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É a primeira vez que eu estou na rádio. Estou mais assustado de estar aqui do que propriamente numa casa abandonada. Vamos ver como é que isto corre.

Não sei se o meu convidado de hoje, o que ele faz é completamente legal, mas vamos arriscar. O David Cabral, para muitos, urbex major, é o explorador urbano. Isto é, descobre locais escondidos, casas e equipamentos abandonados e explora-os, ultrapassando riscos e documentando as suas aventuras. E temos muito pano para mangas. Em Portugal, há cerca de 730 mil casas vazias e abandonadas, numa altura em que o direito à habitação no país continua longe de ser uma realidade para todos. No total, incluindo antigas fábricas, quartéis, hotéis, igrejas, escolas, hospitais e monumentos, deve haver cerca de 1 milhão de edifícios abandonados ao silêncio e o Estado é o maior proprietário de património abandonado e deteriorado no nosso país. Pela primeira vez na sua vida e após um longo namoro pelo Instagram, o David finalmente acedeu e aceitou falar em público deste seu hobby tão fascinante quanto perigoso. Tal como escreveu José Saramago na Viagem a Portugal, encontrar estes lugares provoca choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa. Olá, David, e muito obrigado.

Olá.

Bem-haja por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Obrigado. É a primeira vez que eu estou na rádio, estou mais assustado de estar aqui do que propriamente numa casa abandonada. Vamos ver como é que isto corre.

Exatamente. Mas aqui é totalmente legal, não há problema nenhum, ninguém te vai perseguir. É engraçado. Tu nasceste no Dia Mundial da Criança, o que é uma coisa muito engraçada. E de facto, a tua vida diverte-se, a coisa que tu gostas de fazer é-

Sim, diz muito da minha personalidade, esse dia.

E também o humor, tu és uma pessoa com muito humor. Chegaste a fazer stand-up comedy, é uma coisa que tu gostas.

Há uns 10 anos atrás tentei fazer stand-up comedy, mas acho que foi uma carreira que foi um bocado por água abaixo.

E vives em Sintra, nasceste lá e vives em Sintra, numa zona maravilhosa, Património da Humanidade. Vamos começar então por isto, por este urbex. O que é urbex? Isto é a abreviatura de quê?

Urbex é exploração urbana.

É de inglês, não é? Urban exploration.

Exatamente. Urbex consiste em ir a locais abandonados, em tirar fotografias. Tem sempre a vertente da ética, de não estragar nada do que está naquele espaço.

Há aquela take nothing.

Take nothing but pictures, leave nothing but footprints.

É um bom mote.

Isto vinha de uma associação de pessoas que faziam caminhadas, e depois foi adquirido pela parte da ética da exploração urbana. E depois isto tem aquela vertente do que é que é legal, do que é que não é. Mas isso aí também podemos falar um pouco mais à frente.

Para já, que tipo de exploração existem? Há vários tipos diferentes?

Exatamente, existem vários tipos. Por exemplo, o rooftopping é aquele explorador que quer só ir ao telhado e estar em alturas. Eu já tentei fazer isso várias vezes, mas é um pouco assustador.

Para isso tens que saber parkour e coisas assim.

Um bocado de escalada, talvez.

Sim. Isso tu fazes?

Sim.

Rooftopping, não sabia. E mais o quê? Outro tipo.

Existe o urbex de infiltração. Agora, aqui o de infiltração normalmente não está associado só aos abandonados, também está associado a sítios que estejam em atividade. Isto aqui não é bem o urbex, mas também é considerado uma exploração urbana. Essa parte aí eu não faço, eu faço só mesmo dos abandonados.

Mas, por exemplo, esse urbex de infiltração pode ser, por exemplo, vais a uma central de uma barragem e à noite está tudo fechado, tentar entrar e ir lá para dentro.

Por exemplo, sim.

Isso é então é que é completamente ilegal.

É completamente ilegal. Existe um youtuber muito famoso que é o Shiey e ele costuma fazer esse tipo.

É português?

Não. Ele é da Letónia ou Lituânia, eu troco sempre os pés.

E faz isso. Muito bem. E quando é que te surgiu este gosto? Isto tem a ver com tu seres pequenino em Sintra, não tem?

Exatamente. Isto há muitos anos atrás, na vila de Sintra.

Não há muitos, tu és novo.

Não, há alguns. O Castelo dos Mouros. Aquilo era semiabandonado, havia um senhor que abria o portão e depois à tarde fechava. É o senhor Vítor, que tem lá o Lord Byron.

Ok.

E o que é que eu fazia? Eu ia para lá, antes de ele abrir o portão, já saltava o portão e ao final da tarde também saltava o portão só para me divertir. Fingir que estava a fazer uma grande coisa, mas isto tinha os meus cinco, seis anos.

Só andavas a passear, no fundo. Aí não documentavas nada, claro.

Nessa altura, não. Não havia telemóveis com câmara.

Exato. Hoje em dia. Já há uns 10 anos que fazes isto à séria, como hobby.

À séria.

Documentando as tuas aventuras.

