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Uma coisa que me parece muito ingênua é, por exemplo, achar que se pode escrever para mudar as opiniões dos outros.

José Luís Peixoto. Vasco Graça Moura chamou-lhe um grande ficcionista e um grande pousador da língua portuguesa. Urbano Tavares Rodrigues chamou-lhe um escritor tocado pelo gênio como Saramago. E José Saramago chamou-lhe José Luís Pacheco, mas também acertou quando disse que ele era o continuador dos escritores, uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa atual. Autor consagrado de poesia, prosa, livros infantis e de viagens, escritor e poeta com histórias para contar. José Luís Peixoto é um dos mais importantes escritores portugueses e contemporâneos. Vem nos falar do seu regresso ao romance quatro anos depois de "Almoço de Domingo", em que homenageava Rui Nabeiro. Agora dá-nos "A Montanha", um romance habitado por homens e mulheres de várias idades e origens que têm em comum o serem pacientes no Instituto Português de Oncologia do Porto. Vamos conhecer melhor este homem que diz que escreve para nunca esquecer quem é e de onde veio. Olá, José Luís, bem-hajá de ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá. É um gosto estar aqui e ser recordado desse José Luís Pacheco.

Que foi a dedicatória que Sócrates escreveu no livro, não foi? Isso foi quando ganhaste o Prêmio Saramago mesmo? Foi nessa ocasião?

Não, foi primeiramente numa dedicatória que foi feita inclusivamente antes do Prêmio Nobel. Foi em 1997. Mas eu nunca esqueci.

Tu mostraste-me isso.

Porque tinha esse livro, que é o "Memorial do Convento" autografado e dedicado a José Luís Pacheco, e parece que roubei o livro.

Exato. Muito bem. Galveias. Tu és das poucas pessoas que te lembras, não. Mas sabes onde estavas quando foi o 25 de abril.

Sim. Nasci em setembro, então estava justamente em Galveias, que é a minha terra, mas ainda estava bem protegido no ventre da minha mãe.

Exatamente, há uns meses.

Exato.

É verdade que aos quatro anos já fazias birras com as tuas irmãs porque querias que te contassem histórias, sempre foste um homem de histórias.

A minha mãe conta muito esses episódios. E na verdade, os primeiros livros que me passaram pelas mãos foram quando eu ainda não sabia ler, e eram aqueles livros do Tio Patinhas e esse tipo de coisas. E que eu precisava que me lessem. E aí as minhas irmãs, que são mais velhas do que eu, ou a minha mãe, eram quem lia. A minha mãe costuma dizer até que pra ela foi um alívio quando eu aprendi a ler, porque aí já-

Libertaste e já tinhas permissa.

Exato.

Muito bem, o quintal de casa dos seus pais era o centro do mundo. Lembro que nós tivemos juntos uma entrevista há 15 anos, o tempo passa, na TVI, TV 24, quando saiu o teu livro "O Livro". E lembro de te contares da importância que tinha tido as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, onde o bibliotecário, aliás, era teu dentista.

É verdade.

Mas que foi muito importante, passava em Galveias.

O senhor Dinis de Abrantes, que foi uma pessoa que inclusivamente sugeriu muitas leituras e isso também foi importante. Há pouco estávamos a falar das minhas irmãs, agora falando do senhor Dinis, eu acho que uma coisa que acaba por ter realmente um valor extremo quando se está nesse período de formação, é, de certa forma, ter a sorte de encontrar, chamemos entre aspas, tutores, ou seja, pessoas que aconselhem.

Mentores.

Sim, mentores, era essa a palavra que eu queria dizer.

Engraçado, um escritor.

Exato.

Mas é verdade, é uma homenagem bem feita que estamos a fazer a essas pessoas que te orientaram, digamos assim.

Surgiu antes a outra palavra, mas a que eu queria dizer era justamente mentores. Pessoas que indiquem algumas direções, que saibam fazer correções de maneira que realmente sejam aceites. E foi esse o papel que teve, não só as minhas irmãs, como também o senhor Dinis, sendo que as bibliotecas itinerantes tiveram o grande valor pra mim de ser também um espaço de liberdade, onde eu tinha livros à minha disposição e que eu podia escolher, porque eu acho que também é fundamental pra quem lê, o estabelecer de um contrato com o livro, ou seja, a pessoa responsabilizar-se pelo livro que vai ler e perceber que a escolha do livro depende dela. Ou seja, se o livro depois não lhe agradar, se o livro não for aquilo que estava à espera, também deve olhar pra si própria.

