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Hoje estamos à conversa com a atriz Rita Blanco. Rita, bem-vinda.
Olá, como estão?
Muito bem, obrigada. É a primeira vez na Rádio Observador, não é? Tenho ideia.
É.
Muito bem. Então, bem-vinda.
E não sei se não será a última.
Não, esperemos que não. Nós é que somos muito recentes, portanto, ainda não tínhamos tido esta oportunidade. Rita, já vamos falar um pouquinho sobre o futuro, mas eu gostava de lhe perguntar como é que estão a ser estes dias, como é que foram estes dias de confinamento. É engraçado porque, a preparar esta entrevista, eu estive aqui a recordar uma entrevista que deu à RTP em dezembro de 2019 e que dizia que o maior luxo era ter tempo. Conseguiu ter? Conseguiu aproveitá-lo?
Consegui aproveitá-lo imenso. É evidente que não pelas melhores razões, mas eu sou, apesar de tudo, uma privilegiada e, portanto, a coisa deu-se com serenidade. Infelizmente, para a grande maioria da população mundial não foi assim e, portanto, claro que há sempre um peso em cima de todos nós, porque não somos alheios ao sofrimento.
Claro que sim. Não foi por um motivo feliz, mas enfim, todos nós estivemos aqui algum tempo. Como é que foi em relação ao trabalho? Teve muitos planos adiados, muitos trabalhos adiados?
Tivemos. Nós íamos começar a filmar o filme do João Canijo, coisa que não pode acontecer. Vamos ver se agora em janeiro começamos a filmar, mas estas coisas são todas complicadas de gerir e de prever. No entanto, como sabe, a cultura em Portugal é muitíssimo bem tratada. O Estado português sempre respeitou imenso os artistas e, portanto, como deve calcular, nós somos os únicos que estamos em ótimas condições. Isto é uma ironia, porque, na verdade, um ator que deixe de ter trabalho, deixa de poder comer. Até porque nós nem sequer temos subsídios de desemprego, enfim, não temos nenhumas alternativas. Mas, como deve calcular, há muitos atores ou muitos artistas, eu estou a falar de atores, mas estamos a falar de uma classe artística que está realmente em maus lençóis. Outras pessoas estarão também. Há muita gente desempregada, o que nos leva a acreditar que alguma coisa está errada neste sistema.
Rita, mas este-
Olha eu no Observador a dizer isto.
Rita, mas para percebermos, isto também acabou por juntar um pouquinho mais ou não esta classe dos atores, dos músicos, dos artistas, toda a gente que está à volta deste espetáculo.
Deixem o pessoal ir rir um pouquinho. Volto já.
Não juntou.
Não é assim que funciona, obviamente. E as pessoas, como é que se podem juntar? Enfim, claro que as pessoas quando precisam de lutar pelos seus direitos, eventualmente podem juntar-se, mas, como sabe, os sindicatos, toda essa importância que tinha lutar pelos direitos, está muito desmaiada. E, portanto, continuo a dizer, este sistema não está a favorecer as pessoas e há cada vez muito poucas pessoas ricas, muito ricas, e muita gente em muito más condições. Logo, há uma coisa que está muito errada aqui.
Rita, e como é que se pode mudar isso?
Deixe-me só dizer mais uma coisa, que é: como é óbvio, a única coisa que continua a contar, como chegamos agora à conclusão, bem, já estava mais do que concluído, mas enfim, é que só conta a economia. As pessoas não contam, as pessoas não têm importância nenhuma numa sociedade como a nossa.
E se calhar tornou-se mais evidente agora também. Rita Blanco, há dias em entrevista ao Público, o Miguel Guilherme dizia que a ministra da Cultura, Graça Fonseca, está a ocupar um cargo de que não gosta e para o qual não tem vocação. Qual é a sua perspectiva?