Exatamente. Eu tentei criar um canal do YouTube, depois as redes sociais. Eu acho que estou a utilizar isto mais como hobby e se calhar o que eu venho aqui fazer hoje é um pouco falar da parte da ética, porque isto ficou muito popular e as pessoas pensam que agora está abandonado, podem ir, fazer o que quiserem, partir janelas.

Fica muito vandalismo também associado. Por isso é também esta imagem negativa de quem entra e quem penetra nestes sítios.

Exatamente.

Porque vão partir as casas de banho. Estou-me a lembrar daquele Palácio da Disney, por exemplo, ali em Sintra.

Exatamente, sim.

No Saco, aliás, acho que era. Não, é em Sintra.

Era em Sintra, sim.

Deste senhor Maia Nogueira.

Sim, o senhor Nogueira. Esse palácio foi completamente vandalizado porque houve uma divulgação da localização. E isto não pode ser feito desta maneira, porque ao divulgar as localizações a qualquer pessoa, existem sempre pessoas mal-intencionadas.

E que se aproveitam.

E que se vão aproveitar.

Roubam, partem tudo.

Exatamente. Até é mais partir do que outra coisa. Havia um vídeo de um rapaz a partir as estátuas de lá.

Incrível.

Ya, o que não faz sentido.

Nada de tudo. David, agora puxa pela cabeça. Por que nós em geral temos, não só tu, este interesse, esta curiosidade, este fascínio por lugares abandonados? Por quê?

Eu acho que a patina do tempo, ou seja, aquele musgo que fica nas paredes, a janela partida. Nós temos sempre aquela curiosidade de saber o que aconteceu à família que de repente foi-se embora.

As histórias que estão por trás.

É, as histórias que estão por trás, o que há ali dentro daquela casa. É sempre fascinante nós entrarmos numa casa e aquilo é uma cápsula do tempo em que está tudo arrumadinho, o prato em cima da mesa, a cama feita, e às vezes dá aquela adrenalina de: "Epá, eu tenho até um bocado de responsabilidade, eu tenho que assegurar que este local não seja vandalizado". Eu sinto muito essa parte da ética.

Responsabilidade.

De, se calhar, por fazer algum tempo, os novos exploradores não têm tanto.

Mas é gira essa coisa, como se fosse espreitar pelo buraco da fechadura, entrar na vida de outras pessoas.

Exatamente.

Tu entras em salas e coisas, tens os retratos dos avós e dos bisavós.

Exatamente. E na nossa cabeça imaginamos a história da família. E depois é a possibilidade de nós estarmos em sítios que as outras pessoas não vão. É uma espécie de museu em que não há acesso ao público normal e que estamos ali a usufruir de um espaço que parou no tempo.

Isto também é um bocado uma moda, os ruinólogos. Estou a lembrar da Discovery que tinha este Urban Explorers, o canal Discovery, o Fear, era um programa da MTV, Cities of the Underground, era do canal História. Houve este filme, After, do Cunningham. E depois as redes sociais também têm uma grande influência nisto, os fóruns, os blogs, os Instagrams, o abandonados.pt, que chegou a ser blog do ano em 2018.

Temos os Yellow Jackets, que é um casal que tem um casaco amarelo.

E tem umas máscaras. São esses que têm uma máscara ou não? Há uns que têm máscaras, nunca mostram a cara.

Não, não é os mesmos.

São outros.

São outros. Aquilo faz um contraste, como eles têm o casaco amarelo, depois aquilo é uma história de romance, em que eles estão sempre num local muito degradado e eles os dois muito românticos, e eles têm uma criatividade imensa na edição. E eles são portugueses.

Yellow Jackets?

Yellow Jackets. Também eram bons convidados pra estarem aqui.

Exato. Este abandonados.pt, falámos nisso. Urbex Lugares Abandonados, também, do David Tamão. Explorando o Esquecido, do Ricardo Silva.

Do Ricardo Silva, sim.

Há muitos. Face Oculta de Portugal, o Abandonados.pt, falámos, é do André Ramalho. Vagamundos, Vortex Mag, há imensos sites. Daí também as tuas fontes. Por exemplo, eu estou a pensar neste inventário, que já existe há quase 20 anos, do Ruinarte, do Gastão Brito e Silva, fotógrafo de arquitetura. Os livros da Vanessa Fidalgo e o Ricardo Raimundo, por exemplo, são dois que já escreveram livros sobre lugares abandonados, edifícios abandonados, já passaram duas ou três vezes por este mesmo espaço onde tu estás. Como é que tu planeias cada saída que tu fazes? Vais investigar ou calhas às vezes?

Existe muito trabalho de escritório, por assim dizer. Eu gosto muito de história e às vezes só o simples facto de eu saber o nome de uma referência histórica de uma pessoa, eu vou tentar fazer uma linha cronológica de onde é que ele viveu e bater ali os pontos. Eu fiz isso, por exemplo, na biblioteca de Sintra, Casa Mantero.

Ok.

