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Sejam bem-vindos. Os viajantes desta semana meteram-se num barco e deram uma volta ao mundo. Uma empreitada que durou mais de dois anos. Foram 21 países, três oceanos, cinco continentes, com dois piratas a bordo, os filhos Francisco e Vera. Olá, meninos. Regressaram há uns dias. A chegada foi em estilo e em grande, com muitos barcos a acompanhá-los na entrada do porto em Lisboa. Bem-vindos, Magalhães.
Muito obrigado.
Muito obrigada.
Cá estamos. Cheia de energia!
Francisco e Margarida, como é que estão a correr estes primeiros dias em terra? Regressaram há poucos dias, não foi, Margarida?
Tudo bem. Ótimo estar em casa. Ótima recepção, mesmo muito comovente, especial.
Ver as caras dos amigos e da família.
Em casa, amigos, família, mas já tenho saudades de andar descalça.
A sério?
Então, não. E o calor!
Mas não apanharam só calor, pois não?
Nós quando pensamos e desenhamos esta viagem é para zonas tropicais, para o Pacífico, principalmente. E a última parte, que foi desde a África do Sul. Quando saímos da África do Sul? Ou quando chegamos lá? Novembro?
Outubro, novembro.
Outubro, novembro. Até janeiro, que foi curto. Era o verão de lá, mas é bastante frio.
Mesmo assim, água a 10 graus.
A mínima foi 7 graus.
Portanto, apanharam de tudo.
Essa subida foi dura. Já estamos no frio desde há dois meses, mas aqui está bem fresco e seco. Nota-se bastante essa diferença.
Muito bem. Vamos à rota desta grande viagem que vocês fizeram. Foram dois anos e quatro meses.
Quatro meses de Lisboa a Lisboa.
Então saíram de Lisboa e foram pra onde?
Depois seguimos para Madeira, depois Canárias, seguimos para Cabo Verde, depois a nossa primeira grande travessia atlântica, oceânica, pela travessia do Atlântico até às Caraíbas, Martinica, depois atravessamos o mar das Caraíbas até Panamá.
Bonair, primeiro Bonair.
Paramos em Bonair.
Aruba.
Depois Aruba, que são umas ilhas pequeninas a norte da Venezuela, depois Panamá. Cruzamos para o oceano Pacífico pelo canal do Panamá, foi uma grande experiência. E se calhar agora passo o testemunho aqui ao Francisco.
Um navio enorme à frente e outros atrás, foi uma experiência puxada. Nós éramos três barcos lado a lado, três catamarãs, que são os mais largos, portanto íamos bem apertadinhos, estávamos da largura do navio. Navio enorme à frente e são três eclusas pra subir pra um lago, que estás no meio, está mais alto do que o nível do mar. Depois atravessas o lago, que é atravessar o continente, ali aquela parte estreita, e depois descer outra vez três elevadores de água, eclusas, e entras de repente no Pacífico. É um atalho, uma batota, em vez de ir lá abaixo dar a volta à América do Sul, que é o Cabo Horn, que é muito longe.
Pois.
E depois?
Depois fizemos a nossa maior travessia de 28 dias até à Polinésia Francesa, ao primeiro grupo de ilhas, ou o grupo de ilhas mais a leste, que são as Marquesas. E foi uma grande alegria essa chegada. E depois estivemos a explorar a Polinésia Francesa, seguindo sempre para oeste.
O filé mignon de tudo isto é a Polinésia Francesa.
Sim, do nosso ponto de vista.
Tem vários tipos de ilhas. As Marquesas, que a Margarida falou, são ilhas altas e cheias de vegetação. Não tão boas pra barcos, porque são fundas, é como as açores, pra lançar o ferro, tem que ser em cima das rochas e é perigoso. Mas são as que têm mais legumes e mais fruta, nesse aspecto é bom, não se pode ter tudo. Nas outras, que se chamam Arquipélago das Tuamotus, que são o estilo que inspira os filmes da Moana, da Vaiana, aqueles dos atois, que são vulcões que afundaram e cresceram corais nessas crateras e pequenas ilhas. Ou não têm ninguém, e nós gostamos disso, portanto esta volta ao mundo era pra procurar sítios remotos.
Que não conseguiríamos de outra maneira.
Não há viagem.
Foram a alguma ilha onde nunca ninguém esteve? Isso não.
Isso acho que é difícil, mas onde estivemos só nós os quatro? Sim.
Várias vezes. Várias ilhas.
Tiveram a ilha só pra vocês?
Várias vezes.
Várias ilhas.
Os olhos da Margarida brilham.
Já, muitas saudades. Já.
Imagina pescares o teu peixe em travessia, chegas a estas ilhas, dizes aos miúdos pra irem buscar cocos, fazemos uns banquinhos de cocos, com o coco também fazes a fogueira. Nós temos uma grelha que já tínhamos pensado nisso, tinham nos dado umas dicas. Pões o peixe, trazes um arrozinho, alguma coisa, comes ali debaixo do coqueiro, os tubarões ao lado, mas são uns bonzinhos que nós aprendemos, uns black tips. E estás ali, estás a ver, tens que gostar.
É pra quem gosta de remoto e de estar entregue a si mesmo.
E tempo em família. Temos tempo em família muito valioso e foi épico. Depois daí...
Polinésia Francesa seguimos para...
Tonga.
Tonga, o reino de Tonga.
Depois Fiji.
Fiji.
