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Na véspera do arranque da 15ª edição do Motel X, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, converso com o João Monteiro, que partilha com o Pedro Soto a fundação, programação e direção deste festival icónico nesta cidade. É aqui que, desde 2007, todos os anos em setembro, o Motel X mostra o que há de mais novo, clássico, interessante, hilariante, excitante ou arrepiante na sétima arte. E é já um dos mais respeitados festivais de cinema de terror cá e lá fora, promovendo as obras nacionais e internacionais deste género. Portanto, a partir de amanhã e durante sete dias, o Motel X traz ao São Jorge mais de 70 filmes versando mulheres serial killers, um mergulho na memória da guerra colonial e microcurtas de arrepiar. Inclui também programação para os mais novos, conversas, reflexões, histórias de terror contadas por quem sabe e uma exposição inédita de fantasmas de Edgar Pera. Olá, João Monteiro, bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao Observador.
Olá, João Paulo.
É um prazer. Diretamente de Lisboa, não estás muito longe, mas é engraçado, a primeira pergunta tem que ser esta: por que um historiador de arte, de repente, se dedica e passa a sua vida inteira, a partir daí, a dedicar-se ao cinema de terror? É só um gosto ou o panorama do nosso património era demasiado aterrador? Por quê?
Não, porque como deves calcular, as saídas profissionais eram uma loucura e continuam a ser.
Sim, é verdade.
Especialmente para museus.
Não acredito.
Eu quando fiz o curso na Nova, tinha cadeiras de cinema. Aliás, era um curso tão bom que não dava para completar, tinha que se fazer cadeiras extra para completar os pontos.
Exato.
Então eu fiz as de cinema todas, que havia um palhaço, sempre foi um gosto. E foi daqueles casos, um dia encontrei um colega chamado João Viana, dos fundadores, na rua, que estava com a ideia de fundar um cineclube só dedicado a filmes de terror, que era uma coisa que nós fazíamos quando éramos adolescentes, que era ir aos clubes de vídeo, ir ao Fantas, na altura. Obviamente que se me perguntares se eu esperava estar 15 anos da minha vida dedicado a filmes de terror, não.
Exato. Mas é engraçado, estamos no final dos anos 90, vocês organizavam já sessões em casa uns dos outros e depois na sala de condomínio, num prédio em Benfica, faziam sessões da meia-noite com leitores de DVD, mas chegaram a juntar 20 e tal amigos. Até que fundaram este Cineclube de Terror de Lisboa, este CTLX, aqui já dá um cheirinho ao Motel X. Muito bem, Motel X. Depois chegaram a fazer um ciclo no Cinema King, em 2005. Tudo começa em 2005, à meia-noite e meia.
Sim. Sessões esporádicas. Era de seis em seis meses, fazíamos uma meia-noite no King.
E depois também na Cinemateca, com os zombies.
Exato. Isso sim, o prelúdio do Motel X, porque foram várias sessões, foram creio que três fins de semana, que estiveram sempre cheios.
Incrível.
E a partir daí achámos que voltar a fazer uma sessão de seis em seis meses não fazia sentido. Ou acabava, ou tentava-se mesmo um festival.
Portanto, pode-se dizer que este Motel X é a concretização de um delírio, porque isto é um bocado um nicho. É um nicho, mas cada vez mais alargado. Começou num pequeno grupo de fãs, mas vocês de ano para ano vão tendo mais público e mais gente interessada, certo?
Exato, por isso é que eu acho que é o único nicho que é mainstream. Ou seja, o nicho não é um nicho. Não percebo esta conversa do nicho. Se o festival tem imenso público, se o terror tem imenso público em todo o lado, como é que isto é nicho?
Exatamente, no geral devia ser. Agora explica-me uma coisa, falaste no Fantas, quais são as grandes diferenças pro Fantasporto ou pro Sitges, mas concretamente o Fantasporto. Não há nenhuma rivalidade, vocês para mim são completamente complementares, mas há pessoas que acham: "Não, já existe este, escuso de ir ao outro". Mas não, qual é a grande diferença para o Fantasporto?
Eu quando comecei a ir ao Fantas, nos anos 90, ia ver todas as sessões que diziam, eles tinham uns disclaimers que diziam: "Esta sessão contém cenas eventualmente chocantes".
Exato.
Eram aqueles que a gente arriscava ir a ver todos. Portanto, o Motel X é basicamente só essas sessões.
Exatamente. Eram os que tinham o fruto proibido, completamente.
O Fantas, quando eu comecei a ir, já não era aquilo que era nos anos 80, segundo me contam, que era um sítio muito mais vibrante. Toda gente fala de sessões do Braindead.
