias, representativas de minorias de qualquer espécie, que é para ficarem todos mais ou menos muito contentinhos com essas representações. E depois naquilo que a gente pode chamar as coisas mais sérias, que são essas exatamente que têm a ver com a segurança nacional, que têm a ver com a política externa, que têm a ver com as coisas de fundo e de sobrevivência, porque nós estamos num mundo particularmente perigoso, não estamos num mundo tranquilo dos últimos anos da Guerra Fria, em que de facto havia uma espécie de condomínio mais ou menos satisfatório. Hoje temos uma série de poderes emergentes com modelos paraautoritários na sua maior parte. Hoje uma série de países importantes que vamos ver, a Índia, a China, a Rússia, uns têm, como é o caso da China, modelos totalitários de partido único, outros como a Rússia têm modelos autoritários, a Turquia aí dentro de aspas. Hoje é um mundo que está muito longe daquele mundo pós fim da Guerra Fria, em que de facto havia o internacionalismo liberal e democrático que triunfava um pouco por toda a parte e se achava que era esse mundo que nos esperava. Nós aliás até tivemos um debate muito interessante, lembro-me eu na Livraria Book Codes com o Fukuyama a propósito disso. Lembro-me perfeitamente disso, que foi um dos apregoadores, depois voltou um bocado atrás, mas foi um dos apregoadores dessa ideia do fim da história. Também me parece que há aqui outra coisa importante que o Jaime Gama já aí referiu. É evidente que qualquer administração, e penso que o Biden nisso tem experiência suficiente para isso, tem que levar em conta, de facto, a divisão da América e que há aspectos de política externa da América que não vão poder repetir-se mais, porque exatamente a classe média e a classe trabalhadora americana tiveram, de facto, nos últimos 20 ou 30 anos, devido à internacionalização, à globalização e à desindustrialização dos Estados Unidos, criaram vastíssimas áreas de descontentamento e foi isso que explicou, em muitos casos, a eleição do Trump em 2016. E portanto, algumas coisas que se faziam no passado, ou seja, por exemplo, cruzadas democráticas e guerras como a guerra do Afeganistão e coisas desse tipo não vão- Trump não fez nenhuma guerra, que é uma coisa que- Trump não fez nenhuma guerra, exatamente. Que é uma coisa que há muito tempo- Da administração não começou nenhuma e ainda, apesar de tudo, ainda tentou algumas diminuir. Mas tudo isso penso eu que vai ser levado em conta. E mesmo em relação às relações atlânticas, onde a retórica vai mudar e vai haver com certeza, mas já tiveram alguns problemas, porque, por exemplo, uma coisa que foi muito notada e criticada por vários analistas e observadores americanos, foi a pressa com que a União Europeia fez o acordo comercial com a China, sem esperar exatamente a posse da nova administração americana e fazer uma conversa ou um entendimento, que parece que era a vontade das duas partes, uma vez desaparecido, de certo modo, o mau da fita que seria o Trump, era fazer essa reaproximação, sobretudo, em relação ao dossiê China, porque temos que ver sempre, porque isso é uma constante da história, a potência dominante, embora os Estados Unidos não tenham já aquele domínio que foi no imediato pós-Guerra Fria, quer dizer, a potência hegemônica, de qualquer maneira, olha sempre com atenção e com cautela, sobretudo neste caso. No caso da China, tratando-se de uma potência que tem um determinado regime e tem uma determinada forma de atuar internacionalmente. Olhando com bastante cautela o emergir desse poder. Portanto, necessariamente que esse vai ser talvez um ponto central da administração, e aí concordo com o Jaime Gama, que talvez vá ser tratado sem o som e a fúria com que o Trump algumas vezes o tratou, mas que vai continuar a ser tratado. Aliás, o passado da maior parte das pessoas que vão lidar com essa questão, o próprio Biden e o seu novo secretário de Estado, o passado deles, e convém nestas coisas normalmente a gente ir ver um bocadinho o que é que eles disseram antes e o que é que eles disseram sobre estes temas. São pessoas que estão muito atentas à questão chinesa. E que têm mostrado até gestos no passado em relação a Taiwan, gestos interessantes. E portanto isso acho que vai ser talvez o ponto mais importante da próxima administração.
Chegamos ao fim da primeira parte do "Conversas à Quinta". Vamos fazer agora o intervalo habitual para publicidade e noticiário e regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao nosso "Conversas à Quinta" e a nossa conversa sobre a política externa da administração Biden. Falamos daquilo que são pontos onde poderá haver inflexões, mas de alguma continuidade, mas havia algumas questões onde, pelo menos, a sensibilidade dos últimos anos entre democratas e republicanos era claramente diferente. E algumas questões do Médio Oriente, em particular as relações com Israel, isso era muito claro. Os Estados Unidos ainda não construíram a sua embaixada em Jerusalém, vão construí-la, na sua opinião, Jam Gama?
