Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Temos o cianeto, a botulina, o veneno dos sapos ou das serpentes, por aí fora.

Exatamente. São coisas naturais e tóxicas.

Podem ser mortais e altamente tóxicas. E temos coisas sintéticas que nos salvam a vida, como o cloro. Quantos milhões de vidas o cloro não salvou no tratamento das águas, por exemplo?

Exatamente. Numa altura em que a população mundial não para de crescer, a disponibilidade de solos é menor e há uma necessidade urgente de produzir alimentos de forma cada vez mais eficiente, segura e consciente. E agora que a agricultura voltou ao centro do debate europeu, vamos combater alguns mitos mais comuns ligados à agricultura e à alimentação. Porque biológico não é sinônimo de sem qualquer químico. Antigamente, os alimentos não eram mais seguros. Organismos geneticamente modificados não são necessariamente perigosos. Alimentos biológicos não têm automaticamente mais vitaminas ou minerais. O que é natural pode ser venenoso e o sintético, às vezes, salva-vidas. A agricultura ainda é erradamente vista por muitos como pouco inovadora, um setor atrasado, usa a água de forma irresponsável e é a principal causa das alterações climáticas. E os pequenos agricultores não são sempre mais sustentáveis. Para desmontar estes e outros mitos, convidei João Cardoso. Ele é diretor-executivo da CropLife Portugal, Associação da Indústria da Ciência para a Proteção das Plantas, que nos vem desmontar alguns mitos que estão comumente ligados à agricultura e à alimentação. Olá, João, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Obrigado, João Paulo.

É verdade, João, que um tomate tem mais tecnologia que um iPhone?

É verdade.

Eu vi esta frase e pensei: "Claro que isso deve incluir tudo o que é investigação genética do melhor tomate e depois das culturas e da rega. Deve estar isso tudo incluído aqui, não é?"

O autor dessa frase é do Mullet, que é um bioquímico espanhol, que dedicou muita da sua carreira a desconstruir muitos dos mitos ligados à agricultura e à ciência da alimentação. E de facto, ele sintetiza isso tudo nessa frase, que é: "Um tomate tem mais tecnologia que um iPhone". Isso é verdade, se olharmos para todo o caminho que um tomate faz ou qualquer variedade. Tem anos e anos de seleção de variedades.

Apuramento das melhores espécies.

Exatamente. Portanto, toda a ciência por trás da agricultura, desde a gestão da umidade, à preparação do solo, toda a agricultura regenerativa e de conservação. Depois, a proteção das culturas, que tem uma imensidão de ciência por trás e já lá vamos falar disso, certeza.

Proteção, tudo o que é pragas.

E depois olhando para a frente do que é a agricultura, toda a distribuição, cadeia de frio, gestão de dados.

Para chegar em boas condições, até chegar ao consumidor, à mão do consumidor, ao prato do consumidor.

Com o maior segurança possível. Portanto, tudo isso tem a quantidade de gente e a quantidade de tecnologia que está por trás disso.

É extraordinário. Tenho que cortar isso, João. Tu és engenheiro de ambiente, és mestre em engenharia sanitária, tiraste um mini MBA em finanças empresariais e fiscalidade aplicada e depois especializaste, na Nova SBE, também, em agribusiness e sustentabilidade. É muito curioso, porque este teu apelo, tu és a pessoa mais bem informada pelo lugar onde estás. Este apelo da agricultura vem de onde? Tua família já cultivava coisas em Loures?

Não, não cultivava. Os meus familiares não são agricultores, contudo, ao longo da vida, sempre fui um pouco rodeado de agricultura, quer no sítio onde passava férias, perto de Torres Vedras, por exemplo. Que ainda temos lá uma casa. E desde novo, sempre estive rodeado de pêras, de vinha, por aí fora. Portanto, o meu primeiro trabalho foi vindima, por exemplo. E depois estudei no ISA. E logo aí temos contacto com o Instituto Superior de Agronomia.

Uma escola extraordinária.

Eu, apesar de ser de ambiente, partilhar cadeiras também com o tronco comum de agronomia. Portanto, logo aí essa troca de experiências, quer com colegas, quer com professores, com colegas mais velhos também, vai-se absorvendo aquilo um pouco que é a agricultura. Por outro lado, as disciplinas de ambiente permitem tocar em muitas das áreas da sociedade, e a agricultura é uma delas e tendo tirado a licenciatura no ISA, obviamente que o contacto é muito direto e isso acabou por me preparar um pouco, não para ser agrônomo, mas para conseguir dialogar de alguma forma com a agricultura.

Com este setor. Uma escola extraordinária, tem um hectare de vinha, por exemplo, as pessoas não têm noção, em plena Lisboa, da riqueza que é aquele campus do ISA.

Precisamente, são cerca de 100 hectares, se não estou em erro, onde existe vinha, pomares, um olival, até.

Um olival? Não sabia.

Onde se faz o cultivo de cereais e também outras hortícolas e outras experimentações que existem, portanto, vão rodando conforme o interesse das cadeiras. E de facto, dentro do próprio campus, que são 100 hectares, é um pulmão agrícola dentro da área de Lisboa.

Da capital.

Sim, da capital.

É extraordinário.