E eu ficava com aquela questão: por que isto se chama Casa Mantero? E a partir daí eu fui descobrir a família, a história, depois alcei uma lenda obscura por trás, que ele supostamente aprisionava uma criada, e depois fui investigar mais e descobri várias casas abandonadas. Então, isto aqui é uma desculpa de eu ir pesquisar a história, pesquisar a localização e também para pesquisar sobre o meu próprio país, que eu estava ali naquela vila muito turística e não conhecia quase nada.

Sei de tuktuks e travesseiros.

Exatamente.

Vamos mostrar, mas isto é mais do que isto. Claro.

Tem que ir a Sortelha, tem que ir ao Luz, tem que viajar. Então foi uma desculpa também que eu arranjei.

E é engraçado porque o teu site, David, por isso é que eu também te sigo, Urbex Major, porque contas as histórias bem e vê-se que tu documentaste, falas de uma casa ou de um parque, ou o que seja, uma fábrica, uma barragem, que seja abandonado, uma prisão da Roménia, o que for. E depois contas a história, aqui esteve o Ceaușescu e aqui não sei o quê, essa prisão. E é engraçado, porque as pessoas aprendem alguma coisa ao ver o teu site, a ver onde é que tu consegues meter o nariz, porque é extraordinário.

Meter o nariz é uma boa expressão, sim.

Mas de facto há algumas questões legais, o lado fora da lei, de rombar, de trespassar. O próprio escavetismo, todas as casas abandonadas têm um dono.

Exatamente.

Mas temos que distinguir o que é ilegal e imoral, seja uma ruína ou seja imaculada, porque isto também há, este urbex também pode ser uma casa abandonada ontem e portanto está em ótimo estado e não quer dizer que seja uma ruína necessariamente.

Sim, o Estado é o pior proprietário que existe. Eu não queria dizer isto em público, mas pronto.

Não, mas é.

Eu disse para justificar.

Sim. Deixa deteriorar muita coisa que tem e tem muita coisa na sua posse. E vi umas fotografias tuas num hospital veterinário, tinha a morgue dos cães e dos bichos.

Sim, era um laboratório e tinha uma morgue.

Abandonado completamente.

Agora, João, eu lembrei-me de uma clínica veterinária, não era nessa foto, eu ainda não publiquei o vídeo. Mas aquilo foi algo que me É esta coisa das emoções. Nessa clínica veterinária havia partes de animais em frascos e aquilo tudo abandonado.

Em formol?

Sim. E aquilo causou-me uma emoção, uma tristeza.

Mas tem engraçado, normalmente eu que sigo alguns sites, vejo alguns blogs e alguns Instas de urban explorers, mas tu mostras a cara, porque tu sempre foste um bocadinho desconfiado, reservado em falar com os jornalistas, mas de facto dizias: "Isto pode ser uma oportunidade para clarificar este hobby e para dizer que não somos todos iguais e nem todos queremos destruir e queremos vandalizar". É verdade.

Exatamente.

Por isso estás a cara e estás aqui. Olha, isso é uma coisa que eu faço. Tu até fazes calendários com eventos.

É, para os meus amigos e para quem quiser comprar.

Mas isso que eu ia dizer, vai sair em breve. Estou a ver o calendário, aqueles típicos de parede, grandes, A4, com cada mês uma fotografia impactante e muito bonita. Eu estive a ver agora o de 25, o de 26 está quase pronto?

Não. Tenho que fazer ainda.

Está ainda a fazer?

Vou.

Pensa ter em dezembro e depois está aí, depois vendes.

Não, eu tenho que terminar este mês. Eu este mês vou ver se consigo terminar, depois eu mando para impressão.

E depois vendes. As pessoas se forem ao urban_major, conseguem ir?

Por mensagem privada. Eu não sou rapaz de muitas poses, então eu não mando imprimir muita coisa.

Então é por encomenda, digamos assim.

Exatamente. Quem quiser pode ter.

E como é que as pessoas chegam a ti? É pelo teu Instagram?

Sim, pelo Instagram.

Portanto, urban_major. Por aí as pessoas encontram-te e podem encomendar.

Urbex_major.

Muito bem. A ética no urbex é importante porque é fundamental não divulgar algumas localizações.

Exatamente.

Ou quase nunca, até, porque ao serem do conhecimento geral, o mais certo é serem vandalizados por pessoas que não querem saber, não sabem o que é o urbex e, portanto, a opinião sobre o urbex normalmente é degradada, não é?

Sim.

E quando os donos descobrem, nunca te aconteceu?

Já.

Seres confrontado, pessoas que te agarram na rua e dizem: "Você esteve numa casa que era da minha avó".

Isso já me aconteceu.

Correu bem?

Correu bem.

Ou falta-te um dente? Não, diz.

Foi mesmo isso. A pessoa sabia que aquilo estava tudo aberto. Ele inclusive tinha-me dito: "Já me roubaram aquilo tudo, roubaram-me as coisas lá dentro". Eu não sabia dessa situação. Vi uma casa que estava completamente aberta, tirei umas fotos e meti nas redes sociais. E a pessoa por acaso veio me dizer que tem pena daquilo estar assim, mas é um problema de herdeiros, então eles não se conseguem decidir e enquanto a coisa vai, não vem.