Foi um dos sítios que mais gostamos e mais tempo passamos, dois meses a primeira vez e depois voltamos lá. Por quê? Porque seguimos para...?
Vanuatu.
Vanuatu.
Ah, Vanuatu.
Só tivemos uma ilha mais a sul.
Dizem que é o primeiro país, não é?
Não, isso é outro.
Tuvalu.
Tuvalu, é isso.
Acho que é isso. Dizem que ele é limitado, um pouco mais pra norte, mas é por essas bandas.
Exatamente. Tuvalu acho que é mais pra leste até.
É o primeiro país a desaparecer quando se registar a subida dos mares.
Tem um metro de altura, é verdade. Já estão a evacuar.
Ah, já? Já estão?
Já estão a tratar disso.
Nova Caldónia, mas que foi uma paragem quase técnica só.
Sim, aquilo era muito caro, mas tivemos que lá passar, porque vamos sempre em função do vento, atenção. Nós temos um plano, masterplan, mas depois o vento é que dita quando é que arrancamos.
O vento e os mares.
E os mares, mas mais o vento.
Mas mais o vento, sim.
E depois, nestes sítios tropicais, tens a época dos ciclones. Tens a época boa e tens a época dos ciclones, em que tens que fugir, porque, regra geral, uma vez por ano ou duas, um ciclone passa por cima de um desses países e se lá estiveres, parte o barco todo.
Na faixa à volta do Equador, à semelhança também do que acontece nas Caraíbas.
Havia a opção de ir muito pra norte, tens que basicamente ir pra latitudes altas, seja pra sul ou pra norte, latitudes mais altas, como Portugal, por exemplo. Mas ali decidimos ir pra Nova Zelândia Onde era mais frio, mas era o verão, era em dezembro, o verão deles. E aí ficamos quatro meses.
Quatro meses porque era até a época dos ciclones passar pra podermos voltar outra vez.
Tiramos o barco da água, fazer obras no barco, o barco é velhinho. Eu disse: "Um catamarã para andar à volta do mundo, num veleiro, mas atenção, estávamos dentro das possibilidades e arranjamos um barco com 30 anos."
Quase tão velho como nós.
Exato, quase. E eu andei um ano antes a trabalhar nele, nas fibras, nos olhos, aquela coisa toda, e depois demos um refresh.
E foi giro, porque chegamos aos antípodas aqui de Portugal.
Exatamente.
Chegamos ao ponto mais longe da nossa casa.
Estavam na Nova Zelândia, tiveram a oportunidade de viajar pelo país?
Sim, tivemos. Foi muito giro.
Andámos de carro de sítio em sítio e na ilha do Sul também. E a ver ali aquelas paisagens espetaculares e os glaciares. Andámos aí no frio, fomos aí ao frio.
E daí da Nova Zelândia?
Voltámos para as Fiji, mais dois meses bons, que as Fiji gostávamos muito, de surfar.
Foi o único país que repetimos.
Exatamente. Surfávamos, a água é boa, as pessoas são simpáticas, é o bula bula, que é o olá lá do sítio.
São o povo mais simpático, mais hospitaleiro que nós conhecemos.
É mesmo. Em terra, não sabemos muito bem, mas junto ao mar, onde nós andávamos, eram todos muito simpáticos.
Mas foram bem recebidos em todo lado ou não?
Em todo lado.
Mas estes eram especialmente sorridentes.
Especialmente hospitaleiros e simpáticos.
Há países onde não te mostram os dentes até mandares uma piedola ou conseguires. Ali era logo, imediato. Portanto, era muito simpático.
Isso é verdade, em todos os sítios fomos bem recebidos, nunca tivemos medo, tanto dos sítios mais civilizados até os sítios mais remotos, em que havia pessoas ainda a viver de maneira muito tradicional, com casas feitas de madeira, de colmo, com porcos à volta, em que os fogões eram feitos de madeira. Mas aí, enfim, mesmo com essa diversidade cultural, vou chamar assim, sempre fomos muito bem recebidos.
E nós procurávamos muito isso, fugir do tradicional, fugir da civilização. Às vezes sentias outros barcos americanos ou australianos, ou mesmo europeus, que fugiam destes sítios mais remotos e das tribos e tal, e nós focávamo-nos nessas e a experiência era sempre fenomenal.
Imagino que tenha sido superprodutivo para as crianças.
Sim.
Margarida.
Não, foi muito bom.
Meninos agarrancados de Lisboa, não é?
Sim, e eram muito pequeninos. A Vera tinha três anos e o Francisco tinha cinco. A Vera tinha acabado de deixar as fraldas, o Francisco era muito tímido e eu estava até um bocado expectante, como é que vamos entreter os miúdos tanto tempo. E a verdade é que eles adaptam-se facilmente, os miúdos acho que se adaptam muito facilmente, especialmente nesta idade. Estavam radiantes, porque os pais ainda são o centro das atenções.
Somos os heróis deles.
Por isso ainda estão na idade certa. Ainda, tarda nada já não nos podem ver à frente, viram os olhos. E adoraram ir conhecendo o mundo conosco. Cada descoberta é uma idade também de muitas primeiras vezes e por isso foi espetacular vê-los a crescer, a superar os seus medos. Primeiro os medos dos tubarões, os medos de aprender a usar uma máscara de snorkeling.
E os medos de falar com outros miúdos, as vergonhas.
E foi muito giro vê-los a crescer também.
Eles contactaram com outros miúdos também durante a viagem?