E é excelente para as pessoas terem o contacto com a agricultura.

Sem falar de pavilhões de exposições e o observatório, que o meu quarto avô era o fundador. Vamos a isso. No teu percurso profissional, houve uma passagem tua pela Dancake, que eu acho que tem graça, porque uma coisa que tu tinhas era avaliação de risco e segurança pra saúde e avaliação de atmosferas explosivas. Isso é o quê?

São as atmosferas ATEX, que é a sigla, que são atmosferas explosivas. Isso tem a ver com a parte mais de segurança de saúde e higiene no trabalho. Portanto, para avaliar No fundo, o risco de explosão perto de poeiras ou de eletricidade.

Mas dentro de uma fábrica?

Sim, neste caso, associada às farinhas, porque as farinhas podem ter um potencial explosivo.

Não sabia.

É verdade.

Incrível!

Por isso temos que ter muito cuidado com a eletricidade estática e esse tipo de coisa.

Ok, boa. Pronto, foste também investigador na FCT, no campus da Nova, na outra banda, na margem sul, e depois lideraste desde há uma década, fez agora uma década, os projetos na então ANIPLA. ANIPLA que é a antecessora da CropLife, certo?

Precisamente.

Pronto, em projetos como a Smart Farm, o Cultivar a Segurança, o TOPS Water Protection, isso são tudo programas para ensinar as pessoas a lidar com proteção do meio aquático, por exemplo, para prevenção da contaminação, cultivar a segurança era a proteção do aplicador ou utilizador destes produtos fitofarmacêuticos. Smart Farm era o quê? Jovens agricultores que iam aprender boas práticas, por exemplo? Tem a ver com isso?

Importa saber o contexto, porque nós, então a ANIPLA e agora CropLife Portugal, representamos as empresas que produzem, desenvolvem e investigam produtos de proteção de plantas, desde os vulgo pesticidas, portanto, produtos fitofarmacêuticos, nome técnico, biotecnologia, agricultura digital de precisão e biopesticidas, portanto, toda uma cadeia de proteção de culturas. E esta é uma indústria que tem uma tradição já muito antiga de formar os agricultores no bom uso e nas boas práticas destes produtos, porque não podemos esquecer que a segurança do aplicador e também do consumidor vem em primeiro lugar, isso é inegociável. E projetos como a Smart Farm e o Cultivar a Segurança têm precisamente esse enquadramento, que é ensinar os operadores que mexem-

Que estão no terreno

...sim, os agricultores que lidam com os produtos fitofarmacêuticos, a saber como fazer um armazenamento correto, como encher um pulverizador sem colocar em risco a sua saúde, como fazer uma pulverização correta.

A quantidade, o tempo, o sazonal. Exatamente.

Muito importante, como trabalhar também com a ecologia, como preservá-la por um lado, colocar a natureza a trabalhar a seu favor para proteger as culturas e como utilizar os produtos fitofarmacêuticos de modo a não atingir e danificar a biodiversidade. Portanto, muitas vezes há um dos mitos que é a agricultura intensiva é inimiga da biodiversidade. Isso é totalmente errado. As duas podem andar de mãos juntas. Aliás, podem e devem, porque a biodiversidade é um aliado extremamente importante do agricultor e não é por ele fazer uma agricultura chamada mais intensiva, que tem que descuidar a biodiversidade, bem pelo contrário, ele deve aproveitá-la para seu proveito e também para potenciar a biodiversidade dentro da sua própria exploração.

Eu estou me a lembrar, por exemplo, da floresta do montado, que é das coisas que dizem mesmo, isto é única no mundo.

Exatamente.

E depois tem porcos, tem pessoas e tem aldeias. Tudo isso faz parte daquele montado e tudo isso se ajudam uns aos outros e para o fogo e não permitiste aquilo ou aquilo outro. Tem muitas vantagens por ser um ecossistema com animal, fauna, vegetal, o que tu quiseres, e até pessoas a morarem lá.

Precisamente, aqui a integração da biodiversidade.

Não ser só sobreiros até perder de vista.

Claro. Por exemplo, no olival intensivo, não faz sentido nenhum ter o sol descoberto nas entrelinhas. Entrelinhas, para quem não está familiarizado com os termos agrícolas-

É os intervalos entre as culturas

...é os intervalos entre as árvores. Se virmos, a maioria deles está completamente coberto com vegetação e isso é muito benéfico, porque, para já, não há tanta evaporação, não se perde tanta água. A água aguenta-se no solo até mais tarde no ciclo e num país mediterrânico como o nosso, isso é fundamental. Depois, grande parte da biodiversidade está no solo. Há aquele chavão que numa colher de solo há mais de um milhão de micro-organismos. Não sei se é assim ou não, não tenho conhecimento para tal, mas, de facto, a biodiversidade do solo é fundamental e termos um solo coberto com umidade, com matéria orgânica, é fundamental. Ora, estamos a falar de um olival e estamos a falar de biodiversidade. Para o comum dos mortais, isso aqui não liga, mas de facto é o que se passa.

Isso é muito importante, é muito curioso. Quem é que faz as compras em tua casa, João, és tu?

Sou eu. Desde a porta da cozinha para dentro, sou eu que mando, inclusive entrada e saída de alimentos.

