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Totalmente diferente de tudo que eu já fiz até hoje.
Porque tinhas feito também mesmo no Fantasma da Ópera, a Christine ou a Maria.
Sim, eu fiz sempre personagens muito ingênuas, mais novinhas.
E aqui tem outra vulnerabilidade.
Focações de voz um cadinho mais coerentes, digamos assim, um cadinho mais tudo na mesma linha. E esta é toda uma viagem.
Sim.
A nível emocional, se calhar ainda mais do que a nível vocal.
"Não chores por mim, Argentina". Quem ouve este tema imagina logo a primeira-dama da Argentina a cantá-la na varanda da Casa Rosada, em Buenos Aires. É um dos momentos icónicos da ópera rock Evita, que conta a vida de Eva Duarte, depois Eva Perón, a que a Yellow Star Company agora dá vida e recria no Teatro Capitólio até 28 de junho em Lisboa e depois partirá pelo país. Hoje volto a acolher o seu diretor artístico, Paulo Sousa Costa, que fala desta e de outras suas produções. E não vem sozinho. Com ele, a nossa Evita, a atriz e soprano Sofia Escobar, uma das artistas portuguesas com maior reconhecimento internacional no teatro musical, mulher sonhadora e lutadora, mãe incansável, que em Londres protagonizou o teatro musical e, aliás, teve um reconhecimento internacional fantástico. Ela que, por exemplo, protagonizou estes êxitos do West End como o Fantasma da Ópera e o West Side Story, onde ganhou, aliás, um prêmio de melhor atriz de teatro musical, votada pelo público. Portanto, é um troféu hiper. Parabéns, Sofia.
Muito obrigada.
Bem-vindos aos dois por terem aceitado o meu convite. Bem-vindo, Paulo, também. Tu vieste há quase um ano, em julho do ano passado, com o Rui Pedro Nunes por causa do Jantar de Idiotas, não sei se te lembras, já foi há uns mesitos. Muito bem. E portanto, desta vez tornas a ser encenador, que é uma coisa que tu gostas muito, não é, Paulo? Gostas muito desta pele? Tu que a gestão é a Carla e tu és a parte artística.
A área artística está do meu lado, é onde eu me realizo, é o que me apetece sinceramente fazer.
E que fazes bem.
Espero que a Carla nunca me despeça.
Pelas coisas que eu vou vendo, fazes lindamente. Tu já és conhecido aqui desta casa e já vamos falar também de outras produções que vão agora voltar através da Yellow Star. Quem é nova aqui é a Sofia Escobar e este estúdio é pequenino pra este talento e esta voz que nos encanta a todos há muito tempo. Ela que é vimaranense e que nasceu em 29 de novembro, em Guimarães, no dia em que há sempre festas e há o cortejo do Pinheiro e é uma festa, sempre festas em Guimarães e tu achavas que era por causa do teu nascimento, não?
É verdade, eu nasci ao som do bombo. Dizem os meus pais.
E teu pai dizia: "Não, é por causa de ti, filha".
Durante muitos anos pensei: tal é Evita na minha varanda, que aquela festa toda e que todo o cortejo era pra celebrar o meu nascimento.
Estamos a falar das festas nicolinas, era uma mentira que ela aguentou até tarde, porque de fato é um dia de festa em Guimarães e ainda bem. Tens uma irmã mais velha. Não vou falar da casa rodeada por eucaliptos, não, mas tu tens uma irmã que também não está ligada às artes. Aliás, tu és a primeira pessoa da tua família ligada às artes, não é?
Sim. Eu fui a primeira ovelha negra, digamos assim, que saiu um cadinho dos moldes.
A tua irmã, por exemplo, também toca piano e também canta.
Sim, toda gente tem uma veia artística, digamos assim, e um amor pela cultura que também me foi incutido desde muito cedo, mas nunca nenhum profissional na área. Mas muito amor pela arte, sim, há na minha família.
O que tu querias ser, podia ser atriz e cantora, era uma coisa que tu dizias desde pequena?
Cantora, especialmente.
Era?
Atriz veio um cadinho mais tarde, quando eu comecei a perceber que o que eu gostava mesmo de fazer era de usar a voz também pra contar histórias.
Ok.
E a paixão pelo teatro musical veio mesmo muito cedo.
Desde pequenina que tinhas.
Sim, eu acho que ainda devia ter uns quatro, cinco anos quando comecei a decorar os musicais todos, música no coração.
Exato.
Tudo que fosse Disney.
Exatamente.
Enfim, uma paixão mesmo, uma coisa que nasceu comigo.
E dispunhas as tuas bonecas para cantar pra elas?
Sim. Era um público pouco generoso.
Mas fiel.
Mas fiel.
É uma coisa engraçada, porque só aos 17 anos é que depois percebeste que querias mesmo música, que era a tua área. Mas esta representação não foi a sua primeira paixão?
Foi, eu comecei com o teatro, tinha 12, 13 anos, curiosamente, porque era uma miúda extremamente tímida e o meu pai achou por bem que era muito giro pra mim me pôr no teatro pra ver se eu espiritava um cadinho. E mal sabia ele o que é que estava a fazer. Foi mesmo amor à primeira vista e curiosamente, apesar da minha paixão pela música, comecei com o teatro antes da música.
Primeiro no Círculo de Artes de Representação, depois no Teatro Oficina. E é engraçado que quando tu dizias depois: "Quero seguir esta carreira da música", as pessoas diziam: "Está bem, mas o que é que vais fazer mesmo, a sério? Como é que vais ganhar dinheiro?"
Felizmente que essa mentalidade tem vindo a mudar e já não há tanto esse tabu.