É de todos e não é de ninguém.

Exatamente.

A Vanessa falou nisso na entrevista dela. A maior parte destes problemas de abandono é por causa disso, as partilhas. Trinta sobrinhos e ninguém se entende, a coisa fica ao abandono.

E as insolvências, as empresas que vão à falência.

Tu na vida real, digamos assim, és técnico audiovisual. Trabalhaste na Cofina, por exemplo, na CMTV, depois no Sporting TV, um grande canal, depois na WTV Vision, no Canal 11, Multishow. És técnico de eletricidade de casas também e de videojogos, também tem a ver com a tua atividade, não tem?

Sim.

Cibersegurança, ainda por cima?

Sim, cibersegurança.

Nível 6. Isso é muito bom.

É nível 5, acho eu. Então enganei-me aí.

Nível 6 já está no teu LinkedIn. Não me digas que não é verdade. Mas isso quer dizer o quê? Que é uma área também que tu te especializas e dás apoio a empresas ou aquilo que pedem?

Eu na altura do Covid aproveitei para tirar esse curso de cibersegurança. A minha vida naquela altura era fugir de casa na altura dos confinamentos, mas não ir ter com pessoas, eu ia ter com os abandonados.

Exato.

E ao mesmo tempo estava a estudar cibersegurança, que tem a ver muito com a parte do hacker, que também, ao fim ao cabo, tem um paralelismo com a exploração.

Consegue penetrar em sítios onde os outros não vão.

Exatamente. É aquele puzzle, onde é que eu vou conseguir perfurar, por assim dizer, sem arrombamento forçado.

Entre as coisas que tu descobres, já descobriste coisas muito valiosas?

Já descobri.

Tipo moedas de ouro.

De ouro não sei, mas já descobri ouro. Fechei logo a gaveta porque eu não queria mexer naquilo.

Pois, fica com os teus objetos digitais. Aposto que em parte está o puxador.

Não, eu abri uma gaveta e parecia-me uma peça de ouro. Eu fechei aquilo e não quis saber. E era uma casa que já não tinha telhado.

Meio caminhada para desaparecerem rapidamente.

Sim.

Mas depois mortos, já encontraste cadáveres?

Encontrei esqueletos, sim.

Ok.

Numa igreja, era um buraco que havia numa parede.

Era muito comum nas igrejas.

Sim.

Era onde sepultavam.

E já encontrei também mesmo em sepulturas. Elas estavam abertas e havia lá ossadas.

Outra coisa que tu às vezes passas, que eu vejo filmes teus, é carros antigos, cemitérios de automóveis, muitos. Carochas dos anos 40. Isto é extraordinário.

Sim.

E quem às vezes sabe que isso existe, se calhar quer recuperar. Há pessoas que se dedicam a isso e adoram isso.

Exatamente. Há alguns seguidores que eu tenho que gostam de seguir estas páginas para depois irem falar com os donos.

Falar com os donos.

Para fazer o resgate desses carros.

Claro, às vezes vês ali completamente abandonado, em telheiros já sem nada a cobrir. E depois vês Volkswagen antigos, Minis antigos e Datsuns antigos. É extraordinário.

No meio do mato, isso já me aconteceu.

Incrível.

Há uma no Porto que aquilo até me faz confusão. A natureza envolve-se com os carros, então aquilo é uma mistura de carro, sucata e natureza. As árvores a nascerem no meio dos carros, aquilo é muito fixe.

Poético.

É, sim.

David Cabral, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Estamos a conversar com o David Cabral, para muitos urbex major. Ele é um explorador urbano, natural de Sintra, que vem contar as suas aventuras. Estamos aqui a falar destas questões, por exemplo, com as coisas que tu vais descobrindo. Cruzas-te às vezes, quando estás a explorar os espaços, com outros urban explorers como tu, urbexers?

Sim.

Vocês dão-se bem ou são muito rivais uns dos outros?

Eu acho que há uns anos havia uma competição muito tóxica, mas acho que hoje em dia o pessoal já está um bocado mais crescido e já não anda por aí, por esses atalhos.

Tu também já fazes isto há mais de 10 anos.

Sim, eu nunca quis chatices com ninguém. Quando eu vejo que a pessoa está para aí virada, eu afasto-me e não quero saber.

Ok.

Mas aconteceu-me uma coisa engraçada. Uma vez estava num presídio militar abandonado e eu estava com a sensação que estava ali mais alguém. Estou a andar muito sorrateiramente, porque parecia mesmo que estava ali alguém. Eu olho para uma das celas e vejo duas cabecinhas a olharem para mim e eu assim: "Quem é que está aí?"

Assustaste.

Assustei-me, eles também. Depois começámos a rir porque percebemos.

Eram dois militares em prisão perpétua.

Também.

Mas diz.

Não, eram dois exploradores, era o Daniel Pereira e a Rita. Estavam eles ali escondidos.

