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E eu penso que este terceiro país, que é Portugal, a salva. É como se fosse uma salvação. E, na verdade, aqui é que ela faz-
Não se importa com o russo ou com o espanhol dela
Claro. Aqui toda a gente se importa, porque ainda hoje perguntam à minha mãe: "A senhora não é portuguesa, pois não?" Imagina, 67 anos depois, ainda lhe perguntam: "A senhora não é portuguesa, pois não?"
Durante a Guerra Civil Espanhola, 30 mil crianças republicanas, os niños de la guerra, foram exiladas em vários países, das quais quase 3 mil tiveram como destino a União Soviética. Muitas regressaram a Espanha só passados quase 20 anos. Foi o caso de Angelita Pérez, a mãe de Ana Pérez Quiroga, a minha convidada de hoje, artista visual, performer, investigadora e agora realizadora, que depois de algumas exposições sobre o tema, decidiu contar a história dela. Angelita Pérez viveu em internatos russos dos quatro aos 24 anos, até concluir os estudos de Medicina em Moscovo. E um dia voltou a uma casa e a uns pais que já não a conheciam. A coimbrã Ana Pérez Quiroga, formada em escultura e doutorada em Arte Contemporânea, trabalha com instalação, objetos, fotografia e performance. E desta vez fez um filme, "De Caçasa Aéreas", a estrear em 16 de abril, onde narra a vida da mãe. Uma história de resiliência, amor e identidade, que entrelaça passado e presente, história e memória. Olá, Ana, e bem-haja por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.
João, é mesmo um grande prazer estar aqui.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. E tu és tão sorridente, és tão criativa na tua exposição, que é contagiante. Muito bem, tu nasceste em Coimbra e tens uma irmã que mora na Noruega, em Oslo, e outra em Viseu. E tens uma mãe emblemática para ti. A tua mãe já tem quantos anos? 93 anos, com quem falas todos os dias e várias vezes por dia. Apesar de viver na mesma cidade, foi sempre o teu suporte e é a pessoa mais importante da tua vida. E que história que ela tem.
Sim, é verdadeiramente a pessoa mais importante da minha vida.
É incrível, tu tens uma obra falada disso, da vida dela, porque este filme é sobre ela e sobre ti. E agora queria parar aqui na tua infância, na praia da Figueira da Foz. Tu com seis ou sete aninhos, vês passar uma rapariga mais velha, de branco, de cabelo muito curto, calças brancas e disseste: "Eu quero ser assim", mas tu não tinhas idade para dizer isso.
Eu acho que tinha.
Já?
Sim.
"Eu gostava de ser assim um dia." Esta identidade brotou-te por veres um modelo, uma pessoa, alguém.
Sim, mas sabes, João, eu penso que tenho uma noção com alguma clareza desde os quatro anos.
Foste sempre muito lúcida então, desde pequenina.
Eu não sei se é uma questão de lucidez.
Sabias o que querias e para onde ias.
Mas eu acho que sou observadora. E não é por estar aqui no Observador.
Estás no sítio certo.
Sim, mas sempre fui muito observadora. Muitas vezes não é uma coisa racional, é uma coisa até pelo corpo, é o corpo que compreende. E nesse sentido, imagina, quando eu tenho seis, sete anos, obviamente que eu já sabia muita coisa. Já tinha assimilado. O meu ser tinha assimilado coisas. E, portanto, essa rapariga é uma rapariga que me marca.
Que não conhecias, nem falaste com ela, nem nada, nunca passou por ti. E aos 18 anos tu disseste: "Eu gostava de ser isto." É tão giro esse modelo que a gente apanha na vida e diz: "Eu identifico-me com isto, quem me dera chegar lá." É tão bonito isso. Este apelo das artes vem de onde? Eu lembro que tu, pequenina, contaste que adoravas construir arquiteturas pelos cantos da sala. Como é que é? Tu visitavas museus, já visitavas posições, tinhas um bom professor de educação visual ou desenho, qualquer coisa?
De maneira nenhuma. Eu, para além de ter uma mãe muito culta, não tinha mais nada, porque toda a minha família é médicos ou militares. Mas sempre fomos a museus. A minha mãe levava-nos. Portanto, a educação artística é uma coisa que eu tenho desde pequena. Mas, na verdade, ninguém me disse que eu podia ser artista. Como é uma família tão cientista.
Exatamente. Tão para as ciências e não para-
Para as humanidades.
Exato.
Na verdade, eu achei que a coisa mais possível, na altura, era fazer História. E eu fui para História.
Ah, OK.
Na verdade, eu estudei História. Depois, não gostei nada de História e fui fazer arquitetura de interiores.
Ah, OK. Também não foi dessa.
Não. E fiquei a trabalhar em arquitetura, não sei quantos anos, com imensos clientes e tudo isso. E houve um momento em que eu fiquei cansada de me dizerem: "Agora eu gostava mais que fizeste assim ou que fizeste assado" e eu percebi, não era isso que eu queria fazer na minha vida. O que eu queria fazer mesmo era ser artista.
