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Vamos então ver por onde andam os candidatos e como reagem, sobretudo aos números das últimas sondagens. Miguel Viterbo Dias, bom dia. Acompanhas então a caravana de Marques Mendes. Como é que o candidato e a sua equipa receberam o quinto lugar em que a Tracking Poll da TVI e CNN o coloca, números de ontem ao fim do dia?

Com sentimentos mistos, diria eu. A reação pública em ON foi subtil, porque foi feita apenas ontem no discurso num jantar na Guarda. Luís Marques Mendes, entretanto, ainda não respondeu a perguntas de jornalistas, deverá fazê-lo ao final da manhã, na iniciativa de campanha que tem agendada. Mas ainda assim, e também por aquilo que o Observador foi percebendo, esta Tracking Poll não liga todos os alarmes, ativa apenas alguns, até porque nesta fase inicial de campanha, uma sondagem que coloca o candidato apoiado pela AD numa situação menos favorável pode ser bom para motivar as fileiras e para cerrar as fileiras em torno da candidatura de Luís Marques Mendes. Ainda assim, ontem nesse discurso na Guarda, foi perceptível que Luís Marques Mendes queria preencher todos os bullet points do que os adversários e as sondagens têm dito. Por exemplo, ao dizer desde logo, e esse tem sido um discurso desde o dia um desta campanha, a questão do tal voto útil à direita, que entrou de rompante neste arranque de campanha eleitoral e que por norma surge só numa fase mais adiantada destes dias oficiais de campanha. Mas depois também ao ir a algumas coisas que as sondagens têm apontado que são preferências dos eleitores, nomeadamente o quererem um presidente mais interventivo. André Ventura tem feito muita gala disso, diz que pede até às pessoas para não votarem nele se quiserem um presidente que não faça nada. Ontem Luís Marques Mendes fez questão de vincar também que será um presidente interventivo e que usará toda a amplitude dos poderes presidenciais para influenciar a ação governativa. Deixou também uma bicada ligeira a João Cotrim Figueiredo, que nos últimos dias, e o Pedro Jorge Castro tem feito menção disso, tem apostado muito em lares de idosos, na tentativa de buscar o olho aos pensionistas, que é um eleitorado que não consegue conquistar tanto como os jovens. E também ontem Luís Marques Mendes fez questão de vincar que aumentar pensões, reforçar as condições dos pensionistas não põe em causa as contas públicas e deve ser algo a ser feito. E depois, algo que tem preocupado os portugueses nos últimos anos, que é a estabilidade governativa, ao dizer também que é preciso um presidente que consiga assegurar essa estabilidade, que o país não pode estar em eleições de ano a ano ou de dois em dois anos. E por isso há uma preocupação em responder àquilo que as sondagens vão indicando que são as principais preocupações ou os principais caminhos que os eleitores querem percorrer nos próximos cinco anos, ainda que, lá está, dentro da campanha de Marques Mendes, não seja para já um sinal de alerta exagerado, porque com 12 dias pela frente, 11 dias pela frente, até pode ser bom para mostrar à AD e à máquina do PSD e do CDS que é preciso mesmo ir pra estrada para garantir Marques Mendes na segunda volta e depois de garantir esse objetivo mínimo, logo se pensará em alargar a base eleitoral para conquistar as eleições.

Mas aqui são os adversários de direita que estão na mira de Marques Mendes. António José Seguro não aparece muito nesse radar, não?

Sim, para já não. Até é curioso porque ontem num almoço, Sebastião Bugalho, que é um dos apoiantes de Marques Mendes, membro da comissão política da candidatura, foi muito assertivo nas críticas a João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo. À mesma hora, sensivelmente, António José Seguro estava a falar dos interesses que ficam à porta na candidatura de Seguro, mas na campanha de Marques Mendes, nem uma menção ao candidato apoiado pelo PS. O foco é Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim Figueiredo, ligeiramente também André Ventura, embora aí seja mais difícil ir roubar votos ao Chega, porque é um eleitorado mais fiel a Ventura. Mas ontem, Sebastião Bugalho, em particular, muito assertivo na crítica a João Cotrim Figueiredo, a dizer que o candidato do Iniciativa Liberal não tem nenhuma iniciativa política que tenha mudado a vida dos portugueses e também a Henrique Gouveia e Melo, a dizer que é contra todas as reformas. Lá está esse contraponto de que se querem um presidente interventivo, não pode ser Gouveia e Melo, porque sendo contra todas as reformas, não quer que o país avance. E por isso têm sido esses os dois focos de Marques Mendes e da candidatura neste arranque de campanha. Mas veremos também se com os números mais positivos de António José Seguro, nomeadamente nesta Tracking Poll da CNN, se não começa a entrar também no alvo, até porque António José Seguro consegue entrar com alguma facilidade no eleitorado de centro-direita.