Muitíssimo. Primeiro havia a barreira do inglês. Primeiro havia a barreira, mas na Nova Zelândia, com aqueles quatro meses, o Francisco, principalmente, aprendeu quase por sua conta, com os outros miúdos, nos parques, a falar. E a partir daí chegávamos a um ancoradouro e ele sempre de binóculos a ver onde é que há miúdos. "Pai, há ali miúdos, mãe, vamos ali falar." E ele ia às tantas de prancha sozinho dizer: "Olá, eu sou de Portugal" e tal, isto tudo em inglês. "Eu sou de Portugal, vocês não sei o quê." E começava a brincar com eles.
Não, e é mesmo aquilo que se diz, a necessidade faz o engenho, porque ele era muito tímido no princípio, quando era pra ir enturmar com crianças, chamava-nos, levava-nos pela mão e ao fim do ano é isto que o Francisco diz: "Vamos ali!" E metia conversa, ele é que fazia amigos.
Isso é muito rewarding.
Muito bem. Tiveram percalços durante a viagem ou não? Falaram há pouco dos ventos e das tempestades. Travessaram alguma?
Percalços com o barco.
Quais aventureiros do mar. A Margarida diz que sim.
Não, sim. Ou seja, felizmente tudo em segurança.
Espera, antes de contarem. O Francisco é um homem já experiente nestas coisas do mar, porque ele já tem dois recordes.
Dois recordes do Guinness, sim, senhor. Kite surf e kite boat. Sim, mas no mar. E sou velejador desde que nasci.
Exatamente.
E a Margarida.
E a Margarida. Tinhas já experiência?
Muito pouca. A verdade, tinha alguma experiência de passeios no rio Tejo.
Eras especialista em cacilheiros, é isso?
É parecido atravessar o Tejo ou o mundo inteiro.
Tinha feito uns cursinhos de verão, de hobby cat ou windsurf, portanto percebia um bocadinho da teoria, mas tinha muito pouca experiência do mar.
Já tínhamos ido uma vez aos Açores, de barco.
Sim, já tínhamos ido até aos Açores de barco.
Tinha corrido bem, quatro dias de travessia.
É rápido.
Sim, com vento bom é quatro dias.
Tínhamos estado também já de barco no Algarve, na Grécia, portanto não era uma estranha para um barco, mas não de navegação oceânica e por isso foi também uma grande aprendizagem.
Foi evoluindo e agora no fim, no segundo ano, principalmente, já fazíamos os turnos, entregava a responsabilidade toda.
Pois eu tinha essa curiosidade. Já vamos falar sobre a vida a bordo, eu gostava de perceber como é que foi atravessar tempestades. Cruzaram-se com alguma ou atravessaram alguma?
Sim, não sei se queres comentar, Francisco. Hoje em dia tínhamos sempre internet, que é uma grande vantagem. Hoje em dia versa alguns anos e então com as previsões meteorológicas é muito seguro, consegue-se prever e antever o que é que se vai passar.
Quatro vezes ao dia estou agarrado à meteorologia.
Portanto, uma coisa que o Francisco fazia muito.
Perceber o que é que vai acontecer hoje ou amanhã ou depois de amanhã. Três dias normalmente é fiável, daí pra frente é futurologia.
E pronto, uma das regras de segurança é essa, é planeia-se e ajusta-se As viagens consoante a meteorologia. E isso éramos muito cautelosos e por isso nunca apanhamos, felizmente, nada muito grave.
Nunca desprevenidos. Ou seja, se vinha mau, nós já sabemos que vinha mau, preparas o barco todo para isso, vais para um sítio onde estás defendido.
E esperas.
Exato. Vem o badanal, mas estás protegido.
Ok, mas aconteceu?
Não, tivemos condições desafiantes, barco muito aos saltos.
Sim, 50 nós, para quem percebe o que é isso, é bastante vento, 50, 55 foi o máximo.
Nada de vagalhões de oito metros.
Apanhámos seis.
Seis?
Seis. Mexe bastante.
Mas há que desdramatizar.
Sim, no meio do mar não é como na costa.
Seis metros a rebentar numa praia, eu não me punha lá nem que me pagassem. Seis metros no meio do oceano não faz mal nenhum.
Mas é que há uma diferença entre vaga e onda, não é?
É uma vaga muito grande, exactamente.
Tu sobes, lá cima desces, nunca vai rebentar. A não ser que haja muito vento e rebentam umas cristas.
Mas claro que faz o barco oscilar essa alguma amplitude, mas não é perigoso.
Mas pode assustar um bocadinho para quem não for da área, mas a Margarida estava tranquila.
Sim, e os miúdos também.
Também?
Também.
Desde que a torre do Lego não caísse, estava tudo bem.
Exacto, se a torre do Lego caísse era...
Se mexe nos brinquedos deles, está tudo estragado.
Olha, vocês deram-se bem no barco. Pode acontecer, não é?
Nunca discutimos, não foi?
Jamais.
Ó querida, nunca discutimos, pois não? É claro que discutimos, discutimos muito.
É um bom homem do leme, Margarida, o Francisco.
Sem dúvida. E é um homem do mar que se foca no essencial e eu também aprendi a desenvolver isso.
Há muitas manobras em que tem que haver trabalho de equipa, especialmente se houver vento, como por exemplo tirar o ferro. O ferro que prende o barco ao fundo, tens que sair.
O ferro é o que permite ancorar, fundear, que é o paralelo a estacionar.
