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A nossa convidada de hoje toca um dos instrumentos mais antigos da história. Já existia na Mesopotâmia 3500 anos antes de Cristo e é comum também encontrá-lo representado em figuras do antigo Egito. A Carolina Coimbra toca harpa, é harpista, e está na tarde, em direto, na sua estreia na rádio. Carolina, bem-vinda.

Bem-vinda, Carolina.

Obrigada.

Carolina, a harpa, nós à partida achamos que é um instrumento um bocadinho fora do vulgar. Como é que surgiu este seu interesse?

Eu comecei, na verdade, com o piano. Comecei a estudar piano aos seis anos, tudo por influência, principalmente do meu pai e do meu irmão. O meu pai não é músico, mas tem uma grande paixão pela música e acho que foi ele que nos transmitiu isso. O meu irmão começou a estudar piano, também ele, e depois eu quis ir atrás dele. Comecei com piano aos seis anos, depois aos sete fui pro conservatório de Gaia e na altura a professora com quem fiquei de piano também dava aulas de harpa, que era a professora Ana Paula Miranda.

E, portanto, ficou mais seduzida com as cordas.

Fiquei completamente seduzida com as cordas, mas na verdade, até aos 14 anos, eu continuei com os dois instrumentos e foi uma decisão difícil na altura, também era nova. Tive que acabar por decidir por um dos instrumentos, porque não dava.

Decidiu por aquele que era mais fácil transportar.

Exato. Não, essa é a parte chata da harpa.

O piano é difícil. Como é que se leva uma harpa, Carolina?

Bem, na verdade...

Vai desmanchada, não é?

Não. Eu já estou habituada. É complicado no sentido que preciso sempre de alguém que me ajude, mas só preciso de um carro grande, de baixar os bancos todos e depois pôr uma proteção bastante boa.

Mas deve pesar ainda, ou não?

Pesa à volta dos 40 quilos. Mas nem é bem o peso, é mais o jeito, às vezes, de pegar.

É preciso também ter muito cuidado. Falava aqui dos cuidados com o transporte. Mas a Carolina toca harpa sinfônica?

É harpa de concerto. A harpa, como estava a dizer, é um dos instrumentos mais antigos. Começou por ser como uma lira, pequenina, com poucas cordas. E hoje em dia a harpa céltica, que é uma evolução dessas, que é uma harpa que não tem pedais e tem menos cordas, que é usada principalmente pra música irlandesa e também é usada em termos pedagógicos pras crianças, porque é uma harpa mais pequenina.

Mais pequenina.

Mas a outra harpa tem pedais.

Tem pedais, exatamente. Nós temos a harpa de concerto, tem sete pedais, 47 cordas e cada pedal tem três posições.

E são três escalas, não?

Não, os pedais servem pra fazer os bemóis e os sustenidos, ou seja, as teclas pretas do piano.

Exatamente.

Exato. Ou seja, nós temos que usar os pés e as mãos, no fundo.

Tudo ao mesmo tempo. Eu confesso, eu estive a ver vídeos da Carolina a tocar e eu nunca tinha reparado que é precisa aquela destreza toda.

É preciso muita coordenação.

E concentração também, não é?

Também, sim. É um instrumento que requer muitas horas de estudo, porque leva sempre muito tempo até termos tudo assimilado.

E quantas horas, mais ou menos? A Carolina já toca há 20 anos, não é verdade?

Exatamente.

Tem 27. Começou a tocar-- fez ontem? Parabéns, Carolina. Estreia na rádio, fez ontem anos. Parabéns, Carolina. Faz muitas horas, treina muitas horas por dia?

Sim, é preciso. A minha vida mudou um bocadinho, que agora tenho um filho, mas continuo sempre a estudar bastante, à volta das 16h, 17h, 18h. Depende também se estou a preparar um recital, preciso de mais horas, obviamente, e podem ir pra 18h, 19h.

E dá pra tocar tudo na harpa, ou não?

O que é tudo?

Sei lá. Eu vi aí a dançar enquanto ouvíamos há pouco Chic César.

Algumas limitações pelo fato de nós termos estes pedais, por exemplo, pra os compositores é sempre um instrumento bicho de sete cabeças pra escrever pra nós, porque nós lemos como o piano, ou seja, temos duas pautas, mas há sim algumas limitações, por causa dos pedais, é preciso saber.

Mas estava a dizer que os compositores têm dificuldade.

Têm, sim.

Conhecem mal o instrumento.

Sim, é um instrumento que, se calhar, como é menos tocado, e depois pensam muitas vezes que é como o piano, porque realmente a escrita é igual, só que é preciso conhecer um bocadinho mais.