Exato. E é engraçado tu dizer essa relação com o livro, é muito curioso, porque tu dizes também quando escreves um livro e o lanças, tu ficas sempre com alguma ligação ao livro, não é aquela coisa "não, nunca mais quero saber dele". Não, fica sempre alguma relação contigo. Mas tu dizes, o livro depois é uma ferramenta nas pessoas que o vão ler. E é sempre diferente conforme o leitor, pode se transformar em tudo. Uma coisa que foi ótima, uma coisa que mudou a vida.

Claro.

E é engraçado, tem essa potencialidade. E a mesma coisa que tu escreveste. Pode ser um milhão de coisas.

E não existe um livro que funcione ou que tenha até préstimo pra toda gente.

Universal, portanto.

É muito sensível, por exemplo, recomendar leituras, porque Nem todos os livros, por mais inquestionáveis e por maior que seja a sua qualidade literária ou outras, não existe nenhum que seja absolutamente universal.

Portanto, hoje nós falamos de hospitais, não há nenhum que seja um genérico.

Não existe. Existem, sim, alguns placebos.

Exato.

Mas absolutamente genéricos, não.

Não é nada especial, mas olha, fez muito bem àquela pessoa.

Exato.

Engraçado, porque a pessoa acreditou muito naquilo e mudou a vida.

Lá está, porque nesse caso foi provavelmente o próprio leitor que colocou ou que injetou valor naquelas palavras.

A nossa importância, o nosso contexto em que estamos muda.

E isso também é válido.

Tu próprio leres um livro agora e leres um livro daqui a 10 anos, vai impactar de outra maneira. És outra pessoa.

E eu acho que isso também é válido e também não devemos ter pudor de falar de leituras que às vezes estejam a quilômetros do dito cânon literário, mas que têm uma importância.

É engraçado tu falares nisso também e na questão das línguas. Tu tens livros traduzidos, José Luís, em mais de 30 línguas, incluindo, por exemplo, em árabe. Como é que é "O Cemitério dos Pianistas" lido em árabe? Que impacto é que pode chegar alguém do Afeganistão? É incrível pensar nisso. Ou na China.

É incrível.

Coreia do Norte, já agora. Onde se diz que é publicado?

Coreia do Norte não tem. Tem um livro na Coreia do Sul, que é o livro "Morreste", que foi o meu primeiro livro.

Faz 25 anos.

E curiosamente é um livro que também está publicado em algumas línguas pouco comuns, como estou me a lembrar, por exemplo, do crioulo de Cabo Verde, que é muito impressionante.

Tu até foste professor de português lá.

Sim, fui professor e a pessoa que acabaria por traduzir esse livro para crioulo, inclusivamente, foi uma pessoa que eu conheci nessa altura, quando fui professor lá. Mas, por exemplo, armênio, ou seja, línguas que eu próprio também não tinha uma relação com elas e também nesse caso são os livros a viverem para lá do seu criador.

Transcendente.

Completamente.

E neste Centro de Interpretação José Luís Peixoto, lá em Galveias, tens exemplares destes livros, mesmo os traduzidos lá fora?

Sim. Aliás, esse é o único lugar onde se pode encontrar um exemplar de cada um desses livros, porque eu próprio não tenho esses livros. Os que tinha apenas um exemplar estão lá. Mas é muito interessante também por isso. E eu acho que também é naturalmente algo que traz uma certa humildade, no sentido em que eu sinto que aquilo que eu fiz é ultrapassado pelas circunstâncias. Até porque há uma outra coisa também importante, que é: o livro que eu escrevi, todos esses livros foram escritos em português. O fato de eles estarem noutra língua também depende do trabalho de outras pessoas, nesse caso, principalmente dos tradutores.

Tradutor e traditor. Sai com traidor ao mesmo tempo, às vezes.

Sim.

Não é fácil. Pode ser muito complicado.

