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Estamos em outubro, mês do cancro da mama, o mais comum nas mulheres. A doença que mais atinge as mulheres em todo o mundo. A principal causa de morte entre os 35 e os 55 anos, no sexo feminino, com 6 mil novos casos diagnosticados todos os anos em Portugal, e causa de morte de cerca de 1500 doentes anualmente no nosso país. A minha convidada extra de hoje é Sofia Mensurado, uma jovem investigadora do fundo IMM-Laço, do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, da Universidade de Lisboa. Convidei-a para abordar temas como os avanços da ciência para a busca da cura do cancro da mama, o trabalho de investigação feito pelo fundo IMM-Laço, o impacto desta doença em Portugal, a importância do controle regular do corpo da mulher para diagnóstico precoce do cancro, entre outros. Olá, Sofia Mensurado, e bem-vinda ao Observador. Muito obrigado por teres aceitado este nosso convite. Bem-vinda.
Olá, muito boa noite. Obrigada eu pelo convite. É um prazer estar aqui.
Olha, Sofia, muito obrigado, o prazer é nosso. Aos 28 anos, tu já tens oito anos de trabalho ligado à investigação no IMM, certo?
Sim, cerca de oito anos. Comecei ainda durante a licenciatura. Quis saber um pouquinho mais de como era a vida no laboratório e comecei a me interessar por estas questões de investigação. E portanto, já lá estou há oito anos.
Exatamente. Tu licenciaste-te em Ciências da Saúde, depois tiraste o mestrado em Bioquímica e depois doutoraste-te. Acabaste há pouco tempo o teu doutoramento sobre a diferenciação de linfócitos T e oncoimunologia. É uma coisa engraçada, porque sempre foste fascinada pelo sistema imunitário. No fundo, é suposto serem células que nos protegem das agressões exteriores, muito bem. Mas, no entanto, um cancro é uma coisa interna, é um tumor. Estás fascinada por isso. No fundo, temos que nos proteger dessas coisas e há células, afinal, do sistema imunitário, que podem ajudar o cancro em vez de o reprimir.
É verdade, e é esse balanço que me fascina, tentar perceber como é que isso pode acontecer, porque efetivamente o sistema imunitário é superimportante para nos proteger e todos os dias nós temos pequenos tumores a formarem-se dentro de nós que nunca chegam a ser tumores detectáveis e clinicamente relevantes, porque o nosso sistema imunitário é capaz de os combater. No entanto, às vezes, o processo falha e infelizmente os tumores desenvolvem-se.
Entram em descontrole.
Entram em descontrole. Exatamente. E portanto, é fascinante para mim tentar perceber quais é que são esses mecanismos de descontrole, o que é que acontece de errado no sistema imunitário para que não consiga detetar o tumor em certas circunstâncias.
Nós já vamos falar um pouco sobre o Instituto IMM-Laço, vamos falar um pouco sobre o cancro da mama, os diferentes tipos. Mas antes, queria te perguntar uma coisa: a tua linha de investigação também tem a ver com a dieta. Estavas interessada na dieta, como é que o que a gente come influencia, é verdade, claro, todos os nossos processos fisiológicos, mas como é que a dieta pode influenciar esta resposta do sistema imunitário a combater um cancro? E concretamente, aplicaste no da mama, se não me engano, agora também estás no colo retal, se não me engano. Mas isso não serve para todos os cancros?
Sim, o papel da dieta é importante para todos os cancros, obviamente. Eu estou a estudar especificamente em cancro da mama, porque em investigação temos que começar por algum lado e escolher os nossos modelos. E efetivamente, a dieta é importante para o sistema imunitário, porque o sistema imunitário também precisa de energia, como qualquer outro tipo de células, e precisa dos nutrientes para se manter ativado e capaz de combater o tumor. E portanto, foi nesse sentido que eu tentei desenvolver este projeto, porque já se sabe que os tumores precisam de nutrientes e muitas vezes nos roubam nutrientes. Só que isso vai afetar o sistema imunitário que está a infiltrar o tumor e portanto, também é preciso estudar o lado do sistema imunitário e perceber o que as nossas células imunes precisam para efetuar as suas funções. E foi nesse âmbito que tentei desenvolver um projeto que permitisse estudar o efeito da dieta no sistema imunitário.