Criar.
E ter uma voz autoral que ninguém me dissesse: "Eu preferia assim ou assim."
Exato. Que não te guiassem tanto.
Sim, eu não tenho nada contra guiar, mas depois de horas, de dias de trabalho, a perceber um conceito sobre o interior das casas, e é uma coisa que me apaixona. E aliás, depois até podemos dizer que a tese do meu doutoramento é sobre a minha casa, enquanto objeto artístico. É só para perceberes que isso já está.
E também fazes coisas com os têxteis e coisas, é muito tu. As sedas, a China, já lá vamos.
Claro.
E depois foste então licenciar-te em escultura na FLUL.
Sim, a terceira licenciatura.
Exatamente. É incrível. Aliás, onde foste colega do Vasco Araújo e do João Pedro Vale. Foi uma geração muito boa.
Esses grandes amigos.
Tiraste escultura em Lisboa, depois o mestrado em Artes Visuais em Évora e depois o doutoramento em Arte Contemporânea em Coimbra. Andaste nas grandes faculdades do país todo.
Faltou-me o Porto.
Exato. Mas também é gira essa tua itinerância pelas artes e pela Academia das Artes.
Isso é importante.
É, foi giro.
E só para te dizer que eu Ao mesmo tempo que estava a fazer escultura no terceiro ano, são cinco anos de escultura, agora já não, mas na altura eram cinco anos.
Ainda era pré-Bolonha.
Pré-Bolonha. Nesses cinco anos, nos últimos dois anos, no terceiro e no quarto, eu fiz paralelamente o curso no AR.CO.
Ok.
Portanto, eu saía das aulas de escultura.
Das artes plásticas.
Sim, e ia pro AR.CO.
No castelo.
Exatamente, no castelo. Portanto, eu achava que eu precisava mesmo era de conteúdos. Quando nós pensamos na academia, nós pensamos que a academia também é uma fonte de informação muito direta, não é?
Sim.
Porque temos ali os professores, professoras e professores, obviamente, as colegas e os colegas, e tudo isso que é enriquecedor. É como se estivéssemos a beber copos d'água, a energia que traz. Mas o que eu achei? Que eu não estava a apanhar tudo. Há em mim também uma certa necessidade. O tempo, pra mim também é uma coisa que eu tento dilatar ao máximo, mas também tento comprimir ao máximo tudo o que eu posso fazer. Por isso, fazer dois cursos ao mesmo tempo era pra mim essencial.
Exato. Esta obsessão é uma palavra que te pode definir: obsessão. És muito compulsiva dessas coisas?
Sim.
As coisas da paixão e de lá vem isto. É muito giro, os teus suportes são muito variados, Ana: a instalação, o objeto, a fotografia, o filme, os textos, a performance, os neons e as palavras, tu gostas muito. É uma coisa que tu gostas muito e no teu também se vê.
É linguagem.
A linguagem. E depois aplicada na coisa luminosa, o acontecimento estético, o fenômeno da luz. É tão bonito e também gosto muito disso. E a fotografia pra ti é vital. Tu fizeste este projeto, "Self Portrait of Female Artists as Part of Society", e tendeste a passagem por Nova York quando também se deu uma epifania um dia, não foi?
Sim, eu nessa altura tinha uma namorada, que ainda hoje vive em Nova York, mas eu passava temporadas em Nova York nos anos 80, finais dos anos 80.
Era uma cidade vibrante já nessa altura?
Não, nessa altura é que era uma cidade vibrante.
Sim.
Não era tão domesticada como agora é.
Era mais wild.
Sim, havia um lado mais, não só wild, mas também menos polido. Agora tudo é muito dinheiro. Tudo é muito dinheiro, tudo custa muito dinheiro.
A economia dominou.
Completamente.
Também a criatividade, assim?
Não, a criatividade penso que continua, mas apesar de tudo, os criativos tiveram que sair da cidade. Por isso é que tiveram que ir pras periferias. Mas naquela altura, era tão vibrante. Tudo aquilo era excecional.
Tu já fotografavas muito?
Eu sempre fotografei. Porque a minha mãe adora fotografia.
Sim.
Não que faça nada. Tem sempre umas câmeras, que faz umas fotografias e tudo, e tem vários álbuns. E eu sempre gostei muito de fotografia, desde a analógica, e claro, e depois veio o digital e eu achei a coisa mais inteligente que há.
Gostaste imenso? Adaptaste logo?
Adoro o digital.
Por quê? Porque pode tirar milhões.
Exatamente.
Ou até andamos restritos àquele rolo 24 ou rolo 36.
Depois era preciso esperar.
Passava-se um. Exato.
Sim, exatamente.
Tinha que ser cada um, porque não era agora que tiramos mil. Pra aproveitar duas.
