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Hoje estamos à conversa com o compositor português Jaime Reis. Num curto espaço de tempo, teve dois discos publicados por duas das maiores editoras internacionais, uma austríaca e outra alemã, a Kairos e a Neos. É também diretor artístico do festival itinerante Dias da Música Eletroacústica e também do espaço cultural Lisboa em Comum. É professor da Escola Superior de Música de Lisboa, investigador do Instituto de Etnomusicologia. Jaime, bem-vindo e obrigada por estar conosco. Boa tarde.

Olá, boa tarde. Eu é que agradeço.

Muito bem-vindo.

Jaime, a música alimentou o espírito de muitos de nós durante estes períodos longos de confinamento. A si, na verdade, já o alimenta há bastante tempo na criação também.

Em muitos sentidos. Peço desculpa por interromper.

Não, faz mal. Em muitos e bons anos também. A música tem, de facto, esta capacidade, Jaime, de nos salvar muitas vezes. Como é que tem vivido este último ano?

Faz sentido a pergunta, porque se por um lado isto é o nosso cotidiano, a verdade é que, em particular, creio eu, para um compositor, pode tornar-se, e acabou por se tornar para mim também, um período frutuoso de intensa criação de novas peças. E isso é bom, é aquela boia que nos faz deixar à tona e não desesperar com outras coisas mais duras do mundo.

Sim, possivelmente muitos de nós, e que não estão ligados profissionalmente à música, fomos nos apercebendo disso também de uma forma, se calhar, mais concreta durante este período. A falta que nos faz, às vezes, ouvir um bocadinho de música, ouvir rádio, ter essa companhia. E Jaime, esta nossa entrevista tem muitos motivos de conversa. Eu há pouco na introdução já expliquei um bocadinho, discos, mas também o festival do qual é diretor artístico, que com tudo isto teve também que se reinventar, na verdade, e vocês estão a preparar um recital online que terá transmissão já este domingo.

É verdade, este domingo com o Luís Gomes e a Ana Teles. Finalmente podemos também recomeçar um pouco as atividades mesmo em streaming e é um programa com estreias e compositores portugueses, franceses, e é um refrescamento poder ouvir aqui o piano. Já durante os ensaios que temos ainda hoje, tivemos aqui o piano a fazer ressoar o bairro.

E, portanto, todas as informações sobre este festival, e para quem nos está a ouvir, são simples de aceder, o festival DME, portanto, Festival Itinerante Dias da Música Eletroacústica, para quem nos está a ouvir para poder também acompanhar. E estão ao mesmo tempo a organizar também uma escola de verão para compositores, com inscrições abertas até dia 4 de abril.

Sim, é uma escola de verão que decorrerá em julho para compositores que à partida esperamos, à semelhança de outras summer schools que já organizámos, que venham aqui portugueses e de outros lugares do mundo. Já tivemos alunos da China, dos Estados Unidos, da Austrália concomitantemente e agora esperemos que as pessoas já possam viajar, pelo menos aqui na Europa, e os portugueses, porque contamos com a colaboração, para além do meu trabalho como compositor, mas também de dois colegas que muito respeito, Mário Marí, que é argentino, mas vive em França há muitos anos e é professor no Mónaco, e o Valerio Sannicandro, que é italiano, mas vive entre Paris e Berlim, e também um grupo francês, o Collective Love Music, de Estrasburgo, que virá interpretar as peças dos compositores selecionados.

E já agora, em que é que consiste, afinal, uma escola de verão para compositores?

É uma boa pergunta. Esta escola de verão, naturalmente, os compositores têm aulas com outros compositores, o que à partida pode não parecer assim muito entusiasmante, mas esperamos poder contribuir com a nossa experiência e levá-los a fazer outras coisas, a repensar o seu trabalho. E tem um lado muito pragmático e, penso eu, mais revelador do que é a obra, que é a materialização das suas peças, ou seja, as peças são interpretadas pelo tal grupo, um grupo profissional só dedicado a este repertório, que tem algumas características que fazem com que seja difícil tocar, portanto, mesmo para quem tem treino, dentro das pessoas que já têm muitos anos de treino. Estes ainda têm mais anos de treino específico nesta área e, portanto, os compositores muitas vezes procuram pessoas que também tenham uma empatia por um repertório novo, que não tenham medo da novidade e que tenham essa capacidade, essas aptidões. E espero que seja isso também que os vai atrair.