Mas era mais fantasia, a ideia é mais essa, não é? É mais o cinema fantástico do que propriamente o terror.
Eles não só são um festival de cinema fantástico, que é o que é mais.
Exatamente.
Que é uma federação dedicada a festivais de cinema fantástico. Eu creio que o Fantasporto tentou, inclusive, tornar-se um festival de cinema generalista.
Ok.
Já há uns tempos.
Mas estilo Veneza ou Cannes, esse gênero?
Eu suponho que sim.
Então, mas assim deixava de estar naquele nicho, lá voltamos nós, a que faz parte e que não há mais ninguém, então, nesse caso.
Não, eles acho que não querem. Mas é assim, o Fantas é muito antigo. O Fantas durante muito tempo era o único festival, já nem digo do Norte, do país.
Exatamente.
Portanto, eu acho que somos completamente diferentes, porque é só terror.
Só nos interessa o que assusta.
Só andamos de terror.
João, o que te assusta? O que te assustava em pequenino? Tu tinhas pesadelos por alguma coisa?
Não me lembro.
Qual é a coisa que te assusta mais?
A coisa que me assusta mais?
Sim, num filme.
No filme.
Assistir a quê?
É aquilo que eu não vejo.
Sim.
Mas que sou convidado a imaginar.
Ok, que está lá, mas sem ser gráfico, sem ser real.
Não te mostram, a porta está fechada, ouves o barulho do outro lado e depois tens de imaginar.
É o chamado o cinema biquíni, portanto. Mas está bem, estou a perceber. Muito bem. E o que faz um filme de terror, João? Como é que tu definirias um filme de terror? Não é só o que faz dar saltos na cadeira, que nem todos são desses.
Não, isso é muito complicado. Vou te dar um exemplo: eu acho que o filme mais assustador que o Motel X vai apresentar este ano não é bem um filme de terror. É um filme desastre, um disaster movie.
O Fukushima. Exato. Relembra aquela catástrofe com aquele terremoto que originou aquela fuga nuclear.
Sim. Que conta o que aconteceu, um bocado como a série Chernobyl já contava o que aconteceu realmente.
É quase um documentário? É como se fosse?
Não, é ficção. É com um ator bastante conhecido, o Ken Watanabe, e é a descrição do terrorizar. Aliás, o filme começa com o tsunami a atingir a central.
Ok.
E depois mostra-nos aqueles três dias em que estivemos quase, a humanidade, o planeta em risco. Aliás, estamos sempre em risco.
Claro.
Há 10 anos estivemos perto desta pra melhor.
Exatamente.
Estas histórias nunca são contadas totalmente. Aliás, e convenho, senão era loucura completa, mas tal como em Chernobyl, a situação esteve muito negra. Agora, para responder à tua pergunta, obviamente que é um bocado como os gêneros musicais, tens que bater certas notas para isso ser um filme de terror, nomeadamente a questão da música, que é importantíssima.
Exatamente.
Depois, obviamente, há o ato sobrenatural. O terror inicialmente era uma coisa mais virada para o lado sobrenatural e a partir do cycle começou a tornar-se mais real, digamos assim, começa os assassinos verdadeiros, carne e osso, os monstros verdadeiros.
Exatamente.
Não as representações monstruosas.
Claro. Tem muitos subgêneros também, muitas subcategorias, é verdade. Desde o gore ao thriller, o thriller psicológico, os clássicos, revivalismos dos clássicos, mas o terror é um bocadinho intemporal, certo? Mas também há o paranormal e a assombração e a maldição, o que não se vê, os monstros, demônios, o pior de nós.
É intemporal e obviamente que muda conforme, ou seja, alimenta-se do medo coletivo daquele particular momento. Portanto, os filmes durante a Guerra Fria agora já não fazem tanto sentido, mas na altura metiam muito medo.
Exatamente.
E agora o que está a dar, obviamente, é o chamado ecoterror.
As alterações climáticas.
Basicamente, a natureza a vingar-se dos seres humanos.
Da humanidade. E a questão do vírus, também esta pandemia, vários filmes sobre pandemias, também vão ter um ou dois. Também é um tema recorrente e que vai continuar a assombrar os temas agora do terror nos próximos tempos, não?
Sim. Todos os filmes de zumbis são filmes de pandemia. Já há uma espécie de enjoo deste tipo de filmes. Portanto, de repente, quando acontece a sério um vírus, eu já estava cansado, antes de vir a pandemia, de ver este tipo de filmes. Portanto, agora espero que não hajam muitos filmes sobre a pandemia.
Sim, mas é inevitável vir alguns. A começar por Soderbergh, que começou já 10 anos antes, adivinhou completamente o que ia vir.