Sim, mas há uns anos era: "Está bem, se isso é o que tu gostas, mas trabalho mesmo?"
Tal e qual. Eu lembro-me de fazer testes psicotécnicos e dar uma vertente artística e das pessoas que estavam a fazer os testes não saberem o que me haviam de dizer.
Ficaram ali num beco sem saída.
"Não sei, segue, não sei, vai ensinar, vai pra professora." E eu: "Mas eu quero ser pop star!"
Parece uma amiga minha, uma convidada minha da semana passada, que era conselheira, não sei o quê, dependências, não sei o quê. "Então, Cléia, tua profissão?" "Outros, porque eu nunca estou nem nas finanças. Profissão da mãe?" "Outros, porque eu sou outra coisa que não é esperada das pessoas, na tua aspecto."
Sim, mas felizmente essa mentalidade tem evoluído muito. Mas nessa altura, com os meus 17 aninhos, é verdade, e numa cidade pequena, que havia muito essa tendência de dizer: "O que é que vais fazer assim, mas a sério?"Este é o óbvio, mas para ganhar dinheiro o que é que vais fazer?
Incrível. Tu tens muitas histórias tão bonitas na tua vida de amores, de encontros, de oportunidades. A tua vida é assim, a própria vida um dia vai dar uma sofrita. Porque tem coisas bonitas. Uma delas é: estavas no teatro oficina, imagina, no Palácio Vila Flor, ali em Guimarães e a outra metade do palácio era as aulas de canto e tu foste espreitar. Fizeste mal.
Ouvia a parte da música do outro lado e tinha sempre uma certa tendência para pôr o ouvido
Calma, aí foi só o mal.
Na outra metade. Então sim.
Foi a professora uma fada?
Exatamente.
É extraordinário. Tu tens que agradecer aos teus pais, às tuas professoras.
Sim.
Mas de facto, conta-nos como é que foi.
Tive muita sorte também de ter uma família que me apoiou desde o primeiro minuto e devo-lhes tudo, na verdade.
E eu adoro esta coisa do teu pai estar à saída desta primeira aula e a professora sair: "Oh!"
"Desculpe, é melhor inscrevê-la já em tudo o resto, formação musical".
Não há dúvidas que vai ser a vida dela.
Foi exatamente assim.
É incrível. És talentosa. És extraordinária. Mas então nunca brincam com o teu nome? Por causa do Escobar, por causa das séries todas e do Pablo.
Sempre.
Imagino que sim. "O que é que tu és o Pablo, o teu Pablo, então?"
É. Tu deves estar bem na vida.
Tens hipopótamos na tua quinta.
É melhor não me sentir nem contigo. Por acaso é melhor não me sentir.
Exato.
Eu também entro na brincadeira.
Também dá jeito, exato.
Mas curiosamente também tem um lado mau, que é: sempre que eu ponho Escobar nas minhas reservas de viagens de avião, a mala é revistada.
Ah, pois.
Não me posso pôr, tenho sempre que pôr outro nome.
É verdade, claro.
Felizmente tenho outros nomes para escolher.
Exatamente. Hoje eu peço-me ser Alexandra Cepa Ferreira.
Nunca faço a reserva. Aprendi logo desde muito cedo que não podia fazer reserva com o nome Escobar.
Muito bem, curso de canto no Conservatório do Porto, és soprano. É engraçado que eu não fazia ideia disto, aprendi imenso contigo, Sofia. A minha voz pode fazer certas óperas e outras ainda não. E por exemplo, eu estou muito para Mozarts, mas não para Puccinis.
Não, infelizmente.
Ainda há sopranos na Tosca e na Bohème.
Sim, mas são sopranos dramáticos.
Ok.
São timbres muito mais-
Não sabia que é diferente
Sim, há vários tipos de soprano: lírico, coloratura, dramático.
Conforme o corpo, dizes tu? O corpo tem a ver com isso?
Sim, conforme o timbre, projeção. Há uma série de características.
Não sabia que batem isto bem a sete.
Que depois batem com certos perfis e o meu definitivamente iria muito mais se eu tivesse enveredado pela vertente clássica, iria sempre ser os Mozarts da vida.
Muito bem.
Oratória também. Que mais? Lieder. Schubert.
E os musicais também, o que é giro também dizes isso, o Evita, dizes tu: "Eu não faria há 10 anos ou 15, não. Mas como ainda não faço o Sunset Boulevard. Quando tiver uns 40, 50, se calhar sim". Isso é tão giro, não fazia ideia. A pessoa tem boa voz. Olha, vai fazer tudo.
Tem o seu tempo. E às vezes nem é só a voz, é mesmo a maturidade. Porque agora também já não me vejo a fazer uma Maria no West Side Story. Já foi.
Ok. Passou essa oportunidade.
Exatamente.
Mas há outros papéis onde tu encaixas bem.
Já fiz e bem, e foi uma experiência extremamente enriquecedora para mim também. Mas é isso, eu acho que há um percurso mesmo a nível emocional.
É tão engraçado isso, é tão giro.
Que é importante ser-se fiel a ele e segui-lo e perceber também onde é que nós encaixamos em certas determinadas alturas.
Mas para isso é tão importante conheceres o teu instrumento.
Sem dúvida.
Isso é giro, vê que trabalhaste a tua voz muito, continuas com aulas.
Sempre.
Ainda vais à Susan McCullough.
Sim.
Foi tua professora na Guild Hall.
Foi sim, senhor.
Giro.
Mas agora tenho outra professora também em Espanha, que faço aulas presenciais com ela.
Tu moras muito em Madrid.
Sim.
É tanto aqui como em Lisboa, às vezes Londres, não é?