Às vezes, já me chegaram muitos exemplos de aspetos que são geniais na forma como resolvem certos problemas e também alguns, às vezes, que são um pouco ao lado. Mas ainda assim, eu acho que é importante manter a consciência de que o texto traduzido é uma versão do texto original. Eu costumo dar o exemplo dos instrumentos musicais, em que se compõe uma melodia num determinado instrumento, mas depois se adapta para outro instrumento. E às vezes, se for uma melodia composta em clarinete, passá-la para saxofone, é até mais ou menos próximo. Se for para harpa, já é um pouco diferente. Mas se for para tambor, é um trabalho bastante que inclusivamente requer a criatividade de quem traduz. E eu acho que há línguas que realmente são mais próximas e outras que são muito distantes, não só ao nível fonético e estrutural, mas também ao nível até das referências culturais.

Exatamente, dos significados.

E os próprios tradutores muitas vezes lutam com isso.

Têm que lutar com isso ou ter uma grande cultura para saber "o que é que eu posso dar aos bons leitores do meu país, a ideia que este autor quer transmitir?"

E eu pela minha parte incentivo sempre que tenham essa postura criativa.

Que não seja preciso seguir à letra.

Porque tem essa consciência. O meu compromisso foi com a língua portuguesa. E mesmo dentro da língua portuguesa, às vezes há mal-entendidos, há diferenças. Ainda cheguei ontem do Brasil e, portanto, nesse país enorme onde se fala a nossa língua, mas onde se fala essa língua de tantas formas e com tantos vocabulários e com tantas estruturas e com tantas expressões idiomáticas, também aí há diferenças.

Claro que sim.

Estávamos a falar de Galveias e, por exemplo, o romance Galveias é um exemplo paradigmático, porque esse romance que está tão localizado nesse lugar que existe, acaba por ter bastante diferença se for lido, mesmo dentro de Portugal, por um leitor no Minho ou por uma pessoa que viva em Galveias e que conheça aquelas ruas.

Exatamente. Como tu dizias, eram mil pessoas e todos se conheciam no meu tempo.

Mas isso é normal e é natural. Uma coisa que, às vezes, ou que no mundo em que vivemos me parece às vezes um pouco estranha, é a ideia de avisos em determinadas obras que possam ter aquilo que agora se traduziu do inglês como gatilhos, ou seja, coisas que despertam traumas ou o que seja. Eu acho isso muito estranho, porque, na verdade, não é possível determinar o que é que pode despertar traumas. Ou seja, eu estou aqui com uma garrafa d'água à frente, se calhar há pessoas no mundo para quem uma garrafa d'água tem um significado completamente diferente do que para mim Por terem tido alguma experiência específica, provavelmente traumática, com uma garrafa de água. E então eu sinto que efetivamente esses avisos prévios são quase impossíveis de cobrir tudo. E no caso dos livros, são até contrários à própria natureza da leitura porque nós quando olhamos para um objeto, para um livro enquanto objeto, e vemos aquela forma ali fechada, nós não fazemos ideia do que está lá dentro.

Do mundo que lá está.

E muitas vezes, e isto é até normal, imaginamos o que está lá dentro, a partir do título, a partir de alguma informação que tivemos, mas na verdade, só lendo é que nós sabemos efetivamente.

Isso acontece quando viajamos. Também vais para um país que não sabes exatamente o que pode encontrar.

O que não quer dizer que não tenhamos uma ideia prévia, mas também quantas vezes é que depois essa ideia é contraditada pela experiência.

Eu lembro duas coisas que me faz lembrar muito. O Tolstói que dizia que se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. É uma ideia que acho linda. Galveias é o que tu pintas. Isto de certeza que também no Afeganistão vou ao Chapiada conhecer aquilo.

E é incrível como, por exemplo, esse romance, que se chama Galveias, está traduzido em bastantes línguas, línguas asiáticas como o tailandês ou o japonês. E inclusivamente, eu me apercebo que esse conceito, apesar das suas especificidades, faz sentido noutros lugares. Também tem a sua ruralidade, com aspetos que se aproximam, aspetos que se afastam, mas isso é assim em toda a experiência humana.