Esses valem. Agora aqueles outros, porque não é propriamente uma experiência que só aconteceu aqui ou noutro país, aconteceu em todo o mundo, ao mesmo tempo, a toda a gente.
Exato. E o que tu achas também deste branqueamento? Há duas coisas curiosas. Uma coisa é um preconceito em relação à palavra terror. Parece que uma coisa desvaloriza automaticamente um filme. "Ah, é um filme de terror". Pronto, está numa categoria e há pessoas que já: "Não, então já não vou ver". E outra coisa é um certo branqueamento. Agora, filmes de terror que passaram a dramas negros. Estou a pensar no Get Out, o Silêncio dos Inocentes, Coisa Ruim, são coisas que passaram a ser thrillers psicológicos. Saíram da categoria de terror, como se fosse uma coisa subvalorizada, um preconceito. Sentes isso ou não?
Totalmente. Aliás, estávamos a falar há bocado do nicho.
Sim, a questão de chamar nicho. Começa por aí.
Os filmes de terror começam por seu circuito e depois quando ganham prêmios, tipo Oscars e coisas do gênero, mudam de gênero, curiosamente.
Exato.
Fazem uma operação de sexo.
Exato, uma plástica.
Mudança de sexo.
Mas é curioso. Diz.
Sim. Eu acho que tem muito a ver com a popularidade do gênero e a ideia de que como é muito popular, portanto é para uma camada menos exigente da população, digamos assim. E eu acho que esse preconceito tem vindo, de certa maneira, a matar o cinema. E portanto, o estado em que estamos agora, em que os grandes festivais vão correr buscar todos os filmes de terror para poderem passar, é demonstrativo desse preconceito um bocado absurdo, que eu acho que é um preconceito intelectual.
Claro, como qualquer outro.
Puramente.
Exatamente. Já a seguir vamos voltar e vamos falar desta grande apetência que tem havido por este tema, para falar de Cannes, para falar de Veneza e de outras coisas que têm acontecido ultimamente. Antes disso, vamos atualizar toda a informação. Até já, João. Não desligues, fica conosco. Até já. Estamos a conversar com o João Monteiro, cofundador do Motel X Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que amanhã arranca para uma semana com mais de 70 filmes no Cinema São Jorge, em Lisboa. Só mais um pormenor que eu gostava de combinar contigo, falar contigo. Esta questão do apoteose do terror é uma grande apetência que tem havido cada vez mais. Já falámos um pouco disso, João, pelos filmes de terror, só nos streamings, mas mesmo nas salas também. Nos últimos cinco anos, Joker, ganhou o Festival de Veneza. O Guillermo del Toro ganha o Oscar.
Parazita ganha tudo.
É verdade, ganhou tudo. O Get Out também, fantástico. Nesta retoma, por exemplo, como tu costumas lembrar, Quiet Place 2 e o The Conjuring 3 foram os mais vistos, e não o Christopher Nolan com o Tenet, aquela complicação que ele se chamou de filme.
É verdade. O último Festival de Cannes.
Exatamente. Ganhou a Titane, de Julia Ducournau. É incrível. É a segunda vez que uma mulher, depois da Jane Campion, há quase 30 anos, ganhou o Palmarés. E agora é uma francesa que ganha com um filme de terror, com uma jovem serial killer, que depois agradeceu ao júri ter deixado entrar os monstros e ter permitido maior diversidade. O terror está realmente a invadir o mundo do cinema por todo o lado, e ainda bem, João?
Não sei se é assim tão generalizado. Eu creio que o que se está a passar, por um lado, há toda a questão económica, ou seja, sem ser os filmes da Marvel, só os filmes de terror conseguem combatê-los a nível das bilheteiras.
Logo basta, claro.
E essa apetência verifica-se nos streamings, como tu disseste. Há uma produção massiva de séries, de filmes. Agora, o que parece ser mais interessante é que durante muito tempo o terror foi uma espécie de diálogo surdo entre fãs, de fãs para fãs.
Exato.
E agora há uma nova geração, como a Julia Ducournau, como tu disseste.
Incrível.
E mais, que pegam no gênero, não naquela coisa de obsessivo cinéfilo de terror, mas alguém que tem alguma coisa para dizer. Imagina, o que tu falaste do "Get Out". O "Get Out" acho que faz mais pela questão do Black Lives Matter do que, por exemplo, o "Moonlight", que ganhou os Oscars.
Exatamente. São dois bons filmes, sim, claro.
Claro que sim. Hoje, a nível de qual é o filme que mais existe.
Exatamente. Isso é verdade. Impressionante.
Não todos, obviamente. Acho que o "Moonlight" é um ótimo filme, mas é um filme independente, muito autoral, digamos assim. E o outro é mesmo para ir direito à jugular.
