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Raiva, tristeza, vergonha e nojo. Ora explicar emoções aos miúdos não é uma tarefa fácil, mas é essencial, diria. E para dar uma ajuda a Catarina Raminhos, mãe de três meninas e também a mãe e professora Ana Mota Veiga, criaram o "Diário das Emoções", que já está nos locais habituais. Se o ontem chegou ontem às livrarias, a Catarina e a Ana são as nossas convidadas de hoje. Bem-vindas. Obrigada pela disponibilidade.
Boa tarde.
Olá, boa tarde.
Catarina, é curioso, nós falávamos aqui com uma professora da Faculdade de Psicologia, da Universidade de Coimbra, que nos dizia precisamente que a Covid-19, se calhar, como nunca antes, nos pôs a falar sobre a saúde mental. Foi também sobre isso que vocês pensaram, que acharam que fazia sentido criar este diário, porque é engraçado, nós falamos muito pouco de emoções enquanto adultos, isto em crianças então é ainda pior, não é? Foi para sensibilizar isto que criaram este diário?
Olha, por acaso, é até muito engraçada esta história. Nós terminamos de escrever um livro no final de janeiro, portanto, ainda não sonhávamos com uma quarentena. Mas depois de terminarmos o diário, percebemos, quando chegou o confinamento, que iria ser uma ferramenta ainda mais útil para os pais, para os educadores, para os professores também. Mas, na verdade, a ideia já existia antes. Era uma ideia da Ana, que quando saiu o meu primeiro livro, que é a "A Menina que Imagina as Cores", como tinha muito a ver com as emoções e as cores, me convidou para escrever um livro com ela. Portanto, depois escrevemos isto a quatro mãos.
Exatamente, ainda antes da pandemia.
Sim.
Mas vem dar, de facto, uma ajuda muito importante agora também nesta fase. Como é que está a ser a adaptação também dos vossos miúdos a este regresso à escola? Como é que está a ser?
Olha, ainda a meio gás, porque eu tenho três, as duas mais novas já regressaram, a mais velha ainda não, e não tenho qualquer informação do dia, de como é que as coisas vão acontecer.
Vai para o quinto ano, não é, a Maria Rita? Ainda por cima é um início de ciclo.
Sim, é um início de ciclo, vai haver muitas mudanças e nós não sabemos de nada. Mas voltando aqui um bocadinho atrás, como dizias há pouco, nós de facto acreditamos que este livro é mesmo uma ferramenta incrível, porque percebemos em adultos aquilo que nos trouxe o facto de não falarmos das emoções, não exteriorizarmos. E então procuramos criar esta ferramenta para que os miúdos, desde muito pequeninos, porque o livro é a partir dos sete, de forma autónoma, quer dizer, com a ajuda dos pais, pode ser um bocadinho antes, mas eles próprios irem exteriorizando o que sentem para que as emoções não sejam um assunto tão tabu. Não é isso, Ana?
A ideia é: eu tenho dois filhos, um com 23 e outro com 25. O tema das emoções foi sempre algo que eu e os meus filhos, no dia a dia, falávamos sobre sem tabus. E eu percebi claramente, também percebi comigo quando era criança e jovem, e agora, adulta, que as emoções condicionam o nosso bem-estar físico e mental e a nossa disponibilidade para desfrutar da vida e para viver sem medos. Portanto, para tal, é preciso falar sobre as emoções, é preciso reconhecer que nós sentimos coisas ao longo do dia. Não estamos permanentemente felizes. Há momentos em que temos emoções que vão variando, e que isso faz parte e que devemos reconhecê-las, aceitá-las e perceber também o que motiva o que estamos a sentir. E nesse sentido, eu e a Catarina achamos que este diário é uma ferramenta fundamental para as crianças poderem registrar e refletir sozinhas e com os pais e talvez com os educadores e professores, como foi o seu dia a nível de emoções, o que sentiram, o que as preocupa. Portanto, é um caminho, é uma abertura para um caminho de conversa, de partilha e de conhecimento.