E as inscrições estão abertas, como dizia, até dia 4 de abril. Jaime, vamos falar um bocadinho do seu trabalho no início destes dois discos que foram editados por estas editoras internacionais. Eu vou colocar aqui também em fundo um bocadinho das peças desses dois trabalhos. E queria lhe perguntar se continuar a ver o entusiasmo, o interesse internacional sem esmorecer durante este período, se tudo isto é bastante gratificante também, atingir este objetivo de chegar a estas editoras que no início referi.

Sim, é gratificante e é fruto de muito trabalho de muita gente. Nós normalmente temos esta coisa, que é verdade, são dois discos monográficos, que têm as minhas peças, mas têm excelentes intérpretes, têm o apoio de muitas instituições em Portugal e no estrangeiro e acabaram também por vir por convite de uma instituição estrangeira onde eu estive algum tempo em residência e onde compus uma peça que está em ambos os discos em versões diferentes. Que é o ZKM, Zentrum für Kunst und Medien, que é um centro na Alemanha onde se faz media art e coisas com vídeo e realidade virtual e claro, com som, com música, nomeadamente com os chamados sistemas que as pessoas chamam imersivos. Imaginemos que temos o público no centro e temos uma cúpula de som, ou seja, temos dezenas e dezenas de colunas de alto-falantes e o som é espacializado. Portanto, literalmente viaja em torno das pessoas em percursos como elipses ou rotações, ou até espirais. E é uma nova forma de ouvir, mas que requer estas tecnologias especiais que eles têm e que eu trabalhava já há algum tempo e que por isso é que surgiu o convite inicial.

Certo. Jaime, as suas inspirações, quais são? Eu li aqui numa entrevista que se vai inspirando também, por exemplo, muito naquilo que o envolve. Quais são as suas áreas de interesse? Sempre foi assim ou nem por isso? O seu trabalho sempre foi reflexo do seu cotidiano?

Eu vou ser honesto. Não sei, na rádio acho que temos este lado, não podemos pensar muito, vamos só dizer. E, portanto, há este lado que eu negava, há muitos anos negava isso, dizia que não, isso do cotidiano, a música é uma coisa séria, muito pensada, mas que hoje não tenho dúvida nenhuma. Portanto, todas estas influências que tenho e aqui nestes discos, por exemplo, há peças que estão relacionadas com a biologia ou com a aerodinâmica, com habilidades de voo, literalmente com voar. E são coisas que de algum modo fazem ou fizeram parte da minha vida no momento e que, portanto, são expressas, são ali materializadas na música.

E Jaime Reis, sente que é fácil, de alguma forma também comprovar essas experiências que vai tendo no cotidiano, colocá-las na sua música e depois explicar a quem ouve, que realmente aquilo que o influencia, aquilo que vai experienciando, aquilo que é o dia a dia, que está de alguma forma patente na música, ou seja, música eletroacústica, música que de alguma forma se possa chamar de um espectro mais abrangente, música contemporânea, que nem sempre chega ao grande público e nem sempre pode ser aceita da mesma forma por todas as pessoas. É perceptível que essas experiências estão todas na música ou é difícil, por vezes, explicar e fazer com que quem ouve possa também conseguir ter aqui também uma experiência semelhante?

É uma pergunta especial, porque se calhar eu creio que muitos compositores a colocaram ao longo de muitos séculos e nós não podíamos falar com eles e se calhar hoje já estamos mais familiarizados com a sua linguagem e, portanto, já responderíamos que sim. Mas se calhar na altura era mais difícil, dando um exemplo: será que um poema sinfônico, uma peça puramente orquestral, que não tem texto, mas que remete para um imaginário, ou se quiserem até dizer muitas vezes, e em concreto, uma história, um texto, será que realmente o texto está lá para quem ouve? Se calhar, se for explicado e se isso fizer realmente parte das intenções do compositor, eu diria que sim, que nós podemos seguir uma narrativa imaginada a partir de algo que é abstrato e que não é evidente numa primeira mão.