Exato. Exactamente. Com a frequência e com o uso, há uma coisa que te assusta ou não? Há menos medo? As pessoas, de tanto irem ao vosso festival, acabam por já não se assustar com quase nada, ou não?
Não, acho que não. Acho que isso mantém-se.
É?
Acho que isso acontece conosco, programadores de festival há 15 anos.
Porque de repente têm que ver dezenas de filmes que vos mandam e têm que escolher.
Dezenas, sim. Diria que seriam quase centenas.
Meu Deus!
Sim, aí já ficamos num estado-
Vacinados, agora sim. Imagino que sim.
Encontrar um filme que nos meta medo. Esse então é tipo uma obra-prima.
Já, para os dois, para ti e para o Pedro Souto, imagino que sim. Muito bem. Falamos agora então do 15º Motel x, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. É preciso dizer que todas as atividades são de entrada livre, mediante inscrição prévia para este geral@motelx.org, e respeitam as recomendações da DGS. Vocês vão cumprir esta coisa dos 50% de lotação? É que já pode ser mais. Como é que é?
Vamos, sim, senhor. Vamos cumprir os 50%, porque mais de 50% obriga os espectadores a apresentarem o certificado digital ou um teste.
Para fugir a isso, exatamente.
E a verdade é que já o ano passado houve umas complicações. Sim, porque, por exemplo, o cinema já não está autorizado a deixar entrar as pessoas depois do filme começar. E em Portugal há o hábito de chegar sempre tarde e a más horas. Muita gente no ano passado ficou retida cá fora. Agora imagina terem que mostrar o certificado digital ou teste. Eu acho que este ano ainda vamos assumir que estamos no novo velho normal. Esperemos que para o ano isto já não exista de todo. Aliás, agora acabei de ouvir nas notícias, nas vossas notícias, que domingo já deixa de ser obrigatório.
A máscara.
Usar máscara na rua, não é?
Sim, vamos lá ver.
Mas este ano ainda é complicado.
O vosso conceito visual tem a ver com mostrar algo nunca antes visto. E neste pequeno filme que anuncia o Motel x, tem a Eva a mostrar a maçã a Adão, o Jardim do Éden, uma abordagem neo-noir, surrealista. A ideia é fazer as pessoas verem coisas totalmente diferentes?
Eu acho que sim. Eu acho que esse é o objetivo, é verem coisas não só que não estão habituadas, mas coisas que lhes façam ver algo pela primeira vez, ou ver algo deslocado, ou seja, descontextualizado, que é um bocado aquilo que nós fazemos, por exemplo, com o cinema português e com a história do cinema português. É dizer assim: "Olha, vejam este filme do Manoel de Oliveira, que é um filme de terror".
Se tu vires o filme desta perspectiva, já estás a vê-lo com outro-
Condicionado.
Exato. Aí já estarias a falar dos canibais ou do convento, uma coisa assim.
Exatamente.
Que eu tenho, não é? Que vocês consideram. Exatamente. Agora, outra coisa muito curiosa que tem este ano de novidade, que é esta descentralização. Vocês tiveram uma parceria com a Nós Cinemas, e isso é muito bom, porque vai levar estes vossos filmes, que passam nesta semana, depois pelo país todo. Novos públicos, novas geografias. Isso interessa-vos, claro.
Claro, muito. Esta tem sido a nossa maior dificuldade, tem sido a questão da descentralização, de sair de Lisboa, de conseguir outros sítios, porque obviamente temos que contactar estas câmaras, temos que contactar cineclubes. Os cineclubes estão sempre interessados, mas infelizmente não têm verbas. E, portanto, obviamente, as extensões custam dinheiro e os filmes têm que ser pagos, têm que ser traduzidos, etc. E portanto, a Nós surge como o nosso parceiro privilegiado para poder, de facto, através das salas deles, poder levar uma programação. Até porque, vamos dizer, muitos filmes que nós passamos são do catálogo da Nós. Aí também já podemos ir buscar filmes que lhes interessa passar em sítios onde eles não vão passar. Estamos muito entusiasmados com isso, porque vamos a sítios onde nunca estivemos, mesmo fora de Portugal continental.
Isso é muito importante e é uma parceria que interessa, e oxalá se mantenha. Outra é com a Santa Casa, e após a Santa Casa e a Misericórdia de Lisboa. Tem muito a ver também com este warm up. Houve um warm up de quinta-feira até sábado, que aqueceu os lugares, as pessoas, com estes três pontos que cada um deles é genial. Este "Rapsudo", que eu acho que só faltava ser à volta de uma fogueira, isso é que tinha que ser, onde vocês puseram uns atores a contar histórias de terror, com música e tudo.