Quem teve que recuar aí foi o próprio Trump, depois de o ter anunciado. E congelou a situação, portanto, ela está congelada e não sei se não ficará congelada, mas a autoria do congelamento é a autoria de quem teve a ideia de dar esse passo. Eu devo dizer que tenho a impressão que Biden, obviamente, não vai mexer uma única coisa daquilo em que consiste a panóplia do restabelecimento de relações de Israel com países árabes feita pelo genro de Trump. Isso vai ficar, é, aliás, valorizado como positivo, isso foi sublinhado. Embora isso não tenha muito a ver com a obtenção de efeitos imediatos para a solução de longo termo das questões do Médio Oriente. E aquilo que me parece que está a ser trabalhado por esta administração, e já foram dadas umas pistas, é a consciência de que tudo hoje passa no Médio Oriente, não tanto pela questão de Israel e dos seus vizinhos ou pela questão palestiniana, mas sim pela confrontação Arábia Saudita e Irão.
Irão, já falámos isso várias vezes. A questão delicada é o Irão, neste momento.
E para essa confrontação, o que está a ser um pouco avançado é a noção de que é preciso facilitar o terreno para haver um reentendimento, um recomeço de diálogo entre o Irão e a Arábia Saudita. E que aí é que está a chave de ir procurar novas soluções para o Médio Oriente. É óbvio que a administração Biden já deixou claro que não apoia a Arábia Saudita em relação ao que se passa no Iémen. Aí há uma nuance. Mas o esforço para que essa aproximação se realize passa também por conseguir recuperar o quadro do acordo nuclear com o Irão. E portanto, aí vão ser obviamente dados passos. O Irão vai querer criar factos consumados, mas também sente que retomar um certo caminho de estabilização é algo que lhe é benéfico. Depois há a questão nuclear alargada, que foi outra questão que foi descurada pela errática política externa da anterior administração, que foi deixar o mundo e as grandes potências sem uma relação nuclear estável, porque praticamente o último tratado sobre forças nucleares ia sendo abandonado por Trump. Por que é importante retomar isso? E felizmente, já há a noção de prolongar o start por mais cinco anos. É porque sem uma estabilização da relação estratégica no plano nuclear entre as grandes potências, é impossível controlar áreas do mundo onde há o apetite por passar de exércitos convencionais para exércitos com capacidade nuclear, designadamente no Médio Oriente. Portanto, retomar essa relação estabilizadora com a Rússia, conseguir adquirir a China para essa negociação e para um acordo nessa área, é a única maneira de controlar o que se pode vir a passar com as tentações de nuclearização, não tanto da China, do Paquistão e de Israel, que já possuem arma nuclear, mas também da Arábia Saudita, do Irão e da Turquia, quiçá do próprio Egito, que nunca abandonou essa teorização. Portanto, há também uma outra plataforma onde se encontra solução ou enquadramento para a solução da questão do Médio Oriente, que é na estabilização das relações estratégicas mundiais, porque elas se aplicam não só na Ásia, mas têm no quadro do Médio Oriente um grande campo possível de aplicação. Depois, em relação ao Médio Oriente, a relação com Israel será mantida e será cultivada. Não se sabe bem qual vai ser a evolução política interna de Israel.
Sim, Israel tem agora eleições.
A fragmentação do sistema político é muito grande em Israel.
Não é fragmentação, é pulverização.
É isso. E isso é também outra questão que dificulta a estabilização na zona
Mas penso que Biden vai repor uma plataforma, vai um pouco sair da linha de diplomacia de cavaleiro andante como essa do genro de Trump, Kushner, mas vai retomar um quadro de contacto firme na zona e sobretudo também vai reabrir um caminho diferente em relação a Israel, porque ele em relação a Israel tem também uma capacidade de relacionamento que não é despicienda e a composição hoje do governo de Israel e do que pode vir a ser o futuro do governo de Israel também favorece essa ligação.
Jaime Nogueira Pinto, outro tema que poderá também haver evolução significativa é na relação com a Europa. A relação de Trump com a Europa teve momentos mais difíceis. Trump veio à Europa pedir dinheiro para que a Europa investisse mais na defesa. Não é uma exigência nova dos Estados Unidos. Trump foi bastante mais vocal. Havia sempre as questões da relação entre Trump e a Rússia, se bem que, na verdade, as cedências à Rússia vinham até de administrações anteriores. O episódio da Crimeia não se passou no tempo de Trump, mas sim durante a administração Obama. E temos novamente uma situação em que vamos ter esta administração Biden a ter que lidar com uma realidade nova, que é a realidade da concretização do Brexit. De Londres já veio o sinal de que se quer manter uma relação especial entre Londres e Washington, uma relação antiga, muito sólida, construída a partir da relação que foi construída entre Churchill e Roosevelt, e a partir daí mantida sempre com laços muito fortes. O que pensa que possa evoluir sendo as personalidades de Boris Johnson e Biden tão distintas?