Sim.
Agora estás mais cá por causa disto.
Agora estou cá.
Por causa de Evita.
Até ao final da temporada do Evita.
Mas a base é o marido espanhol.
A base é Madrid neste momento.
Música clássica toda também muito na tua vida. Não era preciso haver trovoadas pra tu ouvires o Bolero, que o teu pai punha.
Tão bom.
Só memórias.
Sim, são aquelas coisas que ficam para sempre.
E os teus nervos também, tu continuas com estes nervos. Antes acontecia sempre, tinhas muitas das audições, no dia da audição, ficavas com faringites, amigos ali te estomatos.
Sim, incrível. O poder da mente é uma coisa que pode ser usada para bem e para mal.
Exatamente. Melhor os nervos.
E eu não sabia controlar. Felizmente, hoje em dia a adrenalina já a consigo controlar o suficiente para ser uma coisa positiva, para me dar aquela energia que é preciso também para estar em palco.
Mesmo assim, há um bocadinho nervoso miudinho sempre que sobes ao palco.
Claro.
Continua a haver, não é? Isso é bom.
Toda a responsabilidade. E acho que no dia que não houver, algo estará errado.
Exato. E tu dizes uma coisa bonita que é: eu faço aquilo seis vezes por semana, mas para as pessoas que lá vão, é aquela vez.
É a primeira vez. Exato, primeira e única muitas vezes.
Exato.
E tem que haver um respeito.
É tão bonito, exatamente.
Pelo público e por nós mesmos também.
Claro.
Porque, afinal de contas, é o nosso trabalho e o trabalho de muita gente.
Sim, que está ali envolvida, claro.
No caso do Evita. Muita gente está em palco e muita gente está fora de palco, que tem que haver um respeito sempre, acho que tem que fazer parte, não faz sentido de outra forma.
E tu sentes a energia do público? Cada dia é diferente por causa disso.
Sem dúvida nenhuma.
Dias melhores, dias piores.
Nem os dias melhores, nem piores. Eu acho que o Evita tem sido mesmo muito bem recebido, no geral. Acho que todos nós sentimos que há mesmo uma emoção muito forte ao ver. E depois há público que tem quase receio, muitas vezes, de aplaudir entre as cenas. Público mais bem comportado e público menos bem comportado, público que tem medo de rir alto e outros que não. É engraçado sentir essa vibração. Mas, na verdade, eu no Evita tenho sentido o público conosco em todos os espetáculos e isso é mesmo fantástico.
É bom, é gratificante. Ainda antes de falarmos deste Evita, a tua passagem por Londres, obviamente concorreste. Foi um esforço também grande pra família, teus pais, por causa de um empréstimo, chegaram a hipotecar a casa. Todos os agradecimentos que sejam aos teus pais são devidos e merecidos. Cantaste, tiveste esta prova, estas três arias que tinhas de cantar pra este júri, pra esta mesa de sete jurados. E depois também o "Somewhere Over the Rainbow", outra música que tiveste de cantar, e o "Think of Me", do Fantasma da Ópera. E de fato foi oito meses. É impressionante. Foi uma audição aberta, portanto, que era muito raro ver, e pra o Fantasma da Ópera, ainda por cima.
Sim, eu nessa altura já estava há dois anos a estudar na Guildhall School of Music. O objetivo inicial de ir pra Londres foi mesmo estudar.
O best of the best das melhores escolas. O estilo Fame. Te sentiste um bocado como no filme.
Foi mesmo. Tenho mesmo muito boas recordações dos meus tempos na Guildhall. Mas na verdade eu fui pra lá pra tirar o curso.
Sim.
A oportunidade de ir fazer uma audição aberta surgiu ao ver um anúncio no jornal.
Mas estavas no segundo ano, estavas a meio do curso.
Estava no segundo ano. E foi vista por mim como uma coisa tipo: "Ok, vou ver como é que funciona. Já que é uma audição aberta, isto quase que nunca existe, eu não tinha a gente."
Normalmente é gente, é por convites.
Sim, sempre. Praticamente sempre.
Viu sempre às pessoas a concorrer.
Sim, mais de 3 mil pessoas.
Meu Deus! E depois é oito meses de seleção, de trabalho.
E depois fui passando nas fases, depois volta aí, passar três semanas, voltam a chamar. Agora gostávamos de te ouvir cantar isto, agora gostávamos de te ouvir cantar aquilo. Agora vem a coreógrafa. E aquilo começou a ficar sério ali, e nem sequer era permitido na escola, na Guildhall, estar a fazer audições no segundo ano.
Ah, ok, não se podia.
Só permitem a partir do quarto, que é mesmo no fim.
Ok.
Então eu tava a fazer aquilo um bocadinho
Meu Deus, os nervos. Mais isso. Se eles descobrem.
Sim, mas depois falei com a minha professora e ela: "Então vamos lá, vamos lá trabalhar!"
Só quando foste admitida. Aliás, só disseste também aos teus pais quando entraste, não é? Pronto. Porque se eles soubessem até lá, deve ser um sufoco.
É, porque eu, na verdade, nunca acreditei que eu fosse chegar a algum lado.
Mas eu gosto, tu atiras-te às coisas e dizes: "O não tá garantido, mas quem sabe?"
O que é o pior que pode acontecer? Ficar tudo igual.
Tudo igual e continuar com as aulas, a estudar pro segundo ano e acabou.
Entretanto, fico com uma experiência gira, que se calhar no final do curso dá-me uma mais-valia, que já sei como é que é e como é que as coisas funcionam. Foi um bocadinho com essa mentalidade que eu fui fazer.