Porque tu cozinhas, é também um dos teus hobbies. Além do desporto, está bem, a corrida hoje em dia, já está kendo, futsal, não sei o quê, isso estavas na faculdade ainda. Mas eu fiquei curioso, quem é que faz as compras? És toda gente de ver os rótulos e não sei o quê, ou já conheces tudo o que está no mercado?

Sim, tudo.

Lês tudo à exaustão para dar o melhor para a mulher e para os filhos?

Tudo à exaustão, não, mas faço uma boa gestão, porque também não há aquela necessidade de ler tudo à exaustão. Eu gosto de saber a origem dos alimentos. Gosto de saber, obviamente, se tem mais ou menos gordura, por aí fora, mas para mim o mais importante é confiar nos alimentos que estou a comprar.

Exatamente.

De facto, assim é, porque eu não compro alimentos em todos os sítios. Eu gosto muito de comprar alimentos em sítios que eu sei que eles são controlados, nomeadamente supermercados, por aí fora.

E vais a um de uma marca comprar umas coisas e outra coisa compras noutra, porque sabes que são melhores noutra? Isso acontece?

Não faço isso. Eu só faço isso por gosto pessoal, não por confiar na origem, por causa da insígnia, porque, no geral, a nossa cadeia agroalimentar, quer em Portugal, quer na Europa, é extremamente controlada.

Sim. É muito exigente a legislação.

Sim, mesmo relativamente à questão dos produtos fitofarmacêuticos, basta olharmos para os dados das autoridades europeias e nacionais, para vermos que um indicador como resíduo de pesticidas nos alimentos está sempre altamente controlado. Temos cumprimentos ao nível dos 97, 98%, sistematicamente, ano após ano, e isto em centenas de milhares de amostras.

Exatamente.

Isto dá-nos uma garantia de segurança alimentar muito boa ao nível da União Europeia e de Portugal, em particular.

Em contrapartida, João, quando, por exemplo, estou a pensar num produto ao calhas, arroz basmati, que vem do Oriente, e depois sabe-se lá que materiais pesados é que têm as águas com que eles regam, não sei o quê. Há muitas suspeitas sobre isso. No entanto, é vendido na União Europeia. A União devia ter mais cuidado com isso? Ou aí estão em desvantagem os nossos produtores cá, não é?

Sim. Aí, logicamente, tem que haver um controle apertado daquilo que vem de fora e isso é feito por autoridades, como, por exemplo, a nossa Direção Geral de Alimentação e Veterinária.

A DGAV.

Faz o controle dos alimentos que vêm nos nossos portos, por exemplo. Agora, isso tem a ver um pouco também com as escolhas dos consumidores. Se nós temos um arroz carolino fantástico, como em Portugal Que é só aquele que eu compro, entre parêntesis.

O próprio Continente tem algumas marcas, a semente é feita cá.

Precisamente o Caravela, a variedade Caravela, que foi feita-

Fica o Fortunato, o professor, ao final da câmara a falar disso.

Eu compro carlinho, é aquele que eu mais gosto de cozinhar.

Sério? Mais do que agulhas e coisas assim?

Só cozinho carlinho, só uso carlinho em casa.

Mesmo aqueles carís e esse género de coisas? O caril é para arroz doce e esse género de coisas. Ou arroz malandrinho, esse género de coisas.

Fazer um arroz de marisco sem a carlinho é um crime.

Muito bom. Então tu escolhes e sabes, vais até às marcas.

O mais importante é mesmo a confiança dos consumidores nos produtos agrícolas que estão à sua disposição.

Ainda mais quando é para casa e para os filhos.

E o sistema que temos aos dias de hoje garante-nos bastante isso.

Bastante qualidade. E já agora, só para acabar este intervalo, gostas muito de cozinhar, o que é que tu és especialista a fazer, João? Quando levas amigos para jantarem em tua casa, o que é que tu gostas de lhes dar, que fazes muito bem?

Mantenho-me no arroz, sou ótimo a fazer arroz.

Mil arroz?

Sim, o arroz de marisco, o arroz de pato, o arroz à valenciana, fiz recentemente.

Ah, que bom.

São três assim.

Mas e arroz bomba, tu usas arroz bomba?

Não, não, uso carlinho.

Sempre o carlinho?

Sim.

Ok. Que o valenciano não te oiça.

E ontem fiz polvo, por exemplo.

Ah, tão bom.

Gosto de cozinhar várias coisas também.

Muito bem. Tu és da região Oeste, agora estava a pensar numa coisa por causa das maçãs. Há maçãs, citrinos, peras, mangas. Tu fazes muita pera rocha também, essa zona. Uma maçã com uma manchinha é mais saudável que uma maçã perfeita de supermercado ou isso é um daqueles mitos? Agora estou a pensar concretamente naquelas camadas de cera de carnaúba ou de parafina, ou sei que é que às vezes se põe na fruta e já ouvi dizer muito mal disso. Eu sou muito adepto da fruta feia, portanto acho que é uma coisa importante haver. Mas aquela toda pintada, toda da mesma cor, parece que está pintada. Mas depois quem o faz diz que isto aumenta o tempo de conservação, reduz a perda de água, evita o ataque de fungos. É um produto natural e vegetal 100%, não faz mal nenhum, até cera de abelha às vezes é usada e portanto é uma coisa perfeitamente possível, mas dá aquela imagem que é pintado para agradar ao consumidor.