O barco.
O barco ou o carro.
E se tiver muito vento, para não partires aquilo tudo à frente, porque o ferro é uma corrente de ferro, precisamente, tem que haver um trabalho a dois, com uns walkie-talkies, por Bluetooth. Portanto, se estiveres chateado, vais ter que fazer uma pausa e vais ter que dizer: "Ó querida, vamos ter que tirar o ferro, ok? Fazemos aqui uma pausa, somos amigos durante 10 minutos, depois continua a guerra."
Depois temos que voltar à nossa...
Mas é ótimo, porque depois acelera a recuperação.
Nada como um ferro para ajudar a fazer as pazes, não é?
Exatamente.
Muito bem. Olha, estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Margarida e Francisco, trouxeram desta viagem algum objeto que seja especial? Desta viagem de volta ao mundo.
Trouxeste ou trouxe eu? Tu fartavas-te de recolher objetos que eu dizia para não recolher.
Sim, é difícil.
Mas um que seja especial. Se tivesses que resumir esta viagem de volta ao mundo, dois anos no barco, Margarida.
Enfim, tenho aqui uma concha que apanhei. Acho que esta foi numa praia no meu pescoço. Uma concha muito normal, que se encontra em todo lado, mas foi especial porque estava a apanhar com a minha filha Vera, e apanhámos muitas giríssimas e descobrimos o mundo das conchas pelo mundo fora e por isso gosto muito de andar com ela.
Muito bem, Francisco, trouxeste algum objeto?
Eu ando sempre com o mesmo objeto de desafio para desafio que me tem acalmado, que é um tracker GPS, que me permite que toda a gente saiba onde é que eu estou e em caso de emergência lançar um alerta e isso acompanha-me em todos os desafios.
Muito bem. Não foi preciso lançar nenhum alerta durante esta viagem?
Não.
Nem nunca estiveram na iminência de "Isto vai acabar agora aqui."?
Não.
Não. Felizmente, tudo correu bem, conforme planeado.
Muito bem, fantástico. Estamos à conversa com a Margarida e Francisco Lufinha. Eles realizaram, juntamente com os filhos Margarida e Vera.
Vera e Francisco.
Vera e Francisco, peço desculpa. Vera e Francisco, uma viagem de volta ao mundo durante dois anos e quatro meses a bordo de um veleiro catamarã. Na segunda parte vamos continuar a conversar com eles. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das conversas do "Lufinha no Mundo". Esta semana recebemos o casal Lufinha, que juntamente com os filhos Vera e Francisco, deram uma volta ao mundo num catamarã durante dois anos. Eu gostava de perceber, deixámos aqui mais ou menos no ar pendurada esta ideia: como é a vida a bordo de uma família que anda a viajar pelo mundo? Margarida, a que horas é que tu levantavas?
Essa pergunta foi top.
Onde eu fui tocar.
Essa foi a melhor pergunta. Conta lá.
Não, mas eu acho que variava entre as 07:00 e as 09:30.
Ai, é?
Eu sou muito dorminhoca.
Mais para as 09:30 ou mais para as 07:00?
Dependia.
Dependia dos turnos também, da noite anterior.
Dependia dos turnos. Em travessia, em viagem, dependia dos turnos. Quando estávamos mais fundeados e em sítios mais estáveis, eu acho que nos últimos tempos era mais perto das 07:00, porque a vida a bordo aproveita-se muito mais feito de manhã e tipicamente às 06:00 o sol já nasce perto do Equador e queremos acordar o mais cedo possível.
Fazer o dia render.
Ok. Mas quando velejavam, ao navegar, como é o dia a dia?
Nós temos que adaptar muito às condições, mas se fosse como nós idealizávamos, fazíamos turnos de três horas cada um e esses turnos valem de noite e dia, não para.
Portanto, dormias três, trabalhavas três.
Certo.
E alternavam.
Exatamente.
Depois se quiseres estar acordado no teu turno, azar o teu. Quando chegar o meu, eu vou dormir. Portanto, tu tens que gerir bem isso. Haja miúdos ou não, haja almoço ou não, haja luz ou não, três horas, três horas. Que é para atribuir a responsabilidade durante essas três horas. E assim funcionava bem.
Os miúdos não faziam isso? Faziam uma vida normal.
Não, os miúdos faziam uma vida que às 19h30, 20h00 estavam a dormir e acordavam entre as 7h00, 7h30 da manhã.
Eles viviam com a luz, basicamente.
Ok.
E depois vão brincar. Se estamos a navegar é mais chato, têm que brincar ali, fazer uns desenhos ali. Se o barco está muito aos saltos, eles podem ficar mais enjoados, vão apanhar ar lá para fora, não brincam tanto ou não leem tanto. Também faziam leituras. Se estivermos fundeados, vamos surfar, têm aula. A Margarida dava aulas ao Francisco.
Exactamente.
Depois entre aulas íamos fazer um surfe, íamos mergulhar, íamos nadar com os tubarões, íamos ver as tartarugas ou as baleias.
Íamos lá aos barcos de lado também, quando havia.
Claro. Íamos a eventos sociais, os barcos de lado, ou às vezes íamos a terra e era assim que funcionava.
Muito cansativo, não é? Esse registo três-três, ou não?
Sim.
Trabalha três, descansa três.
Bastante. Ainda estamos a recuperar da última viagem, porque ainda não parámos em terra.
Pois, porque vocês chegaram há uma semana e meia.
Há uma semana, sim.