Também estavam escondidos, também ouviram o barulho e ficaram: "Há alguém".

Eu sempre que vejo um explorador urbano num local abandonado, eu começo a me rir.

Eu vi um filme teu em que encontras alguém e dizes: "Então, está tudo bem?" Ele lá em cima das escadas. "Tudo bem. Tchau, até já." E cada um depois no seu percurso. Para quê? Por quê? Qual é o objetivo de fazer o urbanex? Há imensas ideias de nostalgia, dos escritores, a história. Por quê?

No meu caso em concreto, inspira-me para ter mais criatividade. Por isso aquela história que eu estava a dizer do Covid, eu estava a me sentir ali enclausurado.

Sufocado.

Sufocado em casa. É esta coisa do confinamento. Então foi um bom escape para a minha mente fugir, editar vídeos, tirar fotos, escrevi sobre os locais abandonados. E muita gente faz isso. Uma escritora que eu gostava de referir, que é a Elisabete Oliveira, autora do "Muro de uma Cerca". Em todos os livros dela, ela mete um cenário abandonado, porque ela inspira-se nisso. Ela é na margem sul, e na margem sul existem muitos abandonados e ela própria é exploradora também, também vai a muito local.

E pintores também vão ao acordo daquela pátina.

Exatamente.

Dizes sempre que isso torna os edifícios muito bonitos, a pátina do tempo.

Sim.

E além dos que gostam, como tu, de fotos e vídeos e gostam de fotografar, de modelos tipo cosplay, como tu dizes.

Exatamente, sim, com máscaras e tudo. Há vários tipos de urbexers. Há aqueles que vão a solo, há os que vão em grupo, há os que são os staging.

Encenam.

Encenam um cenário para tirar uma foto, para fazer um vídeo, para ficar mais bonitinho.

Que é de moda, há quem faça isso na margem sul. Há fábricas abandonadas junto ao rio, onde eu já vi muitas sessões de moda, onde os vejo a passar no meio das coisas, tudo abandonado.

Sim, mas depois sempre com aquela coisa da ética, que quando se forem embora têm que colocar tudo outra vez no mesmo sitio.

Muito importante.

Mas depois há os puristas, que é aquele que entra num local abandonado, até as pegadas ele vai limpar, não toca em nada, tal como está, tira a foto e vai-se embora.

Exatamente.

Não mexe nada.

As ruínas, portanto, contam histórias?

Obviamente, sim. A ruína é algo que eu me sinto protegido, vou ser sincero, porque filtra pessoas. Há muita gente que não vai para lá e quem vai são pessoas bem-intencionadas como eu, que gostam de história, gostam daquele espaço e estão à procura de algo bom e não querem estar ali a fazer festas, como por exemplo no Palácio da Disney.

Sim, exatamente, como aconteceu muitas vezes.

Sim, e nós na ruína podemos também viajar ao passado. Por exemplo, aquelas marcas que há nos castelos das pedras, que era dos pedreiros, para saberem quanto é que subiam.

Exatamente, as siglas dos pedreiros.

Esses pequenos detalhes, isso depois nós vamos aprendendo essas pequenas histórias.

Levas roupa especial? Eu depois já vou falar do teu livro, porque eu sei que está aí um livro na calha que devia acontecer, que é um guia como. Roupa especial, luvas, como é que é? Tens botas especiais, levas cordas, como é que é?

Eu vou ser sincero, eu sou a pior pessoa nisso.

Tu mexes em tudo com as mãos?

Eu às vezes levo luvas quando está muito enferrujado ou algo do género para não me magoar.

Claro, é muito perigoso. O tétano?

Sim, eu tenho a vacina em dia, que eu era para ter ido para a polícia.

Tu mexes em coisas e eu tomei a vacina. Mas e então?

Existe o calçado próprio. Agora, eu vou sempre de chinelos, ou quase sempre.

A sério? Porque e os vidros e coisas, é muito perigoso. Estás maluco? David, já sabia que eras, mas agora acho ainda mais. Pensava que usavas botas já da tropa, para resistirem a tudo.

Às vezes, mas eu não gosto, porque eu estou no trabalho. Eu estou sempre calçado. Então quando eu vou descontrair, eu vou é de chinelos. Mesmo que tenha pregos.

E quando vais?

Vidros e tudo mais, e cães.

És um bocado louco. Esta parte a gente tem que cortar.

Não sei.

Não, mas é incrível. Mas o teu livro diz que aconselhas também às pessoas irem protegidas.

Sim.

Não digo máscaras, mas, por exemplo, luvas acho melhor.

Não, mas até máscaras. Há zonas que têm químicos e ter um filtro na boca, eu acho que é até mais aconselhável. Sim, eu falo nisso, falo como é que se descobre estes locais de uma maneira básica, que é ir ao Google, por exemplo, e colocar a região e o local abandonado e vais descobrir várias histórias.

E há essas fontes também. Também tens uma bibliografia para as pessoas poderem consultar e o livro da Vanessa e do Ricardo.

Sim, do Gastão.

Tu tens aí um manual também, um inglês. Chama-se como? Mostra lá.