Obviamente.
Mas uma vez deram-te um encontrão, a máquina foi pro chão, não sei o quê. E ficou uma fotografia sem querer, de outro ponto de vista.
Exatamente. E isso é que é importante.
Em Nova York.
Em Nova York. Como eu estava a dizer, dá um encontrão na máquina, a máquina cai. Eu tinha a máquina agarrada ao tiracolo. Ao pescoço. A máquina cai, mas apesar de tudo, dispara e dispara num outro ângulo, mais baixo. Obviamente que antigamente haviam as câmeras que se olhavam por cima.
Exato.
Mas eu já não sou desse tempo, eu nunca tive essas câmeras. Claro, esta também é uma reflex, de visão direta. Tu olhas através da objetiva.
Quando fixas, tu fechas e abre, fixou.
Aquilo não é através de uns espelhos, que olhas lá pra baixo.
Exatamente. Hoje até se pode destacar.
Claro, e tudo isso.
Mas disparou então quando estava a cair?
Dispara e quando eu revelo, vejo uma realidade completamente diferente. Não é que eu não tivesse visto as outras fotografias feitas.
Mas disseste: "Olha que piada, isso é novo".
Mas isto é mesmo novo pra mim. Sim, um novo ângulo.
E fizeste muitas daí em diante, portanto, num ângulo mais baixo.
Mais baixo. Sim, gosto.
Curiosa. Há uma viagem que tu fizeste muito bonita à Chandigarh, à Índia, onde também tiraste centenas de fotografias. Onde, por exemplo, conheceste, e estou a falar agora aqui em 2015, no ano a seguir, o Taj Mahal. Tu já conhecias, como eu já conheço. Eu tenho sono de lá ir ainda. Mas toda gente diz: "Por que tu vais? É tantos postais, toda gente conhece, tá em todos os Bollywoods aparece". Eu sei, mas eu sei que há essa coisa do ir ver in situ esses grandes marcos da humanidade. Eu já vi alguns, quero ver mais, porque de fato não há nada como ver ao vivo. E tu tiveste outra epifania aí.
Sim, imaginas.
Tu já conhecias?
Não, conhecia, como tu dizes, pelas revistas.
Está em todo lado.
E nós voltamos à história do filme, porque acabou de sair um filme de Bollywood sobre o Taj Mahal, onde a visão do Taj Mahal, agora é um grande escândalo internacional mesmo, e dentro da Índia, porque é pensado o Taj Mahal enquanto um templo indiano.
Sim. Religião hindu?
Religião hindu. Como se fosse uma coisa que estivesse lá e que depois este mongol, este árabe, manda fazer por cima de umas ruínas.
Isso é falso. É ficção
Pois é.
É o mausoléu da mulher, do amor da vida dele.
Claro, mas o problema é que está a partilhar. Nós temos agora um problema na Índia gravíssimo. E já agora podemos falar em termos políticos, que é o nacionalismo brutal. Estão a correr com os muçulmanos todos. Isto está a ser perigosíssimo. E também com os estrangeiros, mas isso já é outro assunto. Para voltar ao Taj Mahal, claro que todos nós tínhamos a ideia do que é o Taj Mahal, o branco, o mármore, a luz, não sei o quê, os jardins, os quatro torres, tudo aquilo.
Arquitetura mogol.
Sim, maravilhoso. Mas nada me preparou, nunca na vida para ter entrado dentro daquele espaço e de repente a luz que atravessa todas aquelas pedras semipreciosas, que estão incrustadas no mármore, nas paredes reflete uma panóplia de cores que é surpreendente.
Tu passas por coisas brancas e tens a ideia que é uma tela branca. Não!
Não, é mágico por dentro, de cor. É lindo. E imagina a sorte que nesse mesmo momento tenham acabado de sair um grupo de pessoas e eu fiquei sozinha. Estou sozinha lá dentro.
Ficaste em respiração.
Olha, eu acho mesmo que parei de respirar.
É extraordinário. Certos lugares, como tu descreveste, não são para consumir, são para mudar o teu ritmo.
Sim.
Tão bonito. Eu já senti isso em vários sítios. No Panteão de Roma, alguns sítios assim. Os teus temas são muita exploração do cotidiano, abordas criticamente questões de identidade também. As tuas influências, claro, obviamente, Marcel Duchamp, obviamente, Lourdes Castro, Helena Almeida, tudo isto fala muito de ti. Eu já divulguei aqui a Drawing Room de 2022, por exemplo, que foi uma das que ganhaste. Este prêmio artístico destacado, representada pela No No Gallery. Estiveste também na Arte de São Bento, em 2023. Aliás, uma obra que foi muito destacada, a tua almofada.
Não é uma almofada, espera.
Era aquele saco de serapilheira.
É um saco, que pertenceu a uma trincheira.
Exato.
Eram 30 sacos, e depois um desses foi comprado por este colecionador, que é o Manuel Brito.