Faz parte. E também me lembro das histórias que estavas a contar por causa das traduções. Uma vez entrevistei o Carlos Ruiz Zafón, que dizia isso, eu perguntei-lhe isso, que era tradutor também e trabalhava em guiões em Los Angeles, portanto a traduzir livros para filmes. "Os teus livros em filmes, tu ias gostar de ver?" Ele dizia assim: "É um bocado indiferente. O que me interessa são as histórias. Isso é um suporte. O suporte pode variar muito. Um dia, se calhar, é um chip que nos implantam na cabeça e ficamos com a história. Mas, portanto, para mim é um bocado indiferente em que língua é, se é livro, se é um CD, se é um e-reader, porque a história é que não pode morrer e nós temos histórias para contar." E é sempre assim. O teu livro da montanha são seis histórias, mais a tua, sete, e o teu pai, oito, e portanto, são muitas histórias. Essas histórias é que fazem o livro e, portanto, o suporte, depois a língua, são pormenores.

Mas eu ainda acrescentaria sempre a história de quem lê, porque essa história também acaba por estar sempre presente.

Interfere.

Porque as histórias que são apresentadas, seja em que livro for, são depois sempre confrontadas com essa.

Nós identificamos ou não.

Uma coisa que me parece muito ingênua é, por exemplo, achar que se pode escrever para mudar as opiniões dos outros, na medida em que os outros confrontam-se com determinado tema, mesmo que ele seja todo construído numa determinada perspectiva, a perspectiva de quem lê é sempre também muito marcante. Eu não creio que se possa escrever para mudar as opiniões dos outros, mas acho que há um poder na escrita que já é bastante grande e que tem muita importância, que é o trazer questões. Depois, claro, os outros vão se posicionar perante elas da forma que acharem melhor, não só sob um ponto de vista racional, mas até também sob um ponto de vista emocional. Mas trazer questões já é um grande poder.

A parte da música, continuas hoje a ligar muito à música. Tu quando escreves, antigamente gostavas de ouvir, e tu eras muito do tempo da música pesada e tal, adolescente. Os Moonspell e os programas de rádio que fazias.

Essa música enviceu um pouco.

Hoje em dia gostas de escrever em silêncio, é verdade?

Sim, hoje em dia gosto de escrever em silêncio. Mas sinto também que esses gêneros musicais, hoje em dia, basta ir a um concerto, já não têm um público tão jovem como tinham no passado. É curioso. Mas há muitos hábitos que se foram transformando. No passado, por exemplo, eu gostava de escrever até altas horas da noite. Hoje, nem pensar. O melhor período para mim é de manhã cedo. Inclusivamente, acordo bastante cedo.

Mas ainda és um bocado obsessivo nessa coisa de ficar a escrever sete horas seguidas?

Sim.

Ainda fazes isso?

Sim, fico a escrever muito tempo seguido.

Eu não funciono de manhã cedo.

Não, para mim é mesmo o contrário. Até porque eu começo a preparar a manhã mentalmente na véspera. Começo logo a pensar o que é que eu vou fazer e quando acordo já estou completamente sintonizado para escrever. Dantes era o contrário, ficava à noite, sentia que de manhã ainda estava meio vazio, digamos assim. E o mesmo acontece com a música. Atualmente, a música interfere muito. Então o melhor mesmo é o silêncio.

Eu vou já dar este pulo para este livro, A Montanha. Tinha mais coisas para te perguntar, mas eu acho que a gente vai conversar tão animadamente que interessa-nos se calhar chegar a este livro que nos interessa e que te traz hoje aqui. Mas antes, vamos fazer aqui um rapidíssimo intervalo. José Luís, já voltamos à conversa.

Vamos lá.

Estamos a conversar com José Luís Peixoto sobre o seu muito aguardado regresso ao romance A Montanha. Romance habitado por homens e mulheres de várias idades e origens que têm em comum a sua condição de pacientes no IPO do Porto. Esta é uma edição Quetzal, quatro anos depois do Almoço de Domingo. Foi entretanto lançado no IPO do Porto. Dia 12 de dezembro vai estar na Biblioteca Municipal do Évora, já agora, às 21h, ficam aqui a saber, no Café com Letras, onde vais voltar a lançar este livro, mais uma sessão de lançamento com conversa com o público, tal como o Almoço de Domingo, este último teu de 2021, onde faz esta homenagem a Rui Nabeiro. Este também foi uma encomenda Tu tens ao teu dispor histórias de vida para trabalhar narrativamente. Isso é uma oportunidade valiosa para ti?

Na verdade, nenhum desses livros foi uma encomenda.