"Access All Areas".

"Access All Areas". Do autor?

Nigel issues, ou seja, aka Jeff Chapman.

Ok.

Chapman, eu não sei dizer.

Ok.

Ele é um canadiano.

Muito fotografado, com muitas imagens.

Sim.

E que recomenda como aceder a locais abandonados.

Exatamente, isto foi nos anos 90. Agora, eu sinto que isto está um pouco desatualizado e não é para a realidade portuguesa. Por quê? Porque ele aqui, na altura, promovia a divulgação das localizações, para toda a gente. Eu acho que hoje em dia isso já não faz muito sentido.

Sim, claro, tem que se ter cuidado com isso. Os teus perigos que já te aconteceram. Cães, por exemplo.

Sim, já fui atacado.

Saltas muros e vêm cães a correr contra ti, às vezes. Já aconteceu?

Já aconteceu, sim.

O que é que tu fazes? Levas na mochila um bife?

Já levei ração para os cães.

Estava a brincar e levou mesmo. Os poços, as estruturas em risco de derrocada, as escadas podres, penso sempre nas escadas.

E vespas asiáticas, ocupas.

Já te aconteceu?

Já. Já aconteceu uma ocupa vir com um pau a querer me bater.

Sem-abrigos, exatamente.

Mas também já aconteceu o contrário, um ocupa mostrar-me a casa e explicar-me a história da casa, assim como caseiros.

Isto também já te aconteceu no lazareto onde tu estiveste?

O lazareto, eu pedi autorização a um senhor que tinha um terreno ao lado, que era o senhor Fernando E depois disse: "Olho, eu quero ir ao lazareto, vou ver se consigo". E ele: "Está bem".

Isto é algo que existe noutra banda?

É, exactamente.

Eu acho que é. Porque era muito conhecido. Aliás, acho que esteve lá o Rafael Bordalo Pinheiro. Esteve lá internado antes de uma vez que saiu de Portugal e quando voltou, estávamos em plena gripe pneumónica ou alguma coisa assim do género.

É provável.

E ele esteve no lazareto ali junto ao Feito, na margem sul, durante umas semanas. É um lazareto que fica aqui perto. Diz lá. E o pobre caseiro ficou?

Quando olho para a parede, vejo um canino de uma arma e era o senhor caseiro do lazareto. E eu: "Boa tarde, olhe, eu venho aqui da parte do Fernando", que era o senhor que eu tinha pedido autorização.

Boa sorte.

E ele: "É amigo do Fernando? Entre". Entrei e fiquei a tarde toda na conversa com o senhor do lazareto. E depois fiz o contrário. Havia exploradores que queriam explorar o lazareto e eu: "Não podes entrar!" Então foi o reverse da coisa.

Nunca te aconteceu o chão desabar debaixo de ti?

Já aconteceu.

Ou um degrau, uma escada, qualquer coisa.

Uma vez.

Mas eu acho que está sério.

Eu não sei se devia dizer esta localização, mas já está restaurado. No Palácio Silva Amado, aquilo estava tudo abandonado.

Já está restaurado, é tranquilo, já é público.

Sim. Eu estava num primeiro andar ou algo do género, a andar, e de repente esse primeiro andar literalmente está a inclinar e a ceder. E eu devagarinho-

Há filme?

Há filme. E eu devagarinho consigo sair.

Subir para te agarrar outra vez.

Sim, eu apanhei um cagaço.

Já aconteceu com uma amiga minha e a mãe dela, que foram visitar uma casa na Gomes Freire, à frente do Judiciária, visitar uma casa que precisava de obras, elas iriam comprar, caiu do primeiro andar para o rés-do-chão, caiu o chão todo, ficaram todas muito feridas. A sorte é que o marido e pai delas tinham um hospital na Reguleira e portanto safaram-se.

E receberam uma indenização brutal, compraram três casas iguais. Tem que fazer isso.

Exploração noturna. Também vi um filme teu com exploração noturna, o que é muito perigoso. Tu és maluco.

Não. É bom. Então o que é que acontece?

Com as lanternas e tal.

Com as lanternas. Às vezes nós chegamos ao local abandonado e não temos luz e queremos apanhar aquela golden hour, tanto do pôr do sol como do crepúsculo, como do amanhecer. Então nós podemos ficar lá a dormir, pronto, aquilo está abandonado.

Já te aconteceu.

Sim, ficar. No chalé do Conde Amial.

Amial, sim. A casa azul, linda.

Exatamente.

Essa é que é no Bussaco.

Sim, eu dormi lá na sala dos cisnes.

Tem um teto lindo, parece Manuelina.

Só que infelizmente já foi muito divulgada e agora andaram lá a grafitar aquilo tudo, partiram o resto. Está um bocado degradado.

Tinha um estuqueiro muito bonito, que parecia a ala da batalha.

Que era os cisnes supostamente dos filhos dele.

Quatro cisnes, exatamente.

E depois essa história tem um-

Acordaste.

Acordei cheio de pó. O pai dele e o avô eram colecionadores de arte.