A entrevista acaba e o diretor: "Bem-vinda, então, à Guildhall School". Ficas eufórica. Quando entraste na escola também.
Isso foi na Guildhall.
Exatamente.
Sim.
E tu: "Ah, mas eu não tenho dinheiro". Aquelas coisas que tu contas que o homem tava a ver outro processo, não era o meu.
Exatamente. E essas foram as provas pra entrar na escola.
Na própria escola.
E não no Fantasma. Mas na escola foi. Eu já tinha vendido o piano e uma série de coisas pra poder ir fazer as provas.
Pois, porque em Londres, viver lá também não é barato.
Foi tipo: "Agora o que é que eu faço? Não tenho dinheiro pras propinas". E ele: "Ah, mas com este relatório deves ter bolsa de estudo".
E foi uma bolsa europeia.
Se fosse agora, já...
Já não havia, já com o Brexit. Há 10 anos.
Se fosse agora já não ia acontecer.
Há seis anos que não há bolsas pra ninguém.
Exatamente. Muito triste.
Nessa altura, tiveste gente que te apoiou e gente que duvidou.
Sem dúvida, claro que sim.
Há de tudo. Tu, em Londres: "Ok, sim, estou mesmo a ver".
Sim. Boa sorte.
E que hoje estão calados.
Calaram-se logo a seguir.
E depois tu passaste, isso é maravilhoso. Tiveste a trabalhar no The Brewery, no restaurante, até às tantas da manhã e às 7h tinhas que acordar pra aquecer a voz. E foi ali uns tempos puxados.
Sim, tempos puxados, mas mais uma vez que me trouxeram, primeiro, uma gratidão enorme. Porque apesar de tudo, eu sentia todos os dias que estar ali era mesmo uma dádiva. E que o sacrifício dos meus pais, que eu tinha mesmo que agarrar aquilo com unhas e dentes e fazer aquilo que eu pudesse e que tivesse ao meu alcance pra poder ajudar também, porque eu só tinha o empréstimo pra dois anos.
Aquilo da coisa que foste acabar de ser contratada há um mês de começar a pagar o empréstimo. É extraordinário essas coincidências. Quem acredita em Deus, não há coincidências.
É, eu não sei se são coincidências.
É incrível.
Eu tinha que começar a pagar o empréstimo em setembro e em agosto comecei os ensaios pra o Fantasma da Ópera, que comecei a receber, logo a seguir comecei a pagar.
Ao mesmo tempo, estavas numa cidade fantástica, onde a vida cultural, tudo que é descontos, o turismo, que se faz muito por musicais também, as pessoas vão todas, é um hábito em Inglaterra, ainda não é cá. E é uma pena.
É super enriquecedor e há imensa coisa a acontecer.
Como tu dizes, ias ver Shakespeare por € 5.
Era incrível. Amava ir ao Globe ver os espetáculos de Shakespeare a € 5. Tinha que estar de pé, havia gente a desmaiar a toda a hora.
Porque era assim. Naquele tempo era assim.
Três horas de pé.
Meu Deus!
Mas pra mim valiaSempre muito pena. Aprendi tanto. Aqueles concertos que se fazem nas igrejas por estudantes, entrada livre.
Havia uma grande procura e também uma grande oferta.
Os museus é tudo aberto, livre.
Tu trabalhaste no Barbican Centre, na Inglaterra, e admiravas-te de ver famílias inteiras que compram para a temporada toda, pais e filhos. Fantástico.
Para mim é uma coisa inacreditável.
Tão bom.
É uma vida cultural que está incutida neles desde muito cedo. É isso que nós temos que fazer aqui também. E é isso que a Yellowstar tem vindo a fazer também.
É isso que eu ia dizer, Paulo. Eu acho que as coisas estão a mudar um bocadinho agora, nota-se. Com estes todos que estão a acontecer e com este "Evita" e os "Grease" e os "Rent" e "In the Heights". As coisas estão a mudar nesse aspecto, eu acho. Já temos mais oferta também.
Nunca houve tanta oferta de musicais em Portugal.
Eu acho que não. Isso é maravilhoso, que eu adoro musicais, portanto cinco estrelas. É um trabalho que vocês têm insano, que deve ser, porque acho que estão a lutar um bocadinho contra a maré. As pessoas não estão muito habituadas ainda, tem que se instalar este hábito.
Sim, por acaso eu sinto que, em relação ao teatro musical, lutamos bastante contra a maré durante muitos anos, mas agora a maré está cá.
Está cheia.
Levámos. Está cheia.
Isso é bom.
Não só em termos de espetáculos, como também de artistas, porque nunca houve tantos artistas com capacidades para fazer teatro musical.
Muito bem, Sofia Escobar, Paulo Sousa Costa. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Sofia Escobar e Paulo Sousa Costa. Ela é a protagonista de "Evita", que vai estar até quase o fim de junho no Capitólio, ali no Parque Mayer, em Lisboa. E o Paulo, claro, com a sua mulher Carla Matadinho, é uma das caras da Yellowstar Company, que também é responsável pela produção e já agora pela encenação também deste "Evita", que está ali no Capitólio. Estamos a falar aqui deste desafio. Isto foi um grande teatro, um grande musical, Paulo, que tiveste que apanhar, que tiveste que buscar, tiveste que pagar os direitos. Estreou então no Dia Mundial do Teatro, no dia 27 de março. Era um sonho que tu tinhas já de trazer o "Evita" cá a Portugal? Isto é uma ópera rock que tem 50 anos, foi inaugurada em 76. 50 anos que faz agora, é uma boa homenagem também.