Porque no fundo estamos a falar do piano e da harpa, corrijam se eu estiver enganado, estamos a falar de dois instrumentos de cordas.

Sim, ou seja, um é corda beliscada, que é o caso da harpa, e o outro é-

Tem o martelo.

Exatamente, sim.

Que toca. E por isso encontra semelhanças entre os dois.

E apesar de ter estudado piano, acho que há mesmo muitas semelhanças entre os dois instrumentos, a nível mental e também a nível de leitura, porque temos duas pautas.

E é preciso muita força pra tocar, não é? Nós associamos a harpa a uma leveza.

Não é propriamente força. Acho que até força pode levar a criarmos tensões, que é sempre o nosso problema. Estamos sempre atentas, por exemplo, pra não termos tendinites, que é uma coisa muito comum, infelizmente. Eu acho que não é propriamente força, é trabalhar no fundo os nossos músculos pequeninos dos dedos, mas não propriamente pensar em força, que isso faz mal.

E a harpa está encostada no corpo, ou está...?

Sim, a harpa está apoiada nos joelhos.

Nos joelhos.

Sim, e ligeiramente no nosso ombro direito, mas principalmente nos joelhos. Se tivermos demasiado no nosso ombro direito, podemos criar tensões nas costas.

Mas só quando vai tocar, obviamente.

Sim, só quando toco. Quando não tocamos está pousada.

Senão não aguentava um concerto, senão não aguentava uma sinfonia.

Mas ela não é muito pesada quando estamos a tocar.

É que parece tão pesada.

Não, não é.

Mas Carolina, falando um bocadinho do seu percurso, esteve a estudar no estrangeiro.

Exatamente.

Esteve em Zurique e em Milão.

Exatamente. Estive cinco anos em Zurique e depois dois anos em Milão.

E isso acabou por acontecer porque não existia formação suficiente em Portugal ou foi uma vontade sua também ir lá pra fora?

Aos 18 anos, eu acabei o conservatório e na altura em Portugal só havia o ensino superior em Lisboa Eu tive que escolher. Experimentei fazer as provas em Zurique, entrei e as condições lá eram muito boas, a professora também era bastante conhecida e eu decidi arriscar ir para fora.

São muito diferentes as condições entre Lisboa e Zurique?

Para um músico, eu acho que sim. Eu vivi cinco anos lá. Eu acho que em Portugal o mundo da música está a crescer, há cada vez mais jovens, jovens com muito talento, se vocês forem ver, há imensos resultados. Mas em Zurique, o que eu vivi um bocadinho é que acho que a população, o que nos envolve, estão muito a par do que nós fazemos. Por exemplo, os concertos são sempre cheios. Nesse aspecto é um bocadinho diferente.

E aqui é difícil encher as salas?

Aqui, às vezes. Eu acho que está a crescer, como estava a dizer, por exemplo, agora estas últimas duas temporadas da Gulbenkian, principalmente esta última, teve imenso sucesso, tem estado bastante cheio, mas acho que ainda falta um bocadinho esse lado.

E é o quê? É uma resistência à música clássica?

Não sei.

Há pouco tempo tivemos conosco aqui o Martim Sousa Tavares, que é maestro e que se mostrou, eu vou dizer, um bocadinho irritado com a solenidade da música clássica e da sala de concertos, que impede as pessoas de aplaudir, de tossir, de se expressar. Acha que seria aconselhável dessacralizar um pouco a sala de concerto, ou não? Ou que tenha outra corrente?

Eu, como músico, vejo o momento da performance é um momento de muita concentração. Nós dedicamos horas da nossa vida para aquilo. Por isso, para mim também incomoda um bocadinho estar a tocar e, se calhar, estar a tocar um telemóvel. Acho que na música clássica e no que nós fazemos, pode desestabilizar um bocadinho.

Porque a ideia é que existe uma certa rigidez, que é diferente do respeito que se tem por quem está em palco e pela música clássica, mas que existe uma rigidez à volta da música clássica e que isso possivelmente não fará muito sentido, porque às vezes achamos que é uma coisa um bocadinho inacessível. Portanto, sem tirar a parte do respeito, obviamente, por quem está a fazer aquele trabalho, acha que existe esse lado que acaba por dificultar o acesso ou a compreensão de alguns de nós à música clássica, ou acha que até é necessário?

Eu acho que é um pouco necessário, sim, porque acho que é um pouco esse respeito, como estava a falar. E eu acho também que o público, se forem pessoas que acabam por estar dentro da música clássica também, vão acabar por perceber esse ponto. Mas eu não acho que temos que fazer disso...

E Carolina, nós estamos habituadas a ver, e se calhar esta é uma ideia completamente errada, mais mulheres a tocar harpa do que homens.