Não foi diretamente?

Não. Esses livros surgiram um pouco como oportunidades e que para mim foram muito interessantes e que eu, de certa forma, quis aproveitar à luz também daquilo que tem sido um interesse recorrente nos últimos tempos e que eu pensava que com este livro "A Montanha", que ia terminar, mas que me estou a dar conta que não vai ser assim, porque ainda é um tema que tenho muito para trabalhar e que tem que ver justamente com uma reflexão sobre a questão biográfica. Onde isso começou de uma forma mais direta-

Mas a autobiografia, diz um bocadinho também do José Saramago.

É, o romance "Autobiografia" foi onde mais diretamente esse tema se colocou. E o livro fala também justamente sobre isso, até porque há lá um escritor que está a tentar escrever uma biografia do José Saramago e depois acaba por também surgir episódios da vida do José Saramago. E foi na sequência desse livro, justamente, até numa entrevista como esta, enquanto estava a falar sobre as questões da biografia e tudo isso, que o Rui Nabeiro, que estava na sua casa, ouviu e anotou o meu nome e falou com alguma pessoa que depois acabamos por chegar à conversa.

Que giro.

E na altura, efetivamente, a ideia que ele tinha era a possibilidade de eu escrever uma biografia dele. Mas o meu interesse não era exatamente esse.

Ele queria uma biografia romanceada.

Não.

E tu querias um romance biográfico. São coisas diferentes.

Ele queria, efetivamente, uma biografia. E eu vou ser sincero, eu não me considero com capacidade para escrever uma biografia, seja de quem for. Uma biografia que seja efetivamente uma biografia.

A história de vida de alguém.

Da mesma maneira, embora sejam textos diferentes, que eu nunca me senti verdadeiramente capacitado para, por exemplo, escrever jornalismo, embora eu tivesse publicado alguns textos até na imprensa.

Crónicas.

E alguns até que tinham quase esse tom de reportagem.

Pendores jornalísticos.

Mas eu sentia que nunca eram puramente jornalísticos. E no que diz respeito à biografia, teria de ser um texto também que tivesse um compromisso com a história e que tivesse esse compromisso de imparcialidade, esse compromisso de tentar dar todas as perspectivas. E aquilo que eu penso que consigo fazer acaba por ter muito mais que ver com literatura e por isso tem muito mais subjetividade, tem muito trabalho narrativo.

Na "Montanha" nota-se isso. Quando pegas aquelas seis vidas, há muito subjetivo. Tu dizes: "Isto não é uma coisa de relatar a vida deles. Eu tenho aqui muita interpretação."

Exato. E há um trabalho narrativo, mas que eu sinto que também é honesto.

Sim.

Até porque ele não se afirma como a verdade histórica.

Claro.

Mas é uma outra coisa. E se nós pensarmos um pouco no cinema, por exemplo, hoje em dia é muito comum, tem existido aí aquilo que chamam em inglês "biopics".

Exatamente.

Que são esses filmes.

Como do Freddie Mercury, do Elton John.

Tem acontecido bastante. E que eu acho que é um trabalho muito interessante, porque nos permite pensar aquelas vidas de uma outra forma. Principalmente no caso do livro "Autobiografia" e no caso deste livro, "A Montanha", existe inclusivamente, digamos, uma reflexão até literária. No caso do livro "Almoço de Domingo", é tudo um pouco mais direto e principalmente porque aqui em Portugal é muito difícil que exista um distanciamento analítico, tendo em conta que o livro fala do Rui Nabeiro, que é uma figura muitíssimo marcante aqui.

Comendador, claro.

E que eu próprio-

Grande homem, grande empresário

...não tinha consciência do impacto e da dimensão que o Rui Nabeiro tinha a esse nível. Porque depois do livro ter sido publicado e de praticamente todas as apresentações que eu fiz, havia sempre um grupo de pessoas que ficava para o final, que me queria contar as suas histórias pessoais com o Rui Nabeiro. Porque é incrível como pessoas que tiveram uma ocasião ou duas de contacto com ele, mesmo que breves, ficaram marcadas pelo que aconteceu.

Pelo homem que era.