Faz duas, faz amanhã duas. O teu corpo desce um bocadinho. Por exemplo, a típica cervejinha que se gosta de beber de vez em quando. Nós começámos a beber tudo sem álcool, porque se bebíamos uma cerveja com álcool caíamos podres.
Caíamos para o lado.
Cansaço, não de bebedeira, de cansaço.
Quando chegaram a Portugal?
Não, durante a viagem.
Tudo sem álcool. Começámos a ficar fãs de cerveja sem álcool. E vinhos está fora de questão.
Não só os turnos, realmente tem que se habituar e o corpo cansa-se, como depois também é uma vida muito activa, porque há muita coisa para fazer no barco. Estamos entregues só a nós, muita arrumação, muita manutenção no barco, trabalhar as velas.
Tratar dos miúdos, birra dos miúdos.
Tratar dos miúdos, comidas, fica tudo nas nossas mãos.
Tudo feito por nós. Nós fazemos a nossa própria água, por exemplo. Transformamos a água do mar.
Salinizam.
Exatamente, em água doce.
Portanto, nunca param.
Nunca parámos, não. Eu achei: "Eu vou relaxar". Mas não, eu senti à estante: "Eu não vim para aqui, estamos sempre ao serviço."
Tirei já o cavalinho da chuva.
Quem acha que isto é uma viagem para ir-
Dois anos curtir.
Isso
Tira o cavalinho da chuva.
Dá imenso trabalho, dá imenso gozo, mas dá muito trabalho. É uma vida activa.
É um estilo de vida diferente, mas claramente não são férias. Eu quero férias agora. Queria ir uma semaninha de férias.
Papo ar, não tive nada, tive muito pouco.
Fazer um surfe mais intenso.
Mas fizeste isso durante a viagem também.
Sim, não desfazendo o trabalho da Margarida, mas eu como capitão, a responsabilidade das vidas destas três almas está nas minhas mãos.
Das nossas quatro almas.
Quatro, sim, incluindo a minha. Se eu caio numa onda com a cabeça no recife e fico ali, acabou-se, está tudo tramado. Portanto, pensas duas vezes antes de entrares numas ondas mais arriscadas para te divertires um bocadinho mais.
És uma pessoa muito responsável, Francisco.
Pois é, não parece.
Não, mas claramente os poucos cabelos brancos naquela cabeça desenvolveram-se nesta viagem.
Nesta viagem, que foi a bordo do Zinga. Há alguma razão para este barco se chamar Zinga?
Não, já vinha assim desde o dono anterior.
Não tem história.
Não tem história, mas é um nome que fica e é fácil de dizer.
Fica, e eu quando li pensei.
E mantivemos porque gostámos também do nome.
Boa, muito bem. Olha, o que os vossos miúdos aprenderam desta viagem, Margarida e Francisco?
Que o mundo não é Lisboa, nem Portugal.
Sim.
Que há diferentes culturas. O que aprenderam mais? A desenrascarem-se sozinhos, não ter medo da primeira coisa que os assusta, estarem alerta. Tanta coisa que eu posso lembrar.
Trabalhar em equipa também. Porque a verdade é que éramos os quatro uma equipa e cada um tinha que fazer o seu papel, porque senão não funcionava. A gestão das emoções no barco foi desafiante para todos e para os meus filhos também. Acho que isso também lhes fez bem, saber que todos temos que contribuir com bom astral, fazer as suas tarefas, cada um à sua medida. A Vera fazia a cama, os miúdos arrumavam os seus brinquedos, o Francisco pai tratava da navegação e das velas, a mãe tratava do almoço. Isso também acho que no barco essas rotinas eram muito mais importantes do que se calhar na nossa vida em Lisboa.
Perceber que nada é garantido, que a natureza é que manda nisto tudo, temos que nos adaptar, coisas deste estilo.
Muito bem.
Dar valor às pequenas coisas.
Que coisas é que eles fizeram que uma criança normal, entre aspas, não fará, nunca fará?
Bom, essas travessias intensas.
Para além de atravessar oceanos de barco.
Não é muito comum. A Vera é a navegadora portuguesa mais nova a circumnavegar o globo, pelo menos dos últimos tempos. Isso é um marco importante.
Portanto, tal como o pai, também já têm um recorde.
Pois, por acaso não submetia nada, mas é um recorde. O que eles viveram mais? Nadar com as tartarugas.
Nadar com tartarugas, nadar com baleias.
Com as baleias grandes, baleias jubarte em Tonga.
Em Tonga. Tubarão-baleia. Estivemos a 30 centímetros de um tubarão-baleia.
Que é herbívoro, não é? Apesar de ter uma boca muito grande.
Sim, come fitoplâncton, nem se vê o que ele come.
Nem tem dentes, como eles bem explicam.
Exato. Eles costumam dizer isso.
Nadar com tubarões de recife.
Dormiram no topo de um vulcão.
Uau! Explica lá. Onde?
Em Vanuatu, nas tais cabanas.
Foi o sítio dos mais tradicionais que conhecemos. Talvez lado a lado com as Cascais.
