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Quando a Sandra diz: "Os livros acabam por nos escolher", acredito que também as peças nos escolhem.

Um condutor perde-se de noite numa estrada florestal. De repente, o carro fica atolado. Ele sai e percebe que está perdido debaixo do céu escuro e de neve. Desconcertado e em pânico, quase morre de frio e de cansaço. Tudo lhe passa pela cabeça, entre pensamentos soltos, imagens e memórias. Este é o ponto de partida de Uma Brancura Luminosa, a peça em cena no Teatro Variedades, protagonizada por Ricardo Pereira, o mais brasileiro dos atores portugueses, e Sandra Barata Belo, que encenou e adaptou o texto homônimo do escritor, tradutor e dramaturgo norueguês Jon Fosse, Nobel da Literatura há dois anos. Aliás, há quase três anos. Olá, Sandra e olá, Ricardo. Bem-vindos.

Olá. Olá.

Bem-vindos à Rádio Observador. Eu quero dizer antes de começar, é um disclaimer, que estou muito contente. Acho que este estúdio é pequeno para o talento monumental que tenho aqui hoje. O Ricardo é a primeira vez que vem aqui a este programa.

É.

Tu já tens direito a uma boneca, Sandra, é a terceira vez.

É sempre um prazer.

Mas de facto, os sorrisos mais bonitos, e não só isso, eu já vos ouvi outras entrevistas vossas ou fiz. O entusiasmo com que vocês amam a vossa vida e aquilo que fazem, e os filhos e tudo isto, é contagiante e portanto, é muito bom estar com vocês aqui.

Muito obrigada.

Acho que é uma onda que passa mesmo. Tu gostas de ondas.

Exatamente.

Isso é muito importante para mim. Posto este disclaimer, a Sandra esteve cá há quatro anos com A Cochinchina.

Sim.

Adaptação daquele livro extraordinário.

Príncipe Kéranin.

Exatamente, do Afonso Cruz. E há dois anos voltaste com a Raquel Oliveira por causa do Livrar-me. Que foi no Teatro Meridional, aquela coisa extraordinária daquela mãe que cozinhava uma sopa na biblioteca. Uma peça também incrível.

Sim.

Sandra, nós sabemos que desde a adolescência querias ser atriz, já te apresentei duas vezes. Gosto muito deste pormenor teu do Chapitô. Nesta peça nota-se, tu fazes novo circo e estás pendurada das cortinas. E nunca me esqueci que fizeste com a Vina Pani Chawla estas técnicas psicofísicas indianas.

Sim, foi um prazer. É um marco na minha formação ficar três semanas na Índia com uma companhia de teatro, com a Vina Pani Chawla, que infelizmente já não se encontra entre nós, mas que tinha um olhar muito interessante sobre o trabalho do ator, muito focado nas emoções através da respiração, o controle das emoções através das diferentes técnicas da respiração. E de facto, se pensarmos bem, quem faz ioga ou quem já experimentou, quem está familiarizado, sabe bem como a respiração influencia e conduz o próprio movimento. E portanto, a base do nosso trabalho de ator também vem muito deste lado asiático, neste caso indiano.

E é engraçado tudo que seja teatro e com dança e com o novo circo, tem muito a ver contigo. A Companhia de Animação do Chapitô, a Naná, O Bando, estou a pensar coisas que fizeste também. E de facto, esta peça não pode ser mais física. O que é extraordinário para os dois, estava há bocado a falar isso com o Ricardo, é muito física para os dois atores. Trocam de roupa, saltam, andam, caem das camas, andam com os cenários, metem-se dentro, metem-se fora. Cai roupa, tudo acontece ali. E de facto, há uma assistente mesmo para o movimento, uma assistente, não é?

Sim, a Cláudia Nóvoa, que trabalha comigo precisamente desde A Cochinchina, depois em Livrar-me agora. A Cláudia Nóvoa foi bailarina da Gulbenkian, é uma coreógrafa neste momento, há muito tempo, e também esteve muito tempo ligada ao Chapitô. Ela deu aulas lá durante imenso tempo. Portanto, ela também é muito fã do novo circo e os trabalhos da Cláudia ultimamente também passam muito pelo novo circo.

Sim, incrível. E também, já agora, estamos a começar pelo fim, que ainda quero apresentar como deve ser o Ricardo. É muito físico isto, e a luz é outra personagem essencial naquela peça. Aqui é o Tasso.

É o Tasso Adamopoulos.

Adamopoulos, que é responsável por isto. Mas de facto, esta luz, estes lasers, tudo isto, estas silhuetas, vocês contam histórias, toda esta história, que já vamos falar disso, o que é este pensamento corrido e solto, como acontece na nossa cabeça, ali está plasmado. E não deve ser fácil adaptar uma coisa destas. Foste tu que adaptaste aquele texto, Jon Fosse, é complicadíssimo. Tiveste que cortar imensa coisa?

Tive que cortar, sim.

Senão eram oito horas.

Senão eram oito horas, sim. Senão eram oito horas e ninguém aguentava.

O Ricardo aguentava.

Sim, aguentava, mas eu saía morta.