Sim, porque apesar de serem, às vezes, descrições de momentos comuns, mas há sempre um detalhe que de certa forma é um pouco revelador da pessoa que o Rui Nabeiro era. E neste caso, tratam-se de pessoas que não têm essa dimensão pública e que também por isso foram bastante generosas por partilhar as suas histórias comigo, até porque isto, na verdade, é um alto risco, tanto para mim como para elas, porque ao se escrever sobre episódios da vida dessas pessoas, acaba por se marcar um pouco de uma forma que é muito sensível, o modo como essas memórias são vistas ou são conhecidas pelos outros. E sendo que é muito importante sempre dizer que são as minhas perspectivas a partir daquilo que me foi contado.

Tem a tua subjetividade. Já é assumido e tu falas nisso no livro.

Mas eu acho que isso é um belo retrato do que é a literatura em geral, porque a literatura muitas vezes é este jogo entre nós e os outros, em que nós tentamos dizer alguma coisa aos outros que leem, muitas vezes sobre nós, muitas vezes também há um exercício em que nos tentamos colocar no lugar dos outros. Há essa troca. E enquanto a literatura for feita entre seres humanos, vai ser assim.

Tenho que perguntar Dar um passo atrás e já voltamos. O Rui Nabeiro só nos deixou, infelizmente, prematuramente, quanto a mim, há dois anos. O livro já tinha saído há algum tempo. Ele gostou muito do resultado final? Qual foi o feedback privado dele contigo?

Quando eu lhe perguntei diretamente e fiz essa pergunta várias vezes, ele esquivou-se sempre um pouco. O máximo que eu consegui dele foi: "Se eu não achasse que era capaz, eu nunca tinha o contactado" e tudo isso.

Sim. Dito isto.

Mas eu tive a oportunidade, e essas foram bastante prazerosas, de ouvi-lo a falar, por exemplo, na rádio e noutras circunstâncias.

Falou do livro.

Sobre o livro. E aí sim.

A prova que realmente ele não iria divulgar e falar disso se não fosse uma coisa que o tivesse tocado especialmente.

E pra mim é muito interessante, porque apesar, até no caso do Rui Nabeiro, que é uma figura tão marcante, mas em todos os outros casos, eu tenho consciência de que essas pessoas, depois no texto, são personagens.

Sim.

Ou seja, é claro que enquanto pessoas, na sua dimensão de seres humanos, são pessoas e isso obviamente transcende-me e eu não consigo compreender toda essa dimensão. Mas no que diz respeito ao texto, eu tenho de os trabalhar como personagens. E ao trabalhá-los como personagens, tenho de escolher o que é que entra, o que é que não entra, em que proporções.

No caso do Daniel Rodrigues, por exemplo.

Exato.

Há uma fotografia muito bonita de tu a dedicares-lhe o livro, a assinares no IPO. E ele como se fosse uma pessoa que nunca pensou na vida vir a tornar-se personagem de um livro, que isso o marcou também.

É. E pra mim também é muito tocante, não só ter esse encontro com essas pessoas que são pacientes do IPO e que muitas vezes ultrapassaram a doença, noutros casos convivem com ela.

E outros foram levados por ela, aconteceu também.

Inclusive, também com os familiares. Porque um dos aspetos que também estava aqui presente nesta proposta era justamente honrar essas vidas e, de certa forma, identificar alguns elementos daquela grande pergunta que nós todos sempre colocamos nas nossas vidas, que é o sentido.

O porquê.

Por que vivemos? Para que vivemos? Não, mais do que isso. Por que vivemos? Porque, vamos ver, mais do que a doença, e esta doença que é o câncer.

Está em negrito, em todo o livro aparece. Ainda é uma palavra tabu, ainda é um tema tabu na nossa sociedade.

E às vezes eu sinto que é uma palavra-

Que pode tocar todas as famílias, todas as pessoas, eu acho

...é uma palavra que às vezes é até mais difícil dizer do que a palavra morte. Embora, ironicamente, um dos problemas que as pessoas têm com a palavra câncer é imediatamente a considerarem sinônimo de morte.

E por isso arranjamos eufemismos, a doença prolongada.