Foram umas aldeiazinhas pequeninas, a dormir com as palhotas e um deles veio ter connosco no barco. Estávamos lá sozinhos, éramos o único barco naquela ilha, já era a época de ciclones, e ele levou-nos. O terreno era dele, ao pé do vulcão, e arranjou-nos uma tendinha e dormimos lá em cima no vulcão com o chão a tremer, debaixo de uma chuvada. Fomos três horas a pé pelo meio da chuva, pelo meio da selva, até uns bocados de plástico que ele montou lá para nós dormimos com um fogo. Depois fomos ver o vulcão à noite, o barulhão, nem se via muito. Aí aprenderam, por exemplo, a ser resilientes. Três horas à chuva a subir pelo meio da mata, nem se queixaram. Impecável. Às vezes temos miúdos, os nossos também, que só para subir escadas queixam-se. Mas despertando a curiosidade deles.
Tinham o objetivo.
Claro, eles iam porque queriam ir descobrir e o vulcão e vamos lá. É impressionante como isso faz mexer.
Uau!
Esse tipo de experiências acho que vale muitíssimo.
Ok. Não quero ser muito intrusivo na vossa família, mas eles andaram tanto tempo descalços, convivem bem agora com os sapatos?
Não, acho que ninguém.
Nenhum de nós. Vocês disseram logo no início que não.
Estamos todos com esse desafio. Mal chegam a casa, é a primeira coisa que salta ao ar e não sei se na escola também.
Esperemos que mantenham na escola.
Que selvagem. Mas isso é bom ou não é? Eu acho.
Eu acho que sim também.
Ótimo.
Os pés incham de tanto andar descalço. Eu sou o principal a queixar.
Nós também somos poupados e compramos sapatos grandes.
Para durar mais tempo.
Portanto, ainda tem algum espaço de manobra nos que têm.
Não há por aí crianças a calçar o 41, não?
Ainda não. Mais uns aninhos.
Falaste na escola, eles já regressaram à escola?
Regressaram à escola.
Pacífico, tranquilo?
Pacífico, sim, foi ótimo. A Vera com mais estranheza, porque não se lembrava nada do que era a escola.
Ela não se lembrava da casa dos meus pais e da mãe e do pai.
A Vera não se lembrava de nada. Já ter andado na escola, não se lembrava de nada.
Ela viveu metade da vida dela no barco.
Pois.
Ela arrancou aos três e agora tem cinco.
Ficou mais atrapalhada, vou dizer assim, num recreio cheio de crianças, mas enturmaram lindamente. Muito contentes por voltar a ter amigos, a Vera em particular, amigos que falam português. Porque o Francisco sempre lá aprendeu inglês e já comunicava, a Vera não tanto, portanto está a ter os primeiros amigos portugueses.
Ok.
E a Margarida ensinou o Francisco durante a viagem, portanto ele acompanhou a turma com o ensino doméstico português, que é possível fazer.
Pois, vocês fizeram ensino doméstico com o Francisco.
Está inscrito numa escola.
Portanto, ele tinha aulas a bordo.
Ele tinha aulas comigo. Em coordenação com a escola em que ele está inscrito, que foi impecável. Fazia os testes no fim do trimestre que os amigos também faziam na mesma classe.
A Margarida filmava pra professora ver e perceber como é que aquilo era.
Medir a temperatura e afinar onde é que era preciso.
Portanto, assim voltou direto, continuou.
Correu bem.
E foi bom, porque já se sentia integrado. De vez em quando fazíamos umas videochamadas. Ele já conhecia perfeitamente a professora que ia ter e por isso foi muito natural essa integração, foi ótimo.
Espetacular.
E muito contente de estar na escola e de brincar com crianças.
No meio do mar, em travessias, não há muitos miúdos.
Não. Deve ser o rei do recreio agora. Com muitas histórias pra contar. Exato.
Não, e as aulas na escola são muito mais divertidas do que estar só com a mãe. Tentar ir a fundo, e não, numa sala, com tempo, com jogos.
O rei da escola, depois tem que se acalmar, que é pra ele baixar a linha. Mas que ia.
Olha, qual foi o momento durante esta viagem de dois anos e quatro meses em que sentiram que foi para isto que vieram? Margarida.
Enfim, eu acho que um momento muito especial, não sei se foi o mais especial, quando cumprimos a circunavegação em Cabo Verde. Eu fiquei muito contente.
Mas não foi pra isso que viemos. Nós se calhar não íamos dar a volta toda, não era?
Eu queria muito dar a volta com essa meta. Eu gosto muito de fazer checks, então foi uma meta e acho que nesse momento em que chegamos à terra firme a seguir à volta, revivi todos os momentos. E depois acho que aí senti ainda mais uma coisa que eu destaco é a ligação familiar com que fizemos, além das experiências riquíssimas que vivemos, é que somos uma família muito unida, que nos conhecemos muito bem, com todas as cabeçadas, com todo sangue, suor e lágrimas. Mas somos uma grande família, uma grande equipe e muito mais fortes e unidos do que alguma vez fomos. E com esta sensação vamos nos divertir juntos e somos capazes de fazer o que for, o que nos aparecer pela frente.
Muito bem, Francisco.
Pra mim foi estar nos ditos "atóis" remoto. Não é que não goste de outras pessoas, como é óbvio, mas para mim a conquista foi conseguir estar a alimentar a minha família no meio de um sítio deserto, a fazer a água, a pescar o peixe, a fazer ali o fogo e todos tranquilos a conseguir sobreviver por nossa conta.
Há um lado "Robinson Crusoe" em ti.
Exatamente, é essa a lógica. Foi muito maneiro esse feeling, porque não consegues ter isso, é difícil conseguir estar assim num sítio tão remoto, autónomo, como se te despejassem numa ilha. Aliás, encontrámos numas ilhas empresas que faziam isto. Havia clientes, pagavam um balúrdio.