Isso faz parte da tua exposição que fizeste. Havia uma montanha. Ah, é um deles?
É um deles.
Tinha letras encarnadas.
Claro, que são statements políticos.
Aqui está usado como almofada, está no sofá do primeiro-ministro.
Porque eles acharam que tinha uma certa graça fazer isso.
É uma afirmação política.
Sim, uma afirmação. Mas, na verdade, aquilo é um saco de uma trincheira, que a ideia era serem vendidos, e foram, vendidos em unidades separadas, a 30 pessoas diferentes. Cada um só podia comprar uma.
E diziam "liberdade".
Diziam várias coisas. Sim, esta é a liberty, equality, fraternity. Mas outras, ni una menos.
Com a sua frase encarnada.
E o interessante, a ideia que está por detrás-
Destacaram a tua obra imensa, eu sei. Foram 40 obras de 33 artistas e depois a grande fotografia tua.
Também ficava ali bem, mas deixa-me só terminar este raciocínio, que é: a ideia que está por trás desta obra é que nós sozinhos não valemos nada. Portanto, a ideia de que cada um podia comprar este saco e nós os 30 fazíamos então a trincheira, o conjunto.
Expões individualmente desde 99. Queria destacar esta aqui de 2014, "Antes morta que burra". Uma exposição muito gira que tu fizeste aqui no Museu de Arte Popular, ali em Belém, que eram estas 38 orelhas de burro em feltro, nas quais tinham escritos também em vermelho, estes ditados populares com os burros. Burro velho não aprende línguas, um olho no burro e outro no cigano.
Essa é terrível.
Essa é terrível, racistíssima.
Racistíssima.
O burro velho, o passar de cavalo para burro, a pensar "o boi é um burro". Fizeste essa associação, aí também nas paredes, também estavam as palavras. É, de facto, uma exposição muito original, muito curiosa.
Interessa-me, quando eu te disse que para mim também há uma importância muito grande à linguagem. Eu queria te dizer que a linguagem também é ideologia, obviamente. Para já, a linguagem é uma linguagem masculina. Depois, é uma linguagem, que como nós agora comentamos, um olho no burro e outro no cigano, tem uma carga tremenda.
Exatamente.
E como é que nós podemos continuar a repetir. Mas o que eu queria te dizer com esta grande instalação, com as orelhas de burro, é que eu já não pertenço a essa educação que vem das escolas, em que as pessoas, os alunos.
Quando se portavam mal.
Quando se portavam mal.
Punham orelhas de burro e levavam canto.
Exatamente, num canto. Eu já não sou essa geração, apesar de saber isso. E é isso que me interessou. Como é que passa subliminarmente esta cultura? E o que eu estava a tentar mostrar era exatamente isso.
Extraordinário. Uma posição irônica e crítica, claro. Tu viveste entre Lisboa e Xangai. Tu foste a Xangai.
Várias vezes.
A primeira vez em 2008, se não me engano, e ficaste apaixonada. E depois foste quase todos os anos, ias. Um mês a três meses.
Três meses.
Uma vez em Xangai tiveste neste mercado de tecidos também, porque tu ias comprar também coisas para fazer. E depois: "Olhe, faça favor, quero quatro metros cada, nas sedas, por cores, quero quatro metros desta cor". E depois começaste a ver que ali havia aquele valor que estava mal contado. Foi ou não foi? Porque eles fogem do número.
Do número quatro.
A cultura chinesa associa.
Não é o quatro. Agora eu não te posso repetir, porque não sei absolutamente nada de mandarim, mas o quatro soa a morte. O que soa é morte.
Portanto, eles dizem um, dois, três, diz cinco.
Pois.
Está bem. E tu, em vista disso, eu quero quatro metros de cada tecido. Não está a ser traduzido? Olha, arranja-me cinco metros. A arte é isto, como tu dizes, negociar o invisível Tão bonito como aqui é uma coisa cultural, do outro lado do mundo, e que não corresponde aos nossos anseios, aos nossos desejos, às nossas necessidades.
É verdade.
E temos que nos adaptar para não chocar.
Sim, o choque cultural é sempre imenso.
É extraordinário isso, estas tuas histórias. E depois há os teus breviários e roubos, os objetos do quotidiano. E é muito engraçado, porque tens este breviário do quotidiano de 98, depois o número dois, que já tem quase 500 objetos. E é engraçado que neste filme também desmontas as malas que a tua mãe trouxe de Moscovo. Uma delas tem roupas, mas uma delas vai tirando os objetos e falando. É muito a tua cara isso, não é?
É, completamente.
Tu adoras isso.
Eu adoro isso.
Isto é uma moldura, isto é uma coisa que a minha mãe bordou.
Sou muito descritiva.
Os objetos.
Sim, os objetos.
Muito importantes pra ti.
São basilares, na verdade.