E Miguel, qual é a agenda de Marques Mendes para hoje? É uma agenda um pouco condicionada também pelo debate logo à noite na RTP entre os oito candidatos.

Sim, isso será transversal mais ou menos a todos. Hoje o dia é mais ligeiro nas ações de rua para prepararem esse debate. É um debate longo, de duas horas e meia, em que cada um, ainda assim, tem um espaço de intervenção curto e, portanto, exige alguma preparação nas mensagens e nos soundbites que se querem transmitir. Luís Marques Mendes tem apenas uma iniciativa de campanha, às 11h30 no Mercado Municipal de Torres Vedras. Há aqui este regresso à região de Lisboa, à área Oeste, ainda assim. Um dos dois que estão garantidos nesta campanha, porque Luís Marques Mendes terá que voltar a Lisboa para o tal Conselho de Estado que Marcelo Rebelo de Sousa marcou, mas hoje estará apenas em Torres Vedras, no Mercado Municipal, onde deverá reagir de viva voz e de forma mais direta a estes números das sondagens que vêm baralhar ainda mais estas contas.

E vamos passar para o João Gama, que está a acompanhar a caravana de António José Seguro. António José Seguro que insiste, João, na teoria dos ovos e dos cestos, mas introduziu agora uma ligeira alteração

Um novo ovo. António José Seguro tem vincado muito a mensagem no apelo ao voto útil. Fá-lo quer ao voto à esquerda ou também agigantando o fantasma do Chega. Foi também uma estratégia já utilizada por vários líderes do Partido Socialista em campanhas legislativas, mas a diferença que António José Seguro introduziu nesta segunda-feira de campanha é o risco do PSD poder ser contaminado pelo Chega e apresenta alguns exemplos disso. Ontem, em Portimão, falou do medo de uma revisão constitucional feita apenas à direita. António José Seguro diz que confia no PSD enquanto partido fundador da democracia, mas a introdução, o aparecimento desse novo partido, o Chega, faz com que as contas sejam diferentes e a urgência para ter um presidente que possa equilibrar a balança política no Palácio de Belém ser uma necessidade urgente do país. É assim que António José Seguro tem vincado a necessidade dos eleitores procurarem o candidato apoiado pelo Partido Socialista, não apenas nesse voto útil à esquerda, mas também com esse fantasma do que o Chega pode ser e que pode influenciar ainda mais a governação de Luís Montenegro.

João, é incontornável irmos também à tracking poll da TVI e CNN, que coloca Seguro na liderança, embora no empate técnico com outros candidatos. Até que ponto é que estes números são animadores para o candidato e para a equipa?

Vêm justificar, de alguma forma, os argumentos de António José Seguro, que tem insistido que tem condições para passar à segunda volta, que tem que estar na segunda volta para representar o eleitorado de centro-esquerda e de esquerda. Por isso é que insiste várias vezes que um voto num dos candidatos à esquerda, como António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto, acaba por ser meio voto nos candidatos da direita. E esta sondagem, que o vem colocar em empate técnico, mas em primeiro lugar, justifica um bocadinho esse otimismo que António José Seguro tem tentado imprimir nesta campanha eleitoral. Ontem não falou diretamente sobre a sondagem, fez estes apelos ao voto útil no comício que aconteceu minutos depois de ser conhecida essa tracking poll da CNN Portugal, mas não o mencionou diretamente e insistiu apenas que tem condições para passar à segunda volta e que o país precisa mesmo que esteja na segunda volta, agigantando então esse fantasma do Chega e de como é que o Chega pode interferir nesta campanha eleitoral. António José Seguro, ao contrário do que tem feito Luís Marques Mendes, o Miguel já aqui falou dessas críticas implícitas que foram deixadas ao candidato pelo PSD ontem no almoço na Vidigueira, mas sem ser umas críticas implícitas, quer a Marques Mendes, quer a Vítor Melo, quando disse que Portugal não pode ter um presidente da República a aprender no cargo. Tem sido muito contundente. Aliás, ontem perguntamos-lhe sobre a entrada de Luís Montenegro na campanha eleitoral, quando estivemos em Loulé, e António José Seguro foi muito contundente na crítica. Disse que tem que ter muito cuidado com o que diz sobre o primeiro-ministro, até porque o espera receber no Palácio de Belém. Por isso, críticas abertas aos candidatos ainda não têm existido, assim como reações muito concretas a sondagens. António José Seguro tem simplesmente apontado para uma segunda volta e estes números vêm justificar que está na corrida tanto quanto os outros candidatos.