Também. Era um grande sonho meu e da Carla de trazermos um musical com a dimensão do "Evita", depois do "Grease", depois do "Saturday Night Fever". Achávamos que precisávamos de um musical com mais pompa e circunstância.
Mais peso, mais camadas. Este tem muitas camadas. É verdade.
Bastante. Quanto mais se sonha, mais vamos atrás, no nosso caso. E decidimos: por que não tentar primeiro os direitos e depois vermos como é que a coisa corre? Curiosamente, quando eu comecei em contactos com Londres para os direitos, ainda não sabíamos, e eles lá já saberiam com certeza, há dois anos, ninguém sabia ainda que o "Evita" vinha a Londres outra vez.
Retomaram também?
Sim.
Não fazia ideia. Boa.
Sim, ou seja, o nosso "Evita" ficou pensado antes do "Evita". Ou seja, não foi por moda. "Olha, agora vamos fazer também."
Exatamente.
Passado um ano, vimos que ia estar em cena também.
Voltava ao West End.
Eu vou muitas vezes a Londres ver musicais e não só.
Que sorte.
Shakespeare.
Gosto muito desse trabalho.
Faço isso, felizmente, muitas vezes.
Ainda bem.
E curiosamente, nunca consegui ver o "Evita", esta última versão. Mas voltando à tua questão, sim, foi um sonho. Entre o sonho e a loucura.
Sim. Como diz tantas coisas tu-
O louco sonho, se calhar é isso.
Há muitas coisas vossas que são uma mistura disso, o sonho e a loucura. Este talvez seja o vosso maior desafio até agora.
Sim.
Este "Evita".
É um projeto muito grande.
Da gente que envolve.
Não só em termos de elenco. O Grease também não tinha muito menos elenco, pelo contrário.
Sim, até tem mais.
Acima de tudo, a grandiosidade. Já a responsabilidade e a grandiosidade do espetáculo, porque ou fazes aquilo grande ou então é melhor não fazeres. Eu acho que, da mesma maneira que a Sofia há pouco dizia que ainda não se sentia preparada ou não estava no timing.
Exatamente. Muito importante isso.
Acho que há um timing para fazer um evento.
E para ter essa noção.
É importante percebermos que se calhar antes não fizemos porque não era o timing, mas sentimos que seria o timing, tanto para nós como para o país.
Isto é uma ópera rock, é um teatro musical. Isto há alguma diferença com isto? Eu sei que é uma ópera rock, já vi a chamar isso, mas eu acho que isto nem é ópera, nem é rock. Como é que se pode definir isto ou é só um termo genérico?
Eles quiseram fazer, Tim Rice e Andrew Lloyd Webber, quiseram acima de tudo substituir um megasucesso do qual vinham.
"Jesus Christ Superstar".
Que era uma ópera rock, na altura que se falava muito. Mas, na verdade, eu já li na altura, quando estive a preparar para o espetáculo, li bastante sobre isso.
Tiveste uma pesquisa brutal do contexto e tudo, foste ver isso tudo.
Eu não gosto de ver muito o que já foi feito, mas gosto muito de saber como é que funcionou.
Sim, estar a pensar nisso, porque isto é a tua leitura, tu sempre fazes questão de dizer isto. É a minha leitura e não vai ser igual ao outro que tu vais fazer em Nova Iorque. Eu gosto disso.
Tem coisas boas e coisas más.
Sim.
Mas eu resisto bastante a essa tentação.
Porque às vezes podes ter ideias de umas soluções que eles arranjaram, que são curiosas e que até se pode adaptar cá.
Sim, imagina, se algum dia pudermos fazer e aconteça, Deus queira que sim, um dia fazermos uma réplica. Até aí é aquilo.
Tem que ser exatamente.
Tem que ser aquilo. Não entra o teu lado de querer ter criatividade, não vais ter.
Não vais.
Aquilo está experimentado e muito bem. E a regra é essa. A regra é réplica.
Fazer igual.
Não sendo réplica, eu prefiro primeiro chegar aos meus caminhos. Chegaria, se calhar, mais rápido a uns do que a outros, mas eu prefiro assim o processo.
Uma coisa curiosa, os próprios que te vendem os direitos, eles têm algum direito? Querem ver ou querem saber?
Habitualmente-
Podem criticar e dizer: "Não gostamos desta parte."
Por contrato, já tivemos agentes.
Mas agora estou a pensar bem, pensando bem, isto é interpretação, não é?
Os nós da vagina ela vem cáA Alexia.
Que aliás vai voltar agora?
Sim. O do Grease também veio cá, o Ronald Taft também veio cá e viu o espetáculo. E aí foi realmente awkward. O espetáculo tem intervalo.
Sim.
Na sua origem. Como estávamos num casino, o casino não permitiu ter intervalo.
Ah, ok.
E eu tive que gerir aquilo. Como é que eu vou fazer se eu não posso ter intervalo? Os intervalos existem por algum motivo.
Muitas vezes mudança de cenário.
Às vezes sim. Pois, claro.
E há uma altura que o Ronald Taft está ao meu lado. Quando veio, senta-se ao meu lado, ficamos os dois. Ficas ali com aquele ar.
Com o croissant nas mãos. Uma coisa miudinha.
Quando é que ele vai começar a falar? E às tantas chega à parte do intervalo, que não houve. Eu já tinha avisado: "Não, aqui nós não podemos fazer intervalo".
No intermission.
E ele curiosamente disse: "Sim, é casino. Pois, tudo bem". Ficou assim com a cara assim: "Tudo bem", mas é que ponto. Chega à fase do intervalo. Não há intervalo, há uma passagem. Olha, que era com a Mariana Matos Redes, que ela acabava a cantar e ia logo pro baile do Grease. Eu: "Espera". E eu começo a vê-la chegar-se a mim, ao meu ouvido e dizendo: "Great job".