Sim, há mais mulheres, é verdade, mas também a verdade é que os homens que há são normalmente muito bons. Acho que tem a ver com a parte física, têm uma mão maior, logo vão ter também um som maior. Aliás, os grandes harpistas, a maior parte foram homens.

Explique-me lá essa da mão maior e do som melhor.

Bem, isso é um bocadinho a minha conclusão, mas acho que os outros harpistas também pensam assim. Têm uma mão maior, têm dedos maiores.

Conseguem chegar mais longe?

Com 47 cordas, eu imagino.

Acho que tem a ver um pouco com a força, vamos usar esta palavra, que conseguem tirar das cordas.

E assim ter um som mais forte, é isso?

Exato, mais volumoso, digamos, sim.

E Carolina, vamos retomar esta conversa já a seguir. A Carolina Coimbra, harpista, é a convidada da tarde em direto, uma estreia também na rádio. Vamos retomar esta conversa já a seguir. Porque para já, olhando para o nosso relógio, estamos a 15 minutos das 8 pm. Ricardo Conceição, quais são as notícias a marcar a atualidade?

Importa fazer aqui um ponto de situação em relação aos incêndios. Há um bombeiro que ficou ferido no incêndio em Silves, com queimaduras. Foi tratado no terreno, segundo o CDOS de Faro, e foi depois transportado para uma unidade de saúde, para o hospital em Portimão. Este incêndio em São Bartolomeu de Messines mobiliza nesta hora praticamente 300 operacionais que estão colocados no terreno, que estão a ser apoiados por oito meios aéreos, sete aviões e um helicóptero. O combate ao incêndio está a ser dificultado, sobretudo pelo vento forte. Há também um incêndio de grandes dimensões no Conselho do Fundão, distrito de Castelo Branco. Ali são 280 os operacionais no terreno, estão apoiados por sete aviões e três helicópteros. Há uma estrada cortada, a Estrada Nacional 346, perto da povoação de Vales, Viseu. Aqui, neste incêndio do Fundão, não foi necessário proceder a qualquer tipo de evacuação. Esta tarde tivemos em direto na Rádio Observador o ministro da Agricultura. Diz que há 1 milhão de euros para ajudar os agricultores afetados na zona centro pelos incêndios do início desta semana. Estamos a falar dos conselhos de Vila de Rei, Sertã, Mação. As candidaturas podem ser apresentadas a partir do dia 15 de setembro. Na entrevista ao Observador, o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, revelava que são 400 os agricultores afetados pelo incêndio do fim de semana passado. Capoulas Santos, que não quis comentar a polêmica do momento, os kits da Proteção Civil, uma notícia que o Observador avançou esta madrugada. Nos kits distribuídos pelas aldeias no âmbito do programa Aldeia Segura, há pelo menos uma gola, uma espécie de lenço que é altamente inflamável. Há já alguns autarcas, como o presidente da Câmara de Sintra, a dizer que vai substituir os kits Aldeia Segura, diz que não tinha conhecimento que aquele material fosse inflamável.

As notícias com Ricardo Conceição. Temos uma nova edição às 20h em ponto. Amanhã há chuva prevista em todo o país, só escapa a região do Algarve. As temperaturas também descem ligeiramente. Amanhã o Porto terá máxima de 23 °C, Lisboa e Faro chegam aos 25 °C. Melhorias só mesmo no domingo.

Rádio Observador, aconteça o que acontecer.

Estamos por aqui à conversa com a Carolina Coimbra, harpista e convidada da tarde em direto. Carolina, há pouco explicava-nos o seu percurso, que passou muito pelo estrangeiro. Colabora em regime freelancer com várias orquestras. Como é que isso funciona?

No fundo, vão-me chamando. Neste momento, já me chamaram da Gulbenkian pra próxima temporada, já sei que estarei com eles, mas também vou tocando com a Orquestra Sinfônica Portuguesa quando eles precisam, ou com a Orquestra Metropolitana.

Não há harpistas fixos nessas orquestras?

Infelizmente, a não ser a Orquestra Sinfônica Portuguesa, não tem um lugar fixo.

Por quê? Porque não são tão necessários para tantas peças, é isso?

São muito necessários, na minha opinião.

Claro, Carolina.

Mas é assim.

Mas lá fora também é assim?

Não, normalmente nas orquestras têm uma ou duas harpistas. Lá fora é quase sempre assim, pelo menos uma. E depois as orquestras de ópera, normalmente duas, que é normalmente onde tem mais.

Porque por cá está dependente um pouco das temporadas, das peças que vão ser tocadas.

Exatamente.

E é contratada por temporada?

Sim, neste caso, por temporada.