Eu penso que nisso a chamada solidariedade anglo-americana é capaz de prevalecer. Ela tem sobrevivido, claro que teve épocas de grande confluência e convergência ideológica, por exemplo, no tempo de Reagan e de Thatcher, foi uma época nesse aspecto até paradisíaca, e depois teve algumas alturas em que exatamente não havia essa convergência ideológica entre os governos, mas acho que nesse aspecto foi sobrevivendo sempre. Agora, há aspectos, por exemplo, onde eu discordo em relação ao que o Jaime Gama disse, por exemplo, na questão da renovação dos tratados sob controle nuclear. Eu acho que a administração Trump estava a tentar exatamente fazer uma revisão deste tratado START e Biden limitou-se a chegar e a prolongar por mais cinco anos um tratado onde a verificação em relação aos equipamentos nucleares russos tem sido altamente deficitária e no acordo que foi assinado vai continuar a sê-lo. Portanto, foi uma coisa um bocadinho a despachar para trás das costas, não me parece que tenha melhorado nada. E em relação à China, se repetir isso, também não vai ser brilhante a solução. Em relação à Europa e à Europa que sai do Brexit, eu penso que os Estados Unidos vão ter, até porque exatamente vão ter uma agenda interna muito forte e muito pesada. Mas a relação ou há, por exemplo, em relação a questões como a China, como a Rússia, como o próprio Médio Oriente, onde nós até hoje vimos que havia interesses muito diferentes e soluções, mesmo os próprios países europeus tinham posições diferentes. Por exemplo, a França, apesar de tudo, manteve sempre posições relativamente independentes nalguns desses casos. E não há dúvida que, por exemplo, no Médio Oriente, não há dúvida que eu, pessoalmente, acho que Trump aproximou-se exageradamente do governo de Netanyahu e em posições que eu acho que, eu pessoalmente sempre achei que a melhor forma de haver uma segurança para Israel é, de facto, a solução de dois Estados, ou seja, haver um Estado palestiniano relativamente forte e que hoje em dia é muito difícil, porque exatamente minou-se de tal maneira a credibilidade dos chamados moderados palestinianos que hoje isso será extremamente difícil. E tem, de facto, o Ocidente que em relação à questão sauditas-iranianos, ou seja, também à questão sunitas Xiitas. Tem que ter um extremo realismo e também não se pode hipotecar de uma forma que o leve depois a ter implicações mais graves e a ter que intervir. Como da mesma forma em relação à Rússia. Eu acho que seria completamente uma loucura ir-se para uma guerra com a Rússia, uma confrontada com a Rússia, por causa da Crimeia, porque na minha cabeça e do que eu sei de história, a Crimeia é russa. O erro foi, no fim da Guerra Fria, não se ter feito o que se fez com a Finlândia no princípio da Guerra Fria, que era tê-la neutralizado. A Ucrânia devia ter sido um Estado neutral. É evidente que a Rússia tem uma história. A Rússia só veio para a Europa Ocidental duas vezes e foi atrás de exércitos que a tinham invadido. Veio atrás de Napoleão e depois veio atrás do Hitler. De resto, a Rússia nunca passou do Oder, nunca ameaçou para aí. E quando passou mais, foi no tempo do comunismo e era por uma razão também ideológica, de expansão ideológica, era a União Soviética. A Rússia não me parece que seja um perigo nesse aspecto. E, portanto, espero que haja uma certa contenção e que os aspectos ideológicos, digamos, de expansionismo ideológico ou do tal internacionalismo democrático, que sejam contidos dentro de uma linha de realismo político.
José Gama. Falta-nos aqui abordar uma área importante, que é a América do Sul. A América do Sul passa por um período de grande instabilidade. Temos países onde a situação continua a degradar-se, como a Venezuela. Temos sempre aquele vizinho próximo desconfortável, que é Cuba, e temos grandes países onde a situação está longe de estar estabilizada. O maior de todos é provavelmente o Brasil, onde assistimos a uma mudança de poder e temos um presidente que é aquele que conhecemos. Temos a Argentina que continua a ir de crise em crise. E temos um conjunto de outros países que depois de terem passado por um período relativamente bom, quando as matérias-primas estavam em alta, a partir do fim desse período, nunca mais reencontraram a estabilidade. Já sem falar da situação crítica que é o México, que tem à frente um populista de outro tipo, mas também é um populista, Obrador. Como é que vê a relação de Biden com o seu quintal? Como é que os Estados Unidos costumavam tratar a América do Sul?