Sim, pintada não é.

Sim, dá-se uma camada fina.

De facto, os produtos de conservação são perfeitamente estudados e são, obviamente, senão não eram utilizados, aptos para o consumo. E aí entra a questão também do desperdício alimentar, isto é, a tecnologia, aos dias de hoje, permite-nos uma shelf life mais alargada, portanto, uma vida de prateleira mais alargada. E isso é bastante importante, porque cada quilo de peras, de uvas, de cenouras que se perde é uma quantidade de recursos enorme que fica sem ser aproveitada. Falamos de água, de solo, de mão de obra.

O desperdício alimentar é um grave problema.

E ele pode ser visto de várias formas. Pode ser aquele alimento que se estraga em casa porque ele não foi consumido, como pode ser aquele alimento que ficou no campo porque uma praga ou uma doença o atacou. No entanto, ele foi produzido, usou-se água para o produzir, usou-se adubo para o produzir. Portanto, quanto mais desperdizer as plantas, mais contribuem para o desperdício alimentar a priori. E depois, a posteriori, após a colheita, temos de ter todos os cuidados com a cadeia de frio, por exemplo, a cadeia de frio é uma coisa que aumentou imenso nos últimos anos, é mais uma inovação tecnológica que os países europeus têm. Por exemplo, em África não existe uma cadeia de frio capaz e por isso é que se calhar o Continente não é uma força agrícola como poderia ser, por exemplo, na questão das frutas, só para fazer aqui um paralelismo, como a tecnologia nos ajuda a conservar os alimentos. E depois há a questão das tais ceras para produzir os alimentos ao nível da sua longevidade e isso não faz mal nenhum a ninguém.

Estas guerras recentes vieram encarecer muito os alimentos, o preço do cabaz.

Isso noto. Primeiro de tudo, quando vou às compras, todos os dias.

O mesmo dinheiro, compro menos coisas.

Antes e depois do Covid, antes e depois do bloqueio do canal de Suez, por exemplo, antes e depois da guerra do Ormuz, antes e depois também da guerra da Ucrânia. Portanto, todos estes acontecimentos nos últimos cinco anos, tem aumentado imenso a inflação dos alimentos, há estimativas que apontam para cerca de 40%. Não sou especialista na matéria, mas há algumas notícias, até que vocês passam aqui no Observador, que indicam muito essa cifra e, de facto, é um peso bastante grande na fatura de todos os dias.

O Daniel Serrão, João, médico, professor catedrático, que foi Prémio Nacional de Saúde e Prémio Pfizer, morreu há quase uma década, dizia sempre que a população mundial, neste momento está 8,3 mil milhões de habitantes, havia maneira de sustentá-la com todos os recursos que a Terra tem, por isso perfeitamente a sustentar. E há aqueles que dizem: "Não, aumenta muito a população e as pessoas vão deixando de poder comer, porque não há maneira de cultivar comida para tanta gente". Ele dizia que não, isso é um falso problema, porque haverá sempre e havia sempre esse recurso, o problema estava na distribuição. E portanto, que muita fruta e legumes, nos Estados Unidos, são desperdiçados e leite é deitado fora e esse género de coisas, por causa de problemas de políticas e de distribuição. Tens essa noção ou não?

Nesse campo, não consigo ser muito taxativo, não tenho muita informação. Contudo, falaste da questão do aumento da população mundial e isso eu gostava de salientar aqui o papel também, mais uma vez, da tecnologia, da ciência e dos agricultores, porque se calhar há 100 anos, um agricultor alimentava 20, 30 pessoas. Hoje, um agricultor já alimenta milhares de pessoas. Isto faz parte de fazer mais com menos, isto é, a área agrícola não estica, também não queremos que estique, porque queremos preservar os ecossistemas naturais, marinhos, por aí fora. Portanto, aí estamos de acordo. Agora, com a terra arável que temos Mantê-la nas melhores condições possíveis, melhorá-la, se possível, através da agricultura de conservação, por exemplo, e tentar retirar o mais rendimento possível das melhores terras. Isso se faz com muita ciência, com muita tecnologia, e aqui a indústria de proteção de plantas tem um papel extremamente importante, porque, como disse há pouco, cerca de 40% dos alimentos pode ser perdido para pragas e doenças, e não é mais, porque existem os-

Meios de combate a essas-

A proteção das culturas. E também todas as técnicas agronômicas-

Que evoluíram, que se tornaram mais-

Que evoluíram imenso, desde a maquinaria e por aí fora.

Eu lembro que há uns anos havia esses grandes incentivos para os jovens agricultores. Isto hoje há menos, João, ou continua a haver muito, quem se quiser dedicar à lavoura?

Continua a haver incentivos para os jovens agricultores. Aliás, na Feira Nacional de Agricultura foram anunciados novos apoios aos jovens agricultores. Portanto, há aqui um foco muito grande, não só a nível nacional, mas ao nível da União Europeia, na tentativa da renovação geracional do campo, que isso é fundamental, porque a média de idade do agricultor em Portugal é de cerca de 64 anos.