Mas ainda assim, uma coisa é certa e também não precisa de ser muito trágica, que é a ideia de que todos vamos morrer. E como tal, uma das tarefas importantes que nós temos é encontrar um sentido pra nossa vida, seja ele qual for, viver pela nossa família, viver pela arte, viver por algum objetivo, algum ideal ou alguma fé. E sinto que, principalmente, quando as pessoas estão numa situação em que se veem mais confrontadas com a sua finitude e com a sua fragilidade, essa ideia de sentido é muito importante. E a escrita depende do sentido também. A escrita de um romance, de um livro, precisa de um sentido. Precisa de partir de uma convicção, precisa se dirigir a alguma coisa, de preferência, até inalcançável, um horizonte, uma direção. Um sentido também é isso, uma direção.

Exatamente.

E este livro também tem um pouco esse propósito.

Tenho um bocado a sensação que este livro mudou a tua vida, mudou-te.

Sim, muito.

Mais do que outros que tens escrito.

Mais do que outros.

Eu senti imenso isso.

Eu não quero ser injusto com outros livros que escrevi que foram muito importantes no seu tempo, mas na verdade, neste momento, eu estou a viver um período de extrema realização pessoal, porque já há muito tempo que vinha a lutar com este livro. Na verdade, em termos muito práticos, eu queria tê-lo publicado no ano passado, mas não fui capaz, porque não estava resolvido. E aliás, houve muitos momentos em que eu tive dúvidas se seria capaz de terminá-lo, porque o livro, em certos momentos, é muito ambicioso pela quantidade de peças que pretende conjugar.

Esta escrita fragmentada é tua, é muito da tua escrita também.

É verdade, eu acho que tenho uma certa vocação pra fragmentação.

Exatamente.

Porque não sei como os livros, as narrativas fragmentam sempre bastante. Mas sinto que em certas alturas é como estar a fazer um malabarismo com uma grande quantidade de bolas. Que têm de estar todas no ar e há certos momentos em que eu me pergunto se não exagerei na quantidade de elementos.

Há outra coisa que é a referência ao teu pai, o José João Serrano Peixoto, carpinteiro, que tu claro que fazes aqui. 25 anos depois do "Morreste-me", eu acho que isto também é um bocadinho a hipótese de poderes voltar a regressar literariamente a este tema. Este livro também poderia ser um bocadinho homenagem ao teu pai? Ou isto é um fechar de ciclo?

Completamente.

Isto é uma catarse, foi uma catarse pra ti?

Também, um pouco.

"Vamos processar isto, que eu não conseguia falar disto há muitos anos".

Um pouco como dizia antes, também durante a escrita do livro, houve momentos em que eu pensei que eu estava a fechar aquele tema. Mas hoje também não tenho essa certeza. Porque pra mim sempre foi muito claro que esse tema esteve presente em todos os livros que eu escrevi. Estávamos a falar, por exemplo, há pouco do "Almoço de Domingo". Há muito do meu pai no "Almoço de Domingo".

E nos teus poemas.

Nos poemas, diretamente. Mesmo na autobiografia, existe sempre essa aqui e ali. Aqui neste livro, de uma forma muito direta.

Tu vais ser sempre cinco, sabes disso?

Sim.

Mas, de facto, aqui contas aquela história deliciosa das caixinhas do doce, que ias guardando, e tu visitas o IPO, neste caso de Lisboa. O meu pai trabalhava lá. E tinha a ideia que às tantas tu te transformas no teu pai. Por outro lado, tu também já és pai. Isso muda tudo?

Sim, muda tudo. Eu sinto que a relação enquanto filhos que temos com os nossos pais, na verdade, acaba por se transformar muito com a passagem do tempo. E acho que não há outra forma de amadurecer, que não seja pela passagem do tempo, porque acaba por ser um amadurecimento pessoal que humaniza os nossos pais. Porque é natural que enquanto crianças ou adolescentes, os vejamos como super-humanos ou como inumanos, se quisermos. Alguém que não é deste nível. Mas depois vamos chegando à idade dos nossos pais e vamos pensando: " Será que ele também tinha estas dúvidas? Será que ele também tinha todos estes medos?"

Tu tiveste uma banda, que era os Hipocondríacos. Como é a tua relação com a doença? Tu que passaste a vida aí. Nos últimos anos.

É engraçado, nunca tinha pensado no nome da banda. Sabes que o nome da banda nós escolhemos com o dicionário na mão e uma das coisas que nos levou a usar esse nome foi, sobretudo, a estranheza que encontrávamos no conceito e na própria palavra.