Engraçado. Muito bem. Tens muitas posições coletivas também nos Estados Unidos, em França, por aí fora, cá no MAAT. Tu tiveste então esta bolsa há uma década, um bocadinho mais, há 11 anos, uma bolsa na China. Ganhaste uma bolsa da Fundação Oriente, onde estudaste, estiveste lá três meses. Este projeto tinha a ver com a pintura sobre tecido. Estou a pensar na pintura batik, tem a ver com isto?
Também tinha.
Sim. E depois, entre os filmes, tu já tinhas feito este filme "Cesuras", por exemplo, são curtas-metragens, aliás, com super8. Tinhas feito, extraordinário, "Cesuras", esta terra que também aparece no filme. Em 2018, este "De qué casa eres?" era um vídeo teaser. E depois então este documentário que saiu ano passado, que fizeste ano passado, em 2025, longa-metragem documental. Este "De qué casa eres?" que é o nome deste filme e que vai estrear, é um projeto que começaste a investigar já em 2017, se não me engano, já faz oito, nove anos, e gira em torno deste episódio extraordinário em Espanha, durante a Guerra Civil, 30 mil crianças republicanas, os tais ninhos da guerra, foram exilados para diversos países e 2895 delas, os ninhos da Rússia, foram pra União Soviética. Muitos regressaram só quase 20 anos depois. Esta ideia, eu não conhecia este fato, mas há outros casos assim parecidos, este Kindertransport, por exemplo, da Inglaterra, 10 mil crianças, quase todas judias, que durante o início da Segunda Guerra, inglesas. Houve também na Alemanha três milhões de crianças que foram enviadas pro interior pra escapar dos bombardeamentos, as crianças de lobo da Prússia. Em França, também na Segunda Guerra, muitas vieram até Portugal, austríacas e alemãs. Em Itália também, pra fugir da pobreza. Isto é incrível, este "O Trem da Felicidade" é um filme da Netflix que mostra estas 70 mil crianças pobres do Sul que foram acolhidas pelas famílias do Norte, logo a seguir à guerra, pra escapar da miséria. Isto é extraordinário. Este caso, este teu trabalho, esta tua investigação, tem um cariz muito autobiográfico, porque estas crianças, bascas e não só, de Madrid, Astúrias, Cantábria, como a tua mãe, tinha o quê? Quatro, cinco anos?
Tinha quatro, cinco anos.
E foi levada. Os teus avós, ela e a irmã, eram duas irmãs, só?
Nesse momento eram duas irmãs.
Depois dela ir, então tiveram mais três crianças, mas a Conchita e a Angelita. Os teus avós achavam que elas iam pra umas férias, uns três meses.
Sim.
E foram 20 anos. Uma, a outra, mais até.
Mais, sim.
E por que escolheram aquele país? Como é que isto era escolhido? Porque foram pra vários países, as crianças, pra se poupar, perceba, à guerra, que estava muito grave.
O primeiro barco que saiu foram de crianças que vão ser recolhidas por Inglaterra.
Ok.
E são também cerca de 2500 crianças que vão. O meu avô é um comissário político e não está neste momento, e a minha avó tá grávida da terceira filha e não nos podemos esquecer que estão bombas a cair em Bilbao.
Exatamente.
Guernica está a ser bombardeado. A maneira como a minha avó pensa e lhe dizem: "Há esta possibilidade de saírem deste país."
Pouparem as filhas.
Sim, pouparem as crianças. Mas eu penso, não sei, que ela não sabe que é pra União Soviética, mas a União Soviética é um dos países que se presta a acolher.
Aliás, havia relações diplomáticas na altura, ainda eram países.
Claro, então é uma república.
E foi quem venceu a Segunda Guerra.
Exatamente.
E tudo pra dar certo, digamos assim.
Obviamente, e mesmo em termos de propaganda, aquele país também precisa. A União Soviética, nessa altura, também precisa demonstrar.
Que era um país normal, desenvolvido.
Obviamente.
A tua avó tirou um curso de medicina extraordinário em Moscovo.
Sim, e então é aí que a minha avó entrega estas duas crianças, mas sempre na perspectiva de que a República Espanhola ganhe a guerra, coisa que não aconteceu.
E portanto, elas seriam devolvidas daí a dois meses, três, quando fosse.
Obviamente.
Mas com o tempo, nunca pensou que ia perder as filhas 20 anos.
Pois não.
É extraordinário, tua avó volta uma médica.
A minha mãe, sim.
Sim, a tua mãe. A avó é que vê depois a surgir a tua mãe com 24 anos, médica formada em Moscovo. E depois muito chato esta coisa do regresso, porque nem é espanhola, nem é russa. Em Espanha acham que é russa e na Rússia era uma espanhola, viviam lá dentro de uma bolha, onde só o diretor da escola que era russo, porque do resto eram professores, eram espanhóis. Tinha amigas, tinha tudo lá. É extraordinário. Portanto, foram as duas, a União Soviética, até que as relações da Espanha com a União Soviética foram cortadas 20 anos, por isso é que elas ficaram também tanto tempo. O Stalin depois recusou devolver as crianças porque dizia que iam devolver as crianças pra um país fascista, comandado pelo General Franco. Portanto, com o Krushchev já as coisas ficaram mais aliviadas e então puderam vir, mas senão ainda tinham lá ficado. Há este trauma pós-memória. Tu também sofres disto?