Sim, nós tentamos sempre no warm up diversificar um bocado a parte do cinema. Ele não está obviamente ausente, mas tentamos, seja teatro, seja literatura, seja artes plásticas, poder mostrar o gênero em outros formatos. Temos feito um bocado isto. No ano passado também fizemos uma performance com um rapper e com um artista gráfico que fazia projeções e video mapping no Convento de São Pedro de Alcântara.
Exato. Onde foi este ano, também.
Este ano foi alterado à última hora. Fomos para a Biblioteca de Alcântara por uma questão de lugares.
Havia muita gente inscrita?
Havia muita gente inscrita e a DGS permitiu poucos lugares, à volta de 30. Achamos que era pouco e encontrámos um sítio que era possível fazer com menos.
Mas a razão foi boa.
A razão foi boa e o público aderiu, o público estava informado e foi atrás.
Exatamente.
E tivemos uma exposição do Edgar Pera, que se tornou pintor durante a pandemia.
Nunca tinha comprado uma tela, é verdade.
Que é bastante interessante, há uma espécie de instalação em que tens desenhos de luz, tens uma banda sonora especial e é só das 19h à meia-noite, com visitas guiadas, e vai estar na Travessa de São Paulo, número 5.
Isto era um antigo hotel desativado, não é?
Exatamente.
São quatro andares num hotel desativado ao pé do Cais do Sodré. É uma experiência imersiva, isto merece muito a pena ver estes fantasmas de Edgar Pera. É uma novidade tremenda.
É verdade.
Muito bem, com o jogo de luz.
Está bastante bem.
Muito bem. Traz-nos então os fantasmas da pandemia, o Edgar Pera, a não perder. E também houve uma sessão de cinema ao ar livre, certo?
Isso já é uma tradição mais antiga, que é começar na rua e depois ir para a sala. Este ano mostrámos um filme muito interessante chamado "Bubba Ho-Tep". No ano em que temos a representação feminina em destaque, quisemos dar uma representação à terceira idade, porque os idosos nunca são personagens de filmes de terror principais.
Pois é.
É um filme passado num lar.
Incrível. Em que o Wesley e o Bruce Campbell.
Combatem uma múmia labrega.
Não, isto deve ter sido fantástico. "Bubba Ho-Tep", isto é para imitar os nomes dos faraós Imhotep e por aí fora.
Exatamente.
Muito bem. Muito bom. Um filme de Don Coscarelli. A não perder, esta ode à terceira idade que vocês fizeram. Vão ter uma grande abertura amanhã com a lenda do Cavaleiro Verde. Quem voltou aos cinemas, em boa hora, já consegue ver este trailer que passa. Cá está, um filme com o grande Dev Patel e a Alicia Vikander, com este "The Green Knight", que é um filme que é uma lenda do tempo do Rei Arthur, do mesmo realizador que fez "A História de um Fantasma", certo? É uma grande estreia que vocês conseguiram.
É um grande filme. É um dos grandes filmes do ano, que eu aconselho quem não conseguir ir ver no Motel X, que o veja em sala.
Em sala.
De facto, não é só um bom filme de género, como é um bom filme.
Exatamente. Com uma grande história.
Um bom filme em geral.
Sim, exatamente. E é um grande filme. Pelo trailer que eu tenho visto, apetece-me muito ir ver. Grandes atores, grande realizador.
O trailer não, quem vai à procura de coisas tipo "Game of Thrones" ou "O Senhor dos Anéis", que dá um bocado a impressão pelo trailer.
Não é bem isso.
Não tem nada a ver com isso.
Ok.
É uma desconstrução total do mito. E é um filme que inclusive tem muitos momentos de silêncio, sem música, tem poucos diálogos e os diálogos são todos brilhantes, ou seja, não há palavras a mais no filme.
Boa.
É, de facto, uma experiência totalmente diferente e antítese do que o trailer um bocadinho dá a entender. O fantástico está lá, mas eles não passam o tempo todo a falar como no "Game of Thrones".
Claro, pois aí tem que sintetizar.
Exatamente.
Aí foi mesmo para sintetizar.
É um filme que tem muitas leituras e que permite muitas leituras, inclusive relativamente ao presente.
Há um destaque também neste Motel X, que tem a ver com o ciclo Fúria Assassina. Agora estamos a falar das mulheres. Normalmente, realmente é verdade, as grandes personagens icónicas eram sempre homens, não era? O Drácula, Frankenstein, o Norman Bates, Freddy Krueger, Hannibal Lecter, o Jigsaw. E agora vocês disseram: "Não, este ano vamos então, depois do Black Lives Matter, o racismo sistêmico, que teve um bocadinho no ano passado também, um bocadinho o vosso tema, o vosso ciclo." Este ano focaram-se nas mulheres, no Me Too, e que não é só no mundo ocidental, e vocês fazem questão de provar isso, é muito curioso. E então aqui vêm os filmes com mulheres serial killer, incluindo uma retrospectiva famosa.