Os condes de Amial eram riquíssimos, eram condes do Rei Dom Carlos.

Imagina o-

A casa era um museu autêntico

...espólio que devia estar lá.

Fizeram um leilão com o espólio dele, não sei se sabias, David. Rendeu milhões, porque tinham Columbanos, Malhos e quadros do melhor que há naquela casa. Agora já não vi nada, claro, mas a casa é muito bonita. Mesmo.

Sim.

Acho que acordaste com uma coruja, não?

Acordei com uma coruja. Isso foi numa igreja abandonada.

Ok.

Eu estava lá sozinho.

Acampaste lá?

Acampei lá.

Acantonaste, no fundo. Estava dentro de casa.

E de repente, a meio da noite, ouve-se assim um grande estrondo. Eu estava lá sozinho nessa igreja. Ouve-se um grande estrondo. Eu olho, uns olhos num corpo branco, olhos negros.

Extraterrestres.

A olhar para mim. Eu: "Isto é um extraterrestre, eu vou para casa, é agora que eu vou para casa, eu vou-me levar para cá".

Exato, vou levar para o outro planeta?

Pronto. Era um fantasma ou qualquer coisa. Depois eu olho bem, era uma ave que estava curiosa de saber o que eu estava ali a fazer, aquelas corujas da igreja.

Era uma coruja das torres, das casas brancas.

Exatamente. E ela fazia um barulho tipo que é um bocado assustador, mas pronto, depois dormi com ela ao saber que ela estava lá. Pronto, é relaxante.

Por isso é que compraste este ano na Feira do Livro o "Guia das Aves"?

Também, eu gosto de aves.

Ele durante as compras na Feira do Livro: "Pessoal, vou pedir a ajuda a todos", dizias tu no filme. "Eu estou aqui há um quarto de hora e já gostei um bando ordenado". Eu percebo o que é essa sensação, é terrível. A Feira do Livro é tramado.

Eu ainda por cima fui lá duas vezes.

Mas compraste um guia das aves. Olha, e agora falaste nisso, que estavas sozinho. Isso é muito perigoso, ir sozinho. Tu vais sempre sozinho?

Não. Eu sei que é muito perigoso, mas eu não aconselho a irem sozinhos, e se forem, pelo menos digam a alguém a localização onde estão.

Exatamente.

Por exemplo, eu na Roménia estava completamente sozinho. Eu fui a uma prisão.

É diferente.

Estupidamente, eu não disse a ninguém que estava num local abandonado. Eu posso dizer aquela palavra?

Podes.

Desculpem. Eu não disse a ninguém que estava num local abandonado. Depois é que me lembrei: "Espera, isto tem cães, isto tem um homenzinho que anda aqui". Lá dentro é que depois lembrei que se calhar devia ter informado.

Claro.

Mas em grupo é sempre melhor, protegem-se uns aos outros.

Treino físico, tu estás sempre em muito boa forma, o que é bom. Fazes muito bouldering e escalada, não é?

Eu tento fazer.

Recomendas imensos sítios, o Crooks Climbing Center ali ao Pedrinho, em Gondomar, e o altíssimo Climb Up, o Vértigo, indoor climbing. Escalada também fazes, a escalada no 25 Lisboa. Isto ajuda, o bouldering ajuda para galgares estas paredes.

Ainda estou muito no início.

Nos filmes que tens já estás qualificado, estás quase olímpico. Mas de facto, publicar um livro era um sonho para ti e já tens o manuscrito. Já está praticamente pronto?

É fazer uma revisão, mas já tenho 13 capítulos feitos. Isto foi uma coisa que ao longo dos tempos eu fui escrevendo.

Muito bem.

E agora o último ano decidi: "Não, eu tenho que apurar isto e meter cá fora".

Estávamos a fazer aqui este apelo para estas editoras, que são muitas, para editarem este livro. Vai ter muitas fotografias? Devia ter. Tu tens imagens muito boas. Faz calendários, caramba.

Eu queria ter algumas fotos, pelo menos daqueles sítios mais emblemáticos, mas isto também é um guia prático para qualquer pessoa perceber qual é a intenção de nós irmos aos locais abandonados.

Como ir, como pesquisar, o que levar.

Sim.

Muito importante.

Este livro pode ser até para o caseiro estar a ler e saber quem são as pessoas que volta e meia entram lá dentro, que não são pessoas com más intenções.

Muito bem. Como fazer urbex. No fundo, é este livro que fica aqui este apelo às editoras. Agarrem, por favor, esta ideia. Já sabem que podem encontrá-lo no Instagram, urbex_major.

urbex_major.

Así é que é. Muito bem. Tomar as férias para ir explorar lugares abandonados, como aconteceu com a Roménia este ano. Querias muito ir à Roménia.

Eu não tenho vida, então a minha vida é ir aos locais abandonados, basicamente. Não tenho mulher nem filhos, então os meus filhos é tirar fotos nos abandonados.

Este ano foste à Roménia. Andaste nesta prisão da Doftana. Uma prisão extraordinária, gigante, está no teu calendário de 2025, onde esteve o Ceaușescu, por exemplo.