O trauma pós-memória sou mesmo eu que sofro. O pós-memória é um conceito que são as pessoas Que não sofrem diretamente o trauma.
Não é as pessoas que passaram por aquilo.
Não, é as pessoas que, no fundo, herdam esse trauma, que é um trauma em segunda mão, diríamos assim. E que pode ser eu diretamente, porque tenho, tal diz, pelos genes, mas até outra pessoa que não tem nada a ver com a minha família pode ter esse trauma. Há uma empatia, na verdade, sobre o acontecimento, sobre o sofrimento que alguém tem traumático, e que tu te tornas empático e podes sofrer isso.
Por que tu quiseste contar isto? É uma catarse também? Tu contas isto de maneira tão bonita.
Eu também acho que é uma catarse.
Resolver isto um bocadinho. E por que agora? E tu contaste isso uma vez: "A minha mãe não deixou."
A minha mãe não deixou.
Nunca queria que se contasse o que ela viveu. Até porque a casa de família dela, em Espanha, já tinha sido destruída uma, duas vezes. E depois ela vem para Portugal, casa com um português, então, o teu pai. E aqui é que vai para Sesurse. Sesurse é terra...
O meu pai tem os pais, que têm terras, na verdade, nesta aldeia.
Tem vinha, e onde também toma conta da vinha, que começa assim o filme. É tão bonito. A Rainha da Vinha, ali a lenhar, é tão bonita essa cena. Mas, de facto, vem para cá.
Mas deixa-me contar-te por que vem para cá e como é que é a salvação. Eu penso que este terceiro país, como tu disseste tão bem, João, a Rússia é um país em que eles vivem enquanto os espanhóis, enquanto uma bolha.
Sim, dentro de uma bolha.
Dentro de uma bolha, durante muito tempo. Só aprendem a falar russo já quando ela tem 10 anos. De quatro fazia cinco.
Quando muda de escola.
Quando muda de escola, depois da Segunda Guerra Mundial. Depois, em Espanha, como tu bem disseste.
A casa já tinha...
Não só a casa, a família já tinha uma outra família. Já havia mais três irmãos. Mas não é só isso. Apesar de tudo, o espanhol que falam, isto é tudo a minha observação, não é uma coisa que a minha mãe fale, concretamente, e depois eu já te explico uma coisa sobre a minha mãe. E ao chegarem à Espanha, este espanhol não é o mesmo espanhol que se fala em Espanha. Imagina, é como nos nossos imigrantes.
Sim, claro.
E voltam e nós percebemos perfeitamente que não é só uma questão de léxico. Não é uma questão da maneira como a linguagem é.
Do vocabulário. Toda a entuação.
Não, é mais uma questão de sotaque.
Pois.
Então, nós temos.
Caramba, dos quatro aos 24. É o portu.
Percebes? Por muito que se leia em espanhol, que se fale espanhol, mas o espanhol não é igual.
Claro.
Então aí eu penso que há um choque também cultural, de absorção daqueles espanhóis de Espanha para estes espanhóis que vêm de fora.
Que são imigrantes.
Que são imigrantes, na verdade. E eu penso que este terceiro país, que é Portugal, a salva. É como se fosse uma salvação. Estás a ver?
Aqui não se importa com o russo ou com o espanhol dela.
Aqui toda a gente se importa, porque ainda hoje perguntam à minha mãe: "A senhora não é portuguesa, pois não?" Imagina, 67 anos depois, ainda lhe perguntam: "A senhora não é portuguesa, pois não?" Porque ela continua a ter um sotaque. A minha mãe sempre trabalhou nos hospitais civis, chega a ser chefe de serviço, toda a vida. Escreve um português maravilhoso, fala um português ótimo, mas obviamente que continua a ter sotaque.
Claro. Dá-lhe identidade, dá-lhe personalidade, eu acho.
Sim, mas também lhe dá distância.
Exatamente. Também cria anticorpos.
Sim, exatamente. Mas ainda voltava à história do meu pai. O meu pai traz a minha mãe.
Ele conheceu-se em Espanha?
E conhecem-se em Madrid, porque o meu pai estava a fazer um estágio com este grande professor médico, que se chama Gregório Marañón.
Ah, também era médico, o teu pai?
O meu pai, sim, também. Mas o meu pai tinha uma graça imensa, que eu acho que também herdei alguma coisa. O meu pai dizia sempre quando lhe perguntavam: "Senhor doutor, tenho aqui uma dor". E ele dizia: "Olhe, faz favor de desculpar, vai falar com a minha mulher, que ela é que é médica. Eu sou fotógrafo e radiologista".