Tu cortaste estas 30 páginas de texto.

Eu só seguia ordens como segui até aqui, até agora, até este lugar, até esta floresta. Mas eu acho que a Sandra, sendo uma apaixonada por livros e por autores e por esta descoberta.

Por esta adaptação.

Esta e outras por onde tem andado, custa-lhe muito passar do livro para as peças, naturalmente. E eu também entendo. Realmente cortar palavras de autores que nós, quando lemos, gostamos de tudo, só que depois tem que se tornar prático e viável num contexto teatral.

Sim, quem está a ler o livro é uma cadência que se sente e que vamos envolvidos naquela espécie de repetição, que na verdade não é bem repetição. Cada vez que ele diz essa mesma coisa, na vez seguinte, é um bocadinho diferente.

Muda o quê? O tempo do verbo, qualquer coisa?

Muda a perspectiva.

Isso complica ainda mais para o lado dele.

Exatamente. Ou seja, quem está a ler, vamos envolvidos naquela musicalidade, aquilo embala-te e há também aqui uma premissa de quem será esta brancura luminosa, e tu queres chegar até ao fim do livro para perceber quem é. Na peça, não podemos pôr esta cadência, esta musicalidade que está no livro, porque primeiro ninguém aguentava e depois quem está a decorar, quem faz esse exercício difícil, que é decorar um monólogo. Isto é quase um monólogo, é um monólogo assistido. Eu costumo muito dizer isso, o Ricardo tem 80% do texto, mas decorar um monólogo de 34 páginas já é um exercício muito complicado. Desta forma, com esta cadência, com esta quase repetição, é muito difícil, porque nós no nosso texto vamos quase fazendo um mapa. Vamos sublinhando aqui e ali, fazemos uns rabiscos para ter uma memória visual do texto, que isso também nos ajuda.

Boa.

Exatamente, são os truques. E aqui o Ricardo, era difícil porque parece que ele: "Ah, ok, já disse esta coisa", mas só que depois mais à frente, ele vai dizer essa mesma coisa um bocadinho diferente. E então ele já não sabia se já tinha dito e o desespero dele, um dia vem: "Eu fiz uma pesquisa, eu fiz uma pesquisa, este texto nunca foi feito".

Nunca foi encenado, nunca mesmo.

Nunca foi encenado, porque isto não se diz. Isto não se diz.

É extraordinário, mas de facto é o feedback dele. Foste tu que o escolheste. Como é que este texto te encontrou?

Às vezes eu acho que são os livros que nos escolhem. Eu gosto muito de ler e estou sempre à procura também para o meu trabalho, de coisas que eu gosto e para adaptar. E peguei no livro, já conhecia o nome Jon Fosse, infelizmente nunca tinha lido nada dele.

Por isso que pai há um ano e meio, ou quase dois anos.

Foi em 2024, no início, em março de 2024, que o livro foi lançado aqui no mercado.

O Ricardo, por cima, tornou-se conhecido por ser dramaturgo.

Sim, exatamente.

É curioso.

No passado, e o Ricardo até poderá falar melhor sobre isso, mas outras peças dele, que ele escreve, já foi encenado muito pelos Artistas Unidos. E o Ricardo teve o prazer de ver todas.

Eu vi tudo o que foi encenado aqui, sem saber que estava basicamente a ver tudo desde há 26 anos.

Exatamente.

Quando a Sandra diz: "Os livros acabam por nos escolher", acredito que também as peças nos escolhem.

Exatamente.

E é engraçado como é que há 26 anos eu vi uma encenação de um texto, e daí o conhecimento do público, do Jon Fosse como um dramaturgo. E depois vi todas as outras mais recentes, inclusivamente uma que foi lida na rádio.

Ah, ok. Tu também te referias a leituras encenadas. Aliás, tu fizeste um trabalho para um grande amigo meu, José Paulo Cavalcanti Júnior. Fizeste o audiolivro do "Uma Quase Autobiografia".

"Uma Quase Autobiografia".

Extraordinário trabalho, que depois ele deu-me e de facto está maravilhoso. Obrigou-te a repetir, porque tiveste que fazer duas vezes, por causa não sei o quê.

Sim, fiz. Eram 700 páginas, fizemos em português do Brasil e depois fizemos em português de Portugal. Portanto, 1400 páginas. Na verdade, foi isso.

Tu és mesmo isto, incrível.

Eu estou habituado a grandes jornadas.

E gostas. É fantástico. Também fizeste em Paraty, por exemplo.

Exatamente.

A tua narração também, fizeste várias coisas de narração importantes.

Muitas.

Shakespeare, por exemplo, é muito importante. E de facto, o Jon Fosse que é conhecido porque tem uma odologia sobre a melancolia, depois fez uma trilogia, depois fez uma heptologia famosa, depois recebeu o Nobel. E no ano do Nobel é que saiu esta pecinha. Isto é um livro pequenino, da Cavalo de Ferro, é uma coisa com 50 e tal páginas. Sim, digamos que eu acho que, e a crítica também referiu muito isso, para quem quer começar a perceber o universo do Fosse, é uma boa obra para o entender.