"Great job". Ah, vá lá. O alívio.
Eu já estava a pensar como é que eu ponho aqui um intervalo no casino. Estávamos a falar sobre a criatividade, ver ou não espetáculos.
Outros, outras versões.
Preparei-me bastante.
Até porque é traduzido e há em português, todo em português.
Foi outra mudança pra nós, porque no Grease, por decisão e arrisquei nesse sentido, quis que o texto fosse em português e as músicas em inglês.
São aqueles clássicos.
Porque eu achava que as pessoas não querem ouvir.
Tens toda a razão.
"You Had One Under One".
Exatamente, em português. Mas aquilo que eu quero. Pois não.
Acho que não ia dar.
Sim, é uma questão da musicalidade diferente.
Até porque, se me permitem, cantar em português é muito mais difícil.
É.
É muito mais difícil.
Não faço ideia.
A sonoridade da nossa língua é muito mais fechada. Temos muito mais consoantes que fecham as linhas vocais, enquanto que o inglês, aqui sai tudo.
Flui naturalmente.
Principalmente quando não é escrito por português.
Pois, exatamente, não era o caso.
Originalmente.
Isso é um grande desafio.
Não evita, achei que não podia fazer de outra maneira. Ninguém ia perceber a história, porque não há texto. Há texto, mas é cantado.
Sim.
E a proposta ópera-rock.
Exato. Teatro musical, ópera-rock.
Eu li uma entrevista muito interessante do Tim Rice sobre isso, em que ele até numa altura assume que aquilo era suposto ser uma ópera pra ele. Pra ele era uma ópera.
É um teatro cantado.
Sim, nesse sentido. Depois ganhou, porque eu vinha da ópera-rock, é verdade, mas o Jesus Cristo Superstar, ele queria um toque mais de ópera. Mas habitualmente fala-se ópera-rock. Mas em relação à questão de qual é a diferença. Tem algumas diferenças, desde logo pela sonoridade. Vocalmente, a maior parte dos musicais não são operáticos, se quisermos chamar.
Sim, não têm canto lírico.
Não têm lírico. Aqui tens muita coisa, bastante até.
Sim.
Eu acho que faz um esforço enorme na tua voz. Há algumas músicas que tu vês, estás ali: "Meu Deus, ela vai arrebentar a qualquer momento". Estás ali no topo, estás a experimentar timbres que não devias trabalhar com eles normalmente, eu acho. Notas. Bolas, é um esforço.
Em termos de procura de registos, é uma obra muito complicada.
Vês que é intenso.
Porque aquilo vai a extremos, é muito extremo. E tem mesmo sítios extremamente graves pra uma soprano e depois agudos que são pra fazer em misto, ou seja, não é pra fazer com timbre operático, que não encaixa ali. Então essa procura é difícil, desafio.
Muito bem, então viste Evita, estreou originalmente no Prince Edward Theatre em Londres, 21 de junho de 78, ele tinha escrito isto em 66, com a grande Helen Page também. Ganhou os primeiros prêmios que tu e o Lawrence Olivier acabou por ganhar também, tu estás lá quase.
Eu tenho uma nomeação.
Pois tens, eu sei. Fantástico. E tens aquele prêmio extraordinário que ganhaste com o West End. Além desse, ganhaste o prêmio mesmo.
O Broadway World.
E mais valor tem, porque é o público que vota e foi milhares de votos, portanto, isso é muito importante. A escolha do casting cinco estrelas pra este Evita, o Diogo Morgado também já sei que foi, tal como a Sofia, a Paula, a primeira escolha.
Sim, quando nos propusemos fazer este projeto, a escolha de um elenco é sempre complicada. Já partilhei aqui contigo uma vez. Escolher o elenco pra mim, eu gosto de tomar decisões rapidamente, consciente sempre do que vou fazer, mas não costumo hesitar nas minhas decisões, exceto quando estamos ali no cast, aquilo é todo um... Porque não queremos falhar, vamos passar muito tempo juntos. Temos que avaliar a parte artística e a parte de pessoas.
Exatamente. E tiveste sorte em todos os aspectos. E os dois são maravilhosos, estes dois protagonistas.
Eu já tinha trabalhado com o Diogo, nós tínhamos trabalhado num projeto pequeno de música.
Sim, tão bom.
Muito engraçado também.
Curiosamente, cantei o "Don't Cry For Me, Argentina" lá em cima.
Eu pus-te lá em cima.
Eram dois projetos musicais, não era propriamente um teatro musical.
Era a história da música.
Sim, foi muito giro.
Mas é, tu diz isso, eu escolho isso e às vezes não é a primeira escolha que pode acontecer. Quando a pessoa tem um conflito de agenda ou não sente: "Ah, não, este papel pra mim não é a minha praia". Pronto, isso pode acontecer. Por certo neles, tumba. Acertaste nos dois, foi a primeira escolha dos dois. E o Che Guevara é muito engraçado ser ele este revolucionário cético e uma espécie de consciência crítica, o narrador dessa históriaÉ engraçado ser ele quando ele nunca se cruzou sequer com a Evita em si, porque ela morreu em 52. Ele ainda era um jovem estudante de medicina com a sua mota na América Latina, maluco, ainda não estava sequer envolvido na política e na revolução cubana. É engraçado, mas é muito giro o papel dele ao longo desta história, quando ele introduz a história e vai contando as coisas.
Eu acho que a longevidade do Evita, deste musical, tem tudo a ver com o brilhantismo com que foi escrito e musical.
Incrível.