Há pessoas a pagar pra fazer isso? Pra fazer Robinson Crusoe?
Sim, pra serem largados.
Deixam-nos uma semana numa ilha e dizem: "Desenrasquem-se, vimos cá buscar-vos pra uma semana."
Olha, podes fazer isso na tua reforma.
É uma ideia, mas tem que ser lá no Pacífico.
Muito bem. Toda a gente parte para grandes viagens com objetivos pessoais. Margarida, tinhas algum objetivo pessoal? Enfim, gostaste muito de fechar a circunavegação.
Acho que era esse, não?
Era esse.
Era esse?
Era esse.
E tu, Francisco? Já és um velho lobo do mar.
Bom, o objetivo era não afundar, que é sempre uma hipótese. É tudo muito giro, mas pode dar barraca, mas mesmo que afunde, consegue ser salvo, com a redundância que temos desses sistemas de segurança a bordo. Era conseguirmos sair desta viagem felizes, satisfeitos e não "ah, já acabou" e pensar: "E quando é que vamos outra vez?" E acho que das nossas últimas conversas isso resultou.
Acho que isso foi um sucesso pra todos, sim. E imensa gente nos pergunta: "Ai, agora conseguem descansar", como se estivéssemos em tensão ou em sofrimento o tempo todo. Não, nós trabalhamos muito.
Mas há esse risco.
Mas curtimos muito.
Viver com outros seres humanos Durante tanto tempo, num sítio tão fechadinho como é um barco, tem tudo pra correr mal, não tem, Margarida?
E não foi sempre fácil, claro que não, mas conseguimos.
Não há grande conforto. Hoje em dia há um catamarã à vela, podes ver muitos que são um grande luxo. Este tem 30 anos e é marujo. Portanto, apostámos na segurança. Era difícil os miúdos caírem borda fora. E é um barco que andava rápido com pouco vento, que era um dos objetivos. Nós quase nunca usámos o motor. O conforto é bastante reduzido, mas, por outro lado, temos um jardim enorme e era isso que queríamos, que é o mar, a vista mar e jardim grande. E saíamos do barco o máximo de vezes que conseguíamos para ir desfrutar da natureza.
A nossa área útil era cerca de 25 metros quadrados, pra se ter alguma referência. Mas tínhamos 360 vista mar. Não só vista, saltávamos pro mar.
E metemos no working de borracha e lá vamos nós explorar e: "Hoje vamos descobrir." Eles perguntavam: "Onde é que vamos?" "Não sabemos, vamos explorar aquela pedra."
Portanto, eles aprenderam a nadar nesta viagem.
Exatamente. Os dois no início só de colete, agora já não precisam de colete.
Pois, tudo à grande.
Muito à grande. Com o barco a andar, saltam para dentro d'água, passam por baixo do barco. Têm algum receio, porque são miúdos, de nadar no azul profundo, que há muita gente. Até eu tenho, de olhar, ver o que está ali, mas se nós nos mandarmos, eles vão atrás.
Ainda por cima porque são conscientes que há muita vida lá pra baixo.
Já viram essa vida.
Já viram. Muito bem. Meus amigos, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?
Vamos.
Vou pedir-vos para completarem as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre, ou o que não podia falhar na minha mala, na vossa mala, nesta viagem? Margarida.
Na minha, música. Algum equipamento que nos permita ter música.
Traz CD, cassete, esporte físico.
Spotify.
Spotify. É onde está a música toda. Claro, pode. Como não pode?
Tudo feito download antes de sair por causa da internet.
Música era sempre um elemento chave pra animar.
O que ouvias a bordo?
Ouvíamos de tudo um pouco. Músicas mais góticas.
Eu sou aficionado a Enya. É o que me acompanha durante a noite, principalmente se tiver mau tempo, meto as Enya e aquilo acalma-te logo.
Ok. E faziam grandes tardes de baile no casco, na proa do catamarã.
No poço lá atrás.
Chama-se poço?
Sim, o cockpit chama-se poço, porque é mais resguardado. E aí dançávamos bastante com os miúdos, por acaso é verdade.
Música era momento pra alegria, era terapia pra quando as coisas estavam mais desanimadas, terapia pra quando havia tensão. Música e sem música.
Música valeu de muito. Muito obrigado, artistas.
O que é que não falha na tua mala?
GPS. Volto ao mesmo.
O tal GPS. Muito bem. Em viagem com mais peripécias, será seguramente esta, mas qual foi a maior peripécia que viveram nesta viagem? Margarida.
Uma das cenas mais bizarras que tivemos foi na Indonésia, um sítio que não é muito turístico, em que nós andávamos na rua e toda gente queria parar pra tirar fotografias conosco. Porque praticamente temos o aspecto físico diferente. Em particular os nossos filhos, pequeninos, o Francisco então, mais clarinho, e tocavam nos caracóis da Vera. Foi assim bizarria e ao mesmo tempo um pouco-
E estavam todos em êxtase, aos berros, a rir de alegria e de: "O que é que são estes, estes ETs?"
Uau!
E depois parámos numa banquinha pra jantar e a pensar: "Ok, esta é uma rua mais resguardada, vamos conseguir estar aqui mais tranquilos." E veio uma senhora que nos tinha apanhado duas ruas antes e que quis dar dinheiro aos meus filhos como se fosse um tributo. Foi uma cena altamente bizarra.
Eles aceitaram?