Sim, como observadores, como programadores de cinema de terror, que vemos todos os anos, o cinema de terror obviamente obedece àquelas notas que falámos há bocado e as variações são poucas e os filmes são mais ou menos parecidos. Obviamente que depois vai dependendo do talento de quem os põe cá fora. Neste caso, de vez em quando, quando tu vês qualquer coisa que é diferente Essa variação é diferente, tu notas e causa-te uma certa estranheza. E este ano temos um filme, por acaso realizado por um homem, que se chama "Black Medusa" e é da Tunísia.
Incrível, é o primeiro filme tunisino que vocês têm, não?
É um serial killer, é uma mulher serial killer que só mata homens. Aleatoriamente, completamente. Não há razão.
Não é um rape revenge, aqueles-
Não é um rape revenge, exato. Foi realmente interessante. Quantos filmes é que nós vimos assim? E de facto, a passar pela cabeça.
Talvez nenhum.
Só surgiram estes que nós vamos mostrar, que são seis. É capaz de faltar um ou outro dentro de filmes conhecidos, mas é um mistério, por que esta representação desta personagem, que tem um culto gigantesco na cultura popular, que até mete impressão. Toda a gente deve saber o nome de pelo menos três serial killers americanos.
Exatamente.
Mas as mulheres não entram nesta categoria. E o interessante é que os filmes mais provocantes ou mais polémicos foram todos realizados por mulheres. Parece que, de facto, ao pegar neste tema, há logo um potencial manifesto.
E este, completamente, o "Black Medusa", apesar de ser realizado por dois homens, no entanto, é considerado ultra feminista, o que é curioso.
Eu acho que os filmes ultra feministas são todos realizados por homens. As mulheres não fazem filmes ultra feministas. Elas fazem sempre coisas com outra perspectiva. Mas, no entanto, é interessante pela forma como eles olham para o problema. Claramente não é um problema das mulheres, é um problema de todos.
Exatamente. Isso é muito curioso. E esta prova também que o "Me Too" não foi só no mundo ocidental. É engraçado ver dois tunisinos a pegarem neste tema.
Ano passado tínhamos um filme turco, que era "A Caça", que era uma mulher que era perseguida pelo marido e pelos amigos, que queriam vingar-se porque ela foi infiel. E ela conseguia safar-se e terminava a ser perseguida pela sociedade turca patriarcal toda. Era um filme que não parava. E era também o filme de um rapaz, e olhavas para aquilo, havia referências diretas ao regime turco. Ficas impressionado. Nestes sítios, isto ainda bate com mais força.
Exato.
É a impressão que dá.
É curioso também que vocês vão incluir uma retrospetiva neste tema. Eu estou a pensar no "Besmo A", no "Audition", "Serial Mom" e sobretudo, "A Condessa Sangrenta", claro, mas também e sobretudo, "Monster", um filme já de 2003, produzido e magistralmente interpretado por Charlize Theron, aquela sobre a mais famosa assassina norte-americana, que lhe deu o Oscar em 2004. Um filme curioso.
Sim, que ninguém consegue dizer o nome.
Exato. E esta Aileen Wuornos. Sim, mas ela-
Aileen Wuornos.
É um nome incrível. Mas é engraçado que esta realizadora é a Patty Jenkins. Ela rodou este filme num mês, foi o que eu li, e depois ficou 14 anos sem fazer filmes, até vir a este "Wonder Woman", famoso, em 2017. Impressionante.
É verdade.
Um filme que lhe encheu as medidas.
A realizadora oficial do "Wonder Woman" parou porque fez um filme sobre uma mulher serial killer.
Incrível. 14 anos antes. É incrível as repercussões que isto tem. Ainda na seleção oficial, há o destaque que eu queria que fizesses, João, este "O Fio de Baba Escarlate". É o nosso quarto de Carlos Conceição. Grande filme, já premiado.
É verdade, estamos muito contentes, porque é muito raro.
Pois, é o quarto em 15 anos.
E esses filmes apareceram todos nos últimos quatro anos. Foi o "Faz-me Companhia", do Gonçalo Almeida, foi o "Mutant Blast", do Fernando Alves, foi o "Winter Ghosts" do Paulo Leite, agora.
"O Fio de Baba Escarlate".
Temos o Carlos Conceição. Tem um título magnífico.
Sim.
E que é, curiosamente, um slasher. Este é o ano do slasher.
É um pacato assassino influencer lisboeta, que se torna viral. É o que promete este filme.