Tanto quanto me parece pela escolha da equipe e também por aquilo que foram as declarações prévias durante a campanha para a campanha eleitoral, penso que não vai haver uma concentração na América Latina como uma zona prioritária. Os Estados Unidos não se vão envolver nesses grandes ou pequenos assuntos da América Latina. Porventura, vão acionar programas de cooperação com países pequenos e revitalizando a AID, têm a capacidade para o fazer e para Samantha Power exergila, também tem aí um capital para poder avançar, mas não estou a ver um proselitismo ou um empenhamento ativista na América Latina. Eu penso, aliás, que é uma grande desilusão de todos aqueles que na América Latina esperavam isso de Biden para poder solidificar as suas posições na crítica a essa proposta Biden. Veja, por exemplo, em matéria de direitos humanos, o programa Biden não é um programa ativista de direitos humanos, concentram muito na questão da China, concentram na defesa dos valores da democracia e até na realização de uma conferência sobre a democracia e os standards democráticos, mas não está muito centrado no ativismo. Está centrado num ponto relevante, que é o combate à criminalidade econômica internacional, fraude, lavagem de dinheiro, evasão fiscal. E isso, porventura, terá como destinatários alguns países sul-americanos. Mas não estou a ver a colocação desse ponto na agenda. Porventura, haverá uma questão que é da recuperação das relações com o México, porque tem importância comercial e tem importância para o problema da fronteira e da migração.
Biden já teve que deportar migrantes.
Sim, mas e a própria Kamala Harris quando era procuradora na Califórnia. Sim, isso sabe a suor, digamos.
A relação penso que será algo que será trabalhada para níveis mínimos de estabilidade, não com projetos grandiosos, até, porventura, a situação vir a evoluir. Agora, voltando a outros pontos, por exemplo, em relação ao Brexit, Biden deixou muito claro que não oferecia à Inglaterra um pacote de relação comercial alternativo do que a Inglaterra poderia obter com a participação na União Europeia. Isso ficou muito claro. Portanto, o que era a proposta Trump, "saiam da União Europeia, que têm aqui com os Estados Unidos um acordo de primeira", isso negativo. Vai, obviamente, procurar negociar um acordo. Depois, em relação à relação com a Europa, vai também procurar restabelecer uma relação, não só no ponto de vista político e da segurança, mas também no ponto de vista económico. E em relação ao engajamento político com a Europa, vai criar um grupo de trabalho com os europeus para em conjunto discutirem a abordagem da relação com a China. A administração Biden ficou um pouco surpreendida, atribui muito aos interesses egoístas da Alemanha a celebração deste acordo de investimento com a China, mas também já anuncia que vai procurar, porventura, nas relações com a China, isolar a área do investimento para obter um acordo semelhante. A ideia de Biden é esta: Estados Unidos representam 25% do PIB mundial e, portanto, encontrando aliados e parceiros que perfçam mais de 50%, a China é obrigada a negociar e isso vai ser, obviamente, uma preocupação. A outra preocupação que tem a ver com a China e onde também Biden aposta forte, é na criação de uma aliança dos países democráticos e dos países de economia de mercado em relação à questão do 5G para aí recuperar o tempo perdido em relação àquilo que é a aposta da China nas novas tecnologias e nas indústrias do futuro. Portanto, vai haver aí da parte da administração Biden, um cuidado em reconstituir uma aliança que envolve, obviamente, também o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e outros países da esfera asiática. Isso parece-me que é algo que está determinado. Não sei se os Estados Unidos vão optar por regressar em pleno à parceria do Pacífico, que eles aliás criaram e da qual depois saíram, e que atitudes vão ter aí ou se vão preferir acordos bilaterais, acordos ad hoc. Isso ainda está por definir, porque entretanto os chineses também criaram a sua organização asiática para não incluir os Estados Unidos. Os Estados Unidos criaram uma para não ter a China e depois saíram e os asiáticos ficando órfãos, os Estados Unidos acabaram por ingressar numa coisa semelhante feita por chineses. Portanto, aí os americanos terão que também criar alguma coisa e reconstituir essas relações, que são muito importantes pra balança de segurança, pra balança econômica, pra o investimento e também pro futuro das tecnologias e quem vai comandar as tecnologias nesse período de rivalidade estratégica de longo prazo entre Estados Unidos e China.
Bem, nós temos que terminar por aqui hoje mais este "Conversas à Quinta". Regressamos na próxima semana e quem escuta na rádio, regressamos num novo horário a seguir ao noticiário das 11 da manhã. Até pra semana com um novo tema.