Para se iniciar.

Para se iniciar. Eu também me iniciei, ou seja, já tinha visto o "Vento Forte", que o ano passado os Artistas Unidos também levaram à cena. Mas foi o primeiro livro que eu li dele e de facto despertou-me logo a atenção e eu vi ali imenso potencial cênico, nomeadamente comecei a perceber que isto era muito giro. É muito longe chamar isto um policial, claro que não, não é. Mas aquela coisa do policial: quem será? Quem foi que cometeu o crime? Quem é que foi o cúmplice? Aqui não é este género, de todo. Está muito longe disso.

Mas é um bocadinho de terror, pode ser também um bocadinho de terror. E o humor.

E o humor, mas esta coisa de querer saber quem é a brancura luminosa, que nos leva sempre a querer chegar ao fim, porque ela cada vez se torna-se mais presente. E eu achei que isso podia ser muito interessante levado à cena. E depois este lado, que eu acho que é isso que estás a referir, que ele é simultaneamente filosófico e poético, mas é repetitivo.

Mas é um flow de pensamento.

É um flow, um fluxo de pensamento, que chega a ser ridículo ou absurdo. E lembra muito Beckett, sobretudo os dias felizes do Beckett, que é aquela cadência, quem conhece Beckett. Depois a mãe e o pai, como eles aparecem, aquele diálogo quase frenético da mãe e do pai.

É lindo quando vocês estão os dois a falar isso e eu vejo as vossas sombras, vossas silhuetas, e encolhem-se como se fosse o velhinho, e de repente eu estou a ver ele com uma velinha pela mão, quase. É muito bonito como a luz muda a personagem, não mudando a pessoa.

Sim, em silhueta.

O Ricardo está com uma velinha pela mão.

Sim.

É muito curioso esse jogo. Como é que se imagina isto? É extraordinário. Quer dizer, há livros que fazem mais barulho que outros. E este fez este barulho na tua cabeça.

E este fez muito barulho, estas imagens. Depois a lua e eu pensei: "Bom, se há uma lua, pode ser em contraluz, pode haver este jogo, esta saída e entrada". Este jogo que convidamos o público a fazer com os atores, de entrar e sair na personagem. E o público vê isso em direto. Nós estamos como homem e como brancura luminosa, e de repente a luz muda e a nossa fisicalidade muda e ficamos em pai e em mãe. E eu achei que isso tinha muitoO potencial cênico e que seria interessante de adaptar. Depois tive mais ou menos dois anos a maturar este texto na minha cabeça. E depois falo sempre com o Rui Francisco, que é o cenógrafo, que recebe sempre em primeira mão as minhas ideias: "Ó Rui, olha lá, o que tu achas disso? O que se pode fazer com isto? O que nós podíamos fazer? O que achas que pode ser o cenário?" Tentar materializar as ideias. E ele é fantástico.

Eu, quando estava a ver aquela peça, pensava muito: como é que têm uma ideia de fazer isto e cair esta cortina lá de cima? Quem é que imagina que ela deve subir e que deve ir atrás e que deve ajudá-la e que deve contorná-la por trás? É como tu dizes, materializar isto é estranho.

Eu sabia que ela tinha que vir de um sítio estranho, porque ela é meio etérea, ela é indizível.

Ela está lá atrás escondida, tira-se aqueles panos e está lá uma mulher.

Coisas que eu sempre soube, que isto tinha que ter roupas, tinha que ter muitas roupas, porque são as peles que nós vamos deixando, as escolhas que vamos fazendo. Toda a gente tem roupa em casa que não veste e está lá. Não sabe muito bem o que há de fazer com aquilo.

O desperdício é brutal.

Exatamente, e depois também a montanha de roupa. Mas isso são coisas paralelas que não estão propriamente focadas na peça. Mas sabia disso, sabia que tinha que haver, até no início, o cenário teria mais cortinas e mais panos para jogar com as sombras, precisamente para isso.

As árvores.

As árvores, as silhuetas, que eu sempre quis, as sombras, e pensei que podia ter tecidos, mas depois ficou só mesmo o tecido vertical onde eu subo e faço aquelas acrobacias. E depois os módulos acabaram por ter lycra, para que dá a projeção das sombras e aquele jogo todo também que está lá.

Ricardo, achas que ela pensou logo em ti? Escolheu-te para ser a vingança de "A Herança"?

Não.

Finalmente, a Clara vai aprender o valete.

Não, porque veio antes de "A Herança", este convite. A Sandra eu acompanhei desde sempre, além de trabalharmos como colegas em cinema e em televisão. Temos uma amizade há muito tempo. Acompanhei sempre toda a produção teatral da Sandra e sempre tivemos a vontade de trabalhar também no teatro juntos. Estávamos à procura do momento certo e há dois anos, sensivelmente, a Sandra quando começa a ler, percebe que quer tratar este-

Ficava aqui muito bem o Ricardo.

Não, e depois de ler o livro, disse: "Tens que comprar este livro". E disse-me, eu comprei o livro, também li o livro, também passo a minha vida a ler.

Acho que umas centenas de vezes já o ouvi dizer.