Não.
Devolvemos como é óbvio.
Mas a senhora ficou muito sentida porque queria apostar esse tributo.
Aquela ilha não tinha turismo.
Como se fossem pequeninos deuses.
Sim, foi muito bizarro.
Era Kupang. Não está explorada pra o turismo, portanto, não tem os ocidentais por lá.
Uau!
É a zona Oeste Timor. Isto é a zona Oeste da ilha de Timor que está dividida a meio, de um lado é Timor-Leste.
Fomos. Muito giro. Comer um pastelinho de nata, lá no Hotel Timor e ver os traços de Portugal que lá há, que são muitos. Muito giro.
Muita gente a falar português na rua?
Não.
Não. A língua oficial é português, mas muitas pessoas não falam.
Só os portugueses.
O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter, qual foi? Francisco.
Não foi Kupang. Qual é que foi aquele que foi um filme? Foi Timor-Leste.
Timor-Leste?
Timor-Leste.
Então por quê?
Não foi que me fizessem a vida negra, mas tivemos que andar para não sei quantos sítios e está fechado e só daqui a bocado e demorou. Chegamos numa sexta e só entrámos legalmente na segunda-feira. Não, Moçambique também foi outra.
Fica ali taca-taco.
É a herança burocrática portuguesa.
Da ferreira da língua portuguesa, exatamente.
Exato. Em Moçambique, basicamente, não havia ninguém, mas fomos lá e eles disseram: "Vem na segunda-feira." Mas Timor-Leste foi mais complicado porque também não falavam português.
Mas só pela burocracia, porque de resto fomos muito bem recebidos.
Boa. Ok, a recordação de viagem mais cara, qual foi?
O Zinga.
Ai, o barco.
O Zinga, claramente.
Queres dizer quanto é que custa um catamarã?
Quanto é que achas que custa um catamarã?
Sei lá. Não sei, vou parecer ridículo. 30 mil euros? 50 mil?
Era tão bom!
Mais. A Margarida faz sinal com os mãos. Upa, upa. Pronto, então fecho a minha boca. Costuma dizer-se que quem tem um barco tem dois dias de felicidade, não é?
É, quando compras e quando vendes. Estou lá à procura do segundo.
Sim, muita gente pergunta: "Não têm pena?" E claro que temos imensa pena, mas não temos condições de ficar com o nosso Zinga.
Viver em terra ou viver no mar.
Tem lá de viver.
Tem que ir lá viver noutra aventura.
Estás a ver? Eu sugeri, mas a minha querida não aceita. Não gosta.
Já chega. Vida a bordo.
Não, acho que em Lisboa precisamos de um bocadinho mais de área útil. Precisamos de mais tempo em casa.
Ou é terra ou é mar. Isso eu concordo. Portanto, não dá pra ter os dois.
Olha, a refeição mais estranha, qual foi?
Tartaruga.
Tartaruga.
Comeram tartaruga?
Sim.
É bom?
Nós não encomendamos a tartaruga, atenção. Explica lá tu que eu já me esqueci.
Foi uma experiência também muito gira.
Nas Fiji.
Fundiamos numa praia Que não tinha ninguém. "Que bom, vamos passear!" Cruzamo-nos com uma mãe a passear com duas crianças e que começou a meter conversa conosco, disse: "A minha família agora vem aqui almoçar, é o nosso almoço de família." De repente foram aparecendo pessoas.
Eram para aí 30 pessoas.
30 pessoas e nós juntámo-nos também, levámos as nossas comidas, levámos o que tínhamos: saladas de grão, feijão, por aí fora. E às tantas oferecem-nos-
Um panelão e abrem, tinhas a cabeça da tartaruga, as patas.
E era tartaruga. Mas sabia muito bem, sabia a frango.
Um guisado de tartaruga era?
Sim.
Se não a visses, comias e era frango. Se a visses, eu fiquei: "Ah!"
Mas é muito comum nestas ilhas do Pacífico, porque é muito abundante. Na maioria destas ilhas já é proibido, mas nestes sítios mais remotos, eles continuam a apanhar tartarugas para comer, porque há muitas.
Não é todos os dias que comem, é num almoço de família, que era o caso.
Ok. Gostava de viajar com?
Com a minha família, outra vez.
E tu, Margarida?
Idem.
Também, é para repetir. Já têm planos para uma próxima viagem?
Temos.
Para onde?
Daqui a 10 anos.
Gostávamos de voltar ao Pacífico.
Uau!
Com mais tempo.
Mas agora têm de se concentrar.
Depois recompram o Zinga.
E dessa feita com os miúdos mais velhos. Portanto, a ver se é essa que vamos pagar para o ar.
Exato, eles agora têm que pagar.
Eles que trabalhem. Mais nada.
É essa que vamos pagar para o ar.
Margarida e Francisco, chegámos ao fim. Qual foi a música que trouxeram para fechar esta conversa?
Uma que ouvíamos muitas vezes, que sempre que sobrevivíamos e traz-nos para a nossa resiliência. Elton John, "I'm Still Standing".
Muito bem. Dançaram muito, Margarida, ao som desta música no poço?
Muito.
Muitíssimo.
Então vá, fechamos os olhos e imaginemos que estamos no Pacífico, lá no poço do Zinga. Meus amigos, foi um prazer, um gosto. Muito obrigado por terem vindo.
Obrigado nós.
O gosto foi nosso. Obrigada.
Estamos de regresso hoje oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.