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A minha convidada de hoje é a escritora espanhola Rosa Montero, que completou uma trilogia de ficção científica, que escreveu grande parte em Portugal, onde mora, em Cascais, grande parte do ano, e que esta trilogia, esta ficção científica de que é autora, estranhamente se parece com os tempos que vivemos. Olá, Rosa, muito obrigado por este convite, mesmo à distância.

Estoy encantada de estar aquí con vosotros. Debía estar yo ahora en Cascais, pero claro, estoy confinada y no puedo viajar, não puedo salir.

Pois é. E agora não posso deixar de começar neste minuto e meio que falta até esta síntese de notícias, Rosa, depois não desligues e nós continuamos depois desta síntese. Mas pra já, agora que Espanha tem estes números que nos assustam todos os dias, com, neste momento, quase 150 mil infectados e mais de 14.500 mortos totais no centro de Madri. Como é que está a ser esta quarentena forçada, este tempo aí, o ambiente geral que estás a viver?

Bueno, a mí me encanta aislarme. Normalmente, quando vou a Cascais, precisamente vou com mis cadelas, com mis perras, e me isolo, passeio com elas, faço ginástica e escrevo, e não vejo a nadie. Isso me encanta, pero aquí não é o mesmo, claro. Não é o mesmo, porque não podes tener essa concentração, ni podes tener essa serenidade, porque entra o ruído e a dor do mundo e a preocupação, como dizes bem, os mortos, sobretudo, e a maneira como muitos deles, a gente não pode nem despedir-se de ellos. Tudo isso rompe o coração.

Sim, é impressionante. São momentos difíceis e que nós também temos estado aqui a acompanhar. E agora, Rosa, vou te pedir para não desligares e já voltamos à conversa. Até já. Estamos por Skype, em direto com Madri, com a escritora Rosa Montero, que já foi muito premiada. Em 1980, ganhou o Prêmio Nacional de Jornalismo e, em 2017, o Prêmio Nacional das Letras Espanholas. Gosto sempre de dizer que esta frase, Rosa, a propósito de ti, que diz o Mario Vargas Llosa, que é Prêmio Nobel da Literatura, que diz: "A sua prosa limpa e direta evita a arrogância e o pretensiosismo. Rosa Montero é minha amiga íntima de ficção." Um grande elogio e merecido. Tenho que dizer também que a Rosa é uma grande entrevistadora e toda a vida entrevistou, tem mais de duas mil entrevistas a gente muito importante do mundo, incluindo Gandhi, Paul McCartney, Lou Reed, Arafat, Margaret Thatcher, Phil Collins, muita gente, e costuma definir-se como uma escritora que cultiva a ficção, o jornalismo e o ensaio. Rosa, tenho que te perguntar isto. Obviamente, tinha que falar só, porque foi mencionado agora quando te apresentei, "A Louca da Casa", este título que tu já editaste há 17 anos e que o Vicente Figueira teve o cuidado de lembrar, que ele lembrava-se e, portanto, falou nisso. Claro que a tua obra ainda continua a ser a tua obra mais conhecida, "A Louca da Casa", um grande livro sobre o mistério da criação literária, sobre o impulso criativo, e com este título que, no fundo, era o que Santa Teresa d'Ávila chamava à imaginação. Isto depois de muitas obras, tu já deves ter alguns 30 livros publicados. Chegamos a esta trilogia da Bruna Husky, uma maravilhosa parábola sobre o mundo em que vivemos. É exatamente a grande vantagem desta tua ficção científica, porque não é um gênero que as pessoas, não sei como é que foi em Espanha, mas aqui em Portugal não é um gênero que tenha assim muitos seguidores, mas a tua é especial.

Sim, é assim. Na Espanha também passa isso, pero porque a gente tem um prejuízo absurdo. Se crê que a ciência ficción é um gênero que fala de coisas esotéricas.

Demasiados, sim.

Como vosotros decís. E de marcianos, com as orelhas picudas.

Com os olhos verdes, exato.

Exato. E que não tem a ver com a realidade e que, além disso, é muito técnica ou muito científica, no sentido frio, que não tem emoções. Tudo isso são prejuízos e erros enormes.

São preconceitos, exato.