Muito bom. Também deve ter alguma razão.
Sim.
Muito interessante. Mas a tua mãe é que só deixou agora contar. Passado este tempo, ela diz: "Já te tinha pedido antes, mãe, quero fazer um filme sobre a sua..."
Muito. Tinha pensado muito falar, trabalhar o tema da minha mãe. A minha mãe é uma pessoa muitíssimo reservada. Sempre falou muito pouco disto, mas também é uma pessoa muito reservada, mesmo no seu grupo de amigas. Estás a ver? Sim, pronto.
No teu filme nota-se que há coisas do teu avô. E ela diz: "Não, há coisas que prefiro não ir por aí, não quero falar disso ainda". Ainda há ali umas coisas que ela prefere guardar para ela.
Porque não é só reservada, eu penso que ela também tem pudor político.
O duplo significado do título é muito bonito, porque De quién caza eres? era a pergunta que as crianças faziam umas às outras, não só durante a estadia dela na Rússia, mas também em Espanha, quando regressou. E também é a questão da identidade da mãe. Que é muito interessante, que são tratadas como estrangeiras nos dois países a que pertencem.
Nos três, na verdade.
Exato. Houve muitos abusos de crianças em vários países, de muitas dessas crianças, graças a Deus, não aconteceu com a tua mãe, mas há depois histórias incríveis. A tua mãe só conserva essas boas memórias, creio eu, mas, de facto, não é o caso da tua mãe, mas houve histórias depois de abusos dessas crianças que eram lançadas para outros países. E neste caso Pois tu falas também das crianças. Havia umas mais rebeldes que outras, umas que ficaram presas, adolescentes, umas 50. A tua mãe veio casar pra cá. Tu fizeste então, entre as tuas exposições individuais, seis exposições de cacas aéreas aqui no Porto, na Madeira, Casa das Mudas, em Roma e aqui em Lisboa também, já com este material que tu inventaste, com esta exposição urgente, que aconteceu há cinco anos, episódios de um cotidiano, do bando republicano da Guerra Civil Espanhola. Portanto, esta "viva a República, República viva, não passarão", os 30 sacos de rapalha, que era uma trincheira com estas frases. Até que nasce esta ideia deste filme, que foste com a produção da Sopro Filmes. A música é muito bonita, Garcia da Selva, quero dizer este nome porque vale muito a pena. E então, um bocadinho esta história da tua mãe. Vais falando com ela e ela vai desfiando a história dela, vais abrindo a mala que ela trouxe, ela vai falando as histórias, começa no seu contexto, na sua vindima. Quando mostraste este filme, quando estreou em Tessalónica, na Grécia, como tu dizes, o filme deixou de ser teu. Porque de repente as pessoas identificaram-se, ou mesmo até quem se identificasse mesmo, viesse até contigo. Foi outra epifania. Tu tens várias na tua vida, não foi? Não é só hoje. Não, eu estou a brincar contigo. Mas em Tessalónica as pessoas foram apreciar a tua obra de arte, o que tinhas te entregue anos a pesquisar e a fazer. E foi uma revolução.
Porque também na Grécia sofrem um problema idêntico.
Ok.
Da guerra civil, as crianças também são evacuadas. E então esta senhora que vem ter contigo, que, na verdade, está nestas perguntas e respostas depois do filme. E ela diz com uma profunda comoção: "Eu vivi isto". E isto foi tão marcante pra mim, porque nesse momento eu percebi perfeitamente que o meu filme não era só meu, obviamente, isso já sabíamos.
Era um arquivo partilhado.
Era um arquivo partilhado, mas também esta história não era só esta história. Esta história era semelhante a muitas outras histórias. Mas essa semelhança, essa emoção que alguém pode sentir depois de ver este filme.
É extraordinário. Eu estou a começar a pensar nisto. E te faz muito lembrar o Tolstói, que dizia: "Tu queres ser universal? Pinta a tua aldeia". E de facto, é uma história que tu contaste: "A minha mãe viveu isto". E em todo o mundo, onde este festival já tem passado, este filme, em festivais, as pessoas vão reagindo. Por exemplo, na Universidade de Paris Nanterre, estiveste lá, também mostraste isto, projetaste este filme num seminário e também uma aluna veio ter contigo. "Eu sou de Sesures, não posso acreditar que a foste encontrar em Nanterre", arredores de Paris, uma menina que é da terra. "Eu sou de Sesures", é uma comoção.
É uma comoção imensa, tu não podes imaginar. A Paris Nanterre é uma das grandes universidades, com a Sorbonne.
Exatamente.
É comparável.
Extraordinário.