Tu a maioria dos anos foste ao hospital, portanto quase todos os dias.

Mas com a doença eu comecei por ter uma relação difícil, até porque para mim foi difícil também e um pouco chocante a forma como o meu pai ficou doente. E como logo a partir do momento em que foi diagnosticado, se soube e foi dito que tinha muito pouco tempo de vida. E então houve uns anos de rejeição dos hospitais. Mas também com a passagem do tempo, essa relação se foi transformando. E hoje percebo um pouco melhor o que são os hospitais e felizmente, acho que hoje estou preparado para estar num hospital, por exemplo, se for necessário.

Tu fizeste atletismo quando eras novo, tens boa saúde, graças a Deus.

Ainda faço.

Ainda fazes? Boa. Corrida?

Sim. Já hoje corri 12 quilômetros.

Boa. Mas esta questão da saúde, que é importante. Para ti, tiveste algum susto de saúde grande na tua vida?

Tive alguns, mas felizmente nunca foi nada que tivesse essa conclusão, que precisasse de mudar a minha vida, e que tivesse todo esse despertar. Porque eu sinto que, no caso do câncer, aquilo que acontece verdadeiramente é um antes do diagnóstico e um depois do diagnóstico. E isso, a meu ver, acaba por trazer uma consciência que nós, na verdade, não temos até estar nessa situação. E que eu não tive, mas provavelmente algum dia irei ter, porque como disse antes, todos nos temos de confrontar com a mortalidade.

Hoje em dia os médicos que eu tenho recebido aqui dizem muito que mesmo o câncer está muito a transformar-se, como da evolução da ciência, numa doença crônica. Muitas pessoas vão ter, se não todas, dizem eles, e a pessoa vai morrer com câncer e não de câncer. Cada vez há mais tratamentos.

Mas sabes, há uma coisa curiosa. E isto, para mim até é difícil, porque às vezes parece tão incrível que até me parece que as pessoas podem nem acreditar. Mas, na verdade, quando surgiu a oportunidade de escrever esse livro, a partir das memórias do Rui Nabeiro, eu já tinha a intenção prévia de escrever um livro centrado numa personagem com uma idade avançada.

Ok.

Isto é incrível. E uma das razões pelas quais eu tinha vontade de escrever esse livro, prendia-se com a minha ideia de que escrever um livro assim já me ia permitir ter uma aproximação à experiência de ter essa idade.

Dava-te ferramentas para quando chegasse.

Ou então se eu não chegasse lá, pelo menos já tinha tido um pouco uma certa visão do que é ter essa idade. Porque quando nós estamos a escrever um romance, temos de nos embrenhar muito naquele mundo.

Exatamente.

E escrever esse livro trouxe-me um pouco também um despertar para as pessoas mais velhas e para essas questões. E para pensar que as pessoas mais velhas, com 80, 90, não são tão diferentes assim de mim, que tenho 50, neste momento, 51. E o mesmo acontece com doentes, pessoas com câncer. Porque embora eu nunca tenha tido essa doença, sinto que hoje vejo um pouco melhor como é que é ter essa doença. Não quero com isto dizer, de maneira nenhuma, que eu sei como é que é ter.

Ninguém pode dizer isso.

Até porque me parece que cada pessoa tem uma experiência única, própria e não há provavelmente ninguém, nem mesmo os médicos que lidam com isso todos os dias, que saibam como é que são todas as experiências. Mas a verdade é que escrever livros, pelo menos nos dá a presunção de termos alguma experiência acrescida.

Muito bem. "A Montanha", uma edição Quetzal, aqui do José Luís Peixoto. Este último livro, muito brilhante e muito cru, também pode ser isto.

Muito obrigado. São dois adjetivos que eu fico muito feliz de ouvir.

Mas é verdade, e é um livro desconfortável, mas que faz bem e é um livro também obrigatório. Queria acabar de dizer isto. Muito obrigado, José Luís Peixoto. Vais voltar, mas para já foi uma conversa muito boa. Continua sempre a escrever. E o João e o André, teus filhos, já adultos. Nenhum deles escreve uma palavrinha de vez em quando?

Não, eles têm outras formas de expressão, mas está bem assim. E são leitores, que também é muito bom.

Isso é muito importante. José Luís, bem-haj as. Muito obrigado.

Obrigado.