É um filme magnificamente bem filmado, bem feito, sem diálogos. Não há diálogos no filme inteiro. E consegue conjugar uma certa cinefilia a nível do Giallo italiano, com as raízes do cinema português, um bocado o Oliveira também, mas aquele Oliveira mais espectral. Estavas a falar há bocado do convento, por exemplo.
Exatamente.
O problema é quando vejo a Lino Silveira e penso logo no Melo Oliveira. A Aliandra no filme, vestida de freira.
Exatamente.
Aliás, faz um duplo papel.
Embora os protagonistas sejam o Malkovich e a Catherine Deneuve, claro, mas é também esse ambiente. Também tens que falar na secção Quarto Perdido, vão falar do inferno e do purgatório.
João Paulo, desculpe interromper. Deixa-me só dizer uma coisa. É que "O Fio de Baba Escarlate" vai passar na quarta-feira, às 21h30, na Sá da Bandeira, acompanhada de mais duas curtas portuguesas.
Portanto, é a sessão do dia oito, que é 100% portuguesa. Isso é algo que nos entusiasma muito.
É o estado geral do terror português, para quem quiser ir.
E não é uma ida ao Parlamento, é mesmo filmes.
É mesmo filmes.
Pela primeira vez, tem uma sessão inteiramente portuguesa, a sessão dia 8 de setembro, com "O Fio de Baba Escarlate", com a "Terra do Não Retorno" e com o grande Filipe Melo.
Não é a primeira exclusiva, mas acho que é a primeira vez que colocamos o filme neste horário. Que é um horário nobre.
Um horário nobre, claro. E com "O Lobo Solitário", do Filipe Melo, também. Um tal filme de plano único. Estou muito curioso também, eu gosto muito do Filipe Melo. Estou muito curioso para ver esse. Depois tem este mergulho na guerra colonial. Vão estar com o Joaquim Leitão e com o Dino Navarro, que também vão estar num dos debates que vai haver, a propósito desta trilogia sobre a guerra colonial, que neste momento ainda só tem dois filmes e falta o terceiro, não é? Acha que vão conseguir convencê-lo?
Esperemos que sim. Primeiro vamos perceber o problema, por que não há o terceiro?
Houve um em 1999.
São filmes que tiveram pouco público comparado, por exemplo, com o "Adão e Eva" e com a "Tentação". Acho que foi o que fez mais dinheiro. E depois eles fazem o inferno sobre este tema e tiveram muito menos público. A história não chegou aos 10 mil espectadores.
Faltou público.
E não tem a ver com a qualidade dos filmes, tem a ver com o tema.
Sim, será ainda um tema um bocadinho tabu, achas que sim?
Sim, totalmente. Eu acho que as pessoas não querem ver isso, porque não só as pessoas que estiveram na guerra, como todas as famílias que foram afetadas pelas pessoas que vieram da guerra. E, portanto, é compreensível, mas neste caso, eles conseguiram fazer uma coisa inimaginável, que é fazer dois filmes de gêneros.
Exatamente.
Muito gêneros, em torno desta temática tão complicada.
Que ainda é complicada.
Ainda é complicada, mas é interessante terminarmos isto, porque é de facto uma coisa ímpar no cinema português, fazer um filme sobre este tema.
Nós temos três minutos. João, vamos falar ainda muito por alto desta secção X, que é uma coisa muito curiosa. X de experimental, de mistério, de underground, vão ter estes blocos de filmes de cineastas alternativos, filmes bizarros, surrealistas. Às vezes não é narrativo, o que me assusta imenso, porque eu ligo muito às histórias. Vamos ter o Lobo Mau, que vai ter a grande homenagem aos 20 anos da "Viagem de Chihiro". Um grande filme, mas na versão original, em japonês. É já para a vida estar esperada.
Os surtos curtos.
Tem que saber ler. A compilação dos surtos curtos, que eu acho muito curioso este nome. O prêmio Motel X Melhor Curta de Terror Português, que é o Méliès d'Argent, que tem a ver com aqueles filmes que as pessoas mandam por telemóvel, no máximo com dois minutos.
Microcurtas.
Vocês adoram isso, esses microcurtos. Vocês adoram escolher esses filmes, não adoram? Divertem-se imenso ou não?
Eu posso dizer que ver filmes portugueses, curtas-metragens, em que formato for, até longas, é a única altura destes 15 anos em que ver um mau filme não é um sacrifício.
Ok.
Principalmente nas curtas, tem sempre graça o que as pessoas tentam fazer. Alguns filmes são mal feitos, mas nota-se que eles se divertiram, por exemplo.
Exato.
Então é sempre interessante, só o facto de alguém se dar ao trabalho. Fazer isto para te mandar e para passares no festival.