Eu leio muito, eu passo a minha vida a ler livros, tenho sempre livros. Aqui tenho dois livros, na mesa tenho mais dois, na mesinha de cabeceira. Passo a vida a ler, adoro ler. E li o livro rápido e disse: "Sim, mas isto é uma grande viagem." Ela disse: "Eu sei." Pronto. Mas a partir daí, a Sandra começou a trabalhar também do que seria esta viagem, de como ela seria transportada para o teatro, sendo que paralelamente a isto tudo, há este conceito, o conceito ar de um espetáculo. E acho que a Sandra, sendo também de uma formação muito plástica, muito visual, naturalmente sabia exatamente como queria montar o espetáculo e foi sempre partilhando ideias e dizendo também com quem é que estaria a pensar fazer este espetáculo, que grupo iria juntar. E realmente foi um processo contínuo, e esse processo foi prazeroso, foi longo, foi demorado, difícil também em alguns momentos, porque esta criação vive. É impressionante que nesta entrevista não é só o facto de teres assistido à peça. Eu acho que quem vai ver a peça também percebe que é uma peça feita de detalhes. E esses detalhes todos juntos fazem este espetáculo acontecer. E esses detalhes, para chegarmos a eles e estarem literalmente recortados e ao milímetro afinados, envolve muito trabalho. E naturalmente que esses processos de muito trabalho e de processos cansativos, de repetição e de exaustão, porque fazemos até o detalhe, são sempre mais demorados, mais difíceis, mas quando se chega lá é extraordinário. Então foi um processo muito bom como exercício, até tirando agora a mensagem da peça, o que é a peça, o que é o espetáculo, isso tudo, tudo isso, se limparmos isso tudo só como exercício artístico.

E físico.

E físico, já é espetacular. Depois, toda a mensagem que a peça carrega e não podia ser mais atual. Nós vivemos num mundo em que devemos sim, cada vez mais olhar para o lado, ver quem está ao nosso lado.

As escolhas.

As escolhas, percebermos também o que as pessoas falam e o que não falam. Nós às vezes íamos provocar este mesmo diálogo entre todos nós. Fala muito da solidão também. Então todos esses princípios muito atuais fazem esta peça-

O errar, o escolher

...ganhar uma dimensão.

A importância da escolha. Eu acho que vivemos num momento em Portugal, que eu não posso deixar de frisar isso, que temos que escolher. Temos que escolher, temos que estar informados, temos que saber escolher, porque se não escolhermos-

Porque vai mudar tudo

...ficamos ameaçados. E eu acho que é muito importante pensarmos nisso, pensarmos nas nossas escolhas, efetivamente, e estarmos bastante informados. Mas sim, basicamente foi um processo muito rico e quando eu estava a ler o livro, não nos podemos esquecer também que o livro tem um lado, se quisermos ir por aí, às vezes pode ser um bocadinho deprimido ou deprimente.

É muito nórdico, não é?

É muito nórdico. E eu achei que o Ricardo tem este lado solar. O Ricardo é um homem muito bonito e é muito solar, tem uma energia muito positiva que iria contrariar aquele lado mais fechado, mais sombrio, mais frio, digamos assim.

Estavas curiosa também para ver isso.

Sim, e achei que um homem com este perfil como o Ricardo é, contraria aquele lado mais gélido, mais desolador que o próprio livro contém, que o autor é assim, e eu acho que faz um ótimo contraste.

Mas portanto, saíste um bocadinho da tua zona de conforto, entre aspas, ou sentes que não cola como a minha pele, como outros papéis que colaram?

Não, eu acho que é uma escolha. Na minha carreira, tanto no cinema quanto no teatro, na televisão, já fiz um bocadinho. Mas no teatro, principalmente, o meu regresso ao teatro e a última peça que eu tinha feito também tinha sido uma escolha muito pensada, um David Mamet, o Hollywood, e foi uma peça também no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, e depois rodamos também pelo Brasil. Mas a minha escolha teatral que eu queria para voltar aos palcos passava muito por descobrir algo diferente, algo que eu ainda não tivesse feito. De caminhar de uma forma mais profunda. E aqui há várias questões, não é só o texto em si, a densidade do texto, também a própria encenação tem um quê de minimalismo ali associado, mas ao mesmo tempo cheio de simbologia atrelada à mensagem do texto. Eu, neste momento, para regressar ao teatro, talvez procurasse algo totalmente diferente e disruptivo. E achei que, sem dúvida, mais uma vez, não fui eu que encontrei. Eu pensei nisso, mas essa peça encontrou.

Veio ter contigo.

E eu acho que é o momento também de ir para o teatro, que é este processo tão perigoso e tão delicioso, para criar, juntamente com a Sandra, esta viagem. Nós dizemos que isto é uma viagem. Aliás, começamos o espetáculo todos os dias a dizer: "Boa viagem." É uma viagem que é tocante também para nós, que estamos ali diariamente e de forma diferente. É tocante de forma diferente para o público, porque naturalmente os espetáculos variam de dia para dia, mas dentro do mesmo público, do mesmo dia, que assiste ao mesmo espetáculo, tem cada um a sua viagem, não só com contrapontos que fazem com as suas próprias vidas, com os paralelismos que encontram, e também pelo fato de as mensagens desta peça serem mensagens que ficam a ser digeridas para além daquilo que é apresentado no teatro. E eu acho que isso era um caldeirão de situações que me satisfazia bastante, que me cativava bastante para eu estar e fazer parte deste projeto.