É muito.

Muito também pela idade dos próprios proprietários agrícolas. E é fundamental trazermos as novas gerações para a agricultura. E aqui a tecnologia pode ter um papel fundamental, porque os jovens, logicamente, gostam de atividades cada vez mais tecnológicas.

Sim, hoje em dia já.

E aqui a agricultura-

É drones, GPS-

Drones, GPS-

Robôs e inteligência artificial

O agricultor é cada vez mais um gestor, tem que gerir as contas de cultura, estamos aqui a falar de economia, como tem que gerir toda a tecnologia. Tratores autônomos, tratamentos fitossanitários cada vez mais apurados, mais-

Dirigidos e mais localizados. Exatamente. Muito importante esta evolução

Tudo isso pode ter aqui um apelo às novas tecnologias e às novas gerações.

Muito bem, João Cardoso, temos que fazer aqui um rapidíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com o João Cardoso, ele é diretor-executivo da CropLife Portugal, Associação da Indústria de Ciência para a Proteção das Plantas, que vem desmontar alguns mitos que estão comumente ligados à agricultura e à alimentação. Estava aqui a pensar, só uma curiosidade, nas plantações mais lucrativas em Portugal, parece que está o tomate à frente de todas, para a indústria e para as exportações, aqui no Ribatejo, e depois talvez a vinha, o vinho do Porto, os verdes, os colentes de Chã. O olival superintensivo, em sebe, nunca tinha ouvido isso, mas há olival em sebe.

Em sebe.

Isto quer dizer que não são árvores separadas umas das outras ao longo da alqueva.

Sim, quer dizer que o campo é uma extensão contínua.

Ok, em sebe. Em questões de lucratividade por hectare, estamos a falar já de pequenas e médias propriedades, até 5 ha, os frutos vermelhos é também um grande boom, os mirtilos, as framboesas, as amoras, muita exportação disso, há muita procura disso lá fora. Abacate também é um número muito bom, no Algarve, na Costa Vicentina. E depois há, claro, essas culturas de nicho, como as plantas aromáticas e medicinais, o alfazema, as lavandas, os hortelãs, os óregos. Amêndoas e pistachos, eu tinha há pouco tempo num congresso de frutos secos, não fazia ideia, somos dos maiores produtores de amêndoa da Europa, e não sei se do mundo, que é uma coisa extraordinária. São sempre culturas com margens de lucro muito atrativas e adaptadas ao nosso clima, o que é muito bom. Esta CropLife Portugal, Associação da Indústria da Ciência para a Proteção das Plantas, eu reparei que acrescentaram ou têm a palavra ciência, o que é muito importante e os senhores gostam que esteja lá, porque no fundo, explica que vocês usam a biologia, a química, a biotecnologia, o melhoramento vegetal, as ferramentas digitais, a agricultura de precisão, para melhorar, e isto tem este mote, para quem pensa a agricultura do futuro. Isto não abrange só as culturas, mas também, por exemplo, a floresta ou as hortas caseiras. Tudo isso pode lucrar com a ação da CropLife?

Sim, os nossos associados desenvolvem soluções de proteção das plantas recorrendo a todas estas áreas da tecnologia.

Sim, muitas.

Vão desde os utilizadores domésticos, não profissionais-

Ok, tem uma horta

Até às florestas. Os campos de golfe, por exemplo, também precisam de proteção de culturas e são uma economia importante no nosso país.

Aí tem a grande crítica que toda gente faz da água, não é? Exagerada, que é usada. Não sei se isso é verdade ou se não.

Também não sei quais são as condições de rega da relva.

É sempre uma crítica que se faz.

Sim, mas aí há muito a conversão agora das águas dos ETAR para a utilização nos campos de golfe.

Ok.

Isso é muito importante, porque acaba por ser uma reciclagem da própria água, em vez de ser água corrente. Isso é muito importante. Até, por exemplo, a deservagem dos caminhos de ferro, que é uma coisa que as pessoas nem sequer ligam à proteção das culturas, mas é muito importante controlar as infestantes nos caminhos de ferro para não haver acidentes, nem incêndios, por aí fora. Só para dar aqui uns usos menos óbvios.

Menos comuns e que as pessoas não têm ideia. Houve este segundo congresso da CropLife, que foi em março de 2026, no IAPMEI, e a ideia era precisamente desconstruir preconceitos, foi daí que veio esta ideia para fazer este programa, as consequências práticas, também debater essas consequências da retirada de substâncias ativas essenciais à proteção das culturas, e para analisar essas mais recentes políticas europeias, como a visão para a agricultura e alimentação, que saiu este documento. João, se tivesses que fazer um top três dos maiores disparates que os portugueses dizem sobre agricultura, o que tu dirias?

Isso é uma pergunta difícil.

Por exemplo, aquilo dos biológicos, é óbvio.

Sim. Temos a questão, não só da agricultura, mas eu diria que na sociedade em geral, que associar o natural é bom, o químico é mau.

Exatamente.

Ignoramos um pouco que tudo é química, a biologia é uma expressão da química.

Exatamente.