Bom, eu também já dei entrevistas em que disse isso, se calhar de uma maneira até um bocado mais agressiva, eventualmente, mas de facto as pessoas têm que ter brio naquilo que fazem e têm que saber o que estão a fazer. Provavelmente não é esta a área. Provavelmente não, claro que não é esta a área dela, e na área da cultura tem que estar alguém que esteja ligado à cultura para poder perceber toda a constituição do que isto é. Não era constituição que queria dizer, mas agora passa. E, portanto, obviamente, esta senhora não tem feito nada desde as suas observações que, enfim, seriam o menor dos males, porque se ela fizesse observações muito infelizes, que faz constantemente, mas que depois, na prática, resultassem em boas políticas culturais, isso seria extraordinário. Não é verdade. Ela tem saídas desde o primeiro dia muito infelizes e depois também não tem práticas que tenham qualquer espécie de interesse para a classe cultural. No entanto, é uma pessoa, pelos vistos, muito importante para o primeiro-ministro e pergunto-me se o primeiro-ministro, como todos os outros primeiros-ministros até agora, também tem um desinteresse total pela cultura. Obviamente, tem.
Rita, vamos falar um pouquinho também aqui desta iniciativa da Academia Portuguesa de Cinema, que começa amanhã, chama-se Passaporte 20.
Não me diga.
E traz todos os anos vários nomes muito fortes da indústria cinematográfica. A Rita faz parte do painel escolhido deste Passaporte 20, da edição deste ano. O que nos pode contar sobre tudo isto?
Não posso contar nada a não ser que preparei um texto, que é uma coisa que não me é muito habitual. Enfim, eu preparo textos, obviamente, mas venho de uma época em que havia poucos castings, não se faziam esse tipo de coisas, sobretudo em Portugal, e portanto não sou assim tão habituada aos castings. Fico sempre perturbada, porque acho que é muito pouco tempo para uma pessoa mostrar o que vale e os nervos, enfim, as coisas todas. Mas eu preparei um texto e agora o que eu espero disto é que haja encontros que possam ser interessantes. Vai ser bom também estar perto dos colegas, porque sempre que há situações em que nós nos juntamos é importante, podem acontecer coisas daí. É isto que eu espero.
Sendo para quem não está a ouvir e não conhece a iniciativa, há vários diretores de casting que vão estar em Portugal. Portanto, isto é uma iniciativa de promoção também dos atores nacionais. É engraçado, em 2018 dizia ao Diário de Notícias que nunca lhe passou pela cabeça fazer uma carreira lá fora. E por quê, Rita?
Olhe, eu já fiz vários filmes lá fora, como eventualmente saberá. Mas uma carreira lá fora é uma coisa que me distanciaría muito daquilo que é muito importante para mim, desde a minha família, ao meu país, à minha maneira de representar, porque eu gosto de representar em português e sobre o ser português. Portanto, teria talvez pouco interesse para mim. Claro que há realizadores com quem eu gostaria de trabalhar, infelizmente estão quase todos mortos, portanto com alguns já não vai ser possível.
E dos que estão vivos, com quais é que gostaria de trabalhar, Rita?
Não sei. Sabe uma coisa? Eu acho que isto é muito comum. Por exemplo, eu adoraria trabalhar com o Ken Loach, mas obviamente o Ken Loach não me conhece de lado nenhum e dificilmente isso poderia acontecer. Mas também vivo muito bem em não trabalhar e me limitar a ver os filmes dele, para mim já será um enorme gosto e uma aprendizagem. Portanto, é assim, trabalhar lá fora para mim é complicado. E agora diz-me: "Então por que é que faz o passaporte?" Porque às vezes há encontros que podem ser muito interessantes e, eventualmente, se alguém estiver interessado em mim e eu também estiver interessada, pode ser muito engraçado e são sempre desafios. E para mim foi engraçado pensar: "Olha, vou fazer uma coisa que normalmente não faria." E pronto, foi um pequeno desafio que eu fiz a mim própria, porque talvez tenha sido a minha filha que me disse: "Mas faz!" "Está bem, filha, vou fazer."