Muito bem, Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo. Já voltamos à conversa. Até já. Estamos a falar com Sandra Barata Belo e com Ricardo Pereira, a propósito de "Uma Brancura Luminosa", peça que está em cena no Variedades, que os dois protagonizam. E foi a Sandra Barata Belo que encenou e que adaptou este texto de Jon Fosse. Ele é o Prêmio Nobel da Literatura há dois anos e escreveu este texto homônimo, que vai estar até domingo no Teatro Variedades e que depois vai continuar a sua digressão pelo resto do país. No fundo, estamos convidados, como tu dizes, e muito bem, Ricardo, convidados para esta viagem que se passa aqui com esta peça, que fala muito do pensamento, das escolhas, da solidão, como vocês já disseram, isso é uma metáfora para tudo isto. Mas sobre as nossas vidas, no fundo. É muito curioso este protagonista que tu fazes, Ricardo, não ter nome, porque assim a ideia é que estamos todos ali. É um bocadinho a verdade, isso.

Ele não tem nome, não sabe como foi parar ali, não sabe onde está, não sabe para onde vai. Tem, como a Sandra falou, e muito bem, tem peças de roupa à sua volta que podem simbolizar, significar as várias escolhas, as várias peles, as várias transformações que nós vamos tendo ao longo da nossa vida, as várias máscaras. Depois, simbolicamente, e não desvendando muito o espetáculo, no meio do espetáculo, tem um casaco que eu acompanho desde o início. Estamos num universo nórdico também. As camadas das peles que ele veste. Portanto, é uma pessoa que tem muitas peças de roupa, significam também o desprender de algumas coisas, o largar, o caminhar numa direção, arriscar, e um casaco que sai dele para um outro lugar. E é quase como se esse casaco simbolizasse também que qualquer pessoa pode vestir aquele casaco. Então eu diria que é uma peça que, como costumamos dizer, levanta muitas perguntas, dá menos respostas. Característica também predominante deste autor. Quem lê a sua literatura viaja também por esse universo das dúvidas, mas ao mesmo tempo é engraçado. Elas são dúvidas porque eu diria que ele não dá uma resposta assertiva às coisas, imediata, objetiva. Ele deixa muitas questões, sim, mas no fundo, aos poucos, nós vamos entendendo o que ele quer dizer, sem ter que afunilar apenas para uma resposta. Eu acho que ele diria que levanta múltiplas possibilidades de um mundo que, de fato, é múltiplo.

Exatamente. Sim, não sai com uma ideia, uma moral única.

Exatamente.

É verdade, isso é dizer.

Isso é fantástico.

Não é moralista. É fantástico que ele não é moralista.

E as pessoas, é engraçado, que vão ver a peça cada vez mais atentas. Eu senti que as pessoas estavam cada vez mais presas à vossa palavra Ao longo de 1h20 que isto dura, e vão não se distraindo com nada, porque querem ver onde é que isto vai dar. O que ele pode querer?

Sim, ele está a tentar sempre sair da floresta quando toda a gente vai começando a perceber que não há saída.

Exato.

E o público e a própria personagem central, este homem, começa a perceber isso, que não há saída, mas ele luta e quer sair.

Mas há uma certa angústia também subjacente, eu acho. E esta coisa de uma pessoa estar perdida numa floresta à noite, também faz lembrar os contos infantis.

Exato, sim.

Muitos deles com origem no terror também.

Claro, sim.

Aquilo é um bocadinho assustador. As pessoas quando se perdem ficam um bocadinho assustadas.

Exatamente. Não sei se toda a gente já se perdeu.

Isto é um bocado, um homem que está perdido e que não sabe o que está a fazer, que está a ficar frio e está a ficar neve e ele está no carro, ficou sem GPS para a vida.

Sim, ficou sem GPS para a vida. Isto tem muito a ver também com a vida nórdica, com a sociedade nórdica, escandinava.

Mais filosóficos.

Sim, e que eles têm, de facto, quando o Ricardo diz a determinada altura sobre a imensidão da noite. Como é que é? O firmamento.

Firmamento.

Pronto. Mas fala da escuridão. A escuridão aqui em Portugal ou aqui embaixo, ou até na Europa Central, não tem nada a ver com a Europa do Norte, com os escandinavos, porque a escuridão é muito tempo, é uma escuridão imensa.

Quando não é seis meses.

Exatamente, e é muito escuro. Portanto, eles vivem esse medo, esse confronto com a escuridão. Não é à toa que os vikings têm aqueles chifres nos chapéus, porque eles acreditavam que o céu lhes ia cair em cima. Tal é a dimensão e o medo do escuro, que é uma coisa que nós não conseguimos aqui em Portugal ou nos países do sul, perceber muito bem isso. Isso faz muito parte da característica dele, sendo ele nórdico, e essa floresta, essa relação que os nórdicos têm com a natureza. E vão muito para a natureza e acredito que eles percam mais efetivamente na natureza e na floresta do que nós, porque nós não temos tanto esse hábito.