Hoje temos debate na RTP, é dia de uma agenda menos pesada, certamente, para os candidatos. É o caso também de António José Seguro?

Dois pontos na agenda. Nós estamos agora a sair de Portimão, caminho a Grândola, onde António José Seguro vai ter uma arruada perto das 11h. Depois sobe para Setúbal, às 15h temos um novo contacto com a população, mais visitas por parte do candidato apoiado pelo Partido Socialista, mas o dia termina aí. Depois, preparação para debate mais logo na RTP.

Olhemos agora para o candidato João Cotrim Figueiredo. Pedro Jorge Castro, tens acompanhado esta campanha do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal. Está a conseguir manter os ataques e as críticas a Marques Mendes sem hostilizar um eleitorado que já percebemos que é um eleitorado pouco fiel, que é o da AD, e de que Cotrim Figueiredo precisará necessariamente se quiser passar a uma segunda volta.

Sim, é esse equilíbrio em que ele tem tentado manter-se, de facto. É o segundo candidato que entra melhor nesse eleitorado da AD. Sem esse eleitorado, não tem hipótese nenhuma. Aliás, é o facto desse eleitorado não se sentir suficientemente cativado por Marques Mendes que lhe está a dar estas hipóteses. Ele tem perfeita noção disso e, portanto, as baterias dele estão viradas contra Marques Mendes, mas vai fazendo isso, aproveitando todas as oportunidades, tendo esse cuidado de não hostilizar Luís Montenegro e os eleitores que sejam adeptos do governo. Na forma como se refere a ele, por exemplo, nem sequer colocou em causa a legitimidade de Luís Montenegro para entrar anteontem na campanha Chama-lhe peso pesado. Aproveita tudo isso para mostrar que isso só acontece porque Marques Mendes é um candidato frágil, que não mobiliza todo o eleitorado da AD. Até chegou a sugerir que Luís Montenegro se calhar estaria arrependido de ter apostado em Marques Mendes, precisamente por não conseguir cativar todo o eleitorado que votou na AD nas últimas eleições. E ele vai tentando manter este equilíbrio.

Que é difícil, porque ele até invocou também já Passos Coelho.

Exatamente.

E isso pode ser uma faca de dois gumes quando se joga com o eleitorado da AD, porque pode ser visto também como uma crítica a Luís Montenegro.

Na verdade, se formos ver, ele fala mais de Passos Coelho do que Marques Mendes. Já vimos Marques Mendes invocar o legado de Passos Coelho ou a defender esses tempos. Quer dizer, diz o essencial, mas não se atravessa, não anda com Passos Coelho na boca, nem na lapela. Enquanto João Cotrim Figueiredo não tem problema nenhum em assumir o orgulho por esse legado. Está convicto de que essa franja do PSD, essa façam de apoiantes da AD que se revê no legado de Passos Coelho, que sabe quão difíceis foram aqueles tempos e que admira a coragem de Passos Coelho, é a palavra que ele usa, a coragem que Pedro Passos Coelho teve naqueles anos da troika, em que ganhou as eleições, embora depois não o tenha conduzido de novo ao poder. Ele não tem problemas nenhuns com isso e acha que isso o fará capitalizar votos frente à tibieza de Marques Mendes em defender legados. Também invoca Sá Carneiro e vai ser muito curioso ver hoje a forma como Sá Carneiro, por via deste artigo de Cavaco Silva, vai continuar a dominar a campanha. Isto já tinha começado ontem com Marques Mendes, quando ele veio dizer que Sá Carneiro também tinha feito campanha nas presidenciais e que tinha morrido precisamente num acidente.