E de repente, neste seminário, que era de estudos portugueses, de cultura portuguesa, de repente esta rapariga, a comoção tão grande de ela dizer: "Eu sou de Sesures". O que isto queria dizer? Que a família dela é de Sesures. Ela já tinha nascido em Paris, mas a família é de Sesures e iam todos os anos a Sesures, obviamente.
Lembras-se essas raízes, essas coisas, que as pessoas ainda se lembram. Tu foste fazer pesquisa para o filme, pra Sibéria e para onde a tua mãe tinha estado, e lembravam-se daquelas crianças que tinham estado ali há 50, 70 anos.
Isso foi supercomovente. Eu chorei o tempo todo.
Pois imagino. Mas é engraçado que isso marcou as populações. E eram aldeias com cinco casas.
Sim. A aldeia tem oito casas.
Oito casas. É extraordinário. Engraçado que em inglês a tradução do teu filme seja: What do you consider home? Vi isto nos Estados Unidos, vi um sítio que falava disto.
Sim, mas o título não é esse. O título é: Where do you call home?
Ah, ok.
Sim, eu mostrei em Harvard.
Mas que também a coisa da identidade pega-se mais.
Sim, claro. E eu mostrei em Harvard, em Brown, nestas grandes universidades da Ivy League, noutras também extraordinárias, públicas. E é sempre comovente.
Não sei se tu és uma pessoa tímida. Eras, em nova. Tu vais falar agora em todos os festivais e tu dizes: "É showtime". Tu tens este truque que o teu amigo ensinou. Quando fores pra uma conversa pública, diz pra ti próprio: "É showtime, vamos aí".
Exatamente.
Ainda te enches de coragem. Pra vir aqui, fizeste isso?
Claro.
Não precisavas, estás em casa.
Não, mas eu digo sempre isso. É uma mola, é um motor acima. Sim, eu sou uma pessoa tímida.
Muito bem. Depois, em Madrid, eu gostei muito desta tua filmagem em Guernica. De facto, há este bombardeamento. Isto foi há uns anos que fizeste lá e filmaste isto com a tua camerazinha, que eu gostei muito dessas imagens. É de facto uma pintura impressionante, de ver ao vivo tudo que mostra e explica este cubismo e surrealismo, mostrar esta Legião Cóndor, pedida pelo Franco, dos alemães que bombardearam e dizimaram esta aldeia basca. E lembro sempre dessa história do alemão que viu, ele pintou isto em Paris, durou dois meses, o Picasso, e ele a dizer: "Então, foi você que fez isto?" "Não, foram vocês". Eu lembro sempre disso e acho, de facto, que a resposta é extraordinária. É brutal. E de facto, foi a mesma história quando estás mal. Também quando viste ao vivo e estiveste ali no Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, é um choque ver aquilo ao vivo. Aquela mural gigante.
É avassalador.
O que representa, porque é verdade.
Mas também, eu quero, João, dizer-te uma coisa. O privilégio de eu estar sozinha na sala onde está esta imensa pintura, que tem 10 metros por sete, é tão avassalador Que, para já, é uma escala que não é humana, é uma escala sobre-humana. O branco das paredes e o do pavimento, todo o mármore. Não estar ninguém à minha frente, nem empurrar-me. Portanto, eu tenho o tempo todo para assimilar. E não é uma assimilação racional, é uma assimilação pelo teu corpo.
Emoção toda corporal.
Sim, é uma coisa que não é replicável. E isso é incrível.
E depois aquelas cores em preto e branco. Eu só depois é que percebi que aquilo tinha um bocado a ver com as notícias que apareciam nos jornais e como era o preto e branco. Aliás, há texturas que parecem notícias de jornais.
Sim, tal e qual.
O cavalo e o touro, a candeia e a espada partida, todo aquele simbolismo, a mãe com a criança morta. É o poder da arte, como tu dizes. Isto é o poder da arte, são palavras tuas: "Não é explicar o que aconteceu, é fazer-nos atravessar por dentro, como se a obra abrisse uma fenda no presente". Tu és tão boa a falar das coisas, Ana.
Que bom.
O que eu mais desejo agora, o nosso tempo acabou, já sabia, foi muito rápido, era que seja um grande sucesso dia 16 de abril. Os outros já sabem que vão estar aí, só há cinema, este teu filme.
E muito obrigada aos ouvintes também.
"Casa Aérea", realizado por Ana Perez Quiroga. Não perca. Estreia então a 16 de abril e vale muito a pena essa história desta mãe, que é também a história deste mundo. E eu acho que estes filmes ainda mais são importantes agora, em que vemos cada vez mais fundamentalismos e populismos e o outro e estigmatiza-se o outro. E é muito importante este como filme de inclusão. Países que acolheram os outros e que foram acolhendo, onde ela se sentiu bem, foi cá. Toda a mensagem que, direta ou indiretamente, tu passaste, vibra e é muito importante. Bem-hajas pelo teu trabalho, pela tua crença.
Muito obrigada, João. Muito obrigada. Um privilégio.