E quanto ao entendimento de um ouvinte em relação a uma peça do compositor Jaime Reis, o Jaime está à espera de ter um feedback de uma determinada forma ou de outra, ou fica, no fundo, ao encargo de cada um achar o que quer em relação a determinada composição?

Eu acho que fico muito contente quando as pessoas desenvolvem o seu pensamento crítico e têm o seu prazer estético per se, que brota da sua imaginação e tudo mais. Não obstante, na minha experiência, os ouvintes, quanto mais ouvem e mais compositores e mais música, nomeadamente numa determinada área, mais aprofundam, a sua experiência estética também é elevada. Elevada no sentido não é da música ser melhor ou pior, não se trata disso, mas de uma pessoa ter uma compreensão da música diferente. Eu diria que não é assim tão diferente, por exemplo, quando escutamos música até de outras práticas, se ouvirmos, sei lá, o gagaku japonês, por exemplo, que é uma música tradicional da corte imperial japonesa, se não soubermos o que é ou se soubermos, eu acho que fruímos de ambas as formas, podemos fruir dela. Eu tendo a achar que é interessante a segunda, em que descobrimos e sabemos mais, e aprendemos, e reescutamos, que é uma característica, aliás, da música em disco e do século XX, em que podemos ouvir algo complicado, se quiserem dizer assim, estranho, mas podemos ouvir muitas vezes. E esse estranho perde um pouco o inusitado e de algum modo permite uma fruição diferente, uma compreensão.

Exatamente, aumenta a nossa compreensão também. Jaime Reis, li algures que o seu processo criativo é sempre demorado, porque as ideias são sempre muitas. Tem muitas ideias neste momento, no que está a trabalhar neste momento? Que nos possa contar.

Tenho muitas ideias, mas sim, é algo normalmente demoroso. Sei lá, estou a trabalhar em coisas que espero ter terminadas daqui a anos e faço sempre planos a vários anos, às vezes a décadas, e vou cumprindo. Algumas destas peças que aqui temos são fruto de um trabalho que já vem realmente há, nalguns casos, seis anos ou sete, digamos, quase quotidianamente. Neste momento estou um bocadinho mais terra a terra, vou confessar, para cumprir com as ideias que já prometi a outros grupos que queria materializar, que ia compor, ou seja, as encomendas que têm prazo e as pessoas precisam de as estrear. E temos uma série de peças novas, inclusivamente, por exemplo, uma peça para crianças, uma peça com música eletrónica também, ou uma peça inspirada na música, de algum modo, do Astor Piazzolla, que é algo que se calhar muita gente não associaria à minha música e temos que esperar pela obra para ver.

Certo, mas também de uma forma de assinalar o centenário

Afirmativo, exatamente. Muitas vezes eu tenho esta coisa de só consigo aceitar uma encomenda realmente quando tenho um interesse particular. Por exemplo, recentemente escrevi uma peça que ainda não foi estreada dedicada ao Johann Sebastian Bach. Não há nenhum efeméride, mas eu gosto muito do Bach. E também tive uma encomenda a ver com o Beethoven. Como já tinha algo em curso há muitos anos, realmente calhou a efeméride e foi positivo. Já está cá fora, já foi estreado.

E encomendas também ligadas à música dita mais mainstream, também recebe?

Não recebo e dificilmente aceitaria uma coisa que não me provocasse alguma coisa.

Sim, a minha pergunta seguinte era esta: como é que alguém como o Jaime Reis se move também nesses meandros da música que vai chegando mais facilmente aos ouvidos das pessoas diariamente? E qual é a sua percepção também em relação à evolução da música, por exemplo, que vai passando nas rádios, que vai circulando por aí e que não se vai propriamente cruzando também com o tipo de música em que o Jaime vai trabalhando?