Tu colaboras neste momento, és investigadora do fundo IMM-Laço. Portanto, isto surgiu da Associação Laço, certo? Que foi criada em 2011, em Portugal, por Lynne Archibald e um grupo de amigas, para promover esses rastreios e detecção precoce do cancro da mama. E depois para maximizar o seu apoio a esta investigação do cancro da mama, que afinal é importantíssimo, como eu já disse, neste mês especial que se dedica a isso. É muito boa ideia estar a falar contigo. É a maior causa de morte entre as mulheres nestas idades. Esta associação Laço criou então, há cinco anos, o fundo IMM-Laço, em parceria com o IMM, onde tu investigas. E portanto, todos os anos eles atribuem dois novos projetos, financiam. Até agora, se não me engano, desde 2015, já 10 projetos, que já envolveram €380 mil. É muito importante porque 100% destes fundos vêm de campanhas de angariação de donativos e de doações. Portanto, é muito importante as empresas e as pessoas colaborarem nisto, para depois candidatares a grandes bolsas de investigação.
É isso mesmo.
É uma ferramenta importantíssima.
Importantíssima. Eu acho que as pessoas não têm muita noção da importância que tem o pequeno contributo que todos nós podemos dar. No final, pode fazer mesmo a diferença, porque estes projetos do fundo IMM-Laço são mesmo isso, são financiados pela sociedade civil, pelas empresas e por pessoas individuais. E sem estes fundos, por exemplo, o meu projeto não teria acontecido e o projeto de tantas outras pessoas não teria acontecido. E portanto, são fundamentais estas iniciativas de angariação de fundos, que nos permitem não só comprar reagentes, como equipamentos e fazer o nosso Passar ideias a resultados, que é o objetivo destes projetos. E com esses projetos e resultados, conseguimos financiamentos mais volumosos e significativos para que a investigação continue. Mas é muito importante este apoio que o fundo IMM Last dá numa parte muito embrionária dos projetos, que ainda não há qualquer tipo de resultados. Enquanto não há qualquer tipo de resultados, as grandes agências financiadoras também não financiam. Portanto, é muito importante este início.
É importante tu dizeres isso, Sofia, até porque as pessoas têm um pouquinho essa ideia, às vezes, quando veem estes peditórios na rua e não colaboram, acham que é muito pouco. Mas é realmente muito importante. Eu ao ler os teus artigos percebi a importância que isso tem, porque com estas pequenas ajudas, pequenas cada um dá, mas que acabam por ser muito, vocês conseguem alguns resultados que depois atraem os financiamentos maiores. A União Europeia, os laboratórios, dão então milhões para ajudarem nas curas contra estes cancros, estes flagelos da humanidade. É muito importante começar por esta pequena ajuda e também tem, é uma coisa mais romântica, mas também é verdade, esta particularidade de cada um de nós poder, de maneira privada, contribuir para a cura daquilo ou para a ajuda.
Exatamente.
Todos somos participantes dessa ação. Também é importante dizer que o fundo IMM Last organiza, quando é preciso, estas sessões de sensibilização. Podem inscrever-se um grupo de mínimo 10 pessoas, jovens do secundário, até adultos, empresas, o que for. É sempre uma sessão gratuita, tem uma duração cerca de uma hora e os investigadores do Instituto Molecular João Lobo Antunes podem, portanto, medicina molecular, podem também ir a empresas que os solicitem, a escolas, falar um pouquinho de qual é a importância.
Sim, e conhecer os laboratórios e a vida no instituto. Estamos sempre abertos a receber quem está interessado em conhecer melhor o nosso trabalho.
Muito importante. É preciso também dizer que vamos falar do cancro da mama, o mais comum nas mulheres. O relatório da OCDE, Health at Glance Europa 2016, deixava um alerta: um em cada nove mulheres vai ter um cancro da mama e um terço vai morrer dele. Isto é um bocado, se a gente vir assim, um pouquinho assustador, mas é uma realidade. 80% da população feminina, é porque nós até somos dos países que conseguimos reduzir esta mortalidade nos últimos anos, porque temos 80% da população feminina rastreada, o resto da Europa está entre os 50% e os 60%. Não se sabe muito sobre esta origem do cancro da mama. O que é certo é que, como já disseste, não é uma agressão externa, é uma doença dos nossos genes e daí estas células que se tornam malignas. É importante também, se calhar, pensa-se hoje em dia nestes remédios, tratamentos que são muito personalizados, são tratamentos genéticos, é para aí que se caminha?