É uma obra de arte que vai se manter. Eu conhecia minimamente a Evita, mas ao trabalhar Evita, é fascinante. Honestamente, se me perguntares a música que eu gosto mais, eu não te consigo dizer. Eu gosto muito de muitas músicas.
Sim.
Isso eterniza-se.
Claro.
E o Diogo apanhou bastante o jeito deste desconstruir, que foi colocado ali no texto, que é um Che que nem sequer, como disseste, se tinha cruzado com a Evita.
Exatamente.
E ele apanhou bem esta personagem, que tem que ser um Che também meio fora da caixa.
Um grande desafio. Já alguma vez tinhas pensado viver este papel, Sofia? Tinha-te passado pela cabeça ou não?
Com certeza, este e muitos outros, mas é verdade que este implica e implicava um-
É outra profundidade. Mais camadas.
Sim.
A parte dramática.
É totalmente diferente de tudo que eu já fiz até hoje.
Porque tinhas feito também mesmo em O Fantasma da Ópera, a Christine ou a Maria.
Sim, eu fiz sempre personagens muito ingénuas, mais novinhas.
E aqui tem outra vulnerabilidade.
Colocações de voz um bocadinho mais coerentes, digamos assim, um bocadinho mais tudo na mesma linha. E esta é toda uma viagem.
Sim.
A nível emocional, se calhar ainda mais do que a nível vocal. E essa procura de quem era a Evita, da história dela, de tentar perceber mesmo o contexto de onde é que ela veio, como é que ela conseguiu chegar onde chegou, às custas de quê.
Exato.
Todas as perguntas que existem acerca do percurso dela, eu própria me faço diariamente.
Ainda é um bocadinho misteriosa esta biografia e tem esta camada toda.
Ninguém sabe, na verdade.
Eu aprendi imenso com o Devo Dista. É um convite para os ouvintes, não percam, porque se ainda não foram, não acredito que nós temos gente que não tenha ido, mas se não foram ainda-
Ainda faltam muitos
Ainda têm muitas oportunidades de virem ver até 28 de julho.
Mas, de fato, as camadas e esta mulher, Eva Duarte, extraordinária, que o Paulo diz sempre que devia haver mais Eva Duartes hoje em dia. Que começa, vem de um sítio humilde, o que ela tem que fazer pra chegar onde chegou e depois até onde ela teve até vestir Dior e ter os diamantes.
Exatamente. É uma personagem que eu acho que o público vai embora com mais perguntas do que respostas.
Mas isso é bom.
E eu própria, cada vez que faço musical, surge qualquer coisinha nova. Isso é maravilhoso pra mim. É uma das coisas que eu mais gosto, poder fazer estes espetáculos com tempo e não fazer apenas um ou dois.
É, as temporadas curtas, é péssimo.
É porque não dá tempo pra gente desenvolver.
Exatamente. Isso é muito importante.
E eu neste momento, a esta altura do campeonato.
Eles são bons nisso, eles são muito bons nisso.
Incrível.
E às vezes depois já pegam a coisa. E é ótimo isso, vou ver segunda vez, gosto imenso.
Só tenho primeiro a agradecer também à Yellow Star e ao Paulo Sousa Costa e à Carla por terem confiado em mim pra este papel, porque tem sido memorável mesmo na minha carreira e tem sido uma aventura. E eu neste momento sinto que a minha Evita de hoje já é totalmente diferente da Evita que estreou. E acho que no fim também vai ser já outra coisa.
A personagem começou a respirar dentro de ti.
Sim. Isso é tão bom, é tão gratificante poder sentir essa evolução também.
O encarnar desta personalidade.
Esta evolução, que já é normal em qualquer peça de teatro, em qualquer musical.
Nesta há tanta coisa.
Às vezes numa semana ou em quatro dias não dá.
Mas quando tens como base a história de uma mulher como desta, porque ela é um exemplo a vários níveis. Apesar de cometer os seus caminhos, seguir os seus caminhos pra conquistar o que conquistou.
Claro. Mas porque é uma mulher normal, que sofreu o que sofreu.
Manhosa. Exato.
Não foi dada, foi restringida por tudo e por todos.
Pois, nem todas as mulheres com essas características depois chegam a líder.
E naquele tempo elas não votavam, como tu dizes, foi um milhão importante na altura.
Foi ela que-
Pusera em sentido os generais. É extraordinário.
Influenciou a Argentina, claramente, e muito no mundo também.
E acho que ainda se desconhece muita coisa sobre a vida dela, o que é bem curioso.
Isto dá a quem faz a Evita, dá-lhes ali uma matéria.
Exatamente. E depois é uma mulher real, é outra coisa. As outras que tu representaste são ficção.
É exatamente o que eu estava a pensar.
Esta mulher existiu, é um culto à volta dela.
Uma coisa é fazermos uma personagem de ficção, que a gente pode inventar, podes especular.
Ninguém vai cobrar com ninguém.
Exatamente. Outra coisa, há uma pressão e uma responsabilidade muito maior quando estamos a falar de uma pessoa que existiu mesmo.
Pela verdade.
Exato.
E depois há o mito, as pessoas quando vão já têm uma ideia preconcebida, como eu tinha, como acho que é normal pra gente.
Normal, eu própria também.
Isso surpreendeu-me imenso. Eu: "Olha, não fazia ideia disto e disto".
Exatamente.
Isso é muito bom. Eu acho que desconstrói um bocadinho isso. Gostavas de corrigir, sabes que tens esse condão, esse papel de corrigir um bocadinho a visão das pessoas.
Sim, eu li imenso também várias biografias sobre a vida dela e há tanta coisa que está tão mal contada.
E há também este culto.