Exatamente. Às vezes há sessões em que ficam depois em conversa com o público. Na vez que eu fui, por acaso, ficaram. Não acontecem sempre, mas aqui em Lisboa ficaram duas vezes.

Duas vezes, sim, já fizemos duas conversas com o público.

Como é que isso decorre? Também fizeram Paredes, também fizeram Ovar, também fizeram no tempo passado, Covilhã. E como é que isto decorre? As pessoas criticam, perguntam, estão curiosas? Tu queres também sentir se isto foi só uma alucinação tua?

Exatamente.

O que é que levam dessas conversas?

Primeiro é isso, os primeiros espetáculos que nós fizemos, que nós tivemos em Ovar. Eu acho que nós estávamos mais interessados na conversa do que eu acho que o público. Porque nós queríamos saber efetivamente como é que isto chegou às pessoas, se as pessoas compreenderam, porque o livro, de facto, é-

Tem múltiplas leituras.

Múltiplas leituras. E depois em cima do livro tem uma encenação que é muito estética, que é muito visual.

O livro é mesmo um texto corrido, é uma microrovelA. Não é um teatro.

Não, é mesmo leitura. Há coisas que eu adaptei, que eu pus a brancura luminosa a falar com o homem mais cedo. Acho que ela depois efetivamente acabava por falar com ele, já não me lembro no livro, mas eu sei que antecipei esse momento. De resto, não fiz mais nada, a não ser cortar. A mãe e o pai mantêm-se lá.

E as pessoas o que é que dizem?

E as pessoas surpreenderam-se. Houve um senhor que eu nunca mais me esqueço, que disse: "Que engraçado, eu achava que ir ao teatro obedecia a ter muitos conceitos e a ter uma cultura geral vasta, e eu aqui percebi que tenho a liberdade para interpretar isto como eu quiser".

Olha que bonito.

E de facto, eu acho que é isso mesmo. As pessoas não se podem esquecer que no teatro tudo é possível, inclusive a sua própria interpretação daquilo que estão a ver. E nesta medida, eu especialmente gosto de espetáculos que não são muito mastigados, que a pessoa que esteja lá, obviamente, uma espinha dorsal, e que depois cada pessoa faça a sua digestão à sua maneira e que leve uma conclusão para si, que continue o diálogo como quando estamos a ler o livro.

Eu achava muito curioso haver muitas pessoas que, isso aconteceu no Norte, tu falaste nisso. Muitas pessoas conheciam o texto e que levavam o livro.

Sim.

É curioso isso. Não acontece nunca num teatro.

Há duas coisas. Há pouco estávamos aqui e eu não quero esquecer também aquilo que tu disseste, que para mim eu acho fundamental e importantíssimo e que também tem muito a ver com esta peça. Já fiz variadíssimos espetáculos de teatro e a atenção e o silêncio que impera na sala durante este espetáculo é muito particular desta peça.

É especial.

E isso eu tento às vezes perguntar nestas conversas, e já perguntei até fora das conversas, quando as pessoas depois vêm falar do espetáculo, o que é que elas sentem. E naturalmente elas dizem: ao início estão como estão em qualquer espetáculo de teatro, a tentar perceber o que é que está a ser apresentado no começo, o que é que é a história, o que aquela peça diz. Depois acho que as pessoas começam a entrar na cadência, nesse fluxo de consciência deste personagem, que veem que está completamente perdido e aflito. Eu diria até mesmo nestas florestas escuras, naturalmente, o peso da escuridão ainda é maior na floresta do que numa cidade. Portanto, eu acho que este personagem está de facto sem rumo. E estar sem rumo, nos dias de hoje, é assustador, mas é de facto o que acontece muitas vezes. Porque nós hoje estamos habituados, nós até nem nos perdemos, porque hoje em dia com os telemóveis carregamos e temos uma aplicação. Então imaginem o que é uma pessoa nos dias de hoje estar sem rumo, sem qualquer possibilidade de perceber. E repare, eu agora estava a falar do sem rumo, mesmo descobrir um determinado lugar. Agora, quando passamos isto para o nosso interior Ou seja, para a nossa consciência, não ter rumo nos nossos pensamentos, não ter rumo nas nossas vidas, é algo muito mais assustador. O que eu senti nas conversas é que as pessoas diziam: "Sim, nós começamos a entrar na peça e depois eu acho que a peça entra em nós e entra nas nossas vidas." E aí depois começa a ser um limbo das duas coisas, entre a vida das pessoas e como é que aquilo lhes está a tocar, e aquele homem. E muitas vezes eu senti, ainda esta semana nos disseram que há pessoas que entram na vida daquele homem, depois há alguém que sai daquele homem, que está quase a ter uma conversa com aquele homem, e é quase uma análise que fica ali a ser feita. E isso é extraordinário, porque eu acho que isto está a tocar em vários lugares das pessoas, que lhes faz viajar. Muitas pessoas, se calhar, também não gostam de viajar sobre as suas próprias vidas. Tivemos esse comentário de uma espectadora.