Sim, sem dúvida. Eu penso que se caminha cada vez mais para uma medicina personalizada. Não diria propriamente tratamentos genéticos, mas é muito importante perceber cada subtipo. Cada doente é um doente, cada doente tem um tipo de cancro da mama diferente e as terapias têm que ser ajustadas a cada tipo de cancro. E cada vez mais, também a imunoterapia, puxando um pouquinho para aquilo que eu estudo, a imunoterapia, que é a capacidade de usarmos o nosso próprio sistema imunitário para combater o tumor, cada vez mais está a ser manipulada geneticamente, de forma que cada doente possa ter uma terapia personalizada de acordo com o seu tumor e com as características moleculares do seu tumor.
Sofia, esta imunoterapia tem feito uma caminhada cheia de boas surpresas no cancro do pulmão, por exemplo, no melanoma. Por que não no cancro da mama?
O cancro da mama é habitualmente menos mutado, portanto, tem menos mutações genéticas. E o sistema imunitário é muito bom a detetar coisas que são externas, são agressões do exterior. E um tumor que é altamente mutado ao sistema imunitário parece externo, parece que não é do próprio organismo.
Exato.
Um tumor que é menos mutado, que tem menos alterações genéticas, o sistema imunitário não o reconhece tão bem, porque acha que é o próprio organismo.
Exato.
E portanto, não tem tanta eficácia. No entanto, a imunoterapia também já começa a ser utilizada em cancros menos mutados e o cancro da mama é um deles. Simplesmente não é em todos os subtipos ainda.
Exatamente.
E por isso é preciso continuar a investigar.
E torná-lo mais abrangente.
Mais eficaz.
Sofia, nós já voltamos, não desligues, continua conosco. Até já.
Até já.
Estamos a conversar com Sofia Mensourab, investigadora do fundo IMM Last, que a propósito deste mês internacional do cancro da mama, nos fala dos avanços na busca da cura do cancro da mama e do impacto desta doença em Portugal. Estávamos a falar, tu falaste agora muito bem, Sofia, a dizer que é uma coisa que se tenta resolver, porque estas terapias servem muito bem às vezes nos melanomas, cancro de pulmão, cancro da mama, por ser mutado. É uma coisa que as pessoas não têm noção, mas há muitos tipos de cancro da mama. Eu estou só aqui a contabilizar, vi de repente 10. O cancro da mama precoce, o invasivo, dentro do invasivo, o ductal invasivo, lobular invasivo, doença de Paget do mamilo, inflamatório da mama, o triplo negativo, que se não me engano, tu centraste muito também neste, porque é talvez o mais agressivo. O carcinoma ductal in situ, o medular, o mucinoso, o filóide maligno, há uma série de cancros da mama, uns melhores e outros piores, mas em geral há uns muito agressivos cuja terapia é muito raro conseguirem alguns resultados e é por isso também que vocês se aplicam a estudar isto. Estudar estas doenças em humanos, Sofia, não é complicado. Só que não se conseguem fazer as manipulações que vocês precisam, daí estudar muito em células in vitro, em placas ou em modelos animais, mas depois dá o caminho de anos até se chegar a uma terapia, certo?
É verdade. A maior parte da investigação, pelo menos a investigação que eu faço, é maioritariamente em modelos animais, como modelos de ratinhos e em placa, exatamente porque não conseguimos fazer as manipulações necessárias em humano. Não conseguimos manipular as dietas dos humanos assim e portanto, tem que ser tudo controlado. Claro que depois estes resultados têm que ser, de alguma forma, testados em pessoas. E por isso a investigação demora tanto tempo até haver um resultado palpável, mas não deixa de ser necessário este início de investigação em modelos animais e em placa, porque sem isto não conseguimos perceber o que é efetivamente entusiasmante e o que é que poderá vir a ter efeito e aquilo que não poderá. Portanto, há milhares de projetos em ratinho que uns dão efeito, outros não. E portanto, é aqui que conseguimos perceber o que é que tem potencial para avançar e o que é que não tem.