Então e que desafio é que espera que lhe venha deste projeto? Alguma ideia que possa vir daí ou é só a expectativa que possa surgir alguma coisa?
Sabe uma coisa? Eu, por dizer um dispararte, provavelmente, não tenho expectativas relativamente a nada, até porque por mim seria uma prova de estupidez. Mas não é por achar que não vai acontecer nada, é só porque a expectativa é partir de um princípio que eu não quero partir. Eu quero ser surpreendida e, portanto, eventualmente podem acontecer coisas ou não, e vai sempre valer a pena, porque é uma experiência.
E nos próximos tempos, Rita já nos falou desse filme do João Canijo, que espera começar a rodar em janeiro. E que mais? Há aqui também o projeto de uma novela para a SIC.
Sim, vou fazer já, vou começar agora. É uma novela que vai arrancar agora no fim de outubro e onde eu vou participar. Depois vou para o filme do João Canijo. Não sei se já posso falar dos outros projetos, mas eventualmente vou fazer uma peça de teatro com uma pessoa que me convidou há muito pouco tempo e que me cabe ser imenso. Somos só dois atores. E também um outro filme em que vou participar também no guião. É um processo muito engraçado, é uma pessoa nova que eu não conhecia de lado nenhum. Está a ver? Acontecem coisas muito engraçadas na vida às pessoas.
Tem sido também assim um bocadinho a sua carreira, Rita, cheia de sorte com esses acasos felizes também?
Sim.
É muito isso. E como é voltar a gravar novamente neste contexto de Covid? Nós aqui ao longo deste tempo fomos falando também com vários atores que nos falavam às vezes dessa resistência a cenas mais próximas. Como é que tem sido?
É assim, para já o próximo filme que eu vou fazer, a novela não, vamos ver como é que as coisas vão evoluir, porque é óbvio, nós somos testados todas as semanas, as equipes são sempre protegidas, só os atores é que quando vão gravar, não estão. Mas há também algumas restrições que não existiam. E portanto, vamos ver como é que as coisas correm. E depois o filme do João Canijo, como é um filme passado só num décor, eventualmente nós vamos ficar lá fechados três meses sem podermos contactar, porque isso poria em risco. Imagine-se, se alguém ficasse de repente contaminado, põe o filme todo em risco.
Claro.
É muito complicado isto. Temos que inventar novas maneiras, a vida é assim.
E a vida de ator tem essa situação, que é no palco, nos decors, que é o contacto, o toque com as pessoas. Isso vai deixar de se poder fazer, pelo menos nos tempos mais próximos. É complicado atuar sem isso.
Como é que vamos dar a volta a isso? Os atores fazem saltos mortais constantemente. Estão habituados a adaptarem-se. Aliás, a profissão é isso, é uma adaptação às personagens, aos sítios, aos outros, às contracenas, aos encenadores, aos realizadores. Portanto, nós estamos habituados a adaptar-nos e vamos com certeza encontrar maneiras de podermos surpreender e fazer o público pensar nas coisas. Que é essa a ideia de ser ator, acho eu.
O que sente mais saudades nesta altura? Do público, ou seja, de estar em palco e sentir ali a proximidade do público, ou das câmaras e das filmagens?
De ser atriz, porque sabe, eu tenho um medo do público muito fino. Quando sinto o público lá, há uma grande excitação, mas é sempre uma linha muito ténue entre o terror e o prazer.
É um prazer enorme quando se ouve os aplausos.
Sim, quando corre menos mal, quando corre bem, é bestial. Mas eu tenho imenso medo do público e, portanto, para mim é mais fácil filmar. E tenho saudades de trabalhar. Tenho muitas saudades de trabalhar, de contracenar com outros atores, de trabalhar e pensar as coisas. Temos sempre saudades disso.
E está quase. A atriz Rita Blanco foi a nossa convidada de hoje. Rita, foi um gosto falar consigo. Muito obrigada.
Igualmente, obrigada.
Até à próxima. Obrigada. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!