Os músicos, nós, às vezes, tendemos a achar que, e em particular, eu acho que na música erudita, há uma tendência para fechar os músicos em caixas herméticas, etc. Eu tenho amigos músicos de todas as áreas e tenho tido até muitos colegas e antigos alunos, por exemplo, de bandas muito conhecidas, que passam na rádio quase todos os dias, e que às vezes vêm aqui aos concertos, porque são pessoas muito abertas e gostam de conhecer outras coisas ou outras músicas, mesmo que não sejam minhas, mas que eu apresento aqui no Festival d'EMN, Lisboa em Comum, etc. E eu não é que não tenho interesse, claro que tenho interesse em outras músicas e em todas as músicas do mundo, até pelo meu prazer e paixão pela etnomusicologia. Mas compreende-se que realmente quando alguém está ligado a uma indústria musical e quer ter a música passada na rádio, é natural que tenha que, se calhar a expressão não é muito boa, mas tem que ceder ou tem que se enquadrar de alguma maneira. E eu gosto só de fazer a música que eu gosto e de ser feliz assim. E depois o público, que é central na minha vida, mas se houver menos pessoas a ouvir, eu não sou menos feliz por isso. É isso.

Já agora, Jaime Reis, como é que Portugal trata também a tradição que existe na música, ou seja, essas raízes que foram sendo estudadas também por outras pessoas da área da etnomusicologia ao longo das décadas? Neste momento, nós estamos a olhar com atenção para o passado e a cuidar também de trazer esse passado para o presente, de o apresentar aos mais jovens nas escolas. Esse cuidado também em mostrar, tal como falávamos há pouco, não há apenas esta música mais mainstream que se vai cruzando conosco todos os dias. Estamos a fazer esse trabalho em Portugal?

É uma pergunta interessante. É difícil, porque nós queremos ter muita coisa, mas tal como temos um plano nacional de leitura, acredito que era muito importante ter um plano nacional relacionado com a música e que pudesse levar realmente de forma estruturada. E temos, há programas interessantes em que, no fundo, fomentam as residências artísticas de artistas de várias áreas nas escolas do ensino regular. E eu acho que era importante que isso também existisse na música e, de facto, com certeza para a música erudita, de compositores portugueses também ou residentes em Portugal, porque tem uma história própria e eu acho que se as pessoas também não ouvem mais é porque não estão familiarizadas, não conhecem, não têm acesso, nem na escola. Ao contrário, por exemplo, da literatura, em que não sei se toda a gente lê, mas de certeza que toda a gente conhece pelo menos os nomes dos nossos escritores.

Já agora, projetos como, por exemplo, a Fonoteca Municipal do Porto, que não abriu portas há muitos meses, que tem um acervo com milhares de discos em vinil, muitos deles também recuperando alguma tradição já esquecida, músicos tradicionais portugueses esquecidos, também algumas coisas da música contemporânea, creio. Este tipo de projetos e a forma como se podem ligar também, por exemplo, às estruturas de ensino, podem ajudar também a fazer com que consigamos não perder essas ligações com o passado e com aquilo que se vai fazendo também noutros meandros?

Sem dúvida. É um projeto importantíssimo e aproveito para mencionar um outro projeto que sei que está em curso, que considero realmente o maior projeto que temos na salvaguarda do patrimônio musical e sonoro, que é o Arquivo Nacional de Som, que está neste momento em marcha e que está em instalações provisórias ainda na Torre do Tombo, mas que está desde já a fazer um trabalho enorme de precisamente reunir todos esses acervos que existem no Porto, em Lisboa, em todo lado, para que pelo menos as pessoas possam saber onde é que as coisas estão e, posteriormente, há uma série de planos com os quais eu estou familiarizado minimamente e acho que são da maior importância para o conhecimento geral e o estudo das práticas musicais que aqui fomentamos, a par do trabalho que se faz na academia e que é importante, mas é preciso este lado comunicar sobre isto.

Quebrar essas barreiras que às vezes se criam também, como o Jaime me explicava há pouco. Jaime Reis, obrigada por ter estado conosco. Que continue a fazer a música que gosta de fazer, como há pouco nos disse. E obrigada pela disponibilidade. O nosso convidado de hoje foi o compositor Jaime Reis. Obrigada, Jaime. Até à próxima.

Obrigado. Até à próxima. Obrigado.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!