E há aquela velha máxima, que é um clássico e toda a gente ouviu dizer 500 vezes, mas as pessoas acabam por não associar, que é a dose faz o veneno.

Exato. Isso é do Paracelso.

Antiquíssimo.

Vem do século XVI. Se for beber, numa hora, litros de água, mata uma pessoa. O veneno está na dose.

Por ser muito atual. Por exemplo, temos o cianeto, a botulina, o veneno dos sapos ou das serpentes, por aí fora.

Exatamente. São coisas naturais e tóxicas.

Podem ser mortais e altamente tóxicas. E temos coisas sintéticas que nos salvam a vida, como o cloro. Quantos milhões de vidas é que o cloro não salvou no tratamento das águas, por exemplo?

Exatamente.

E há N exemplos acerca disso. Tudo tem a ver com a exposição. A exposição é que faz o risco, não as propriedades intrínsecas de qualquer substância, seja ela de origem natural, mineral.

Exatamente. É também este mito da ideia errada que biológico quer dizer sem qualquer químico. Isto é mentira, claro.

Sim, claro. Obviamente que a agricultura biológica tem o seu referencial, tem os seus padrões e não estamos aqui para dizer mal ou entrar em guerra com a agricultura biológica, até porque nós também produzimos produtos para ser utilizados em agricultura biológica, como por exemplo, biopesticidas ou enxofre ou cobre, por aí fora. Eles têm produtos de proteção de plantas, produtos fitofarmacêuticos, aprovados pra utilização em agricultura biológica. Não quer dizer que não os usam. Usam o que eles estão aprovados. Agora, isso não os faz melhor ou pior do que a agricultura convencional, porque a agricultura chamada convencional segue os padrões da proteção integrada. Isso permite ao agricultor ter uma flexibilidade maior da forma como protege as culturas. Não quer dizer que ele também não use joaninhas, por exemplo, pra comer os pulgões. Não quer dizer que ele não use o enrelvamento ou as culturas de cobertura pra enriquecer o seu solo. Não quer dizer que ele faça uma monitorização apertada das pragas antes de aplicar qualquer inseticida. Não quer dizer que ele não use armadilhas ou feromônas para fazer o controle de pragas e doenças. Toda esta flexibilidade é uma riqueza muito grande que o agricultor tem e é isso que está ao seu dispor numa correta e eficaz proteção de plantas. Temos que parar um bocado com esta dicotomia, agricultura biológica, agricultura convencional, porque no fundo, a defesa aqui é de uma agricultura sustentável como um todo e a proteção das culturas não é a defesa dos pesticidas, é a defesa de uma agricultura sustentável e que produza alimentos seguros e acessíveis para todos.

Segurança alimentar também, obviamente. "Não comas isso, que isso está cheio de químicos, tudo que é natural é melhor". Tudo isso são mitos. A tal quimiofobia que tu falas. Nunca me esqueço deste pequeno-almoço, quando a pessoa está com pressa, e o que tem a água, açúcar, proteína e gordura, ésteres, álcoois, riboflavina, ácido ascórbico, cálcio, magnésio, fósforo. Parece uma grande mistela, mas é uma maçã. E as pessoas esquecem-se que uma maçã tem cianeto, tem formaldeído, tem flavonoides, tem hidrogênio, são os ingredientes de uma maçã. A banana tem vários corantes e conservantes naturais. Tem aminoácidos, tem muitos Es, as pessoas têm medo dos Es. Tudo que é E acham que é veneno. A vitamina C é um E, o E300. A vitamina B2 é o E101, o betacaroteno é o E160A. As pessoas não devem, de fato, ter esta quimiofobia. E há essa ideia também de que antigamente os alimentos eram mais seguros. Isso também é uma visão romantizada.

Isso é uma visão romantizada, precisamente. A alimentação é um assunto muito emocional.

Sim, é verdade.

É aquilo com que nós nos relacionamos todos os dias, precisamos comer três vezes ao dia. E aquilo que ingerimos faz-nos alguma confusão de alguma forma. Isso torna o assunto muito emocional e às vezes é difícil manter o racional das coisas, mas de fato, ainda é esse mito, antigamente é que era bom. Temos que ter em atenção toda a evolução que foi feita ao nível do controle microbiológico dos alimentos. Antigamente morria-se por doenças relacionadas com o leite, com a água também, que falava há pouco. E toda a cadeia de rastreabilidade e também de regras de segurança e de alimentação, o famoso HACCP, por exemplo, os controles da cadeia de frio, tudo isso faz com que hoje em dia haja muito menos intoxicações alimentares ou menos exposição também a micotoxinas, que são um grande provocador de cancros e as pessoas não têm ideia disso.

Não têm noção disso.

As micotoxinas são tóxicas produzidas por fungos, por exemplo, e que por acaso estão a aumentar devido à retirada de substâncias ativas na Europa. É preciso ter atenção a isso. Estamos a tirar produtos fitofarmacêuticos por um lado, mas depois temos problemas de segurança alimentar por outro. Isso não faz muito sentido.