Muito bem. Ia te perguntar uma coisa. Os linfócitos T, no fundo, são estas células do sistema imunitário, que fazem parte do nosso sangue. São glóbulos brancos, se não me engano, que têm a maior capacidade de matar estas células tumorais. Mas o tumor, no entanto, é capaz de os tornar ineficazes. Por isso, agora usam-se os chamados bloqueadores, mas isso não está então tudo aberto? Não é possível? Isto não resolve tudo?
Não, não resolve tudo. O que acontece é que o cancro faz com que os linfócitos T fiquem meio que adormecidos, ficam anérgicos, é o termo que nós usamos. E esses bloqueadores fazem com que eles fiquem efetivamente mais ativados. Mas se eles estão num ambiente tumoral que é inóspito, porque não tem nutrientes, porque não tem oxigênio, porque não tem irrigação sanguínea adequada, eles não vão conseguir efetuar a sua função a 100%. E é nesse sentido que é importante combinar esses bloqueadores, que é a imunoterapia mais convencional, com outras estratégias. E daí eu também estar a tentar combinar imunoterapia com o efeito da dieta, porque quero alterar o ambiente nutricional a que o linfócito T está exposto no microambiente tumoral, para que haja uma sinergia entre essa ativação que vem da imunoterapia com um nutriente que os linfócitos precisam para efetuar a sua ação antitumoral.
Daí também o teu cuidado com essa investigação na dieta, que tu estás convencida que pode melhorar o desempenho do sistema imunitário, a resposta, por exemplo, aos tumores da mama. E tu descobriste resultados preliminares no teu laboratório, que se não me engano já foram confirmados, que a eficácia destes bloqueadores é muito pouca para combater o tumor, mas a eficácia melhora muito quando essa dieta é suplementada com um aminoácido, o chamado metionina.
É metionina, exatamente.
A metionina é um aminoácido que tu descobriste que se estiver na dieta das pessoas, concretamente experimentaste com ratinhos, consegue ativar e combater melhor a formação e o crescimento dos tumores, é isso?
Ok, o que eu descobri é exatamente isso, que quando eu suplemento este aminoácido na comida dos ratinhos e dou ao mesmo tempo a imunoterapia, os tumores crescem menos. O que eu quero salientar, e é muito importante que esta mensagem passe, é que eu não sei se isto acontece em pessoas, não foi testado. E portanto, eu não posso de jeito nenhum afirmar isto.
Extrapolar.
Nem extrapolar, nem recomendar que alguém tome este tipo de aminoácidos para aumentar a eficácia de qualquer tipo de terapia.
Já agora, isso vem de onde? Esse aminoácido está, por exemplo, presente em quê? É um julgamento químico ou está numa fruta ou o quê?
Não, é possível tomar suplementos, mas também está presente em frutos secos, em laticínios, em ovos.
Muito bem. Então como é que se faz isso? Agora passaste os ratinhos, resultou. Percebe-se que com esse único nutriente, essa molécula, essa metionina, no efeito da imunoterapia, em ratinhos funcionou. Ratinhos injetados ou a sofrer de cancro da mama, resultou. Como é que agora se passa para o ser humano?
Antes de se passar para o ser humano, ainda há um longo caminho, porque eu usei um único tipo de modelo de cancro da mama, que é um modelo de cancro da mama triplo negativo.
Que é muito agressivo.
Que é muito agressivo, exatamente. Mas é um modelo, portanto, eu primeiro tenho que tentar perceber se isto também é verdade noutros tipos de modelos, ou seja, com outras células de cancro da mama um bocadinho diferentes. Para perceber se os resultados são extrapoláveis para cancro da mama no geral ou não. E só aí é que então fará sentido, de alguma forma, tentar testar em humanos. Mas eu diria que para que isto alguma vez passe para humanos, não poderá ser simplesmente uma suplementação alimentar. E por quê? Porque efetivamente até se sabe que este aminoácido pode ter o papel contrário, porque os tumores, também eles gostam da metionina e também eles podem crescer mais com este aminoácido.
Olha lá.