E o fato de perceberem também que não existem emoções boas nem más. Quer dizer, há emoções que nos transmitem sensações boas, mas todas elas têm a sua utilidade. Existem por alguma razão. Portanto, não há emoções boas nem más. E o fato de os miúdos aqui conhecerem muito bem cada uma das emoções, também achamos que os vai ajudar no caminho deles, vida afora.
A gerir tudo isso. É engraçado porque o Eduardo Sá assinou o prefácio deste diário e fala precisamente nisso. Se calhar, se conversássemos mais sobre tudo isto, não nos íamos perdendo tanto ao longo da vida. E é muito isso também, é ter essa compreensão daquilo que vamos sentindo ao longo do dia e, portanto, este diário, nós infelizmente estamos em rádio, não podemos mostrá-lo, mas tem aqui, de facto, esses locais onde os miúdos podem ir escrevendo aquilo que gostaram no dia, aquilo que não gostaram e depois ir partilhando com quem quiserem. É engraçado, porque eu estava aqui na redação em conversa com uma mãe, que achou muita graça vocês terem colocado o nojo.
Porque é uma das emoções das primárias, das mais básicas e que às vezes não se fala tanto.
É verdade
Todos os miúdos sentem isto.
O nojo e a aversão, que é aquilo que, por exemplo, nos impede de beber alguma coisa que seja perigosa para nós. Se nós temos aversão a uma coisa ou nojo, não vamos querer colocar-nos em perigo. Portanto, todas têm a sua função.
Claro. E como é a sua rotina aí por casa, Catarina, também nesta questão da partilha das emoções? Há alguma rotina que foram estabelecendo ou vão conversando sobre isto naturalmente?
Muito naturalmente. Nós os dois somos da geração de 80, portanto vimos de famílias em que não se comunicava muito e que eu fui percebendo ao longo do meu percurso que era muito frequente nas famílias dos anos 80. Não era bem um defeito, era mais uma característica. E então tínhamos esta coisa de: "Vamos falhar noutras coisas", porque toda a gente falha enquanto pais, enquanto educadores, mas não queríamos falhar na questão da comunicação. Era uma coisa muito importante para nós, era e é. E então desde que elas são muito pequeninas, que sempre fomos falando disto de forma muito natural. Perguntar como é que correu o dia, se houve alguma situação de que não gostaram. Por exemplo, a Maria Rita nunca gostava muito de falar das coisas dela, da escola, e então eu perguntava: "O que aconteceu que tu gostaste mais e tu gostaste menos no dia de hoje?" Que era uma forma de eu obter alguma informação. E fomos sempre falando, muitas vezes na hora de ler a história antes de dormir, porque as histórias também têm muito a ver com as emoções, normalmente. E então de forma muito natural fomos falando destas questões das emoções. E eu enquanto estava a escrever um livro com a Ana, lembrei-me muito das duas mais velhas e do que seria útil para elas também. Que tempo é que elas têm para preencher um diário, a nível do foco e da paciência, até. Porque os miúdos hoje em dia não conseguem estar concentrados muito tempo a fazer uma coisa. Portanto, tinha que ser um diário que se preenchesse facilmente, que não lhes levasse muito tempo. E ao mesmo tempo, uma coisa que a Ana me disse desde o início e que faz todo o sentido, que é: fala-se muito em hábitos de leitura no nosso país, mas não se fala muito em hábitos de escrita. E nós acreditamos que preencher, nem que seja durante cinco minutos, uma página de um diário, pode incutir este gosto também pela escrita, por comunicar, por exteriorizar aquilo que se sente. Eram coisas que eu já fazia cá em casa, no fundo.
A Ana é professora de Português em contexto de sala de aula. Os professores têm esse papel, não é? Eles vão às vezes expressando coisas na escola que não expressam em casa.