Antigamente havia a ausência de refrigeração, pasteurização, controle sanitário. Só isso são três grandes vetores que hoje em dia impedem muitas doenças que havia antigamente. Falaste uma coisa muito importante que é a questão da legislação europeia. É uma coisa que tem acontecido. Temos ideia que as PACs, estas políticas agrícolas comuns, com cotas e tal, desbarataram um bocadinho a nossa agricultura. Isto é muito verdade ou as coisas foram feitas de maneira inteligente?

Eu não sendo especialista em PAC, não vou aqui atravessar muito nesse tema, mas a PAC teve um papel extremamente importante que foi de tornar a alimentação, por um lado, abundante. Vínhamos de períodos da Segunda Guerra Mundial, era preciso alimentar a Europa, havia escassez alimentar, racionamento alimentar, por aí fora. Era preciso organizar os campos, reabilitá-los após as guerras também e fazer com que a pessoa comum pudesse comprar alimentos, efetivamente, porque também era preciso Pessoas para trabalhar em serviços, fábricas, escolas, hospitais. Não todos podemos ser agricultores. Mais uma vez, o agricultor tem que alimentar todos os outros setores da população. E aqui a PAC teve muito esse papel de democratizar o acesso à alimentação produzida pela agricultura, pelos agricultores, e libertar tempo da sociedade para se dedicar a outros fins. Esse foi o grande mérito da PAC. E eu acho que esse sempre foi o bottom line e continua até os dias de hoje, e com a inflação que falávamos há pouco, continua, diria eu, a ser uma missão muito importante, que é tornar a alimentação acessível, porque vemos, por exemplo, na DECO, que foi apresentado no nosso congresso. Tinha acabado de passar os €260, creio eu, o cabaz alimentar nesse dia, e desde aí continua a aumentar. O preço da alimentação não está a ficar mais barato. As políticas públicas também têm que continuar a ser orientadas para o nosso poder de compra, por um lado, e aqui a PAC tem muito esse papel de tornar acessível os alimentos, porque também uma das missões da nossa sociedade é comermos cada vez mais e melhor. E não é só o acesso a calorias, é o acesso à qualidade dos alimentos, aos nutrientes, e isso só se faz através de uma alimentação variada. E a alimentação variada custa dinheiro, ou vai custar dinheiro, e é preciso os agricultores também produzirem o mais possível variado para nós também conseguirmos comprar.

Estas decisões europeias sobre a retirada destes produtos fitofarmacêuticos, concretamente estes anti-pesticidas, por exemplo, do mercado, sem dar substitutos ou alternativas, li num documento vosso, que já podem custar à agricultura portuguesa até 510 milhões de euros anuais. Isto é uma coisa que põe em causa a viabilidade de pequenas e médias explorações, 11 mil postos de trabalho em causa. Eles retiram alguns pesticidas porque controlam mais, não querem que se use aqueles, mas depois não deram ainda substitutos e há culturas que podem ficar sem essa proteção, por exemplo, é o que isso quer dizer?

Exatamente. Desde 2009, entrou em vigor o regulamento que regula a entrada no mercado dos produtos de proteção de plantas. E desde 2019, 10 anos depois, entramos aqui numa cadeia de retirada de substâncias ativas, cerca de 76, e não houve nenhuma aprovação de uma nova. Existem cerca de 400 ao nível global, na Europa, e estamos a falar de uma percentagem já significativa. E, como dizia há pouco, a proteção das culturas tem na sua riqueza a variabilidade, variabilidade de modos de ação. Isto é um pouco como os medicamentos para a nossa saúde, que é: se tomarmos sempre o mesmo medicamento, corremos o risco de haver resistências da doença. E na agricultura é exatamente a mesma coisa. Se nós aplicarmos sempre o mesmo produto fitofarmacêutico, o mais certo é aquela praga adaptar-se e depois já não há efeito. Aqui a eficácia está na variabilidade de modos de ação, de substâncias ativas, e quando se restringe a caixa de ferramentas, que é assim que lhes chamamos, diminui-se aqui a variabilidade.

Mais pragas vai haver e mais resistentes.

Não há aqui um equilíbrio entre as saídas de substâncias ativas e a entrada de novas. E aqui o nosso posicionamento é que deveria haver uma avaliação mais baseada na exposição, uma avaliação de risco mais pura, e não tanto a acessão do perigo das substâncias, aquele conceito que falávamos há pouco, por um lado, para manter as que existem. Por outro lado, é muito necessário haver aqui a abertura do pipeline das substâncias ativas que já vai fazer muitos anos para entrar novas, que são cerca de 78, onde há tecnologias muito inovadoras, como por exemplo os péptidos, que são proteínas, ou então o RNA de interferência, como por exemplo a mesma tecnologia que as vacinas do Covid, ou outros vírus que podem combater, por exemplo, bactérias, porque estamos a ter uma pressão cada vez maior de pragas e doenças que vêm de outras geografias, o que é natural com o aumento do comércio.

Houve também a globalização.

Sim, e há aqui muita troca de material biológico e aí vêm mais pragas, mais doenças.

Como foi a lagarta das palmeiras, por exemplo.

E nós temos um clima fantástico, não é só para os turistas e para os emigrantes, é para a agricultura também. Temos exemplos da Xylella fastidiosa ou da Drosophila.

Que é uma mosca.