E portanto, é muito arriscado simplesmente dar este aminoácido. Temos que desenvolver estratégias para que consigamos dirigir este aminoácido especificamente aos linfócitos T, para que eles consigam incorporá-lo e assim fazer as suas funções antitumurais.
Portanto, o que tu estás a dizer é: este aminoácido é uma substância, digamos, uma molécula, que se tu deres ao próprio tumor, ele gosta e desenvolve-se mais. E se tu deres aos linfócitos T, que é as nossas células que controlam isso e controlam os crescimentos, que nos protegem, são do nosso sistema imunitário, eles funcionam como bloqueiam, portanto, fazem o seu papel um bocadinho melhor. No fundo é quem ganha? O tumor desenvolve-se mais ou o outro consegue?
É por isso mesmo é que é muito arriscado dizer que se pode dar assim
Indiscriminadamente.
Indiscriminadamente, porque depende muito do tipo de cancro. Cada tipo de cancro vai ter uma resposta diferente a este aminoácido. Há tumores que efetivamente gostam muito dele, há outros que não tanto. E portanto, é preciso perceber quais é que gostam mais, quais é que gostam menos, para conseguir assim estratificar em quais será mais ou menos arriscado fazer esse tipo de tratamento. E eventualmente, desenvolver uma estratégia para que este aminoácido seja então dirigido unicamente aos linfócitos T, ao sistema imunitário.
Exatamente. Para cumprirem a sua missão e bloquearem o aumento.
Exatamente. E minimizar o efeito que a metionina poderá ter no próprio tumor.
Esta metionina que tu falaste, esta molécula, tem propriedades antiestresse oxidativo nas células, portanto, combate o surgimento de radicais livres que favorecem os tumores. Portanto, é uma maior eficácia nesta imunoterapia muito importante. Os resultados do trabalho foram muito promissores. Depois de dois anos de estudo no laboratório com ratinhos, sabe-se agora que a resposta é sim. Portanto, se combinares a imunoterapia com a metionina, os tumores crescem menos do que os tratados apenas com imunoterapia. Muito bem.
Crescem menos porque o sistema imunitário está mais ativado.
Andou-se muito tempo, Sofia, no rastreio e detecção precoce do cancro da mama e até nos tratamentos, mas para cerca de 30% de todos os casos, independentemente do momento da sua detecção, continuam a não haver terapêuticas eficazes. É isso que vocês continuam, portanto, a lutar, certo?
É verdade, é isso que nos motiva todos os dias.
A questão do cancro da mama, no fundo, é uma coisa que tem que ser sempre vigiada, certo? Portanto, queria que fizesses agora aqui um pequeno apelo àqueles sinais de suspeição. As mulheres devem ter muito cuidado com isso, a detecção de nódulos, as alterações cutâneas. Com o que é que a pessoa tem que ter mais cuidado?
Sim, acho que é muito importante fazer o autoexame da mama. As mulheres têm que estar atentas a qualquer alteração que tenham, especificamente nódulos e especialmente não só na mama, mas na axila, que também possui tecido mamário. Muitas vezes as pessoas não têm essa noção. Alterações no tamanho, no formato, vermelhidão, comichão, tudo isto são sinais de alerta.
Pequenos corrimentos também pode haver.
Exatamente. Pele gretada ou mamilo gretado, tudo isso são sinais de alerta.
Portanto, deve-se recorrer logo então ao médico.
Ao médico, exatamente. Além disso, obviamente, as consultas ginecológicas que devem ser-
De rotina.
De rotina, anuais, para que sejam acompanhadas.
Que seja despistado se há algum sinal importante.
E se há histórico familiar, também, que é muito importante.
Isso é importante porque uma das causas dos cancros é, pelo menos 5 a 10%, acho que é genético.
Exatamente.
A origem é genética.
E, portanto, pode-se evitar em alguns casos. Temos o caso muito conhecido da Angelina Jolie, que fez mastectomia preventiva.
Ela optou por tirar mesmo a mama.
Porque tinha a mutação.
Histórico na família.
Exatamente. Tinha historial clínico na família e, portanto, optou por fazer mastectomia preventiva, tirar o peito preventivamente.