Sim.

Agora é um complexo gigante, todo abandonado.

Aquilo vai ser um hotel de luxo, supostamente.

Já há um projeto.

Existe um projeto, só que a burocracia na Roménia ainda é pior que a portuguesa.

Não pode.

Então aquilo está a enrolar e aquilo está a degradar-se completamente.

E tu também levas na tua mochila um drone, não levas?

Sim.

Já tens imagens de drone. É muito importante, para o sítio onde tu vais, dá outra visão totalmente diferente.

Eu desde que tenho o drone, acho que melhorei um bocadinho na parte da imagem, porque eu não sou um fotógrafo profissional, apesar de ter o curso técnico de audiovisual.

Exato.

Mas o drone dá uma imagem aérea, é algo que eu até gosto, mesmo que seja só fachada, e às vezes nem há a necessidade de entrar lá dentro, o que é bom.

Muito bem, já ficas de ver antes. Dá-me alguns exemplos, antes dos sítios, uma ou duas coisas mais estranhas que tenham acontecido nestas explorações, que tu te lembres. Além de teres decorado com uma coruja que parecia um alien a olhar para ti.

Eu acho que a mais estranha, ou uma das mais estranhas, foi num hospital em Vialonga. É um hospital que está abandonado há mais de 30 anos. E aquilo está a ser utilizado por toxicodependentes.

Ok.

Nós não sabíamos. Entrávamos lá dentro para tirar fotografias, todos contentes. De repente, entra lá um homenzinho, toxicodependente, a começar a dar socos no ar, e nós escondemo-nos. Era eu e uma amiga minha. Nós escondemo-nos atrás de uns arbustos. E tivemos que esperar que o senhor acabasse de dar ali a sua dose. Foi um bocado triste.

Mas depois saírem em segurança.

E depois a pessoa saiu e nós saímos depois em segurança, mas aquilo foi das situações que podem acontecer nos abandonados, porque para além dos ocupas, também há muita utilização disto por toxicodependentes, destes espaços, infelizmente.

Exatamente. E alguma coisa mais divertida que tenha acontecido?

Sim, na colónia de férias de Cuf, em Colares. Almcegem. Estava eu muito bem a tirar as minhas fotozinhas, todo contente. De repente, vejo um casal de idosos a entrar e eu: "Ei, pá, já vou ser apanhado". Mas eu decido afastar-me, esconder-me e ouvir a conversa deles, porque eu sou muito curioso. Tanto que sou curioso, estou sempre a entrar na casa dos outros. Eu percebi que eles também tinham saltado o muro. E esse casal de idosos, o homem tinha sido uma das crianças em 1950.

Incrível!

Estava a contar a história.

Colónia de Cuf.

"Aqui nós tínhamos a missa, porque aquele era o Estado Novo, aqui era o recreio".

A mostrar à sua nora nova.

Exatamente, à sua nora nova. E eu ali todo contente a absorver aquela vivência que ele teve nos anos 40, 50.

Sim.

E depois o engraçado foi, eles estavam a entrar numa porta e eu depois não queria ser apanhado. Eu tive que saltar a janela, assim um compasso de espera e pronto. Eles nunca chegaram a saber que eu ouvi aquela história maravilhosa daquele senhor.

Que giro. Olha, e o teu livro vai além. Tu estiveste no Palácio Burnett ou o Chalé Azul do Condomião, já falaste. O Onda Park, a Quinta das Águias, também tem uma grande história. E as Termas das Águas de Rádio, super radioativas, que era considerado extraordinário. O Palácio da Disney. Algum destes, um que seja o teu preferido, a ruína que tu visitaste, que achaste: "Isto encheu-me as medidas".

Eu acho que não tenho nenhum que seja o supremo.

Tens vários que tu gostaste.

Sim. Agora, existe uma casa, que eu nem queria falar muito dela, mas era a casa do cineasta e a casa ardeu. Ainda por cima era relativamente perto de onde eu vivia. E eu sempre tentei proteger aquela localização ao máximo, nunca divulgava nem nada. Quando via o portão aberto, fechava, porque aquilo depois era muito tuk-tuk e turismo. Alguém deve ter lá entrado e aquilo ardeu.

Ardeu.

Aquilo tinha tripés, vinis.

Ainda comentaste como era antigamente.

Sim, aquilo era mesmo de um cineasta.

Muito bem, David Cabral, o nosso tempo acabou. Foi um grande prazer falar contigo. Como vês, eu disse que ia passar rápido.

Foi muito rápido.

Fica aqui este apelo final, @urbex_major. Já sabe para contactar com ele e sobretudo, além do YouTube, TikTok, Facebook, tudo o que tu tiveres e que vale a pena ver. Enquanto não há livro, temos que nos cingir a este Instagram, mas para já, editoras, estejam atentos a este guia importante para conhecer e para fazer esta urban explorer, para saber como é que é, a ver se apanham aqui o David Cabral. Muito obrigado por teres vindo.

Obrigado a você pelo convite.