Estão no seu cantinho, na sua coisa, com a sua vida, as suas rotinas, não faz qualquer sentido. Tem que escolher outra coisa.

E agora, por que eu tenho que viajar sobre a minha vida?

Pode viajar, é importante.

Isto é espetacular.

Mas quando? Para se ter livro.

E então é giro, porque há muita gente, sim, e aqui também tivemos, que conheciam o autor, que já leram muito sobre ele e livros dele. E é engraçado, muita gente também não tinha ido ver dramaturgias dele, mas sim, conheciam-no da sua história literária.

É giro que há muitas pessoas que já leram Jon Fosse que ficam nas conversas. É muito giro.

Sim, porque eu acho que querem ganhar.

É reveladora.

É, e querem também alargar o seu conhecimento sobre este autor. E também eu acho o seguinte: ele levanta muitas dúvidas. E eu acho que é muito melhor quando nós partilhamos informação entre todos, para também perceber pontos de vista, se eventualmente são convergentes ou não, sobre este autor e sobre as suas obras.

Exatamente. Vocês tiraram em Ovar e depois passaram pelo Lousã, Covilhã, Vale de Cambra, estiveram em Paredes. Agora estão aqui até domingo, dia 25. Depois partem para Famalicão, no fim do mês, 31 de janeiro. Em Ourém, dia 7 de fevereiro, 22 de fevereiro, depois em Loulé. E depois? Outras? Brasil? Levas para o Brasil?

Nós, se nós queremos, estamos aqui a ver a agenda. Acho que já há uma possibilidade. Fazia sentido e queríamos muito e gostaríamos muito levar e apresentar esta peça no Brasil. Há várias outras possibilidades aqui em Portugal. Estamos um bocadinho a deixar as coisas acontecerem. Acho que este é um espetáculo, e eu digo sempre isto à Sandra, ele carece de uma entrega total e de uma disciplina muito grande, quer física, quer mental. E para isso nós precisamos, e isto diz respeito aos dois: à encenação, a Sandra enquanto atriz, eu enquanto ator. E para isso ele carece de um tempo de preparação. Ele não pode ser só: "Ok, vamos apresentar." Não, ele carece de um tempo de instalar nos teatros, de configurar. Como eu disse, a peça é feita no detalhe, e no detalhe também no recorte da luz, no som, na projeção vocal. É uma peça que não é feita com o apoio sonoro.

O filho da mãe, é muito importante aqui o filho da mãe?

A música, é extremamente importante. Todas as pessoas são extremamente importantes, os espaços são extremamente importantes. E a parte técnica.

Aparentemente é simples, mas não é.

Nada.

São vocês dois, são duas pessoas no palco a falar. Um cara com um faca. O faca está andado. Não.

E não dá para montar sozinho. Ela é fácil de viajar. E deixo aqui também para programadores culturais esta dica, que ela é muito fácil de viajar. A questão é: precisamos sempre de ter uma agenda bem organizada, que é para testarmos e apresentarmos uma peça educada.

Como é que é a Sandra como encenadora? Sendo encenadora, agora fecha os dois ouvidos. Sendo encenadora e tanto contigo, tanto de atriz, ela é picuinha? Já perguntei isto, mas agora ouvindo o lado de lá.

Sim. A Sandra, nós somos muito amigos e acho que temos uma coisa muito gira que é: nós respeitamo-nos muito. E acho que nos entendemos muito. E acho que não precisamos de falar muito para nos entendermos. Isso facilita muito. Mas eu também só vejo alguém, eu sou extremamente meticuloso, organizado, disciplinado também na minha metodologia e na minha forma de trabalhar. Portanto, eu gosto muito de encenadores e assim como a Sandra, este lado muito do detalhe, da repetição, da busca por algo que faz parte do conceito que foi idealizado, do não desistir, do procurar chegar sempre mais além. Eu acho isso fundamental. É sempre, para mim, é uma novidade eu estar a repartir um palco ou dividir um palco.

Com este nome.

Nem estou a dividir, porque não se pode dizer que é dividir.

Não.

Não é nem em relação a isso.

Partilhar.

É partilhar, essa é a palavra. Partilhar o palco com a minha encenadora, que também é atriz, naturalmente. E acredito que é impossível de a Sandra estar 100% só como atriz. Naturalmente, está como encenadora. Então ela guarda, ao mesmo tempo que se entrega totalmente enquanto atriz, guarda naturalmente indicações para no final do espetáculo dizer: "Olha, aqui isto hoje foi bom. Este aqui podemos ir por aqui, experimenta isto ali." E isso é fundamental. Eu acho que o teatro tem essa capacidade de ter este processo evolutivo contínuo, de que ele é diferente de dia para dia, e isso é uma magia brutal, e da capacidade que eu gosto destas encenações, que elas são orgânicas, e elas, de fato, também vivem de experiências. E isso é fantástico, porque isso é o exercitar do nosso lado artístico diariamente, e isso é brutal.