Sim, enquanto mãe, eu assisti aos meus filhos sempre que estavam tristes, por exemplo, a parte acadêmica ficava comprometida de alguma forma e na sala de aula, percebe-se que por detrás de um comportamento desajustado, de uma rejeição para realizar uma tarefa, está muitas vezes o medo, está muitas vezes alguma situação que viveram em casa e que assistiram a algo que os marcou, a preocupação de falta de dinheiro, de desemprego, de muitas outras coisas que comprometem o bem-estar físico, mental e também comprometem a aprendizagem. E portanto, se nós trabalharmos as emoções e a saúde mental, se tratarmos do coração e do afeto, nós vamos conseguir, para já, pessoas mais saudáveis e felizes, e melhores alunos academicamente e com resultados mais satisfatórios. E isso traz também uma cada vez maior autoconfiança, portanto vão melhorando. Isto é uma pescadinha de rabo na boca. Não podemos querer ensinar e querer que haja aprendizagem de alunos que estão aterrorizados com algo que viveram ou que assistiram, que se sentem inseguros, que se sentem ansiosos. O ensino e as emoções estão completamente juntos, não se pode separar as duas coisas. E os professores têm muito essa preocupação. Muitas vezes, o currículo é tão extenso e temos tantas outras obrigatoriedades e nós próprios estamos com a nossa saúde, às vezes emocional, tão em baixo.
Frágil.
Que não conseguimos nem chegar a todos, nem chegar da maneira que deveríamos. E portanto, isto também ajuda os profissionais para terem a noção. E eles têm, mas às vezes esquecemos. Até com os nossos filhos, nós às vezes nos esquecemos.
E há coisas engraçadas, estávamos aqui a falar desse reforço, desse estímulo positivo. Há coisas muito pequeninas que podem fazer a diferença e que se forem incutidas desde muito pequeninos, de facto, o impacto é grande. Eu estava aqui a ver, por exemplo, na página em que vocês falam dos superpoderes das palavras. Às vezes, trocar a formulação com que explicamos algumas coisas pode fazer toda a diferença.
Exatamente.
Faz toda a diferença.
Em vez de dizer: "Eu não sou capaz", é: "Eu ainda não sou capaz". Ou "Isto é impossível", trocar por: "Isto é muito difícil".
Ou "Eu errei", "Afinal descobri que não se faz, é assim". Ter esse lado sempre positivo nos desafios.
Sim. É uma prática que pode fazer também diária, jogos em casa com as famílias. Eu fazia muito com os meus filhos, era proibida a palavra não e era um desafio que nós tínhamos desde que chegávamos da escola até, por exemplo, à hora de jantar. E tínhamos que arranjar outras formas de reformular a frase, de tentar fazer as coisas de outra forma, porque é tão fácil dizer um não. E se nós começarmos a fazer estes desafios, vamos começando a ter outra atitude. Nós também falamos disso, que é possível, nós também temos na nossa mão a possibilidade de mudar algumas coisas. Nós não estamos reféns do exterior, pura e simplesmente. Nós também podemos e devemos fazer algo para mudar o rumo daquilo que achamos que às vezes é uma tragédia que está a aproximar ou que nos vai acontecer. E, portanto, eu acho que o livro é mesmo muito interessante nesse sentido.
Eu acho que há muitos pais que também se vão entreter aqui a preencher estas páginas, parece-me. Se calhar é um exercício que nós também precisávamos.
Estava a comentar com a Ana que tenho recebido algumas mensagens de pessoas que já têm o livro, porque também já esteve em pré-venda online e vão recebendo em casa e já recebi várias mensagens das pessoas a dizer: "Quando é que fazem um para crescidos?" Porque eu acho que a quarentena nos trouxe esta necessidade a todos.
Exatamente, falar sobre isto, de escrever sobre isto, de ir verbalizando. E, portanto, fica também esse pedido. Da minha parte gostava muito. A Catarina Ramires e a Ana Mota Veiga criaram este diário das emoções para os mais pequenos a partir dos sete anos, não é assim?
Sim.
Exatamente, está nas livrarias. Ana e Catarina foram as nossas convidadas de hoje. Obrigada, até à próxima.
Obrigada, vão ter connosco.
Obrigada.
Sim, é verdade. Ainda temos esse dado, porque no sábado a Catarina e a Ana vão estar na Feira do Livro em Lisboa. Bem lembrado. Vão estar às 16h30, portanto pode ir até lá, fica esse convite. Catarina e Ana, obrigada.
Muito obrigada, beijinhos.
Obrigada.
Obrigada. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.