Ou do Citrus greening, por exemplo, para os citrinos, que não têm uma cura cabal e efetiva e se calhar nestas novas tecnologias poderia haver alguma solução. Aqui o problema da retirada das substâncias ativas é que os agricultores, ao ficarem sem soluções, acabam por ter as suas culturas mais em risco de não conseguirem controlar determinada praga ou doença, e isso aí tem um impacto económico claro. Também tem um impacto ecológico, porque estamos a perder água, estamos a perder solo, estamos a perder oportunidades de cultivo importantes para a nossa alimentação. Isso é a parte económica e agronómica. Mas depois há também a parte social. É que nos esquecemos, às vezes, que a coesão territorial, o combate aos incêndios, a fixação de população no interior, tudo isso deriva do senso económico, ambiental e cultural da agricultura.

Estou agora aqui a pensar, o nosso tempo está a acabar, estou a pensar nestes organismos geneticamente modificados, que não são necessariamente perigosos para a saúde. O medo resulta mais, como diz a CropLife, da desinformação do que propriamente de evidência científica, o melhoramento genético. Há sempre técnicas que são boas e importantes. Muitos destes organismos permitem o menor uso de pesticidas e maior resistência às pragas, adaptam-se às alterações climáticas, isto é muito importante. Há este engano também de a agricultura moderna destruir sempre o solo, e é mentira, tanto pode regenerar como de facto degradar o solo, depende da gestão, tal como a questão também dos pequenos agricultores, que não são sempre mais sustentáveis. Mais uma vez, a gestão é o fator-chave, vocês são os primeiros a defender isso. A questão de a agricultura dizerem muitas vezes que usa a água de forma irresponsável, este é o mito que ignora os avanços tecnológicos, uma vez que há uma grande otimização do consumo, de rega, o consumo doméstico desperdiça muito mais água, como diz a CropLife, com razão. A questão de a agricultura ser a principal causa das alterações climáticas, claro que causa, mas também pode ser a solução. A questão dos gases com efeito estufa também está incluído. Eu acho que tenho ideia que os agricultores são os primeiros ecologistas, não são inimigos do ambiente, antes pelo contrário. Nós temos de ganhar ideia, muitas vezes, a população em geral, há de facto este afastamento do consumidor da agricultura, e era importante haver esta ligação maior. E há também este mito de que não há inovação na agricultura, quando hoje, já falaste disso, João, a questão da robótica, da inteligência artificial, do GPS, agricultura de precisão, os drones para monitorização, cada vez se usam mais. Eu não conheço o congresso, eu tive a oportunidade de ouvir sobre isso. Agricultura de precisão é o quê? É a cultura certa para aquele lote de terreno? É o que isso é?

A agricultura de precisão é, no fundo, uma gestão de dados. A agricultura é dos setores que mais gera dados no mundo inteiro. Com a gestão dos dados, nós conseguimos saber, por exemplo, a salinidade de um terreno, isso pode influenciar a cultura ou a variedade que se vai plantar, para dar um exemplo. A questão do desenvolvimento da própria cultura, saber se já está no momento ótimo de colheita ou não. Isso é importante por causa também do desperdício alimentar e das cadeias de abastecimento. Temos ainda a monitorização de pragas e doenças. Por exemplo, há um projeto muito giro de um parceiro nosso, que é o Smart Farm Colab, que através dos dados meteorológicos, mas também dos dados das plantas, consegue fazer a monitorização do míldio das videiras, por exemplo. E aí o agricultor sabe se há condições ou não para haver infecção da planta e, ou trata ou não trata de acordo com aquela indicação. Portanto, já não há aqui achismos. A agricultura de precisão retira muito o achismo da equação e leva-nos a uma otimização dos recursos naturais, quer seja água, fertilizante, produtos de proteção de plantas, só para dar três exemplos dos mais óbvios.

Sim. Para acabar, temos este mito de que a agricultura não é motivo de orgulho nacional. E a realidade é bem diferente. A agricultura portuguesa está na vanguarda da tecnologia, sustenta milhares de empregos, preserva paisagens e tradições e ajuda, pela gestão do património, claro, a prevenir incêndios, por exemplo. De facto, a agricultura tem evoluído muito significativamente. Numa frase, João, se pudesses deixar uma mensagem aos consumidores portugueses, qual seria a maior ideia errada sobre alimentação e agricultura que gostavas de ver desaparecer de uma vez por todas?

Sim, de facto, a questão de que o natural é bom, o químico é mau. Eu volto a isso, porque, de facto, é um mito que arrasa não só a agricultura, mas muitas das indústrias ao nível europeu, não só as nossas relacionadas com a alimentação. Isso levou muito ao Pacto Ecológico Europeu, por exemplo, que nos está a trazer bastantes condicionalismos económicos e está a haver até alguma mudança de política nesse sentido. E foi muito baseado nesse mito e nessa quimiofobia, que é preciso desmistificar e olhar para as coisas com mais pragmatismo e objetividade.

Muito bem, João Cardoso, quero agradecer a tua disponibilidade em vir à Rádio Observador e continuação, que eu sei lá, a CropLife também continua a ter estas ações de informação e de formação para todos os agricultores também conhecerem estas tecnologias de ponta. Muito obrigado por ter vindo e tudo de bom. Obrigado.

Muito obrigado.