A recepção do público na Argentina também foi-
Foi polémico, não foi?
Bastante polémico. A Evita, pros peronistas, a Evita ali está bem tratada, mas também está mal tratada.
Sim.
São ditas coisas ali, quem estiver atento, percebe que
Mas acho que isso vai acontecer com tudo. Quer dizer, há de haver sempre os tratores.
Principalmente com a figura como ela foi, que teve que passar por cima de algumas.
Continua a ser uma figura muito atual, é incrível. Uma espécie de influencer da política.
Se calhar é mais atual hoje do que nunca.
Exatamente, estava a pensar nisso. Hoje em dia, se calhar, cada vez mais precisamos destas mulheres com esta força, como ela provou e mostrou. Sonhadora, também lutadora.
A questão é que hoje em dia, mesmo havendo uma Eva, entre aspas, vai sempre estar num contexto muito mais simpático.
Mais simples.
Enquanto que é outra história a força que deve ter sido necessário ter.
No meio dos homens, exército, militares.
Exatamente.
De um panorama social totalmente diferente.
Sub-americano, diferente.
Apesar de tudo, hoje em dia as mulheres têm liberdade.
Exatamente. Na altura era lutar contra tudo.
É mesmo algo extraordinário quando nós começamos a ver o contexto onde ela estava inserida, como é que ela conseguiu chegar até ali.
Adoro a tua ideia de pensar, de tanto encarnar este papel, tu pensas a cena da expulsão da amante do marido de casa e tu pensas: "Eu não sinto ela a fazer exatamente assim, eu faria mais, se calhar, assim". Também isso prova que tu estudaste aquilo fundo.
Sim.
E ela também pensa: "Eu comecei assim também, eu era isto".
Mas não deixa de ser também a minha visão.
Claro que sim.
Porque a verdade só ela sabe.
Exato. Morreu com 33 anos, é extraordinário, ou 34.
Acho que nunca ficou claro, nem muito bem definido quem foi Eva Perón.
Portanto, quer saber um bocadinho mais? Vá ver o "Evita", no Teatro Capitólio.
Exatamente.
Até 28 de junho.
Se pensares que ela tem este fim trágico também, com 33 anos.
Tão cedo.
Tudo isto para a história é uma coisa que a idolatra.
Exatamente. Faz ali um centro de culto, mas será que ela foi a tal santa que se fala?
Santa Evita.
Estão muitos temas aqui revisitados: o poder, a ambição, a desigualdade social, os descamisados. Tudo isto é muito importante e continua cada vez mais, eu acho, atual. A imagem pública, a relação entre os líderes e o povo. Tudo isso são temas que a gente pode hoje discutir à exaustão.
Totalmente.
Sofia, eu antes só falar de outras, já sei, por exemplo, de "Os Monólogos da Vagina", que vai voltar agora. A partir de 20 e 21 de maio, se não me engano.
20 de maio.
Volta com a Maria Sampaio, a Olívia Ortiz e a Marta Miel.
No Centro Cultural Malaposta.
Também no Centro Cultural Malaposta, também encenado por ti. A "Ratoeira" acho que também vai ter agora.
"A Ratoeira", que tem estado com o Rui, que voltou.
O Rui Cavaleiro? Exatamente, o querido Rui.
Incrível.
É incrível.
99 anos.
Esta "Evita" vai ter uma digressãozinha algures?
Vai ter uma digressão.
Queres lembrar alguma terra, sei que vai para o Porto.
Se eu conseguir abrir a cábula a tempo.
Ao Porto, sei que vai, não vou dizer terras, porque depois, se calhar, não é.
Já disse. Porto, vamos ao Porto. De 8 a 10 de julho. Portanto, a primeira digressão, começamos no Coliseu do Porto, que é sempre aquela sala icónica que podemos fazer. Ainda para mais um espetáculo destes, estou ansioso. A minha filha faz anos no dia 9.
Ah, que giro.
E vai ter que ir celebrar os anos ao Porto, lamento.
Pela Letícia, que eu até já sabe o que vai usar com isso.
Sabes que a Letícia também já está a participar no "Evita".
Não sabia.
Ela está lá conosco todas as noites.
Ah, que giro. Boa, não sabia.
Hoje tive uma conversa com ela, por acaso.
Apaixonadíssima.
Fico muito contente. Além da querida Mariana Marques Gossett também lá está.
Contra a minha vontade. Faro, a seguir, em agosto.
Teatro Figuras?
Em pleno agosto estamos no Teatro Figuras, em Faro. Dia 20 e 22 de agosto. Sintra, Centro Cultural Olga Cadaval, 3 e 4 de setembro, pois quando estivemos a arrastar férias é que está no Centro Cultural Olga Cadaval. Cascais, no Estoril, no Salão Preto e Prata, 16 e 18 de outubro. E depois Coimbra, Convenção Francisco, uma sala também incrível para este espetáculo.
Gosto.
Pronto, como vês eu tinha isto tudo de cor.
Muito bem, exatamente. Pronto, e nós não temos mais tempo. Quero agradecer muito aos dois a disponibilidade. E Sofia, quero muito que graves mais Instagrams com o, como fala o Ramos, a cantar contigo, o "Shallow", e o teu filho também, o Gabriel. Já sei que está a aprender piano também. Já está com quantos anos? Oito?
Ele está com 12.
12, meu Deus!
O tempo passa a voar.
Qualquer dia está também ele na música dos musicais.
Sim, eu estou ali a criar um acompanhador.
Muito bem, quero muito agradecer aos dois e já sabe, aceitem este convite. "Evita", de agora para já, até ao fim do mês, ali no Capitólio, a não perder. Muito obrigado aos dois.