Claro, a ciência ficción o que te proporciona é uma ferramenta metafórica maravilhosa, muito poderosa para falar da realidade, para aprofundizar na realidade. Eu te direi, João Paulo, que estos três livros de Bruna são os mais realistas que escrevi na minha vida, de todas as novelas que escrevi, que de livros assim, importantes, novelas, são 16. De todos eles, os mais realistas. E olha o que me aconteceu, que já vieram leitores. Levo 10 anos publicando as Brunas, desde que começou o primeiro. E então vieram às médias do livro e tal. E isso me aconteceu muitas vezes. Leitores que me dizem: "Ai, Rosa, gostei muito, não sei, o primeiro de Bruna ou o segundo, ou este último, 'Os Tempos do Ódio'. Gostei muito da novela, e é raríssimo que eu tenha gostado, porque eu odeio a ciência ficción." Então eu lhes agradeci, claro, quando me disseram isso, porque que generosidade do leitor, pensando que vão odiar essa novela, a leem só porque a firmo eu. Ou seja, muito generosos e maravilhosos. Lhes dou os agradecimentos. E depois lhes pergunto: "E o que tinhas lido antes de ciência ficción?" E não tinham lido nada, não podem responder. Então como sabem que a odiam? É um puro prejuízo.

É um preconceito, claro.

E nesta última, falando dessa ideia que têm de que é algo frio e tal. Nesta última, "Os Tempos do Ódio", o final, para mim, de "Os Tempos do Ódio" Te direi que é o final que mais me emocionou escrever de todas as minhas novelas. Me emocionou muitíssimo escrever esse final. Te desafio, nada.

Sim. Portanto, explicavas que é uma ferramenta metafórica poderosíssima para explicar a realidade, a ficção científica. Também é curioso, eu sei que tu és uma grande, isto são thrillers futuristas. Gostas muito do Philip K. Dick, o inspirador do Blade Runner, com aquela novela Do Android Sleep of Electrical Sheep, um livro fabuloso que já tem mais de 50 anos, que depois Ridley Scott aproveitou, mas tu tens uma coisa em comum com ele: é que isto passa-se tudo num futuro, mas é um futuro muito verosímel, porque não é tão longe como isso. Nós estamos nos Estados Unidos da Terra, em Madri, em 2109, daqui a 100 anos. Há muitas coisas que se mantêm, mas sobretudo, e uma coisa que eu acho muito curiosa, Rosa, é que as emoções, no fundo, são as mesmas, e isto já vem desde os gregos.

Absolutamente as mesmas. É o que te digo, as emoções são iguais, os sentimentos. Para mim, João Paulo, é igual escrever estas novelas de ciência ficción que qualquer outra novela minha. Qualquer outra contemporânea. Não é que eu faça gênero com isto. Eu creio que agora no século XXI os gêneros não existem. Não sei como dizer-te. "Os Tempos do Ódio", por exemplo, é uma novela futurista de ciência ficción, mas também é um thriller, é uma novela policíaca de investigação.

É um policial, exato.

Claro, policial, porque a protagonista é uma detetive, Bruna Husky. Também é uma novela psicológica, também é uma novela social, também é uma novela existencialista, porque fala da vida, do passar do tempo, da morte. Também é uma novela de amor, é tudo isso, nada mais.

Exatamente. E digo-te mais, e também é o que eu achei, Rosa. É também muito ecológica. Tu fazes muita questão de falar da Terra e do futuro da Terra. Tu pões aqui alguns problemas, por exemplo, os apagadores de memórias, o comprar o ar. O ar puro compra-se no futuro, a água é um luxo, paga-se para respirar oxigênio. E tudo isto são coisas que não estamos tão longe disso. Já houve radicais liberais nos Estados Unidos que já pediram para o ar ser vendido. É impressionante.

Sim, mas não só isso, que há radicais que pedem que se pague pelo ar, mas que é o que estamos vivendo, em realidade, João Paulo. Porque no outro dia li que hace unos meses, que em um país, agora não recordo, em um país de África, fizeram análises de sangue de crianças recém-nascidas e já vinham contaminados pelos metais pesados dos cemitérios eletrônicos que Ocidente lhes está mandando. O que eu quero te dizer é que já há gente que vive porque não pode pagar um sítio melhor em sítios tremendamente contaminados. Quando eu coloco na minha novela de ciência ficción, que é um mundo onde há que pagar para viver em um sítio menos contaminado, é em realidade o que estamos vivendo agora.

Exatamente. É o presente.

Claro! É que não há mais que assomar-se agora pela janela, sobretudo com esta terrível pandemia do Covid, para dar-se conta de que o gênero literário mais realista é este gênero da ciência ficción. Vamos, isso é assim. Estamos vivendo em uma novela de ciência ficción.