Para a Gulbenkian, por exemplo.

Sim, mas nas outras é conforme eles vão precisando.

Portanto, é uma vida um pouco precária.

Sim, às vezes não sei muito bem o que vou fazer no próximo mês ou surgem coisas de repente. Por exemplo, para o ano já sei, tenho mais ou menos orientado.

Portanto, vai planejando a sua vida quase anualmente, não é verdade?

Sim, isso já é bom, se for anualmente.

E já pensou sair, ir para o estrangeiro? Agora tem um bebê, é mais difícil, se calhar, não é?

Sim. Nós, como músicos, vão havendo sempre audições. Infelizmente, para o nosso instrumento não há muitas, porque os violinos são muito mais. Há muito mais audições, mais lugares em orquestras. Nós, como estava a dizer, há um lugar numa orquestra ou dois.

E violinos há para aí...

Também há mais gente a tocar. Também é difícil por causa disso. Mas eu vou sempre tentando, sempre que surge e que posso, porque neste último ano foi mais difícil ir ao estrangeiro, mas vou tentando.

É muito difícil ser músico.

É, um bocadinho.

Tem que ser a paixão.

Mas também há momentos que eu penso: "Ainda bem que eu escolhi isso". Há outros mais difíceis, principalmente da persistência, do estudo contínuo. No fundo, nós somos um bocadinho como os atletas, tem que haver sempre um treino. Eu gosto muito de comparar. Às vezes é mais fácil perceber o que nós fazemos assim.

É quase como um atleta de alta competição.

Exatamente.

Tem que treinar todos os dias.

Somos atletas de alta competição, é isso.

E tem alguma peça favorita?

Tenho, claro. Tenho várias.

Vou fazer outra pergunta, primeiro diga-nos lá qual é a sua favorita.

Posso vos dizer uma das minhas sinfonias preferidas, é a sinfonia número nove de Mahler. Aliás, Mahler em geral é um compositor que gosto muito, mas também gosto muito de Debussy.

Alguém mais calmo, não?

Sim, é diferente, é pessimismo.

Então e qual é aquela peça que a Carolina até treme só de pensar nela? Tem alguma? Algo que seja mesmo muito difícil de executar.

Muito difícil.

Não me diga que é o "Parabéns pra Você"?

Não. Há várias. Em orquestra, por exemplo, um dos excertos que normalmente também pedem nas audições, que acho que pra todas as harpistas é difícil, é a "Tzigane" de Ravel, em que temos uma cadência que dura, penso, 30, 40 segundos, mas superdifícil.

São muitas notas?

Sim, é muito rápido.

Ainda por cima em audições. É claro que como a pessoa está mais nervosa, torna-se mais complicado. A Carolina já nos falou também do tempo de treino, que é muito, seis horas, às vezes.

Sim.

Agora tem um filho, também começou por dizer. O que faz para além de tocar? O que é essencial na sua vida para além disso? Sei que o desporto também tem um lugar especial na sua vida.

Sim, ultimamente tem sido mais difícil, mas gosto bastante de ir correr, apesar de ultimamente ser mais difícil de conciliar. Mas neste momento, o meu maior hobby é estar com meu filho e com meu marido.

E ele já tem atenção aquilo que a mãe vai tocando em casa?

Tem, desde pequenino. Aliás, ele sabe muito bem o que é uma harpa, basta ver assim, pequenino, às vezes num lápis e ele gosta de dizer: "Harpa, harpa".

Já aponta, já identifica.

Sim.

E também adormece com a harpa ou não?

Agora já não dá. No início, só nos três meses dava.

Ele ainda caía em dormir.

Infelizmente, não.

Tocava pra ele.

Tocava e ele estava ao meu lado e dormia, era mais fácil nesse sentido. Agora, não, o que ele quer é subir por cima da harpa.

Bom, Carolina, pra terminarmos esta entrevista, eu já coloquei aqui um bocadinho em fundo. Não sei se consegue neste momento colocar os seus fones pra nos explicar exatamente aquilo que estamos a ouvir. Eu há pouco já fui pondo também em fundo.

Estamos aqui a ouvir um bocadinho de música.

Estou a ouvir.

Isto é o quê, exatamente, o que estamos a ouvir neste momento?

Esta peça chama-se "Pièce Symphonique" e é de Émile Reyer, que foi uma harpista e compositora muito importante na história da harpa. E é uma peça dela e esta gravação foi num concurso em Itália.

E é assim que vamos terminar esta nossa entrevista com a Carolina Coimbra, harpista. Carolina, muito obrigada pela sua disponibilidade e muito sucesso.

Obrigado, Carolina.

Obrigada. Muito feliz. Obrigada