Exato. Alguém que não seja o Pedro Varela, que faz já filmes à séria com telemóveis. Isso é engraçado, que as pessoas mandam, vocês disponibilizam nas redes do Motel X, depois se tiver mais de 20 likes, vocês escolhem 30. Depois desses, selecionam os que vão a um júri. É muito curioso, devem aparecer coisas. Desses dois minutos, há filmes que vocês deem saltos e que seja realmente assustador, ou não? Acontece? Ou já estão tão habituados que já não?
Infelizmente, já não. Mas sim, diga, há coisas que podem meter medo para quem não vê muitos filmes de terror.
Ou podem ter medo pela fraca qualidade? É terror por outra razão.
Se meter medo pela fraca qualidade, não chegam a ser mostrados.
Também, é verdade, acredito.
Essa coisa do bom filme e do mau filme é tudo relativo.
Exatamente. João, nós temos mesmo a terminar. Qual é o futuro do filme de terror? Os filmes de terror vão mudar muito de temas ou não, no teu ponto de vista?
Eu acho que eles vão continuar por este caminho, que é das novas representações, do novo discurso radical sociopolítico, até um ponto em que a gente se vai fartar. E vamos voltar àqueles filmes que não tinham uma agenda política por trás. Eu gosto de todo o tipo de filmes e acho que neste momento estes filmes são aqueles que são precisos, são os filmes para o momento. Agora, crises ambientais e seja lá o que for.
E pandemias.
Não te consigo dizer o que é o futuro do cinema de terror, porque não sei o que é o futuro do resto.
Mas não há dúvida que é um grande veículo para expressar ideias. Os filmes de terror são catarses, podem ser catarses?
São totalmente catarses.
Não é?
Completamente catarses. Esta questão do "Black Medusa" é um filme que ainda por cima nós vimos, foi durante a pandemia, durante o segundo confinamento, creio eu, e que havia, começaram a sair as notícias de números maiores de violência doméstica.
Exato.
E eu acho que nessa semana houve um caso em Inglaterra de uma rapariga que foi violada e morta num parque e depois fizeram uma vigília no dia seguinte. Depois levas com isto, vais ver um filme destes, obviamente que está lá a catarse. Ver uma mulher a matar homens, sem motivo nenhum, que é exatamente as notícias que tu vês, provoca essa catarse.
Última pergunta, João. Para alguém que não seja grande fã do gênero de filmes de terror e tu queres pôr alguém a começar a ver e interessar-se por este tema, porque tem muitas subcategorias, como tu dizes. Recomenda dois ou três filmes que tu dizes: "Não, isso são grandes filmes de terror para quem não é fã do gênero, começar a ver e começar a gostar".
Eu diria que o melhor filme de terror para mim, de sempre, não é o meu filme favorito, eu acho que é o melhor filme de terror, ponto final, é o "Alien", do Ridley Scott.
"Alien, o Oitavo Passageiro".
Porque condensa a história toda do gênero naquele filme. Desde o lado mitológico até a todos os subgêneros, à literatura.
A casa assombrada.
Casa assombrada, o assassino, o papão, o Minotauro está lá também.
Incrível.
Esse é o filme que ainda hoje acho eu que resulta.
Muito bem.
Outras coisas mais elegantes, eu diria o "The Haunting", do Robert Wise, que é um filme de fantasmas em que não há fantasmas, mas mete medo. Mete muito medo. E que é aquilo que eu te estava a dizer há bocado, das coisas que não vemos serem mais...
Assustadoras, às vezes, do que aquilo que é gráfico.
Mais assustadoras, exato. Do que aquilo que é mostrado.
Muito bem.
Aliás, este filme até tem um remake horrível, porque mostra tudo.
Sim, perde a graça. Exatamente. Muito bem.
Mais. Um filme contemporâneo, eu diria que "O Ring" do Hideo Nakata, que é capaz de ter sido o último grande filme. Foi um bocado como o coronavírus, espalhou-se por todo o mundo.
Exatamente. Tornou-se viral. Muito bem.
Mas eu acho que está lá um discurso sobre a ancestralidade, sobre a história passada e sobre as novas tecnologias e as novas sociedades, etc.
Muito bem. João, nós não temos tempo para mais, infelizmente, o nosso único terror aqui é o tempo. Resta-me agradecer-te, João Monteiro, bem-hajás pela tua disponibilidade.
Eu que agradeço.
Em falares aqui ao Observador.
Muito obrigado, João Paulo.
Oxalá corra bem todo este festival, compreensivelmente a ganhar terreno ano após ano. Tudo de bom nesta semana que começa no São Jorge. E para si que nos ouve, o terror se não é ainda o seu gênero, consulte na net a programação e arrisque-se a experimentar algo nunca antes visto.
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