Exatamente. E é também curioso, Rosa, que a Bruna Husky é uma detetive replicante, ela é meio androide. E que se passa no futuro e em cada livro desta trilogia, "O Peso do Coração", "As Lágrimas de Chuva" primeiro, depois "O Peso do Coração" e agora este, "Os Tempos do Ódio", que em Portugal são editados pela Porto Editora. Esta detetive é a personagem mais parecida contigo e também está obcecada com a morte. Não tem medo da morte, mas tem um ódio à morte. Fala muito, apaixona-se muito, é a tua cara.

Sim, é a personagem que eu creio que se parece mais a mim no fundo. Homem no fundo, porque claro, eu não sou um clone humano, não sou uma replicante de combate. Mas sim, minha personagem, que é um clone humano, que foi maturado aceleradamente, é criada em um tanque durante 12 meses e depois quando a ativam tem biologicamente 25 anos de idade e aos 10 anos, ou seja, cinco biológicos, morrem por um processo degenerativo. Assim que minha pobre Bruna sabe quando vai morrer.

Exato, e nós vivemos nesse suspense, porque ela vai contando, faltam 10 dias, oito horas, cinco minutos. É impressionante, é uma corrida contra o tempo para resolver as coisas.

Terrível, porque como sabe quando vai morrer, não se pode esquecer de que é mortal, que é o que fazem todos os humanos, esquecer-se de que são mortais. Todos os humanos, menos um punhado de neuróticos como Woody Allen ou como eu, por exemplo, que não podemos esquecer-nos de que vamos morrer. Estamos obcecados pela morte, pelo passar do tempo. Nisso me pareço muitíssimo a ela. E também me pareço nas ganas de viver, porque quando estás muito consciente da morte e do passar do tempo, também és muito consciente da vida. Minha Bruna Husky ama a vida, come a vida em bocados, é uma vitalista tremenda, é uma fera, verdadeiramente. E eu, um pouco menos exagerada que ela, mas também sou muito vitalista. Nisso nos parecemos muito também. Nos parecemos em obsessivas que somos as duas. Não se pode ser novelista sem ser obsessivo. E eu creio que não se pode ser detetive sem ser obsessivo também. Seguir o detalhe E lhe dei muitas coisas minhas. Por exemplo, meu gosto por vinho branco. O que acontece é que como ela vive tão desesperada por essa vida tão curta, bebe muito mais que eu. É quase alcoólatra. Eu ainda não cheguei lá e espero não chegar.

Apesar de gostares muito de vinho branco, que eu sei, e também gostares, quando estás aqui em Cascais, de comer as tuas bruxas. O que é? É um bivalve, é um marisco?

São maravilhosas as bruxas. Tu não comeste bruxas?

Não.

Não as conheces? Que desastre! Como não conheces as bruxas? É o marisco mais rico do mundo, eu o conheci ali em Cascais.

Ao pé da Boca do Inferno, se não me engano.

Na Boca do Inferno, sim. É maravilhoso, bruxas com um vinho branco de Alentejo. Paraíso.

Temos que provar, muito bem. Outra coisa muito boa também e que eu gosto nesses teus livros, Rosa, tenho que confessar, que é: diz assim até na capa do livro "Os Tempos do Ódio": "Apesar de vivermos em tempos de ódio, este romance abre caminho à esperança". E realmente, isto é uma coisa muito engraçada, porque esta tua heroína, esta tua Bruna Husky, a única grande falha dela é ter um coração gigante e ela apaixona-se facilmente e é uma pessoa que vive muito com base no amor, tentar salvar o máximo que ela pode, como a protegida russa e como os amigos que tomam conta das coisas que ela gosta. E portanto, tem esta "falha", entre aspas, porque não é uma falha, é este coração gigante. Portanto, isto abre muito a porta a uma esperança e é tudo que a gente precisa ouvir nos dias que correm, não é?

Sim, absolutamente. Bom, primeiro que as três novelas podem ser lidas independentemente. Cada uma é uma história fechada, não importa que não tenha lido a anterior. Mas é verdade que se você as ler todas seguidas nesses 10 anos, vê que houve um progresso, primeiro nesse coração de Bruna, porque no início das novelas era muito mais misántropa, se odiava mais a si mesma, odiava mais o mundo e foi aprendendo a perder o medo de amar. E nessa última novela é muito importante, que é uma novela de amor também. É muito importante para Bruna, porque eu acredito que perde o medo de amar sentimentalmente. Porque Bruna é esse tipo de pessoa que conhecemos, que tem medo de suas emoções, porque acredita que os sentimentos a debilitam, que é um erro, porque claro que amar alguém nos torna mais frágeis. Mas é que não há opção. Escolher não amar por medo de ser mais frágil, por medo da dor, é escolher não viver. É como a segurança do cemitério, é escolher não viver. Então, nesta novela, em "Os Tempos do Ódio", Bruna aprende a superar seu medo de amar. Nesse sentido, é muito importante. E os tempos do ódio também são, efetivamente, estes tempos que vivemos, onde vai crescendo no mundo, em todas as partes, o extremismo. Uma espécie de anelo ou de desejo por dogmatismo. Há uma crise na credibilidade democrática tremenda. Muita gente deixou de se sentir representada pelo sistema democrático, que tem muitos problemas, é claro. Mas é uma tragédia, porque se deixam enganar pela falsa pureza do dogma, dos dogmas de extrema-direita ou de extrema-esquerda, dogmas laicos ou dogmas religiosos como o ISIS. Então há um furor contra o ódio no mundo, porque esses sistemas que são irracionais, dogmáticos, são irracionais.