Ao longo dos anos, os elementos como as hormonas, a alimentação, o sedentarismo, a obesidade, têm sido associados ao cancro da mama. Mas, Sofia, não é bem possível dizer que seja uma causa direta, porque a ciência não comprova nada isso, não é não?
Não. Ainda não sabemos efetivamente qual a causa. Não podemos chamá-los de causa. Sabemos que há uma associação, mas não conseguimos ainda estabelecer um efeito de causalidade.
Muito bem. Este vosso estudo, uma vez chegando a estes resultados, imagina que consegues avançar no teu trabalho e consegues, pelo menos nesse tipo de cancro mais agressivo, esse triplo, as coisas resultam bem no ratinho. E depois, quantos anos é que a pessoa pode esperar? Quantos anos é que costuma ser? Como é que tu dirias? Claro, estamos a falar do futuro e a futurologia não é nada conosco, mas como é que é? Há um prazo, há uma janela? Tens noção de quantos anos até demora? Pessoas que fizeram pesquisas semelhantes ou mesmo noutros cancros e chegaram a um certo resultado. Quanto tempo é que uma coisa dessas pode demorar até chegar a um resultado de uma terapia eficaz, portanto, para toda a gente?
Eu diria que em média entre 10 a 20 anos. Menos do que isso é raro. Temos agora o caso do Covid, que acelera tudo, mas entre 10 e 20 anos eu diria que é o mais expectável.
10 a 20 anos?
A 20 anos. É muito tempo, mas é importante.
Mas é o normal, certo?
É o normal, exatamente.
Agora, com este tempo do Covid e dos confinamentos, como é que é, Sofia? Tens trabalhado mais, tens trabalhado menos? Já estão nos laboratórios, voltaram aos laboratórios, já estão conseguindo chegar mais?
Sim, já estamos. Algumas coisas são um pouco mais lentas, como a entrega de alguns reagentes e algumas coisas, mas no geral, não posso queixar, a vida tem sido bastante normal. Não tem sido altamente afetada por este confinamento. Quer dizer, no confinamento, obviamente, mas já estamos no nível de normalidade desde maio e, claro, com as devidas precauções e distanciamento, mas conseguimos fazer experiências e portanto, tem sido relativamente normal. O que eu disse de acelerar com o Covid, é acelerar, no caso, a vacina do Covid, e não o nosso trabalho.
Exato. Até porque o IMM teve um papel importantíssimo, nós tivemos aqui a vossa diretora, foi nossa convidada também, muito importante, na altura em que foi preciso a comunidade científica, nisso foi exemplar, para não depender tanto dos reagentes, conseguir o tal teste.
Estamos muita gente.
Isso foi importante, porque as sinergias, cá está, entre os vários cientistas de todo o país, de todos os institutos, foi muito importante para conseguir suplantar isso, ou estaríamos ainda à espera de reagentes e de testes da China ou de onde quer que fosse, que iriam sempre demorar muito mais. Então reconverteram-se um bocado para trabalhar. Também tiveste nesta linha ou não?
Também estive nessa linha, estive a testar, a fazer testes de diagnóstico. Também estive a recolher linfócitos de doentes, portanto estive em várias linhas da frente a tentar combater esta pandemia da maneira que nós sabemos, não é no terreno como os médicos, mas a fazer diagnósticos e a fazer um biobanco de amostras para podermos estudar esta doença.
Muito bem. Ainda dentro do cancro da mama, do que tu estudas, do teu trabalho, do teu tema de investigação, consegues hoje perceber porque é que há mulheres em que o tumor metastiza e outras que não?
Ainda não sabemos ao certo o porquê. Há vários estudos financiados pelo fundo IMML, no Instituto de Medicina Molecular, que estão a tentar perceber quais é que são as diferenças dos cancros que metastizam daqueles que não metastizam, mas ainda não sabemos. Ainda estamos um pouco longe.
Porque é que há mulheres que desenvolvem tumores mais agressivos que outras? O que é que pode estar aqui em jogo? No fundo, a ideia será um dia, se calhar, identificar um teste genético, que dê o tal tratamento da medicina do futuro, que é o tratamento personalizado. Mas não há pistas ainda.
Ainda não há pistas. Do que sei, ainda não.