Nunca te passou pela cabeça, eu confesso-te uma coisa, Ricardo, quando vi só o título. Engraçado, porque o título original tem mais a ver com a Shining.

Shining, sim.

O brilho.

Sim.

Uma brancura, como é neste caso, como o nome desta peça em português, Luminosa, lembrava-me mesmo de Fátima E dos pastorinhos de Fátima e diziam que era uma senhora mais brilhante que o sol. Tu como católico e sei que gostas de Fátima, nunca te passou pela cabeça esta: um homem perdido que depois encontra uma luz, isto ter um bocado a ver com religião e com conversão?

Sim. Não diria conversão. A Sandra diz algo, nós depois fomos investigar um bocadinho também o autor, as suas relações com as religiões. A Sandra até poderá falar bem sobre isso. Mas sim, atenção, nós tivemos já várias pessoas de várias religiões diferentes que foram assistir à peça e isso é fantástico, porque esta peça é criação da Sandra e acho que isso deves falar, tem inspirações ou tem referências não apenas a uma religião, tem a vários. E eu acho que da mesma forma que este universo de fala e esta temática, ou as várias temáticas, os vários assuntos ou as várias camadas que esta peça tem, servem a tantas pessoas transversalmente. Não importa nada as suas escolhas. Eu diria quase que as suas escolhas que fizeram ou que opção da vida. Quando entram na sala, eu acho que têm que ter quase uma tábua rasa. Eu acho que ali têm que ir prontos para receber. Eu acho que esta peça tem um lado muito espiritual, profundo, nesse sentido.

A mim interessou-me bastante este texto, porque ele fala da espiritualidade, mas não fala de nenhum dogma. Fala de Deus. E eu acredito em Deus.

Eu senti isso também.

E eu acho que nós, enquanto sociedade ocidental, estamos órfãos de Deus, órfãos desta espiritualidade que em algum momento da história deixámos de acreditar, deixámos de praticar, deixámos de nos encontrar. E isto não tem a ver com o ir à missa ou fazer meditação.

Não, mas essa espiritualidade completava-nos.

Completava-nos.

Dava sentido a muita coisa.

Dava um sentido a muita coisa.

Sossega-nos.

Exatamente. E eu acho que é importante cada um de nós recuperar essa espiritualidade.

Cada um do seu jeito.

Cada um à sua maneira, sem julgamentos, sem dogmas.

E sem cair no oposto, no fundamentalismo.

No fundamentalismo.

Isto é que é importante do resto de toda a cabeça.

Exatamente.

Isso também leva à guerra outra vez.

Exatamente. É uma escuta interior.

De alguma maneira é que se pode ser espiritual e pode-se estar atento a isso e seguir isso, mas sem ferir os outros.

Cada um à sua maneira, com respeito pelo outro. Isso é fundamental e acho que esta peça traz.

E neste mundo que estamos a viver agora. A falta de respeito é o que impera.

Exatamente. E a falta pelo amor próprio, primeiro que tudo. Se nós não temos amor próprio, como é que nós podemos ter amor pelo próximo? E eu acho que esta peça toca muito nisso. Este homem que se perde, perde-se porque aleatoriamente fez escolhas. Não pensou nele próprio, não se amou naquele momento. E quantos de nós não queremos saber? Seja como for, já não quer saber, já estou farto disto. Já não se tem amor próprio e acabamos perdidos. Portanto, eu acho que é importante valorizarmo-nos, escutarmos, ter um momento para nós, acreditar, ter fé, seja lá no que for. E a fé e a espiritualidade foram muito afastadas desta sociedade em que nós vivemos. E estamos todos a ver o que está acontecendo.

É uma lacuna, de facto, e faz falta. Muito bem. Temos de terminar, porque o nosso tempo voou, mas isto ficou muito interessante, de repente, também. Já estava interessante, mas de facto eu estava aqui a ouvir-vos, porque gosto muito dos dois. Esta de facto foi uma conversa extraordinária. Muito importante, e vou deixar aqui este convite final para quem nos ouve, para esta "Brincuna Luminosa" de Jon Fosse, que está com o Ricardo Pereira e a Sandra Barata Belo, está em cena no Variedades, no Parque Mayer, ali em Lisboa, até domingo, dia 25. Portanto, hoje e sábado ainda está às 21:00, domingo está às 16:00. E depois já sabe, vai para Famalicão, vai para Ourém, vai para Loulé e se Deus quiser, para o Brasil e para outras cidades que possam levar com esta peça fantástica que te faz pensar e que nos questiona e onde estamos envolvidos. Nós estamos quase naquele palco, aquela quarta parede quase não existe, porque nós estamos a beber o que esta gente nos diz com esta atuação tão física, tão intensa. Muito obrigado aos dois.

Obrigada nós.

Sandra e Ricardo, obrigado por terem vindo.

Obrigado. Bela conversa.

Voltarão, porque depois era para falar da carreira do Ricardo também.

Falaremos. Está combinada a volta.

Então vá, bem-hajam. Obrigado.

Obrigada.

Obrigado.