Que são fundamentalistas, não é? Sim.

Claro, fundamentalistas de esquerda ou de direita. Mas para crescer, como não têm um conteúdo racional, para crescer precisam de inimigos. Baseiam-se no ódio, por exemplo. Claro, esses demagogos terríveis, extremistas como Bolsonaro ou Trump, ganharam sua presidência, os dois, em dois países enormes, claro, com muitíssimos votos, com programas eleitorais cheios de ódio. Antes não se teriam atrevido, poucos anos antes, nenhum político se teria atrevido a fazer um programa eleitoral com tanto ódio. E isso é o que os fez ganhar, o que é terrorífico. Então, minha novela tenta dar justamente esperança, como você diz, a esse panorama. A esperança de dizer que essa luta entre a luz e as sombras vem desde o princípio dos tempos. Eu acredito que já nas cavernas, o homem troglodita e a mulher troglodita, já se dividia o ser humano nas cavernas entre aqueles que escolhiam a sobrevivência por meio da colaboração. E então traziam comida aos enfermos e aos velhos e cuidavam de seus enfermos e de seus filhos, ou aqueles que escolhiam a sobrevivência pela depredação. E que então lhe rompiam a cabeça com um pau o tipo mais débil para roubar o filete de mamute.

Para ficar com o seu filete de mamute, matava os mais fracos e os doentes, exatamente. Isso se calhar já vem desde a pré-história, exato.

Exato. Essa luta entre a luz e a escuridão vem de longe. E por agora a luz vem ganhando. E por que a luz vem ganhando? Porque há que peleá-lo, há que combatê-lo, não há que deixar-se vencer pelo ódio, não há que ficar em casa, há que ser comprometido com tua sociedade e com tua vida. E esta novela quer dar essa esperança, que se seguimos comprometidos, se nos negarmos a deixar-nos enganar pelo ódio, pelo discurso do ódio, que é muito contagioso, podemos ganhar. Assim que, em minha novela ganham os bons no final.

Sim, ainda bem. Não é nenhum spoiler, mas podemos dizer isso. É realmente como tu dizes, e como vem também na capa, também já diz isso: abre caminho à esperança. Diz-me só uma coisa, Rosa, isto completa uma trilogia com estes três, "As Lágrimas de Chuva", "O Peso do Coração" e este "Os Tempos do Ódio", que foi lançado agora nas Correntes de Escrita em fevereiro. Vêm mais, eu espero que sim, mas vêm mais novelas com ela?

Sim, porque nesta novela, Bruna Husky, o final é muito curioso, muito intrigante. Deixo a Bruna em um lugar que é muito Muito estranho e que tem muitas possibilidades. E eu estou morta de curiosidade por saber o que vai acontecer com ela a partir do final desta novela. E fica atento, João Paulo, se eu não escrevo uma novela, não posso saber. Então tenho que escrever uma novela para saber o que acontece com Bruna.

Só quando te acontece isso de a personagem Bruna, que já tens há nove anos na tua cabeça, ela vai também conduzindo a história e vai te dizendo os tempos certos e no fundo, leva um pouquinho a história para onde às vezes tu não sonhas quando começaste a escrever?

Não sei se te entendi bem. Que quando comecei a escrever, sabia o que iria fazer? Não.

Sim, isso mesmo.

Quando começas, na realidade, um autor maduro tem que ter a humildade de deixar a história ser contada por seus personagens. Então, verdadeiramente, até que não começas a fazer a história, a prepará-la, desenvolvê-la, até que os personagens não te vão contando, tu não sabes. Por isso te digo que agora mesmo não sei o que acontecerá com Bruna na próxima novela. Sei algumas coisas, intuo algumas coisas, melhor dizendo.

Muito bem.