É um trabalho em que é preciso ter muita paciência, porque os resultados nunca aparecem logo. A investigação é em ciência e é medicina em geral, não é?
É. É preciso ser muito perseverante, porque não temos resultados positivos todos os dias. Muitas vezes as nossas experiências falham, as nossas hipóteses estão erradas, mas temos que ser resilientes e perceber que são muitas vezes os resultados negativos que nos fazem pôr hipóteses que nós nunca pusemos nem ponderamos antes e isso faz-nos avançar também. É preciso ser muito paciente e resiliente, sem dúvida.
Diz-me outra coisa, Sofia, porque é que te fixaste concretamente no cancro da mama? O impacto da doença em Portugal é realmente muito grande?
É realmente muito grande. As mulheres são muito afetadas por cancro da mama. Ainda não sabemos muita coisa sobre o cancro da mama e, portanto, a investigação em cancro da mama é fundamental. Claro que outros tipos de cancro também, e também estou num projeto em cancro colorretal, mas cancro da mama é mesmo um tipo de doença em que se sabe muito pouco e que ainda se pode fazer muito mais com a investigação.
Há uns cancros que ultimamente, lembro-me de ter visto umas notícias sobre isso, têm feito grandes avanços, a começar pelo pulmão, por exemplo, é um deles. Têm tido uns avanços grandes recentemente, nos últimos meses. No cancro da mama não tem havido grandes novidades a nível internacional, no tratamento?
Não, não tem havido assim grandes avanços. Houve a imunoterapia o ano passado, que foi aprovada para cancro da mama pela primeira vez, para cancros triplo negativos metastáticos, e isso foi um pouco uma lufada de ar fresco para estas doentes, mas ainda assim, ainda é uma percentagem pequena destas doentes que respondem e portanto ainda há muito por onde melhorar. Foi bom, foi um avanço, mas ainda é pequeno, queremos mais e temos que perceber melhor como é que a imunoterapia pode ser ainda mais eficaz.
A imunoterapia é também uma solução para muitos outros cancros, em geral, para os cancros todos ou não?
Sim, como eu disse, cancros que estejam altamente mutados, seja ele de qualquer tipo, podem ser tratados com imunoterapia.
Altamente mutados, neste caso, quer dizer o quê, Sofia? Quer dizer com metástases, quer dizer espalhados, quer dizer o quê?
Não, quer dizer que o próprio tumor tem muitas alterações genéticas. O tecido tumoral é muito diferente do tecido de origem. Não precisa de estar espalhado, não precisa de estar metastizado, pode estar localizado. E quanto mais localizado, obviamente que mais eficaz a terapia será. Mas é isso. É basicamente ter alterações no seu ADN e o seu material genético estar modificado. Isto é mais comum em cancro do pulmão e em melanoma, porque são tipos de cancro que são muitas vezes causados por fatores e agressões externas. O melanoma pela radiação ultravioleta, que é um agente mutagênico, que nós sabemos que não devemos apanhar escaldões e estar expostos. Porque é um agente mutagênico, que vai causar cancro e o melanoma é um desses tipos de cancro que é altamente mutado. O cancro do pulmão causado pelo tabaco também é outro tipo de cancro altamente mutado, porque está em contato com substâncias carcinogênicas que induzem a mutação do ADN das células. É isso que significa ser altamente mutado.
Muito bem. Tu trabalhas, em geral, mais sozinha, Sofia, ou estás numa equipa, como estiveste, por exemplo, durante o doutoramento?
Sim, estou inserida numa equipa no Instituto de Medicina Molecular, chefiada pelo professor Bruno Silva Santos.
Aliás, estavas no laboratório dele no teu doutoramento, certo? Fizeste com ele.
Exatamente.
Muito bem. Continua então esse trabalho. É assim, Sofia, nós infelizmente na rádio o tempo passa muito rápido, nós não temos tempo para mais, mas queria agradecer-te a tua disponibilidade em estar connosco no Observador. Bem-haja, Sofia Mensurado. E oxalá continues a ter bons resultados, tu e a tua equipa na investigação, os teus colegas também no IMM, para combater eficazmente este flagelo ainda tão comum e tão brutal como é o cancro da mama.
Muito obrigada, João.
Mantenham-se seguros.
Obrigada.
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