Quando estava a participar na campanha presidencial.

Mas hoje vamos continuar, vamos ouvir os candidatos todos a reagir ao artigo de Cavaco sobre o Sá Carneiro. É uma pergunta inevitável e o tema vai continuar seguramente aqui na ordem do dia. Há outra nuance aqui que tem a ver com os ataques de Sebastião Bugalho, que é, Marques Mendes para não se desgastar muito, colocou Sebastião Bugalho, que é cabeça de lista da AD para o Parlamento Europeu e colega de João Cotrim Figueiredo em Bruxelas, colocou-o como franco-atirador a tentar mostrar que João Cotrim Figueiredo não tem nenhum trabalho reconhecível prático, comparando-o até com Mariana Mortágua. Ontem João Cotrim Figueiredo tentou não aprofundar estes ataques e não entrar aqui numa grande discussão com Sebastião Bugalho.

Num quase grande troco.

Também porque já não está a discutir com um candidato.

Certo. E isto tem essa buerocracia também.

Exatamente.

Pedro, olhando rapidamente aqui para aquilo que foi a campanha de Cotrim Figueiredo ontem no terreno. Ontem começou no lar de idosos, acabou a jogar à bola com os jovens, hoje vai à Liga de Combatentes. Que eleitorado é este? Parece que quer tocar aqui nos extremos etários.

A maior parte dos simpatizantes do João Cotrim Figueiredo não vai perceber isto que eu vou dizer, mas eu vou tentar explicar. Ele ontem teve um dia à Benjamin Button, que é um filme que começa velhinho. O protagonista nasce velhinho e vai ficando mais novo à medida que o tempo passa. Começou com os velhinhos, de facto, e acabou com a malta nova num jogo de futebol. Mas o foco dele, a preocupação dele são os velhinhos. É o eleitorado que as sondagens lhe dizem que ele não consegue cativar, pelo menos em comparação com os outros candidatos e a preocupação dele, ele sabe que a margem de crescimento dele está aí e é fundamental ele mostrar essa preocupação com os idosos, aparecer em imagens na televisão a dar beijinhos às senhoras que estão nos centros de dia e tudo passa por aí. Hoje, é muito curioso, não havia nenhuma ação de campanha para hoje, não estava previsto no calendário inicial. Supostamente o dia era todo para preparar o debate, mas tendo em conta, por um lado, a necessidade de continuar a ter presença na agenda.

A aparecer nas televisões.

Exatamente. E então depois no dia a seguir irá aparecer a tracking poll, mas isto até foi decidido antes da tracking poll. Encontraram então esta ação de campanha, Liga dos Combatentes, que por acaso cruza aqui dois eleitorados. Mais uma vez, fala para um eleitorado mais idoso e até pode dar ali um toque no eleitorado do antigo CDS e no eleitorado do Chega também, que se calhar tem sido muito arrebatado agora por André Ventura. É para estas pessoas que João Cotrim Figueiredo está a olhar, sem deixar obviamente de falar para os jovens. Isso já é uma marca do Cotrim Figueiredo.

As redes sociais também cumprem parte desses recursos para os jovens.

Aos jovens ele chega de outra forma e não tem de se preocupar. Para terminar, só contar aqui como é que ficou o jogo de ontem. Foi um jogo de futebol que foi muito importante. Marcou dois gols, um com a sondagem e depois demorou a arrancar, e depois tinha que falar aos jornalistas. Simularam ali uma pequena peladinha em que ficou ele de um lado, João Cotrim Figueiredo de um lado e o seu diretor de campanha, Bernardo Blanco, do outro, isto com umas dezenas de apoiantes. Lá arranjaram um pênalti e ele atirou-se para o chão para ele poder marcar um pênalti e festejar como se tivesse marcado outro gol. Foi isso que aconteceu no jogo de futebol de ontem.

Ainda bem que as eleições são mais transparentes e sem esse tipo de ameaças.

Não foi ao VAR.

Muito bem, Pedro Jorge de Castro aqui trazendo-nos este final de reta campanha. Contam também com o João Gama e com o Miguel Viterbo Dias. Amanhã voltaremos com a rota dos candidatos.