Mas não sei o que vai acontecer com ela.

Vamos ficar à espera, acho muitíssimo bem. Há também uma história aqui memorável. Rosa, ajuda-me a lembrar uma história que tu contas aqui, que se passou, se não me engano, em Espanha, terá sido durante a Guerra Civil de Espanha, terá sido nessa altura? Outro período muito difícil e muito duro, com também muitas mortes que viveu Espanha entre 36 e 39. Conta-me uma história, ao mesmo tempo, de um coração gigante, de um amor gigante, que foi, se não me engano, num campo de prisioneiros, foi numa prisão?

Sim, não, é numa mina. Esse é um exemplo muito grande dessa outra maneira de lutar contra a escuridão, justamente. Eu conto em "Os Tempos do Ódio" e é para demonstrarmos que efetivamente há outra maneira de estar no mundo. Pode ser o depredador, o malvado, o assassino e pode ser o que cria o ódio e pode ser o que cria a solidariedade e a grandeza. Isso aconteceu justamente nos primeiros anos depois de terminar a guerra e Franco ganhar. Nos primeiros anos, não, nos primeiros momentos, nas primeiras semanas, que foram terríveis, os primeiros meses depois de terminar a guerra foram terríveis. Então, numa mina de carvão de Astúrias, no norte de Espanha, uma das maiores minas, estavam trabalhando prisioneiros republicanos, dos perdedores, prisioneiros republicanos. E estavam trabalhando aí, obrigatoriamente. E nessas primeiras semanas, havia um grupo de matones falangistas, essas primeiras semanas que foram sem lei. Havia um grupo de matones falangistas que costumavam de quando em quando descer à mina e faziam os prisioneiros se formarem em uma linha e que se enumerassem, os faziam numerar-se.

Cada um tinha um número. Eu sou o um, o dois, o três e por aí fora.

Exato.

E depois?

E escolhiam um dos prisioneiros e o faziam dizer um número. E o pobre desgraciado que coincidia com esse número era tirado da fila e fuzilado ali mesmo. Terrível. Mas o maravilhoso, o grandioso, é que muitas vezes a pessoa a quem pediam que dissesse o número, dava seu próprio número. Ou seja, se condenava a si mesmo à morte.

Entregava-se para não morrer outro.

Sim, se condenava a si mesmo à morte para que não morresse ninguém. Então, o ser humano é capaz de coisas terríveis, mas o ser humano é capaz de coisas grandiosas e maravilhosas. E essa é a esperança.

É isso, exatamente. Era isso mesmo que eu ia dizer. Isso é um sinal muito importante e que nos dá esperança. Portanto, ficamos aqui com esta dica, "Os Tempos do Ódio", um romance excepcional, que como a Rosa disse muito bem, vai já numa trilogia. Vai haver mais. É um thriller psicológico, uma distopia, que se passa no futuro, daqui a mais ou menos 100 anos. E apesar de ter replicantes e detetives, é muito bom, porque nós temos uma visão do que passou pela louca da imaginação, a louca da casa da Rosa imaginou como vai ser o futuro e não deve estar muito longe da verdade, com tudo o que nos vai acontecer, mas sobretudo nos faz pensar. A mim ajudou-me muito, porque também estão aqui os problemas todos de hoje, a política perversa, a corrupção, o nacionalismo, o fanatismo, o racismo. Estão aqui muitos problemas e também está uma grande história de amor. A Rosa tem sempre este cuidado de fazer uma história apaixonante ou que fala de paixão e que fala de amor e, portanto, esperemos, sim, que continue. E cada um já sabe, cada um destes romances, que pode pedir agora online, vale a pena ler e ajuda a passar esta quarentena, podem ser lidos independentemente. Portanto, fica aqui a dica. Rosa, nós infelizmente, como em rádio é assim mesmo, já sabes, nós não temos tempo para mais, mas quero te agradecer diretamente, de Lisboa para Madrid, do Observador para a tua casa. Rosa, um grande beijinho.

Obrigadíssima.

Mantém-te salva.

Obrigadíssima, João Paulo. Um beijinho a todos.

E logo que possas, regressa para Cascais, onde tu gostas tanto de vir, a senhora dos cães, das cadelas.

Sim, a senhora das cadelas.

E muito obrigado por teres trazido desde Madri a tua paixão pela escrita, pela humanidade e a tua esperança do futuro, apesar do momento difícil que vivemos, os votos melhores também para Madri e para o teu país em geral, está?

Obrigadíssima. Obrigada a todos e muitos beijos. Beijos a todos.

Muito obrigado, Rosa.

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